A Maior Felicidade



Capítulo 27



A maior felicidade




Draco estava há quase uma semana no Orfanato da Ordem e já descobrira três coisas importantes sobre a administradora do lugar. Primeiro que, apesar do nome, Sarah Laurent era inglesa, mas fora criada no Brasil, daí o sotaque irritante. Segundo, ela era, Deus sabe como e o que quer que isso significasse, amiga do Snape, o que o impediu de reclamar dela para o ex-professor nas duas vezes em que o vira. E, terceiro, ele a odiava! É claro, as coisas não precisavam ser colocadas exatamente nessa ordem.

Tudo o que ele conseguia pensar, era que quando colocasse as mãos em cima do desgraçado do Potter novamente, o quatro olhos ia se arrepender de ter nascido e de tê-lo deixado ali... com ELA. O lugar era o inferno e a insuportável Srta. Laurent, sem dúvida, era o próprio carcereiro do diabo. Ela nunca se alterava e nunca deixava de sorrir, mesmo quando falava barbaridades do tipo “seus aposentos devem ser cuidados pelo senhor, Sr. Malfoy” ou ria como se ele estivesse maluco e respondia “não, não, os elfos não são pagos para esse tido de serviço”. Além de tudo, Potter tinha mentido para ele. Sarah não era QUASE trouxa, ela ERA trouxa. Certo, ela podia fazer mágicas, mas... a “Madame Perfeição” dizia que não se sentia “confortável” fazendo as coisas como qualquer bruxo com o mínimo de cérebro. Pela barbas de Mérlin, pensou sentindo novamente a irritação subir quase sem controle, como alguém pode não se sentir confortável em fazer magia? Qualquer trouxa daria o braço esquerdo e o direito para poder fazer mágica, mas não... a Srta. Laurent não se sentia “confortável”... Vaca estúpida! Ela o obrigara a fazer a própria cama, lavar a própria louça depois do jantar e o repreendeu na frente de todo mundo quando ele falou com um elfo... disse que ele não devia dar ordens ou gritar...

A paciência de Draco estava por um fio. Se ele estivesse de posse da própria varinha certamente já a teria azarado. Bufou de novo vendo o ar condensar a sua frente. Estava sentado em um banco que ladeava o pátio interno da casa, e a última tarde daquela droga de ano o brindava com um frio úmido que parecia ser a única coisa capaz de controlar a raiva incandescente que ele sentia. Onde diabos viera se meter?

Ouviu uns gritinhos infantis correndo felizes pelos corredores internos do prédio e cerrou os punhos. Além DELA, o lugar ainda era cheio de crianças gritonas e remelentas que pareciam considerá-lo ao mesmo tempo uma atração de circo e uma ameaça. Todos pareciam querer vê-lo mais de perto, mas quando ele os surpreendia fazendo isso, os pestinhas saíam correndo. Os mais novos gritavam alucinados. Draco tinha a impressão de que as crianças maiores é que os incentivavam a isso, provavelmente contando histórias sobre o malvado Comensal da Morte... O rapaz torceu a boca com náusea.

Ainda por cima, aquele lugar infeliz estava infestado pelos elfos domésticos mais petulantes e obtusos que Draco já vira em toda a sua vida. Pareciam ter sido enfeitiçados para se comportarem como malditos assalariados e não como servos. Bando de imbecis! Draco não se surpreenderia se os pequenos cretinos não tivessem um sindicato idiota, cheio de bandeiras vermelhas decoradas com as caras da Granger e do Santo Potter.

Praguejou mais uma vez em voz baixa. Estava sentindo falta do Tosco. Maldita hora em que tivera de deixá-lo para trás. Sentia falta de alguém em quem mandar. Poderia até ser o Crabble e o Goyle. Bastava que não tivesse cérebro e obedecesse. Mas não... Ele estava ali sozinho, cercado de crianças chatas, elfos nojentos e à mercê da mulher mais mandona e irritante do universo, e ia ter de ficar ali até... Deu um suspiro frustrado... Até Deus sabe quando!

Um par de olhinhos brilhantes surgiu repentinamente no seu campo de visão. Devia ser o corajoso da turma para se aproximar dele tanto assim. Draco olhou com tédio para o garoto franzino à sua frente.

– O que é? – Perguntou com maus modos.

– A... a Srta. Laurent... q-quer falar com o-o senhor.

Draco jogou a cabeça para trás batendo-a intencionalmente contra a parede, onde o banco estava encostado, repetidamente. Que ótimo! A “Srta. Laurent” queria falar com ele. Imitou o sotaque dela com desdém dentro da própria cabeça. Era tudo o que ele precisava para tornar aquele maldito dia: “perfeito”. Provavelmente ela ia colocar aquele sorrisinho condescendente na cara e lhe dar algum tipo de ordem absurda, ou lhe passar um sermão por alguma coisa idiota ou...

– O que você está olhando? – Rosnou ao perceber que o garoto continuava na sua frente com uma carinha de expectativa.

– O se-senhor... ainda não respondeu... se vai...

– E nem vou responder para você, fedelho! Agora, some! Raspa fora!

O menino arregalou os olhos e soltou um soluço seco antes de sair correndo em disparada. Draco fechou os olhos por um instante ainda mais contrariado. Provavelmente foi se queixar. Brilhante! Mais um motivo para a Laurent implicar com ele. Aguardou ainda uns instantes pensando em mandá-la para o inferno e não ir ver o que ela queria, mas isso provavelmente resultaria em mais aborrecimentos. Levantou e começou a arrastar-se pesadamente em direção à sala dela. Pensou que devia ter perguntado ao garoto onde a administradora estava, mas depois descartou. Laurent devia estar na própria sala ou na cozinha. Revirou os olhos com desgosto. A mulher parecia adorar ficar na cozinha. Ia para lá conversar com os elfos, fazia comida no fim de semana... até as visitas ela recebia lá. Draco lembrou que sua mãe ficaria chocada com um comportamento daqueles. Não poderia lembrar-se jamais de ter visto Narcisa Malfoy descer de sua dignidade para rastejar pelas dependências inferiores da casa. Não queria nem imaginar o que ela diria se o tivesse visto lavando os seus próprios pratos do jantar da noite anterior. Balançou a cabeça com dor no coração. Tinha desistido de almoçar para não ter de ser humilhado de novo. Sua mãe provavelmente transformaria a Laurent em ração para cavalos se soubesse o que ela estava fazendo com o seu filhinho.

Entrou por uma das portas que levava para dentro do prédio e seguiu em direção à parte da frente, onde ficava o escritório da administração. Draco sabia que ela morava em um apartamento contíguo ao orfanato, mas, ao que parece, a sua presença ali a estava fazendo ficar mais tempo nas dependências da instituição do que nas suas próprias. Havia outras bruxas que se revezavam no cuidado das crianças, mas nenhuma parecia ter a dedicação que Sarah dava ao lugar ou, no caso, ao “problema” chamado Draco Malfoy. Ela estava sempre lá como um maldito buldogue bafejando no seu pescoço e ralhando com ele como se ele fosse uma das crianças, das particularmente mal educadas.

A porta do escritório estava entreaberta e Draco chegou a erguer o pulso para bater de leve antes de entrar, mas se conteve ao perceber que ela não estava sozinha. Ouviu uma outra voz de mulher e logo depois Sarah respondeu.

– Sinceramente, confesso que cheguei a pensar em pedir para o Severo usar aquele feitiço maravilhoso de transfiguração humana... Mas fiquei em dúvida se seria seguro manter uma doninha no orfanato, afinal, pelo menos na forma humana, eu acho que ele não morde.

A outra mulher riu com vontade, enquanto Draco rilhava os dentes, furioso.

– Ahhh... a tal história da doninha. Os garotos adoram contar isso. É uma das favoritas do Hector. Quer dizer que o meu “priminho” está conseguindo tirar você do sério, então? – Draco percebeu que só poderia ser a filha de Andrômeda falando. – Olha que eu não achei que isso fosse possível, você sempre disse que era escolada em lidar com pessoas difíceis.

– E sou – garantiu a voz de Sarah – mas convenhamos, pelo que Harry, Rony e Hermione contam, o garoto fez da capacidade de irritar os outros uma arte. Mas ele vai ficar seco esperando, se acha que é capaz de me descontrolar com as provocações dele.

Tonks abafou um risinho debochado.

– O que eu posso te dizer, minha amiga? Nunca achei que misturar Blacks e Malfoys no mesmo caldeirão pudesse dar boa coisa. Se bem que nem todos os Blacks são assim, temos anomalias – completou a frase com orgulho antes de dar uma gargalhada.

– O que incluiu você – disse Sarah num tom carinhoso.

– Eu, a minha mãe, o tio Alfardo e, claro... o Sirius...

Houve uma pequena pausa antes de Sarah falar.

– Ahhh... o lendário Sirius Black.

– Você ia gostar dele – garantiu Tonks. – Se bem que é possível que ele a irritasse também.

– Por quê?

– Você é muito certinha, Sirius ia amar irritá-la – arrematou Tonks rindo, mas logo começou a tossir. Draco forçou os olhos pela fresta da porta e percebeu que Sarah estava ajoelhada em frente à lareira. Ela devia ter jogado cinzas na outra que ria e tossia ao mesmo tempo. – Hei, assim não vale. Venho te dar uma notícia incrível e é assim que você me paga.

– Harry e os Weasley devem estar enlouquecidos – disse Sarah no que parecia ser um tom encantado.

– Provavelmente. Remo está tão nervoso que parece que são os netos dele – Tonks riu novamente. – Ele, Hector e eu vamos para lá daqui a pouco, será um reveillon bem diferente.

– Diga a eles que estou muito feliz por todos e que se der passo lá amanhã. Não vou me agüentar de curiosidade, mas hoje vou só atrapalhar... – Ela prosseguiu abafando um protesto de Tonks. – Além do mais, já tinha combinado em passar o Ano Novo com o meu irmão André e a minha cunhada Susana e também quero passar na sede da Ordem, antes de ir para lá. Severo está grudado naquele maldito livro. Acho que ele quer descobrir alguma coisa sozinho, sem a Hermione e o Remo por perto – Draco a viu mexer com a cabeça negativamente, mas o tom de voz foi condescendente. – Acho que nisso ele não vai tomar jeito... Mas não posso deixar de dar um feliz Ano Novo para ele.

– Não me diga que você vai conseguir arrastá-lo para a festa de reveillon na casa dos Bonnes?

Sarah deu uma gostosa gargalhada.

– Não sou uma bruxa tão boa assim.

Tonks também riu e fez um barulho estranho com a boca.

– Ahh... eu acho que eu também estou nervosa, sabe? Puxa, o Sirius ia ficar doido se estivesse aqui hoje... O Harry era tudo para ele – falou num tom saudoso. E, pelo visto, Sarah não achou nada para dizer. As duas deram uma longa pausa antes de Tonks recomeçar a falar. – Mas não vamos pensar em coisas tristes, não é? Não hoje. Bem, aviso dado. Eu preciso ir que os “meus homens” já estão me chamando.

– Certo. Obrigada por me avisar, querida. Diga para Harry e Gina que estarei rezando por eles. Eles os quatro...

“Quatro?” Draco sentiu um aperto na boca do estômago. Não podia ser. Era muito cedo! O pensamento intensificou a sensação de náusea enquanto ouvia as duas mulheres se despedirem e ele levou a mão quase instintivamente ao antebraço esquerdo, apertando-o convulsivamente. Sua mente parecia estar em branco quando, num movimento vagaroso, Draco começou a puxar a manga das vestes lentamente para cima. Precisava ver. Tinha que...

A porta abriu-se abruptamente e Draco parou o movimento ofegante como se tivesse corrido. Sarah o olhava com as sobrancelhas arqueadas.

– Achei que tivesse se perdido, Sr. Malfoy?

Draco baixou o braço no susto e levou não mais que meio segundo para voltar a assumir a sua expressão costumeira de tédio.

– Bem que eu queria... Mas, infelizmente... estou aqui. A “senhorita” mandou me chamar?

Sarah lhe devolveu seu habitual sorriso indulgente e Draco se perguntou se ela havia percebido que ele tinha ouvido a conversa. Sem demonstrar qualquer emoção neste sentido a administradora deu um passo para trás, abrindo a porta e fazendo um gesto largo para que ele entrasse. Draco passou por ela sentindo um imenso desconforto com a atmosfera quente do escritório depois de ter ficado tanto tempo no frio. A sala tinha uma mesa de madeira escura, duas poltronas confortáveis diante da lareira, uma estante cheia de livros cobria uma das paredes e, na outra, se podia observar quadros pequenos cheio de imagens de antigas de crianças e... nenhuma estava se mexendo. Nada especial se não fosse pela caixa trouxa que ficava sobre a mesa da administradora, na frente da caixa tinha uma espécie de tela que mudava a todo momento. Draco revirou os olhos em desagrado.

– Sr. Malfoy – disse Sarah eficiente, enquanto passava por ele e ia para a parte de trás de sua mesa de trabalho – eu só o chamei para informá-lo que não estarei aqui esta noite. – Falou sem encará-lo, enquanto apertava numa prancha onde havia letras e símbolos e depois conferiu o resultado na tela da tal caixa.

– Certo. E... quais são as más notícias?

Sarah ergueu os olhos por um instante, mas preferiu ignorar a provocação e prosseguiu no mesmo tom.

– Como é uma noite de festa e a maioria dos funcionários estará de folga, eu gostaria de pedir que o senhor não desviasse a atenção dos plantonistas das crianças. Então, se precisar de qualquer coisa... – ela deu uma pausa estudada – tenho certeza que o senhor é bem grandinho e poderá providenciar.

Draco apertou o maxilar.

– Mais alguma coisa?

– Sim. Eu recebi um recado da Ordem para o senhor. Caso haja alguma emergência, o senhor deve usar a minha lareira e se comunicar diretamente com a casa do Sr. Shacklebolt. Não se preocupe, esta é a única lareira do Orfanato ligada à Rede de Flu e ela apenas se comunica com casas de membros da Ordem, nenhuma outra...

Havia um brilho de desafio nos olhos da administradora. Ela obviamente também não confiava nele.

– Por que não posso me comunicar diretamente com o Snape?

– Severo está ocupado na Ordem e a comunicação com a sede foi interrompida enquanto o senhor estiver aqui – respondeu ela displicente, reunindo uns papéis sobre a mesa.

Draco arqueou a sobrancelha.

– Que demonstração de confiança... Estou tocado.

– Um ex-Comensal da Morte podendo acessar a sede da Ordem da Fênix via Rede de Flu? – Ela ergueu os olhos e o brindou com um sorrisinho cínico. – Não, acho que não. Seria inútil e inseguro – Sarah pareceu achar que aquilo encerrava a conversa. – É só Sr. Malfoy. Feliz Ano Novo.

Draco não se mexeu. Apenas cruzou os braços e se manteve encarando-a.

– Por que eu não posso entrar em contato direto com o Potter? Não é ele o “chefe” da Ordem?

Sarah deu aquele mesmo sorriso agradável que parecia ter sido moldado para irritar.

– Harry também estará muito ocupado hoje. Não há porque aborrecê-lo. O Sr. Shacklebolt cuidará de qualquer problema.

– Ocupado com o quê?

Sarah estreitou os olhos o que fez Draco sorrir internamente. Ela estava contando até dez.

– Eu pensei que o senhor tivesse deduzido depois de ter ouvido minha conversa com a Tonks atrás da porta?

Os dois se enfrentaram por alguns segundos antes de Draco sorrir cheio de cinismo.

– Então, é verdade. Os fedelhos do Potter e da traidora do sangue da Weasley estão nascendo.

Sarah fechou a cara.

– Creio que o senhor já tem todas as informações de que precisa, Sr. Malfoy. Agora... se me dá licença...?

Draco torceu a boca com desprezo e virou-se, saindo rapidamente da sala. A longa capa negra enfunando as suas costas. A expressão se fechou assim que não sentiu mais os olhos da administradora sobre si e ele seguiu com passos largos em direção ao quarto que estava ocupando. Sim, ele sabia tudo o que precisava e aquela sensação de náusea que vinha ameaçando tomá-lo, se intensificava a cada passo que ele dava pelos corredores largos do Orfanato. Colocou a mão novamente sobre o antebraço esquerdo e pressionou. Se Bella estivesse certa... a hora estava chegando.


********


Harry retirou a cabeça de dentro da lareira. Já tinha avisado a todo mundo a quem Gina tinha pedido e também ao Remo. Era estranho, mas sem Sirius, Remo era o mais próximo que ele podia ficar dos seus pais. Avisar para o amigo que os seus filhos estavam nascendo lhe deu uma sensação boa. Harry se ergueu do chão em frente à lareira, onde estivera ajoelhado, e olhou em torno ainda um pouco perdido. Por alguns segundos ficou sem a menor idéia do que fazer a seguir até que lembrou que Gina ficara sozinha e começou a correr em direção ao segundo andar da casa. Mal atingira o pé da escada e um barulho na lareira o fez voltar-se para trás. Alicia parou de girar nas chamas verdes e entrou apressada na sala carregando uma enorme maleta preta. Ela arrancou a capa dos ombros e a jogou nos braços de Harry sem muita cerimônia.

– Nervoso? – Perguntou enquanto tirava um lenço de dentro das vestes claras e limpava a fuligem do rosto.

– É-é... – gaguejou Harry.

– Normal – Alicia atalhou sorrindo. – Onde a Gina está?

– No nosso quarto.

– Certo! Peça para Molly e Hermione subirem assim que chegarem, ok? Mas impeça a Fleur de segui-las a qualquer custo. Ela tira a Gina do sério – Alicia fez uma careta – às vezes, ela “me” tira do sério também. Fazer o quê? Ah e chame o Neville para mim, ok?

– Por que o Neville? – Harry estava tonto.

– Eu vou precisar de umas ervas que eu sei que ele pode ter à mão. Não faça essa cara, Harry, quem fará as poções será Hermione. Agora, eu vou ver a Gina – disse já subindo as escadas.

Harry tentou puxar ar para dentro dos pulmões por alguns segundos, mas a tentativa não foi muito bem sucedida. Tinha certeza de que suas entranhas tinham se transformado em chumbo naquela altura e havia tanta coisa para resolver.

– Dobby! – Chamou alto.

O elfo apareceu num estalo e inclinou-se pressuroso numa profunda reverência.

– A festa foi cancelada – anunciou, observando as imensas orelhas de morcego do elfo murcharem – Gina... Gina vai ter os bebês.

– Sim, Harry Potter, meu senhor. Dobby sabe que os bebês de Harry Potter vão nascer. E Dobby está muito feliz porque vai poder cuidar dos bebês de Harry Potter e da doce senhora do Dobby. E Dobby vai ser muito dedicado, porque Dobby admira muito Harry Potter e...

– Dobby!

– Dobby só não entende porque não vai ter festa. A doce senhora do Dobby não está se sentindo bem? Porque Dobby fez muitas coisas gostosas hoje para a festa e tudo o que Harry Potter gosta e que agrada a doce senhora do Dobby também. Tem pudim de caramelo, e pastelão, e purê de pastinaca, e presunto assado com molho e... – ele enumerava as coisas sem parar e Harry estava tão fora de si que levou algum tempo para perceber que Dobby não tinha entendido.

– Dobby! Gina vai ter os bebês AGORA!

Dobby arregalou os olhos de tal forma que eles atingiram o tamanho de pratos de sobremesa, deu um gritinho excitado e começou a saltar no mesmo lugar batendo palmas.

– Os bebês Potter estão nascendo! Os bebês Potter estão nascendo! Os bebês Potter estão nascendo!

Harry se virou ao ouvir outro barulho na lareira e logo Jorge e Sean saíram de lá. O cunhado não perdeu tempo e engrossou a cantoria de Dobby, dançando com o filho no colo. Harry não sabia se ria, se cantava junto ou os mandava ficarem quietos. Alguém bateu à porta, mas Dobby e Jorge continuaram cantando e pulando.

– Parem – disse Harry com um sorriso atordoado indo em direção à entrada da casa.

O Sr. e a Sra. Weasley tinham aparatado do lado de fora e Molly quase o derrubou para entrar dentro da casa. Mas antes que ele se refizesse, ela voltou e o abraçou pelo pescoço, literalmente o estrangulando.

– Oh querido! Como você está? Mérlin do céu! Como aconteceu? Prematuros... Onde está Gina? Alicia já chegou? Prematuros! O que...

– OS BEBÊS POTTER ESTÃO NASCENDO! OS BEBÊS POTTER ESTÃO NASCENDO! OS BEBÊS POTTER ESTÃO NASCENDO!

A cantoria de Jorge e Dobby foi reforçada por Fred, Ken e Cátia que saíram da lareira naquele momento. Harry tentou responder para a sogra.

– Molly – Arthur começou a tirar a Sra. Weasley de cima dele – acalme-se, mulher. Harry mal consegue respirar.

Ele a puxou para longe do genro, mas a Sra. Weasley não esperou que Harry conseguisse articular qualquer coisa em resposta as suas perguntas. Ela viu Hermione chegando com Rony, Sirius e Winky e correu para a nora.

– Filho... – Harry olhou abobado para o Sr. Weasley que tirou lenta, mas firmemente a maçaneta da sua mão e fechou a porta. – Respire.

Harry concordou com a cabeça. Era um ótimo conselho. Ele tinha que manter a idéia em mente. Não podia esquecer de respirar.

– OS BEBÊS POTTER ESTÃO NASCENDO! OS BEBÊS POTTER ESTÃO NASCENDO! OS BEBÊS POTTER ESTÃO NASCENDO!

Olhou para trás e viu que Rony tinha se juntado aos irmãos, enquanto Mione, Cátia e a Sra. Weasley subiam para o andar de cima. Arthur pôs a mão no seu ombro e empurrou para o interior da sala de estar já lotada.

– Acalmem-se meninos! – Falou em voz alta, sorrindo para os filhos e netos. – Essa bagunça está bonita, mas não é hora. – A baderna prosseguiu fazendo o Sr. Weasley suspirar. – Vocês podem deixar a irmã de vocês mais nervosa... Ela provavelmente está ouvindo.

A sala silenciou quase instantaneamente. Harry piscou algumas vezes vendo o mundo à sua volta desacelerar, mas a sensação durou pouco. No instante seguinte, os cunhados estavam em cima dele, o cumprimentando, apertando as suas mãos, dando sonoros tapas nas suas costas. Os gêmeos colocaram dois charutos na sua boca. Harry riu e os tirou dali o mais rápido possível. Conhecia os gêmeos o suficiente para não arriscar. Ainda estava sendo sacudido pela massa ruiva quando, com uma nova baforada, sua lareira regurgitou Gui, Fleur e Chantal que correrem para se somar aos cumprimentos.

Mesmo completamente zonzo, Harry pode ver que Dobby chamava Winky em direção à cozinha. Ele devia estar se perguntando o que Harry quisera dizer com “festa cancelada”. Como se houvesse alguma forma de não haver festa com tantos Weasley felizes por perto. O rapaz não pode deixar de agradecer mentalmente o fato de Dobby ser um elfo doméstico cheio de iniciativa e com isso poupá-lo de ter de bancar o anfitrião naquele momento. Segundos depois, como que ratificando o seu pensamento, Dobby e Winky retornaram para a sala flutuando enormes bandejas cheias de comidas e bebidas e isso fez com que, finalmente, os garotos Weasley desviassem sua atenção de cima dele.

Harry os olhou enquanto cercavam as bandejas com voracidade e, vendo-se momentaneamente esquecido, escapou em direção ao armário de casacos que ficava próximo ao hall de entrada. Ainda segurava a capa de Alicia e, sem saber como, também a da Sra. Weasley. Usou a necessidade de pendurá-las como desculpa e se fechou dentro do armário por um instante.

“Respire”, disse a si mesmo encostando a testa suada contra a parede fria, “não esqueça de respirar. Vai dar tudo certo!” Harry fechou os olhos numa prece silenciosa. “Não deixe que nada aconteça com ela, que nada aconteça com os bebês. Eu já perdi tanto... e... eu preciso tanto deles... por favor... não deixe que nada aconteça”.

– Harry?

Ele abriu a porta do armário no mesmo instante, parecendo ter sido escaldado, e saiu. Rony estava parado do lado de fora com as mãos nos bolsos das calças e o olhava com expectativa.

– Você está legal?

– Estou ótimo!

– ‘Tá nada! ‘Tá é em pânico, isso sim.

Harry fechou a porta do armário atrás de si.

– O que você sabe?

– Já passei por isso – disse Rony simplesmente.

Harry se mexeu desconfortável e passou as mãos suadas, primeiro pelo tecido do jeans, e depois sucessivamente pelo cabelo.

– Se sabe por que pergunta? – Rony lhe devolveu uma expressão de mofa e Harry se sentiu culpado pela grosseria. – Olha Rony, desculpe, mas o Sirius não era dois e também não foi prematuro.

– É só isso que te incomoda? – Rony fez a pergunta muito sério.

– Não é o bastante? – Havia uma nota de quase desespero na voz de Harry e isso deve ter comovido Rony, que o analisou como se quisesse ler a sua mente por alguns segundos antes de relaxar.

– Claro que é, cara. É o bastante para você ficar nervoso, sim. – Ele sorriu e passou o braço comprido sobre os ombros de Harry. – Mas não esquenta, não? A Alicia é muito competente. Vai dar tudo certo, ok?

– Você não acha que seria melhor levar a Gina para o St. Mungus? – Harry perguntou enquanto se deixava conduzir de volta para a sala.

– Crianças bruxas nascem em casa, Harry. E pelo que Hermione conta, muitas crianças trouxas também. É uma tradição inglesa – completou com um sorriso confiante. – Você e eu nascemos em casa. Acalme-se, Alicia vai fazer tudo para...

– NEVILLE! – Harry lembrou num berro e saiu correndo em direção à lareira para chamar o amigo, como Alicia havia pedido.

Meia hora depois e ele ainda não havia conseguido nem parar de correr como uma barata tonta nem subir para o segundo andar. Apenas Hermione descera assim que Neville chegou e se meteu na cozinha a fazer poções enquanto o amigo cortava as ervas e raízes que ela pedia e ia lhe passando. Harry tentou falar com ela e até se ofereceu para ajudar. Mas Mione primeiro o analisou com a mesma cara preocupada de Rony e, depois, como se o considerasse num estado normal, simplesmente o expulsou da cozinha dizendo que ele estava atrapalhando a sua concentração e ameaçou azará-lo caso ele continuasse insistindo. Remo, Tonks e Hector também haviam chegado naquele meio tempo e Harry se viu no observando uma discussão entre os Weasley sobre como fariam para avisar Carlinhos e Ana, que tinham ido passar o Ano Novo no Brasil, ou como fariam para retardar ao máximo a necessidade de avisar ao Percy. Dessa vez Harry até tentou protestar, mas Jorge foi enfático.

– Quer Rita Skeeter na sua porta em cinco minutos? Porque é exatamente o que vai acontecer assim que avisarmos ao Percy e a Patrícia “querida”.

– A nossa amada cunhadinha não vai perder a chance de usar isso para sair na coluna social do Profeta e do Semanário das Bruxas. – Arrematou Fred.

Todos pareceram concordar com o argumento, inclusive o Sr. Weasley que bebericava calmamente um copo de whisky de fogo.

– Apenas arranjem uma desculpa qualquer para a mãe de vocês – falou com uma voz cansada.

– Não o encontramos – disseram Fred, Jorge, Rony e Gui praticamente em uníssono.

O Sr. Weasley apenas sacudiu a cabeça resignado.

– Harry...

Remo havia chegado ao lado de Harry que observava os Weasley discutirem enquanto imaginava o que ele deveria estar fazendo ao invés de ficar ali parado. Sim, porque ele deveria estar fazendo alguma coisa. Não sabia o que, mas seus filhos estavam nascendo e ele estava parado e...

– Harry.

– Desculpe, Remo.

O amigo sorriu e colocou a mão confortadoramente no seu ombro.

– Você nunca esteve tão parecido com o seu pai como neste momento.

– Meu pai era um cara nervoso?

– Não. Falo deste momento. Parece que estou olhando para o Tiago no dia em que você nasceu.

Harry bem que tentou sorrir, mas os músculos do seu rosto não colaboraram e ele acabou olhando para o chão sem saber o que dizer.

– Harry... não se preocupe tanto... Temos ótimos recursos mágicos para prematuros. Nesse instante, Gina já deve ter tomado uma poção para que os bebês possam respirar perfeitamente e também para que eles nasçam com o máximo de saúde. Você vai ver. Em poucas horas eles já estarão se alimentando e em poucos dias ninguém poderá dizer que eles nasceram antes do tempo.

– Não... – Harry se forçou a conseguir dizer o que realmente o estava atormentando – não é só isso... – engasgou.

– E... o que é mais?

O rapaz ergueu os olhos.

– E... e se eles não gostarem de mim? – Remo sorriu cheio de piedade. – Não ria. É sério. Eu não lembro o que é ter um pai para saber como agir. Valter Dursley não foi exatamente um exemplo. Rony e os outros podem simplesmente copiar o Sr. Weasley e vão ser pais perfeitos, e eu... Eu tenho certeza que vou fazer tudo errado. Em poucos dias os meus filhos vão estar me odiando.

– Harry... me escute. Todo o pai erra. Mesmo quando a gente tenta acertar, muitas vezes, a gente erra. – Remo se aproximou e apontou Hector, que brincava de fazer desenhos com Chantal, com a ponta do queixo. – Está vendo aquele garoto ali? Eu não o vi nascer, mas... no momento em que o tirei dos escombros daquela casa. No momento em que o vi nos braços da Tonks, eu soube... Você também vai saber o que fazer, relaxe.

Harry assentiu. Não entendeu muito bem o que Remo quis dizer, mas ainda assim assentiu.

– Hei, Harry! – Cátia o chamava da ponta da escada. – Gina quer você.

– E-eu posso...?

– Claro que pode – respondeu a cunhada impaciente. – Ela quer saber por que você não subiu antes.

Harry achou que tinha ganhado molas. Em menos de três passos estava na escada e nem poderia dizer de que jeito subiu os degraus e chegou à porta do quarto. Gina estava sobre a cama escorada no que lhe pareceu serem zilhões de travesseiros. Ela arfava continuamente, parecia nervosa, mas não parecia ter dor. Os olhos castanhos brilharam quando o viram. O rapaz sentiu que alguém o pegava pelo braço e Molly o conduziu para perto da cama.

– Venha querido. Venha ajudar a sua esposa.

– Hã... o que eu faço?

– Empresta a sua mão para ela esmagar – respondeu Alicia com bom humor e só então Harry percebeu que ela estava aos pés da cama, já posicionada para aparar os bebês. – Não se preocupe, eu já dei uma poção para dor, ela não vai mais insultar você.

– Me insultar? – Ele se aproximou de Gina engolindo em seco e se ajoelhou ao lado dela, enquanto pegava a sua mão. – Você me insultou?

– Ahh... nada sério – falou Cátia cruzando o quarto com a varinha em punho e começando a fazer feitiços em torno de uns dois berços que só agora Harry percebia que estavam ali. – Eu disse coisas muito piores do Fred.

– Fred resolveu fazer feitiços de mutação para alegrá-la – comentou Gina arfando.

– E eu me alegrei – respondeu a cunhada dando mais um piparote com a varinha em direção aos berços. – Me alegrei tanto que o azarei.

A Sra. Weasley, que estava preparando uma espécie de trocador, fez um movimento negativo com a cabeça, mas Alicia começou a rir.

– Como parteira, eu achei que ele mereceu.

– Se... – Harry afastou uma mecha de cabelo do rosto de Gina – se fizer você se sentir melhor... tudo bem. – Ele achou que Gina ia sorrir e negar, mas ela confirmou com a cabeça, parecendo considerar a possibilidade. Alicia novamente abafou uma risada e Harry tentou olhá-la por sobre o lençol que cobria as pernas de Gina. – Eles... já... é agora?

Alicia sorriu.

– Ainda falta um tempo. O trabalho de parto vai levar algumas horas e eu prefiro assim porque dá tempo das poções fazerem efeito sobre os bebês – respondeu se levantando e indo em direção à porta. – Não se preocupe. Não haverá nenhum problema com o fato de serem prematuros. Você sabe que Gina e eu nos preparamos para isso.

– Como se prepararam? – Qualquer comentário que eles tivessem feito a esse respeito nos últimos meses parecia ter se esvaído da cabeça de Harry.

Alicia parou a meio caminho da porta, colocou as mãos na cintura e respondeu pacientemente.

– Nós conversamos sobre isso, Harr. Eu sabia que sendo dois e Gina sendo do tamanho que é, haveria uma possibilidade dos bebês nascerem um pouco antes. Por isso, Gina vem tomando poções já há algum tempo para a duplinha nascer perfeita – ela deu um enorme sorriso. – Agora fica calmo, certo?

Alicia saiu do quarto a passos largos e Harry a ouviu gritar por Hermione. Ele se voltou para Gina e lhe deu um beijo longo.

– Tudo bem?

Ela acenou com a cabeça.

– E você?

– Eu não importo – respondeu Harry.

Gina fez uma careta de desconforto e apertou a sua mão com força. Harry olhou para Cátia e a Sra. Weasley esperando que uma delas fizesse alguma coisa, mas nenhuma das duas pareceu lhe dar atenção. Logo, Gina relaxou.

– Tudo bem – disse ela resfolegando – foi... só... uma contração.

O que era “só” uma contração pareceu a Harry ter aumentado muito nas horas que se seguiram. Ao menos ele já tinha certeza que jamais voltaria a usar a mão que Gina segurava da mesma forma que antes. Depois que a noite chegou, ele perdeu a noção do tempo e não saberia dizer quantas horas haviam se passado. Hermione, que voltara para o quarto junto com Alicia, carregando pelo menos dois pequenos caldeirões fumegantes, conjurara uma quantidade enorme daqueles fogos portáteis azuis. Ela e Cátia os colocaram em vidros que depois fizeram flutuar próximos ao teto deixando o quarto bastante iluminado. Rony veio algumas vezes até a porta do quarto e chamou por Mione, provavelmente para pedir informações para acalmar o povo que aguardava no andar de baixo.

Alicia examinava Gina de tempos em tempos e quando ela praticamente já não afrouxava o aperto na mão dormente de Harry, a curandeira anunciou que estava na hora.

– Harry tire os sapatos – ordenou ela.

– O quê?

Alicia soltou um suspiro.

– A partir de agora, apenas me obedeça, ok?

Harry balançou a cabeça afirmativamente sentindo seu nervosismo chegar ao auge. Soltou a mão de Gina e arrancou os sapatos e as meias. Alicia fez um sinal para Hermione e a Sra. Weasley e as três aliviaram os travesseiros às costas de Gina. Molly ficou a sustentando e Mione se aproximou dele.

– O que eu faço agora? – Perguntou Harry em pânico para a amiga.

– Agora, você vai sentar atrás da Gina para ajudá-la – disse Hermione com suavidade, enquanto pegava no seu braço e o conduzia até a cama. Ela lhe deu um sorriso encorajador e o ajudou a se acomodar.

Harry se sentou atrás de Gina, acomodando-a entre suas pernas e escorando-a no peito. As mulheres sustentaram as suas próprias costas com travesseiros. Harry estava com a atenção presa na mulher, mas registrou que Hermione parecia olhar compulsivamente para o relógio de pulso. Pensou que se sentiria melhor se a amiga não aparentasse estar nervosa. Tinha se acostumado a medir a gravidade das situações observando Hermione. Se ela estivesse calma, estava tudo sob controle, senão... Mione ergueu a cabeça e os seus olhos se encontraram, ela sorriu cheia de entusiasmo e Harry voltou a respirar apesar da garra que apertava a boca do seu estômago. Ele descartou sensação, considerando-a como algo que deveria ser normal naquela situação.

– Agora, querida – anunciou Alicia, cuja voz pausada e calma preencheu o quarto junto com a respiração alterada de Gina – empurre. Vamos trazer essas crianças para o mundo, ok? Pegue as mãos do Harry para se sustentar... isso... Agora inspire e quando expirar... empurre... Muito bem... Respire um pouco... Ótimo, agora de novo... Já estou vendo um deles, Gi... Vamos mais uma vez... Empurre... Boa menina! Falta pouco agora... Vai, querida, força, mais um pouquinho... – Harry viu quando Alicia deu um sorriso imenso e ele sentiu Gina relaxar em seus braços, no instante seguinte um choro alto e agudo preencheu o quarto. – É o Lyan... E acho que não precisaremos nos preocupar com os pulmões... – falou Alícia rindo e erguendo o bebê que berrava.

Harry não saberia descrever o que estava sentindo. Deu um beijo emocionado na testa de Gina e foi só quando viu que tinha molhado o rosto dela que percebeu que estava chorando. Alicia se afastou com o bebê em direção ao trocador e passou algumas instruções para a Sra. Weasley e Cátia, entregando o menino para elas. Depois, ela voltou para junto da cama. Hermione se aproximou com um pano úmido e passou sobre a testa de Gina, deu um beijo nos rosto da amiga e depois deu outro na bochecha de Harry. Ele notou que ela também estava chorando e que olhou novamente para o relógio, dando um suspiro. Ele ia perguntar se havia algum problema, mas naquele momento a Sra. Weasley se aproximou com o que pareceu a Harry a criatura mais fantástica que ele já tinha visto. Ele era vermelho, chorava ressentido e parecia um pouco amassado e enrugado. A Sra. Weasley o deitou sobre o peito de Gina e, como que por encanto, o choro dele diminuiu para uma lamúria baixa.

– Oi nenê – Gina sussurrou. – Sabia que você á a coisa mais linda que eu já vi? Eu sou a sua mamãe – ela se inclinou e beijou a testa do bebê que ainda resfolegava em soluços do choro. – O cara de olhos verdes aqui atrás... é o seu papai...

Harry soltou uma espécie de soluço pelo nariz e estendeu a mão até tocar no bebê com todo o cuidado que conseguiu. Nunca tinha percebido o quanto suas mãos eram grandes. Elas pareciam imensas perto rostinho vermelho e ainda levemente contraído do seu filho.

– Oi Lyan – ele sussurrou.

Harry somente se deu conta de que ainda não havia acabado quando de repente Gina voltou a triturar as suas mãos e Hermione retirou Lyan do peito dela.

– Vamos de novo, Gi – Alicia já estava apostos – hora de colocar mais uma mulher no mundo! E das poderosas! Pronta? Certo... empurre...

Minutos depois, lá estava ela, chorando tanto quanto o irmão e para Harry, tão fascinante e linda quanto ele. Quando Cátia e a Sra. Weasley colocaram os gêmeos nos braços de Gina, e Harry se viu com sua família inteira acomodada no seu peito, ele soube que nunca, em toda a sua vida, havia se sentido tão feliz. Era uma sensação indescritível. Sem nome, sem forma, sem tamanho. Era absoluta, poderosa, mais poderosa que qualquer outra. Nada poderia ser maior do que aquilo.


**********


Passava um pouco das três horas da manhã quando Sarah Laurent voltou da festa de Ano Novo. O carro de André, seu irmão mais moço, entrou na rua escura do bairro de Hillington em Londres e estacionou em frente à casa grande, antiga e de aspecto descuidado que abrigava o Orfanato. A rua estava completamente deserta àquela hora e havia uma lâmpada quebrada no poste da calçada em frente, o que deixava uma boa parte dela sem iluminação. O vapor do cano de descarga do carro condensava-se no ar frio e uma umidade gelada colava-se ao asfalto. André ajustou o espelho retrovisor. A Inglaterra não era o Brasil, mas, mesmo assim, ele não gostava de ruas desertas àquela hora da madrugada, sempre pareciam sinistras, ainda mais com a arquitetura inglesa.

Ao contrário da irmã de criação, André Laurent não descobriu ser bruxo depois de adulto, em compensação, porém, se casara com uma bruxa. E Susana Bonnes, agora Susana Laurent, não era somente uma ex-colega de Harry Potter, ela fora um membro ativo da AD no quinto e no sétimo anos e, depois da escola, mantivera-se engajada na Ordem da Fênix. Ainda assim, André achava mais fácil lidar com a bruxidade da esposa do que com o fato de que a menina, que fora adotada por seus pais e recebera o nome de Sarah, tinha poderes mágicos. Era por isso que, quando estava com a irmã, gostava de cultivar com ela o que ambos chamavam de saudáveis e tranqüilos hábitos trouxas. Nada de lareiras ou aparatação – coisa que Sarah definitivamente não gostava – mas uma segura e confortável carona em um carro com ar condicionado.

– Esse sim é um deslocamento que segue as leis da natureza – comentou Sarah gargalhando quando ele parou o carro. – Obrigada pela carona, irmãozinho. Foi uma ótima noite.

– Você podia ter dormido lá em casa – reclamou o rapaz ao receber um beijo na bochecha.

– As coisas andam meio tumultuadas por aqui, André. Severo não ficou nada satisfeito de eu ter deixado o... o... Orfanato sozinho – André arqueou a sobrancelha com descrença e Sarah continuou a falar rápido. – O fato, querido, é que não posso ficar tanto tempo longe.

– Você não vai me contar o que está acontecendo? Susana também anda fazendo muito mistério... essa Ordem de que vocês fazem parte...?

– Acredite, André, a gente conta o que pode e... é mais seguro para você assim.

André deu um suspiro exasperado.

– Perfeito! Eu fico muito mais tranqüilo com esta informação!

– Não seja cínico – ralhou Sarah com doçura – não combina com você. Ah, querido, não fique assim. Susana sabe se defender e eu estou aprendendo e, bem, por enquanto eu tenho quem me defenda. Então, não se preocupe, ok? Eu estou perfeitamente segura. Nada de mal vai me acontecer.

Ela ficou fazendo um carinho nos cabelos crespos e curtos do irmão até ele, a contragosto, concordar. Os dois eram muito diferentes, tanto no temperamento como no físico. Sarah percebia que muitas pessoas ainda estranhavam o fato dela e André apresentarem-se como irmãos, mas eles eram. De fato e no coração, mesmo que o sangue e a cor da pele fossem diferentes. Sarah era pálida, com cabelos lisos grossos e profundamente escuros, “quase uma cigana”, como dizia a sua mãe; enquanto André e seus outros irmãos de criação eram negros como os pais deles. A coisa que Sarah mais temia era que, após a morte do velho casal Laurent num trágico acidente de carro, ela fosse lentamente se afastando dos irmãos. Contudo, sua bruxidade recém descoberta, bem como o fato de André ter se casado com Susana Bonnes acabou por aproximá-la fortemente do irmão mais moço. Sarah deu outro beijo na bochecha do rapaz e abriu a porta do carro despedindo-se rapidamente.

Estava muito frio e ela queria entrar o mais rápido possível no prédio. Fez um sinal para André ir de uma vez, mas ele ficou observando-a enquanto ela abria a porta. Sarah sorriu para o senso protetor do irmão e, por um segundo, achou ter visto algo se mexer nas sombras do outro lado da rua deserta. Um arrepio desceu pelas suas costas e ela apressou-se em entrar, acenando para André. O carro arrancou no mesmo instante em que ela fechou a porta, mas antes que conseguisse passar a chave, um vendaval arremessou a porta contra si e a escancarou. Sarah sentiu-se praticamente arremessada contra a parede enquanto observava com pavor crescente um vulto escuro entrar rápido e fechar a porta. O vestíbulo estava completamente às escuras, mas Sara conseguiu divisar com a pouca claridade da rua, antes que a porta se fechasse, que o estranho empunhava uma varinha.

Uma onda de medo quase a paralisou. Era provável que se a criatura a sua frente estivesse empunhando uma arma de fogo ela jamais lembrasse que poderia sacar sua varinha contra ele. Foi a noção de que estava diante de um bruxo que a fez procurar rápido sob o casaco o pedacinho de madeira que passara a carregar praticamente obrigada por seus novos amigos bruxos. Ainda assim, não pode evitar o pensamento de que não estava melhor servida do que se estivesse armada à maneira trouxa. Nos dois casos, ela tinha muito pouca idéia do que fazer.

Lumus!

A varinha que o vulto à sua frente empunhava se acendeu, lançando uma luz fantasmagórica à peça.

– Severo... – Sarah deu um suspiro de alívio enquanto se desencostava da parede aonde tinha sido arremessada. – Você quase me matou de susto! Isso é jeito de entrar? Bastava ter me chamado que eu...

A palidez mórbida com que Snape a encarava a assustou. Os cabelos negros e escorridos emolduravam o rosto e lhe davam uma aparência ainda mais macilenta e assustadora.

– Onde está o Draco? – Perguntou seco.

– Eu não sei. Estou chegando agora. Você viu. Deve estar no quarto dele... Aconteceu alguma coisa?

A boca de Snape estava presa numa risca fina e os olhos arregalados. Se alguma vez ela já o tinha visto com medo... ali estava.

– Aconteceu. – Confirmou e logo em seguida ele lhe deu as costas e saiu em direção ao interior do prédio. Sarah ainda estava um pouco atordoada, mas o seguiu, emparelhando rapidamente com ele. Snape já andava quase normalmente, mas ainda usava a bengala e rapidez não era o seu forte.

– Aconteceu o quê, Severo? Porque você não estava na sede da Ordem hoje à tarde quando o procurei? Você tinha me dito que iria estudar o Livro de Fausto e...

– Tive de verificar umas informações em livros que estavam na minha casa em Morton.

– E por que você só chegou agora? Você disse que viria cedo para cá, que não queria deixar o Draco muito tempo sozinho.

Os dois começaram a subir as escadas que levavam ao segundo andar e Snape não respondeu. Parecia muito concentrado, as sobrancelhas tão unidas que eram apenas uma faixa negra sobre os olhos.

– Severo!

– Hã... – disse ele desatento. – Como ele estava quando você o deixou?

– O Draco? Insuportável como sempre, por quê?

Snape ignorou a fala dela.

– Não notou nada de diferente?

Os dois já haviam chegado ao alto da escada e dobraram à direita. Sarah deu de ombros para a pergunta.

– Não... Ele nem se abalou quando eu falei que os gêmeos do Harry estavam nascendo...

– O QUÊ? – Severo tinha praticamente pulado em cima dela. Olhava-a alucinado enquanto a segurava pelos braços. – Por que não me contou isso antes?

– Não grite! – Ralhou Sarah. – Vai acordar as crianças! – Snape a soltou, mas ainda parecia transtornado.

– Como... como isso foi acontecer? Pelas minhas contas ainda faltavam dois meses...

– Pelas contas de todos, querido... Mas parece que os potterzinho são apressadinhos. Nasceram de sete meses.

– Sete meses... – repetiu ele como se não acreditasse. – E hoje...

– Na verdade – corrigiu Sarah – ainda não sei se foi ontem ou hoje – Severo a olhou sério e ela não pode discernir se havia uma nota de pavor ou de esperança no seu olhar. – Quero dizer, o trabalho de parto começou ontem à tarde, mas não sei quanto tempo levou, supondo que já tenha terminado e... – Sarah pôs as duas mãos na cintura. – Eu só não contei para você porque quando estive na sede da Ordem a sua procura, você não estava lá e eu não tinha a menor idéia para onde você tinha ido, ok?

– Demônios!

Rugiu Snape antes de dar-lhe as costas e continuar a ir em direção ao quarto de Draco, resmungando baixinho.

– Hei... – ela chamou ofendida – não dói pedir desculpas, viu?

– Fale por você – resmungou ele um pouco mais alto.

Sarah apenas negou com a cabeça. Não tinha jeito mesmo. E seguiu atrás dele. Ela deu uma corridinha até conseguir emparelhar ao seu lado.

– Você não me disse o que houve?

Mas Snape novamente ignorou-a, parando em frente à porta do quarto que Draco Malfoy estava usando.

– Draco! – Snape chamou em voz alta batendo à porta, mas não houve resposta. – Draco! Abra a porta!

Só o silêncio.

– Severo... o rapaz deve estar dormindo. E pare de gritar! Você quer acordar a casa inteira?

Snape nem a olhou. Continuava rígido, fixando a porta como se ela pudesse falar com ele. Parecia que todos os seus sentidos estavam alerta. Sarah achou que ele lembrava um imenso gato adentrando num terreno inimigo. Snape passou a varinha para a mão que segurava a bengala e se pôs a forçar a maçaneta.

– Está trancada – murmurou. – Tire a sua varinha e fique atrás de mim.

Sarah o olhou desconfiada.

– Mas o quê...?

– Faça apenas o que eu estou mandando!

Ela ia retrucar, mas algo na voz dele a fez simplesmente empunhar a varinha e postar-se às suas costas.

Alorramorra!

A porta abriu com um clic seco e Snape a empurrou com as pontas dos dedos. O quarto estava completamente às escuras.

– Ele deve estar dormindo, Severo – a administradora sussurrou, mas no momento seguinte percebeu que falara cedo demais.

Havia um cheiro esquisito e adocicado no quarto, mas não era só isso. Sarah sentiu todos os pelos da nuca arrepiarem o suficiente para compreender que havia algo errado. Sem esperar por Snape, ela correu a mão pela parede da entrada até achar o interruptor de luz. A fluorescente iluminou o quarto e Sarah não pode reprimir que um grito de pavor lhe escapasse da garganta. Todo o chão se encontrava todo salpicado de sangue e em alguns pontos havia poças. Manchas também se espalhavam pelos lençóis e pelas paredes.

– Meu Deus – choramingou Sarah.

Snape começou a atravessar o quarto fazendo a volta na cama e seguindo a trilha de sangue. Sarah o seguiu tentando se manter sobre as pernas que tremiam de forma inacreditável e ela precisou levar a mão à parede quando os dois acabaram de contornar a cama. A cena que eles viram foi de gelar o sangue nas veias.

Draco estava sentado ali, no chão. Tinha a face completamente transtornada. As mangas da camisa tinham sido arregaçadas e por muito pouco ainda se podia perceber que esta fora branca. Em uma das mãos, o rapaz segurava uma enorme faca de cozinha e, com ela, raspava histericamente o antebraço esquerdo que, quase sem pele, sangrava de forma copiosa.

– Draco... – a voz de Snape foi um lamento cheio de piedade.

Mas o rapaz não o ouviu. Ele não parecia ter nem ao menos percebido que havia outras pessoas no quarto ou que a luz fora acesa. Sarah olhou para Snape apavorada. Ele tinha que fazer alguma coisa. Tinha que dar um fim naquela loucura. Quase que como ouvindo o que ela apenas havia pensado, Severo ergueu a varinha e falou em voz baixa, mas sem emoção.

Evanesco – a faca sumiu e Draco ergueu os olhos alucinados procurando por ela e finalmente parecendo ver os dois. – O que você está fazendo, garoto?

– Você sabe, Severo! Sabe sim! Eu não vou deixar que me encontrem, entendeu? – Ele levantou sem parecer nem um pouco debilitado e se arremessou contra Snape, segurando-o pelas vestes e fazendo Sarah gritar novamente. – Ele está voltando, Snape! E vai querer se vingar! Você e eu somos homens mortos! Não importa o que meu pai e Bella digam. Quando ele voltar vai querer me matar! Eu sei! E eu não quero morrer! Eu não quero morrer!

Estupefaça!

– Severo, NÃO!

Tarde demais! Draco foi arremessado contra a parede e caiu desacordado. Sarah correu para o rapaz.

– Você enlouqueceu? – Perguntou chocada. – Por que fez isso?

– Ele estava fora de si – respondeu Snape se aproximando. Ele enfiou a mão nas vestes e lhe entregou um frasquinho de cor azul turquesa. – Vire isso na garganta dele.

– O que é? – Sarah pegou o frasco e o abriu ao mesmo tempo em que, com a outra mão apertava as bochechas de Draco forçando-o a abrir a boca.

– Uma poção calmante. A mais forte que tenho. Ele vai dormir e acordar com a cabeça novamente no lugar. – Severo a observou terminar de entornar o conteúdo por entre os dentes semi-serrados de Draco e depois pediu para que ela se afastasse.

Rapidamente, Snape fez com que Draco flutuasse até a cama. Aproximando-se, ele analisou o estrago que o ex-aluno fizera no próprio braço fazendo negativas com a cabeça. Por fim, ergueu a varinha e murmurando uma série de feitiços que Sara não reconheceu e começou a cicatrizar o ferimento.

– Pode limpar o sangue? – Pediu em voz baixa e Sarah assentiu, começando a aspirar com a varinha o que ficara nas paredes e no chão. Quando acabou, ela viu que Snape já havia terminado o curativo no braço de Malfoy, cobrindo-o com uma atadura e que olhava o rosto pálido do jovem com uma expressão indecifrável.

– Vai me dizer o que houve, agora? – Exigiu ela num sussurro.

Severo ergueu a cabeça e confirmou. Depois, ele se ergueu da cama onde estivera sentado e com um novo movimento de varinha limpou os lençóis e uma boa parte da camisa que Draco vestia. Fez um sinal para que Sarah o seguisse e os dois se retiraram. Sarah apagou a luz e fechou a porta cuidadosamente. Snape havia caminhado até a janela no fundo do corredor e olhava para fora, sem realmente ver. A madrugada fria havia embaçado um pouco os vidros a luz branca que entrava por ali o fazia parecer ainda mais pálido.

– Então? – Ela questionou de novo.

– Eu... não achei que fosse tão grave, mas se você falou que os filhos do Potter nasceram, então...

– O que o nascimento dessas crianças tem a ver com o que aconteceu aqui? Severo! O rapaz estava se mutilando! O que, por Deus, foi aquilo?

Severo voltou-se para encará-la.

– Pensei que você tivesse se dado conta.

– Me dado conta do quê, criatura?

Ele se escorou na parede, encostando ali a bengala e num gesto raivoso ergueu a manga das vestes sobre o braço esquerdo. Sarah olhou firmemente para o que Severo achava ser uma resposta, mas não havia nada ali.

– Eu deveria esta vendo alguma coisa?

Ele fechou os olhos por um instante e cobriu o braço.

– Não, claro que não – Sanpe retrucou sem paciência. – Mas eu sinto Sarah... e o Draco também. Você sabe o que deveria estar aqui? – Ela assentiu com a cabeça, quem não conhecia aquela história? – Quando o Potter o matou há quase dez anos atrás, as marcas sumiram. Lembro de quando a vi brilhar uma última vez no meu braço e depois sumir.

– Mas não há marca nenhuma aí, Severo.

– Ainda não, Sarah, ainda. Mas eu posso senti-la. – A voz dele era baixa e lívida de fúria. – Está tomando força, está avisando que o Lord das Trevas está se preparando para voltar. Não me admira que Draco tenha ficado à beira da insanidade.

– Mas – Sarah engoliu em seco – você acha que isso tem a ver com o nascimento dos gêmeos?

Snape fixou os olhos no nada antes de responder.

– Quem quer que esteja por trás disso tudo... e, por mais que eu deteste admitir, Potter e Weasley têm razão quando dizem que Bella não seria capaz de pensar em tudo sozinha. Quem estiver planejando tudo, Sarah, orquestrou as coisas milimetricamente, e eu não tenho dúvidas de que as crianças do Potter são importantes para esse plano. – Severo fez uma expressão exasperada. – Eles estavam mais seguros na barriga da mãe deles. Mas agora, com esse nascimento, nosso tempo parece se esgotar ainda mais rápido.

Os olhos de Sarah se turvaram em lágrimas.

– Tem alguma coisa que a gente possa fazer?

– Tem sim. Estudar e traduzir aquele maldito livro o mais rápido possível. E proteger essas crianças. Draco tem razão, Sarah. Quando ele voltar não vai haver piedade. Nossas vidas e a paz do nosso mundo dependem de manter aqueles bebês em segurança, a qualquer preço.



*********

O silêncio tinha nome: Molly Weasley. Graças a ela a casa finalmente mergulhara numa calma que parecia impossível à meia hora atrás. Todos os Weasley foram enviados para as suas casas sem chance de reclamação. Nem mesmo Rony e Hermione ela permitiu que ficassem.

– Amanhã – disse firme tocando-os em direção à lareira – vocês podem ficar aqui amanhã. Deixem Harry descansar e curtir um pouco a família dele. A Gina não vai acordar tão cedo e tão pouco os bebês.

– Mas, mãe...

– Sem “mas”, Ronald. Já vamos ficar eu e seu pai aqui. Se eles precisarem, eu sei o bastante para cuidar de uma tropa de recém-nascidos. Agora, vai!

Rony ainda tentou apelar para Hermione, mas por algum motivo ela pareceu concordar com a sogra. Trocou um olhar caloroso com Harry e depois pegou da mão de Rony.

– Rony, é melhor assim. Amanhã nós viemos.

Rony trocou com Hermione o que pareceu a Harry um diálogo mudo e depois deu um sorriso resignado. Com cuidado, pegou Sirius adormecido dos braços da mulher. O menino estava da vez maior e parecia que Mione fazia muito esforço para erguê-lo.

– Tem razão. É melhor assim – virou-se para Harry que olhava a debandada, encostado no batente da escada. – Até amanhã, companheiro.

Harry não via nenhum mal em Rony e Hermione ficarem, afinal, não era raro eles virem dormir ali e os quatro ficarem conversando até a madrugada. Mas as palavras da Sra. Weasley lhe haviam despertado um instinto egoísta. Ele realmente queria ficar com a sua família naquele momento. Mas queria Gina, Lyan e Joanne só para ele. Sorriu e acenou para os dois melhores amigos e o afilhado.

Quando finalmente todos haviam partido, ele se despediu do Sr. e da Sra. Weasley, que ficariam no quarto de hóspedes, e subiu em direção ao seu quarto.

– Chame se precisar, querido! – Ainda ouviu a Sra. Weasley dizer, antes que ele fechasse a porta.

O quarto parecia quase igual ao que sempre fora, mas, na mente de Harry, ele também absolutamente transformado depois de tudo o que acontecera ali naquela noite. Gina estava profundamente adormecida na cama de casal e Hermione havia preparado colchão no chão para que Harry não a incomodasse. Ao lado da cama, dois berços pequenos, onde os gêmeos também dormiam. Alicia colocara algumas proteções mágicas extras pelo fato de serem prematuros e qualquer coisa diferente bastaria chamar pela Sra. Weasley. Como Harry não tinha a menor intenção de dormir, a cama no chão era desnecessária e os observadores mágicos de Alicia estariam um passo atrás dele, porque Harry não pretendia sequer tirar os olhos dos filhos. Não por aquela noite. Talvez nunca.

Ele se sentou numa pontinha da cama e escorou os braços sobre a beirada do berço. Nem podia acreditar que eles estavam ali. Tinha vontade de tocá-los para ver se eram de verdade e, ao mesmo tempo, tinha medo de que fossem quebrar. Joanne parecia uma boneca de tão delicada. Quase não tinha cabelo, apenas uma penugem suave cobria a cabecinha e não havia a menor dúvida de que aqueles fios bem fininhos eram de um vermelho flamejante. E, mesmo sendo tão pequena, Harry quase adivinhava, apenas pela forma da boca, que ela teria o mesmo sorriso de Gina.

– Fico feliz que tenha tantos primos, mocinha – ele falou bem baixinho. – Porque você vai dar muito trabalho. E seu irmão e eu vamos precisar de ajuda para afastar os seus pretendentes – ele riu. – Mas não conte para sua mãe que eu disse isso, ok? Ela me mata.

Harry esticou o olhar para o berço ao lado, onde Lyan dormia completamente esparramado com os braços acima do corpo. Os cabelos escuros, já em revolta, se espalhando sobre o travesseiro. “Vocês Potters são a falência das fábricas de pentes”, tinha dito Jorge quando viu o menino. Harry riu, o bebê certamente lembrava a si próprio, mas ele tinha certeza de que nunca tinha sido tão bonito. Esticou o braço e fez um pequeno carinho em cada um. Eles eram tão perfeitos. “Cinco dedinhos em cada mão e em cada pé”, dissera Gina entre satisfeita e aliviada, “eu mesma contei”.

Se ainda havia algum questionamento em algum canto escondido da cabeça dele sobre porque seus pais tinham dado a vida por ele, agora não havia mais. Aqueles dois seresinhos eram a resposta mais eloqüente para qualquer pergunta sobre o porquê de Tiago e Lílian terem feito o que fizeram. Harry pusera seus olhos sobre eles há pouco mais de três horas, mas eles já tinham toda a sua atenção e seu interesse. Faria qualquer coisa por aqueles dois. Qualquer coisa.

Gina se mexeu na cama e Harry virou-se para olhá-la. O rosto ainda parecia cansado, os cabelos presos numa trança semi-desfeita, os lábios um pouco ressacados depois de tanto esforço. Ela estava absolutamente linda. Harry não resistiu, fez a volta na cama e lentamente, fazendo um esforço enorme para não acordá-la, ele se deitou ao lado da esposa, espremido num cantinho para não incomodá-la. Ficou ali, olhando para ela e para os dois bebês. Sua família. O som e o significado davam uma sensação morna no corpo todo. Uma sensação muito, mas muito boa mesmo. Ele deixou a cabeça cair sobre o travesseiro. Estava cansado, mas não queria dormir. Queria ficar ali, apenas olhando para os três por toda a noite.

– Amo você – sussurrou para Gina antes que o cansaço finalmente o fizesse fechar os olhos e adormecer.


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N/A: ALELUIAAAAA!!!!
Gente, antes de tudo, mil desculpas pela demora. Foi completamente alheio à minha vontade. Para aqueles que leram o meu aviso aqui e lá na comunidade do Orkut e entenderam a situação meu muitíssimo obrigado. As mensagens de apoio de todos foram muito importantes e me fizerem roubar cada minutinho que eu tinha para escrever este capítulo. Acreditem ou não, eu tb sinto muita falta quando não consigo escrever e consequentemente postar um capítulo.

E aí? Gostaram?

Eu preparei uma surpresinha para recompensar vocês pela espera e espero que gostem. Pedi uma ajuda para o Colin, mas infelizmente, vcs sabem como são estes aparelhos trouxas, não consegui colocar uma foto bruxa, mas acho que vcs vão gostar do mesmo jeito.

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Lyan
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Joanne
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Tenho outras e das outras crianças Weasley tb. Vou colocar os endereços lá na comunidade para que vocês possam vê-los. Não é chantagem para entrarem, ok. Vcs podem acessar o link sem ser da comunidade. Mas se entrarem, tb fico feliz :D


Agora os agradecimentos pessoais.

Geia: Aí estão os babys, querida, com fotinho e tudo :D E foi tudo bem no parto, viu? Infelizmente não posso aplacar as suas outras preocupações, mas indico chá de camomila tb, hihi. Beijos amiga. Muitas, mas muitas saudades de vc!

Kika: :D NASCERAM!!! Gostou? Aí estão eles, mais lindinhos impossível!! Mas em perigo... tsc, tsc.. eu não tomo jeito. Vou prender minhas orelhas no forno  Obrigada pelo carinho de sempre, querida!

Charlotte Ravenclaw: Concordo com a Gina jamais ia querer alguma coisa com o nojento do Draco. Acho que é até melhor dois Dracos voando que um Harry na mão, hihi. E vc está certa quanto ao resto. *silêncio*E prometo que ainda faço uma longa cena Rony e Mione para vc, ok? Bjão!

Érica: Bem, acho que devo desculpas pela demora, não é? Obrigada pelos elogios e pela história da fila da imaginação, hihi, ri muito. Quanto a outras fics como a My Girl depois desta, idéias não faltam, o problema é tempo. Mas logo eu dou um jeito nisso. Um beijo enorme!

Molly: Aí estão, Molly. Pode respirar e afofar os potterzinhos hehe. Obrigada pelo carinho de sempre. Adoro as suas reviws! Beijão!

Sônia Sag: Eu sei.. eu sei... pode brigar comigo, mas tentei ser o melhor possível. Eu juro! Beijos, amiga. Tb te adoro!

Regina McGonagall: Ehhhh!!! Sarah é tudoooo!! Muitas palmas para a sua filhota, querida. Desculpe eu estar abusando dela, mas fazer o que, a mocinha é espaçosa e já chegou mandando meus dedinhos escreverem muito sobre ela. Obrigada pela generosidade. Beijos!

Jaline Gilioti: Obrigada de verdade, Jaline. Por todos os elogios. Fiquei muito lisonjeada com tudo o que vc disse, ainda mais vc dizendo ser tão exigente. É uma felicidade escrever para leitores assim. Um beijo grande!

Gina W. Potter: Vc merece, querida, além disso, eu amei escrever :D Obrigada pelo apoio e a compreensão, sempre. É muito bom receber todo esse carinho. Um beijo enorme!

Lili N.: Obrigada mesmo, Lili. Olha, não fui na sua fic pq meu tempo está mais do que contado e só tenho conseguido ler à conta gotas. Olha só o que aconteceu com esse capítulo. Levei um mês para postar de novo e eu queria ter feito isso muito antes. Mas vou lá, sim. Eu gosto muito do que vc escreve e tb amo R/Hr. Beijão!

Belzinha: Tb acho que aquela briga estava entalada na garganta, Bel. Não podia ser de outro jeito. Valeu por todos os elogios, amiga. Fico sempre feliz quando vc gosta, espero que a parte do Orfanato tenha ficado à altura da sua imaginação. Obrigada mesmo. Beijão!

Bruna Perazolo: Muito obrigada mesmo, querida! Juro que estou tentando manter os níveis de maldade sob controle, viu? Quanto ao hector, acho que o garoto vai acabar tendo uma comunidade só dele. Ô menino para ter mel. Ups, saiu um trocadilho infame aqui, hehe. Beijão querida!

MárciaM: Ahh eu não sou tão má assim, Márcia :D Só um pouquinho, hehe. Obrigada e beijos!

Lize Lupin: Vc é um doce, Lize. Obrigada mesmo! Sim, eu acho D/G uma impossibilidade física hihi. Bem, aí estão os gêmeos, mas não sei se serem capricornianos é melhor do que serem arianos, hehe. Minha mana tb é de áries e tb é uma peste. :D Bj.

Bernardo: Brigadão, Bernardo. Tb acho o Malfoy desprezível. Adorei falar com vc. Beijos!

Priscila: Que bom que gostou, Pri. Eu tb adoro ver o Draco “quebrar a cara”, hehe. Quanto ao dia e a hora exatos do nascimento dos bebês, vou ter de fazer um suspensisinho até o próximo. Mas tem razão de ser, ok? Beijos!

Mayana Sodré: :D É sempre bom ouvir/ler isso de novo Mayana. Obrigada mesmo. Desculpe a demora. Bjs!

Grazi DSM: “Eu queria ser a Winky”, hahahahaha. Eu preferia ser a Mione mesmo, hihi. Bem, o trabalho de parto demorou, mas os lindinhos estão aí. Quanto a Danna, Hector, Mel e companhia aguarde o próximo. Eles vem com tudo! Feitisally??? Quer me matar de rir, mulher??? Beijão, querida!

Torcatto: Que bom que vc gostou. Espero que tenha gostado deste tb e dos pimpolhos, claro. Acho que eu estou me sentindo meio mãe, hihi. Ai que alguém diga que têm cara de joelho! Beijão!

Andressa: Obrigada pelos elogios, Andressa. É bom saber que vc continua lendo e gostando. Um beijão!

Glauce: Deus do céu, NÃO! Não quero nenhum leitor morrendo. É difícil conquistá-los, perder um de vcs seria uma tragédia, huahuahua. Obrigada pelos elogios, Glauce. Vou tentar demorar menos! Bj.

Nathok: Bem, acho que Hector e fazer nada não combinam não é. Ele bem que vai tentar obedecer ao pai. Eu disse “tentar”, mas não com muito afinco, hihi. Bjs!

Morgana Black: Sim, sim, crianças não apóiem a violência, mas apenas para comentar... eu escrevi aquela cena com o punho fechado (hehe, era EU dando aquele soco). Quanto a sua short, ela está sendo gestada, viu? Vai sair assim que meu tempo se abrir. Obrigada sempre, Morg. Te adoro!

Clow Reed: É querido, uma pena que meu tempo ao invés de aumentar diminui, mas... enquanto vcs tiverem paciência, eu vou escrevendo. Espero que tenha gostado. Tentei não ser muito má nesse, tá? Beijão!

Daniella Granger: Brigadão Daniella. È sempre bom quando alguém novo entra e comenta que está gostando. Desculpe a demora na atualização. Beijos.

Igor Potter: Valeu, Igor! Que bom que vc continua gostando.

Guida Potter: Muito obrigada, Guida. Ter vontade de reler é um tremendo elogio, viu? Fiquei toda prosa. Beijos!

Sô: Minha idéia é... ahh bem que eu poderia contar, mas não vou, hehe. Mas acredite, está tudo amarradinho, viu? Beijos!

Dani Miwa: Valeu Dani. Espero que continue gostando. Beijos!

Doug Potter: Muito obrigada, mesmo Doug. Que bom que tenho conseguido me menter no nível das exigências de vcs. Como eu disse, eu tinha planejado 25 capítulos, mas tenho uma narração lenta, começo a escrever e me empolgo... aí, não a menor idéia do número final de capítulos apesar de saber exatamente o que vai acontecer ><. É isso! Bjs!

Carolshimi: Eu quero um vira-tempo, eu queroooo!!! Obrigada pelo apoio sempre, Carol! E pelo carinho tb. Te adoro. Beijos!

Luna Weasley: Como vc adivinhou sobre o editor, huahuahua!! Mas não me odeie, não. Juro que tudo tem um propósito, viu? Tb estou com saudades, mas meu tempo de msn está menor do que nunca  Beijos!

Lamarck: Está aqui! Obrigada pela leitura!

Natiandre: Ahh pensei um monte em vc no dia que recebi esse coment. Eu realmente queria postar naquele dia, mas foi exatamente quando as coisas entraram em órbita por aqui. De qualquer forma, se ainda estiver valendo. Feliz Aniversário!!!

Victor Farias: Obrigada pelos elogios, Victor. E tb pelo carinho que vc sempre demonstra comigo. Olha, ainda não deu para ir na suia fic, mas vou ver se me atualizo esta semana, ok? Beijo grande!

Srtáh Míííhh: :D!! Eu tb amo o shipper Ana e Carlinhos. Sério, acho até estranho quando os ficwriters dão outras namoradas para ele. Ele é da Ana!! Desculpe a demora, viu? E obrigada pelos elogios que vc deixou nesta e nas outras fics. Beijão!

Rosy Paula da Silva: Puxaaaa... Não se preocupe, não. Eu vou respondendo os comentários quando chegam e só colo quando o capítulo está pronto. É que eu simplesmente adoro conversar com cada uma das pessoas que deixa um comentariozinho aqui. Obrigada pelos elogios e desculpe a demora, ok? Beijos!

Natinha Weasley: Nossa :D Olha o meu sorrisão. Fico feliz de vc ter dito que leu todas. Eu gosto muito das outras tb, embora o Retorno seja um projeto mais ambicioso. Que bom que esta fic e as outras não decepcionam. Obrigada mesmo! Bjs!

Arwen Potter: Desculpe a demora, Arwen, mas foi fora do meu poder e da minha vontade. Espero que tenha gostado do capítulo. Beijão!

Ana Luisa Potter: Atualizei! Atualizei! Atualizei! Atualizei! Atualizei!

Drika Granger: Tá aqui o 27, Drika. Muito obrigada pelo carinho e pela compreensão. Vou fazer tudo para o 28 vir o mais rápido possível, viu? Beijão!

Ribeiro: Que bom que vc gostou. Eu tb adoro a Ana, e não vou azarar vc, mas só que ela não é minha  A Ana é da Belzinha que tem fics fantásticas aqui na Floreios. Fala com ela. Tenho certeza de que ela vai gostar de ver a filha voando por aí. Vou na sua fi assim que der, ok? Um beijo grande!

Paty Black: PATRÍCIA!!! Vc demora para vir aqui e ainda briga comigo... tsc, tsc... ainda mais alguém com o telhado de vidro como a senhora, não é? Vamos ver no fim das contas QUEM anda merecendo maldições imperdoáveis... hem, hem. Tb te adoro, linda! Mas vc é muito pior do que eu, hihi.


Beijo grande para todos e até o próximo!
Prometo fazer tudo para não demorar tanto.

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