PROMESSA



Harry havia visto muitos bruxos poderosos no continente africano. Muitos gostavam de exibir o seu poder usando roupas caras feitas de peles de animais raros ou tecidas com fios inacessíveis tanto aos trouxas como à maioria dos bruxos. Como o controle sobre objetos mágicos era muito precário no continente, era possível ver toda a sorte de coisas encantadas, desde automóveis antigos até tapetes voadores. Mas a maioria dos exibicionistas tinha apenas dinheiro mágico em excesso. Não era o caso de Amos Okosha.

Se não fosse a reluzente dentadura dourada, passaria por um trouxa respeitável, algum membro ilustre da classe média africana. Vestia roupas africanas comuns e tinha um cavanhaque aristocrático sob o queixo quadrado. Era mais alto do que Harry, mas não exatamente um gigante. O rapaz sabia que Okosha não exibia poder porque não precisava. Aqueles que possuem muito poder não precisam exibi-lo.

Desceu de sua poltrona alta conjurando dois degraus de pedra. Caminhou lentamente em direção a Harry e com um gesto displicente de um pequeno cajado que apareceu na sua mão direita, cheia de anéis, fez com que se materializasse entre ele e o rapaz uma pequena mesa. Havia duas jarras sobre ela e alguns pergaminhos que, Harry percebeu, continham inscrições em inglês e francês.

- Sente-se, Harry Potter – falou o africano, sua voz ecoando pelo aposento. Uma parede desceu, isolando o local onde estavam da câmara de horrores, onde jaziam os dois basiliscos e cinco seres humanos. Cadeiras surgiram ao lado da mesa.

Curioso, Harry sentou-se de frente para o homem. Alertado pelo “DOM”, sabia que o bruxo estranhamente não queria fazer-lhe nenhum mal. Podia sentir também que aquela imponência que envergava estava custando muito a ele. O famoso Amos Okosha estava morrendo. Serviu-se de algo que era, aparentemente vinho, e apontando para a outra jarra ofereceu:

- Suco de abóbora. Eu sei que vocês ingleses adoram – disse, fazendo uma certa cara de descontentamento – Eu não sei que gosto vocês vêm nisso...

Harry serviu-se em silêncio. Uma das coisas que aprendeu quando conseguiu domar os seus poderes, foi manter o silêncio a espera de respostas. Elas sempre apareciam.

- Você fala pouco – disse pausadamente o bruxo mais velho, depois de tomar um gole de sua taça – Cavalga hipogrifos selvagens, fala com as serpentes, faz mágicas sem varinha ou cajado, imita a voz dos pássaros. Há algo que você não faça, Harry Potter?

- Perder tempo com conversas inúteis – falou por fim Harry, arrancando do bruxo mais velho uma gargalhada que ecoou de maneira fantasmagórica pelo ambiente.

A risada ainda ecoou por vários segundos até que foi substituída por uma tosse asmática. Se não possuísse uma epiderme negra reluzente, seria possível que Okosha empalidecesse depois daquela tosse torturante. Gotas de suor brilhavam na sua face quando por fim conseguiu respirar. Seu olhar perdera o brilho inicial e era agora um homem doente que dizia para Harry Potter:

- Uma das coisas que eu mais apreciava nos ingleses era o censo de humor. Principalmente quando contrariados vocês são capazes de tiradas ótimas... – tossiu de novo, agora levando um lenço branco à boca. Quando retirou, Harry percebeu que olhou contrariado para algo que havia no tecido. Embora o rapaz não tivesse visto, imaginou que fosse sangue. Ninguém gosta de olhar o próprio sangue, sabia por experiência própria.

- Vocês europeus me apelidaram o “você-sabe-quem” africano. Engraçado como vocês são supersticiosos. Temendo dizer o nome daquele psicótico. “Voldemort Africano”, dizem alguns poucos que tem coragem. Eu me sinto ofendido. Nunca liguei para nomes ou apelidos depreciativos, mas ser comparado com aquele monstro... Francamente!

Harry continuava surpreso. Okosha falava com a eloqüência e a clareza de um professor universitário. Era como um homem de negócios apresentando um balancete ou uma planilha de custos. O rapaz sentiu-se um tanto incomodado. Era difícil enxergar o que se passava pela mente do africano. Certamente ele era um oclumente de mão cheia. Dava pra sentir que era também muito poderoso. Não entendia aonde aquela conversa poderia levá-los. Sinceramente preferia bandidos que agiam e falavam como bandidos.

- Minha conversa o está entediando? – perguntou o outro como se adivinhasse o desconforto do rapaz, servindo-se de mais uma taça. – Ora, você veio atrás de respostas. Tenha um pouco de paciência com a retórica africana.

Depois, como se apreciasse enormemente a própria ironia deu outra risada que acabou em novo acesso de tosse.

- Sou um criminoso, Harry Potter – disse depois de tomar fôlego – Não tenho ilusões tolas sobre o que me tornei. Sempre desejei o poder e a riqueza. Nasci no meio da violência. Há cinqüenta anos atrás houve uma guerra entre bruxos na África que faria o confronto de vocês contra Voldemort parecer brincadeira. Vários clãs disputavam o poder, as mortes entre bruxos e trouxas eram constantes. Até que um dos chefes ganhou a guerra. Tudo porque diziam que ele conseguiu uma mulher que aumentou o seu poder. Ele havia conquistado a mulher que tinha o “DOM”. Minha mãe.

- A sua mãe possuía o “DOM”? – perguntou Harry, agora atento ao discurso do outro.

- Sim – assentiu Okosha. Tinha agora o cenho franzido e uma expressão grave no rosto – Eu falei que ele a havia conquistado? Na verdade toda a família da minha mãe foi morta e ela foi violada pelo meu magnífico pai num ritual que diziam, fortaleceria o poder do homem que a possuísse. Ela tinha quatorze anos, meu jovem! Quatorze anos... – repetiu, mão direita se fechando num punho que parecia ter a força para nocautear um gigante – Quando ela tinha quinze eu nasci. Meses depois ela estava morta. Fui criado pelas detestáveis esposas de meu pai. O clã dele tinha vencido a guerra. Meu pai era o bruxo mais poderoso da África.

- E você herdou seu império? – perguntou Harry, curioso para saber aonde aquela conversa os conduziria.

- Não, meu amigo, eu destruí seu império e criei o meu – disse Okosha, parecendo feliz em declarar isso – Meu pai não sabia que uma das suas jovens esposas era uma tia minha, meia-irmã de minha mãe. Ela me contou tudo. E me ensinou duas coisas que um bom bruxo africano deve aprender: o ódio e a magia negra. Quando tive idade suficiente para me rebelar, organizei o meu próprio grupo. Matei meu pai e a maior parte do seu clã. Okosha é o sobrenome da minha mãe. Como disse, criei a minha própria estrutura de poder no mundo trouxa e no mundo bruxo. Tenho mais dinheiro que a maioria dos países do continente. As pessoas rastejam aos meus pés, bruxos e trouxas. E eu já havia ouvido falar de você, é claro. O jovem que imita o canto das aves...Aquele que Voldemort teme quase tanto quanto a morte.

- O que você quer comigo, afinal, se você não está do lado de Voldemort? Aliás, você me parece do tipo que se aliaria a ele – falou Harry com franqueza.

Por um momento o africano pareceu muito zangado. Depois expirou lentamente, como se estivesse descarregando a tensão. Provavelmente, pensou Harry, ele não estava acostumado com palavras duras e honestas.

- Eu só vou tolerar a sua ignorância porque preciso de você, jovem! Eu já matei homens por muito menos do que isso. Coloque uma coisa nessa sua cabeça dura inglesa: Eu sou um criminoso, um gangster, como vocês diriam. Gosto do poder, uso a violência e o assassinato para conseguir o que quero. Nasci no meio disso. Mas não vou bancar a vítima e dizer que detesto tudo o que tive que fazer para conseguir riqueza e poder. Apreciei cada momento.

- O que apenas confirma o que eu disse... – zombou Harry de maneira perigosa. Estava cansado daquela conversa sobre o poder. Okosha falava como um Comensal da Morte – Eu também matei, mutilei e torturei pessoas. Pessoas como você. Mas ao contrário de você, detestei cada momento disso. Fiz o que tinha que fazer para evitar que gente da sua laia tornasse o mundo pior do que já é! Pior do que os trouxas já o tornaram! – disse o rapaz quase aos gritos e levantando-se, encarou o bruxo das trevas – E não me trate como um dos seus criados ou vai descobrir da pior maneira que eu posso fazer mais do que cavalgar hipogrifos e falar com a voz das aves!

Okosha continuou sentado. A expressão grave aos poucos se dissipando até que explodiu em outra de suas gargalhadas características, seguida de outro acesso de tosse.

- Que grande adversário você seria, Harry Potter, se eu estivesse nos meus melhores dias! Sabe, não sou um homem acostumado a ser contrariado. É reconfortante saber que você tem coragem para tanto. Vamos, sente-se, você já vai entender o motivo do nosso encontro.

- É óbvio que você preparou todo aquele circo – disse o jovem apontando para além da parede que havia sido conjurada – para testar o meu poder. Por que?

- Ah, a impaciência da juventude... – suspirou o africano, agora parecendo bastante cansado – Você e Patrícia vão se dar muito bem, pelo que eu estou vendo.

- Quem é Patrícia? – estranhou Harry, sem entender a menção repentina ao nome feminino.

- Minha filha, Harry Potter. Deixarei para você toda a minha riqueza, mas Patrícia é a única que eu não quero maculada e a única sobre quem eu exijo garantias de sua parte.

Harry surpreendeu-se. Provavelmente, conhecendo o seu poder, Okosha abriu sua mente, deixando o jovem bruxo sentir a sinceridade de suas palavras.

- Eu não quis me aliar a Voldemort. Ele me procurou logo que chegou no continente. Fiquei irritado quando você disse que eu parecia o tipo que se alia a ele porque os tipos que o rodeavam não passavam de servos abjetos. Sou um homem poderoso, não nasci para me arrastar aos pés de um idiota obcecado com a idéia de criar um mundo onde nascidos trouxas e mestiços seriam mortos ou escravizados. Jamais me rebaixaria perante essa versão bruxa de Hitler. Gosto do poder e da fortuna e francamente não me importo com bruxos, trouxas ou mestiços, desde que eu continue a ter o poder. Eu disse isso a ele.

- Suponho que ele não tenha gostado muito – ponderou Harry

- Como eu, ele não estava acostumado a ser contrariado. Mas ele fez apenas aquelas ameaças de praxe, me alertando do quanto poderia ser perigoso ficar contra ele. Aquela conversa que eu já ouvi de bruxos que hoje estão mortos. E deu para perceber que ele temia você. Muito. Mas, aí eu cometi um grande erro.

- Qual?

- Desprezei o oponente. Imaginei que ele era fraco por temer um jovem recém-saído da adolescência. Na época eu sabia pouco sobre você. Apenas o que todos sabiam. Se eu tivesse uma idéia melhor da sua força, certamente eu teria respeitado mais o medo de Voldemort e o subestimado menos. E, de alguma maneira, o miserável infiltrou-se entre meus homens e me envenenou. Os traidores eram homens que eu julgava de confiança. Cinco deles você enfrentou hoje. Eles estavam enfeitiçados para matá-lo ou lutar até a morte. É um tipo de magia negra poderosa e você os abateu sem dificuldade.

- Por que ele mandou envenená-lo? – quis saber Harry

- Para me chantagear a ajudá-lo contra você. Só que o estúpido foi mal informado. Ele usou um antigo veneno extraído de uma planta rara, achando que tinha o antídoto para me oferecer.

- E não tinha?

- A planta européia tem o antídoto. Não a sua versão africana. Quem preparou a poção não sabia o quanto a natureza é agressiva no nosso continente... Eu só tenho mais algumas horas de vida, um dia no máximo.

- E onde entra a sua filha na história?

- Essa foi a suprema traição. Minha tia, a mesma mulher que me ensinou parte da magia negra que eu sei, acabou ficando muito ambiciosa. Ela tinha alguns sobrinhos que lhe pareceram mais promissores como herdeiros do meu império do que a minha própria filha. Agora ela e os seus “herdeiros” ardem no inferno. Se vou morrer, não deixarei nada para aquelas víboras.

- Ela... entregou sua filha para Voldemort? – perguntou Harry, enojado.

- Anos atrás, tive um relacionamento com uma mulher trouxa. Ela tentou me trair, é claro, como todas as outras. Eu a matei pessoalmente. Mas antes ela me deu uma filha. Patrícia. Desde os três anos ela vivia na França com parentes da mãe, que eram muito bem pagos para tomar conta dela. Poucas pessoas sabiam de sua existência. Queria que ela levasse outra vida. Mas desconfiei que a vida dela não seria fácil quando vi seus olhos verdes assim que ela os abriu quando ainda era um bebê. Ela tem o “DOM”. Não acredito que existam muitos negros africanos legítimos com os olhos verdes.

- Mas o que Voldemort quer com ela?

- Ele está desesperado. Quer realizar o mesmo ritual que supostamente levou meu pai à vitória cinqüenta anos atrás. O monstro – e seu corpo tremeu nesse momento, como se o ódio e a dor o sacudisse – pretende violá-la e submetê-la a algum tipo de cerimônia macabra. E inútil.

- Inútil?

- Claro. Meu pai ganhou a guerra porque tinha mais homens capazes e os convenceu que era invencível por possuir uma mulher que tinha o “DOM”. Esse ritual era apenas uma afirmação masculina para impedir que as mulheres tivessem poder. Quebrá-las para que não aprendessem a controlar o “DOM”. Pura violência machista, nada mais. Entretanto, no desespero para derrotar você, Voldemort, como muitos bruxos europeus, está disposto a acreditar em qualquer coisa que seja africana e supostamente eficiente.

- Meu Deus! – exclamou Harry – Como você sabe se ele ainda mão executou o tal ritual?

- Há um mês atrás recebi a notícia que aqueles que cuidavam de Patrícia foram mortos e ela havia sido seqüestrada. Depois de usar métodos um tanto “duros”, digamos assim, descobri a traição dos meus parentes. Há cinco dias descobri onde Voldemort se esconde. Não é um lugar fácil de se chegar. No meu estado é impossível. Tinha que saber se você era capaz. Fico feliz de dizer que você superou minhas expectativas. Você poderá livrar o mundo daquele maníaco e salvar a minha filha. O tal ritual não poderia ser realizado antes da garota completar treze anos. Ela tem apenas onze.

- E como você pode ter certeza que eu a salvarei?

- Eu tenho certeza de que você tentará. Um homem a beira da morte tem que se contentar com pouca coisa. E eu só direi a localização do esconderijo mediante a sua palavra de honra de que você irá se esforçar para livrá-la de um destino pior do que a morte. E você aceitará o que eu vou lhe oferecer.

- Que seria...

- Tudo! Tudo que eu acumulei. Dinheiro trouxa e bruxo, propriedades aqui e na Europa. Esses pergaminhos são os documentos que tornam você dono de tudo que eu tenho. Esses outros papéis são documentos trouxas que o tornam administrador de tudo que eu possuo até que Patrícia complete a maioridade.

Harry arregalou os olhos ao ver as cifras e as propriedades. Aquilo era riqueza como nunca imaginou que pudesse existir. Ele possuía a herança dos pais e do seu padrinho Sirius. Julgava-se um homem rico, principalmente porque tinha somado aos seus bens os valores que havia tirado dos comensais. Mas só usava esse último dinheiro sangrento para continuar sua luta. Mas, aqueles papéis o tornavam ricos como um rei. Não queria aquele dinheiro sujo, não precisava dele.

- Eu sei o que você está pensando. Mas não tente recusar – advertiu Okosha – É a minha condição.

- Eu não preciso...

- Eu sei que não precisa – interrompeu o africano – Mas a minha filha vai herdar tudo isso, queira você ou não.

- Você não me deixa alternativas... – concordou contrariado o rapaz. – Mas se eu fosse você, não confiaria em mim dessa maneira.

- Eu também não confiaria em mim – sorriu cansado, parecendo muito abatido e mais velho, o rosto negro mostrando algumas rugas que Harry poderia jurar que não estavam ali há alguns minutos atrás – Mas eu confio em você, Harry Potter! E sei que ensinará Patrícia a ser sábia e controlar o “DOM”. Seja um irmão para ela e a ame como uma irmã. É só o que eu peço.

- Você tem a minha palavra.

Harry decididamente não havia gostado do “Voldemort Africano”. Ele tinha a mesma ética de serpente do Voldemort original e dos seus comensais. Sabia que em outras circunstâncias o estaria combatendo. Mas levaria até o fim a promessa. Mesmo que não a tivesse feito não poderia deixar uma garota inocente ser submetida à sanha animalesca do Lorde das Trevas. O fim estava próximo.




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