Recomeço



Ron acordou mais tarde naquele dia seguinte realmente satisfeito. A noite – e ele assumia: até mesmo parte da manhã – com Hermione havia sido perfeita. Sendo este o seu primeiro pensamento do dia, um sorriso brotou em seus lábios. Sem abrir os olhos, ele estendeu seu braço em direção ao lado direito da cama, a ela. Vazio...

O ruivo rapidamente sentou na cama, olhando para o lugar vago ao seu lado. Seu coração batia contra seu peito descontroladamente e o que ele temia acabara de se tornar realidade. Estava acabado.

Talvez, ele pensou, ela apenas tivesse decidido ir embora enquanto ele dormia para não tornar as coisas mais difíceis. Sabiam que não podiam mais brigar, discutir. Não conseguiam... E ele não queria. Já nem cogitava a hipótese de culpar, gritar, magoar – ou o que quer que fosse – Hermione. Não depois de ontem, não depois de tudo... Seria mesmo Hermione capaz de fingir que tudo estava bem? Seria ela tão fria a ponto de passar a noite com ele fingindo?

Ele jogou o cabelo um pouco revolto devido a noite para trás como se quisesse espantar esses pensamentos, mas tudo que conseguiu foi deixá-los ainda mais bagunçados. Jogou-se de novo contra a cama, os braços por sobre a cabeça, os cabelos vermelhos contrastando com o travesseiro de seda branca, o coração sem deixar de gritar por Hermione um só segundo.

E então um barulho chamou sua atenção. Movendo não mais que o pescoço, encarou a porta.

Aqueles cachos...

Hermione entrava no quarto de costas, carregando uma pesada bandeja de café da manhã. Vestia apenas uma blusa desbotada, outrora laranja vivo, que Ron sabia ser a do seu time, o Chudley Cannons.

Ela passou pela porta e depositou a bandeja na penteadeira, ajeitou algumas coisas e virou-se para cama.

Ron, depois de todo medo esvair-se de seu corpo e a felicidade penetrar-lhe a alma, olhava divertido para Hermione.

- O que foi, hein? – ela perguntou rindo quando percebeu o olhar dele.

- Eu nunca gostei tanto da minha velha camisa quanto agora... Se os Cannons tivessem esse tipo de incentivo, definitivamente não estaríamos tão longe dos títulos. – ele disse olhando as pernas de Hermione.

- Ronald Weasley! Você quer que sua mulher vire incentivo para um time? – ela perguntou rindo, pulando na cama e puxando o edredom para cobrir as pernas.

- Claro que não! Você é minha. Minha. – ele a abraçou e apoiou sua cabeça em sua barriga. Hermione sorriu e começou a brincar com os cabelos de fogo dele.

- Sabe, eu fiz o café... – ela disse depois de um tempo. Os dois continuavam parados, aproveitando o momento a dois.

- Eu sei, mas eu deveria ter feito o café. – ele disse movendo-se para cima de Hermione, agora apoiando seu queixo na barriga da morena para encará-la.

- Ah, é? E posso saber o motivo pelo qual você deveria ter feito o café? – ela perguntou com uma sobrancelha erguida.

- Não.

- “Não”?

- Não.

- Francamente, Ron.

- “Francamente, Hermione.”

Os olhos dele estavam fixos nos dela. O sorriso bobo no rosto, a perfeita feição do homem que, no fundo, ainda era a criança que ela havia conhecido anos e anos antes.

- Eu amo você. – ela disse rindo. Não dele, não da situação, mas pela felicidade que ela voltara a sentir com ele.

- “Francamente, Hermione!” – e ele se jogou para o lado fugindo do travesseiro que, por pouco, Hermione não acertara nele.

- Fome. – ele disse simplesmente.

- Me diz a novidade agora. – ele a olhou, ela sustentou o olhar.

- Mione, Mione...

- O quê? – ela se controlava para não rir da situação.

Ele não disse nada. Levantou puxando um dos lençóis da cama e enrolando-o como uma toalha em seu corpo. Caminhou até a penteadeira, pegou uma das torradas e saiu do quarto.

Hermione riu. Não havia entendido nada...

- Ron? – chamou. Sem obter resposta alguma, pulou da cama e caminhou para fora do quarto. Mal saíra pela porta, foi pega de surpresa por Ron que a esperava no corredor. Rindo do pulo causado pelo susto que ela levara, ele a puxou pela cintura, virou-a contra a parede e a beijou como se aquele fosse o último momento deles juntos. Uma das mãos de Ron perdia-se dentro de sua própria camisa no corpo de Hermione, acariciando pernas, barriga, seios. Ela deixava-se levar por toda aquela onda de sentimentos reprimidos há tempos.

Ron se afastou dela, só o suficiente para suas bocas não se tocarem mais. Os dedos dele ainda passavam suavemente por sua cintura. Os olhos, extremamente azuis, invadiam os de Hermione.

- É só isso que você consegue fazer? – ela perguntou brincando, seu coração ainda batendo descontrolado em seu peito devido ao beijo.

Ele não moveu um músculo, talvez apenas tivesse passado a encará-la mais seriamente. Ela percebeu que o momento das brincadeiras havia acabado.

- Você... – ele começou. Ela continuou a olhá-lo.

Ron tirou a mão da cintura de Hermione e passou a colocar uma mecha do cabelo da morena que insistia em cair sobre o rosto para trás da orelha. Os olhos azuis estavam agora fixos no que ele fazia e Hermione o olhava com carinho.

- Que houve? – ela perguntou baixinho.

Ele a olhou novamente, como se finalmente tivesse retornado dos mais pensamentos mais profundos que alguém pode ter e deu um meio sorriso.

- Eu... Você... – ele começou de novo.

- Fala, Ron...

Ele se ajoelhou e encostou a testa na barriga de Hermione, respirou fundo e levantou a cabeça para olhá-la.

- Eu sei que não vai ser tão especial como da primeira vez. Eu... Eu nem ao menos sei se você vai gostar, mas... Eu disse que faria. E... – ele deu um sorriso bobo. – eu te amo tanto que acho que não importa o lugar, como estivermos vestidos e outros detalhes. Na verdade... – ele olhou em volta – o que melhor que nossa própria casa? E – ele olhou para Hermione e deu um sorriso safado que fez com que ela risse. Ela apenas com a camisa dele, ele apenas com o lençol que agora arrastava no chão. – o que seria melhor do que roupas que provam nosso amor?

Hermione não conseguia deixar de sorrir. Suas mãos agora estavam brincando com os cabelos de Ron, colocando-os para trás, deixando mais vivos – se isso era possível – seus olhos azuis.

- Mione. – ele puxou a mão esquerda dela e a beijou. – Por tudo que já vivemos, por tudo que já passamos – juntos ou separados –, por tudo que vimos, ouvimos, lutamos. Por nós... – e ele a encarou, seus olhos passando a maior verdade dos dois: o amor. – Você aceitaria continuar sendo minha esposa? – e ele mostrou a ela a palma de sua mão esquerda. Um anel de ouro branco, gravado com runas que ela conhecia muito bem, se encontrava ali.

Os segundos passavam lentamente e Hermione continuava encarando a sua aliança na mão de Ron. Este que estava começando a se sentir desconfortável com o silêncio dela.

- Mione... – ele levantou rapidamente, afastando-se dela. – Desculpa se eu achei que era a hora certa, desculpa se você acha que eu estou te pressionando. Eu... Você... – ele começava a andar pelo corredor, uma mão segurando a aliança e a outra o lençol. – Ah... – e, sem mais uma palavra, entrou no quarto deixando-a sem entender nada novamente.

Ela sorriu. Pelo momento, pela preocupação dele por ela, pela felicidade que sentia. Ele realmente mudara. Ron voltara a ser a criança grande por quem se apaixonara, o homem engraçado, irônico e diferentemente sensível. O homem de uma personalidade marcante e bondade e lealdade absurdas. O seu Ron.

A passos lentos, ela se encaminhou novamente para o quarto. Ele nem ao menos percebeu quando ela se encostou no batente da porta e ficou a encará-lo. Ele jogava a aliança de uma mão para a outra, sentado no meio da cama, entre os muitos lençóis e edredons brancos.

- Sabe, Weasley... – ela começou a falar, fazendo com que ele erguesse os olhos das suas mãos ocupadas e a encarasse. – Se você ainda quer que eu carregue essa aliança no meu dedo, é melhor não perdê-la em mais uma das suas brincadeiras completamente infantis e sem lógica. – e sorriu, daquele modo que só ele a fazia sorrir.

Ele também sorriu, mas foi um daqueles sorrisos tímidos e surpresos, um daqueles completamente sinceros e extremamente envolventes.

Ele se levantou e foi ao encontro dela. Abraçou-a pela cintura e apoiou sua testa em sem ombro, a voz dele soou completamente aliviada quando disse, não mais alto que um sussurro:

- Você não sabe como eu te amo. O quão louco você me deixa. O quão inseguro eu sou ao seu lado. Você faz com que eu não saiba de mais nada, me perca, me ache incapaz e, ao mesmo tempo, faz tudo o contrário. – ele suspirou mais fundo e soltou uma meia risada. - Você é completamente irritante, Granger. Definitivamente louca. E eu só posso ser mais ainda por ter me apaixonado por você.

- Obrigada pela parte que me toca, Weasley, mas você precisa saber que eu te enfeiticei. Por isso você me ama, é tudo efeito de uma poção do amor fortíssima. – o que ela disse fez com que ele risse mais um pouco e, como Ron ainda se encontrava apoiado em sem ombro, sua risada fez com que seu corpo se retraísse um pouco ao sentir sua respiração mais forte perto de seu pescoço.

- É mesmo, Granger?

- Claro! Não que você seja a Sétima Maravilha do Mundo Mágico, mas eu não sei... Alguma coisa nesse ruivo bobão de quase dois metros de altura sempre me chamou a atenção.

- Ruivo bobão, é? – ele disse agora encarando-a divertido.

- Claro. E não se engane, ainda estamos falando de você. – a seriedade e o tom ligeiramente cômico que ela usava o divertia. Ela definitivamente aprendera algo com ele e, por mais que esta – com as palavras dela – não fosse a Sétima Maravilha do mundo, ensinar alguma coisa a Hermione Granger era um grande feito.

- Então é por isso que você sempre foi tão dedicada aos estudos, não? Não queria me perder, queria saber de tudo para que, se um dia o efeito da poção passasse de repente, você soubesse o que fazer.

- Olha, até que ele está se mostrando mais esperto agora...

Ele riu e a olhou de um modo tentador.

- Não provoque, Granger...

- Não ensine, Weasley...

O leve toque dos lábios do ruivo nos de Hermione fez com que uma onda se espalhasse pelo seu corpo. Ele, devido às brincadeiras de Hermione, decidira provocá-la. Ele não a tocava, apenas seus lábios roçavam nos da morena, seus narizes se encostavam de leve e até mesmo suas respirações entraram em sincronia.

Eles nem ao menos sabiam da existência de tal momento, mas esse era um daqueles que, quem quer que os visse, saberia que eles se amavam da forma mais sutil e extraordinariamente intensa que, talvez, apenas para eles dois existissem.

Ron continuou a torturá-la. Mantinha certa distância do corpo de Hermione, havia um controle sobre humano por sobre suas mãos para que elas não a tocassem. A cada vez que ela tomava a iniciativa de beijá-lo, ele desviava, fazendo que ela mordesse o lábio inferior, de olhos fechados, dando a ele o diferente prazer de uma relação.

Ela sentia o corpo amolecer; queria apoiar-se no peitoral dele, sentir aquele cheiro já tão conhecido, acariciar seus braços, sentir-se segura. Neste momento, no entanto, tudo que conseguia era implorar - ainda que silenciosamente - por isso. Ele continuava com as provocações, mas nada além da respiração podia ser ouvido. Palavras não eram necessárias, pois a linguagem corporal expressava-se por si só, falava melhor que meias-palavras.

Ele arfava, o peitoral à mostra, descendo e subindo num ritmo lento e intenso, Hermione parecia sentir-se tonta. Seu corpo ia em direção ao de Ron e ele se afastava. Nenhum dos dois conseguiria controlar-se por mais tempo.

- Ron... – ela só disse isso. E também não precisou dizer mais nada para que ele começasse a beijá-la.

Os dois, que se encontravam na porta, se dirigiram à cama, ainda se beijando. Ron deitou Hermione primeiro e posicionou-se por cima dela. Os dois tinham sorrisos em seus lábios, idênticos, felizes, apaixonados.

- Eu só quero fazer mais uma coisa. – ele começou.

- O quê?

- Antes que você mude de idéia... – ele puxou a mão dela e colocou a aliança em seu dedo.

- Eu não vou mudar de idéia. – ela disse acariciando o resto sardento dele.

- E eu juro, nem eu mesmo farei com que você queira...

- Ron, eu nunca quis.

Eles se encararam e ele deitou-se sobre ela, sua cabeça perto de seu pescoço.

- Mione, obrigado. – ele disse num sussurro. – Eu...

Mas ele não conseguiu terminar, ela já estava beijando-o.

- Ronald Weasley!

Os dois levaram um susto, o que fez que Hermione mordesse o lábio inferior de Ron.

- Ronald Billius Weasley! Compareça já a esta sala, ou quer deixar sua mãe falando com as paredes?!?

Eles não entenderam nada, mas o tom da voz de Molly deixava bem claro que, o que quer que fosse, não era brincadeira. Os dois levantaram-se da cama correndo. Hermione com a blusa desbotada de Ron, completamente amarrotada devido aos muitos... , ele apenas com o lençol, agora com manchas vermelhas devido ao sangue que escorria de sua boca.

Ron chegou primeiro na sala. Parou em frente a lareira rapidamente, jogando-se ao chão, não se importando nem um pouco em como se apresentava diante sua mãe.

- O que houve? – ele perguntou num fôlego só.

Molly, de repente, parecia ter esquecido o que tinha que falar com seu filho. Reparou em suas “vestes” e no seu lábio que sangrava.

- Roniquinho! – o rosto de Ron se contorceu ao ouvir sua mãe chamando-o assim. - O que aconteceu com você, meu filho??

Então Hermione chegou, tão preocupada quanto Ron, também não importando para as roupas.

- Ah. – foi a única coisa que Molly falou. Seu rosto ficou vermelho, roxo e, quem sabe, até mesmo com um certo tom de verde. Ela balançou a cabeça, como quem quer esquecer pensamentos repentinos envolvendo seu filho mais novo e pareceu voltar a realidade.

Hermione, diante da atitude de Molly para com eles, pareceu perceber como eles realmente se encontravam. Imediatamente Hermione levou as mãos para a barra da blusa que não cobria nem mesmo um quarto de sua perna e, mesmo sem produzir resultado algum, puxava-a em direção aos joelhos. Ron, pelo contrário, apenas limpou o sangue dos lábios com as costas da mão e limpou-a no que, um dia, fora um lençol impecavelmente branco.

- Mãe...!!

- Ah, sim... Sua irmã! Vai ter o bebê! Ande, vamos! Todos já estão se encaminhando para o St. Mungus!

Ron e Hermione sorriram, radiantes. Ele levantou-se e pegou a mão de Hermione, os dois começaram a andar em direção ao quarto para se vestir.

- Er... Filho? – Molly chamou.

Ron se virou e voltou para frente da lareira.

- Oi, mãe?

- Vocês... – e indicou, tentando disfarçar, Hermione com os olhos. Hermione prendeu o riso. – Foi uma briga? Seu sangue? – Molly, aparentemente, demonstrava não querer saber a resposta. Qualquer uma que esta fosse, ela tinha certeza, não a agraderia muito.

Ron também segurou o riso, por mais que estivesse um tanto quanto desconcertado em falar sobre isso.

- Não...

- Entendo... – ela disse simplesmente. E Ron percebeu na hora, talvez ela preferisse escutar a versão da briga.

- Nós voltamos, mãe.

Na hora a feição de Molly mudou. Seu sorriso se alargou e, se ao menos não tivesse falando através da lareira, abraçaria Ron como se fosse o último abraço.

- Ah, meu filho... Mione... Que bom, que bom! – mas, novamente a feição de Molly mudou. – Ronald e Hermione Weasley, vocês querem que Ginevra segure a criança dentro dela?? Andem, andem! Já para o St. Mungus!

Os dois, novamente, se dirigiram ao quarto, sorrindo. E, no meio do corredor, ouviram Molly gritar:

- E tomem cuidado! Da próxima vez não se matem! Não quero meus netos sem tios, por mais que eles já tenham o bastante!

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