Ordem de Ataque



Capítulo 2- Ordem de Ataque


Neville Longbottom entrou na sala de Reuniões do Quartel General da Ordem da Fênix. Vinte pessoas estavam sentadas à mesa o encarando, esperando uma explicação. Ele olhou cada uma delas pausadamente.

-Boa tarde –disse ele.

Poucas pessoas responderam, os ânimos não estavam muito bons.

-Creio que cada um de vocês veio até aqui exigindo respostas e providências. Lamento dizer a vocês que não posso dar respostas, muito menos providências. Estou tão informado quanto vocês. A ordem foi clara: devemos esperar por uma semana.

-Não temos esse tempo –disse Lady Florence, uma senhora alta com uma grande echarpe verde no pescoço.

-Sei que não. Mas não tenho como trazer todos de volta.

-O que eles foram fazer nos Territórios Sombrios? -perguntou Richard Lock, um franzino jovem com uns óculos de grande espessura e que era chefe do Departamento de Pesquisa da Ordem.

-Sei tanto quanto você, Lock. Dumbledore não me dá satisfações, me dá ordens. Ele partiu com algumas pessoas para os Territórios Sombrios e me deixou no comando até que ele volte, mas não fui informado do motivo da missão.

Os Territórios Sombrios eram uma grande área ao oeste da Inglaterra, que estava sendo dominada por Voldemort. Lugar onde já se travara grandes batalhas. Ex-território da 5ª Divisão. Onde residia o Forte Negro e a Masmorra Negra.

-Eles não pretendem resgatar a Sra. Potter, pretendem? –perguntou incisivamente um homem de grandes músculos e várias cicatrizes, a quem ele não conhecia.

-Certamente que não. A Ordem não efetua resgate dos membros e o senhor deve saber disso.

-Mas ela é esposa de Harry Potter.

Neville respirou fundo, era difícil se controlar ao lembrar que a amiga nunca mais seria vista, mas que provavelmente ainda estava viva e assim seria mantida por muito tempo.

-É lastimável que tenhamos perdido Ginevra Potter, era um de nossos membros mais fortes. Mas tenham certeza que o fato de ela ser casada com Harry Potter não será motivo para negligências.

Um rebuliço tomou conta do lugar, as pessoas falavam todas ao mesmo tempo. Algumas se direcionando a Neville, outras cochichando entre si. Neville se levantou, encerrando a reunião.

-Creio que eu não possa dar a nenhum de vocês qualquer informação que vocês já não tenham. Essa reunião não tem mais motivo. Eu tenho muito que fazer e vocês também. Com licença.

Saiu rapidamente da sala antes que alguém o abordasse e recomeçasse o interrogatório. Não podia dizer para aquelas pessoas (até porque não tinha certeza), mas concordava com elas. Dumbledore estava lá a pedido de Harry. Tinha a péssima sensação que seria feito um resgate suicida onde, para salvar Gina, Harry acabaria sacrificando vários bons membros da Ordem. Desaparatou.

Olhou seu apartamento vazio e seus escritos todos bagunçados em cima da escrivaninha. Mais um projeto que não conseguia concluir por falta de ânimo e de paz de espírito. Pensou em se aproximar do móvel e jogar os papéis fora, como sempre fazia quando se sentia insatisfeito com o trabalho, mas de repente se sentiu cansado demais. Cansado de tudo.

Caiu de costas na cama e ficou observando o teto pintado com tinta branca.

-Eles não podem fazer isso...

Estariam em plena desvantagem se perdessem um só membro neste momento. Com as lutas acirradas desde que Gina fora seqüestrada, perder pessoas agora era ruína certa. E mesmo que Gina fosse resgatada viva, provavelmente estaria inutilizada por um bom tempo. E isso significava tirar mais gente de combate, para que ela fosse tratada por pessoas confiáveis.

-Merlim, eu juro que não é por mal... Mas tomara que ela já esteja morta. Se ela já estiver morta não haverá conseqüências desagradáveis. Mas então, por que eles permaneceriam lá por uma semana?

Uma chuva de perguntas martelava em sua cabeça, e a falta de resposta para elas o deixava louco. Por que Dumbledore o escolhera para ficar no comando? Por que ele tinha que carregar essa bomba pronta para detonar? Por um breve segundo desejou ser aquele Neville no inicio da adolescência. Um Neville encolhido e sem graça.

-Olhe o que eu já estou pensando... –sorriu ele triste.

Já fazia tempo que ele era um membro da Ordem, e um bom membro. Não podia recuar agora, tinha que se manter forte.

-Eles foram resgatá-la, não foram? –perguntou de supetão uma voz feminina.

Luna estava enrolada num roupão na porta do banheiro.Os cabelos louros molhados pingando sobre o carpete, mas ela não ligava muito para isso. Sua esposa veio e sentou-se na beirada da cama.

-Você sabe o que isso significa, Neville? –perguntou ela- Sabe o que vai acontecer se eles tentarem um resgate?

-Nós vamos ruir –disse ele fitando o teto branco- Nós vamos lentamente sucumbir. Primeiro nosso membros vão reclamar e contestar a atitude de Harry, mas ele pouco dará atenção. E a negligencia de Harry será motivo para que as pessoas comecem a desconfiar um dos outros e passem a se aliar internamente entre conhecidos. A Ordem da Fênix vai rachar. Talvez em duas ou três, não mais que isso. Serão três grupos aliados lutando contra Voldemort, mas separados seremos muito mais fracos. Então...

-Então Voldemort assumirá o poder –completou ela.

Ele suspirou fundo e não impediu seus olhos de marejarem.

-Não é culpa dele, Luna. Harry carregou pesos demais durante sua vida, é natural que ele queira salvar a única pessoa que lhe restou. Perdeu os pais, o padrinho, foi separado durante um bom tempo de seus melhores amigos. Ele não vai desistir de Gina assim fácil, e Dumbledore não negará nada a Harry.

-Eles provavelmente a acharam viva, ou não mandariam ordens de esperarmos por uma semana.

-Também pensei nisso.

-Ou então vão fazer uma ultima busca, tentar achá-la. Ninguém sabe onde a Masmorra Negra fica.

Neville concordou silenciosamente com a mulher. Novamente voltou a pensar “Se ela pelo menos fosse encontrada morta”. Balançou a cabeça para afastar esse pensamento, não queria desejar mal à Gina.

Ele levantou-se e a beijou delicadamente. Ajeitou os manuscritos da escrivaninha e pegou uma pêra na fruteira da cozinha.

-Vou voltar para o Quartel General, a maioria das pessoas deve ter ido embora. Vou ver o que está acontecendo e o que posso fazer –disse ele despedindo da esposa.

Luna olhou o marido sumir do apartamento. Faria tudo o que pudesse para não vê-lo daquele jeito. E faria tudo o que fosse possível para não acontecer o que eles temiam. Levantou-se da cama e desamarrou o roupão que caiu no chão. Abriu o guarda-roupa e escolheu uma roupa bem quente, luvas e uma boina. Vestiu-se rapidamente e foi até a cozinha.

Ia preparar algo para comer, mas desistiu, isso tomaria muito tempo, e ela agora não tinha isso. Abriu a bolsa e verificou quanto dinheiro tinha, iria comer na rua.

-Acho que é só, ou tem algo mais que eu deva fazer? –perguntou para si mesma, olhando em volta.

Seus olhos pousaram no móvel da sala cheio de fotos de família. Fotos do casamento dela e com Neville, fotos de amigos, e fotos da pequena filha deles. Pegou um porta-retrato onde ela e Neville seguravam felizes um bebê de cabelos castanhos e olhos verdes. Olhou mais a frente e num outro porta-retrato uma garotinha de quatro anos estava vestida de bailarina. Passou os olhos pelas fotos e encontrou a mais recente, tirada a poucos meses.

O aniversário de Amy Longbottom fora realizado no QG da Ordem, junto a membros mais chegados e seus pais. Na foto ela estava junto à melhor amiga: Cloe Weasley, filha de Rony e Hermione. Cloe era um ano e meio mais velha, mas isso não fazia muita diferença para as duas.

Observou triste por um tempo as fotografias da filha.

-Espero que você possa me perdoar, minha princesa –disse ela triste colocando o porta retrato em cima do móvel.



Acordou com a varinha em punho.

Harry olhou para os lados e não viu ninguém. Todos estavam dormindo ainda. Levantou-se da sua cama com cuidado para não acordar ninguém. Trocou-se rápido e saiu da cabana. Lá fora Johnson e Arms terminavam o período de vigia.

-‘dia –disse ele.

-‘dia –responderam em uníssono, sem grande emoção.

-Tudo calmo? –perguntou Harry.

-Aham –responder Arms sem o encarar- Tivemos alguns sustos, mas eram só animais. Nós os espantamos e só.

Harry balançou a cabeça, pensativo. Estava ficando paranóico com toda essa situação. O fato de estar no coração dos Territórios Sombrios, a situação semi-humana de Gina, a pressão que estava sendo feita sobre ele. Tudo isso junto estava deixando-o louco. Sentia-se como um Moody da vida, enxergando inimigos em todos os lugares, desconfiando de todas as situações. Suspirou profundamente o ar seco e gelado da manhã.

-Tonks já voltou?

-Acabou de chegar –disse Arms secamente- Talvez ainda esteja acordada se você quiser falar com ela.

Ele não queria falar com ela, perguntou somente por perguntar, mas atualmente era sempre assim. As pessoas não estavam muito felizes com ele e faziam questão de demonstrar. Todas as frases dirigidas a ele sempre tinham ironias ou qualquer demonstração gratuita de descontentamento.

-Não, só queria saber se ela estava bem.

Johnson resmungou alguma coisa que ele não entendeu e também não perguntou o que era, com certeza não era nada que o agradasse.

De dentro da cabana saíram Howard e Summers, eles iriam assumir a vigia a partir daquele momento. Arms e Johnson se levantaram cansados e deram ‘bom dia’ aos companheiros, trocaram alguns avisos como a descarga do segundo sanitário estar meio defeituosa, e depois ambos entram para a cabana, a fim de dormir. Harry cumprimentou Howard e Summers, ao que eles responderam secamente.

-Arms disse que pela noite alguns animais rondaram por aqui. Vou dar uma volta para ver.

-Claro. Você é quem manda –resmungou Summers.

Não queria ver animal algum, só queria espairecer, talvez o ar da floresta densa fosse melhor que o ar da clareira onde estavam acampados. Seu único problema era ter que tomar cuidado com Comensais. Bem ou mal estavam no território deles, e ele não ia querer encontrar com um e denunciar que estavam ali.

Não foi muito longe da clareira, ficou meio que a rodeando. Colheu algumas plantas que teve a impressão de que eram medicinais pelo caminho.

-Gina está ferida, pode ser que tenhamos que fazer os primeiros socorros.

Gina, o motivo de tudo aquilo. Todos no momento o odiavam porque ele estava tentando salvá-la, mas como não faria isso? Depois que o resgate ocorresse todos iriam ficar tão felizes em vê-la bem que acabariam o perdoando e esquecendo tudo.

Pensou nela ferida, sendo maltratada pelos Comensais e um ódio imenso lhe preencheu, mas que ele controlou sem problemas. Assim que a tivesse de volta começaria uma guerra bem acirrada contra Voldemort. Olhou para o Noroeste, de acordo com Tonks em algum lugar por ali deveria estar a Masmorra Negra, deveria estar Gina.

-Agüente firme, meu amor. Dentro de pouco tempo você estará aqui comigo.


Desaparatou perto dos domínios de Hogwarts e pegou sua vassoura. Detestava voar quando era adolescente, mas ao entrar para a Ordem foi necessário deixar isso de lado. Hoje conseguia até sentir algum prazer quando estava em cima da vassoura voando alto pelos céus.

Mas não estava ali por diversão, exatamente o oposto. Estava se odiando pelo que fazia, mas alguém tinha que tomar providências. Passou o campo de Quadribol, inutilizado a dois anos, quando a situação da guerra piorou e Dumbledore passou a temer um ataque aos estudantes por alunos mais velhos que ocasionalmente se juntassem ao lado Negro. Pousou nos jardins.

A neve encobria tudo e a superfície do lago estava congelada, embora soubesse que lá embaixo a vida dos seres continuasse inalterada. Andou rápido e entrou no castelo. Não andou muito pelos corredores quando encontrou quem procurava.

-Luna! O que lhe traz até aqui?

Ela olhou para o lado e viu sua antiga professora de Transfiguração, Minerva McGonnagal, atual diretora interina. A senhora agora tinha marcas bem visíveis da idade e das preocupações que carregava.

-Preciso olhar alguns livros na Seção Reservada, posso?

A velha suspirou.

-Ah claro. Madame Pince certamente não lhe incomodará.

Luna deu alguns passos em direção a biblioteca quando McGonnagal a abordou novamente.

-Notícias de Dumbledore?

-Somente as mesmas que você deve ter: aguardar uma semana.

A expressão da professora ficou mais carregada. Ela fez um gesto com a mão.

-Pode ir, Luna. Vá e ache o que você está procurando.

Luna assentiu com a cabeça e recomeçou a andar. “Você não gostaria que eu encontrasse o que eu estou procurando, McGonnagal” pensou ela tristemente. Abriu a porta da biblioteca e viu todos aquele alunos estudando, pesquisando ou conversando baixinho, não estranhou quando sentiu uma ponta de inveja de todos eles.

Parou em frente a carrancuda bibliotecária.

-McGonnagal me deu autorização para pesquisar na Seção Restrita.

-Autorização escrita, por favor –pediu a senhora.

Luna riu indignada.

-Não sou aluna para lhe passar um papelzinho! Sou membro da Ordem!

Muito a contragosto a bibliotecária resmungou algo como “pode ir, então” e ela passou. Parou em frente a primeira fileira de estantes e olhou num móvel ao lado o índice de livros catalogados por categoria. Parou na categoria que procurava e olhou a vastidão de conteúdo de que Hogwarts dispunha. Olhou a numeração dos livros para saber onde se encontravam e anotou todos os livros que precisaria num papelzinho.

Demorou um pouco para encontrar a todos e achar as páginas que precisava, por fim conjurou uma mesa e uma cadeira para si e começou a trabalhar. Trabalho nesta hora era o que não faltava.


Neville estava exausto. O dia não fora fácil. Não que a Ordem tivesse em grande combate naquele dia, pois nenhum só caso de ataque tinha sido notificado, mas internamente o QG estava em polvorosa. As pessoas entravam e saiam o tempo todo, corujas não paravam de chegar e todo mundo esperava uma resposta ou uma atitude dele. Responder e esclarecer a situação a todos não fora fácil.

-Alguém em casa? –perguntou ele assim que desaparatou.

Ninguém respondeu. Estranho. Luna não aparecera no QG o dia inteiro, achava que ela estaria em casa.

-Amy? –perguntou ele abrindo a porta do quarto da filha.

Amy estava sentada no colo da babá, ouvindo a uma história.

-Papai! –exclamou ela, correndo para abraçá-lo.

Ele pegou a filha no colo.

-Como está, princesa?

-Hoje eu e Cloe fomos ao zoológico! –disse ela animada.

Neville olhou para Sarah, a babá de Amy. Ela acenou que sim. Neville colocou a filha no chão e perguntou olhando para Sarah:

-Mas não foi perigoso?

-Tio Fred e tio Jorge nos levaram!

-Ah, sim... Então tá. Como foi?

A menina começou a contar animada, mas ele não ouvia uma só palavra do que ela dizia. Apesar de haver dois membros da Ordem junto a elas, isso não o deixava menos nervoso. Ainda mais porque os cabelos ruivos dos Weasley eram fáceis de se reconhecer, e ele temia que alguém pudesse atacar.

-... o leão, papai, o leão era muito lindo! Falei com Cloe que vamos ser da Grifinória....

“Ah claro que vai, seu sangue não poderia te levar para outra casa...”

-... mas Cloe me disse que ela vai entrar primeiro em Hogwarts, isso é verdade?

-É sim, Amy. Cloe é mais velha, estará um ano na sua frente.

A menina pareceu um pouco triste.

-Ora, não precisa fazer bico, isso não significa que vocês vão deixar de ser amigas!

-Mas significa que eu vou ficar um ano sozinha!

Isso era verdade. Amy e Cloe não eram melhores amigas simplesmente por gostarem muito uma da outra, praticamente só conheciam uma a outra. O filho de Gui já entraria em Hogwarts no próximo ano. Carlinhos tinha sido morto em combate. Percy se desligara da família, embora trabalhasse para a Ordem também e os gêmeos, embora casados, não tinham filhos. A única criança na idade das duas era Edward, filho de membros da Ordem, mas eles não se encontravam muito.

-Mas a Sarah vai estar com você –respondeu ele.

A garota olhou para a babá e deu um sorriso, que a babá devolveu.

-Por que você e a mamãe não têm um filho?

Neville ficou desconcertado e até um pouco vermelho, mas foi salvo de responder a pergunta da filha, pois ouviu barulho na cozinha.

-Olha, a mamãe chegou! Eu vou lá conversar com ela. Você já tomou banho, mocinha?

-Já!

-Sarah, então termine de contar a história e pode ir para sua casa, que eu a coloco para dormir.

-Claro, Sr. Longbottom.

Neville foi até a sala e encontrou Luna jogada no sofá, com os pés para o alto e a mão encobrindo os olhos.

-Luna? Onde esteve durante o dia?

-Resolvendo assuntos meus –disse ela sem se alterar.

-Que assuntos?

-Assuntos que só dizem respeito a mim.

Definitivamente esta era a mulher com quem tinha se casado. Quando ela não queria revelar algo, então não teria nada que a fizesse falar. Sentou-se ao lado dela no sofá.

-Sabia que Amy hoje foi ao zoológico?

Ela se sentou de supetão com uma expressão assustada.

-O quê?!

-Fique calma, Fred e Jorge estavam com ela e Cloe.

Ela suspirou um pouco mais aliviada.

-Ainda assim Neville, é perigoso.

-Eu sei, mas só fiquei sabendo disso ainda agora, quando cheguei.

-Eu irei avisar aos gêmeos que não podem fazer isso! É natural que eles queiram passear com as garotas, mas...

-Não houve nenhum registro de ataque hoje em toda a Inglaterra –disse Neville de repente, interrompendo a mulher.

-Não houve hoje, mas poderia ter havido.

Neville parou pensativo.

-Aliás, também não houve ontem, nem anteontem. Nenhuma movimentação estranha, nem mesmo os trouxas foram incomodados com situações estranhas para eles. Três dias sem manifestação deles, há muito tempo isso não ocorria.

Luna se levantou do sofá e preparou uma bebida para ela.

-O que você quer dizer com isso?

-Não quero dizer nada, só estou comentando –disse ele se levantando também do sofá- Prepare algo para nós dois comermos, vou colocar Amy para dormir.

Os dois trocaram um olhar de piedade e afastaram o olhar, constrangidos. Luna ficou pensando nas coisas que havia lido e foi tentando ajustá-las mentalmente enquanto preparava um lanche para ela e Neville. Teria coragem? Pensou mais uma vez em Amy, também em Neville, Harry e todos os membros da Ordem. Se por acaso descobrissem, será que a culpariam? Provavelmente. Suspirou resignada. Tinha três dias.

“Três dias sem manifestação deles” voltou a sua mente Neville falando. Espantou isso, não era seu trabalho neste momento.



Quatro dias observando Gina não foram fáceis, na verdade, foram péssimos. Ela chegou de madrugada cansada, saindo de sua forma animaga de coruja e indo se deitar numa cama, exausta. Queria esquecer tudo o que havia visto, tudo o que havia ouvido. Queria expulsar da sua cabeça o eco dos gritos de dor de Gina, queria que parasse de lembrar dela se contorcendo e sendo humilhada.

Ficou deitada na cama olhando para o teto, não conseguia dormir quando chegava, só depois de algum tempo, quando a sua mente finalmente se cansava por inteiro e conseguia esquecer por breves horas o que havia visto.

Ouviu alguém entrar no dormitório, provavelmente alguma mulher entediada, vindo pegar um kite de unhas para ocupar o tempo. Fechou os olhos e virou-se para a parede.

-Tonks, você já está dormindo? –perguntou alguém bem baixinho.

Ela sorriu.

-Estou.

Virou-se e viu Harry, meio sem graça, encarando-a.

-E aí, como você está?

Tonks ficou com pena dele. Sabia que ele estava ali porque todos se recusavam a conversar normalmente com ele. Não estava sendo fácil para ele também, aliás, devia ser muito mais difícil para ele que para qualquer pessoa, só entendia isso agora.

-Tentando dormir, Harry.

Ele deu um sorriso amarelo e já se levantava da cama ao lado quando ela o interrompeu.

-Pode se sentar, eu nunca consigo dormir na hora que chego.

Ele se sentou meio sem jeito, procurando algum assunto para conversar.

-Você não tem tido problemas, tem? As roupas são quentes o suficiente? A comida é o bastante?

Tonks se sentou.

-Vou ser sincera com você, Harry. Estou péssima, acho que o pior que já estive em minha vida. Mas não é por frio, nem fome, nem mesmo por tédio.

-É pelo quê, então?

Ela suspirou profundamente.

-É por Gina! Aqui só para nós dois? Juro que te xinguei de todos os nomes possíveis aqui dentro de mim quando vi que você queria resgatá-la. Te julguei, te condenei, mas quem estava errada era eu. É desumano, Harry. Você não sabe o que é ter que ver a menina que eu conheci, uma pessoa tão alto astral e singela, tão cheia de vida e tão legal, daquele jeito. Você não sabe o que é ouvir os gritos dela, as súplicas, ela implorando para que a matem. Não sabe o que é a ver se contorcer toda e saber que eu não posso fazer nada ou tudo vai ficar muito pior. Nem durante o tempo em que ela está sozinha não posso tentar falar que estou ali, que vamos salvá-la, porque eles poderiam acabar descobrindo. É horrível. Nunca efetuamos resgate para ninguém, mas também acredito que os Comensais nunca mantiveram um dos nossos vivos por muito tempo, mas com ela... Eles pretendem continuar com ela viva por muito tempo, sentem uma prazer louco nisso. Eu não só te entendo agora, mas como apoio totalmente.

Todo o coração de Harry estava apertado e ele se controlava muito para não começar a chorar como uma criança. Chorar de dor pela esposa, e chorar de alivio ao ver que uma pessoa, nem que fosse uma só, conseguia o entender.

-Eles têm horário fixo, Tonks? É sempre nos mesmos horários?

Ela concordou com a cabeça.

-É sim, anotei todos os horários mentalmente –então ela levantou da cama e procurou algo num criado-mudo ao lado da cama dela- Aqui está. Sempre que eu chegava anotava, os horários são sempre os mesmos.

Ele ficou olhando o papel fixamente, com a mão trêmula.

-Gina...

Imaginou toda a angustia dela, todo o sofrimento que estava passando.

-Então talvez não haja mais motivo para esperar. Três dias ainda é muita coisa. São três dias de sofrimento para ela, para você e para mim. É hora de acabar com isso tudo –disse ele se levantando.

-O que você quer dizer com isso?

-Vamos invadir esse lugar hoje à noite, depois que eles tiverem ido embora –disse ele, saindo do dormitório logo em seguida.

Seria um dia e tanto.

N/A: O capítulo ficou meio grande, mas é que tinha muita coisa pra acontecer... rsrsr Espero que estejam gostando, e não se esqueçam da resenha! Bjusss, Asuka

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