A música escondida



 Parte dois


 A segunda mensagem


 


A música escondida
 


Era uma terça feira, um dia normal para qualquer pessoa da minha idade. Acordar pela manha, café rápido, trabalhar, almoçar, cafezinho, continuar a trabalhar, chegar em casa podre de cansado, tomar banho, jantar, dormir. Há. Engraçado, isso pra mim parece piada. Meu dia é diferente, e um tanto mais complicado: Acordar, tomar café, televisão, cuidar da vida dos outros, ir no mercado para a Hermione, almoçar, pensar como vou cuidar da vida dos outros, interrogatório da senhorita Granger, jogo de cartas, e sonhos esquisitos. Minha vida é bem cansativa, não acham?


Parece que a Hermione que não entende! Putz, ta loco. Hoje de manhã fui pegar o leite na geladeira e vi o calendário. O dia 19 de setembro estava grifado com um marcador de texto rosa choque. Aniversário dela, Hermione Granger.


Quebrado e sem dinheiro eu não queria pedir dinheiro ao Harry para comprar o presente dela. Era constrangedor fazer isso.  Então pensei em esquecer e fingir que não vi nada. A final, hoje era dia 18 ainda. É, dia 18, eu estava ferrado mesmo.


Fui para a rua, já era duas horas da tarde caminhar pelo pequeno centro comercial que tinha a duas quadras da nossa rua. Percebi que ficava perto da casa de Sophie, talvez ela pudesse me ajudar... Fui caminhando na direção da rua de Sophie e passei pela frente de um pet-shop. Nunca pensei que eu ia ficar encantado por um cachorro da forma que fiquei, foi incrível! O cachorro era um Cocker. Quando coloquei os meus olhos claros nos olhos castanhos no animal me encantei, e em minha lembrança logo se formou a imagem do desenho animado “A Dama e o Vagabundo” que Hermione tanto adorava.  Orelhas marrom escuras, em seu rosto uma mancha e seu peito também era cor creme, e por fim o resto do pêlo marrom claro.


A frente da vitrine, tinha uma plaquinha mal feita, de papel, e com as pontas já rasgadas: 10 DÓLARES. Meu coração apertou. Resolvi apertar o bolso, mas nenhuma nota estava guardada ali. Aquele pequeno animal pareceu entender a minha cara de desanimo: eu não poderia levar ele hoje.


Resolvi entrar na loja e pedir pro camarada guardar o único cãozinho que tinha na vitrine. E para minha surpresa o cara do balcão era o mesmo cara da rua Anchietta, número 15! Eu respirei, fiquei parado ali na porta, enquanto ele foleava um jornal velho, parecia estar mofando naquela mesa a algumas semanas.


– O que precisa?


Ele foi curto e grosso.Quando me olhou, vi o desgosto e a solidão nos olhos daquele homem. Eu percebi o quanto ele precisava de um sorriso.


– Des.Desculpe senhor. É que eu queria saber se o cão da vitrine pode ser reservado?


– A cadelinha? Cocker?


– Sim senhor.


– É, pode sim.


–Amanhã, preciso dele para amanhã.


– Ok, eu guardo ela pro senhor.


Eu ia saindo na porta. Mas parei. Eu estava ali, de cara para o meu problema, e não sabia como resolver. Eu estava de cara para o desgosto daquele senhor. Eu não podia voltar amanhã ali e ver ele com aquele rosto triste.


– Precisa de algo mais?


– Só a sua certeza, que não vai esquecer da cachorrinha.


– Pode ficar frio, eu vou guardar ela.


Eu sai pela porta. Mas senti que aquela tristeza veio comigo. Eu caminhei em direção a praça que eu sempre via Sophie. Devia estar perto das três horas. Me sentei no banco daquela praça e pensei. Terminei com os últimos neurônios decentes que me restavam. Mas eu não achava nenhuma solução para Tom e nem para a minha falta de dinheiro.


Escutei algumas conversas. Levantei a cabeça e vi Sophie vindo no fim da rua. Ela estava com Tom. Os dois conversavam empolgados e eu resolvi me esconder atrás do banco que eu estava sentado.


Consegui acompanhar com meus olhos os dois, eles estavam de mãos dadas! Fiquei vermelho e preocupação! Minha irmãzinha de mãos dadas com Tom, o durão. Rugi. Rugi como um leão recém nascido e com dificuldade em falar. Eu levantei e fiquei na ponta dos pés. Acompanhei com os olhos os dois, ela estava na frente de sua casa. Encabulada. Vermelha. Sorridente. E ele mexendo no cabelo dela. Ele estava apaixonado. Eu vi isso. Ele gostava dela. Ele chegou perto dela e ela recuou.


Cruzei os dedos. Queria que ele tomasse a coragem que eu não tinha. Queria que ele e beijasse. E com um pouco da minha “energia positiva” isso aconteceu. Ele encostou rapidamente os lábios nela. E ela ficou ali, paradinha, como uma criança sem reação a alto extremamente bom. Um beijo rápido e delicado. Ele abriu os olhos e parecia estar esperando uma reação ruim da parte dela. Mas ela riu, olhou para baixo e disse:


– Amanhã, você passa aqui para a gente ir juntos pra aula?


Pelo menos foi isso que entendi, ele murmurou algo e beijou a testa dela. Ela esperou ele virar a esquina e depois foi em direção a porta. E eu sai na disparada atrás dela. Corri bastante. Quando ela colocou a mão na maçaneta e eu percebi que tinha corrido apenas uns três metros eu gritei:


– Sophie! – falei ofegante.


– Rony! Tudo bem com você?


– Não, acho que eu estou prestes a desmaiar.


– O que houve? – ela largou a mochila na porta e correu até mim.


– Eu to ficando velho.


Ela riu e eu também. Ela me ajudou ir até a varanda da casa dela, e me trouxe água. Geladinha e fresquinha. Bebi um litro de água. Ela ficou quieta. Eu olhei para ela com um olhar de censura e ela ficou com vergonha.


– Você viu?


– Sim.


– Quanto?


– Tudo.


Silencio.


– Acha que fiz certo?


– Eu acho que você fez o que seu coração mandou. Teoricamente, é o certo.


– E pela razão? O que eu deveria ter feito?


Eu respirei. Pensei da seguinte forma: Se eu fizesse isso com Hermione, ela iria perguntar a mesma coisa ao Harry? Então fiz o que me pareceu mais obvio e certo.


– Deveria ter o beijado por mais tempo – ela começou a rir – Foi só uma bitoquinha. Poderia ter sido um beijão Sophie!


Ela riu, nós rimos. Estávamos ali, acompanhando o movimento do vento sobre as flores do jardim. Parecíamos adolescentes.


– E como ele está na escola?


– Muito bem. Ele está bem mais sociável.


– Como vocês dois começaram.. a você sabe, a namorar.


– A gente não ta namorando sério ainda. Mas depois de começarmos a conversar, um dia depois, ele disse que tinha que me contar algo que tinha guardado consigo a tempo. E ele me contou que sempre me cuidava quando eu voltava para casa, e alguns dias ia me ver correr.


– Que romântico.


– Idiota.


Sorri para ela.


– O pessoal da sala até esta começando a gostar das músicas dele. Eu gravei ele ensaiando na sala, e passei para um CD.


Minha cabeça trabalhou o mais rápido possível e eu sorri para mim mesmo.


– Aonde está esse CD?


– Na minha mochila, por quê?


– Preciso dele Sophie.


– Por quê?


– Confie em mim! Gora, me prometa, aconteça o que acontecer, eu não sei da existência desse CD!


Ela me encarou. Viu em meus olhos algo bom, ela entendeu que era algo bom. Ela me deu o CD, eu me levantei, agreci e fui para casa. Senti que ela me acompanhou com os olhos até a esquina. Igual fizera com Tom.


 


– Que tal mudarmos a aposta de hoje?


– Porque essa idéia Rony?


– Ah Gina, a gente nunca apostou dinheiro né...


– Dinheiro?


– Porque dinheiro?


– Harry, Hermione, acho legal apostarmos dinheiro.


– Viu, a Gina concorda comigo!


Foi a minha estratégia mais bem bolada em algumas horas, eu tinha que tentar.


– Ok, então dois e cinqüenta para cada um.


– Vai concordar com isso Harry?


– Deixa de ser careta Hermione.


Eu tinha achado no meu sofá, de baixo das almofadas algumas moedas e elas somavam três dólares. Seria bom, teria cinqüenta centavos para comprar uma fita para a cachorrinha.


O jogo foi longe e hoje eu não podia perder. Passamos muito tempo jogando. Era onze e meia, todos bocejando, menos eu.


– G-A-N-H-E-I! – se gabou Harry.


Ele sorriu e abaixou três cartas: uma seqüência de 1,2 e 3. Todos de Ouro. Eu sorri. Ouro, eu já tinha passado desse naipe. Não seria diferente agora. Vencer ele mais uma vez.


– Acho que não! – abaixei meu conjunto de ás. Paus, Espada e Copas.


Ás. A carta que mais valia no jogo. Eu sorri. Hermione já estava cochilando e Gina também. Apanhei o dinheiro e coloquei em meu bolso. Harry foi até Gina e a pegou no colo, levou pra o segundo andar e piscou para mim. Eu ri. Olhei para Hermione, com os braços debruçados na mesa e sua cabeça sobre eles.


Eu senti meu coração ficar apertado. A peguei no colo. Não sei da onde arrumei força, mas consegui a segurar em meus braços. A levei até meu velho sofá. A deitei lá. Tirei seus tênis e coloquei meu cobertor nela. Tirei uma mecha de seu cabelo do seu rosto. Olhei para o relógio, meia noite e dezesseis.


Eu olhei para Hermione. Sorri para ela. Ela não viu, estava dormindo, mas eu senti como se ela fosse minha, só minha.


– Feliz aniversário Hermione. Meu amor.


Eu respirei fundo. Cheguei perto dela e encostei meus lábios nela. Imaginei como se fossemos Tom e Sophie. Abri os olhos. Imaginei Hermione ficando boba e perguntando “Amanhã, você vai no mercado para mim?”.


– Sim, eu irei!


Respondi, para o vácuo. Apaguei a ultima luz da casa. Sentei na poltrona de porte médio, meio torto e com um pouco de frio. Me senti vitorioso e triste. Mas amanhã, eu a contaria sobre um pedaço do meu amor para ela, ou pelo menos tentaria...


 


Acordei  e me senti quente. Não sei se por causa do sol que vinha da janela ou pela coberta que estava sobre mim. Quando abri os olhos. Vi meus pés esticados sobre a mesinha central da sala. Estranhei. Como eu não consegui imaginar em fazer isso quando dormi? Com certeza alguém passou por ali, e ela tinha nome, sobrenome e hoje estava de aniversario!


– Já acordou?


– Claro... Foi você?


– Sim. A propósito, o almoço está servido!


Eu me levantei, cocei os olhos. Olhei para o relógio: meio dia e três. Hermione estava sorridente. O almoço estava caprichado: Lasanha a bolonhesa. Minha boca estava faminta, como minha barriga. Parti para o ataque!


 


Depois de ter lavado a louça para Hermione, eu corri até a Rádio Song. Ela era perto da escola de Sophie. Eu cheguei até o balcão, ofegante.


– Preciso falar com o diretor chefe!


–Qual o assunto?


– Aqui, neste CD, tem uma música, de um garoto chamado Tom. Ele estuda naquela escola ao lado. Gostaria que tocasse ela.


– Porque eu tocaria? – o cara me encarou e colocou o CD em um pequeno som.


– É um pedido. De um padastro desesperado.


O cara clicou no Play. O som era bom, muito bom! Até eu me animei. O cara me olhou.


– Pode repetir o nome do garoto? E o seu? Quer mandar algum recado para o rapaz na hora que a musica entrar no ar?


Eu sorri para o cara.


– Tom. – Mas fiquei mudo. Eu não sabia o nome do padastro dele. – Diga, que foi uma pessoa, que o admira muito, que apesar de tudo, o ama. E que fez isso, para todos saberem que ele é o melhor filho do mundo! Que horas você vai colocar a música?


– Ali pela uma e meia!


– Obrigada cara, muito obrigada!


Eu larguei o CD em cima do balcão e sai correndo. Fui até o outro lado da rua e disquei os números da escola, que estavam anotados em um papel amassado. Porem com um acréscimo à frente: 9090.


– Alô? – falou a voz de uma mulher, parecia enjoada. – Se é outro trote nem precisa falar!


– Não é não. Olha senhora, eu só gostaria que você ligasse a rádio Song, a uma e meia da tarde, em todas as salas! Tem como isso ser possível?


– Que rádio é essa? E se for para mandar recados temos a rádio da escola...


– Não. É que é uma mensagem do prefeito! – cocei a cabeça, foi a desculpa mais idiota que eu achei.


– Ah, sim senhor. Mande dizer ao senhor prefeito que irei ligar!


Eu respirei aliviado. Acho que estaria colocando o padastro de Tom em uma boa, ou em uma fria. E se Tom não gostasse? E se ele rejeitasse? Eu estava fudido!


 


Era seis horas, e eu estava chegando a loja do padastro de Tom. Depois da aula, Tom saiu feliz, direto para a casa de Sophie, eles pareciam felizes e depois disso foram até um barzinho no centro da cidade comemorar. Quando eu cheguei lá, ele estava do mesmo jeito, folheando o mesmo jornal. Cheguei lá, e larguei um jornal novinho em cima da mesa. Os cinqüenta centavos da fita para a cachorrinha de Hermione, foram gastos no jornal.


– Ah, o senhor. Obrigada pelo jornal!


– De nada, você merece! Guardou a pequena para mim?


– Sim. Até dei um banho nela para você. – ele disse, sorridente, e tirando a cachorrinha de trás do balcão e a colocando sobre o balcão. – Sabe, com isso, você me ajuda bastante. Eu vou conseguir minha aposentadoria. O dono da loja disse que se eu vendesse o ultimo animal, ele dava o dinheiro que eu precisava.


Eu sorri. Me senti confiante. A cachorrinha olhou para mim, abaixou as orelhas e balançou o rabo.


– Qual é seu nome, mesmo?


– Rupert.


– Olha Rupert, você não tem nenhuma caixinha ai?


– Para colocar a cachorrinha?


– Sim. É um presente de aniversário para a minha.. minha.. namorada.


– Ah entendo. Vou lhe dar a caixa mais bonita que tenho.


Ele foi em direção, ao que eu achei que era o depósito. Escutei algumas coisas caírem e esperei a tal caixa. Ele saiu de lá com uma caixa com listras grandes, rosa forte e rosa claro.  Uma fita rosa forte em suas mãos. Ele leu meus pensamentos? Ele colocou a cachorrinha dentro da caixa furada. A amarrou a fita em volta a caixa. Me impressionei que a cachorrinha não se mexeu, ficou quietinha, na espera.


– Sabe Rupert, quando a vida lhe dá uma oportunidade de ser feliz. Você não pode recusar.


– Porque me fala isso? – ele perguntou confuso.


– Eu sei sobre o Tom. Eu sei sobre você. – ele pareceu ficar imóvel, mas continuei. – As vezes acontecem coisas inexplicáveis, e você tem que aceitá-las, mesmo que não tenha sido você quem fez. Porque quem sabe, isso seja uma forma de mostrar a você, que você pode fazer as coisas sem medo.


– Quem é o senhor?


– Alguém..


Eu peguei minha caixa e sai na direção da porta.


– Aproveite o jornal, é de hoje.


Ele não respondeu. Eu passei pela porta e um vulto loiro passou correndo por mim. Virei para trás. Era Tom. Ele entrou na loja e abraçou Rupert. Eu pensei que ele ia enforcar ele ou ficar tri bravo. Mas não, escutei algumas palavras, suficientes para me deixar seguir em paz:


– Obrigada Rupert. Você é incrível.


Segui meu caminho até em casa, feliz e em paz.

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