Capítulo Quatro - EDITADO



Capítulo Quatro

”Help me If you can, I’m felling
Down and I do appreciate
you being around.“
HELP! – The Beatles


Carla De Vallance




Suspirei fundo.


Ele tinha razão de não ter me querido lá.
Andei de volta para o carro.
Jeffrey abriu a porta pra mim. Eu sentei no banco traseiro sentindo meu rosto mais quente que o normal.

“Ele não quis vê-la” ele concluiu. Meu coração apertou ainda mais e eu assenti.

“Jeff, eu não queria isso...” Minha voz saiu num fio e se quebrou.

“Ninguém queria, Srta.De Vallance”

“Jeffrey” eu falei, em tom de aviso.

“Sim?” ele tinha um sorriso divertido nos lábios. Jeffrey era mordomo da minha família há muito tempo. Devo lembrar que o único lado da minha família que usava mordomos era o lado paterno. O Jeff já era da família desde antes de eu nascer. Ele já era um ‘senhor’, e mesmo assim, era muito jovem, pois tinha uma temperamento alegre e se mantinha em forma para cultivar a saúde. Ele ainda sorria quando deu partida no carro. Apoiei os braços nas costas do banco dele e sorri.

“Sabes que não precisa me chamar de ‘srta.De Vallance’, Né?”

Ouvi-o suspirar. Quando ele falou, sua voz era doce, mas tinha um leve tom de reprovação.

“Eu trabalho para seu pai, Carla” sorri à menção de meu nome. “Não posso ter relações muito íntimas com meus patrões. Você sabe disso.”

 “Mas, Jeffrey, eu não sou sua patroa, sou sua amiga” eu descansei minha cabeça no ombro dele, e partimos rumo à casa do meu pai, no subúrbio de Londres.


[...]

Passamos uma hora e meia no carro. Eu atrás, com meu CD player e Jeffrey na frente, dirigindo e cantarolando O Fortuna, de Carl Orff*. Eu me deitei no banco, com os pés apoiados na janela, e fechei os olhos.


[...]

Minha porta foi aberta com violência. Eu levantei meus olhos e achei um cara, todo de preto na porta do carro, com um olhar mortal. Respirei fundo e me levantei.

Foi quando vi o que me esperava: Jeffrey, com a boca amordaçada e os olhos em pânico. Nosso carro havia sido parado na estrada. 

Eu comecei a ofegar, o pânico tomando conta de meu ser. Repassei mentalmente todas as coisas sobre lutas (movimentos, respiração, rolamentos...) que Cannish e Blöter me ensinaram. Comecei a rastejar para a outra porta, minha respiração saindo do controle. O cara ia adentrando o automóvel com um sorriso digno de nojo. Repugnância. Meu coração ia parar.


Abria a porta tão rápido quanto possível. No mesmo momento, puxei minha mochila, que estava no chão do carro e fechei a porta nos dedos do cara que queria me pegar. Então, concentrada do jeito que eu estava, pude ouvir o que meus “raptores” diziam, em Russo, o que foi mais impressionante pra mim.

Eu sempre gostei da Rússia, mas daí esses caras vem me pegar.
Antes de eu sequer pensar em voltar pra tentar salvar o Jeffrey, ele se livrou da mordaça e gritou:
“CORRE, ‘LY!CORRE COMO TU NUNCA FIZESTE NA TUA VIDA!!”


E eu corri. Podia ouvi as ordens que os estrangeiros falavam, trocando xingamentos por elogios, quando não conseguiram me alcançar.

Não sabia quanto tempo fazia que havíamos deixado a cidade do Remus, mas sabia que era o único local para o qual eu poderia ir, mesmo que não ficasse na casa dele.

Minha respiração estava controlada. Bom.

Meu desespero não estava. Mau. Muito mau.

Eu não sabia ao certo como correr mais do que eu já estava fazendo. Às vezes, quando eu estava na casa do meu pai, via os rapazes brincando de luta.


Era bem legal. Eu era, até pouco tempo, a única criança da casa, então eles faziam tudo por mim. E me deixavam ‘brincar’ também. Uma brincadeira séria.

“Para se aumentar mais a velocidade”, Cannish dizia, “é preciso entender física. Isso, é claro, se você for humano.” Ele se levantava, e se preparava pra correr. Eu ia para seu lado. “Se você for da nossa família,” ele acrescentava com um sorriso de escárnio, que era sua marca. “Você só precisa sentir a liberdade. Correr, na nossa família, Carla, é como respirar. Só algo que fazemos automaticamente. Por isso, devemos tomar cuidado, os humanos não podem desconfiar”.


Saí do meu devaneio e entrei num caminho alternativo, uma estrada de terra, e me escondi atrás de um arbusto. Respirando muito mal por causa do devaneio, que me tirou a concentração, abri minha bolsa e vasculhei-a atrás do meu celular. Não achei. Apalpei minha blusa e meu shorts. Achei!

Estava no bolso de trás do shorts, junto com minha identidade, tirada na embaixada francesa, e meu cartão de crédito. Suspirei de novo e verifiquei a bateria. Estava cheia. Ótimo. Guardei esses três itens essencialíssimos no bolso de novo e pus a mochila nas costas.

Respirei fundo e lentamente várias vezes. Depois, fui andando, depois caminhando rápido, ao ponto de chegar a correr em menos de um minuto.


Meus batimentos cardíacos eram normais. Eu tive certeza depois de checar. Cannish tinha razão: Correr era fácil, assim como respirar. Quase voei, tive certeza. Me senti tão feliz enquanto tomava o caminho de volta para a cidade de meu Protegido. Meu sorriso não desapareceu do rosto tempo depois, quando toquei a campainha da casa dos Lupin.


[...]


“Ele não quer falar-lhe” a voz de John era áspera.

“Eu sei”

“Então...”

“Eu é que quero falar com ele”.Okay, não vou mentir,o Sr.Lupin sabia como me intimidar.
Mas se tinha uma coisa que eu nunca demonstrava, era submissão e medo.Tá bom... Medo, só às vezes, quando era o meu pai.

“Carla” ele suspirou.Isso não era um bom sinal. Tenho certeza que eu não soube mascarar meu desapontamento, porque ele refez sua expressão, e provavelmente sua frase final.

“Ele está descansando. Por quê você não fica aqui e quando ele acordar, eu te digo pra entrar?” eu sabia que ele não faria isso.

“Tá” me levantei, peguei minha bolsa e saí dos terrenos da casa. John Lupin não disse nada ao me ver sair.



Remus Lupin

“I couldn't tell you
Why she felt that way she felt it everyday
And I couldn't help her
I just watched her make the same mistakes again”
Avril Lavigne – Nobody’s home



Senti remorso ao vê-la caminhar pelo parquinho. Era novo, mas sabia o que eram sentimentos fortes. Os meninos falaram com ela, mas Carla não parecia interessada. Diversas foram as vezes que nossos olhares se encontraram. Eu na janela do meu quarto. Ela no balanço do parquinho arruinado.



Quando isso aconteceu pela décima vez, levantei-me da cama, na qual eu lia um livro de transfiguração, que havia sido do meu pai, e desci as escadas. Passei por meus pais, que namoravam na sala, com sorrisos satisfeitos que foram desfeitos quando eu fui em direção aos portões.



Minha mãe ficou lívida quando viu como eu me vestia.



Que é?!Agora não posso mais usar roupas de frio não, é?! Tudo bem, não estava muito frio. A temperatura tava até legal,mas eu ia pra um lugar que fazia um pouquinho de frio...

Quando passei pelo portão da frente, a cabeça dela se levantou, mas o sorriso encantador não estava lá. Ela levantou-se também, e jogando a bolsa nos ombros, correu para fora da cidade. E a segui, não tinha alternativa.
Na verdade... na verdade eu tinha,mas preferi descartá-la. Até porque eu havia me tornado dependente dela. Consciente e inconscientemente. Corri o máximo que minhas pernas permitiram. Ela olhava pra mim de esguelha, e eu percebi, com divertimento, que ela sorria.
“Vem” ela sussurrou. Eu, como um cãozinho seguindo seu dono, fui na palma de suas mãos delicadas.
Nossos olhares se encontraram por um momento no qual eu pensei que horas, dias, anos haviam se passado, comigo mergulhado nas belas esmeraldas. Ela mergulhada nos meus olhos.

“Eu senti sua falta” de onde foi que eu, tirei coragem pra falar isso? Até hoje eu não sei como consigo falar essas coisas pra ela. Ela sorriu e se aproximou de mim, passando seus braços por minha cintura. Eu apertei seus ombros contra os meus. Sua respiração era perfeita. Ela fechou os olhos e eu também; minha testa na dela; meu coração no dela.

“Você não devia ter me mandado embora” ela disse.



“Desculpe” Eu sei que fui um idiota, mas ela também mereceu. Desapareceu por dois meses e depois quis voltar como se nada tivesse acontecido?


 
“Desculpo”



“E...?” ela riu quando eu não terminei de falar. Nós nos separamos e eu a puxei pra mais perto do meu rosto, dando um beijo em sua bochecha. Ela ficou muito vermelha. Eu ri, e ela me acompanhou.



“...Me desculpe por ter desaparecido, mas eu precisava saber se você sobreviveria, Remus. Foi horrível pra mim ficar esses dias longe de você. De verdade”.



“Não estamos falando como crianças da nossa idade, Carla”.



“Nós não precisamos” ela disse, beijando a minha bochecha e correndo para a floresta. Eu a segui, curioso. Foi bom. Não paramos para descansar, como sei que teríamos feito se os outros meninos estivessem conosco, e não calávamos as nossas bocas, também. Foi divertido, e foi a primeira vez que me sentia genuinamente feliz desde que havia tido a minha primeira transformação em lobisomem. Eu ansiava por ela, pela presença dela, pela voz dela, a cada segundo da minha vida.


Acho que é por isso que as pessoas se casam.



Percebi, com certo atraso, que estávamos indo para o local que eu queria levá-la, meu esconderijo.


 


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n.a.: Pessoal, espero que tenham gostado desse capítulo. Acho que ele ainda tem muito o que ser desenvolvido, mas não quero mudar muito aqui, então pensei em colocar um Flashback mais na frente contando o que houve no esconderijo. E, claro, terá um capítulo falando sobre esses dois meses que eles ficaram separados. Ahn... as revisões dos capítulos estavam um pouco desordenadas, mas finalmente vão entrar nos eixos! xD


Enfim, comentem, votem e sintam-se livres para dar opiniões e fazer críticas. Só lembrando que a fic está em fase de revisão....


É isso...


Boa noite à todos, durmam bem!


Beijão!


Mira


28 de maio de 2012

p.s.: O Fortuna é uma ópera, do compositor Carl Orff 

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