Sacrifício



Capítulo 10- Sacrifício

-Relaxe. Tudo o que é bom, é bom. Tudo o que é ruim, é ruim –veio a voz da professora.


Charles dormia e Beverly estava realmente tentada a fazer o mesmo que o irmão. Adivinhação nunca fora uma matéria que gostasse, mas agora estava se tornando um verdadeiro martírio. Seu pai sempre obrigara ambos os filhos a fazer adivinhação na esperança de que mais alguém da família despertasse o Dom da Visão, como a avó dele.


-A única visão que eu tenho é de um banho quente e uma cama macia... –murmurou para si mesma.


-Agora peguem suas xícaras e passem para seus parceiros, vamos ver o que eles têm a dizer sobre sua vida!


Beverly cutucou Charles, que abriu o olho direito olhando inquisidoramente para a irmã.


-O que foi? –perguntou sonolento.


-Xícara.


Ele resmungou alguma coisa e levantou a cabeça, olhando com extremo tédio para a irmã.


-Não podemos simplesmente matar às aulas? Papai não saberá.


-Já discutimos isso milhões de vezes. Como faríamos os testes? Papai nos mataria se fôssemos reprovados em Adivinhação no último ano.


Ele pegou a xícara da irmã com raiva e começou a olhar a borra do café.


-Sujeira. Cisco. Bagunça... Será que isso lhe diz alguma coisa? Veja se tem algo assim nos livros...


A professora se aproximou deles e olhou sarcástica.


-Vê algo, caro Charles?


Ele coçou a cabeça, desconcertado.


-Não muito, professora. Ainda não consigo distinguir um guarda-chuva de um bule...


Ela forçou um sorriso amarelo de ironia e olhou para Beverly.


-E você, consegue enxergar alguma coisa?


Ela pegou a xícara do irmão e olhou com concentração. Tinha mudado muito de tempos para cá, mas ainda não conseguia ser malandra e debochada como Charles era nas aulas. Tinha que inventar alguma coisa e fingir que estava vendo isso.


-Eu não tenho muita certeza... Acho que é um bebê.


A professora abaixou e olhou bem fundo nos olhos dela.


-Conveniente que você veja algo que você já tenha certeza que vai acontecer.


-Mas eu vejo um menino, eu acho –tentou consertar a situação, sem muito sucesso.


-E o que a faz pensar que é um menino?


Ela olhou novamente para o copo e tentou lembrar de matérias passadas. Que sinal poderia indicar que era um menino?


-É um m-menino porque... porque as auras ao redor fazem um circulo que giram... no sentido horário.


A mulher ficou séria por alguns segundos e então soltou uma gargalhada.


-Você não está vendo nada disso. Mas fico feliz que você se lembre do conteúdo de Sinais Indicativos do 5º ano. 10 pontos para a Sonserina. É uma pena que vocês não deixem a aura de vocês falar. Gêmeos têm uma inclinação mais forte para a Visão que as pessoas normais.


Assim que ela se afastou Charles pôde rir livremente e caçoar dela repetindo “Gêmeos têm uma inclinação mais forte...” e imitando o jeito dela. Depois pegou a sua xícara das mãos de Beverly.


-Viu um menino mesmo?


-Claro que não. Você a viu dizendo que não vi. Mas era 50% de chance de acertar.


Ele fez um cafuné no topo da cabeça dela.


-Tá aprendendo rápido. Boa menina.


O sinal bateu e os dois arrumaram suas mochilas, Charles já estava fora da sala quando a professora chamou por Beverly.


-Pois não?


-Sente-se, Srta. Bowl.


Beverly olhou para as pessoas saindo da sala e desejou que alguma delas pudesse ajudá-la a sair dali, mas sabia que isso era tolice. Sentou-se e encarou a professora.


-O que eu fiz?


A loura soltou os cabelos que estavam presos num coque e depois pegou duas xícaras de chá, oferecendo uma para Beverly.


-Você? Você já fez muita coisa. Já denunciou muita gente, já foi uma aluna exemplar. Não é mais.

Beverly abaixou os olhos.

-Sinto muito, professora.


-Não sinta, faça o que deve ser feito.


Beverly olhou confusa para a mulher. Estranho, mas ela estava sentindo que a fala da professora tinha dupla interpretação, de sentidos totalmente opostos.


-O que deve ser feito?


-O certo.


-O que é o certo?


-Ora, Beverly. Todo mundo sabe o que é o certo. Talvez você queria que o diretor lhe diga o que é o certo.


Não. Não precisava que Draco Malfoy decidisse a ensiná-la o que era certo.


-Eu lhe disse minutos atrás e repito. Gêmeos têm a Visão mais desenvolvida, não se iluda com aparências.


O coração dela estava pulsando forte. Havia uma enorme diferença entre o que ela sabia ser o certo e o que aparentava ser o certo para a maioria. Mas se a mulher na sua frente estivesse, e ela suspeitava estar, do lado de Draco Malfoy, o conceito de certo e errado das duas era totalmente oposto. O que ela faria?


-A senhora pode ser mais clara?


Ela riu amarelo.


-Estou tentando não me comprometer, Beverly. Mas se você quer que eu seja clara, vou fazer de um modo que não me incrimine caso alguém invada sua mente: eu não sou uma farsa. Eu vejo o presente com olhos muito mais aguçados que a maioria das pessoas, e sei que agora você também vê o presente desse modo. –ela se aproximou de Beverly e ficou com o rosto bem próximo da garota, surrando então- E eu já vi o passado, e sei que não é como me contaram.


A mulher se recompôs, voltando a ter um ar indiferente.


-Disse e repito: você não é mais uma aluna exemplar aos olhos dos professores e do diretor. Faça o que é certo, do jeito certo.


Entendera o recado. Já ia sair da sala quando sua curiosidade falou mais alto.


-Você fez parte da Soc...?


-Não fale esse nome aqui! –interrompeu a professora profundamente altera, levantando-se num pulo da mesa- Não fiz parte de nada e nunca toquei em nenhum assunto com ninguém. Estou lhe alertando porque acho certo, mas não vou me envolver nisso, como nunca me envolvi.


-Há algum professor que gostaria de se envolver? –perguntou Beverly de modo irônico e triste.


-Não. Tirando as poucas pessoas que você tem visto freqüentemente na sala do sétimo andar, não há quase mais ninguém que queria se envolver. Acredite em mim, alguns sabem, muitos desconfiam, mas pouquíssimos se importam. Eu vivo os meus trinta e dois anos sem me importar, só não quero atrapalhar quem tenta fazer alguma coisa.


Beverly saiu da sala sem olhar para a professora. Visão, humf! Ela era uma charlatã, apenas tinha descoberto a verdade e notara a diferença nas suas atitudes. “Tenho que voltar a ser a aluna-modelo...” pensou ela. Mas conseguiria? Conseguiria ser fria e denunciar as pessoas que não seguiam Draco Malfoy? Conseguiria encarar suas vítimas e ainda fingir que fizera bem e se sentir orgulhosa com isso?


Entrou no Salão Principal e olhou vagamente para Taylor, conversando animadamente com Charles na mesa da Grifinória. Fechou os olhos e pensou ter sentido o perfume que o corpo dele exalava. Abriu os olhos e já estava com a decisão feita. Precisava se afastar.



O mês de outubro estava acabando e os alunos estavam ficando agitados, depois de onze anos sem acontecer, finalmente Draco Malfoy havia liberado o Baile de Dia das Bruxas. As meninas conversavam sobre vestidos e sobre os meninos, estes aliviados porque não era obrigatório ter um par.


Os dias se passavam e a escola ficava cada vez mais alvoroçada, Taylor aproveitou a situação e começou a se comunicar mais livremente com os membros da Sociedade, marcando mais uma reunião.


-Será no dia 31 às 9 horas da manhã. –disse ele em tom um pouco baixo para Sophie- Não terá aula e cada aluno estará tão preocupado consigo mesmo que não notará se alguém deu uma sumida pela manhã. Além disso, os professores estarão muito ocupados com os preparativos, com a segurança e com a ordem do castelo. É uma ótima oportunidade!


Sophie sorriu e fez um muxoxo com a mão.


-Ok, Taylor. Eu concordo com você, mas agora vá embora. Eu sou a estranha que não conversa com as pessoas, lembra? E você já está parado em frente a mim há dois minutos e 14 segundos, 15, 16... Vá embora, Taylor!


-Ok, ok! Já estou indo! Mas você pode avisar Lucy Geller?


-Não.


-Mas ela é da sua casa! Está no quarto ano!


-Mas eu não converso com ela. Agora sai, Taylor!


Ele bufou e saiu pisando duro. Entendia que ela estava certa, que não deveriam dar margem à desconfiança de ninguém, mas não podia deixar de ficar irritado ao pensar que não custaria mais do que alguns segundos para Sophie avisasse Lucy.


Saiu andando meio apressado e olhou no Salão Principal para ver se havia alguém. Somente Paolo estava sentado na mesa da Lufa-lufa, aparentemente estudando. Ele olhou para os dois lados para ver se ninguém o observava, e então andou apressadamente na direção dele.


-Olá, Paolo!


-Olá, Taylor!


-Reunião dia 31, 9 horas da manhã. Ninguém vai estar prestando atenção em nós, porque vão estar muito preocupados com o Baile.


-Dois dias? Ok, eu aviso a Camélia, se você quiser.


-Ótimo, seria muito bom mesmo. Pode avisar o Matt também?


-Não.


Taylor ficou olhando sem entender nada. Céus, o que dava na cabeça dos membros da Sociedade? Camélia nem era do mesmo ano que Paolo, mas ele a avisaria. O que custava avisar Matt que estudava com ele?


-Porque não?


-Por que seria suspeito –respondeu ele com naturalidade e indiferença.


Taylor deu de ombros e desistiu de entender. Teria que avisar Matt por si mesmo, se não encontrasse mandaria uma coruja.


-Ok, Paolo. Mesmo assim obrigado. Nos vemos daqui a dois dias.


Saiu olhando para a mesa da Sonserina, mas nenhum de seus amigos estava lá. Tinha a impressão de que ouvira Charles falar que ia passear nos jardins, mas não sabia onde Bev e Liv estavam. Na verdade, agora que pensava no assunto, não via Beverly há alguns dias.


Ele sentou-se à mesa da Grifinória e abriu um livro fingindo estudar. Ficou encarando o livro sem mover os olhos, refletindo sobre algo que estava o deixando confusa. Há pelo menos três dias que sentia que Beverly estava o evitando, que ela saia quando ele estava por perto, tinha que ir ao banheiro, à biblioteca, ao seu dormitório... Será que ele tinha feito algo que a magoara?


-O que foi? –perguntou ele rude para uma garota que estava o encarando.


-Seu livro. Está de cabeça para baixo.


Ele olhou e consertou constrangido. Se queria fingir que estava estudando, pelo menos fingisse direito.


-Obrigado.


-Eu sei quem você é –disse ela desafiadoramente.


Ele parou e olhou atentamente para ela. Era Anita Wild, delicada quintanista amiga de Louise, que era a nova goleira do time da Grifinória. Na verdade estava evitando olhar para essa menina. Anita era branquinha, meio baixa, magra, usava óculos de armação delicada e sempre andava de trancinhas. Parecia uma boneca frágil. Mas a boneca não havia deixado passar uma goles pelos aros da Grifinória, e parecia ser uma goleira tão boa quanto ele. Saber que aquela garota havia tomado seu lugar e sua glória no time o deixava irritado.


-Eu também sei quem você é –disse ele irritado.


-Eu não gosto de você.


-Ótimo, então é recíproco!


-Ouça, Looker, eu sei que o fim do namoro de Louise está relacionado a você, e eu não gosto disso. Ela estava feliz antes, e além disso, todo mundo sabe que você tem uma queda pela Bowl desde o terceiro ano.


Ele sentiu o rosto corar e encarou-a furioso.


-O quê?


-Eu já reparei que Louise tem desaparecido de vez em quando, e quando ela some você também não pode ser encontrado. Minha amiga não nasceu pra ser a outra. Se você gosta dela, assuma um namoro ao invés de ficar se encontrando com ela pelos cantos!


Ele ficou estático, dividido entre rir do engano dela ou preocupar-se com o fato que já havia uma pessoa que percebera o sumiço dele e de Louise eventualmente. Ela balançou a cabeça com desprezo e juntou suas coisas na mochila, ao sair passou por ele e falou baixo, de modo que somente ele poderia ouvir.


-Estarei de olho em você, Looker.


Ele ficou olhando a baixinha se afastar calmamente e tentou fazer seu coração parar de bater tão rápido. Na verdade estava suando frio, precisava conversar com Louise, se a amiga dela falasse demais alguém poderia desconfiar, perceber que tinha mais gente que também sumia junto com ele...


-Isso é um problema –disse em voz alta para si mesmo.


Fechou o livro e decidiu se levantar também. Iria para os jardins ver se encontrava Charles. Enquanto andava pensou nas palavras de Anita em relação ao sentimento dele por Beverly. Era óbvio assim? Mas ele estava andando muito com Louise nos últimos tempos, será que Beverly estava com ciúmes e por isso estava o evitando? Talvez.


-Oi, Charles –disse ele jogando sua mochila no chão.


-Senta aí...


-O que te deu para ficar sentando no jardim, olhando pra vida?


-Na verdade estou aqui porque não quero ir para o Salão ou para a Biblioteca estudar. E ficar na Sala Comunal está insuportável.


-Por quê?


-Beverly. Ela deve estar numa super TPM, porque está mau-humorada e tem agido como agia antigamente. Observando os outros, chamando atenção dos primeiranistas e etc... Deu agora para pegar no meu pé, falar dos deveres que não fiz e dizer que eu devia dar mais atenção a Liv.


Taylor ficou calado por uns instantes. Então não era só com ele que Bev estava estranha. Mas mesmo assim estava preocupado.


-E você não está dando atenção a Liv?


-Estou. Na verdade ela costuma ficar irritada, falando que eu estou a sufocando. Acho que o fato dela estar grávida de um filho meu e eu não gostar dela a não ser como amiga a deixa desconfortável quando eu fico muito tempo por perto.


Taylor olhou para Charles. O loiro cabeludo olhava distraidamente para o céu e parecia entediado.


-Você já pensou quando a criança nascer?


-Penso nisso direto. Andei lendo uns livros de nomes e significados... Tem alguns que eu acho legais... Além disso fico pensando como ele vai ser, se vai gostar de quadribol, se vai ser um irresponsável como eu...


Taylor levantou uma sobrancelha.


-Quais nomes você pensou?


-Douglas, é um bom nome e ainda serviria de homenagem ao pai de Liv. Richard. Victor. Pensei também em Harry e em Albus, mas levando em consideração a proximidade da minha família com a família Malfoy, esses nomes seriam suspeitos.


Taylor riu e deu uma palmada no ombro do amigo.


-Ou seja, você quer que seja um menino.


Charles olhou para ele e depois fez uma cara de espanto, sorrindo logo em seguida.


-Eu não tinha reparado que só olhei nomes masculinos... É, acho que eu quero um garoto. Um garoto seria legal.


Taylor pensou o que Beverly diria se ouvisse Charles falando de seu filho como “algo legal” e riu. A verdade é que não conseguia parar de pensar em Beverly. Teria coragem de abrir o jogo com Charles, afinal, ele era irmão dela, talvez não quisesse ficar ouvindo.


-O que foi, cara? –indagou Charles.


Taylor suspirou e começou a falar, falou tanto que ainda acabou mencionando o episódio de minutos atrás com Anita Wild. Quando terminou de falar ele suspirou e olhou para Charles, que continuava olhando para o céu com uma cara impassível.


-Por que você não tenta conversar com ela? Beverly disse que iria estudar na Biblioteca. Chegue lá, comece falando de outra coisa, como a reunião da Sociedade, por exemplo, depois vá levando o assunto até onde você quiser.


-É. É o que eu vou fazer agora.


Ele saiu andando apressadamente e quando entrou na biblioteca estava ofegante, viu Beverly sentada num canto, mas antes parou numa mesa onde Matt Whipple estudava.


-Olá, Matt.


-Hey.


-Reunião dia 31, 9 horas.


-É, eu sei. Sophie já me disse.


Taylor ficou olhando com uma cara boba para Matt. Não fora a própria Sophie que disse que era a estranha que não conversava com os outros? Sinceramente, já não entendia mais nada. Disse alguma coisa e andou na direção de Beverly, sentando-se de frente para ela. Taylor não pôde deixar de reparar que a garota ficou desconsertada quando o viu.


-Oi, Bev.


-Hey –disse ela com os olhos voltados para o livro.


-Reunião dia 31, 9 horas.


Ela passou a língua pelos lábios e fez uma cara de piedade. Bev estava corada quando olhou-o nos olhos.


-Eu não irei mais às reuniões, Taylor.


-O quê?!


-Shh. Fale baixo! Disse que estou fora da Sociedade dos Heróis Mortos.


Ele a encarou perdido e confuso. Não podia acreditar no que estava ouvindo.


-Bev, se você está chateada com alguma coisa... Se eu fiz algo que você não gostou. Eu posso cons...


-Não! Não é nada com você, sou eu que não quero mais. Eu te devo uma explicação, mas eu só vou falar uma vez, por isso preste atenção: isso não é pra mim. Eu não sou uma pessoa rebelde, nem nasci pra fazer revolução. Descobrir a verdade sobre os Malfoy parece que é motivo para mudar tudo, pra revirar a vida de qualquer um, mas eu percebi que não é.


Ela suspirou profundamente e segurou o lápis com força, quase o quebrando. Taylor não percebia, mas as mãos dela estavam tremendo e ela estava suando frio.


-No início eu achei que ter sido enganada pelos Malfoy fosse o suficiente para me fazer mudar e para lutar por um governo diferente. Mas agora eu vejo que não me importo. Saber a verdade não alterou o fato de que o país ainda cresce amplamente, que o mundo mágico está estável, que a Inglaterra é um dos países mais poderosos do mundo. Nada mudou. A gente quer colocar chifres e demônios nos Malfoy, mas a verdade é que o país está bem com eles. Se Harry Potter foi um vilão ou não, isso não interessa, é passado. E eu não vivo do passado.


Os olhos de Taylor estavam tão arregalados que pareciam que iam saltar do rosto. Ele estava pálido e tinha uma cara de incredulidade que partindo o coração dela por dentro. Beverly treinara aquelas palavras durantes esses dias, mas sabia que dizê-las para Taylor seria muito doloroso para ela mesma.


-Sinto muito, Taylor.


-Você... Sente muito?


-Sim, por estar te abandonando nessa. Mas pode ficar tranqüilo, eu nunca abrirei a boca sobre a Sociedade dos Heróis Mortos. Você pode confiar em mim.


Ele se levantou num misto de dor, raiva e frustração.


-Sabe Beverly, está realmente muito difícil pensar que se pode confiar em você.


Assim que ele deu as costas e saiu, ela suspirou de alívio. O que precisava ser feito já estava feito. Mas mesmo assim ela não conseguiu segurar as lágrimas que teimavam em cair. Se algum dia pensou em reatar com Taylor, todas as suas chances tinham ido água baixo naquele minuto.


Os dois dias se passaram sem que Taylor olhasse para a cara de Beverly ou comentasse sobre ela com ninguém. O choque fora muito grande, e ele se sentia traído. Charles tentou conversar com ele, mas ele não dissera uma palavra. Iria contar a todos os membros da Sociedade de uma só vez na reunião, não conseguiria repetir as palavras de Beverly mais de uma vez.


Milly e Laureen passaram alegres e saltitantes por ele, e Taylor sabia que elas já estavam indo para a reunião. Ele suspirou e demorou um pouco mais no café-da-manhã, dispensando até mesmo a companhia de Louise para ir para a Sala da Sociedade. Sempre fora o primeiro a chegar e o último a sair, mas sempre Beverly chegava junto com ele e ficava fazendo companhia enquanto os outros não chegavam. Não suportaria ficar lá esperando sem ter a loura a seu lado.


Beverly estava sentada na mesa da Sonserina de costas para onde sabia que Taylor estava, mas vigiava a entrada para saber quando ele saísse. Na verdade nem sabia porque queria vê-lo, mas ainda assim não parava de observar a entrada e saída dos alunos.


Ele a viu de costas para ele, sentada na mesa da Sonserina. Beverly nunca havia sentado de costas para. “Quando a gente pensa que te conhece, Bev, você sempre consegue mostrar o contrário...” pensou ele. Fora assim da primeira vez que namoraram. Ela dissera que ficaria ao lado dele caso o pai dela protestasse contra o namoro, mas na primeira briga com Simon Bowl ela largara dele e ficara ao lado do pai.


Fechou os olhos e brigou consigo mesmo por estar pensando nela. De agora em diante passaria a viver como se Beverly nem existisse. Era assim que seria. Taylor levantou-se e saiu sem olhar para trás.


Ela viu com o coração em frangalhos quando ele saiu sem olhar para ela. Naquela hora quis levantar e segui-lo, explicar que tudo era uma farsa para proteger ele e a Sociedade, mas teve que se conter. A voz da professora lhe insinuando que Draco Malfoy notara a mudança de comportamento dela era um alarme muito grande para não se dar confiança. Sorriu em desespero.


Assim que ele entrou na sala todos já esperavam-no. Ele estava sério e isso foi notado, porque as pessoas fizeram uma cara de dúvida. Ele abriu a boca para explicar a desistência e a traição de Beverly, mas havia um nó na sua garganta. Não conseguiria.


-Bom dia, pessoal. Eu dei uma olhada em alguns livros e discuti com Harry a respeito da aula de hoje... A azaração da mão trêmula parece meio infantil, mas parece eficiente e nós teríamos dificuldade com algo mais elaborado. Harry acha que seria uma boa praticar essa azaração.


Ninguém questionou. Não que geralmente as pessoas questionassem, mas algumas perguntas eram feitas, dúvidas tiras, todos sempre conversavam um pouco antes da aula começar. Mas o semblante carregado dele estava meio que intimidando os outros. Charles olhou para ele com uma cara de interrogação, e ele percebeu que o garoto perguntava sobre onde Beverly estava, mas Taylor ignorou.


Harry se aproximou de todos e começou a dar instruções. Junto com Taylor, ele mostrava os movimentos de mão e a pronuncia. Taylor fazia alguns comentários e demonstrava mais uma vez, para que todos entendessem, mas na verdade estava com a cabeça longe dali.


A aula começou e ele estava praticando contra Charles, sendo que até agora não conseguira nenhuma vez estremecer a mão de Charles, e este fazia sua mão ficar trêmula em tempo quase integral. Harry e Gina andavam por entre os membros e saiam corrigindo alguma coisa. Depois de um tempo Harry o puxou de lado.


-O que foi, Taylor? Outro dia quando você praticou contra bonecos parecia tudo bem. Você não errava o movimento de mão nem a pronuncia. O que está acontecendo?


-Nada, me desculpe.


Harry sorriu amigável, mas falou firme.


-A Sociedade é uma coisa séria, e existem pessoas aqui nessa sala que contam com você. Elas pensam que você é o líder, então aja como um.


Ele acenou com a cabeça e disse a si mesmo que Harry estava certo. Voltou a praticar e estava bem melhor, finalmente dando algum trabalho para Charles. Estava já realmente concentrado e confiante quando a porta se escancarou num estrondo. Taylor olhou para trás confuso e assustado.


Anita Wild estava parada encarando a todos.


O semblante desafiador que ela entrou deu lugar a uma cara de espanto, para então ser substituída por outra. Ódio.


-O que diabos está acontecendo aqui? –perguntou ela entre dentes.


Louise deu dois passos em direção à amiga com toda a cautela.


-Essa é a Sociedade dos Heróis Mortos, Anita.


Louise recuou um passo ante o olhar da amiga. Se Anita Wild sempre parecera uma garota magrela e frágil aos olhos de todos, agora ela parecia ter uma verdadeira leoa dentro do peito, prestes a atacar alguém.


-Eu sei o que é a Sociedade –disse ela por fim, olhando selvagem para Taylor- E nenhum de vocês tem o direito de reabri-la.


Taylor olhou desesperado para Liv esperando um apoio, mas a amiga estava tão perdida quanto ele.


-E por que nós não temos o direito? –perguntou Liv, com toda delicadeza.


-Por que é sobre a história da minha família que estamos falando. E a família Weasley já sofreu muito com toda essa história. Primeiro a guerra e as mortes, então essa ditadura dos Malfoy, e por fim a prisão e o assassinato de boa parte dos membros da Sociedade.


A sala ficou num silêncio de espanto. Os que passassem por Anita corriqueiramente nunca a notariam. Pequena, humilde e recatada não seriam as características esperadas para uma descendente dos Weasley, uma das famílias mais importantes na guerra.


-Vocês vão acabar com essa Sociedade! Vocês não têm o direito de reabri-la!


Taylor saiu de sua apatia pelo susto e deu alguns passos à frente e falou com voz firme:


-Sinto muito, Anita. Eu reabri a Sociedade e não tenho intenção de fechá-la. Não tenho uma ordem para isso.


-Ordem? Você quer dizer que recebeu uma ordem para reabrir a Sociedade? De quem?


Ele hesitou em dizer o nome, e se por acaso a garota começasse a falar demais e colocasse tudo a perder?


-Sally Dust.


-Humf! E quem aquela professorinha de merda pensa que é?!


Louise se aproximou da amiga e colocou uma mão no ombro dela.


-Taylor com certeza pode explicar tudo para você se você se acalmar, Nita... Sally Dust criou a Sociedade.


Anita riu irônica.


-Os criadores da Sociedade estão mortos...


-Não. Dois deles se salvaram –interrompeu Taylor- Dally Silver e um tal de Oliver conseguiram seguir um plano e fuga e fugiram, deixando dois guardas com a imagem deles.


-Então você quer me dizer que Dally Silver, pessoa que deveria estar morta há anos, está viva?


-Exatamente.


-Bom para ela. Isso não altera o fato que isso envolve a minha família, e que nenhum Weasley ainda vivo aprovaria isso.


Charles se exasperou.


-Como não?! Nós estamos lutando pela mesma causa que eles lutaram! É claro que eles nos apoiariam!


Os olhos dela estavam queimando de raiva, ela encarou Charles com uma fúria que Taylor não pensou que existisse.


-É o que você acha, Bowl? Tem certeza disso? Vocês não estão lutando, estão encontrando uma maneira de escoar a frustração de serem mandados pelos Malfoy, mas isso não é uma luta. A Sociedade já provou que é inútil e foi uma grande decepção para os meus familiares. –a garota abaixou a cabeça, Taylor percebeu que ela estava tremendo. Quando ela levantou o rosto tinha os olhos marejados- Minha bisavó morreu de definhando de depressão quando uma tal de Danielle morreu assassinada. Desde a morte dessa Danielle e da minha bisavó todos os Weasley fizeram um pacto de que nunca mais mexeriam nesse assunto. A Sociedade foi enterrada junto com a Danille.


Uma risada marota foi ouvida na sala e uma voz doce falou em seguida.


-Ora, é claro que Danielle não morreu.


A pessoas se afastaram e Anita arregalou os olhos quando viu sua tia-avó, Gina Weasley, sentada calmamente num puff.


-O q-que é isso?!


-Sou uma recordação, assim como Harry também é –disse Gina apontando para outro canto da sala. Anita fraquejou com as pernas e Louise a segurou- Nós somos a recordação de várias pessoas, a nossa aparência, o nosso jeito de agir, os nossos poderes. E como recordações nós temos uma memória composta de tudo que as pessoas se lembram de quando éramos vivos. Nunca linguagem simples, somos como fantasmas artificiais, e somos tão inteligentes quanto eles.


Gina se levantou e andou, parando em frente à Anita.


-Danielle Vancouver. Dally Silver. Sally Dust. As três são a mesma pessoa. E se a Sociedade foi enterrada com o corpo de uma pessoa que não morreu, ela tem o direito de estar viva também.


Anita ficou algum tempo encarando espantada a ruiva.


-Quantas identidades essa mulher tem?


-Sete personalidades distintas, usadas sempre que preciso. E mais outros seis personagens criados que comumente são usados para conseguir algo rapidamente. Ela é procurada por onze países diferentes, por ter roubado artefatos importantes. Artefatos estes que às vezes eram usados em feitiços e poções, outras vezes vendidos no mercado negro para ela conseguir dinheiro para continuar levando seus planos à frente ou então eram o meio de soltar presos políticos, subornar governantes, negociar uma informação importante. Então não venha dizer que a Sociedade não é uma luta, porque ela gastou toda a vida dela nessa chance de derrotar os Malfoy.


Anita ficou desconcertada, mas Taylor inflou o peito como se Gina tivesse falado dele. Aliás, todos os membros da Sociedade se sentiam como se a partir daquele momento tivessem descoberto o verdadeiro valor e o significado da Sociedade dos Heróis Mortos. A guerra contra Voldemort parecia uma coisa distante, e os que haviam lutado nela eram heróis apagados pelo tempo, mas eles estavam ali, vivos, seguindo o mesmo caminho. As palavras de Gina estavam incendiando o coração de cada um, acendendo uma chama de luta e esperança.


-Esse sonho de destruir os Malfoy destruiu a minha família –disse Anita com amargor.


Gina soriu como se tivesse sido elogiada.


-E eu sei que cada um dos Weasley que morreram tiveram muito orgulho do que fizeram. E ainda digo que eles fariam tudo novamente se tivessem a chance. E sei que você se juntará a nós e fará o mesmo que um dia eles fizeram. Honre o seu nome, entre na luta dos seus antepassados.


Anita estava firme e encarava Gina de igual para igual. O sangue quente da família Weasley pulsando nas veias dela. Não podia negar que as palavras do que seria a sua tia-avó haviam lhe tocado, mas... era complicado. Nascera e crescera ouvindo histórias de guerra, de morte e de como nunca mais ninguém da família se envolveria nisso. Seu avô adorava falar da guerra e de batalhas específicas, mas sempre terminava falando a mesma frase. Mas isso é passado, e está enterrado num caixão, onde deve ficar.


A garota olhou novamente para a sua tia-avó e então olhou para Harry, que até agora permanecera calado, e depois olhou para Taylor.


-Eu não posso negar que fiquei surpresa e meu avô talvez goste de saber que a tal Danielle está viva. Mas se vocês querem se matar e arruinar suas vidas, isso é problema de vocês. Eu estou fora.


Ela olhou com decepção para Louise e com desprezo para o resto das pessoas na sala, então virou as costas e saiu da sala sem falar nada. Louise encarava o chão tristemente e Taylor se aproximou dela, colocando uma mão em seu ombro.


-Talvez por hoje seja melhor nós pararmos... –disse ele olhando para os outros.


-Parar?! –exclamou Harry- Você não ouviu nada do que Gina disse? A Sociedade é uma luta, e se vocês forem se deixar abater só porque uma garota com um trauma de família não pensa que vocês estão certos, vocês não são dignos da Sociedade!


Sophie girou a varinha entre os dedos e deu um sorriso maroto, Matt percebeu o sorriso dela e sorriu também. Cada membro da Sociedade encarou um companheiro, dividindo uma sensação de poder e honra com seus amigos. Eles tinham uma missão, e não desanimariam no primeiro obstáculo.


Louise sorriu para Taylor e ele apertou bem forte e mão dela. “Vai dar tudo certo” cochichou ele ao pé do ouvido dela. Ela acenou com a cabeça e retribuiu o aperto de mão.


-Ok, pessoal. São 10:18, nós vamos continuar treinando o a Azaração da mão trêmula até às 11:30, depois está todo mundo liberado. Afinal, tem baile hoje à noite!


Em alguns segundos a sala já estava novamente cheia de feixes de luz e pessoas combatendo. Taylor olhou confiante para Harry e sibilou um “Obrigado”, Harry fez um sinal positivo para ele. Tudo ia dar certo.
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N/A: Hello, pessoal! Tipo, esse cap demorou mais de um mês pra sair, então mil perdões! Acontece que eu tive que viajar pra fazer vestibular e logo em seguida eu viajei de férias... Mas, eu PASSEI NO VESTIBULAR!!! Rsrsrs Bom, a felicidade me inspirou e aí está outro capítulo... Espero que gostem! Se você chegou até aqui ajude na campanha ‘Faça uma autora feliz’ e deixe uma resenha! Rsrsrs Bjussss


LadyStardust: Tá aí o novo cap, q demorou um poukinho!rsrsr Bom, o incio d 2006 foi stressante, mas eu tô d volta e tô a mil. Acho q daki pra frente a história vai pegar fogo! Aguarde! Bjusss

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