A MAIOR AULA DE TODAS



Após a última aula, Lizzie arrastou Khai para a sala comunal antes de se dirigirem para o Grande Salão. Ela deixou alguns materiais no dormitório feminino, enquanto um dilema atingia o colega que a aguardava do lado de fora, sob ordens específicas de não se mexer. Ele não tinha coragem de passar por cima da autoridade que a garota havia instituído para si, talvez por medo do que a varinha dela pudesse fazer, por ser egoísta ou outra razão qualquer. O fato é que mesmo insistindo com a amiga para ela voltar atrás e liberar Malfoy da azaração, não conseguia transpor a determinação de Lizzie.


Quando ela retornou, ambos se dirigiram para fora da Casa. Caminharam algum tempo em silêncio no corredor, remoendo os últimos acontecimentos. Khai titubeou um pouco, abriu e fechou a boca sem dizer nada e, por fim, resolveu voltar a tocar no assunto, antes que entrassem no Salão para o almoço. Sua expressão continuava um misto de súplica e espanto, enquanto ela mantinha as feições duras e sem emoção.


– Lizzie, se ele não for na próxima aula os professores vão começar a desconfiar!
– E daí? – perguntou indiferente.


– Daí que eles vão encontrá-lo petrificado!


– Duvido que ele abra a boca, Khai – disse, com um gesto de desdém.


– Mas Lizzie, somos todos amigos, não somos? A gente podia sentar e conversar e chegar a um acor...


Sua voz foi interrompida pela parada brusca de Elizabeth. Diante dela, bem na porta do Salão Principal, vindo do lado externo da escola estavam James e Oliver. A garota se moveu para o lado e Potter a acompanhou. Ficaram nesse movimento constrangedor para a garota algum tempo, com Oliver não contendo o riso. Elizabeth suspirou fundo e desistiu, permanecendo calada.


– O que foi? Depois de tantas declarações ontem Madame Norra comeu sua língua?


A garota levantou os olhos, pálida. Foi então que notou um silêncio desconsertante dentro do Salão Principal. A frase de James tinha alcançado as quatro grandes mesas, tamanha a retenção de vozes no local. Em segundos, o silêncio se transformou em burburinho geral, recheado de risinhos, dedos apontados e olhares de descrédito e pena, que iam da garota até James.


– Vejo você por aí, minha fã número um! – e entrou no Salão com o amigo, não escondendo o largo sorriso de provocação.


Tiago levantou-se da mesa da Corvinal e veio rapidamente ao encontro dos colegas, parados na porta, ainda em choque.


– É verdade? – perguntou para os dois – Todos só falam que você gosta do James, Lizzie. Isso não é verdade, é? Porque... eu não entendo como...


Lizzie não podia acreditar que aquela história já tinha se espalhado por Hogwarts inteira, mais rápido do que uma trilha de explosivins. James, sorrindo junto com seu grupo, tirando onda de “garoto mais desejado do colégio”, deu um aceno cínico e uma piscadela para a garota, que girou nos calcanhares e saiu porta afora, seguida pelos colegas.


– É inacreditável! – repetiu Tina, pela 20ª vez – Ontem ela estava só amores pro lado do Tiago e agora ela gosta do James? É muito suspeito!


– Eu ainda acho que é mentira! Ela é uma sonserina, gente! Lógico que ta mentindo só pra chamar atenção da escola toda! – reclamou Angélica Wood, ao lado de Peter, da Lufa-Lufa.


– Por que? Eu não sou bonito o suficiente para ela gostar de mim? – perguntou James, chegando de surpresa no grupinho de lufos e grifinórios, com um sorriso tentador, deixando as meninas sem graça.


– Eu não acho nada engraçado, James – disse Lena, cruzando os braços.


– Lena, dá um tempo, vai! Ela é uma sonserina! Por Merlim! Chega a ser ridículo.


– Por que? – Alvo se manifestou.


– Como assim por quê? Grifinórios e Sonserinos são que nem água e vinho, Al. Não se misturam!
– Os opostos se atraem – brincou Barbra, que se calou diante do olhar severo de Lena.


– Eu acho que se você gosta de uma pessoa, não deve importar de onde ela vem – afirmou Peter.
– O que você acha, John? – perguntou Tina – John??


O garoto estava absorto em pensamentos, com os olhos fixados na parede da entrada do Salão. Tantas coisas estranhas estavam acontecendo com sua irmã desde que começaram a estudar em Hogwarts e ele se sentia completamente impotente diante de tudo. Não estava com ela na mesma Casa, não estava ao lado dela a todo momento, não tinha resgatado sua irmã do banheiro da Murta, não a salvou da inundação... De que forma poderia protegê-la, como havia prometido a si mesmo, se não estavam juntos? Era como se um muro invisível começasse a se erguer entre eles. O ápice de tudo ocorreu bem ali, diante de todos, embora ninguém pudesse ver: pela primeira vez, ao fitar os olhos da irmã, Jonathan não conseguiu lê-los. O que estava acontecendo com a forte conexão entre eles?


– John?? – insistiu Tina.


– O que?


– Tá tudo bem? – perguntou Alvo, tocando-lhe o ombro.


– Não sei – disse e se calou.


Um mal estar momentâneo se instalou na mesa e todos começaram a comer, discretamente. Falaram algo sobre Rose ainda não ter aparecido e comentaram de Tiago saindo com duas tigelas de comida, mas Jonathan sequer ouvia ou tocava em seu prato. Estava sem fome e tinha muitas coisas na cabeça.


Malfoy entrou naturalmente no Salão Principal como se nada tivesse acontecido. Procurou os colegas na mesa com um olhar rápido, mas não os encontrou. Tentou andar para chegar mais perto, quando uma mão o segurou pelo braço, parando-o no meio do caminho e ele se virou para encarar o corvinal.


– Eles não estão aí – sussurrou o garoto com tigelas em uma das mãos.


– O que aconteceu?


– Bom – começou constrangido – Aquilo foi verdade, Malfoy? Porque eu duvido muito – continuou falando discretamente.


– Como... Como assim? – perguntou, surpreso.


– A história da Lizzie com o James se espalhou mais rápido do que uma infestação de gnomos no jardim. Não tem outro comentário nas mesas. Eu já virei o ex desolado e a namorada do Potter – apontou para a mesa da Grifinória – fuzilou a Lizzie assim que ela e James fizeram uma ceninha constrangedora na porta. Pior foi o silêncio inicial e o burburinho depois. Foi muito ruim.


– Onde eles estão?


– Vem comigo!


Tiago levou Deymon até o corujal, com passos apressados e avisando a todos os bruxos de plantão nos corredores aonde iam. Assim que chegaram na escada que dava para o recinto das corujas, deram de cara com Khai parado na entrada, de braços cruzados e cabeça baixa. Quando ouviu o barulho de pessoas se aproximando, ergueu a varinha e encarou os dois, espantado por Malfoy estar ali e desgostoso por Tiago tê-los seguido.


– Como você conseguiu...


– Isso não vem ao caso, Khai. Sai da frente! – ordenou Malfoy.


– Ela quer ficar sozinha – disse.


– É. Eu já notei que você costuma fazer tudo o que ela manda – e passou, sem resistência.


– Você não! – disse para o corvinal bloqueando a passagem quando o outro fez menção de acompanhar Malfoy.


– Pensei que vocês estariam com fome – respondeu Tiago, mostrando a comida na tigela.


– Não, obrigado – respondeu, mesmo faminto.


– Bom, você não pode responder por ela, não é?


– Você não pode entrar. A gente disse que você não se meteria em assuntos da Sonserina, não é? Pois então – cruzou os braços com um sorriso irônico – Assunto da Sonserina!


Malfoy encontrou a colega sentada próxima a uma das janelas, com as pernas juntas ao corpo, seguradas pelas mãos, e a cabeça repousando delicadamente nos joelhos. Lizzie mantinha o olhar vago. Nem parecia aquela garota furiosa e demoníaca que o azarou horas atrás. Na verdade, Deymon nunca a tinha visto tão frágil.


– Eu disse sozinha, Khai.


– É. Ele me disse, mas eu não dei ouvidos.


A garota sobressaltou-se com a presença inesperada de Malfoy. Pôs-se de pé e tateou o bolso em busca da varinha, erguendo-a contra o colega, imaginando que ele buscaria vingança.
– Estou sem varinha, Carter. Esqueceu?


– Você pode ter pegado a de Khai – falou, desconfiada.


– Embora eu queira muito te azarar por você ter me deixado petrificado lá naquele corredor – disse revoltado no início, mas seu tom tornou-se compreensivo em seguida - O que você assumiu pela gente foi muito pior. Tiago me contou que todo mundo já sabe.


– Como se isso não fosse acontecer – disse triste, enquando baixava a varinha.


– Você não precisava ter feito aquilo.


– Vocês seriam expulsos... E eu não quero ficar sozinha na Sonserina.


– Obrigado – disse, de sopetão.


A garota arregalou os olhos por alguns instantes e depois soltou um muxoxo de indignação, com um sorriso maroto nos lábios.


– Pena que câmeras não funcionam aqui. Um Malfoy agradecendo é um momento único para ser registrado!


Deymon assumiu uma postura séria e murmurou algo como “os Malfoy sempre foram muito bem educados, ora”, quando foi pego de surpresa por um desabafo da amiga.


– Eu queria fazer um feitiço para que tudo isso acabe logo.


– Acho que os próximos dias vão ser bem chatinhos, mas nós vamos estar do seu lado, tá? A gente te deve isso.


Malfoy se aproximou da colega e acariciou seu rosto gentilmente. Ela pousou sua mão sobre a dele e sorriu, sendo correspondida pelo amigo em plena cumplicidade. Nem notaram que outras duas pessoas entraram no recinto naquele momento. Tiago tinha um sorriso nos lábios como se soubesse que aquilo aconteceria mais cedo ou mais tarde, enquanto Khai ficou mais pálido do que o costume. Se fosse possível ouvir, todos perceberiam o estrondoso barulho de um coração se partindo.


– Hu-hum! – limpou a garganta – Interrompemos algo? – perguntou Tiago, irônico.


Imediatamente os dois sonserinos se separaram e ficaram vermelhos de vergonha.


– Claro que não! Estávamos só... Conversando – respondeu Deymon muito mais para Khai do que para Tiago.


– Bom, eu tenho comida, quem quer?


– Vamos comer aqui? – perguntou Lizzie, enojada.


– Ora, por que não? É isolado, anti-social e sombrio. Muito sonserino, não acham?


Deymon e Lizzie trocaram olhares divertidos, enquanto Khai se mantinha um pouco mais afastado. O garoto se sentou com os outros e engoliu a comida, ainda em choque pelo que tinha visto e imerso em seus pensamentos. Não conseguia entender. Por que Malfoy, a quem ele considerava um amigo, fez aquilo? Por que ela? Ele estava realmente gostando dela? Se fosse assim, que chances teria um garoto sem dinheiro algum cujo pai estava em Azkaban? Ele voltaria a ficar sozinho e isolado, como sempre. Por que Malfoy tinha que gostar justamente da menina que sabia que ele gostava? Um falso amigo. Era isso que Deymon havia se mostrado. Levantou-se de repente, sem dizer uma palavra, e foi embora.


– Khai? Onde você vai? – Lizzie perguntou, mas ele sequer olhou para trás.


Malfoy olhou para o amigo se afastando, meio sem jeito de ir atrás dele. Não seria muito fácil explicar para o colega que a coisa toda não era exatamente aquilo que ele tinha visto. Seu orgulho sonserino de não dar explicações sobre seus atos falou mais forte, sem falar na provável ceninha de discussão que Khai certamente faria. Achou melhor deixar o colega esfriar a cabeça e conversar depois.


– O que deu nele? – Lizzie perguntou.


– Como se você não soubesse.


– O que? – perguntou a garota a Malfoy, numa sinceridade absurda.


– Deixa para lá.


– Então, a Lizzie vai levar essa história adiante?


– Hein? – perguntaram os dois sonserinos.


– Não sou corvinal à toa, gente. Eu sei que você não gosta do James e imagino que o lance do quadribol seja verdadeiro, até porque encontrei com vocês naquele dia. Lembro que não me queriam por perto até o fim do jogo. É melhor mesmo passar por isso?


Os meninos encararam a garota que deu um longo suspiro e levantou os ombros.


– Que jeito?


– Bom, eu tenho uma idéia para tentar diminuir isso tudo.


– Que ideia? – perguntaram os outros, em uníssono.


– Namore comigo.


– Quê? – reagiram, abismados.


– Não sei o porquê da surpresa. Você não fingiu ser minha namorada ontem? Por que não podemos continuar com isso? É só dizer que o James já passou. O lance do recadinho foi há semanas atrás. As meninas gostam e desgostam das pessoas mais rápido do que isso mesmo.
– Ei! Eu não sou esse tipo de menina.


– É melhor virar, se não quiser ser “a pobre garota apaixonada pelo menino mais popular da escola”.
– A idéia dele é boa, Lizzie – Malfoy se manifestou – E nós podemos ajudar a reforçar.


– Mas... eu não vou ter que namorar você de verdade, né? Quero dizer, com beijos de namorados e tudo mais?


– Nossa! Sou tão repulsivo assim para você? Prefere o Malfoy?


– Não! – diante do olhar assutado do colega ao lado, prosseguiu - Ai, desculpa, não quis dizer isso. É que... você ... e ele são... meus amigos...e...


– Tá! Pare antes que fique pior – interrompeu Tiago, achando aquilo bem divertido - A gente só precisa andar de mãos dadas e parar nos corredores de vez em quando, como o que fizemos no dia dos namorados. E você pode me beijar no rosto na frente das pessoas. Eu deixo.
– Ha! Ha! – resmungou, queixosa.


– Claro que tudo isso vai lhe custar alguns galeões.


– Ei! – protestou a garota.


– Ei o que? Vamos fazer um acordo comercial! Você suspende o pagamento dos galeões que eu te devia e eu faço esse favor para você.


– Chantagista – disse, apertando os olhos.


– Chantagista, não. Esperto – e piscou o olho de forma cúmplice e sedutora - É melhor do que ficar de dancinha no corredor com o Potter, não acha?


– Não precisava me lembrar daquela cena ridícula.


– E então? Namorados fake? – Tiago esticou a mão para a sonserina.


– Namorados fake – e aceitou a proposta do corvinal, unido as mãos em acordo.


O trio seguiu para a aula de DCAT e deram de cara com o grande desafio. Alunos do 3º ano da Lufa-Lufa e Grifinória dirigindo-se para aula de Poções. Todos os olhares dos mais velhos estavam sobre as mãos de Lizzie e Tiago entrelaçadas, o que deixava a garota extremamente desconcertada, encarando o chão. Malfoy caminhava atrás, com as mãos nos bolsos, como se nada daquilo fosse anormal. Lena foi a primeira a notar e cutucou o namorado.
– Parece que você já perdeu sua admiradora.


James olhou para o lugar onde Lena apontava e notou a postura agressiva do corvinal, encarando-o. Potter esboçou um largo sorriso, cruzou os braços e aguardou que eles se aproximassem, encarando Tiago e Elizabeth. Aquilo tudo estava realmente mexendo com os nervos da garota. Sua mão suava, seu rosto pegava fogo e não sabia exatamente para onde olhar. Os olhos debochados de Potter sobre eles faziam a garota achar que era pura perda de tempo. Assim que eles passaram por James ele assoviou e Elizabeth fechou os olhos quando Tiago parou.


– Bonita namorada, garoto. Mas alguma coisa me diz que ela prefere jogadores de quadribol.
Os amigos grifinórios riram, junto com alguns lufos, enquanto Lena dava tapas para ele parar com aquilo e deixar as crianças em paz.


– Como é que é? – Tiago se voltou e deixou Lizzie mais para trás – Qual o seu problema Potter?
– O meu? Nenhum. Já você, posso começar a enumerar – mais uma onda de risos invadiu o corredor e os sonserinos do primeiro ano que não gostavam deles faziam coro com o restante.
– Eu vou dizer qual é o seu problema, Potter.


James cruzou os braços com um sorriso irônico para ouvir o pirralho diante dele. Tiago prosseguiu:
– Seu problema é se achar bom demais para qualquer pessoa aqui nessa escola. E o pior: achar que toda menina de Hogwarts sonha em namorar você. Todo mundo tá cansado de saber que você quer uma desculpa esfarrapada para terminar com sua namorada, para aproveitar. Mas você não está nem aí pra Lena, né? Só vou avisando que não adianta mais ficar provocando a Lizzie. Você é passado. Morreu. Supere isso! – avançou para os amigos que o aguardavam e entraram na sala, aproveitando que todo o corredor estava embasbacado, olhando para Potter.


– Uau! – exclamou Lizzie, quando se sentaram na última cadeira.


– Muito bom – elogiou Malfoy.


– É? Foi, não foi? Eu nunca fiz uma coisa assim na minha vida! – disse, corado e respirando com agitação.


– Como se sente? – perguntou a garota.


– Um super herói.


– Ei, super herói – disse Malfoy – Você agora arranjou um inimigo.


Do lado de fora, uma confusão se formou entre Lena e James, que discutiam abertamente, na frente de todo mundo. Filch apareceu para botar ordem no corredor e enfiar todo mundo dentro da sala.


Durante o jantar, o casal se manteve em mesas separadas. James estava sorridente e rodeado pelos amigos de quadribol, enquanto Lena tinha um olhar mortífero direcionado para ele: haviam acabado o namoro. Um rumor de que eles tinham se separado por causa de Elizabeth começou a rodar em discussões nas mesas. Dessa vez, os mais novos estavam todos sentados na ponta da mesa da Lufa-Lufa.


– Você acha que tem a ver? – perguntou Tina para Rose, que não respondeu.


– Para mim, o James já queria terminar faz tempo. O que você acha, Alvo?


– Eu, Barbra? Não sei... Nunca parei para falar dessas coisas com ele. Alguém viu o Peter?


– Dá última vez que o vi, ele estava indo para o Corujal – afirmou Détrio – Olha ele vindo ali! – e apontou para o colega que se aproximava.


– Desculpa, gente. Fui mandar uma coruja lá para casa, sabem como é. Pais! Sabem quem eu encontrei lá? O Khai, amigo de sua irmã, John. E eu tenho que dizer uma coisa: ele é muito esquisito. Me ignorou parecendo que eu não estava lá.


– Peter, meu caro, os sonserinos ignoram a existência de todos os outros que não são sonserinos – afirmou Détrio, categórico.


– Mas a irmã do John quebra essa regra, não é, John? – perguntou Peter.


– Oi? – respondeu o grifinório, distraído.


– Não liga não, Peter. Ele está assim já faz um tempo – Angélica Woods informou.


Na mesa da Sonserina, o falatório sobre o fim do namoro de James e Lena continuava. Alguns celebravam a discussão vexatória no corredor; outros olhavam para Elizabeth como se ela tivesse uma estranha barba azul e fosse caolha.


– Era só o que me faltava. Achei que a coisa ia acabar.


– Desculpe – disse Tiago à amiga, com um olhar sincero.


Malfoy ouvia os colegas conversando, quando algo na mesa da Lufa-Lufa lhe chamou atenção. Uma garota de cabelos castanhos encaracolados, levemente ruivos, lhe encarava com uma intensidade raivosa. Deymon manteve o olhar na direção dela e fez uma expressão de ironia. Cogitou a possibilidade de dar tchauzinho, mas apenas ergueu as sombrancelhas em sinal de “e daí?”. A garota bufou de raiva, cruzou os braços e Malfoy sorriu, balançando a cabeça negativamente.


– O que foi isso?


– Oi? – Malfoy se viu pego de surpresa por Elizabeth.


– Isso – e apontou para Rose e o amigo.


– Nada. Esses grifinórios são todos uns imbecis. Odeiam a gente por natureza. Alguém viu o Macbeer? – mudou de assunto, questionando os outros colegas sentados próximos dele.


– Eu queria saber para onde Khai vai quando some – disse a garota, ainda olhando de relance para Malfoy - A gente nunca encontra ele.


– Não até ele querer ser encontrado, Lizzie. Olha ele chegando ali – Tiago fez sinal para o sonserino, que o ignorou e sentou na ponta oposta – Alguém ainda não superou.


– Eu vou falar com ele – disse Malfoy, mas desistiu de levantar ao notar que a diretora pedia atenção.


– Caros alunos e professores aqui presentes. Já há alguns anos, a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts tem investido no método da cooperação entre Casas, a fim de que todos os alunos sejam amigos uns dos outros. Alguns bruxos mais experientes e, talvez, até mesmo os pais de vocês, discordem um pouco desta linha educacional não tradicional, mas nós acreditamos que este é o melhor caminho para promover a tolerância e respeito mútuo entre estudantes. Contudo, tenho recebido relatórios dos professores e observado, com tristeza, desde o início deste ano, a resistência de alguns alunos. A cooperação entre Casas significa entre todas as Casas. Está se espalhando, entre vocês e por vocês, a idéia de que as terríveis provações que temos passado nos últimos meses foram causadas pela Casa Sonserina – imediatamente os sonserinos começaram a falar em sua defesa, mas Minerva os calou – Sei também que muitos alunos da Casa Sonserina têm dificultado a cooperação entre Casas – e os outros alunos se manifestaram, confirmando e dando trabalho para a diretora controlar o Salão – Por esse motivo, amanhã não haverá aula.


Um burburinho confuso se espalhou entre as mesas e entre os professores. Eles também não estavam cientes do que a diretora estava preparando.


– Amanhã pela manhã teremos um café especial, com alguns convidados. Espero que vocês se comportem e, especialmente, que escutem bastante. Acredito que possamos derrubar esse muro invisível que nos separa como bruxos. É hora de começar a mudança, de dentro. Agora, vamos ao jantar.


Imediatamente, pratos de sopa, pães e sucos apareceram diante dos alunos. Aos poucos, eles começaram a se alimentar, discutindo o que haveria de especial pela manhã. Os professores aguardaram um tempo de discrição para questionar Minerva.


– Tenham paciência, meus amigos. Trata-se apenas de uma grande palestra com algumas pessoas especiais que convidei. As crianças são muito influenciáveis por suas famílias e acredito que, ao verem que é possível um outro caminho, elas reconsiderem. Prof Slughorn e Prof Potter, poderiam me dar a satisfação de participar da palestra de amanhã? O senhor foi um dos Sonserinos que bravamente nos ajudou a proteger a escola no passado e você, Harry, gostaria que falasse sobre o ex-diretor Snape.


– Claro, diretora. Tudo pelo bem de Hogwarts – disse Horacio, com o ego massageado.


– Harry?


– Tudo bem, diretora – ascentiu, ainda desconfortável.


– Excelente! – sorriu – Vamos nos ocupar de nosso jantar, então.


Assim que as crianças deixaram o Salão, começaram os preparativos para o dia seguinte. Minerva McGonagall comandava os elfos domésticos e Argo Filch durante uma montagem diferente do habitual. Os professores, curiosos, também ficaram de fora. A diretora planejava uma surpresa para todos.


Pela manhã, os diretores das Casas foram instruídos a reunir os alunos e caminhar ao Salão Principal às 7h em ponto. Harry e os outros professores que não tinham esta obrigação aguardavam diante das portas fechadas, sem disfarçar a ansiedade. Assim que todos os alunos se aglomeraram no hall de entrada, as portas foram abertas por pura mágica. Dentro, um Salão do jeito que eles nunca viram.


Todas as grandes mesas desapareceram. Somente os estandartes de Hogwarts adornavam o lugar e uma grande bancada circular com três patamares, como num grande estádio de quadribol, ocupava o espaço. Não havia cantos, pois o Salão dava a impressão de que tudo era oval. Quando os alunos olharam para o teto, assustaram-se com as imagens refletidas ali: eram os fundadores de Hogwarts registrados pelas primeiras câmeras bruxas da época. Uma relíquia conquistada a muito custo por Minerva.


– Sejam bem vindos! Por favor, encontrem seus lugares!


Com um movimento de varinha, uma série de nomes, coloridos de acordo com suas Casas, surgiu flutuando nos assentos, causando surpresa e admiração. Da forma como estavam dispostos, deu para perceber que todas as Casas estavam misturadas. Foi divertido para os alunos caçarem seus lugares. Os do 1º e do 2º anos ficaram no patamar de baixo, os do 3º e 4º anos no meio e os do 6º e 7º anos no superior. James e Lena acabaram ficando lado a lado, o que causou certo incômodo. Elizabeth sentou entre Jonathan e Timmy; Alvo entre Deymon e Bruce; Rose entre Veruska e Tiago; e Khai ao lado de Peter, próximo dos alunos do 2º ano. Quando todos se acomodaram, a arquibancada mágica fechou-se num grande círculo, cujos últimos espaços foram indicados para os professores.


– Muito bem, vejo que estão todos confortáveis. Agora, vamos ao café!


Com outro movimento rebuscado de varinha, uma bancada mágica começou a surgiu diante dos alunos e percorreu todos os assentos, formando um grande anel. A comida surgia à medida que as bancadas iam se formando e todos ficaram maravilhados com uma magia tão fantástica. Até o Prof Pratevil estava impressionado com a graciosidade da diretora. Não era à toa que Minerva era professora de transfiguração, afinal. McGonagall seguiu para o espaço entre os professores e tomou café com eles. De onde estavam sentados, todos podiam ver tudo o que os outros estavam fazendo. Era bem estranho, levando-se em conta que, normalmente, nem dava para ver os colegas na mesa das próprias Casas direito. Às 8h30, após todos estarem relativamente satisfeitos, a diretora se levantou, fazendo uso da palavra:
– Acredito que esse café da manhã foi uma experiência única em Hogwarts, não? – sorriu para os alunos que a encaravam - Pois bem, já podemos prosseguir com a programação de hoje.
Com outro aceno de varinha, uma série de cadeiras surgiu no patamar inferior, onde estavam os professores. Eram móveis trabalhados de forma clássica no ferro, de coloração preta, com detalhes que somente duendes poderiam fabricar.


– Sei que muitos de vocês, inclusive alguns dos nossos queridos professores, estão se perguntando a que devemos tamanha mudança – começou seu discurso, encarando os diversos rostos atentos ao seu redor – Há tempos venho avaliando o comportamento dos alunos desta escola, desde que assumi a diretoria. É com tristeza que vejo certas discordâncias entre vocês, fruto, principalmente, da visão de mundo de uma geração que viu muito e sofreu muito – e deixou seu olhar se demorar um pouco mais em Harry Potter – Mas agora tudo é diferente: o Mundo da Magia tem a chance de recomeçar; de iniciar uma nova caminhada; de fazer escolhas diferentes e compreender que não se pode julgar o presente pelos erros do passado. Não é à toa que Hogwarts entra na era de colaboração intercasas. Grifinória, Corvinal, Lufa-Lufa e Sonserina foram idealizadas por estes bruxos – e indicou o teto encantado com imagens deles – para compor os quatro pilares da nossa escola. Nenhuma é melhor do que a outra; tampouco inferior. Cada uma preza as características que regem os princípios desta escola: coragem, inteligência, lealdade e perspicácia. Vocês – e apontou para as arquibancadas repletas de alunos - completam uns aos outros com estas qualidades. Por um instante, só neste momento, eu gostaria que esquecessem tudo o que já ouviram falar sobre as Casas de Hogswarts. Quero que vocês abram suas jovens mentes para o que vamos ver aqui, neste Salão. Precisamos mudar a forma de pensarmos e, para isso, é preciso entender que existe uma vida pós Hogwarts que pode, muitas vezes, surpreender vocês – então abriu os braços e indicou o centro do Salão - Por favor, recebam nossos convidados:


Silverblate Carnagihall, funcionário do Ministério da Magia, membro do Comitê de Desculpas para Trouxas; Homerus Aracnio, criador e especialista em aranhas; Apolinário Termopholis, caçador de tesouros e artefatos mágicos; Casper Visionack, especialista em fantasmas...
À medida que Minerva citava o nome dos convidados, eles aparatavam bem no meio do Salão e se dirigiam para as cadeiras providenciadas pela diretora. A exemplo das aulas de aparatação, McGonagall temporariamente permitia que os bruxos selecionados surgissem de surpresa, o que causou certo impacto diante das crianças. Quando o último finalmente aparatou, a diretora não o apresentou propositadamente e ele permaneceu de pé no centro, com todos os olhares curiosos e excitados em cima dele. Tinha os cabelos grisalhos, a pele enrrugada pela idade e um olhar vivo, apesar da aparência frágil e cansada. Sem dúvida, aquele homem era muito mais do que aparentava.


– Bom dia! Eu sou Waller Mattadock, subgerente da Administração de Azkaban.


Um burburinho relativamente alto se espalhou entre os estudantes e alguns passaram a desviar o olhar, com medo.


– Sim, crianças, eu lido com Dementadores quase todos os dias. Um trabalho que não é nada fácil e nos envelhece precocemente, como podem perceber. Como um legítimo bruxo inglês, me formei aqui, nesta escola. Alguém poderia adivinhar qual foi a minha Casa em Hogwarts?
– Sonserina! – gritou um sonserino do 5º ano.


– Oh, sim, sim! É o que costumam dizer, mas não, meu jovem. O meu trabalho precisa de muita coragem para ser feito. Alguém mais se arrisca?


– Grifinória! – falou James, com certo orgulho.


– Ah, Grifinória! Sabem, quando entrei em Hogwarts era para lá que eu queria ir, mas o Chapéu Seletor tinha outros planos para mim. Achou que eu me sairia melhor na Lufa-Lufa.
Exclamações de surpresa, olhares confusos e cochichos percorreram todos os patamares das arquibancadas do Salão. Como um aluno da Lufa-Lufa seria capaz de ter uma função tão perigosa? Todos, inclusive alguns lufos, achavam que os alunos dessa Casa meio insossos.


A diretora tinha os cotovelos sobre a mesa e o rosto apoiado graciosamente nas mãos cruzadas. Seu olhar absorvia a reação de todos com um prazer instantâneo, refletindo o seu pensamento naquele momento. Tudo estava caminhando conforme era esperado. Minerva queria mostrar para os alunos que a vida real, pós Hogwarts, podia levar a caminhos surpreendentes e que nem sempre fazer parte de determinada Casa definia o seu futuro.


Os professores captaram imediatamente a grandiosidade e a ousadia das ações da diretora e lançavam olhares admirados. Harry encarou aquela senhora com o coração palpitante. Era um fato digno de realização de Alvo Dumbledore, se ele ainda estivesse entre os vivos. Potter sorriu para si mesmo tendo ainda mais certeza de que somente Minerva poderia levar Hogwarts através daquele caminho.


O Sr Mattadock levantou as mãos tentando retomar um pouco o controle das coisas. Quando o burburinho cessou, ele prosseguiu.


– O Chapéu Seletor estava certo, porque na Lufa-Lufa tive a oportunidade de me destacar muito mais. Conheci amigos que me ajudaram quando eu mais precisei e é por conta deles que hoje sou este homem diante de vocês. Desde a minha época eu ouvia que os lufos eram sem graça, sempre em cima do muro e que não faziam diferença. Bobagem! Qualquer pessoa pode fazer a diferença, basta se dedicar a isso com todas as forças do seu ser. Sou lufo, trabalho em Azkaban e tenho muito orgulho disso.


Uma salva de palmas começou a se espalhar ao redor do Sr Mattadock, que observou com lágrimas nos olhos os atuais alunos de sua Casa de pé, entre eles Alvo, Peter, Lucy e seus amigos. Os lufos tinham, diante de si, a prova de que tudo era possível. Os outros alunos também os acompanharam, certos de que era um feito digno de se admirar.


Sr Mattadock curvou-se para a sua platéia e se dirigiu a uma das cadeiras vazias, quando um outro homem tomava o seu lugar. Era forte, levemente rechonchudo, com cabelos negros e bem cuidados e um par de olhos amendoados, donos de um brilho perspicaz. Os alunos cujos pais eram bruxos já conheciam o homem diante de si, embora estivesse muito diferente sem o seu chapéu e avental. Aqueles que não faziam ideia de sua profissão ficaram calados, ansiosos pela próxima história.


– Bom dia, meus queridos. Boa parte de vocês já me conhece ou já ouviram falar de mim, eu suponho. Sou Ronald ‘Don’ Kook e culinária é a minha vida. É claro, não preciso dizer que sou filho da Corvinal.


Os filhos de trouxas se surpreenderam com tal revelação e até bruxos que não conheciam a fundo a história do maior mestre cuca do Mundo Bruxo. Afinal, trabalhar no ramo culinário parecia algo extremamente lufo. O senhor Kook esperou o silêncio para continuar.


– Quando entrei na Corvinal eu queria ser um cientista político, membro da Suprema Corte ou qualquer posto importante que dependesse exclusivamente do uso do cérebro para ser alcançado. Eu imagino que muitos corvinais ainda devam sonhar com isso. Fui um aluno brilhante, monitor chefe e logo ganhei uma vaga de estágio no Departamento de Execução das Leis da Magia. Um dia, meio sem querer, acabei conhecendo a cozinha do Ministério da Magia em um mega evento e, consequentemente, o chef de cuisine, Monsier LeBatiste. Devo dizer que encontrei um jeito muito melhor de usar a minha inteligência sem ser um chato sabe tudo que ninguém suportava.


Muitos alunos soltaram um riso contido e sr Kook fez uma breve pausa, sorrindo também para eles.


– O mundo tem tantas possibilidades, meus queridos! Não deixem que o fato de estar em uma determinada Casa limite as suas escolhas. Cada um de vocês pode ser exatamente o que quiser, não importa a cor e a insígnea que carregam no uniforme da escola. Pensem nisso!
Mais uma vez as palmas se seguiram e a surpresa começava a desaparecer a cada nova apresentação. O Sr Carnagihall revelou ser um corvinal, juntamente com a Srta Milles McStocker, batedora relativamente violenta da seleção da Inglaterra, que foi bastante ovacionada. Apolinário Termopholis, caçador de tesouros e artefatos mágicos, revelou para as crianças como sempre foi caçoado pelos colegas por ser meio desastrado, mas demonstrou dar a volta por cima e depois se revelou um grifinório; assim como Homerus Aracnio, criador e especialista em aranhas (fato que deixou Hagrid com os olhos brilhando). As crianças ficaram deslumbradas com as histórias perigosas narradas pela criativa mente do escritor Hermético Keshnner e pelas horripilantes teorias de Casper Visionack, especialista em fantasmas; ambos, lufos. Os sonserinos ficaram surpresos ao perceberem que havia membros de sua Casa em lugares de confiança na seção de Aurores e na Suprema Corte: Nikola Deathway e Sean Kirsebad, respectivamente. Foi quando Horacio Slughorn se dirigiu ao centro com muita pompa e todos fizeram um silêncio respeitoso.
– Eu sou Horacio Slughorn, Professor de Hogwarts e sonserino, é claro, vocês sabem muito bem disso. Venho aqui hoje para tratar de um assunto delicado e que não ousaria falar caso não fosse o pedido gentil e respeitoso de nossa diretora. Todos vocês já conhecem ou estudarão, no 7º ano, o período das duas Grandes Guerras dos últimos anos. Foi uma época terrível, terrível! – fez uma pausa enquanto sentia as respirações dos alunos suspensas – Um jovem bruxo, que fez parte do meu círculo de alunos brilhantes, resolveu fazer escolhas de caráter duvidoso e conseguiu convencer muitos a compartilharem seus ideais por lábia, medo, conveniência ou mesmo por achar que era o destino da Casa Sonserina.


Um clima tenso invadiu o Salão onde era possível ouvir o simples umedecer dos lábios do professor, que prosseguiu:


– Escolhas muito, muito erradas – enfatizou – Mas o que muitos insistem em não lembrar é que não havia apenas ex-alunos desta Casa entre eles. Muitos estrangeiros, alguns lufos e corvinais também aderiram àquela causa – houve um cochicho nervoso entre os alunos das Casas citadas – Ouso dizer, inclusive, que havia dois ou três grifinórios.


Com a última sentença, uma horda começou a se formar contrários ao que Slughorn dizia e Minerva teve de interferir para silenciar o Salão.


- Devo dizer também que uma parte, diria que até razoável, de sonserinos não aderiu à causa. Pelo contrário! – levantou a voz ao sentir vibrações de contestamento – Houve sonserinos que lutaram em segredo contra os planos Daquele-que-não-deve-ser-nomeado.


Harry deu um longo suspiro sabendo onde tudo aquilo iria resultar. As palavras proferidas pelo professor eram, por mais duro que parecesse, a mais pura verdade.


– Eu, por exemplo, fiquei bem aqui, por trás destes muros, lutando pelo que eu acreditava e ainda acredito! Era fácil dizer que todos os sonserinos eram Comensais e que não se deveria confiar neles, mas eu sou um sonserino e escolhi provar que em mim podiam confiar. E não foi por falta de convite, porque os Comensais tentaram me alistar... – e ergueu as vestes da manga para revelar o braço nu – Mas eu disse não - concluiu, de forma dramática.
Muitos alunos até prenderam a respiração, deslumbrados por tamanha coragem do Professor de Poções. Logo, uma salva de palmas calorosas foram direcionadas a Slughorn que as aceitou sem nenhum traço de humildade. Alguns sonserinos ficaram até incomodados depois de tantas verdades. Horacio, é claro, não entrou no mérito de suas fugas subseqüentes e desesperadoras dos homens de Voldemort. Enquanto ele se dirigia para a cadeira e Harry se preparava para ir ao centro, um barulho de algo se quebrando revelou, no centro do Salão e diante de seu olhar, a presença Draco Malfoy, carregando uma sacola preta.


– Perdoe-me pelo atraso, diretora McGonagall. Espero ter chegado em tempo – disse, direcionando seu olhar para a diretora e depois para o Salão, surpreso com seu formato.


– Bem na hora, Sr Malfoy. Agradeço pelo esforço.


Aquela súbida aparição de Draco fez o estômago de Harry embolar e ele voltou a se sentar. Neville tinha o rosto em chamas, dividindo o mesmo sentimento que o colega grifinório, enquanto Slughorn retornou para cumprimentar seu ex-aluno.


Nas arquibancadas, Deymon teve de segurar os nervos para não ter um acesso com a aparição do pai. Respirou fundo e encarou a mesa por algum tempo, sob um olhar curioso de Alvo Potter, sentado ao seu lado. Era um momento constrangedor saber que metade do Salão olhava para seu pai e a outra para ele mesmo. Ergueu o olhar e manteve-se firme, encarando o infinito. Suas mãos estavam geladas, seu coração batia aceleradamente e o único pensamento que tinha era: “pai, por Merlim, não me faça passar vergonha”.


– Bom dia. Sou Draco Malfoy, da Casa Sonserina e sou o que hoje se considera um multiempresário. Isso significa que atuo em diversos ramos e lucro bastante com eles. Leiam o Profeta Diário de amanhã e entenderão melhor – e deu um sorriso arrogante, como Harry bem conhecia – Contudo, tive de lutar pela reputação da minha família. É de conhecimento geral que meu pai foi um Comensal da Morte, portanto, após a última Grande Guerra, o prestígio e a riqueza do nome Malfoy ficou manchado na comunidade bruxa. Decidi, portanto, que as coisas não continuariam a decair daquela forma. Arrisquei-me, aventurando em caminhos desconhecidos de minha família, sob protestos, zombarias e descrenças. Hoje, venci. Dupliquei os rendimentos, recuperei o crédito da fortuna e negócios dos Malfoy, assim como o nome de minha família já retorna ao seu lugar de origem, entre as mais ricas da Inglaterra. Não me deixei abater pelas acusações do passado e nem pelo desafio do presente, focado apenas na mudança que projetaria no meu futuro. Financiei a construção de novos prédios e possuo diversas ações em instituições significativas. Montei com alguns sócios a fábrica das novas vassouras SonicBlaster. O caminho foi difícil, perdemos muitos galeões, mas acabamos de desenvolver um novo design que promete emparelhar com a Firebolt.


Dito isso, abriu a sacola de viagem preta que estava no chão, encantada por um feitiço de expansão, e retirou uma vassoura com design arrojado, completamente prateada, com o nome SonicBlaster em alto relevo negro. Olhares cobiçosos dos jogadores dos times de quadribol eram direcionados àquela preciosidade.


– Pelo sucesso que vocês acabaram de ver, devo anunciar em primeira mão que fechamos um acordo com o time Spectrus, que recentemente ascendeu à 1ª divisão da liga Inglesa de quadribol. Vocês estão olhando para seu novo acionista majoritário e foi por isso que me atrasei para esta reunião – concluiu vitorioso.


Uma onda de expressões de surpresa se espalhou pelo Salão. Para Deymon, que estava receoso de seu pai fazer alguma coisa ridícula e covarde, como muitas vezes seu avô dissera que ele fazia, era uma revelação saber exatamente o porquê dele viajar tanto. Seu pai não gastava o dinheiro da família à toa, mas o investia em negócios que o seu avô não aprovava e só agora ele começava a entender. O jovem sonserino sorriu, pois começava a olhar para seu pai de uma forma diferente.


– Durante a Guerra eu vi muita coisa. Muitas das quais não gostaria de ter lembrança, mas não se pode fugir do passado. Severo Snape foi diretor da minha Casa e por inúmeras vezes me ajudou. Posso não ter reconhecido naquele tempo, mas isso ficou gravado em minhas lembranças e posso, hoje, admirar o homem que ele foi. Snape foi um sonserino odiado por alunos, professores e adultos, mas que provou que as aparências não passam disso: meras aparências. Obrigado.


Os alunos aplaudiram Malfoy, que fez uma mesura à diretora e se encaminhou para o lugar vago próximo aos professores. No caminho, cruzou com Potter e seus olhares se encontraram por alguns instantes, refletindo a indiferença que um sentia pelo outro. Cumprimentaram-se com gestos moderados, como cabia a dois adultos, e Harry assumiu o centro do Salão. As crianças se acomodaram melhor nas arquibancadas, ansiosas pelo que o herói da comunidade iria falar.


– Olá a todos, eu sou Harry Potter, chefe do Quartel General dos Aurores, sócio da Gemialidades Weasley e temporariamente professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. Sou grifinório, como todos sabem, e prezo muito pela minha Casa. A Grifinória sempre foi a Casa arquirival da Sonserina, desde muito antes de Argo Filch nascer – muitos alunos soltaram uma risadinha, enquando o zelador torcia o rosto, em desgosto – Mas, avaliando as coisas de um ângulo neutro, como uma amiga minha costuma fazer, sonserinos e grifinórios se aproximam em muitos aspectos.


Houve um desconforto geral entre os alunos das Casas que se entreolharam e Harry aguardou o silêncio para continuar. Tinha ensaiado isso durante a noite em sua sala e acreditava que poderia dar tal contribuição para diminuir essa disputa e discriminação entre as Casas. Embora, em seu coração, não pudesse se considerar tão próximo assim de Draco Malfoy.
– Coragem, perspicácia, amizade, ousadia, um certo desrespeito pelas regras... eu tinha as qualidades que Godric gostava, mas também todas as que Salazar prezava e o Chapéu Seletor cogitou seriamente me colocar na Sonserina – um burburinho geral rodou as arquibancadas entre alunos e professores e Harry teve de aumentar o tom de voz – Na verdade, anos depois ele chegou a repetir que eu teria me dado muito melhor se tivesse ficado na Sonserina.


James e Rose estavam em choque, assim como Draco Malfoy e boa parte da escola. A própria Minerva achava-se surpresa com tal revelação e encarava com respeito o homem que Harry havia se transformado, pois dividir isso certamente não deveria ter sido uma resolução fácil. Alvo mantinha uma expressão neutra, pois já sabia de tudo aquilo desde o início do ano letivo, quando Harry lhe contou na plataforma. Deymon olhava para ele estupefado e Alvo apenas ergueu os ombros e continuou a prestar atenção às palavras de seu pai.


– Mas – continuou apesar do tumulto – Eu tinha ouvido falar tão mal da Casa, que não queria ir para lá e por isso o Chapéu me colocou na Grifinória. Contudo, o que eu escutei não era toda a verdade. Uma criança não saberia disso e demorei a compreender que rótulos não significam nada, porque o prof Slughorn me mostrou como um sonserino poderia ser leal. E um ex-diretor de Hogwarts me provou que eu não conhecia a natureza Sonserina. Severo Snape era um homem que eu odiava, um Comensal da Morte, mas também era a prova de que não havia obstáculo se existisse a verdadeira vontade de mudar e de se arrepender. Eu não posso fazer outra coisa senão... concordar com o Sr Malfoy no que diz respeito a Severo Snape. Ele foi sonserino o suficiente para se manter frio e mais corajoso do que qualquer um ao se colocar contra Voldemort.


A citação do nome do ex Lorde das Trevas fez muitos alunos soltarem um gritinho de pavor.
– Sabem, um bruxo muito sábio que também tinha sua cota de equívocos, afinal, ninguém é perfeito, me disse certa vez que o medo do nome de algo só faz aumentar o medo da coisa em si. Voldemort é passado e é preciso dizer que devemos isso também à coragem de uma sonserina. Alguém que tinha nas mãos a minha vida, mas teve muita coragem de mentir para Voldemort e, de certa forma, salvar a todos nós – as palavras de Harry causaram um leve tremor em Draco, imperceptível para os outros – Narcisa Malfoy, sonserina, também provou que é possível reparar os danos feitos, não importa quão ruim a situação esteja. Temos o Prof Slughorn, a memória do ex-diretor Severo Snape e a Sra Malfoy que fizeram a diferença nessa guerra em que uma maioria era da Casa Sonserina. Por isso eu afirmo que não se pode julgar um cesto de maçãs só porque uma está podre. Você vai perceber que muitas outras ainda não foram contaminadas. Parece difícil um grifinório dizer isto, mas uma das pessoas que mais admirei, mesmo só reconhecendo isso após a sua morte, foi Snape. As influências de Alvo Dumbledore e Severo Snape na minha vida significaram tanto que resolvi homenagear a ambos com meu filho, Alvo Severo Potter.


O lufo tentou se esconder atrás do balcão enquanto todos os outros alunos direcionavam seu olhar para ele. Parecia que só agora haviam se dado conta do nome dele e até o próprio Alvo tomava conhecimento do peso da homenagem que carregava.


– Eu só queria dizer a vocês que lá fora grandes oportunidades surgirão e vocês vão acertar e errar muitas vezes. E lá fora, não importa se você é grifinório, corvinal, lufo ou sonserino. Você tem que ser bom no que faz. Aqui, nesta escola, conhecendo os alunos das outras Casas e firmando laços de amizade é como vocês começam a construir suas próprias histórias. Depois vocês vão se dar conta, quando tudo terminar, que os anos em Hogwarts terão sido os mais maravilhosos de suas vidas. Não desperdicem isso.


Todos aplaudiram enquanto Harry acenava e caminhava para seu lugar de origem. A maioria acreditava tudo já tinha terminado, quando um casal, pouco mais velhos do que o próprio Harry Potter, caminhou até o centro. As crianças trocaram olhares curiosos, surpresas em ter algo melhor do que o herói da Segunda Grande Guerra para fechar aquele ciclo de palestras.


– Bom dia a todos! É bem difícil falar depois do grande Harry Potter, mas vamos fazer o nosso melhor. Sou Flora Mordry Benz, diretora de finanças da maior editora do Mundo Bruxo: a Floreios e Borrões.


– E eu sou o diretor de comunicação, Hector Benz. Somos um casal, eu diria, não convencional. Já passamos por muitas dificuldades, provocações e conseguimos superar tudo isso, com muita força de vontade e confiando em nosso sentimento.


– Temos um filho, Samuel, de 9 anos e estamos muito curiosos quanto ao seu futuro em Hogwarts. Claro que ele tem todas as características para ser escolhido para minha Casa.


– Amor, já discutimos isso. Ele tem todos os requisitos para ser da minha.


– Há controvérsias, querido. Até sua mãe acha que ele tem outro perfil.


– Minha mãe não é uma referência, Flora!


– Hu-hum! – interrompeu Minerva, enquanto os alunos tentavam controlar a risada.


– Desculpe – disse Flora – Enfim, nossa história começou bem aqui, alguns anos antes de Harry Potter ingressar em Hogwarts. E nós brigávamos além da conta, com um ódio implacável, como a diretora McGonagall certamente se lembra. Não que a gente tenha deixado de discordar em alguns pontos - e sorriu, divertida para o marido.


– No fim, acabou virando amor.


– Um amor com muitas implicações e carregado de preconceitos. Nossos amigos não acreditavam e nossos parentes reprovavam, mas ele foi forte o suficiente para se sustentar até hoje.


- Sou Hector Benz, grifinório.


– E eu Flora Benz, sonserina.


– O quê??


Foi inevitável a reação de surpresa incontida de todo o Salão. Muitos alunos, particularmente da Grifinória e Sonserina, estavam com os olhos arregalados diante de tal fenômeno absurdo da natureza.


– Qual a surpresa nisso? Certamente já ouviram falar que o amor transpõe barreiras? Quando ele surge, existe e pronto? Que é o sentimento mais teimoso do mundo? – Flora tinha um olhar divertido, como se soubesse mais do que as crianças diante de si.


– E põe teimoso nisso, porque nós lutamos com todas as nossas forças contra, mas não pudemos fazer nada a não ser aceitar. O fato de estar em Casas separadas não impede nenhum tipo de relacionamento, seja amizade ou amor.


– Exatamente, Hector. Só existe uma barreira para o sentimento se for criada uma. E quando é um amor de verdade ou “aquela” amizade, daquelas que você daria a vida em prol do outro, nada mais importa.


Como se as palavras estivessem direcionadas para eles, os irmãos Dumbledore se entreolharam. Jonathan encarou a irmã com a mesma ternura que era admirado. A amava tanto que nem sabia como medir o que sentia. Elizabeth sorriu para o irmão de um jeito puro que há tempos ele não via, com os mesmos sentimentos refletidos no brilho do seu olhar. Os dois sabiam que o casal dizia a mais pura verdade, pois dividiam um amor que ultrapassava barreiras. Casas iguais ou não, bruxos ou não, nada poderia interferir no amor fraternal que existia entre eles. John esticou sua mão e Lizzie entrelaçou seus dedos nela. Havia muito significado e cumplicidade neste singelo ato. Assistiram ao fim do discurso do casal de mãos dadas, soltando-as apenas para aplaudir.


Minerva McGonagall sorria satisfeita. As palestras haviam tomado toda a manhã e já entravam no começo da tarde. Pediu a palavra e os alunos silenciaram o Salão.


– Meus caros alunos e professores, hoje tivemos a oportunidade de ouvir boas histórias de vida de nossos queridos convidados. Personagens que mostraram a existência de muito mais além de Hogwarts do que é possível supor com tão pouca idade. Eu pude notar muita surpresa no olhar de cada um de vocês e, ao fim, uma sensação de orgulho por tantos ex-alunos de suas respectivas Casas. Não vou me prolongar em fazer discursos, pois acredito que muito já foi dito neste Salão. Por hora, vamos nos ater ao almoço e, depois, sintam-se livres para conhecer um pouco mais dos nossos convidados, que permanecerão na escola. Quem quiser conversar com eles, basta seguir para as salas que estão designadas neste pergaminho – com um movimento de varinha, um grande pergaminho surgiu em ambos os lados do Salão, com o nome e o local onde cada um estaria – Bom almoço para todos.


As bancadas foram novamente preenchidas com todo o tipo de gostosuras. Coxas de frango carameladas, arroz doce, suco de abóbora, gratinados de lingüiça e queijo, maçãs adoçadas, tortas de todos os tipos e taças de pudim. Como os pratos não estavam ao alcance de todos, a interatividade era essencial para que a comida chegasse aos alunos. Pouco depois, a Prof Carmelita Trelawney, sentada próxima a Minerva, direcionou-lhe a palavra, com uma curiosidade.

– Diretora McGonagall, poderia me fazer a gentileza de satisfazer esta mente inquieta?


– Pois não, Profª Trelawney?


– Diretora, muitos de nós acreditávamos que Harry Potter encerraria esta espetacular iniciativa, contudo, a senhora nos surpreendeu quando permitiu que Sr e Sra Benz fechassem o ciclo de palestras. Posso ousar perguntar-lhe o porquê?


– É claro que sim, Profª Trelawney, faça-o sempre. Veja bem, um velho amigo e eu compartilhamos de um mesmo raciocínio que justifica tudo isso. Não importam as dificuldades e como uma situação pode estar caótica, se houver amor no mundo ainda haverá esperança.

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