A coruja oficial





Capítulo 8 - A coruja oficial



Ainda não tinha amanhecido quando Martha abriu os olhos e viu que Severo não estava a seu lado. Ela imediatamente se assustou e se ergueu, zonza de sono:



- Sev?



Ela o encontrou no pequeno laboratório, cozinhando uma poção. Severo estava com a aparência abatida, mas muito melhor do que antes. Martha sorriu, enquanto ele mexia no caldeirão:



- Bom-dia. Não quer descansar um pouco mais?



- Preciso dessa poção revigorante, se é que quero atravessar o dia - ele a encarou seriamente, sem parar o que fazia - Você se assustou ontem.



Ela se aproximou dele:



- Eu... estava nervosa. Ver você naquele estado -



Ele a interrompeu:



- Não é incomum que eu volte dos encontros com o Lorde das Trevas daquele jeito.



- Oh, Sev - ela o abraçou por trás, ele ainda mexendo a poção - Desculpe. Mas não posso ver você daquele jeito e não sentir nada. Eu amo você.



Severo colocou sua mão em cima da dela.


- E eu amo você. É por nós que estou fazendo isso.



- Você não me disse se seu plano funcionou.



Ele respirou fundo:



- Considerando que eu ainda estou vivo, acho que pelo menos parte dele funcionou. Voldemort ficou intrigado com a idéia de aliados não-mágicos, mas pelo menos não a descartou por completo. Mas você sabe que é um jogo perigoso. A qualquer momento, ele pode mudar de idéia.



- Viver na corda bamba... - Martha suspirou e beijou o ombro dele - Espero agüentar, Sev. Eu prometo ser mais corajosa. Você ainda vai ter orgulho de mim.



- Mas eu já tenho orgulho de você. Por que não descansa mais um pouco? Sei que essa noite não foi fácil para você.



- Não, obrigada. Agora já estou de pé. Posso ajudá-lo em alguma coisa?



- Na verdade, poderia pegar alguns ingredientes para mim? Não posso parar de mexer essa poção nesse ponto do cozimento.



- Claro.



Ficaram juntos fazendo a Poção Revigorante até que chegou a hora do café da manhã. Dessa vez, o clima parecia mais calmo: aparentemente, todos começavam a se acostumar à idéia de que havia uma trouxa em Hogwarts, e ela ia ficar.



A revoada de corujas foi menor naquela manhã, mas continuou acima do normal. Snape ganhou muita correspondência, mas não tanto quando Dumbledore. Os sonserinos receberam poucas cartas. Mas havia um berrador para Draco Malfoy. Ele levou o envelope escarlate para o corredor, onde a voz estridente de Narcisa Malfoy lhe passou um sabão por questionar um professor, logo o chefe de sua casa. A humilhação de Malfoy, que foi alvo das troças e zombarias da mesa inteira de Grifinória, trouxe uma discreta satisfação a Severo e um sorriso nos lábios de Martha - depois que ela entendeu o que era um berrador, claro.



Mas os dois não tinham se levantado da mesa quando o Prof. Dumbledore disse:



- Ah, Severo, Martha. Eu esperava poder ter uma palavrinha com vocês.



Severo já esperava isso. Deveria ser o resultado da reunião com o conselho.



- Sim, diretor. Prefere conversar no seu gabinete?



- Não será necessário - Dumbledore abanou uma mão magra - Podemos ir andando para as masmorras juntos.



Os três se puseram a caminhar, enquanto alunos se apressavam para as primeiras aulas. Dumbledore indagou:



- Você tem aulas nesse horário, Severo?



- Lufa-Lufa, aula-faixa.



- Então serei breve para não atrasá-lo. Eu expus seu caso aos conselheiros. Eles realmente ficariam mais convencidos se eles pudessem contar com alguma chance de casamento...



Os dois enrubesceram:



- Er...



- Bom...



Dumbledore poupou-lhes mais embaraço:



- Calma, calma, eu só quis dizer para pensarem nisso com afinco. Por enquanto, os membros do conselho não pensam em tomar nenhuma ação. Não é unânime, mas foi a decisão que eu consegui.



- Obrigado, diretor.



- Mas se apressem, sim? Vocês sabem que podem contar comigo para o que precisar. Mas agora vão. E não se atrase para as aulas, Severo - ele pegou uma escada e subiu um degrau - Tenham um bom dia.



Ele subiu as escadas e Severo disse:



- Ele tem razão. Vou direto para a sala de aula.



- Vou até a biblioteca. Encontrei um livro interessante.



- Até o almoço, então.



- Até lá, querido.



Eles olharam para os lados, para ver se tinha alguém olhando. Infelizmente, havia alguns lufa-lufas correndo para as masmorras a fim de não se atrasarem para a aula de Poções, então eles não puderam se beijar. Mas o olhar que trocaram teria que ser suficiente.



Martha subiu as escadas, e quando chegou ao andar da biblioteca, não viu qualquer indicação de onde ela estaria. Os corredores pareciam todos iguais, e ela recorreu ao pó de mapa para achar a biblioteca. Só havia uma conclusão a tomar: as escadas haviam mudado durante a noite.



Ela cumprimentou Irma Pince e dirigiu-se para pegar o livro que estiver lendo na tarde anterior: Hogwarts, Uma História. Martha deixou-se perder pelas páginas durante quase uma hora, quando ela ouviu um farfalhar de asas bem em frente. Uma coruja imensa, parecendo ter uma capa preta sobre penas marrom-escuras, e olhos bem castanhos, pousou na mesa que ela usava, assustando-a. Madame Pince correu para ela, uma expressão extremamente contrariada no rosto:



- Mas o que pensa que está fazendo?



Martha fechou o livro, vexada:



- Eu... eu...



- Corujas são estritamente proibidas na biblioteca! Eu pensei que isso estivesse claro no - a bibliotecária interrompeu-se quando a coruja abriu as grandes asas e a olhou com uma expressão superior - Oh, minha nossa... É uma coruja oficial.



- Oficial?



- Sim, do Ministério da Magia. Elas têm permissão para entrar virtualmente em qualquer lugar. Bem que eu vi que não seria qualquer coruja a desafiar minhas regras.



A ave aproximou-se de Martha e deixou cair uma carta diante dela. Estava endereçada: "Srta. Martha Scott, Biblioteca de Hogwarts". Ela se espantou:



- Mas como... como...



Madame Pince deu de ombros:



- Você só saberá o que é quando abrir, Srta. Scott.



E voltou para sua mesa antes que Martha pudesse explicar que ela estava espantada em como o Ministério a tinha localizado tão rapidamente. E precisamente na biblioteca!



Com as mãos trêmulas, ela abriu o pedaço de pergaminho. Aparentemente, era tudo o que a coruja estava esperando, pois nesse exato momento, ela abriu as grandes asas e voou rumo à mesma janela por onde tinha entrado. Martha então voltou sua atenção para o bilhete - aliás, comunicado oficial:



"Prezada Srta. Scott,



Sua presença foi denunciada a este Ministério em violação direta ao Estatuto Internacional de Sigilo em Magia. Favor aguardar a chegada de uma equipe de aurores obliviadores a Hogwarts hoje, às 17h, quando os feitiços de memória apropriados serão administrados, e a Srta. poderá retornar em segurança ao mundo trouxa. Nenhum inquérito posterior será oficiado para a senhorita; apenas ao Professor Severo Snape.



Melhores votos,

Antoniel Pritchard

Subchefe do Departamento de Cumprimento de Leis Mágicas




- Oh, não! - sussurrou Martha, pálida feito uma vela - Isso não!



Decidida, ela entregou o livro de volta a Madame Pince, sabendo que não poderia se concentrar em mais nada. Em seguida, tomou o rumo das masmorras, sem saber para onde ir. Sua cabeça girava, e ela tremia dos pés à cabeça. Por uns bons, minutos, ela ficou deitada na cama, a carta oficial amassada em sua mão, pensando nas terríveis perspectivas. Martha jamais imaginara que as complicações pudessem chegar tão depressa.



De repente, a porta se abriu:



- Martha!



- Severo!



Ela se atirou nos braços dele, procurando conforto e alívio para sua angústia.



- Eu recebi uma carta!... Eles...



- Sim, eu também recebi uma agora mesmo. Dumbledore me contatou.



Lágrimas rolavam pelo rosto de Martha:



- Eles querem me levar de volta!...



- Eu não vou deixar isso acontecer, querida, pode ficar tranqüila quanto a isso - ele acariciava os cabelos dela - Procure ficar calma.



- Desculpe, eu tenho medo. Tenho medo de que eles nos separem! Eu tenho medo de ficar sem você, Severo...



- Nada disso vai acontecer. Agora fique aí deitada que eu tenho uma poção pronta para você tomar.



Martha obedeceu, secando as lágrimas com as mãos enquanto ele ia ao laboratório:



- Oh, Sev, eu sou mesmo uma boba. Ainda nem começamos a enfrentar dificuldades e eu já estou me descabelando!



O mestre em Poções trouxe um frasquinho com um líquido escuro e disse:



- Apenas beba isso. Só um gole vai bastar.



Ela obedeceu, e sentiu um gosto adocicado no líquido grosso. Severo recolheu o frasco e ela indagou:



- Você também recebeu uma carta do ministério?



- Exato. A reunião será no escritório do diretor.



- Eu entendi direito? Eles querem processar você?



- Isso mesmo. Sem dúvida por violação ao Estatuto Internacional de Sigilo em Magia.



- Mas Severo, isso é um absurdo! Você não expôs o mundo bruxo; você só contou para mim. Eu não vou contar para ninguém.



- Podemos tentar argumentar isso, mas não sei se será muito eficiente - ele pegou a mão dela e a levou aos lábios - De qualquer forma, nada poderá nos separar.



Martha se aninhou nos braços dele:



- Não, Severo. O que mais me assustou foi que eles querem me fazer esquecer de você. Isso é uma coisa que não posso permitir.



- É um procedimento padrão para trouxas que vêem o que não devem. Er... Martha, que tal conversarmos um pouco?



- Conversarmos?



Severo parecia um pouco embaraçado - uma façanha em se tratando de Severo Snape:



- Sim, sobre casamento. Acho que essa seria uma hora excelente para tratarmos disso.



- Sev - Martha olhou fundo nos seus olhos negros profundos -, eu pensei no que o Prof. Dumbledore disse e quero que saiba que não quero que você se sinta obrigado a fazer o que não quer. Eu não quero que você faça apenas o que é melhor para os outros.



- Mas... essa opção.... você não quer ao menos pensar nisso?



- Meu amor, eu larguei tudo para vir com você. Eu estou mais do que disposta a passar o resto dos meus dias com você. Não tenho nada a lhe oferecer além de amor, porque sou pobre e no momento estou desempregada. Tudo indica que você é uma pessoa de posses, e talvez não queira nada com alguém como eu, que nem bruxa é e que fica hipernervosa a qualquer dificuldade. Mas eu te amo e sei que viver sem você vai ser muito, muito triste para mim.


Ele sorriu para ela e a beijou docemente.



- Obrigado por isso. Mas acho que faltou eu perguntar uma coisa.



- O quê?



- Martha, você aceita ser minha esposa?



- É claro que sim, Severo. Eu pensei que já tivesse dito isso.



- Eu precisava ouvir você dizendo isso. Sabe, eu não sou também nenhum príncipe encantado...



- Não diga isso. Você me trouxe para viver num castelo, não foi?



Ele não pôde deixar de sorrir:



- Você é simplesmente fantástica. Tem preferência por alguma data?



- Não de verdade.



- Preciso tomar algumas providências, e isso pode tomar algum tempo. Hum, que tal nos casarmos no feriado de Natal? Teríamos algum tempo de folga.



- Parece maravilhoso.



- No fim de semana, iremos ao Beco Diagonal para alguns dos preparativos. Mas agora é melhor eu voltar para a sala de aula.



Martha ficou alarmada:



- Oh, Severo, eu não quero atrapalhar suas aulas.



- Aposto como os alunos não vão reclamar.



Houve uma batida na porta. Os dois se entreolharam e foram até a sala de estar. Para a surpresa de Martha, na porta estava a vice-diretora Minerva McGonagall.



- Oh, Prof. Snape. Não imaginei que estivesse aqui a essa hora.



- Na verdade, estou voltando à sala de aula - ele se virou para Martha, carinhoso - Até mais tarde.



Martha sorriu para ele, que se virou majestosamente e inclinou a cabeça para McGonagall. Depois, ele deixou os aposentos. A professora disse:



- Se eu estiver interrompendo alguma coisa...



- Que nada, professora. Por favor, entre.



Ela obedeceu e as duas se sentaram no sofá.



- Aceita um chá?



- Não, obrigada, Srta. Scott. Eu não pretendo tomar muito de seu tempo.



- Em que posso ajudá-la, Profª McGonagall?



Ela parecia estar um tanto desconfortável:



- Eu... na verdade, eu vim aqui apenas pedir desculpas, Srta. Scott.



- Por favor, me chame apenas de Martha. E por que viria pedir desculpas?



- Bem, eu admito ter sido mais do que rude quando nos conhecemos - a professora olhava para seu colo e parecia muito embaraçada - Eu disse coisas horríveis, e fui muito preconceituosa. Meu comportamento foi imperdoável.



- Tenho certeza que tinha apenas os interesses da escola em mente. Além disso, Severo e eu prevíamos reações como a sua e as de muitos pais de alunos.



- Então... sem ressentimentos?



- Claro que não, Profª McGonagall.



- Minerva - ela deu um raro sorriso e Martha viu os pequenos olhos se tornarem mais doces - Alvo me contou sobre a carta do ministério. Quero que saiba que você pode contar comigo no que eu puder ajudar.



- Isso é muito gentil de sua parte.



- Bom, é melhor eu voltar para minhas aulas agora.



- Quando quiser conversar, apareça para um chá.


- Obrigada.



Ao levar a Profª McGonagall até a porta, Martha ficou imaginando que seria muito bom ter outro professor de Hogwarts do lado deles. Severo iria gostar da boa notícia.



Eles resolveram não almoçar no Salão Principal, e Severo preferiu ficar com Martha, os dois abraçados no sofá em frente à lareira, falando sobre tudo, exceto a audiência que seria realizada em apenas algumas horas. Depois Severo voltou para as aulas e Martha não conseguiu pensar em nada que não fosse a audiência.




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