O "Modo Weasley"



Capítulo 17



O “Modo Weasley”



Não foi nada fácil achar o caminho de volta por entre o labirinto de espelhos, Harry teve de parar pelo menos duas vezes e executar o Feitiço dos Quatro Pontos para achar a saída. Sentia-se cansado e dolorido, mas não conseguia conter a euforia de ter nas mãos o Livro de Fausto. Saber que agora poderia antecipar os passos de seus inimigos dava-lhe uma sensação boa de ter um terreno firme sob os pés. Quando finalmente conseguiu sair do meio dos espelhos avistou Rony ainda sentado nos degraus da escada à entrada do Salão. O amigo pareceu respirar aliviado quando Harry saiu de sob a capa de invisibilidade.

– Até que enfim! – Disse Rony levantando e indo ao seu encontro. – Cara, eu já estava começando a ficar preocupado. E aí, como foi?

Harry estendeu para ele o livro de capa negra.

– É esse aí...? – Perguntou Rony assombrado, contemplando o livro, mas sem fazer nenhuma menção de pegá-lo. – Como foi que você...? Estava no Espelho de Ojesed? Como a Pedra Filosofal?

– Sim e não. Dumbledore estava no Espelho de Ojesed e o livro estava em outro. – Rony pareceu ainda mais admirado e confuso. Harry riu. – Olha, vou contar tudo com detalhes, mas é melhor esperar estarmos os quatro juntos, aí eu conto uma vez só, ok?

– Ok – concordou Rony. – Nesse caso, vamos sair logo daqui. A gente não almoçou e eu estou morrendo de fome.

Harry deu um sorrisinho divertido. Já tinha localizado uma bandeja e uma jarra vazias sobre a escada. Sinal que Rony tinha conjurado um lanchinho enquanto esperava. Pensando bem, ele também estava com muita fome. Na verdade, estava com um apetite que não tinha há semanas. Mas nada ocupava com mais força a sua mente que a necessidade de encontrar Gina.

Rony deu um sumiço nos restos mortais do lanche depois de oferecer um último sanduíche de carne para Harry, que o engoliu praticamente inteiro. Os dois deixaram a sala e passaram pelas sebes que, apesar de farfalharem ruidosas, não pareceram atrever-se a atacá-los novamente. Harry teve o cuidado de refazer, com a ajuda de Rony, todos os feitiços anti-intrusos que Dumbledore havia colocado ali. O mais complicado foi o Mimoso. Por sorte, o bicho estava vivo. Rony, no entanto, discordou violentamente do uso da palavra “sorte” nesse caso. Na última sala, a que se ligava ao corredor do lado direito do terceiro andar, Harry pegou a capa rasgada de Rony que eles haviam abandonado ali e enrolou o livro cuidadosamente. Achou que seria melhor não andar com ele à mostra por Hogwarts e pediu intimamente para que os corredores estivessem mais vazios desta vez. Quando os dois finalmente saíram para a área das escadas estavam de excelente humor e francamente aliviados. Pelo sol pálido de outono que entrava pelas janelas, eles calcularam que já devia ter passado das três da tarde.

– Para onde vamos? – Perguntou Rony.

– Acho que para a sala da McGonagall – respondeu Harry – podemos pedir para ela chamar as garotas e aí eu conto tudo o que aconteceu e poderemos tentar abrir o fecho do livro.

A segunda idéia não pareceu ser tão agradável à Rony quanto a primeira. A expressão levemente desconfortável do amigo deixava bem claro que depois de tudo o que haviam dito dos tais rituais, saber detalhes não era algo que lhe parecesse convidativo. Logo após subirem o lance de escadas para o quarto andar de dois em dois degraus é que encontraram o primeiro grupinho de alunos. Harry praguejou mentalmente. Não estava com a mínima disposição para agüentar pedidos de autógrafos e fotos. Não que normalmente tivesse, mas cansado e com pressa, a perspectiva parecia ainda pior. O grupo, porém, manteve distância, mas só quando ele percebeu o rosto meio chocado dos garotos foi que se deu conta de que Rony e ele não deviam estar nada apresentáveis. Deu uma olhada geral em si mesmo e no amigo, que parecia ter tido exatamente o mesmo pensamento. As vestes de ambos estavam rasgadas em diversos pontos, havia marcas de vermelhas do sangue escorrido dos inúmeros pequenos cortes e marcas verdes dos galhos e folhas das sebes, além do que, Rony, visivelmente, mancava por causa da perna cortada.

Apesar da aparência nada recomendável dos dois, Harry começou a achar, depois de passarem por mais uma quantidade de pequenas aglomerações de estudantes, que os grupinhos estavam quietos demais. Além disso, era estranho ver tantos alunos nos corredores do castelo, quando eles costumavam, em geral, ir para o pátio ou ficar nas salas comunais. Não podiam estar todos ali simplesmente esperando que um deles aparecesse. Harry começou a achar também que, embora os garotos os olhassem admirados e um pouco assustados, pareciam que já estavam ali por algum outro motivo. A idéia foi reforçada ao perceber que alguns fantasmas também estavam parados por ali, uns juntos, outros conversando com os alunos.

– Mione! – Rony exclamou feliz do seu lado e Harry viu a amiga correndo em direção a eles, os cabelos castanhos cheios balançando em torno dos ombros. A garota se grudou no pescoço dos dois com tanta força que quase os desequilibrou, mesmo eles sendo bem maiores do que ela.

– Graças a Deus! Eu quase morri de aflição! – Falou com a voz esganiçada, dando um beijo na bochecha de Harry e outro na boca de Rony. Em seguida se afastou e começou a apalpar os dois no peito e nos braços como que para se certificar de que estavam inteiros. – Vocês estão bem? Estão machucados? – Ela grudou os olhos num corte na testa de Rony. – O que foi isso?

Cutucou com o dedo e Rony fez uma careta de dor.

– Hermione, por favor – reclamou o marido.

– O que houve com a sua perna, Rony? – Perguntou continuando o exame dos cortes sem lhe dar atenção. Em cada pergunta a voz dela saia mais alta e esganiçada.

– Mione, calma! – Falou Harry tentando fazer com que a amiga baixasse a voz, pois os estudantes no corredor estavam parecendo adorar o espetáculo.

– É... a gente tá legal. São só uns arranhões e...

– Arranhões? Vocês chegam aqui nesse estado deplorável e me dizem que são só arranhões?

Hermione falava rápido e a voz continuava a subir oitavas, enquanto prosseguia esquadrinhando as manchas de sangue nas roupas de Rony que, visivelmente, tinha se machucado mais na luta com as sebes. Harry achou melhor cortá-la antes que ela tomasse mais embalo.

– Cadê a Gina, Mione?

A garota pareceu ter recebido um balde de água fria. Virou para o amigo com uma expressão preocupada.

– Ela está bem, Harry! – Falou com pressa, com aquele tom de “se acalme” que, sem querer, acaba dizendo “fique nervoso”.

– O que houve? – Harry e Rony quase pularam em cima dela. Harry percebeu pelo canto dos olhos que os alunos à volta deles acompanhavam tudo com grande atenção.

– Não foi nada... de verdade – Hermione torcia as mãos nervosamente. – Ela... ela desmaiou na biblioteca e...

– Onde ela está Hermione? – Harry falou com urgência, segurando com força no braço da amiga.

– Na Ala Hospi...

Harry não precisou ouvir o fim. Empurrou o livro, enrolado na capa, nas mãos de Rony e saiu correndo em direção à enfermaria da escola. Ele notou que por onde passava os estudantes que apinhavam os corredores abriam espaço como se soubessem aonde ele ia. Mesmo Pirraça, que estava em um dos corredores jogando bolas de lama nos alunos, só fez um “Ohooo...” quando ele passou, mas não se colocou na sua frente nem tentou atingi-lo. Como Harry sabia que sentido de conveniência não era bem algo que se aplicasse ao irritante poltergeist pensou que, provavelmente, Pirraça tinha péssimas lembranças da vez em que Harry realmente perdera a paciência com ele em seu sétimo ano. Lembrava do homenzinho de roupa vermelha todo desconjuntado como um quebra-cabeças mal montado, a língua travada, uivando de ódio e Rony caçoando: “se fosse você eu evitava o Potter Pirado quando ele está com raiva Pirraça, ele fica com uma tendência horrível a explodir as coisas”.

Mais tarde Hermione lhe contaria que a notícia de que Gina Potter tinha desmaiado na biblioteca e sido levada sem sentidos para a Ala Hospitalar pelo monitor-chefe se espalhou com uma rapidez assombrosa até para os padrões de Hogwarts. Todos estavam ali para saber o que tinha acontecido. O fato de Harry e Rony não terem aparecido imediatamente, só tinha contribuído para aumentar o falatório. Tampouco ajudou para diminuir a curiosidade dos alunos os dois terem surgido, horas depois, parecendo não saber de nada, com cara e roupas de quem tinha acabado de sair de uma luta com trasgos.

Mesmo na porta da enfermaria havia um grupo bem grande de pessoas. Hagrid e McGonagall estavam ali conversando em voz baixa. Perto deles, sentados, com carinhas assustadas, estava um grupo de crianças menores, no qual Harry reconheceu Hector, Mel e Joshua. Hagrid se adiantou e o fez parar pegando-o pelos dois braços.

– Calma rapaz! Ela está bem!

– Ótimo – disse tentando inutilmente se livrar das mãos do amigo, que eram ainda maiores que os seus braços. – Mas quero ver isso com os meus próprios olhos! Me deixa passar, Hagrid!

– Vou deixar – falou Hagrid no mesmo tom – apenas não vou deixar você entrar correndo na Ala Hospitalar como um louco. Gina não vai ficar melhor se o vir assim.

– Hagrid tem razão, Potter! – A professora McGonagall interviu num tom severo. – Sua mulher já foi medicada e está bem, acredite. Ninguém aqui está mentido para você.

Harry soltou o ar e parou de fazer força para se soltar, já que esse parecia ser o único jeito deles o deixarem entrar rápido. Hagrid lhe deu um sorriso compreensivo e uns tapinhas no braço, que quase o desequilibraram.

– Hã... Hagrid, Professora... – falou ofegante, passando a mão pelos cabelos já muito bagunçados, buscando calma para manter um diálogo nem sabia onde – será que vocês poderiam mandar esse pessoal sair daqui e dar uma volta? – ele lançou um olhar irritado para os grupos de alunos parados no andar.

Os dois assentiram e a Profa. McGonagall saiu com eficiência já empurrando os alunos mais próximos para fora do corredor. Hagrid finalmente o soltou.

– Agora vá!

Harry virou-se para a porta da enfermaria, mas antes de entrar pode ver os olhinhos apreensivos de Hector, Mel, Josh e os dois amigos que os acompanhavam. Eles pareciam temer serem expulsos dali e Harry lembrou que, diferente dos outros alunos, pelo menos aquelas três crianças tinham uma ligação próxima com eles. Conheciam Hector e Josh desde que eram bebês e Mel... bem, Mel era da família, e Harry sabia que a menina tinha verdadeira adoração por Gina. Abaixou-se para ficar na altura deles.

– Assim que estiver tudo certo eu mando avisar vocês, ok? – Os cinco confirmaram encantados e Harry lhes deu uma piscadela de olho antes de entrar.

Não tinha dado três passos dentro da enfermaria quando Madame Pomfrey surgiu na sua frente como se tivesse brotado do chão. Harry estava começando a perder a paciência.

– Cadê a Gina, Madame Pomfrey? – Perguntou ansioso sem ao menos cumprimentá-la.

– Acalme-se, Potter – ralhou ela – sua mulher está descansando. Ela está bem!

– Já ouvi isso de quatro pessoas diferentes, Madame Pomfrey. Porque vocês não param de mandar eu me acalmar e me deixam ver a Gina! Ou, ao menos, me digam o que foi que aconteceu?

A enfermeira fez um muxoxo indignado, pois a voz de Harry ia aumentando na medida em que ele falava.

– Sempre achei você um paciente rebelde, Potter – ela cruzou as mãos na frente do avental – mas francamente, você é ainda pior fora da cama.

Harry gostava muito de Madame Pomfrey, mas já estava começando a achar que se ela não saísse da sua frente ia azará-la para poder chegar até Gina. Até parecia que estavam escondendo a sua mulher dele. Felizmente isso não foi necessário. A velha enfermeira de Hogwarts virou-se de costas e fez um sinal para que ele a acompanhasse até uma cama no final da enfermaria e que estava oculta por um cortinado.

Ela abriu espaço para Harry passar. Gina estava deitada, muita pálida, embora os lábios estivessem vermelhos, os olhos fechados, os cabelos ruivos contrastando com o lençol branco. Ele sentou na beirada da cama, mas não a tocou com medo que ela despertasse. Gina, porém, abriu os olhos devagar, assim que sentiu o peso dele na cama.

– Você demorou – falou num murmúrio.

– Quer me matar de preocupação, garota? – Ele pegou a mão dela, deu um beijo carinhoso na palma e a colocou sobre seu colo, depois se inclinou e lhe deu outro beijo nos lábios. Ficou debruçado sobre ela, acariciando a volta dos cabelos sobre a testa, olhando-a atento.

– Foi exatamente a intenção que cruzou minha mente um segundo antes de desmaiar – falou Gina com um sorriso zombeteiro e sonolento.

Harry não riu, continuou a olhar para ela do mesmo jeito preocupado.

– O que aconteceu?

Gina deu um sorriso lento e feliz, como se tivesse uma grande novidade para contar, mas antes que ela respondesse, Madame Pomfrey abriu o cortinado e entrou carregando uma bandeja cheia de poções.

– Me dê espaço, Potter. Essa menina tem que tomar umas poções agora.

Harry saiu de sobre a cama e ajudou Gina a sentar. Naquele minuto, Rony e Hermione entraram na enfermaria. Rony trazia num braço, enrolado na capa, o Livro de Fausto e com o outro se apoiava na mulher, ainda mancando. Fato que não passou despercebido nem de Gina, nem de Madame Pomfrey.

– Você se machucou? – Perguntou a garota ao irmão, que apenas fez um gesto de que estava tudo bem antes de sentar em uma cadeira próxima.

– Mérlin nos proteja! Vocês dois continuam os mesmos – exasperou-se Madame Pomfrey enquanto servia um cálice com um líquido azul fumegante e dava para Gina. – Beba tudo! E você menino... vou ter de dar uma olhada nessa perna. Onde foi que vocês dois se meteram para voltarem nesse estado? Eu achava que quando ficassem adultos seriam mais cuidadosos.

Harry, Rony e Hermione trocaram olhares. Era provável que, assim como eles, Madame Pomfrey também tivesse a impressão de que passara pelo menos metade da vida remendando um deles ou todos ao mesmo tempo. A curandeira serviu mais um cálice, agora com um líquido púrpura e viscoso, e substituiu o que Gina tinha acabado de entornar com uma careta mandando-a beber de novo a poção até o fim. A ruiva virou o segundo cálice, mas desta vez fez uma cara de gosto.

– Essa não é ruim – comentou.

– Essa é para os bebês – respondeu Madame Pomfrey de um jeito doce. – Agora descanse. Vou pegar os curativos para a perna do seu irmão – e saiu.

Harry piscou os olhos, confuso. Ela tinha dito bebês? Procurou o olhar de Gina. A garota mordia o lábio inferior esperando a reação dele. Harry se virou para Hermione e a amiga sorria exultante. Rony, porém, parecia tão apatetado quanto ele.

– Bebês? – Perguntou se aproximando de novo da mulher. Gina balançou a cabeça várias vezes rindo. – Mas como? De que jeito?

– Ora, de que jeito, Harry? – Disse Hermione quase gargalhando. – Do mesmo jeito que a gente faz UM bebê. Só que vocês fizeram mais de um.

Harry achou por um segundo que ia explodir. Olhava de um para outro sem saber se ria ou se chorava. Na verdade, estava era com vontade de gritar de felicidade. Se jogou sobre Gina, tomando-a nos braços e a cobrindo de beijos onde seus lábios tocassem, ouvindo a risada maravilhosa dela tilintar nos seus ouvidos.

– Potter! Acalme-se – Madame Pomfrey voltara, mas desta vez não conseguiu ralhar com ele com a mesma autoridade. A bruxa também estava sorrindo de orelha a orelha.

– A senhora tem certeza disso, Madame Pomfrey? – Harry perguntou soltando Gina um pouco ainda sem acreditar.

– Claro que tenho menino. Eu não sei quem vocês andaram consultando no St. Mungus... Esses curandeiros de hoje, unfh... – fez um gesto exasperado largando a bandeja com os curativos para Rony sobre uma mesinha. – Mas não tenho dúvida, são dois, Potter. Gêmeos.

– E temos aqui, senhoras e senhores, o vencedor do prêmio Weasley de produção em série – Rony falou com uma voz falsamente pomposa e depois caiu na risada junto com Hermione. – Fred e Jorge vão ficar passados.

Harry também ria, na verdade, tinha vontade de gargalhar. Dois. Teria dois filhos de uma vez só! Deu um beijo na barriga de Gina. Um não, dois... e depois tomou Madame Pomfrey nos braços e saiu numa imitação ridícula de uma valsa.

– Tenha modos rapaz – a curandeira lhe dava tapinhas, mas também ria. Harry parou, mas não sem antes dar um beijo estalado na bochecha da bruxa, que corou e deu-lhe outro tapinha. – Você é impossível, Potter! Às vezes fica igualzinho ao seu pai... – por um instante os risos se transformaram em sorrisos. – Venha Weasley, vamos ver essa perna. E você venha me ajudar Hermione.

Rony se apoiou em Hermione e os dois seguiram Madame Pomfrey para uma maca ao lado. Harry voltou a se sentar junto de Gina.

– Eu te amo, sabia? – falou num tom baixo e rouco.

– Sabia – Gina respondeu com um sorriso provocante que ele fez sumir com um beijo tão longo e lento que Madame Pomfrey teve de fazer vários “hem-hem” antes que eles se separassem.

– Vai dar tudo certo, Gi – falou escorando a testa na dela. – Achamos o livro!

Dessa vez foi Gina que pulou no pescoço dele.

– Meu bom Mérlin! Finalmente! – As palavras saíram cheias de alivio.

Harry a estreitou nos braços com mais força e os dois ficaram abraçados por um bom tempo até que Gina se afastou sorrindo e se recostando novamente nos travesseiros.

– Parece que hoje é o nosso dia de sorte, então – Harry a olhou inquisitivo. – Estava lendo esse livro quando desmaiei – disse apontando um grosso volume cinzento que Harry não havia notado estar sobre a mesinha de cabeceira. – Pedi para a Hermione trazê-lo para mim quando acordei.

Harry sentiu seu sorriso e a felicidade leve que sentia evaporarem-se na mesma velocidade. Pegou o livro, leu o título e gostou menos ainda da nova informação.

– Em que parte o fato de você desmaiar ao ler um livro é sorte? – Sentiu que a voz saiu com um tom quase zangado, mas não corrigiu o efeito.

– Esse livro é sobre a natureza dos sonhos – Gina explicou ignorando a súbita seriedade dele. – Quando o vi, achei que podia dizer algo sobre os pesadelos que tenho tido.

– E...?

– Bem, tem uma fórmula mágica no capítulo 12 – continuou ela, empolgada – que pode revelar a natureza do sonho que se está tendo. Sabe... se são premonitórios, visões, lembranças, traumas, medos... Eu não achei que fosse funcionar numa leitura silenciosa, mas funcionou.

– Você quer dizer que...

– Eu sei por que eu estou sonhando essas coisas, Harry! – Gina ofegou levemente. – Eu vi quando estava desmaiada.

Madame Pomfrey já havia terminado o curativo na perna de Rony e se afastado. Ele e Hermione agora estavam com os olhos pregados neles, ouvindo cada palavra da conversa. A garota mantinha a mão sobre o peito do ruivo como que para impedi-lo de levantar. Harry lançou um olhar apreensivo aos dois e notou que suas mãos tremiam um pouco quando ele devolveu o livro para a mesinha de cabeceira.

– O que você viu? – Perguntou tentando manter a voz neutra.

Gina se desencostou dos travesseiros e se aproximou dele novamente.

– São os bebês, Harry! Tenho as visões por causa deles. De alguma forma, são eles que estão tentando nos avisar o que está acontecendo.

– Você quer dizer...

– Que eu tenho essas visões por causa dos bebês. Graças aos poderes de Aradia, eles, de alguma forma, conseguem se comunicar comigo. Não me pergunte como. Eu não sei. – Gina explicava de um jeito febril. – Mas tenho certeza de que foram os bebês que pressentiram que coisas ruins estavam acontecendo e que os poderes de Aradia, que estavam adormecidos desde a derrota de Voldemort, foram o canal para que eles se comunicassem comigo pelos sonhos.

Harry considerou a idéia por alguns segundos e tornou a falar, tentando dar as palavras uma calma que realmente não sentia e falhando sem nenhum apelo. Cada uma saía num tom cada vez mais alto e perplexo, dando voz às coisas mais horríveis que vinham povoando sua mente nas últimas semanas.

– Repito: Em que parte você acha que isso tem algo de bom, Gina? Sim, porque se isso é verdade, então o Snape estava certo... Essa... digo, essas crianças são poderosas demais... Elas não deviam ter... Nós não devíamos ter... Droga!

Levantou da cama sentindo que algo borbulhava dentro dele. Mas, talvez, pela primeira vez na vida era incapaz de identificar o sentimento. Era uma mistura de raiva, tristeza, revolta e, sim, isso ele identificava muito bem, desespero. Tudo o que ele queria era uma vida normal. Uma família. Tinham tirado os seus pais antes mesmo que ele pudesse lembrar deles. Ele se tornara uma pessoa marcada antes de aprender a andar e agora parecia que seus filhos estavam, mesmo antes de nascer, carregando o peso das maldições contra as quais ele lutou a vida inteira. Enfiou decidido as mãos nos bolsos antes que socasse alguma coisa. Hermione e Rony o olhavam penalizados. Gina, porém, continuava na mesma posição, as feições endurecidas.

– A parte que acho boa, Harry, é aquela em que penso que os meus filhos não são absolutamente indefesos! A parte que acho boa, repito, é aquela em que temos informações para impedir que algo realmente ruim aconteça! Ou você preferia que somente soubéssemos dessas coisas quando nossos filhotes estivessem em perigo de verdade? E nunca... – a voz dela tremia levemente enquanto ela punha as mãos protetoramente sobre a barriga – NUNCA mais repita que eles não deviam estar aqui.

Rony e Hermione olhavam agora de um para o outro sem saber exatamente de que lado intervir. Harry sabia que os dois amigos entendiam perfeitamente o seu horror diante das palavras de Gina, mas ele conhecia suficientemente Hermione para ter certeza que naquele momento ela estava apoiando cada frase da cunhada. Respirou fundo tentando acalmar o turbilhão que aquilo havia gerado em seu peito e largou-se novamente sobre a cama de Gina.

– Eu só queria que nada disso estivesse acontecendo – disse cansado. – Por favor, não pense que eu não quero os bebês, Gi... Quero eles mais do que tudo!

Gina levou a mão aos cabelos bagunçados dele fazendo um carinho.

– Eu sei amor. Mas não adianta ficarmos lamentando essas coisas acontecerem com a gente. Se esses monstros querem trazer Voldemort de volta, com ou sem os bebês, eles vão querer se vingar da gente. Estamos no topo da lista de qualquer jeito. Temos é que fazer o possível para impedi-los e agradecer as armas que conseguimos. Além disso... bem, talvez, eles não sejam dois apenas por serem um brinde da “fábrica Weasley de produção em série” – brincou – talvez, eles sejam dois, porque isso vai dividir as coisas... Para poderem crescer como crianças normais, quero dizer, até onde crianças bruxas são normais. Talvez... sendo gêmeos, as coisas se dividam...

Harry levantou os olhos para ela, as palavras que ouvira a tão pouco tempo da imagem de Dumbledore saída do Espelho de Ojesed ecoando em sua cabeça: “a natureza é sábia, Harry, e antes do que espera ela vai lhe dar respostas muito mais satisfatórias do que as que você pode imaginar sozinho”. Seria essa a resposta de que o professor falara? Ele não sabia o que pensar, mas podia ler nos olhos de Gina uma confiança infinita que ele não conseguia ignorar. Dumbledore estava certo. Sua garota não era extraordinária por ser a sétima filha ou herdeira dos poderes de Aradia. Gina era extraordinária por coisas que iam muito além dos seus poderes de bruxa. Era impossível não embarcar na confiança que aqueles olhos transmitiam. Ela deu um sorriso terno e voltou a se recostar nos travesseiros, ao mesmo tempo em que o puxava e aninhava carinhosamente a cabeça dele sobre o peito, como se ele fosse um garotinho.

– Harry – começou Hermione, devagar – a Gina está certa. Tudo o que sabemos foi graças aos sonhos dela. Eles são a nossa vantagem.

Harry entendia. Não gostava nem um pouco, mas entendia o que as duas queriam dizer. Fez um esforço e concordou com a cabeça, sem se afastar do colo da esposa, que continuava a acariciar seu cabelo.

– Bom, acho que as crianças serem poderosas não é tão perturbador assim – falou Rony num tom de quem queria claramente desanuviar o ambiente. – Acho muito pior se meus sobrinhos herdarem o gênio de vocês dois.

Harry sorriu e depois começou a rir acompanhado de Gina e Hermione. Era um riso menos alegre do que o que havia tomado a sala há poucos minutos atrás, mas já ajudava a colocar o mundo no foco de novo. Estavam ainda assim quando a Diretora McGonagall entrou acompanhada de uma minúscula criatura escondida atrás de uma enorme bandeja transbordante de sanduíches, bolos, pernas de galinha e uma imensa jarra de suco de abóbora.

– Que bom que estão todos bem – comentou satisfeita. – Achei que como nenhum de vocês almoçou deviam estar com um pouco de fome e tomei a liberdade de pedir que um dos elfos da cozinha trouxesse uma refeição. Principalmente você, Gina, precisa se alimentar. E creio que o seu irmão já esteja a beira de um desfalecimento também, embora não esteja grávido.

– Obrigado professora – disse Harry erguendo-se do colo de Gina e tentando não olhar a careta indignada de Rony. – Eu... eu não cheguei a lhe falar que encontramos o livro.

– O Sr. Weasley me contou antes de entrar na Ala Hospitalar. Nunca duvidei que conseguiriam, Potter!

Harry sentiu como se a professora estivesse lhe dando uma nota. Tinha sempre essa sensação quando McGonagall falava com ele. Mas, dessa vez, pela satisfação no rosto dela, era uma nota alta.

– Acho que Rony e eu temos que contar o que aconteceu lá embaixo e...

– Depois, Potter! – Cortou ela com firmeza. – Vocês quatro já tiveram um dia bem cheio por hoje. Você e o Weasley precisam descansar e não creio que sua mulher deva ter mais emoções por hoje, não é mesmo Papoula? – Disse dirigindo-se para Madame Pomfrey que estava um pouco atrás.

– Sem dúvida, Minerva.

A diretora se voltou para eles com cara de quem tinha argumentos suficientes para não aceitar contestações.

– Alimentem-se, descansem e amanhã nós conversaremos sobre isso.

– Só mais uma coisa professora... A senhora poderia avisar ao Hector, a Mel e o Joshua que a Gina está bem e que se eles quiserem nos visitar mais tarde – consultou Gina que fez que sim com a cabeça – podem vir.

– Tem certeza, Potter? – A professora parecia achar que receber as crianças não se enquadrava em sua idéia de descanso, mas Harry e os outros confirmaram. – Sendo assim, mandarei avisar ao Sr. Lupin, a Srta. Warmilling e ao Sr. Schacklebolt. Mas já aviso que eles não virão sozinhos. Parece que Mel se juntou à turma do Hector e incluiu uma outra menina, Danna O’Brien, além do Sr. Bennet que já andava com ele e Joshua. Vão, certamente, querer apresentar os amigos a vocês.

– Hector Lupin está liderando um grupinho de cinco? – Perguntou Madame Pomfrey chocada. – Deus nos proteja!

Rony deu uma gargalhada. De todos os adultos, ele era provavelmente o que mais se divertia com as trapalhadas de Hector. Achava o garoto uma fonte inesgotável de diversão com sua obsessão por igualar os Marotos, os Gêmeos Weasley e o Trio em Hogwarts.

Harry notou que, ao contrário do amigo, Hermione não parecia estar ouvindo a conversa. A garota tinha os olhos fixos no elfo doméstico, que após deixar a bandeja cheia de comida sobre a mesinha entre as camas, caminhava rapidamente para se esconder atrás das vestes da diretora esperando ser dispensado. Harry estranhou o fato. Em geral, os elfos eram sempre muito gentis com ele, o consideravam um grande herói por ter vencido o Lord das Trevas e nunca deixavam de cumprimentá-lo. Mas foi só olhar com mais atenção a criaturinha que Harry a reconheceu. Era Winky. Parecia bem melhor que nas últimas vezes em que a vira. Vestia uma sainha cinza e uma blusinha da mesma cor com o emblema de Hogwarts, estava limpa e sem nenhum jeito de ter bebido. Harry olhou para Hermione, um pouco surpreso ao ver a amiga trocar olhares significativos com Minerva. Era óbvio que as duas tinham combinado alguma coisa.

– Como vai Winky? – Falou Hermione com voz alta e clara.

A elfa deu um saltinho, surpresa, e virou-se para olhar o grupo. Não pareceu gostar nada de ter sido reconhecida. Levou as mãos à barra da sainha e começou a torcê-la nervosamente antes de responder.

– Bem, senhora. Obrigada.

– Você lembra da gente, Winky?

A elfa torceu a saia um pouco mais convulsivamente e lançou olhares para Minerva que pediam claramente para ser mandada embora dali.

– Sim, senhora. A Winky lembra. Lembra do menino Harry Potter, que é amigo do Dobby, e que o Dobby agora trabalha com ele. E lembra dos seus amigos também.

Hermione saiu de cima da cama de Rony, onde estava sentada e se ajoelhou em frente a Winky para ficar na altura dos olhos da elfa. Harry percebeu que o único que não sabia o que Mione tinha em mente era ele. Rony e Gina pareciam conhecer exatamente quais eram as intenções da garota.

– Que bom que lembra – disse Hermione com doçura. – Me diga, Winky, você está feliz em Hogwarts?

A elfa lançou um olhar temeroso para McGonagall e respondeu apressada.

– Winky está sim. Winky é muito feliz em Hogwarts. A mestra McGonagall é muito boa e tem bastante trabalho e a Winky gosta muito de trabalhar.

– Ah, eu sei que gosta – disse Hermione no mesmo tom compreensivo. – Mas sabe, Winky, eu estive conversando com a diretora e ela me disse que você talvez sentisse falta de cuidar de uma família...

Winky lançou um ganido alto.

– Winky NUNCA reclamou de estar em Hogwarts. Winky é muito grata e...

– Eu tenho certeza disso – atalhou Hermione rápida – mas sabe, Winky, eu... bom, o Rony e eu temos um bebê. O nome dele é Sirius. Ele está com quase um ano agora. – Hermione puxou uma foto do bolso do casaco, olhou com um sorriso e mostrou para Winky.

Harry que começava compreender as intenções da amiga e achou que ela estava jogando baixo. Primeiro, porque os elfos são completamente derretidos com bebês. Segundo, porque ele sabia que Winky, pelo que sofrera com a perda dos Crouch, devia ter realmente saudade de cuidar de uma criança. Terceiro, ele conhecia a foto do Sirius que Hermione estava mostrando. E, como padrinho, podia afirmar que o ruivinho cercado de brinquedos e atirando beijos com a mãozinha espalmada como uma estrela estava completamente irresistível. Os olhos grandes de Winky traduziam exatamente isso. Especialmente, a última parte. Ela estendeu as mãos para pegar a foto que Hermione mostrava. Quando deu uma viradinha enternecida com a cabeça, Hermione olhou para eles os três com um sorriso triunfante.

– O Rony e eu queríamos que alguém tomasse conta dele. Alguém que fosse responsável e que pudesse protegê-lo. O Dobby tem nos ajudado muito, mas logo... bem, logo ele vai ter dois bebês para tomar conta e o Sirius – fez um gesto cheio de orgulho maternal – está ficando impossível, engatinha por tudo, quer mexer onde não deve...

– Os bebês são assim mesmo, senhora – Winky falou sorrindo sem tirar os olhos da foto.

– Pois é, e bom... tem umas coisas ruins acontecendo – Hermione fez uma expressão grave. – E o Rony e eu achamos que ninguém melhor que um elfo poderia cuidar do nosso bebê, porque, bem os elfos têm poderes e...

– Um elfo jamais deixaria que algo de ruim acontecesse a um bebê!

– Eu sei... foi por isso que pensei em conversar com você. Quero dizer, você é um elfo livre – Winky estremeceu – e sei que sente falta de estar com uma família. Você não gostaria de vir trabalhar com a gente?

Winky fixou Hermione com os olhos imensos e aquosos. Ela certamente tinha suas prevenções contra a “Libertadora de Elfos”, como muitos chamavam Hermione (o que não era propriamente um elogio), mas o jeito com que segurava a foto de Sirius mostrava que estava tentada.

– Winky é muito boa com crianças pequenas.

– Ah, eu não tenho dúvidas – Hermione estava muito satisfeita. – Você recebera um salário e todos os direitos e...

A elfa empurrou a foto de Sirius nas mãos de Hermione, ofendidíssima.

– Winky agradece, senhora, mas ela é um bom elfo e não aceita isso – afirmou taxativa.

– E se fizermos assim, Winky – Rony interviu para a surpresa de Hermione, Harry e Gina – Você vem trabalhar conosco e cuidar do Sirius. Você vai novamente PERTENCER a uma família. – A frase de Rony teve o efeito de fazer brilhar os olhos de Winky, enquanto Hermione o fuzilava, indignada. Rony se limitou a fazer um gesto para que a mulher ficasse quieta. – O problema é a que minha esposa é... um pouquinho excêntrica. No bom sentido, claro, mas ela ficaria muito ofendida se não pudesse pagar alguém que trabalhasse para ela. E você não gostaria de ofender sua senhora, não é?

Winky fez um barulhinho com a garganta e lançou um outro olhar para a foto do pequeno Sirius, que pendia nas mãos de Hermione. Harry achou que desta vez, Rony conseguira ser muito mais diplomático que Mione e que tinha escolhido as palavras certas.

– Não, claro que não – Winky voltou a mexer nervosamente na barra da saia – mas é muito feio para um elfo receber salário, meu senhor.

– Ah, mas é tão pouco, quase nada na verdade – disse Rony displicente, ignorando o olhar mortal de Hermione. – Jamais a ofenderíamos oferecendo uma quantia astronômica. Mesmo porque nós não somos ricos, sabe.

– Winky não se importa com isso, meu senhor – a elfa parecia ter simpatizado com Rony – quando Winky pertence a uma família, ela só quer fazer seu trabalho e cuidar dos seus senhores. Dinheiro não importa para um elfo doméstico.

Rony lhe deu um sorriso compreensivo e, apesar dos bufos de Hermione, ele tinha obviamente conseguido convencer Winky.

– Ótimo – arrematou McGonagall – se você aceita Winky, pode juntar suas coisas e amanhã você vai com os Weasley para a casa deles.

Winky pareceu se dar conta da presença da diretora com pavor. Estivera negociando outro emprego na frente de sua senhora.

– A senhora ficou brava com a Winky?

– Não seja boba! Estou muito satisfeita que tenha aceitado. Você é exatamente o que os Weasley precisam. Fico mais descansada se o pequeno Sirius estiver sob seus cuidados.

Winky deu um sorriso que chegou nas orelhas (o que no caso de um elfo doméstico, não era uma figura de linguagem). Agradeceu a McGonagall e a Rony – seu olhar de adoração mostrava que estava encantada com ele – e, por fim, agradeceu a Hermione. Havia uma certa condescendência na voz da elfa ao se dirigir a nova senhora, como a de quem fala com uma pessoa meio doente. Então, ela pediu licença para arrumar suas coisas, mas antes de sair lançou um olhar cobiçoso para a foto de Sirius.

– A senhora empresta a foto do bebê para a Winky? Os elfos da cozinha vão morrer de inveja da Winky ter um bebê tão lindo para cuidar...

Hermione estendeu a foto.

– É sua Winky, pode ficar.

A elfa encheu os olhos d’água e segurou a foto como se estivesse segurando o próprio bebê antes de desaparecer. A diretora aproveitou a deixa e também saiu, tinha muitas providencias para tomar. Madame Pomfrey, que estivera acompanhando a conversa também se retirou.

– PERTENCER, Rony? – Hermione pode finalmente cair em cima do marido.

– Mione, você não pode esperar que alguém te entenda se você não fala o idioma dele. Elfos não entendem leis salariais.

Rony tinha uma compreensão de coisas do mundo bruxo que a visão trouxa de Hermione nem sempre alcançava. Muito contra a vontade ela reconheceu que ele estava certo. E que se não fosse isso, provavelmente eles não teriam conseguido que Winky aceitasse tomar conta de Sirius. Coisa que a vinha preocupando desde que Ana a alertara ser necessário aumentar a proteção em torno do filho. Ela voltou a se sentar na cama de Rony, com a cara amuada.

– Está bem! Mas essa coisa de excêntrica... Ela achou que eu sou meio louca, não é?

Os outros confirmaram com a cabeça e começaram a rir. Hermione e Winky. Essa seria uma parceria interessante de acompanhar.





*******************



Já era fim da tarde de domingo quando Carlinhos e Ana aparataram na frente d’A Toca. Não tinha sido um fim de semana muito bom para os dois. Na verdade, tinha sido péssimo. Primeiro, toda aquela história dos beusclainh os tinha deixado muito abalados. Carlinhos tinha feito todo o possível para que Ana compreendesse a gravidade da situação e depois gastou o dobro do tempo para acalmá-la.

Foi aí que a briga começou. Era a primeira vez que os dois se estranhavam de verdade e estavam muitíssimo incomodados com isso. Carlinhos caminhava muito sério com as mãos nos bolsos, enquanto Ana o acompanhava com os braços cruzados na frente do corpo e a cara muito emburrada. Era óbvio que o ruivo estava evitando olhar para a mulher, mas mesmo assim, Ana resolveu fazer uma última tentativa.

– Carlinhos... – ela tentou deixar a voz o mais doce possível depois de horas de discussão – ainda tem tempo. Não faz isso.

– Nós já discutimos isso, Ana – respondeu ele seco, mas já um pouco cansado.

– Já! Mas você não me convenceu, ora pombas! – A garota bufou e deu uma corridinha para emparelhar com os passos largos dele. – Eu não sei porque você insiste em contar isso para os seus pais agora. Não vai somar nada – ela repetiu mais uma vez os argumentos. – Acho que a gente podia poupá-los disso e...

– Não, não podia... – ele não alterou a voz nem o passo. – É assim que os Weasley funcionam, Ana. Juntos. Haja o que houver. Não costumamos mentir uns para os outros, pelo menos não quando é realmente importante.

– Quem falou em mentir? – Retorquiu ela indignada. – E ninguém quer mudar o “modo Weasley” de ser, apenas acho que devíamos poupar a Molly. Carlinhos, a mãe de vocês já passou por muitas. Ela perdeu os irmãos na primeira guerra, passou quase toda a segunda achando que ia perder a família toda. Se os bruxos têm todo esse pavor dos beusclainh, como você me contou, ela vai ficar em frangalhos se souber que descobrimos que eles estão envolvidos.

– Vai ser pior se escondermos dela. Ela é forte, Ana! – Carlinhos tentou animar a voz e arriscou olhar a esposa para ver se ela parava de bufar como um hipogrifo enfurecido e entendia o seu ponto de vista.

Mas a reação dela foi apenas um muxoxo ainda mais contrafeito. Ana tinha adoração pela sogra. A Sra. Weasley a tinha praticamente a adotado desde que se conheceram e ela sabia que nada a abalava mais do que saber que suas preciosas crias estavam em perigo. Crias que, para Molly Weasley, não se restringiam apenas aos sete filhos que tinha parido. Ana sabia muito bem que Harry tinha exatamente o mesmo status dos ruivos no coração dela e que Hermione e ela eram de longe as noras favoritas. As que ela chamava de “minhas filhas”. Por isso, não conseguia se conformar de Carlinhos descobrir todas aquelas coisas horríveis e sair correndo para contar. Molly e Arthur não eram mais tão jovens. Não tinham porque preocupá-los antes de terem soluções. Para Ana, aquilo era inútil.

– O Harry não vai gostar disso! – Ela resmungou baixinho, mas de forma bem auditível.

– A mãe é minha e não do Harry! – Carlinhos mandou às favas as tentativas de paz. Não ia esconder o que estava acontecendo dos pais. De jeito nenhum. E sabia que teria o apoio dos irmãos, embora tivesse certeza que Harry e Hermione provavelmente concordariam com Ana e dariam contra. Mas, nunca tinha achado que a esposa iria resistir tão obstinadamente a idéia.

Já estavam quase na porta d’A Toca.

– Você é o homem mais teimoso que eu conheço! – Ana reclamou baixando a voz para que não a ouvisse dentro da casa.

Carlinhos bateu na porta e virou-se para encará-la.

– Você sabia disso quando casou comigo. Eu não teria esperado tanto por você se não fosse teimoso* – a resposta mal-criada foi seguida por um sorriso do tipo “agora agüenta”. Ana revirou os olhos e se deu por vencida. Mas que ela ia fazer Carlinhos ouvir umas boas do Harry, ah ia sim!

A discussão teria de parar de qualquer jeito. Assim que a porta se abriu dois braços gorduchos puxaram Carlinhos pelo pescoço para dentro da casa. Ana seguiu logo atrás, fechando a porta, enquanto a Sra. Weasley enchia de beijos o segundo filho. A garota ficou esperando os inevitáveis comentários de “como está magro”, mas Molly não os fez para Carlinhos.

– Ana, minha filha, o que é isso? Você está pele e osso, minha querida! Carlinhos – ralhou ela – essa menina não tem se alimentado?

Os dois trocaram um olhar levemente constrangido. Ainda não era o momento de contar a Molly que nada parava no estômago de Ana desde sexta-feira. Desde que Carlinhos começara a lhe mostrar os livros e explicar sobre os demônios. E, provavelmente, também não era hora de contar para o marido que uma certa visão no Beco Diagonal vinha lhe tirando a fome há algumas semanas**. Ana se limitou a dizer para a sogra.

– Eu tive uma indisposiçãozinha no fim de semana. Nada sério! Já estou ótima e pronta para comer tudo o que você colocar na minha frente. E... não, não acho que seja mais um neto chegando, ok?

Molly se encantou em achar que Ana estava enganada em relação à última frase, mas a garota preferiu cumprimentar as outras pessoas que estavam na casa, antes que a senhora Weasley começasse a tentar identificar sintomas de gravidez. A Toca estava cheia. Carlinhos tinha, ao que parece, feito uma verdadeira convocação. Ele queria discutir o assunto primeiramente com a família. O segundo passo seria colocar a Ordem da Fênix a par de tudo. Mesmo assim, Lupin e Tonks tinham sido convidados. Ana cumprimentou o Sr. Weasley, que também tinha ficado bobo ao ouvir a palavra neto, e ela novamente negou a possibilidade.

Gui estava sentado no sofá com Fred e Cátia, Jorge conversava com os três, sentado em uma cadeira ao lado. Alicia estava um pouco adiante com Fleur e as crianças. A brincadeira dos pequenos apenas aumentava a zueira na sala. Chantal, a menina de Fleur e Gui, escondia-se sob os cabelos loiros de veela e fazia caretas para o pequeno Sirius, que Rony e Hermione haviam deixado com os avós para irem a Hogwarts. Os garotos ruivos dos gêmeos, que estavam com perto de três anos – Sean, filho de Jorge e Alicia, e Kenneth, filho de Fred e Cátia – disputavam um brinquedo num pequeno conflito que logo ia resultar em choro de uma das partes ou das duas. Ana sorriu. Amava aquela casa. Ainda mais, cheia daquele jeito, e olha que faltava gente. Ela acabou indo se sentar perto das crianças, aproveitando para dar uns apertos em Sirius que lhe estendeu os bracinhos assim que a viu.

– Então, Carlinhos – falou Fred erguendo a voz assim que os cumprimentos acabaram – o que você queria falar com a gente?

– Calma, Fred, vamos esperar os outros. Rony me mandou uma coruja de Hogwarts e disse que ele, Hermione, Harry e Gina nos encontrariam aqui. Assim que eles chegarem, a gente começa.

Não passou despercebido de ninguém o tom um pouco formal usado por Carlinhos. Jorge fez uma careta e cochichou para Fred e Cátia: “acho que a coisa é séria”. A Sra Weasley vinha voltando da cozinha já com uma bandeja carregada de bolos e torradas com geléia, seguida por uma badeja flutuante com xícaras e um bule grande de chá.

– Deixa que eu te ajudo, Molly – se adiantou Tonks.

– NÃO... não precisa querida, está tudo sob controle – a senhora Weasley foi um pouco mais enfática que o necessário.

– É, Tonks... Você é visita – atalhou Cátia, levantando depressa do sofá e indo para a mesa ajudar a sogra.

Tonks não pareceu muito satisfeita e resmungou algo como “freqüentava essa casa antes de você”, mas voltou para o lado de Remo, que colocou a mão sobre os seus ombros e deu um beijo nos cabelos roxos, com um sorriso maroto.

– Mas Carlinhos – começou a senhora Weasley servindo um prato com bolo, biscoitos e torradas pingando geléia e empurrando nas mãos de Ana – além dos meninos, temos que esperar o Percy também. Ele não avisou a que horas vinha?

Se não fosse a algazarra das crianças, daria para ouvir um alfinete cair no chão da sala. Gui lançou um olhar culpado para o irmão mais novo e levantou as mãos como quem não se responsabiliza. Os gêmeos moveram-se desconfortavelmente nos assentos, mas ambos tinham expressões encorajadoras para Carlinhos. O Sr. Weasley tirou os óculos com uma expressão grave e os limpou calmamente.

– O quê? – A Sra. Weasley já tinha colocado as mãos na cintura e estava encarando o marido e os filhos esperando explicações.

– O Percy não vem, Molly! – Falou o Sr. Weasley suavemente recolocando os óculos.

– Como não vem, Artur? Ele disse que não vinha? Da outra vez...

– Eu não o chamei mamãe – atalhou Carlinhos.

A senhora Weasley considerou o filho por alguns momentos como se não estivesse entendendo bem o que ele tinha dito.

– Mas por quê? Carlinhos... meu filho, eu podia esperar isso daqueles dois – falou exasperada apontando os gêmeos – mas de você...

– Ihh, começou, a gente nem disse nada e já virou “aqueles dois” – Jorge falou em voz mais baixa para Fred.

– Shiiiii... É bom ver ela desancar o “Carlinhos perfeito” para variar. ÁAII!!

Gui tinha dado um chute na perna de Fred, que rosnou em resposta passando a mão sobre a canela atingida.

– E você é o próximo, “Monitor-chefe”!

– Mamãe... – Carlinhos levantou e foi até a Sra. Weasley, que o olhava magoada, colocando as mãos sobre os ombros dela. – É melhor a gente deixar o Percy de fora por enquanto.

– Mas, ele é irmão de vocês, Carlinhos.

– Não que a gente não faça força para esquecer disso – comentou Jorge.

A Sra. Weasley parecia já a beira das lágrimas.

– É... é exatamente isso... isso que não pode ser – ela olhava para os gêmeos – somos uma família! Eu sei que o Percy fez bobagens, mas será que vocês não podem perdoar o irmão de vocês?

– Das bobagens que ele fez a gente até perdoou, o que não dá para perdoar é o fato dele ser um palhaço cretino e babaca! – Disse Fred.

Carlinhos olhou com ferocidade para os gêmeos, mas foi Gui quem falou.

– Se vocês dois não pretendem ajudar, fiquem quietos! – Depois se levantou e foi até a mãe colocando a mão sobre os seus ombros. – Não se trata de perdoar ou não mamãe. Gostamos do Percy – Fred resmungou um “fale por você”, mas foi ignorado – apenas, achamos, o Carlinhos e eu, que talvez não seja a melhor hora dele ficar sabendo de tudo.

– Mas por quê?

– Porque não confiamos nele, mamãe! – Carlinhos disse de uma vez como se assim fosse doer menos. – Mesmo que ele tenha pedido desculpas de todas as bobagens que fez. Mesmo que ele tenha voltado a se relacionar conosco, o Percy ainda preza a carreira política dele MAIS do que qualquer outra coisa. – Ele se afastou como que para evitar o olhar cada vez mais triste da Sra. Weasley. – Estamos lidando com coisas muito sérias. Eu não quero... nenhum de nós quer que o Percy acabe por um “descuido” dizendo alguma coisa para quem não deve.

– E não confiamos naquela mulher dele também – arrematou Jorge. – Vai que ela resolve dizer o que a gente comenta aqui num “chá de caridade” ou para alguma amiga repórter de revista bruxa – fez uma careta enojada. – Ela adora aparecer em colunas sociais.

A Sra. Weasley puxou um lencinho enxugando as lágrimas que já caiam sem controle. Carlinhos e Gui pareciam sentir-se miseráveis em ter de fazer a mãe sofrer, enquanto os gêmeos davam claras mostras de que não entendiam porque ela ainda sofria pelo Percy.

– Mas a Gina é irmã dele também – ela tentou argumentar. – Ele a adora tanto quanto vocês. Vocês acham que ele não gostaria de saber que algo a está ameaçando ou que ele não nos ajudaria a protegê-la?

Os rapazes pareceram ficar ainda mais desconfortáveis. Mas quem falou foi o Sr. Weasley.

– Ninguém acha que o Percy não gosta ou não se preocupa com a Gina, Molly. O problema é que – ele pareceu buscar as palavras mais adequadas – Percy tem a tendência a achar que todos os problemas que temos tem um nome e um sobrenome: Harry Potter. Não acho que essa tendência vá melhorar se ele for informado do que vem acontecendo ou do que os meninos têm descoberto nessas investigações que vêm fazendo.

A Sra. Weasley tentou negar, mas como não conseguiu, apenas deu um soluço alto e afundou o rosto no lencinho, enquanto Gui mantinha o braço sobre os seus ombros, penalizado.

– Ele... ele não tem nada contra o Harry – falou com a voz abafada – ele me disse.

– Por acaso ele disse também – foi Fred que se levantou agora, com raiva por mãe estar chorando pelo irmão que não merecia – que no dia que Gina avisou que estava grávida, ele a chamou lá para fora e falou que ela teria de ter pulso firme para que o filho não fosse outro Harry Potter, e gostasse de chamar atenção como o pai. E que se um dia ela quisesse deixar o marido teria todo o apoio dele!

Pelos olhares chocados, poucos pareciam conhecer aquela história.

– Ele não disse isso? – Ana levantou a voz incrédula!

– Babaca! – Não se conteve Alicia.

– Esse menino senpre foi un horrorrr – falou Fleur, no mesmo tom indignado das cunhadas.

– Onde você soube disso, Fred? – Perguntou o Sr. Weasley.

– Ouvi a Gina contando para a Hermione – resmungou – aos soluços, mamãe! É por esse cara que a senhora está chorando?

A Sra. Weasley era a face do sofrimento, parecia estar revivendo os anos em que Percy estivera afastado da família. Mesmo que ele tivesse voltado, ela parecia estar tomando consciência, agora, que ele ainda estava muito longe.

– Molly – a voz apaziguadora de Remo se elevou do fundo da sala – sei que não sou da família – alguns protestos de “é como se fosse” foram ouvidos, ele sorriu. – Mas acho que o mais importante é considerar que, além de toda essa ameaça sobre nossas cabeças, Harry está num momento delicado junto ao Ministério. A história da fuga de Azkaban ainda não rendeu tudo o que pode render. Tem pessoas que estão bem interessadas em usar esse episódio para manchar a imagem dele. Você sabe que as pessoas o temem, Molly. Se deixarmos de lado as implicâncias dos meninos, sabemos que Percy é muito fiel ao Ministério e que, bem, ele pode achar que essas são informações que deveriam ser... hã... privilégio do Ministério.

A Sra. Weasley lhe lançou um olhar triste, mas já não parecia ter mais forças para argumentar, as lágrimas apenas rolavam silenciosas pelo rosto cheio. Chantal, que a olhava de um jeito bem perspicaz para os seus 5 anos, saiu do meio das outras crianças (Sean estava nos braços de Alicia, também grudado na conversa dos adultos, mesmo sem entender, enquanto Ken tinha achado mais interessante brincar com os restos de Pó de Flu da lareira) e abraçou as pernas da avó.

– Chora não, vovó – o pedido pareceu ser suficiente para que Molly Weasley voltasse a sorrir, pelo menos um pouco.

A tensão, entretanto, foi quebrada por um movimento e um barulho vindos da lareira. Uma baforada de pó esverdeado e fuligem cobriu Ken quando Rony apareceu.

– Oi pessoal! – Cumprimentou alegre afastando o sobrinho, que tossia muito de perto da lareira.

Nos minutos seguintes, enquanto chegavam sucessivamente Hermione, Gina e Harry, a conversa sobre Percy e o choro da Sra. Weasley foram totalmente esquecidos em meio à confusão de beijos, abraços e cumprimentos. A Toca parecia ficar apertada com tanta gente, mas a verdade é que ela ficava ainda mais aconchegante. Hermione e Rony passaram uns bons minutos grudados no filho matando as saudades. E era muito óbvio que os quatro pareciam bastante felizes.

– O que acham de jantarmos antes de começarmos com os assuntos desconfortáveis? – Perguntou a Sra. Weasley de um jeito carinhoso, lançando um olhar para Carlinhos que acenou em concordância.

– Excelente! – Exclamaram Rony, Fred e Jorge.

– Depois poderremos porr as crrianças parra dorrmirr e poderremos conversar com mais calma – disse Fleur, já se movimentando para ir ajudar a Sra. Weasley na cozinha.

– Hei! Vocês não querem ouvir as novidades? – Perguntou Rony com um sorriso cheio de significados.

– Que novidades? – Quis saber o Sr. Weasley.

– Depende – falou Gina, acomodada no colo de Harry “por causa da falta de lugares” – vocês querem saber as novidades boas ou... as maravilhosas!

Os Weasley trocaram olhares curiosos e divertidos. Era óbvio que a caçula estava radiante.

– Comecem pelas boas. – Incentivou Gui, pegando Chantal no colo.

– Harry e Rony encontraram o Livro de Fausto – anunciou Hermione.

Seguiu-se uma longa rodada de felicitações e perguntas que mal puderam ser respondidas porque outras se sucediam sem que Harry e Rony tivessem tempo de responder as anteriores. Lupin já estava com o livro nas mãos e ele e Tonks examinavam a capa e o fecho de cadeado dourado, quando a Sra. Weasley interrompeu.

– E quais são as novidades maravilhosas, Gina? – Ela admirava a filha que continuava sentada no colo do marido, enlaçando-o pelo pescoço, os dois mal conseguindo conter os enormes sorrisos. – Afinal, estamos realmente precisando de novidades maravilhosas por aqui.

Gina e Harry trocaram olhares como que decidindo quem contaria. Rony e Hermione sorriam felizes antecipando. Foi Harry quem anunciou.

– Hã... Sr. e Sra. Weasley, erm... parece que Gina e eu não vamos mais dar um neto para vocês – um silêncio esquisito se fez na sala. – Vão ser dois netos! – Completou Harry com a felicidade estampada no seu rosto e no de Gina.

Foi um “Deus nos acuda”. Todos falavam ao mesmo tempo, riam, davam parabéns, a Sra. Weasley deu um grito feliz quase desabando sobre a filha e o genro para abraçá-los. As crianças, encantadas com a algazarra, também davam gritinhos e batiam palmas. O Sr. Weasley não cabia em si, a palavra neto tinha o dom de fazê-lo sorrir sozinho por horas.

– Isso significa que ganhei a aposta. Podem começar a coçar os bolsos, cunhados! – Brincou Harry depois da primeira rodada de cumprimentos. A aposta tinha sido feita entre os meninos Weasley e o único cunhado na época em que Fleur engravidou. Era sobre qual deles seria premiado com filhos gêmeos, já que a ocorrência de nascimentos duplos era bem comum na família. Harry tinha ficado meio sem graça quando os garotos o chamaram para participar, afinal, ele e Gina eram só namorados, mas Rony cortou: “Já nos conformamos que é com você que ela vai casar”, disse fingindo seriedade, “então não banca o tímido, ou vamos começar a achar que as suas intenções não são sérias”.

Houve alguns protestos bem humorados por parte de Fred e Jorge que queriam que Harry e Gina apresentassem provas antes do pagamento da aposta, enquanto Rony e Gui não paravam de rir. A discussão prosseguiu e Ana, que estava tão radiante quanto os amigos, se aproximou do marido que acompanhava tudo um pouco afastado. Ela mal podia acreditar que em alguns meses estaria afofando os filhos de Harry e Gina Potter e que eles iam chamá-la de tia. Mais uma entre as tantas vantagens que ela enumerava para si mesma de ser uma Weasley. Mas o seu prêmio maior de pertencer àquela família estava escorado no batente da janela com um sorriso que, mesmo genuíno, não disfarçava a preocupação que lhe rondava os olhos. Ela se aproximou, tocando levemente a tatuagem próxima ao pulso dele, o dragão chinês pareceu tomar vida quando ele movimentou o braço muito rápido e a abraçou.

– Vamos parar de brigar? – Pediu ele, de um jeito que parecia muito infeliz.

Ana confirmou com a cabeça, lhe dando um beijo e fazendo um longo carinho no seu rosto.

– Só vou pedir para você deixá-los curtir isso um pouquinho mais?

– Não é o que eu estou fazendo?

– Não! Você não está curtindo! Vamos ter uma boa noite Weasley, Carlinhos! Vamos deixar os garotos soltarem fogos e rirem.

Carlinhos estudou a sala. Não tinha realmente o menor clima para ele vir falar sobre demônios que se alimentam de sentimentos ruins e que fazem o pavor noturno das crianças. O estômago afundou alguns centímetros ao ver a mãe novamente toda feliz, ainda mais após o “episódio Percy”.

– E quando eu vou falar, Ana?

– Mais tarde – ela o forçou a olhar para ela. – Vai ter um momento para isso, ok? E eu... eu vou ficar do seu lado e ajudar a contar.

Carlinhos deu um sorriso aliviado e abraçou fortemente a esposa. Ela tinha razão, o momento ia chegar e seria naquela noite, mas eles não tinham motivo nenhum para apressar aquilo.

– Afinal, o que foi que vocês apostaram? – Perguntou Cátia, curiosa.

– Nossas coleções de figurinhas de sapos de chocolate – Carlinhos se afastou um pouco de Ana e respondeu zombeteiro entrando na farra. – Agora elas todas vão pertencer aos herdeiros Potter.





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* Ler a Fic da Belzinha: O Segredo de Soncerina.
** Ler a Fic da Belzinha: O Segredo de Corvinal.


N/A: Oi gente! Desculpem novamente a demora do capítulo. Esse estava todo na minha cabeça, mas demorei muito a conseguir gostar do que escrevia.
Bem, sobre o capítulo, como puderam perceber é daqueles em que não acontece muita coisa nem têm muitas respostas, mas acho ele bem necessário para coisas que vem adiante.
Muuuuuiiiiiitooooooo obrigada pelos comentários, gente! Eles são o meu combustível, assim como os votos. São eles que me movem para escrever, acreditem. Isso é tão sério que se alguém que comenta normalmente, não parece, eu fico com uma enorme sensação de falta, sem falar de ficar achando que alguém não gostou. Por isso, por favor, não parem de comentar, ok?

Bernardo: Saudades do Draco e do Snape, é? Aguarde, os dois voltam com força total nos próximos capítulo, hehe! Adoro receber seus comentários! Beijão!

Luna Weasley: Minha amiga, um imenso obrigada pelo seu comentário! Eles realmente me deixam muito vaidosa e fico ainda mais feliz quando vc menciona os “detalhes”. Valeu!

MárciaM: Valeu pelo coment, Márcia, espero que tenho curtido os momentos H/G deste capítulo. Sei que vc, como eu, os adora, então... Beijo grande!

Morgana Black: Vc sabe o quanto eu curto os seus comentários, não é? Que posso fazer, eu adoro o jeito que VOCÊ escreve os comentários, ficam engraçados, inteligentes, adoráveis! Obrigada! Simm, a Danna é um personagem muito especial, dá mesmo gosto de escrevê-la. Fico feliz que tenha gostado dela, mas ainda não sei suas teorias, hehe!

Carolzinha: Brigada, brigada, brigada!!! Magia dos livros? Não sei se mereço, mas que é um elogio maravilhoso de receber, isto é! Um beijão!!!

Belzinha: Ah, amiga, depois de tudo o que te incomodo você ainda tem paciência de vir aqui e deixar comentários fofos e maravilhosos que eu adoro! Obrigada, de coração! Acho me entreguei legal na história do Espelho das Guerras, não é? Hehe. Fazer o que? Não se pode negar o que se é. Beijo imensooooo!!!

Trinity Skywalker: Menina, já falei que amo seus comentários? Pois aí vai: AMO seus comentários! Hihi! Esse último, então foi quase uma resenha, tanto que não resisti e já respondi parte dele por mail. Quanto ao resto, eu só tenho a agradecer, é muito bom alguém que a gente respeita a forma de escrever, dizer que gosta do que a gente escreve. Estou me repetindo, mas é a mais pura verdade. Valeu mesmo!! Beijão!

Aisha: Obrigada pelo comentário e pela compreensão, hehe! Mas eu continuo esperando que você atualize, viu?

Darla Von Körper: Beta querida! Desculpe ter demorado tanto e depois pedir para vc betar o capítulo em tempo recorde, mas vc é uma flor e não ficou braba e ainda betou tudinho! Por isso é que te adoro tanto. E aí, gostou deste tb?

Charlotte Ravenclaw: É... excêntrico é outra palavra para os malucos do bem, não é mesmo? Hihi, não isso que a praga da Darla diz de vc? Mas ser comparada ao Dumbie, até que é legal, não é? Aliás, formamos um belo trio: a excêntrica, a esquisita (que sou eu) e a louca de pedra (haha, espero que a Darla não me bata).

Maria Luíza: Adorei seus comentários! Obrigada, de verdade! Dumbledore vai fazer falta mesmo, não é? Espero que o novo capítulo não tenha decepcionado, porque sei que não entreguei muito, mas o que vou fazer, roteiro é roteiro, hehe! Vou tentar demorar menos, juro!

Anderson Potter: Puxa, garoto, obrigadão! Sei que é um leitor assíduo de fics (volta e meia cruzo por comentários seus em outras fics). Fiquei super feliz de vc gostar da minha. Valeu!

Sheil@_Potter: Valeu pelo coment, Sheila! Comente sempre que puder, pois eu fico super feliz. Um beijão!

Grazi DSM: Como já te disse por mail, seu comentário me deixou flutuando Grazi. Fico no céu quando vocês demonstram que a turminha foi bem aceita e os seus comentários sobre a Danna me deixaram com cara de mãe orgulhosa. Obrigada mesmo!

Rafael Delanhese: Hahahaha! Isso é que eu chamo de pressão! Não vou dizer que não gostei (acho que minha beta é que não, pois para postar no fim de semana acabei suplicando para ela que betasse tudo em tempo recorde). Mas está aí. Fico feliz que tenha gostado do anterior. Obrigada pelo comentário! Valeu!

Bruna: Obrigada pelo comentário Bruna! Que bom que curtiu o capítulo. Valeu e um beijão!

Carolshimi: Puxa menina, que bom que correspondi à propaganda. É muito bom quando alguém novo aparece por aqui e diz que leu e gostou. Muito obrigada mesmo e um beijão!

Beijo grande também para quem lê e não comenta! Obrigada pela leitura!
Até o próximo capítulo!

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