capítulo 17 (editado)



- Pai? – um garoto, enfiara a cabeça pela porta entreaberta de um escritório mobiliado de forma austera.
- Já disse, não sou seu pai – o homem sentado à mesa, que tinha os cabelos negros escorridos ocultando a metade do seu rosto, respondeu com voz seca, sem ao menos levantar os olhos.
- Bom... a Vovó disse que é... que o senhor é pai de todos nesta casa.. – o garoto retrucou, mas vendo o olhar que agora lhe fora dirigido, completou rapidamente – “Ela” chegou.
O homem se ergueu da cadeira. Por um segundo, pareceu ansioso e aflito, mas se controlou rapidamente e dispensou o garoto com um gesto de mão.
Então, começou a caminhar pela sala, devagar e pensativo. Um velho surgiu ao lado da mesa, o que não o assustou, sinal de que aquela “visita” devia ser freqüente.
- E agora? – ele fitou o velho – Pela primeira vez em muito tempo, não sei exatamente o melhor a fazer.
O velho de longos cabelos e barba muito branca o olhou com seus profundos olhos azuis, por cima de oclinhos meia-lua.
- Você pode ir lá e recebê-la prontamente, deixando as coisas acontecerem, ou pode esperar até que ela se habitue com tudo e só então, se apresentar e revelar finalmente toda a verdade.
- Acho que a segunda opção será a melhor. Pelo que soube, ela sofreu muitos choques recentemente.
O velho sorriu, concordando. Aquela era uma decisão sábia, sem dúvida. Precipitação não era o melhor, nunca fora em momento algum, principalmente naquele instante.

***

Enquanto isso, no hall, uma mulher aguardava, sozinha, observando tudo à sua volta.
Sarah, pois não era outra, chegara até ali, cercada de dúvidas. Pra começar, não conseguia localizar o endereço no bairro que ainda não conhecia bem. E quando achou a tal casa, ficou por uns quinze minutos sem coragem de bater à porta, insegura se aquela velha casa vitoriana caindo aos pedaços, espremida entre dois prédios comerciais, seria realmente a tal “instituição para acolher crianças sobreviventes da guerra”...
Mas batera, afinal, sendo atendida pelo garoto de 12 anos que se apresentara a ela na festa. Magro e alto, ele tinha os cabelos negros escorridos, caindo até os ombros, vestido inteiramente de negro, e ela novamente pensou que ele lhe lembrava alguém.
Tivera a mesma impressão ao vê-lo pela primeira vez, no casamento de André e Susan.
Aliás, muitas coisas naquele casamento lhe pareceram estranhamente familiares...
Enquanto esperava, rememorou a cerimônia mais estranha que Sarah já vira na vida, ainda mais que já comparecera a casamentos de ingleses antes...Aliás, ele pensou, “estranho” era a palavra mais apropriada para quase tudo que viu naquele dia.
E agora, ali estava ela, sozinha num saguão de entrada amplo e extremamente limpo, adornado por dois quadros que deviam ser muito antigos, a julgar pela vestimenta dos retratados, que curiosamente pareciam... vivos.
Na mesa que supostamente seria ocupada por uma recepcionista, um computador, juntamente com o monitor e teclado, tudo coberto por uma capa plástica, dando sinal ou de excesso de zelo de um usuário recentemente admitido às maravilhas da Informática, ou então, o que a Sarah pareceu mais provável, que nunca tinham sido ligados.

Mas o som de passos rápidos e curtos interrompeu seu exame.
Molly, a senhora ruiva com quem falara no casamento, apareceu esbaforida, usando um avental florido de cujo bolso apontava um cabo de madeira, provavelmente uma colher de pau no entender de Sarah – e esta idéia a fez se lembrar por um momento da mãe, sempre na cozinha preparando alguma coisa gostosa – e se desmanchando em sorrisos de autêntica alegria por ela ter realmente aceitado o convite e aparecido.
- Sarah, minha querida! – ela a abraçou efusivamente, não era em nada o que se imaginaria de uma inglesa, nada de rigidez ou frieza.
Sarah sorriu, forçando-se a ficar mais à vontade. E Molly já lhe perguntava o que queria ver primeiro.
Em algum alto-falante no interior da casa soou o aviso:
- Visitante na casa. Encerrar atividades esportivas. – a voz estridente chegara como de muito longe aos ouvidos de Sarah, que não refreou a curiosidade.
- Molly, desculpe. Mas... entendi bem? É que... desculpe, realmente desconheço as regras por aqui mas... creio que seria interessante ver como os garotos interagem nas atividades esportivas... isso nos ajuda a avaliar como estão reagindo à nova situação de vida.
- Entendo, querida – Molly pareceu desconcertada, como se esperasse que ela não tivesse ouvido aquilo – Mas teremos muito tempo pra isso... se você realmente ficar conosco, claro.
- Claro que vou ficar. Quer dizer... se vocês acharem que minhas qualificações atendem ao que desejam.
- Atendem, sim, com certeza. E todos esperamos ansiosos pela sua chegada... Nosso diretor achou melhor que todos estivessem prontos para recebê-la no salão principal.
Sarah pensou em Alan e perguntou:
- O garoto que me abriu a porta, o Alan... é um dos que vivem na casa?
- Sim, embora agora só fique conosco durante os feriados e nas férias, pois já está em Hog... Minha nossa, me desculpe! Esqueci-me completamente das boas maneiras, nem guardei seu casaco!
Espantada com a mudança brusca, afirmou não ter importância, apesar de ali dentro não estar sentindo frio como sentira lá fora. Mas Molly insistiu.
Sarah tirou então o pesado casaco de inverno e o cachecol, que chamou a atenção de Molly pela cor, fazendo-a sorrir de modo engraçado.
Sarah imaginou ouvi-la dizer que era igual ao dos filhos dela, mas ela já pegava também suas luvas, guardando tudo em um armário numa das paredes laterais do saguão. Depois, virou-se para Sarah e convidou-a para o “passeio de reconhecimento”, rindo mais uma vez ao dizer que aquilo parecia coisa que seria dita por um de seus gêmeos.
Sarah achou tudo isso curioso, mas voltou à pergunta anterior. Alan a intrigara e queria saber um pouco mais.
- Mas o Alan... Bem, o que quero dizer é... as crianças, são da mesma idade que ele?
- Ah, algumas sim, e como ele, já estão na Escola... – ela se interrompeu, como se pensasse com cuidado no que iria dizer a seguir – Na verdade, ele é o nosso “primeiro acolhido”. Eu fiquei com ele, quando tinha quatro anos de idade, quando o Professor... bem, quando foi deixado em minha casa, até que Lady Marjorie, sua parente mais próxima pudesse acolhê-lo.
- Se foi acolhido por uma parente, porque está aqui?
Molly pareceu confusa por um momento, então explicou:
- Ah, Lady Marjorie também trabalha conosco. É uma pena que não esteja, também está ansiosa por conhecê-la. Mas precisou fazer algumas compras de última hora.
- E por que ele se veste daquela forma? É de uma dessas tribos, que os adolescentes tanto gostam, hoje em dia?
- Tribo? – Molly pareceu confusa por um instante – Ah, não, ele se veste assim para ficar mais parecido com o pai, o Professor. Apesar de terem ficado praticamente oito anos longe, ele o idolatra.
- Mas ele não é órfão?
- Sim. O Professor ... o adotou. Foi ele que o encontrou, após a morte dos pais. Mas precisou... viajar de repente e então o deixou comigo. Quando voltou, teve a idéia de fazer esta casa. Sim, ele é o grande idealizador deste projeto, e os meninos até o chamam de “pai”.
- Interessante... E quando vou conhecer este... Professor?
Molly, agora, decididamente, estava desconcertada, sem saber o que responder.
- Ele... err... tem alguns compromissos esta manhã, mas acredito que está até mais ansioso do que as crianças para vê-la.
Sarah notou que ela não dissera “conhecê-la”, o que seria o mais certo, mas deixou pra lá. Já estava se acostumando com o jeito estranho desses seus “novos” amigos...e prováveis companheiros de trabalho. E se o futuro chefe era um homem temperamental ou cheio de manias, ela ia ter que aprender o melhor jeito de lidar com ele, mas já passara por isso antes, em outros lugares.

Enquanto elas avançavam por um corredor muito limpo, cujo chão de ladrilhos brilhava como um espelho, Molly falava sem parar, e Sarah ia assimilando as informações que conseguia distinguir: nome de cada criança, idade, procedência de cada uma...os horários das atividades, o que cada um mais gostava... Molly parecia ligada numa tomada. De vez em quando, citava novamente as tragédias provocadas pela guerra.
Só não conseguia entender a que guerra Molly se referia. Ela explicara que as crianças eram na maioria sobreviventes de ataques de um estranho grupo de terroristas – ou alguma coisa parecida, pois Sarah nunca ouvira a expressão que a mulher usou para denominá-los – que haviam continuado a agir mesmo após o fim da tal guerra, grupos isolados e fanáticos, extremamente cruéis em suas ações.

Mas algumas coisas pareciam escapar em meio a uma frase ou outra... Uma palavra que soava familiar, uma expressão... E Sarah sentia uma campainha soando em algum lugar de sua mente. Sentindo-se atordoada por um momento, tentou se distanciar do que ouvia, pois com certeza lhe contariam tudo de novo com mais detalhes no decorrer do tempo, para prestar mais atenção ao ambiente.
Aqui e ali, quadros na parede, de paisagens ou pessoas, e estes últimos sempre lhe davam aquela impressão incômoda que retratos dão na gente... de que estavam seguindo cada movimento, só que ela sentia isso mais forte do que o normal...
Vasos de flores, algumas desconhecidas para ela, eram vistos por todo o corredor, em aparadores ou pequenas mesas. Uma criança surgiu numa porta ao fundo, uma menina com um vestido comprido e um avental lilás forte. Olhou-as por um instante e correu de volta, fechando a porta atrás de si.
Este movimento repentino, a figura de Molly parecendo uma autêntica governanta, o lugar tão arrumado, tudo lhe falava de livros que já lera. E numa rápida e quase mágica associação de idéias, pensou em Oliver Twist e sinceramente esperou que aquela não fosse uma daquelas antigas instituições inglesas para abrigar os pobres órfãos...
Não, ali era tudo tão limpo e bonito... talvez fosse mais como o colégio de “A Princesinha”. Sorriu com a lembrança, pois as imagens de um de seus filmes favoritos vieram à sua mente, sempre pródiga neste tipo de associação. Uma das coisas que mais gostava naquele filme era justamente os cenários, as cores... a fotografia do filme era primorosa, em sua opinião. Quem era mesmo o diretor? Ah, Antonio Cuaron, o mexicano. Ela vira outros filmes dele... Qual fora o outro mesmo? Que coisa, vira recentemente, com os sobrinhos, antes de se mudarem, a entrevista do diretor nos extras do dvd era bastante interessante, mas o nome do filme teimava em fugir...

Sem escutar mais nada do que Molly continuava falando, Sarah continuou se esforçando para lembrar, até que um som externo, o latido forte de um cão, talvez na rua mesmo ou nos fundos da casa, funcionou como um gatilho...no filme, havia um cão negro... e ela se lembrou: sim, o filme de Cuaron, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”... Harry Potter... Harry... Harry! Não, não era possível!
Ela parou de súbito. Tudo parecia querer girar à sua volta. Ficou ligeiramente tonta e ela se encostou à parede, levando a mão à testa, que latejava de mansinho.
Molly parou também e se voltou, fitando-a um misto de curiosidade e preocupação maternal:
- Algum problema?
Sarah a fitou, murmurando:
- Molly... Molly...Molly Weasley! - então, quase gritou - Você É a Sra Weasley! A mãe do Rony, o melhor amigo de... Harry Potter!

Um clarão pareceu invadir sua mente. agora, "reconhecia" as pessoas com quem conversara há apenas dois dias, pessoas que pareciam dispostas a não falar muito de si mesmas, principalmente o nome completo.
Sim, claro, aquele homem negro e forte, Schakebolt, o auror da Ordem, que trabalhara sob disfarce na proteção do Ministro “trouxa”. E Susan... André lhe falara o sobrenome: Bones. Sim, era Susan Bones, que participara da Armada Dumbledore, neta de Amélia Bones, assassinada misteriosamente...
Agora entendia porque “Madame Malkin” – conferira a etiqueta por curiosidade, ao voltar da festa - parecera familiar, claro, a dona da loja no Beco Diagonal. E o homem ruivo, era, só podia ser, Arthur Weasley, o sempre curioso “amigo dos trouxas”. Sem falar em Harry Potter em pessoa.
Mas ainda havia Alan...
Não, não se lembrava deste nome nos livros, apenas nos filmes. Não um personagem, mas um ator: Alan Rickman! Então, uma suspeita passou por sua mente, como uma última esperança:
- Já sei! Isso é uma pegadinha!
- O que? – Molly, que já parecia apavorada, agora a olhou sem entender nada – O que é isso?
- Uma brincadeira de mau gosto... meu irmão preparou isso, não foi? Ele sabe que li os livros, vi os filmes... acompanhando os meninos de Neuza, mas será que imagina que sou uma fã tão fanática, pra me pregar uma peça dessas?
- Querida... – Molly estava atônita – Realmente, não sei do que você está falando, mas lhe asseguro que isto não é nenhuma brincadeira... Por Merlim!
- O que?
As duas se olharam por um minuto, ambas aflitas e inseguras. Molly, no entanto, estava quase às lágrimas quando falou de novo:
- Sinto muito, querida. Eu não entendo. Ele... er... me disseram que você já nos conhecia mas... que havia esquecido, que precisávamos ir com calma, mas ele... ele não... ah! Dane-se! O gato já está solto entre os diabretes, mesmo...
Sarah não pode conter um sorriso... também já ouvira aquela frase, na boca de uma personagem que achara adorável: Sra Figg.
- A Sra Figg, ainda vive? Gostaria de conhecê-la.
- Ah, sim. Arabela é uma mulher muito forte, ainda cria seus gatos e amassos na mesma casa em Surrey... Ela se acostumou lá, mesmo não estando mais em missão... – Molly a fitou, e sorriu – Você já se lembra de tudo, não?
- Dos livros? Claro, eu li todos de uma vez, praticamente, há pouco mais de um ano, quando...
Ela estacou, mais chocada ainda com o que vinha à sua mente.
O que acontecera afinal, há um ano? Sua mente parecia um mar de névoa... E a tontura aumentou, fazendo-a cambalear, sendo amparada imediatamente pela Sra Weasley, agora nitidamente preocupada.
Se alguém perguntasse isso a ela no dia anterior, ou mesmo pela manhã, enquanto tomava café, diria que passara as férias com os pais, as últimas férias em que estavam todos juntos. Diria que vira os filmes de Harry Potter e lera seus livros, convencida por seus sobrinhos de que eram “o máximo”.
E que ganhara aquele vestido de festa estranho - que usara no casamento de André - de um ex-paciente do hospital onde trabalhava, um professor de química inglês, que sofrera amnésia em conseqüência de um grave acidente, quando fora para o Brasil participar de um projeto do Departamento de Química da Universidade em que Sarah estudara. Que este professor passara o Natal com sua família, a seu convite, por estar longe de sua terra e de sua gente, e passara horas “filosofando” com seu pai na biblioteca. Sim, era disso que se lembrava. Fora o que acontecera... ou não?

Outras lembranças pareciam lutar para aflorar, tentando sobrepujar as que haviam sido... plantadas em sua mente por um competente obliviador ou então por um exímio legilimente!
Agora sim, ela entendia!

E outro rosto emergiu de sua memória “esquecida”: primeiro, viu o ator em sua interpretação tão elogiada, mas, gradativamente, o rosto verdadeiro foi tomando seu lugar. Um rosto pálido a princípio, que se tornara mais corado à medida que o tempo passava e ele tomava mais sol. Uma barba bem aparada que escondia um pouco a “semelhança” e impedia a associação imediata “do nome à pessoa”, como diria sua mãe.
E ela se lembrou de tudo: de como o paciente inglês da enfermaria sete, que atendia pelo nome de John Smith, descobrira ser na verdade...
- Snape. Severus Snape! – ela exclamou, surpresa consigo mesma.
- Sim? – a voz vinda da ponta do corredor às suas costas, a fez se voltar imediatamente.
Molly estava ainda mais aflita, mas nem Sarah, nem o homem que a fitava em silêncio, os olhos negros e profundos que pareciam querer atravessar sua alma, pareciam notar.
- Não! – Sarah exclamou – Não faça de novo!
- Não vou fazer. – Snape respondeu simplesmente, enquanto ela finalmente conseguia mover as pernas e se aproximar dele, embora um pouco trêmula.
Enquanto isso, Molly Weasley pareceu evaporar-se no corredor. Agora que não estava mais em suas mãos, podia se entregar novamente aos seus afazeres, e avisar a Madame Hooch que já podia reiniciar a aula de quadribol. Afinal, não era assim tão fácil se deslocar de Hogwarts para isso...
Mas tanto Sarah quanto Snape nem notaram sua partida, ou, se perceberam, não deram sinal de se importarem com o fato.
Estavam agora a um passo de distância, os olhares fixos um no outro, num silêncio estarrecedor.
Parecendo ter se convencido de que ficar ali parado não levaria a nada, Snape disse, por fim:
- Vamos até minha sala. Lá conversaremos... com calma e tempo. Mas, claro, temos “todo o tempo do mundo”.

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