Quadribol



Capítulo 9- Quadribol


Milly exclamou maravilhada:


-Os dois são tão bonitinhos, não acham?...


Gina sorriu amigavelmente e Harry pareceu meio desconcertado.


-Vocês são bonecos? –disse Milly tentando encostar em Gina.


-Não –riu Gina enquanto a mão de Milly passava por entre ela- Somos uma projeção mágica feita com memória de outras pessoas. Somos duas imagens pensantes.


Liv piscou abobada.


-Isso é magia muito, muito avançada. Na verdade eu nem sabia que se podia fazer isso...


-Na verdade nós somos as primeiras projeções do mundo a serem feitas. Mais de vinte anos foram gastos nesse projeto –respondeu a ruiva.


-Ele não fala? –questionou Charles apontando para Harry.


Harry sorriu meio amarelo e passou a mão pelos cabelos rebeldes.


-Fomos construídos com base em nossas antigas personalidades. E a pessoa mais sociável entre nós dois é Gina.


-E como vocês vão nos ajudar? –perguntou Taylor.


Harry riu convencido.


-Ora, eu era o líder da Armada Dumbledore. Já fiz isso antes, sei por onde você deve começar o que deve fazer.


Taylor ficou em silêncio agradecendo mentalmente a Sally por ter lhe mandado buscar o mapa do maroto, sem ele nunca chegaria até essa sala, e nunca conheceria Harry e Gina... ou a projeção deles.


-O mapa do maroto –disse Harry contente- meu pai era o Pontas. Sirius Black era Almofadinhas, Remo Lupin era Aluado e o cretino do Pedro Pettgrew era o Rabicho. Eles criaram esse mapa, mas se eu fosse você não andaria com ele a mostra o tempo todo.


-Como se apaga isso?


-Aponte sua varinha e diga ‘malfeito feito’.


Taylor apontou sua varinha para o mapa e pronunciou ‘malfeito feito’, então as pessoas foram sumindo e o pergaminho voltou a ficar totalmente limpo.


-Nós temos que ir –disse Liv visivelmente preocupada- Nem tomamos o café da manhã e nós temos aula.


-É melhor que andem separados –disse Harry, com jeito de quem entende das coisas- usem o mapa para isso. Chama muita atenção alunos de casas diferentes e idades diferentes andando juntos. A não ser que vocês sempre foram amigos...


Não. Nem em seus sonhos mais estranhos Sophie estaria andando com sua prima Liv e os amigos dela ou Taylor fosse carregar sua prima de onze anos para aprontar com ele. Taylor já estava saindo quando olhou para Harry e Gina sentados em puffs.


-Nós devemos, hum... –disse constrangido- Como eu posso dizer? Sei lá, desligar vocês?


-Se vocês não forem voltar em breve é melhor que desligue, para não descarregar.


Ele não entendeu muito bem o que Gina quis dizer com descarregar, mas sorriu amarelo e apertou o botão vermelho do controle que Milly havia achado. Com um clarão os dois desapareceram. Taylor pegou o mapa e viu o melhor jeito deles se separarem.


Charles, Bev e Liv chegaram juntos aos Salão Principal, como se tivessem saído da sala comunal ainda há pouco. Assim que entraram alguns rostos das Sonserina se viraram para eles, algumas meninas rindo desdenhosamente outras virando a cara rápido. Bev imaginou que fosse por causa dela, nunca fora das mais apreciadas na escola, não com sua antiga mania de denunciar os outros por cada gesto que faziam.


Mas para o susto de Beverly quando a professora Joan Took apareceu não foi para ela que olhou, mas para Liv.


-Srta. Orchis, me acompanhe.


Liv olhou para a sua agenda nas mãos da professora e ficou extremamente pálida. Suas pernas tremeram e ela teria desmaiado se não tivesse sido amparada por Charles.


-Liv, o que foi?


-Nada –sibilou em não fio de voz.


A garota começou a andar seguindo a professora antes que Charles ou Bev perguntassem algo. Quando ela sumiu Bev estava com as mãos tremendo, parecia muito pálida e estava suando frio.


-Quem entregou a agenda de Liv para a professora? –perguntou ela olhando furiosa para suas colegas de quarto, as três juntas: Camila Sign, Pamela Cubus e Anne Broun. Camila parecia chocada, Pamela desviou do olhar de Bev e Anne sorriu sarcasticamente.


-Eu entreguei.


Bev bufou e deu dois passos na direção de Anne, mas foi impedida por Charles de continuar.


-O que está acontecendo, Beverly?


Ele não reconhecia sua irmã, se não tivesse a segurado ela teria voado em cima de Anne para esmurrá-la. Não combinava com Beverly. E mesmo parada nos braços do irmão ela tremia de raiva ele nunca a vira com uma expressão tão dura.


-Como você pôde? –perguntou ela não sussurro letal.


-Ora, Bowl. Você me dando lição de moral? Justo você que já denunciou tanta gente? Tem até uma professora de DCAT no seu currículo.


-O que está acontecendo, Beverly? –perguntou Charles novamente.


-Eu não tenho certeza –disse ela olhando piedosamente pro irmão.


-Pode ter, Bowl –disse Anne rindo- Porque eu tenho certeza.


Bev abaixou o rosto, não conseguia encarar o irmão.


-Bev...?


-Talvez você deva ir atrás delas. Diz respeito a você também.


Liv entrou na sala de Draco Malfoy e seus pais estavam lá. Ela estava com sua agenda ainda pela manhã antes de sair do quarto, então fora denunciada a menos de uma hora, como eles foram avisados tão rápido? Não importava muito agora... Sua mãe a olhava com um terrível horror nos olhos e ela tinha certeza de que se Draco Malfoy não estivesse ali seu pai bateria nela.


-Sente-se, Srta. Orchis. –disse a voz fria e dura de Draco Malfoy.


Ela quase que não sentou, antes despencou na cadeira, de tão fracas que estavam suas pernas. Ela não conseguia encarar ninguém, olhou para seus joelhos, somente levantou os olhos quando Draco Malfoy voltou a falar.


-Olhe para mim, Srta. Ochis. Eu só vou perguntar uma vez e quero que você fale a verdade. Entendeu?


Ela balançou a cabeça trêmula.


-Você está grávida?


Ela fechou os olhos e as lágrimas rolaram pelo seu rosto. Todo o corpo dela sacudia involuntariamente e ela escondeu seu rosto com as mãos. Balançou a cabeça afirmando.
O Sr. Orchis se levantou em fúria e apontou a varinha para ele.


-PARE!


Draco Malfoy ainda não tinha se movido, mas olhava duro para o pai de Liv.


-Em minha escola ninguém levantará a mão contra um aluno, mesmo que essa seja sua filha e que você tenha suas razões... Em minha escola o Sr. não tocará nela.


A mãe de Liv ficava tentada entre levantar-se e dar as costas à filha ou a abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Mas Liv não via isso, ainda escondia seu rosto entre as mãos.


-Sente-se Sr. Orchis. –então ele olhou para Liv- Eu não posso expulsá-la por ser imoral, só posso aplicar detenções, castigos e retirada de pontos por seu mal exemplo. Mas posso expulsá-la se caso você se negue a revelar o nome do pai da criança. Olhe para mim.


Desesperada ela tirou as mãos do rosto vermelho e molhado de lágrimas e com muito custo encarou o diretor.


-Quem é o pai da criança?


Sua garganta tinha um imenso nó, ela não conseguiria dizer o que queria. Balançou a cabeça numa negação.


-Não o quê? Não sabe quem é o pai... ou não vai contar? –ela balançou a cabeça novamente- Não vai contar quem é o pai? Vai proteger o verme que manchou a honra da sua família e o nome da escola?


Ela sustentou o congelante olhar de Malfoy e se manteve irredutível. Não ia falar.


-Você não me dá outra escolha a não ser expulsá-la por desobedecer minha autoridade.


Ela deu de ombros com um sorriso amargo. Não queria ficar mesmo. Não conseguiria encarar seus colegas sabendo que todos comentavam dela pelas costas, não conseguiria encarar Beverly... ou Charles.


-Por favor, Joan. Vá até o quarto da Srta. Orchis, reúna as coisas dela e traga tudo para cá. Vou assinar a expulsão dela.


A professora Took já ia abrir a porta quando esta foi violentamente escancarada. Olhando estupefato para Liv estava Charles, com a respiração ofegante como se tivesse vindo correndo.


-Você está grávida?! –perguntou ele ignorando todos os outros presentes.


Ela não respondeu, somente virou a cabeça para outro lado. Não conseguia encará-lo. Ele ficou parado na porta olhando perdido para ela, ainda esperando uma resposta. Draco Malfoy então dirigiu a palavra a ele.


-Sr. Bowl, não vou perguntar como conseguiu entrar aqui, é até interessante que esteja nesta sala. Eu acabo de confirmar com a Srta. Orchis que ela está esperando um filho de algum irresponsável qualquer que a engravidou. Incrivelmente ela se recusa a falar o nome dele, para que possa ser devidamente punido. Você sabe quem algo que queira nos contar?
Ele olhou firmemente para Draco Malfoy.


-Pode fazer o que for, me torturar inclusive. Eu sou o pai da criança.


O pai de Liv olhou o rapaz com desprezo. O pai de seu neto era um estudante que usava cabelos compridos amarrados num rabo-de-cavalo e andava gingando. Provavelmente era um tolo que se achava metido a conquistar qualquer garota e a levar qualquer oferecida para uma sala vazia durante a noite. Sentiu vontade de azará-lo, mas sabia que Draco Malfoy não permitiria isso.


-Seu moleque... –disse ele se levantando e andando em direção a Charles- Quem você pensa que é...?


Charles não ficou com medo nem arredou o pé do lugar. Não lutaria com o pai de Liv, muito menos na frente dela.


-Eu vou assumir a criança.


O Sr. Orchis riu sarcástico como se Charles tivesse dito uma piada.


-Ora, você acha que está me fazendo um favor?


-Eu me caso com Liv antes que a barriga apareça. Minha família tem posses e eu poderia cuidar dela direito.


O Sr. Orchis olhou resignado e ia falar algo quando Liv interrompeu.


-Não vou me casar com você, Charles.


Todos olharam estupefatos para ela. Charles deu alguns passos em direção a ela.


-Não vou me casar com você e nem vou ter essa criança. Eu vou abortar. Já até marquei o dia numa clínica clandestina.


Se antes somente o pai dela estava em fúria, agora também Charles parecia possesso.


-O quê? Você não vai abortar o meu filho!


Ela deu uma gargalhada maldosa.


-Ora, Charles, seu filho? Isso não é um boneco que você vai pegar no colo e fazer graça para ele rir. Isso é uma criança... Que vai chorar quando tiver fome, e quando estiver suja, e quando tiver cólica e sabe lá Merlim por quantos mil motivos! É uma criança que vai te acordar de madrugada e não vai te deixar mais você dormir... E quanto essa papel ridículo de se casar comigo? Você não me ama! Gosta de mim como amiga, mas vai me odiar quando tiver que acordar todo santo dia ao meu lado, e ver o seu futuro, com as milhares de garotas que você poderia ter e os mil lugares onde você poderia ir e isso não vai mais poder se realizar. Eu vou ser uma pedra no seu sapato e por isso você vai me tratar mal, vai começar a me trair e seremos dois infelizes! E com pais como esses não me admiraria se a criança também fosse infeliz.


Por um breve instante todos concordaram com ela. Entenderam suas razões. Mas isso não durou mais que dez segundos.


-Pensasse nisso antes de fazer essa criança –disse o Sr. Orchis com voz dura.


Ele ia dizer algo mais, mas foi interrompido pela porta que se abriu. O pai de Charles, Simon Bowl, entrou pela porta adentro. Ao ver o embaixador mais poderoso da Inglaterra de repente os olhos do pai de Liv se arregalaram, e ele lembrou que Malfoy havia chamado o garoto pelo sobrenome ‘Bowl’. Pelo menos sua filha não se deitara com um qualquer.


Simon Bowl parou estupefato quando viu seu filho novamente na sala do diretor.


-O que você aprontou agora, Charles? –então ele olhou para Draco Malfoy e lhe entregou uma maleta- Acabo de chegar da Finlândia e trouxe algo que o senhor havia me pedido, Sr. Malfoy.


O Sr. Bowl olhou para a garota sentada com os olhos vermelhos e para as pessoas que provavelmente eram os pais dela. Reconheceu o homem como Douglas Orchis, um dos sócios majoritários da rede O&L de transportes internacionais. Então olhou para Charles.


-O que você tem a ver com Srta. Orchis?


-Sou o pai do filho que ela está esperando.


SNAP!


O som do tapa na cara de Charles foi bem audível e o garoto não reclamou, nem pareceu furioso por isso. E não deixou de encarar o pai.


-É realmente uma terrível coincidência que eu tenha passado nesta escola antes mesmo de ir em casa depois de uma viagem, mas é bom que isso tenha acontecido. –ele olhou para o pai de Liv- Charles se casará com ela.


-Eu já disse isso a ele.


Ele olhou para o filho como se não acreditasse que ele pudesse ter tomado essa atitude, mas não disse nada. Quem disse algo foi Liv.


-Eu não vou me casar com seu filho, Sr. Bowl –disse Liv com a voz trêmula- Se tivesse chegado segundos antes me ouviria dizer que nem mesmo pretendo ter esse filho. Vou abortar.


-Receio lhe informar que não vai, não.


-Creio que essa é uma decisão minha.


-Creio que é sobre o meu neto e o resto de honra que sobrou no meu nome que estamos falando. Vocês dois cometeram uma irresponsabilidade e irão agüentar as conseqüências desse fato. Se não se quiser se casar com ele, creio que ninguém possa obrigá-la. Mas se abortar a criança eu a denunciarei ao Ministério e você será acusada de homicídio, porque aborto é crime nesse país.


Liv ficou muito mais pálida do que estava, seu rosto tomou uma leve coloração azulada e suas mãos tremiam incontrolavelmente. Charles estendeu a mão para seu pai como para que interceder por ela, mas o Sr. Orchis sorriu satisfeito.


-Bem lembrado, Sr. Bowl.


Charles olhou com raiva para ele, será que ninguém ali tinha pena de Liv? Não percebiam que estavam decidindo o futuro dela e que iam a fazer infeliz? Como uma maldita honra e um maldito sobrenome podiam ser maiores que a felicidade da garota?


-Eu devo me retirar agora porque ainda tenho muito que fazer –disse Simon Bowl- Mas irei até a sua casa ainda hoje, Sr. Orchis, para discutirmos esse assunto adequadamente. Agora se me dão licença... Sr. Malfoy, Charles está dispensado?


-Claro. Ele pode ir. O assunto já foi resolvido.


Na cabeça de Charles ainda não, ele viu Liv fechar os olhos e sentiu que ela estava prestes a desmaiar. Queria ir ajudá-la e tentar conversar com ela sobre o que acontecera, mas a mão de seu pai tocou seu ombro.


-Vamos, Charles.


Sem poder fazer nada, ele seguiu seu pai para fora da sala.
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Taylor entrou no Salão Principal segundos depois de Liv ter saído e pôde ver Charles impedindo Beverly de espancar Anne Broun. As duas trocaram algumas palavras e então Bev se virou palidamente para o irmão e disse algo. Taylor caminhava em direção aos dois quando Charles largou a irmã e começou a discutir algo com ela. Beverly parecia acuada e sem-jeito, tentando acalmar o irmão. Ele chegou perto dos dois a tempo de ouvir a garota dizer:


-A senha da sala é ‘ordem’. Estive lá anteontem, talvez eles não a tenham mudado...


Charles saiu correndo esbarrando nele e quase o jogando no chão, mas ele sequer percebeu que Taylor estava ali. Taylor olhou para Bev com um olhar confuso.


-O quê...?


Mas antes que ele terminasse a pergunta Bev o puxou pelo braço e saiu do Salão Principal. Andaram em silêncio por alguns corredores e entraram não a sala vazia. Quando ela virou o rosto para ele, Taylor notou que ela tinha os olhos marejados.


-Liv foi denunciada por Anne Broun.




As pernas de Taylor fraquejaram e ele se apoiou na parede.


-Mas... Como? Como ela descobriu? –Bev olhava perdida para além da janela, mal parecia prestar atenção na angústia de Taylor- E por que Broun a denunciou, por que não a mim?
Beverly pareceu confusa por alguns instantes então permitiu seus lábios se curvarem não fraco sorriso.


-A Sociedade não foi descoberta, Taylor. Não foi por causa disso que Liv foi denunciada.
-Então...?


Ela encarou o chão por alguns minutos, ele ficou em silêncio dando a Bev o tempo que ela necessitava para acalmar seus pensamentos.


-Eu já tinha notado algo entre eles, sabe? Mas não achei que tivesse ido a esse ponto. E de uns tempos pra cá percebi que Liv estava preocupada com algo, mas isso era algo que nunca, nunca passaria pela minha cabeça. Acontece que ontem eu vi a agenda dela aberta e notei que ela estava contando os dias para algo, e que mais de um mês havia se passado e... Bom, depois disso só havia borrões, e desenhos mal-acabados, morte e traços de dor...


Ele olhava para Bev sem entender nada. Nem conseguia imaginar Liv fazendo algo errado para que pudesse ser denunciada. E ele também notara a amiga um pouco apreensiva nos últimos dias, mas não pensou em nada grave.


-... Depois que eu vi a agenda eu comecei a pensar que tipo de problema ela poderia estar tendo, e eu pensei que pudesse estar relacionado a Charles, então eu lembrei da contagem dos dias e do desespero quando completou mais de um mês... Eu não tinha certeza, ia tentar fazer com que ela falasse algo, mas Anne Broun foi mais rápida e a denunciou.


Bev fechou os olhos e cerrou os punhos, não misto de dor e fúria que ele nunca vira.


-Agora eu sei o que as pessoas tinham vontade de fazer comigo quando eu as denunciava.


-O que Liv fez, Beverly?


Ela o encarou com um olhar estranho.


-Liv está grávida, Taylor. De Charles.


Ele ficou encarando a amiga por alguns segundos, sem conseguir digerir a resposta dela direito. Grávida? Percebia os olhares que os dois trocavam às vezes, mas...


-O que vai acontecer com ela?


-Eu não sei. Assim que eu contei a Charles ele saiu em disparada pra sala do diretor.


Ficaram se olhando por alguns segundos, Taylor então abraçou Bev e sorriu fraco.


-Vai ficar tudo bem, você vai ver.


Beverly riu amarga.


-Você não percebe? Todos vão ficar falando dela, e apontando, e Liv vai sofrer...


-Mas ela vai ter um filho...


Bev se separou de Taylor e olhou fundo nos olhos dele. Ele sorria suave e positivo.


-Ela espera uma criança, Bev. Não uma doença... Isso não é uma maldição, mas sim uma benção. Tenho certeza que assim que a surpresa e o tumulto passarem Charles e Liv vão ficar felizes. Veio antes do tempo, mas...


Bev sorriu e mordeu o lábio inferior, nunca pensara que Taylor pudesse levar isso tão naturalmente. “Ele não vem de família tradicional. Não tem o mau hábito de julgar os outros” pensou contente. Mas o sorriso dela se apagou parcialmente quando viu pela janela o pai e o irmão passarem andando em direção aos portões da escola. Taylor olhou também.


Charles andava olhando para frente, com o olhar calmo, porém sério. Simon Bowl andava com passos lentos, com o rosto num misto de tristeza e desapontamento. Simon falava algo e Charles escutava com atenção. De onde estavam Bev e Taylor não podiam ouvir o que falavam, mas não parecia que discutiam. Parecia mais um desabafo.


-É melhor nós irmos, Bev. Até porque andei falando com umas pessoas, vou perguntar-lhes sobre a Sociedade.


-Não é muito cedo? –perguntou ela sem desviar o olhar do pai e do irmão- Quero dizer, você tem certeza que eles são de confiança?


-É claro que sim.


Ele pegou a mão dele com calma e a puxou para fora da sala, deixando assim pai e filho conversando a sós. Tentou levá-la para o Salão Principal para comer algo ou para os jardins, para que ela se acalmasse, mas Beverly foi para a cozinha. Ao entrar vários elfos olharam para eles e Bev se inclinou para um deles.


-Você pode me arranjar chocolate?


O elfo sacudiu a cabeça várias vezes e foi buscar o chocolate, voltando com uma bandeja cheia. Beverly pegou a bandeja e já ia saindo da cozinha quando parou e se voltou para o elfo que tinha a ajudado.


-Muito obrigada.


Os olhos do elfo se encheram d’água e antes que ele começasse a chorar ou algo assim Beverly saiu logo da cozinha. Taylor, que só havia observado a cena, estava sorrindo para ela.


-Foi bonito o que você fez.


-É estranho. Eles fazem tudo pela gente e ninguém nunca dá valor aos elfos. É meio injusto, não?


-É...


Taylor estava estranhando esse lado mais humano e mais sereno de Beverly, mas definitivamente estava gostando disso. Enxergar a verdade sobre ditaduras e hierarquias estava abrindo a mente dela para outras coisas que estavam erradas também.


Ela parou na porta da enfermaria.


-Ela deve estar aqui. Já que descobriram a gravidez vão querer se certificar do bem-estar dela e da criança.


Taylor colocou a mão no ombro dela.


-Quer entrar? Talvez Liv queira ficar um tempo sozinha.


-Não, vocês vão ficar e me esperar –disse uma voz atrás deles.


Taylor olhou para trás e seus olhos se iluminaram, diante dele estava sua mãe.
-Mãe?


-Olá, meu filho –disse ela dando um abraço nele e depois cumprimentando Bev- Olá, Beverly.


-O que está fazendo aqui, mãe?


-Evelyn e Simon pediram que eu viesse examinar Liv. Querem alguém de confiança tratando do neto deles.


-Minha mãe? Minha mãe foi solta?


Linda sorriu.


-Sim, Beverly. Evelyn recebeu anistia ontem a noite, e seu pai a buscou de Azkaban há alguns minutos, depois de ter passado por aqui e descoberto essa gravidez. Na verdade Simon não falou nada, estava meio desnorteado. Sua mãe quem controlou tudo. Parece que ele e Charles tiveram uma conversa meio séria, seu pai estava com a voz trêmula. Bom, depois que buscou sua e foram direto ao St. Mungus, onde me contaram a história e me pediram para vir aqui.


Linda entrou na enfermaria e conversou alguns segundos com Madame Cleany, e antes de entrar para ver Liv, Linda se aproximou dos dois e sussurrou:


-Me esperem. Quando eu terminar de examiná-la vou deixar vocês entrarem.


Beverly assentiu com a cabeça e sentou-se numa cadeira dura de madeira por ali. Taylor sentou-se ao seu lado e ficaram ambos calados durante muito tempo.


-Estranho, não é? –disse ela- Minha mãe mal saiu de Azkaban e já está tomando as rédeas de tudo. Cuidando de Liv, acalmando meu pai. Azkaban não pode ser tão ruim assim, pelo que sua mãe disse ela me parece bem.


-Azkaban deve ser pior do que qualquer um de nós imagina, Beverly. Sua mãe que deve ser muito forte.


Ela assentiu com a cabeça se encostou no ombro de Taylor.


-Você disse que vai conversar com algumas pessoas a respeito de você-sabe-o-quê.


-Vou, na verdade queria que você me ajudasse, conversando com uma parte delas.


-Se elas quiserem conversar comigo. Você sabe, não sou muito querida nessa escola.


-Eu te quero.


Beverly ficou vermelha e virou o rosto. Ele tossiu desconsertado e tentou consertar a situação.


-N-não, o que eu quis dizer foi que eu te q-quero bem. Eu sou seu amigo.


Ela balançou a cabeça e resmungou um “é claro que sim” meio baixo, mas continuou sem encará-lo. Ela então olhou para ele ainda sem graça e, do nada, começou a rir. Ele passou a mão pelos cabelos ainda se sentindo desconfortável, mas a acompanhou no riso.


Houve um barulho do lado de dentro e os dois pararam e olharam para a porta. Alguns minutos depois Linda apareceu.


-Pronto, pessoal. Liv está aqui, podem entrar se quiserem.


Beverly sorriu e passou direto por Linda, indo ao encontro da amiga que estava deitada na cama com uma aparência cansada.


-Hey, Liv. Como você está?


-Ela está bem –disse Linda andando abraçada com o filho- Mas precisará se alimentar bem daqui pra frente, e também beber muito líquido. Será bom que caminhe nos jardim quando ele não estiver coberto pela neve. Exercício é essencial.


Bev ainda olhava para Liv que a encara com um sorriso fraco no rosto.


-O que aconteceu?


-Não quero falar sobre isso agora.


Bev abriu a boca, mas Linda a interrompeu.


-Ouça, sua amiga está bem e precisa descansar. Na verdade eu não deveria tê-los deixado entrar. –ela olhou para porta e lançou um feitiço- Pronto, isso impedirá que qualquer um nos ouça. Linda se sentou numa cama e encarou os três.


-É uma pena que Charles não esteja aqui também para ouvir o que tenho a dizer. Fui mandada pela sua mãe, Beverly, não só porque ela quer se certificar do bem estar da mãe do neto dela, mas também ela me pediu para passar um recado. Ok, vou passar o recado, mas antes vocês vão ouvir o que eu tenho a dizer sobre essas história.


Liv levantou o roso com raiva, não podia acreditar que a mãe de Taylor fosse julgá-la.


-Olhe aqui, Sra. Looker, eu não sou uma qualquer que sai me esfreg...


-Não estou falando sobre você, Liv. Na verdade a entendo muito mais que a maioria. Você e Charles são adolescentes e têm hormônios atuando no seu corpo, embora a maior parte dos bruxos nem mesmo saiba o que é um hormônio direito. Não estou aqui para falar sobre você ou essa criança. –ela olhou duramente para Taylor- É a Sociedade dos Heróis Mortos que me preocupa.


Os três sentiram a respiração falhar por alguns segundos, recobrando-se do susto Taylor voltou a falar com sua mãe:


-Como você sabe...?


-Digamos que eu sei que Dally Silver é uma pessoa que não desiste. Tive medo quando a reconheci como a prof de DCAT, mas fiquei aliviada porque ninguém mais parecia reconhecer. –ela sorriu amarga- Como se todo mundo tivesse olhos tão verdes daquele jeito...


-Minha mãe sabe também, Sra. Looker? Como?


-Só há um único lugar nesse país onde a verdade pode ser dita em alto e bom som: Azkaban. Infelizmente os presos são os únicos que sabem que a família Malfoy é um câncer, e que precisa ser combatida. Ainda há muitos presos políticos naquele lugar, e de alguma forma eles sempre ficam sabendo do que está acontecendo...


Beverly pareceu preocupada.


-Draco Malfoy tem como descobrir o que é dito por lá?


-Digamos que ele teria como, sim. Mas ele nunca deu a devida atenção para Azkaban. Desde que está no poder ele se sente seguro suficiente para deixar somente dementadores em Azkaban e não se preocupar nem um pouco sobre que se passa por lá. É uma negligencia da parte dele, mas uma esperança por parte de muita gente. Há os que acreditam que a nossas liberdade está nas mãos dos presos políticos –Linda bufou impaciente- Bom, a nossa liberdade está um tanto quanto presa, então.


Linda olhou impaciente para os três.


-Mas esse não é o ponto que vim discutir com vocês. –ela olhou duramente para Taylor- Você vai acabar com essa Sociedade.


-Não vou não, mãe.


-Ah vai sim.


-Não, mãe.


-Taylor! –ela se levantou e se aproximou furiosa do filho- Eu já perdi minha mãe por causa dos Malfoy, não me faça perder o filho também!


Ele abaixou a cabeça. Sabia que esse seria um trauma que sua mãe nunca iria superar. Quando ela tinha nove anos a mãe dela, sua avó, havia desaparecido, e quando por acaso num cemitério clandestino acharam o corpo, Taylor tinha oito anos de idade.


-Sinto muito, mas não vou desistir da Sociedade.


Linda olhou para Liv e Beverly.


-Eu perdi minha mãe, e você quase perdeu a sua, Beverly. E você perdeu seu pai, Liv. Não se percam nessa história.


Taylor não entendia o que sua mãe queria dizer com Liv ter perdido o pai, ele mesmo vira o Sr Orchis ontem na escola.


-Então a senhora acha que não vale a pena lutar por liberdade? –perguntou Bev com tristeza.


-Acho. Mas não mais nesse país. Liberdade aqui é um sonho e uma palavra vazia. Os Malfoy são indestrutíveis, e por mais que Dally sempre convença alguém a lutar com ela, por mais que sempre haja alguém cujos olhos brilham quando pensa num futuro melhor, ainda assim esse é um país perdido. Vocês são quatro, cinco ou sei lá quantos adolescente. Nunca conseguirão pará-los. Então é melhor que vocês parem com isso antes que terminem que nem os membros da última Sociedade.


-O que aconteceu com eles? –perguntou Liv.


-Foram todos presos. Simpatizantes com a causa deles ajudaram a promover uma fuga em massa de Azkaban, mas poucos conseguiram fugir de fato. Os três líderes foram mortos. Bom, na verdade só um morreu, porque Dally e Oliver conseguiram executar o plano direito e fugiram deixando para trás duas pessoas transfigurados na forma deles, mas quase ninguém sabe disso. Todos pensam que os três líderes foram executados. –ela olhou novamente para Taylor- E vocês são os líderes, então imaginem o que vai acontecer com vocês caso tudo seja descoberto.


-Não será, Harry e Gina estão nos ajudando.


Linda fez um rosto confuso e Taylor explicou, ela pareceu surpresa, mas continuou irredutível.


-Duas projeções não vão lutar por vocês. Não vão servir de impedimento caso Draco Malfoy queira prender ou matar vocês.


-Ele não faria isso... Seria ruim para a imagem dele.


-Há várias formas de matar um inimigo, Taylor. E os Malfoy usam das mais baixas e sem honra. Se eles descobrirem a Sociedade, prenderão vocês e vocês mofaram em Azkaban até morrer por lá. E se eles somente suspeitarem e não tiver provas, quem sabe quando vocês estiverem passeando por Hogsmeade um ladrão acidentalmente não mate vocês por acaso. É assim que as cosias são, se descobrirem, vocês são presos, se eles souberem e não tiverem provas, vocês morrem. Por favor, eu imploro, parem com isso!


Seria tão mais fácil ouvir sua mãe e simplesmente acabar com aquela idéia. Seria tão fácil falar que era arriscado e deixar pra lá. Mas havia algo dentro de Taylor que falava que não era certo acabar com a Sociedade. Ele viu quando sua mãe suspirou cansada.


-Fay Malfoy estava aqui na noite que Sally Dust fugiu, Taylor. E foi justamente Fay Malfoy que descobriu a primeira Sociedade. Draco Malfoy não é burro, ele não foi se casar com uma qualquer... Ela era a espiã mais eficiente que o Ministério tinha, e tenho certeza que ainda é tão eficiente quanto antes. Ela morou nessa escola durante anos, quando achou que não haveria mais perturbação, mas você viu que assim que houve o mínimo deslize ela estava aqui num piscar de olhos. –ela olhou para Beverly- E ela sabe que você estava mentindo.


Beverly ficou pálida, mas então deu um sorriso fraco.


-Eu já desconfiava disso.


-Ela sabe que você estava mentindo, e o fato de eu ser mãe de Taylor também não passou despercebido. Fay Malfoy não esqueceu que minha mãe era amiga de Harry Potter. Sim, ela era amiga de Harry Potter, estudou com ele, eram do mesmo ano na Grifinória. E esse foi o crime pelo qual ela foi presa.


-Ela falava mal dos Malfoy? –perguntou Liv.


-Não diretamente, mas contava para quem quisesse ouvir a história da Pedra Filosofal, da Câmara Secreta, do Torneio Tribruxo ou qualquer outra história que demonstrasse que ele tinha sido uma boa pessoa. Hoje penso que demorou até demais para que eles a matassem.


Liv abaixou a cabeça pensativa, e isso não escapou aos olhos de Linda.


-Eu conheci seu pai, e ele era uma ótima pessoa. Não faço a mínima idéia do que ele fez ou disse para ir parar em Azkaban, mas eu não duvido que ele é inocente. Ele estaria orgulhoso de você justamente como Evelyn está orgulhosa de Beverly e Charles.


-E porque a senhora não está orgulhosa de mim? –perguntou Taylor com amargor.


-Estou, só que o meu medo supera o meu orgulho. E orgulho nunca manteve ninguém vivo, Taylor. Pare com isso antes que você seja o próximo a ocupar uma cela em Azkaban.


-Não vou fechar a Sociedade. É só uma questão de como poder reunir a todos para que as reuniões comessem.


Linda abaixou a cabeça, visivelmente abalada.


-Então lhe desejo sorte, meu filho. Por que vocês realmente vão precisar disso.


Linda abraçou o filho e beijou o topo das cabeças de Liv e Beverly. Ela já estava prestes a desfazer o feitiço que impedia que alguém de fora os ouvisse quando se virou para o filho mais uma vez.


-A propósito, os jogos de Quadribol são ótimos para acobertar quem pensa em fazer algo contra as regras. Principalmente quando se tem um álibi.


Assim que ela saiu Taylor ficou olhando para a porta sem entender direito, até que uma luz se acendeu na mente dele.


-Onde está Charles? –perguntou Liv, interrompendo os pensamentos dele.


-Ninguém sabe –disse Beverly- Ontem depois que ele levou meu pai até os portões ele simplesmente sumiu.


-Eu vou virar uma pedra no sapato dele. Eu e a criança... Se eu pelo menos pudesse abortar...


Beverly bateu forte na mão de Liv.


-Não diga nada disso nem mais uma vez. Primeiro: você nunca será uma pedra no sapato de Charles. E nem ouse mencionar a palavra ‘aborto’ novamente.


Liv sorriu fracamente.


-Seu pai não deixou. Disse que se eu tirasse a criança eu seria presa por homicídio.


-Que bom que ele não perdeu a sensatez com essa história –disse uma voz vinda da porta.


Os três olharam e Charles estava em pé, apoiado na porta. Os longos cabelos louros dele estavam soltos e o vento estava brincando com eles. Pela primeira vez Bev achou que Charles não parecia uma criança grande. Ele começou a andar e fez um gesto para Bev e Taylor.


-Eu e Liv precisamos conversar.


Os dois entenderam o recado e saíram da enfermaria, deixando somente os dois lá.


-Você não ia me contar? –perguntou ele sentando-se na cama dela, mas sem olhá-la.


-Não. Semana que vem tem visita a Hogsmeade, eu ia aproveitar e ia sumir e ir numa clínica clandestina. O aborto seria feito com pouco mais de uma hora.


Charles escondeu o rosto nas mãos.


-Você é doida? Assassinar uma criança?


-Ora, essa criança só tem um mês e nove dias de vida. Não ia sentir nada. Além disso, eu arruinei a sua vida.


Sua. Ela nunca se referia à vida dela, mas a vida dele. O futuro que ele não teria, a vida dele. Liv devia lhe amar muito para nunca pensar nela mesma.


-Ora, quem estragou tudo fui eu, não você. Mas isso agora é passado, agora é levantar o rosto e seguir em frente. A criança não tem culpa de ter dois pais adolescentes, ela merece ser tratada como se fosse filha de pais casados ou coisa assim.


Liv assentiu com a cabeça.


-E se você não quiser se casar comigo, tudo bem. Mas eu não vou fugir do compromisso.
Ela pegou o rosto dele e virou para ela, fazendo-o encará-la nos olhos.


-Você me ama?


Ele ficou sem resposta e seu coração começou a bater dolorosamente em seu peito.


-Você me ama, Charles?


Ele continuou caldo a fitá-la. Achava-a linda com aquela pele clara, os longos cabelos negros, os olhos azuis e a pequena boca vermelha. O jeito delicado dela, e contraditoriamente a achava uma das garotas mais espirituosas que conhecia. Mas isso não era amor.


-Viu? Não quero que se case comigo por pena ou qualquer outro motivo, casamento deve ser feito por amor. E você não me ama.


-Sinto muito –disse ele olhando para seus joelhos.


-Não é preciso se desculpar.


Os dois se encararam ternamente.


-Vai dar tudo certo, eu te prometo. Nosso filho vai nascer em paz.


Ela assentiu com a cabeça e o abraçou, precisava de colo.



Ele entrou na sala comunal e ela estava fervendo. No momento que ele entrou todas as faces olharam para ele.


-É verdade que a Orchis está grávida do Bowl?


Taylor já viera preparado para isso. Os comentários sempre são a parte principal de qualquer problema. Mas ele sabia como lidar com isso. Sorriu comemorando.


-É incrível, não? Meus dois melhores amigos terão um filho, não é lindo?


Diante do sorriso dele alguns sorriram amarelo e se afastaram, Milly veio até ele, visivelmente envergonhada.


-O que dizem da sua amiga, Liv...


-É verdade, Milly. Ou pelo menos uma parte do que dizem dela. Não ouça os adjetivos.


A garota concordou com a cabeça e apontou para uma amiga.


-Não falei nada ainda, mas a mãe da minha amiga Laureen está a nove anos internada no St. Mungus por causa de um feitiço acidental lançado por um Auror.


Acidental.


“Quem sabe quando vocês estiverem passeando por Hogsmeade um ladrão acidentalmente não mate vocês por acaso” veio-lhe a voz recente da mãe aos ouvidos.


-Talvez não tenha sido acidental... –disse ele bem baixinho para a prima.


-É o que a maioria da família dela acredita.


-Depois de amanhã tem quadribol, certo? Talvez você e sua amiga queiram dar uma passada na Sala da Requisição. Claro, já que você vai estar passando mal não vai poder ir ao jogo, e ela com certeza vai fazer companhia para você.


Milly olhou para ele sem entender, até que os olhos dela se iluminaram em compreensão.


-É... Com a mudança da estação eu acho mesmo que estou ficando resfriada.


-Talvez você deva comentar isso com alguém amanhã. Só para garantir.


Ela sorriu e saiu sorridente, voltou a conversar com a amiga, Laureen, mas ele teve certeza de que ela não contaria nada até as duas estarem sozinhas. Olhou em volta e procurou uma ex-namorada com quem ainda mantinha uma ótima relação amigável.


-Louise!


Louise não era a garota mais bonita da Grifinória, na verdade tinha uma aparência bem comum, mas era sem dúvida uma das mais divertidas de toda a casa. Ela estava no quinto ano, dois atrás de Taylor, mas isso nunca impedira que sempre se encontrassem e conversassem, mesmo após o término do namoro. Então ninguém estranhou quando ele a puxou para um canto onde ninguém pudesse os ouvir.


-Louise, o que eu vou te pedir é meio difícil, mas...


-Olhe, Taylor, se for por causa da sua amiga, eu tentei falar com as meninas para não ficarem comentando, mas é difícil. Na verdade eu também fiquei muito surpresa.


-Não, não é sobre isso. Eu inclusive fiquei sabendo disso junto com o resto da escola e pra mim foi um choque maior que pra você, acredite. Mas obrigado por tentar falar pra ninguém comentar... Mas o que eu vou te pedir é outra coisa.


-O quê..?


-Depois de amanhã é o jogo de quadribol é depois de amanhã, e eu queria que você não fosse. Eu vim te implorar pra que você me encontre numa determinada sala do sétimo andar.


A garota ficou constrangida e olhou para os lados, como pedindo uma ajuda silenciosa às amigas, mas nenhuma delas percebeu.


-Taylor, eu n-nunca p-pensei... Ai, meu merlim! Eu nunca pensei que você ainda sentisse algo por mim, mas...


-Não! Não tem nada a ver com isso! Eu sei que você está namorando o batedor da Sonserina e por isso você não devia faltar a esse jogo, mas, por favor, me diga que vai estar lá.


-É por causa da Anita?


-Anita?


-Anita Wild. A nova goleira que tomou o seu lugar. Porque Anita é minha amiga e ela é realmente boa, embora as pessoas estejam caçoando dela. E é importante que eu esteja presente no jogo em que a minha amiga estréia e que o meu namorado estará jogando.
Taylor estalou todos os seus dedos, suas mãos estavam suando. Isso estava sendo mais difícil que o esperado.


-Não tem nada a ver com Anita Wild. Nem com o seu namorado. Há algo que eu vou fazer, e que eu gostaria que você visse e estivesse presente. Vão ter outras pessoas lá, se isso te fizer sentir melhor, é que eu realmente não posso ficar falando sobre isso por aqui... –ele olhou para ela com um certo desespero na voz- Por favor, vá.


Ela hesitou, mas sorriu amarelo.


-Ok, eu falarei a todos que fiquei doente e não vou ao jogo.


Taylor abaixou a cabeça, quando a levantou estava tremendamente vermelho.


-Sabe, Louise? É que Milly, aquela ali no puff, é minha prima e também estará lá. E digamos que ela já vai estar passando mal. E não seria bom que duas pessoas da Grifinória passassem mal no dia do jogo de quadribol.


Ela abriu a boca para reclamar, mas antes o rosto dela se contorceu estranhamente. Então os olhos dela se arregalaram e ela fazia uma cara de compreensão que ele não gostou. Será que ela sabia o que ele ia fazer?


-Sétimo andar, certo? Estarei lá. –disse ela estranhamente séria.


Assim que ela saiu, ele foi direto para seu quarto e se jogou na cama. Estava exausto. Incrivelmente exausto. O dia fora cheio, com todas as pessoas olhando e comentando, e ele tendo que responder a perguntas inconvenientes, com tudo isso foi realmente difícil pensar em tudo o que sua mãe havia dito.


Dois dias.


Tinha conversado alguns instantes com Beverly e iam deixar tudo pronto, no dia do jogo um pequeno grupo de estudantes não iria ao jogo imperdível de Sonserina versus Grifinória. Mas o que era um grupo de menos de vinte pessoas perto de todos os mil alunos de Hogwarts? Ninguém iria notar a falta deles. Ou pelo menos ele esperava isso.


Queria dormir, mas faltava pouco para terminar o livro que Sally havia lhe dado. De todas as 707 páginas do livro só faltavam 95. Nunca fora muito habituado a ler, mas esse livro era diferente, não o lia, devorava. Sentou-se na cama e abriu onde havia parado, tinha pressa de saber a verdade.


Um dia antes do jogo o clima estava insuportável. Alunos faziam provocações nos corredores, se azaravam quando tinham certeza de que Inch não estava por perto e ainda ficavam inquietos durante as aulas. A tensão era realmente grande na aula de DCAT nesse dia. Além de comentarem sobre Liv e Charles, as pessoas faziam questão de lembrar que Beverly havia denunciado a professora mais próxima do que eles consideravam a ideal.


Mary Oldler era uma velha de sotaque muito forte e que parecia ligeiramente surda. As aulas nunca tinham algo novo para se comentar e ela falava tão devagar que muitos estariam dormindo se não tivesse tanto assunto para se comentar.


Depois de dois horários incrivelmente longos Beverly saiu pisando duro e arrastando consigo uma Liv um tanto quanto indiferente.


-O seu sangue não ferve? –bufou Beverly sentando-se a mesa do Salão Principal.


-Não. –respondeu Liv com naturalidade- Eles só estão relembrando a verdade. Eu estou grávida aos 17 anos e você realmente denunciou a melhor professora que nós tivemos.


Beverly abriu a boca indignada para protestar, dizer que só fizera o que a própria Sally mandara, mas Liv a interrompeu rindo.


-Ora, Bev, eu sei que você fez o certo. E sei que eu não sou uma imoral ou qualquer coisa que estejam falando de mim. Mas esses são os fatos crus e as pessoas aumentam, mas não inventam. Deixe que falem, amanhã tem quadribol e depois da partida nós duas seremos assunto velho. Sem contar que semana que vem tem passeio à Hogsmeade, e surgirão mais assuntos novos.


Bev reabriu a boca para retrucar, mas ficou calada, embora continuasse a bufar e com a cara fechada. Taylor aproximou das duas, mas não se sentou, numa véspera de SonserinaxGrifinória se ele se sentasse na mesa da Sonserina seria azarado tanto por seus colegas de casa quanto pelos sonserinos.


-Olá, garotas. Bev, fez o que te pedi? –a garota concordou com a cabeça- Ótimo, não se esqueçam que vocês também têm que ter um álibi.


Assim que ele saiu Liv olhou inquisidoramente para Beverly.


-O que ele te pediu?


-Para conversar com algumas pessoas sobre você-sabe-o-quê.


-E quais serão os nossos álibis?


Beverly ficou meio corada e desviou o olhar da amiga.


-Pensei que você podia falar que não queria ao jogo para não ter que ficar encarando as pessoas falando mal de você. E eu te faria companhia.


Mas Liv não ficou incomodada, na verdade ela riu.


-Perfeito. Vamos parar de ver essa gravidez como um estorvo e começar a aproveitar as oportunidades que ela traz.


-E também pensei no álibi de Charles –disse a loura já aliviada com a reação da amiga- Ele pode falar que não quer ver o jogo de amanhã, porque, você sabe, ele foi expulso do time e está com o ego ferido.


-Eu já não iria a esse jogo de qualquer jeito –disse Charles irritado sentando-se de frente para a irmã- Mas não estou com o ego ferido.


Beverly deu de ombros e continuou comendo. Liv riu da cara dele, era óbvio que estava com o ego ferido. Ele descontraiu um pouco quando viu Liv rindo para ele.


-Está bem?


-Estou, e você não precisa me perguntar isso toda vez que me vê.


-Era só pra conferir, até porque Madame Cleany pediu que eu lhe dissesse para passar hoje mais tarde.


Liv revirou os olhos.


-De novo? Será que ela vai querer me ver todo santo dia?


-Bom, nós temos que saber se o nosso filho está bem...


-Não creio que de ontem para hoje mudou alguma coisa. Mas irei lá depois das aulas de hoje.


A conversa deles foi interrompida porque ali perto deles uma garota da Grifinória discutia com Paul Overtale, batedor da Sonserina. Toda a mesa parou para ver o casal discutindo até que ela saiu batendo o pé furiosamente. Os três viram quando Paul passou por perto resmungando algo “não vai ao jogo” antes de sair do Salão.


Muitos interpretaram aquilo como mais uma discussão por causa do quadribol, mas Bev desconfiava que esse fosse o verdadeiro motivo. Mas o fato é que pelo resto do dia a tensão entre as duas casas foi imensa. E no café-da-manhã do outro dia o Salão estava em polvorosa.


Charles nem sequer apareceu para tomar o café-da-manhã, enquanto Liv e Beverly passaram por lá rapidamente, com Liv fingindo estar realmente incomodada com as pessoas que olhavam para ela. Taylor cumprimentou as amigas de longe enquanto levava um pouco de comida para sua prima que estava doente no dormitório feminino da Grifinória.


Quando as centenas de alunos saíram em direção ao campo de quadribol ninguém notou alguns poucos alunos que não estavam lá quando a partida começou. Taylor estava sentado no chão da sala quando Beverly entrou juntamente com Sophie Bexter e um sextanista da Lufa-lufa, Matt Whipple.


-Charles está com Liv, ela passou mal e ele a levou na enfermaria –disse Beverly justificando a ausência dos amigos- Mas já devem estar vindo.


Taylor balançou a cabeça e acompanhou nervoso toda vez que a porta se abria e entrava mais alguém. Milly e sua amiga Laureen conversavam animadamente, ao contrário de uma quartanista da Corvinal, Lucy Geller, que parecia meio assustada por estar ali. Uma menina morena da Lufa-lufa que ele não lembrava de conhecer entrou e olhou de relance para todos, sentando-se perto de uma pilha de livros.


-Aquela é Camélia Quill –sussurrou Bev- Você tinha me pedido para encontrá-la.


Sim, ele havia pedido isso, lembrava da redação de Camélia que Sally havia lhe feito corrigir, e ela lhe mandara dar zero à garoto alegando que ela não tinha a aparência de quem sabia das coisas. No final fora só mais um modo de mostrar o mal que a família Malfoy era.


Louise entrou na sala séria como nunca, o que ele estranhou. Ela olhou para ele e deu o que seria a sombra de um sorriso em forma de cumprimento. A seu lado Taylor percebeu quando Bev falou alto para si “sabia que a briga de ontem tinha algo mais...”. Ele se sentiu culpado por fazê-la discutir com o namorado, mas torcia para que ele levasse aquilo só por causa do quadribol. Depois dela entrou Paolo Manfredini, sextanista da Lufa-lufa. Só faltava Charles e Liv quando ele decidiu começar, os amigos já sabiam boa parte do que ele ia falar.


-Hum... Oi para todos! –disse ele nervoso, alguns sorriram para ele, outros não- Vocês realmente devem estar se perguntando onde estão e porque não estão assistindo a um grande jogo de quadribol, mas não foi à toa que chamei cada um de vocês aqui. Eu não pude falar claramente sobre isso nos corredores da escola, porque havia o perigo de alguém nos ouvir e... Isso não seria bom. Primeiramente, vocês estão na Sociedade dos Heróis Mortos.


Louise apontou para uma placa atrás dele e riu, o que fez ele se sentir um pouco bobo, mas o deixou mais descontraído. Estava sendo muito formal, tentou parecer mais casual.


-Bom, galera, todos nós temos algo em comum: conhecemos ou temos alguém da família que morreu, está preso ou inconsciente por causa da família Malfoy. E nós sabemos que os Malfoy não são tão bons quanto todo mundo acha. A Sociedade dos Heróis Mortos foi criada há 43 anos atrás, por uma garota chamada Dally Silver, pessoa que nós conhecemos como Sally Dust.


-Pessoa que Bowl denunciou –acrescentou Camélia Quill sarcasticamente.


-Beverly somente fez o que a própria Sally mandou que ela fizesse.


Ele esqueceu do discurso que tinha preparado e começou a contar sobre o livro de Neville, sobre suas conversas com Sally. As pessoas o olhavam curiosas e até se aproximaram dele para ouvir melhor. Contou cada detalhe da noite em que Sally pediu a Beverly que a denunciasse e foi nessa hora que a maçaneta girou.


Todos prenderam a respiração e se sentiram aliviados quando viram Liv e Charles entrarem pela porta.


-Desculpa aí pessoal. Mas nós estávamos na enfermaria –disse Charles num tom amigável.


-Alguma coisa? –perguntou Taylor.


-Não, só enjôo. Muito enjôo –respondeu Liv com a voz ainda vacilante.


Os dois se juntaram à roda e ouviram com atenção e nervosismo enquanto Taylor contava tudo que o livro de Sally continha. Ele pegava o livro e mostrava algumas fotos e mapas e continuava falando continuamente, com raras interrupções para perguntas. Certas vezes ele esquecia que havia mais pessoas ali e parecia que estava contando para ele mesmo, tamanha emoção que tinha na voz.


-...e foi assim. Algo sem explicação. Alguns poucos membros da Ordem saíram para fazer o resgate de Gina Potter e todos morreram. Alvo Dumbledore morreu, Harry Potter morreu, Voldemort morreu. E desde então os Malfoy ficaram de presente para nós. Doutrinando cada estudante que passasse por essa escola, torturando, prendendo e matando os que tentassem dizer a verdade. E faz 50 anos que essa situação perdura.


Ele terminou de falar e respirou fundo, recuperando o fôlego. Todos estavam meio chocados, com parte da mente longe imaginando um dia remoto que acontecera há 50 anos onde a verdade se perdera.


-E o que você propõe? –perguntou Matt Whipple- Que nós espalhemos isso por aí?


-Não. Não por enquanto. Sally pediu que eu reabrisse a Sociedade, e a Sociedade é nada mais nada menos que um grupo de estudo. Estudo com três pontos principais: verdade, defesa e ataque. Nós já sabemos a verdade, agora temos que aprender a atacar e a nos defender, para então podermos começar a buscar mais gente para a nossa causa.


-Estou dentro –disseram Louise e Camélia ao mesmo tempo, ambas com um tom forte na voz.


O que se ouviu depois disso foi a confirmação do resto das pessoas que ali estavam. Taylor se sentiu confiante.


-Eu devo apresentar a vocês duas pessoas que vão nos ajudar nas nossas reuniões. São duas projeções mágicas recriadas com base em memórias, mas serão muito úteis para nós.
Taylor apertou o botão vermelho do pequeno controle remoto e um clarão invadiu a sala, deixando para trás dois adolescentes que todos que estavam ali presentes reconheceram: Gina Weasley e Harry Potter.


-Olá, pessoa –disse Gina animadamente- É bom ver a sala cheia de gente!


Harry cumprimentou com um sorriso e um aceno com a cabeça.


-Mas... como? –perguntou Laureen tentando encostar em Gina.


-Somos só uma imagem pensante, você não vai conseguir encostar em mim –disse Gina divertidamente.


-Quando nos encontraremos de novo? –perguntou Paolo Manfredini.


-Bom, a Armada Dumbledore tinha um modo de comunicação que envolvia galeões falsos e o número de série que era o dia que se encontraria. Quando Harry Potter mudava o dia o galeão ardia e todos olhavam quando seria a próxima reunião. A Sociedade tinha adotado esse mesmo método, mas não creio que vamos poder fazer isso. Eu não consigo executar esse feitiço, é muito avançado para mim, afinal os Malfoy nunca nos deixaram aprender nada que um dia pudéssemos usar contra eles. Sendo assim, eu mandarei recados pelas corujas da torre para cada um de vocês avisando.


Todos concordaram e já se levantavam quando Harry pigarreou.


-Algo errado? –perguntou Taylor.


-Vocês não vão fazer um pacto que sele o silêncio entre vocês? Cada um aqui é de um ano e de uma casa diferente, não devem ser muito amigos... É melhor que selem um pacto de silêncio. Isso impedirá que alguém denuncie a Sociedade.


Um silêncio constrangedor se fez presente na sala. Então Sophie perguntou com naturalidade.


-O que devemos fazer?


-Pegue aquela vasilha ali e depositem seus nomes. Cada um assina seu papel.


Sophie escreveu calmamente seu nome e depositou-o na vasilha indicada por Harry. Taylor colocou seu nome também e então todos fizeram o mesmo.


-Aponte sua varinha e diga “Lacrare Silencius” –disse Harry para Taylor.


Taylor fez o que Harry mandou e um fogo ardeu na vasilha por alguns segundos. Então todos os nomes viraram pó. Gina sorriu e se abraçou a Harry.


-Vens do pó e ao pó voltarás...


Harry apertou e beijou a mão dela e os dois ficaram se encarando amorosamente sob os olhares perplexos de todos. Charles riu constrangido e abriu a porta da sala.


-Se é só isso, acho que eu vou indo. Namoro de imagens é demais pra mim...


-Esperem!


Taylor tirou o mapa do maroto e conferiu a melhor rota para cada um deixar a sala. Por último deixou que Milly e Laureen fossem na frente dele e de Louise. A garota sorriu para ele.


-Nunca fiquei tão feliz por perder um jogo de quadribol –disse ela num sorriso sereno.


-Fico feliz que tenha vindo. Sabia que ia gostar.


Ela confirmou com a cabeça e olhou para o mapa.


-Acho que podemos ir.


Ele guardou o mapa e fechou a porta, deixando Harry e Gina na vazia.


N/A: FELIZ ANO NOVO!!!! Ta aí mais um capítulo, e esse como presente de Ano Novo. Bom, e levando em conta o tamanho do capítulo, foi um presentão!rsrsr Se tem alguém que não gosta de capítulos tão grandes, me desculpa por favor, mas é que tinha realmente muita coisa pra acontecer!rsrsr Prometo que o próximo não será tão longo assim... Bjusss pra todo mundo!


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