NA TOCA



CAPÍTULO II


 


NA TOCA


 


  Hermione entrou na Toca e logo chamou por Gina, mas a casa parecia estranhamente vazia. Chamou mais uma vez e como não obtivesse resposta, subiu atentamente as escadas que levavam aos quartos. Conhecia muito bem a residência dos Weasley, pois já estivera ali muitas e muitas vezes. Então, escutou barulho de água caindo de um chuveiro. “Gina está no banho” – pensou.


 
  Com isso, decidiu descer e esperar por ela na sala. Sentou-se em um sofá posicionado lateralmente à lareira e não pôde evitar que sua mente voltasse ao reencontro inesperado que ocorrera há poucos minutos do lado de fora da casa. Como pudera ser tão tola por achar que alguns meses de separação seriam suficientes para que ela esquecesse o ruivo maravilhoso que há quase oito anos entrou em seu coração e ali permaneceu mesmo sem permissão?


 
  Decidida a esquecer esse fato, recostou-se no sofá e semicerrou os olhos. Hermione tinha a sensação de haver descoberto um novo significado para o termo exaustão. Sentia-se tão esgotada quanto um rio depois de uma seca prolongada, cansada física e emocionalmente. Passara os últimos dez meses aparatando entre o antigo lar em Londres e a cidade que escolhera para morar, tentando encontrar a localização perfeita para sua loja e para a casa onde viveria. Um novo lar onde pretendia construir uma vida nova. O apelo do recomeço era forte, afinal passara sete anos num mesmo lugar, convivendo com as mesmas pessoas, vivendo emoções, aventuras e enfrentando imensos perigos totalmente desproporcionais à idade que ela e seus amigos Harry Potter e Ronald Weasley tinham na época. “Droga! Porque tinha que me lembrar dele novamente?” – pensou enquanto mentalmente respondia pra si mesma: “Porque ele faz parte da sua vida, da sua história e você não vai conseguir tirá-lo daí, nem misturando todas as poções do universo, somente o tempo poderia fazer com que você o esquecesse, Hermione...”



  Voltou a pensar no lugar que tinha escolhido para morar. Não tinha muitas exigências. Mas também não pretendia abrir mão de nenhuma delas. Queria um lugar calmo, limpo e seguro. Os outros cento e vinte e poucos detalhes associados à mudança acabaram por levá-la a Hogsmeade, uma localidade quase tão perfeita quanto a que construíra em sua imaginação, já a conhecia e gostava muito de lá. Nos últimos dez meses não houvera um só momento em que não estivesse ocupada. Pelo menos assim não podia passar muito tempo pensando, o que representava uma mágica benção. Não gostava de ter tempo para pensar e refletir. Precisava era esquecer.



  Essa estratégia havia dado certo, pois no meio de toda aquela atividade que a cercava, conseguira ocupar-se tanto que perdera por várias vezes o centro de todas as suas preocupações: Ronald Weasley. O trabalho exaustivo tinha o poder de afastá-lo de seus pensamentos. Nenhuma mágica ou bruxaria conhecida tinha esse poder, pelo menos não uma que não fosse muito perigosa. E os feitiços momentâneos de esquecimento faziam as lembranças retornarem mais fortes no instante em que seu efeito passava. Ela havia até tentando o mais forte de todos: o Cadere Immemorabili. Mas seus efeitos colaterais eram tão intensos que desistiu: dor de cabeça, enjôos, tonturas, febre e manchas pelo corpo. Além do quê, quando passa o efeito, a pessoa enfeitiçada cai em profunda depressão e nem a Felix Felicis resolve.



  Passado esse período “encantador”, ela decidira cair de cabeça no trabalho para então montar e administrar uma livraria que atendesse aos mais variados gostos e idades. Uma loja de sonhos, magias, conhecimentos, fantasias e, claro, bruxarias. O tempo que perdera escolhendo e catalogando os livros que fariam parte de seu acervo tinha valido a pena. Estava satisfeita consigo mesma. Só que todos os seus planos tão bem arquitetados poderiam desmoronar a qualquer momento, pois tinha resolvido atender aos apelos da amiga Gina Weasley que em breve ficaria oficialmente noiva de Harry Potter e, agora, ela estava ali, muito perto de Ronald, perigosamente perto. Mas não poderia fraquejar, não mesmo. Ela era Hermione Granger! Já havia lutado contra Voldemort! Como não conseguiria afastar Ronald Weasley de seus pensamentos, de sua vida?


 



  Hermione abriu os olhos lentamente. Estaria sonhando ou alguém a estava chamando?



  _ Hermione! Mione! Acorda, menina!



  Neste momento, ela saiu do sono em que se encontrava, olhou rapidamente ao seu redor meio aturdida, sentou-se ereta e somente então percebeu de onde vinha aquela voz que a acordara.


 
  _ Oh! Olá, Gina! Acho que cochilei um pouco aqui no sofá enquanto esperava por você – dizendo isso olhou para seu relógio trouxa – Nossa! Dormi cerca de 40 minutos, desculpe-me por isso, mas é que estou muito cansada. Como você sabe estou arrumando minha mudança e a inauguração de minha loja de livros.


 
  _ Por Merlin, Mione! Você não deve se sobrecarregar assim! O mundo não acaba hoje! Você está com uma aparência horrível de cansaço! - disse Gina observando que sua amiga apresentava olheiras e sinais evidentes de não dormir direito. Mas desculpe-me também por não descer logo, mas é que não percebi sua chegada... Se não fosse o Rony me avisar que você estava aqui na sala, não teria descido tão cedo...



  “O Rony? Como assim? Ela o havia deixado lá fora... como não percebera que ele havia entrado em casa? Nossa, você dormiu mesmo, Hermione!” - disse pra si mesma.


 
  Gina continuava falando:


 
  _ Ele está lá em cima tomando banho e trocando de roupa. Deve descer daqui a pouco. Ele tem participado de vários torneios de quadribol com a equipe formada pelos colegas de trabalho. Ganharam diversos campeonatos. Você sabia que ele está morando e trabalhando em...


 
  _ Gina, por favor! Eu não quero conversar sobre o seu irmão! Francamente! – Hermione a interrompeu, exasperada e levantando-se do sofá - Você mais do que ninguém sabe os meus motivos. Por favor, não insista! Eu vim aqui para conversarmos sobre os preparativos de seu noivado com o Harry porque você me pediu e porque você é minha amiga. Você me convenceu com uma história de que não possui nenhuma presença feminina para ajudá-la nessa tarefa a não ser sua mãe. E eu estou aqui para isso – encerrou, fixando seu olhar nos olhos da ruiva como se verificasse se ela havia entendido o recado.



  _ Ok, tudo bem. Não precisa se estressar! Mamãe chamou o Ronald para ajudá-la com algumas coisas aqui em casa, pois é o único que estava livre hoje. Nem eu sabia que ele viria. Não planejei nada disso! Eu só me demorei mais no banho porque o Harry virá aqui hoje e quero estar, digamos, apresentável para ele. Iremos comprar o presente de mamãe e alguns itens para a nossa festa de noivado. Você já comprou o presente da sua mãe?



  A mudança de assunto conseguiu abrandar o nervosismo de Hermione. Mas ela nem estava se lembrando que hoje era sábado, véspera do Dia das Mães, que também era comemorado no mundo bruxo no mesmo dia e da mesma forma que no mundo trouxa. Tinha que providenciar um presente também.


 
  _ Onde estão os outros, Gina? - perguntou tentando parecer interessada em saber notícias dos outros membros da família Weasley. Na realidade, se sentia era incomodada por somente ela, Gina e Rony estarem ali. Era quase como estar sozinha com ele... e nem queria pensar nessa possibilidade.



  _ Mamãe e papai saíram para fazer compras para a nossa festa de amanhã. Fred e Jorge estão na “Gemialidades Weasley”, fazendo muito sucesso por sinal. O Gui e a Fleuma estão viajando para a França em visita aos pais dela. Carlinhos continua morando na Romênia e ainda não casou e o Percy, você sabe, não é? Talvez ele nem apareça aqui amanhã. As relações dele com papai e mamãe estão estremecidas. Mamãe sofre muito com isso...


 
  _ É, eu sei. Mas diga-me Gina, em que posso ajudar você? Quando será o tão esperado noivado?



  _ O noivado será logo após a minha formatura em Hogwarts, no mês de julho. E preciso que você me ajude a escolher o vestido, os convites e a tratar da decoração. Você sempre teve jeito pra essas coisas. A festa será aqui mesmo na Toca. Vamos convidar apenas os familiares e amigos mais íntimos. Eu e o Harry queremos tudo muito simples, mas bem bonito.



  Hermione havia esquecido que uma festa de noivado no mundo bruxo era tão ou mais importante que a própria festa de casamento. Normalmente um bruxo só noivava quando tinha certeza absoluta que queria fazer isso. Na festa, a participação das famílias nos planos dos noivos era intensa, sem jamais parecer uma intromissão. Era um momento mágico, de afeto, carinho e reflexão. Ela sabia o quanto Harry considerava os Weasley. Tanto quanto seus próprios pais.


 
  As duas amigas seguiram conversando para a cozinha a fim de tomarem um chá, planejarem onde e quando começariam os preparativos para o noivado e esperarem Harry para, juntos, visitarem algumas lojas.


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