Capítulo 13



Capítulo 13

Os dias corriam. O mês de fevereiro aproximava-se. Assim como a primavera. Renascimento. Ele via a primavera como um renascimento. Tudo voltava à vida. Tudo renascia. Menos ele. Ele permanecia encarcerado em seu inverno eterno. Em sua prisão. Em seu inferno. Mas não desta vez. Não nesta primavera.

Ela o estava mudando. Ela estava mudando. Ele não vestia mais apenas preto. Agora vestia alguns tons escuros de cinza e azul. Mas o preto não fora totalmente renegado. Apenas dividia espaço com o cinza e o azul. Ela tornava-se cada dia mais alegre. Seus risos e sorrisos eram cada vez mais freqüentes. Os olhos cada dia mais brilhantes.

Mas ela continuava tendo pesadelos. Pesadelos que não revelava. Pesadelos que faziam com que ela acordasse terrivelmente amedrontada. Pesadelos que faziam com que todas as madrugadas ela o chamasse. Ele já não dormia. Contemplava as estrelas. À espera do chamado dela. À espera dos soluços dela. Às vezes ela acordava chorando descontrolada. Mas ela sempre o chamava. E ele sempre atendia. Todas as noites a mesma coisa. Ela o chamava. Ele a conduzia até o quarto. Deitava-se na cama dela. Ela deitava a seu lado. Sempre com o rosto contra seu pescoço. Sempre passando o braço por seu peito. Ele sempre dormia ao tentar impor o ritmo dela à sua respiração. O ritmo suave e cadenciado da respiração de seu anjo.

Ele era sempre acordado por ela. A primeira coisa que via de manhã era o rosto dela. A primeira coisa que sentia era o suave toque dela. A primeira coisa que ouvia era a voz cristalina dela.

Eles saíam do apartamento para as ruas de Londres todos os dias. Acompanhavam o renascimento de Londres. Compravam roupas e objetos para a vida que crescia dentro de Angel. Ela ainda não revelara seu nome. Mas ele sabia que quando estivesse pronta, ela o revelaria. Ele próprio não revelara a ela todos os seus segredos e mistérios.

Todos os dias, o sol poente os encontrava sentados sob a sombra de uma macieira frondosa às margens do Tâmisa. Era sempre igual. Ele sentado no chão gramado. Recostado no tronco da árvore. Ela com as costas em seu peito. A cabeça ruiva em seu ombro.

Ele se lembrava do primeiro dia em que sentaram ali. Ela apoiada em seu peito. Apenas observando-o. O rosto voltado para ele. Ele abaixara o rosto para perguntar a ela o que ela tanto observava. A resposta dela fora “Seus olhos”. E então ele percebera a proximidade dos rostos. Ele inclinara o rosto para ela. Em instantes os lábios se tocavam. Em instantes as línguas se roçavam.

Havia algo além de amizade ali. Naquele beijo. E fora então que ele dera-se conta. Em meio às sensações que o beijo despertara ele percebera. Ele a amava. Esse era um de seus segredos não revelados.

Naquele fim de tarde de janeiro, a mesma coisa. Já era o terceiro. O que ela estava fazendo com ele? Ela despertara sentimentos que ele não conhecia. Sentimentos represados em seu íntimo. Sentimentos que ele sequer sabia existirem. Quando se separaram, surgiu a pergunta.

-O que você diria se eu te dissesse que te amo?- ele mantinha o olhar preso no horizonte.

-Eu diria que eu também.

Ele arrancou o olhar do horizonte. Pousou-o sobre ela. Ela o amava? Havia uma terna doçura nos olhos castanhos dela. Que ele já vira antes. E que agora tinha nome. Amor.

Os rostos se aproximaram novamente. Finalmente os lábios se encontraram em outro beijo. Um beijo onde sentimentos mútuos se encontravam. E se expandiam. Ele não podia perdê-la. Se a perdesse estaria condenado. Condenado a mergulhar novamente em escuridão.

O céu era tomado pela noite. Um casal caminhava pelas ruas desertas de Londres. Um casal abraçado. Rumo a um apartamento em um prédio decadente.

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Aquela noite foi diferente. Ela não o chamou durante a madrugada. Ela o chamou antes de dormir.

-Você não vai dormir nesse sofá, vai?

Ele já estava deitado no sofá. Contemplando o céu estrelado.

-Não. Eu vou ficar aqui, acordado, esperando você me chamar. Como eu sempre faço.

-Vamos pular essa parte?

-Como assim?

-Por que você não vem agora?

E ele fora. Agora ela dormia. Mas ele não conseguia. Brincava com uma mecha do cabelo dela. Tentando distrair-se. Distrair-se da dor em seu antebraço esquerdo. Em algum lugar um deles estava sendo julgado e condenado. Em algum lugar eles estavam sendo executados. Em algum lugar eles estavam tendo suas almas arrancadas. Ele via em relampejos. Via fragmentos da cena. Seria demorado. Demoraria até que todos eles fossem executados. Eram tantos. Só dois não estavam presentes. Somente dois entre os que haviam sobrevivido. Dois cujos nomes eram sussurrados. Draco Alexander Malfoy. O traidor. Lúcio Edward Malfoy. O astuto demais para se deixar pegar.

Amanhecera. As imagens martelavam em sua mente. Vivas. Mais vivas do que ele gostaria. Alguns estavam em pânico. Outros pareciam resignados. As imagens se repetiam. Apenas relampejos.

Ela acordava. Ela não tivera pesadelos. Forçou as imagens a sumirem.

-Você não dormiu?- ela parecia preocupada.

-Não.

-Por quê?

-Acho que o jornal lhe responderá.

Ele não queria falar nisso. Reabrir o assunto seria o mesmo que fazer com que as imagens voltassem. Ele desvencilhou-se dela. Foi até a sala. Havia uma coruja na janela. Com o jornal. Ele pagou a coruja. Nem sequer abriu o jornal. Sabia qual era a manchete. Voltou ao quarto. Ela estava sentada na cama. Os cabelos levemente desgrenhados. Linda. Sentou-se ao lado dela. Deu-lhe o jornal. Ela abriu o jornal. Conforme lia, um brilho de compreensão surgiu em seu olhar. Ela ergueu o olhar para ele. Ele não conseguia ler o olhar dela.

Seu olhar estava perdido. Ele ouviu o farfalhar do jornal. O que veio a seguir o surpreendeu. Ela o abraçou por trás.

-Não fique assim. Você sabia que isso iria acontecer.

-Eu deveria estar lá.

-Não. Não deveria. Sabe por quê? Porque você não teve uma escolha. Eles tiveram. E pagaram por ela. Você não tem o que pagar. Você fez coisas que não devia? Sim, fez. Mas era a única opção que você tinha. Sabe, eu até acho que você teve sorte.

-Sorte? Como assim?

-É simples. Você não estava em nenhuma aparição pública deles, estava?

-Não.

-Você não estava na batalha. Você nunca foi ligado a nenhuma morte. Você nunca foi visto com as vestes negras e a máscara. Os que podiam te condenar não tem mais como fazer isso. Você até pode ir a julgamento. Mas não há nada que te condene.

-Lúcio. Ele pode me condenar.

-Acho difícil. Esqueceu que ele é agora considerado insano?

-Tem razão...Mas mesmo assim...

-Esqueça, está bem? Simplesmente esqueça. É difícil, mas esqueça. Você sabe que não há o suficiente para que você seja condenado a Azkaban. O máximo que pode acontecer é confiscarem seus bens ou você ter que pagar uma multa. Venha, vamos tomar café.

Ela tinha razão. A ele só restava esperar. Mas ele não se mexeu.

-Venha. Vamos, Alex.

-Alex?

-Eu sempre achei que você tinha jeito de Alex. E como você me chama de Angel, eu achei que não teria nenhum problema te chamar de Alex. Agora levante dessa cama. Não é difícil.

Ela o puxava pelo pulso. Foram até a sala. Havia uma coruja. Ao vê-los, a coruja ergueu vôo e jogou um envelope aos pés dele. Ele abaixou-se e pegou o envelope. Virou-o. Ali estava. O timbre do Ministério da Magia.

Ele rompeu o lacre do envelope. Correu os olhos pelo pergaminho. O impacto das informações contidas no pergaminho se fazia sentir. Ela arrancou o pergaminho de suas mãos.

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