Destruindo uma Biblioteca



As suas passadas começaram a ecoar ao redor, enquanto atravessava a passos largos o aposento repleto de prateleiras com livros imundos e desinteressantes o rodeando. Como ele recentemente dissera para si mesmo: coisa de amador.


Ele procurava por tomos escritos por profissionais, aqueles que sabiam sobre o que estavam falando, não os que pegavam uma pena e rabiscavam qualquer coisa num punhado de pergaminhos.


Uma rajada de vento frio atravessou a porta recém-aberta da biblioteca, fazendo com que suas vestes ondulassem e seus pelos se eriçassem por um instante.


Era o único lugar naquele colégio maldito que não estava infestado com as vozes finas e estridentes dos pequenos idiotas que pareciam sempre arranjar uma boa razão para gritar uns com os outros.


Olhando por cima do ombro o rapaz esperava ver sua irmã em seu encalço, mas aquilo não ocorrera, ela não estava lá. Tudo bem, mas ele teria de ser mais persuasivo da próxima vez, afinal, talvez a garota não lembrasse, mas era a cabeça dele que estava no páreo, ou talvez ela tivesse começado a não se importar com isso.


Pessoalmente, ele esperava que não fosse isso.


Olhando novamente para frente deparou-se com um aviso aos alunos que não estivessem familiarizados com as regras da escola.


A área restrita está proibida para qualquer aluno sem permissão.


O aviso estava preso à maçaneta da porta dupla alta que daria para a área onde deveria estar a informação que ele tanto precisava.


Ele deu de ombros.


Não sou aluno.


Sua mão se ergueu, pressionando o cadeado pesado e grande que estava acorrentado à porta.


O cadeado trincou, rachou no meio e caiu ao chão, levando consigo a grossa corrente.


Fácil.


As portas escancararam-se, embora Peter não achasse aquilo o bastante. Ele pôs a mão na maçaneta e empurrou lentamente, fazendo-as serem jogadas alguns metros à frente, deixando as dobradiças pendendo.


Muito fácil.


Ele riu e adentrou a Área Reservada.


A quantidade de livros e prateleiras atulhadas o faziam lembrar-se da biblioteca real draconiana, com a diferença natural de que ali onde ele estava não havia nada de útil escrito.


A não ser a localização do Maleficarum, se lá estivesse.


O local era escuro mesmo estando pela manhã e a luz que vinha do lugar onde antes era a porta, mal iluminava o estreito corredor.


Ele olhou para trás, para ter certeza que ninguém viria perturbá-lo. Seria necessário ser surdo para não ouvir o som do baque da porta e era provável que aquilo atraísse algum fedelho curioso que não estava disposto a aturar.


Suas mãos percorreram os volumes cinzentos e empoeirados que se atulhavam de maneira disforme nas prateleiras de madeira.


Ali, em algum lugar, estava a chave para a sua libertação, ele só precisava encontrá-la.


- Vamos começar, então. – Ele fechou os olhos, erguendo os braços como que numa prece. – VENHAM!


Demorou apenas alguns segundos, então tudo começou a estremecer.


A sensação de que um terremoto se aproximava assolou a todos no castelo – como se o rapaz estivesse se importando de fato – fazendo pequenas rupturas em certas partes mais fracas da estrutura.


Mas voltando à biblioteca e deixando o pequeno infortúnio que estava para se aproximar do castelo:


Os livros mais próximos começaram a tremer, sendo acompanhados em seguida pelos mais afastados até que toda a área reservada estivesse tremendo como numa convulsão inumana.


Mostrem-me o Maleficarum.


Seria imprudente de minha parte lhes dizer que os livros obedeceram, não pelo fato de o feitiço do rapaz não ter funcionado – eu jamais diria isso – mas pelo fato de que livros não são capazes de obedecer.


Mas eles o fizeram.


Todos os livros contendo alguma referência sobre onde ou o quê era o Maleficarum simplesmente voaram de seus respectivos lugares e começaram a flutuar ao seu redor, enquanto os outros simplesmente caiam e se espatifavam no chão.


O Castelo tremia assustadoramente agora, alguns alunos pareciam desesperados e corriam pelos corredores enquanto os professores tentavam conter o que parecia um motim dos gêmeos Weasley, envolvendo coisas nunca vistas antes.


Eles estavam se aprimorando.


Mais rápido. O rapaz pediu e os livros obedeceram ao ritmo acelerado que o coração do dragão batia, quase loucamente se postando em frente a ele, as letras escritas em caligrafia inclinada se destacando nas páginas cada vez que a palavra Maleficarum aparecia escrita.


Então, tudo acabou.


Os tremores, os livros, tudo se acalmou.


- Enfim. – Ele disse, olhando as quatro obras que flutuavam à sua frente. – Um de vocês vai me levar até o meu destino... Agora, qual de vocês?


Ele se aproximou lentamente dos quatro livros.


- Ma... Ma... Mas o que diabos está acontecendo aqui? – Uma voz rouca e esganiçada surpreendeu-o por um instante. – Quem é você?


Peter sibilou alguma praga. Interrupções. Se havia algo que ele não aturava de maneira alguma, eram interrupções.


- Quieta, eu estou ocupado. – Ele falou, sem tirar os olhos dos livros, com a mão no queixo, pensativo.


A bibliotecária olhou lentamente ao redor, percebendo que com sorte apenas 1% dos livros da área reservada não estavam destruídos, isto é, com muita sorte.


- Quem lhe autoriz... – Ela começou, parando ante a brisa gelada que a fez se abraçar.


- Eu... Disse... Quieta. – Ele sibilou, ainda mais irritado. – Ou eu terei que fazer isso por você?


Ela tremeu de medo.


- Mas...


Ele avisara.


Quieta! – Outra brisa fria, essa mais forte que a anterior, levantou as folhas soltas dos livros destruídos fazendo com que a mulher desse um gritinho de espanto e tentasse se virar para correr, mas o feitiço foi mais rápido e num instante... – Petrificus Totalus.


A mulher estava ali, congelada, suas pernas como a de uma corredora, numa tentativa inútil de fugir dali.


- Ninguém me ouve. – O dragão falou, com um suspiro de falso lamento. – Voltemos.


Ele lentamente escolheu cuidadosamente entre as quatro opções, selecionando o que lhe parecia o mais apropriado para iniciar sua leitura que poderia durar cerca de umas poucas horas.


O volume que ele escolhera era pequeno e vermelho, escrito à mão, por um bruxo mais velho do que parecia possível. Tinha algo a ver com as passagens que eram escondidas pelos corredores daquele castelo e como o castelo em si parecia puramente vivo, mudando de lugar antes que se fosse capaz de mapeá-lo completamente.


Existe tanta magia correndo nos muros do castelo que o próprio ganhou vida... Interessante, eu me pergunto quantos artefatos mágicos já não devem ter sido guardados nas entranhas dessas paredes.


Folheando um pouco mais ele deparou-se com uma relação extremamente interessante das passagens mais prováveis para se guardar um artefato, quando seus olhos foram diretamente para uma passagem que, segundo o autor, fora um dos possíveis lugares onde o tão falado Maleficarum pudera ter sido guardado, mas era tudo apenas uma possibilidade.


Possibilidades já são o bastante para mim. Ele pensou.


- Mas o que diabos você FEZ?


Peter pretendia dizer algo rude, mas ao se virar ele percebeu que não seria muito prudente.


- Ah, é você... – Ele voltou o olhar para o livro, depois de se deparar com os olhos azuis de sua irmã. – Chegou tarde, já terminei a pesquisa.


- VOCÊ TEM ALGO NA CABEÇA? OU A PREENCHERAM COM AR? – Ela gritou, olhando a bibliotecária, em sua pose de corredora. – Sabe quantas pessoas estão desesperadas lá fora? Você quase derrubou o castelo todo!


Peter deu de ombros.


- Nem senti. – Ele falou, passando a folha. – Acho que vou começar por aqui. – Seguiu para a saída, passando pela garota. – Tchau irmãzinha.


Katherine segurou o braço do irmão, retendo-o no lugar.


- Aonde pensa que vai? Você vai me ajudar a limpar toda a sua bagunça!


Peter franziu a testa, confuso.


- Não... Não vou não. – Ele falou, como se soubesse que ela estava brincando.


- Peter... Você vai... Limpar essa bagunça.


Ele abriu a boca para dizer algo, mas a garota pôs a mão na boca do rapaz, impedindo qualquer tentativa de argumentação.


- Você VAI limpar essa bagunça ou eu vou acabar com a SUA raça. – O olhar dela foi o bastante para que ele bobeasse em seu pensamento. – Eu juro que queimo essa desgraça na sua mão se você não se mover para me ajudar. – Ela olhou significativamente para o livro.


O garoto grunhiu algo ininteligível por trás da mão da irmã.


AGORA!!!


O rapaz arrepiou-se ante a onda de poder mágico que emanou da garota, os olhos dela tornando-se cada vez mais cheios de raiva.


- OK. – Ela conseguiu entender o garoto dizer.


Ele levantou a mão, fazendo um vento correr pela biblioteca, levantando todos os livros e prateleiras, unindo as páginas rasgadas reconstruindo as capas arrancadas e todas as outras misérias que ele havia feito. Em um instante eles estavam todos no seu devido lugar, eu diria ainda mais organizados que antes.


- Pheliz? – Ele disse, ainda abafado pela mão da irmã. – Phenho coifas pafa phacer.


A garota tirou a mão do rosto do rapaz, libertando-o para uma profunda aspiração.


- E ela? – Kate perguntou, apontando para a mulher ainda parada.


Ele virou a cabeça para o lado, como se avaliando a situação.


- Eu gosto dela assim. – Depois virou-se, sumindo da presença da irmã com uma velocidade inumana.


Kate deu de ombros, irritada. Não acreditando que o irmão saíra pela tangente.


- Ok, você ganhou essa. – Ela gritou para o rapaz. – Eu cuido disso. Obliviate. Ótimo, agora você não vai se lembrar de nada... errrrr... Desculpe, ok? – Um pequeno detalhe: A mulher não conseguia ouvi-la, voltando: - Finite Incantatem. – Num instante ela estava caída no chão, desacordada.


Kate ficou triste, de certa forma, aquilo era o máximo que poderia fazer, por enquanto.


Olhando por cima do ombro, ela decidiu que era melhor seguir o rapaz. Virando-se, suspirou e pôs-se a movimentar-se, pensando em reparar o máximo de estragos que viriam no meio do caminho.


...


Seus passos se tornavam mais rápidos à medida que ele andava, uma mão embaixo do queixo e a outra segurando o livro que roubara recentemente. Ou melhor, pegara emprestado.


Ele estivera lendo, enquanto caminhava em direção às escadas que o levariam ao terceiro andar, local onde parecia haver sido guardado um objeto muito poderoso e um dos lugares mais seguros no castelo.


Com sua atenção retraída no livro o rapaz mal notou que ao seu redor o castelo parecia ter sofrido sérios danos, com rachaduras enormes como cicatrizes num rosto duro e uma extensa e grossa camada de poeira que abafava o som de seus passos no corredor vazio.


Bem, não tão vazio.


Mas Peter jamais teria como saber disso, não houvesse ele ido de encontro com a outra alma viva que chocou-se com ele numa velocidade incrível, acertando seu peito em cheio, fazendo o livro vermelho voar para um lado, caindo entreaberto no meio da poeira.


- Mas que diabos! Existe um corredor enorme, mais largo que um elefante e você ainda consegue ME acertar? – Ele gritou, irritado, indo recolher o livro, limpando o excesso de poeira que cobria as páginas.


- Bom dia para você também. – Monique falou, ainda no chão, a uns dois metros do local onde se chocaram. Seria possível? O corpo do rapaz parecia como rocha, o impacto havia sido extremamente forte e o garoto sequer piscara.


Peter olhou a garota, caída, seu olhar reprovador de nojo no rosto.


- Você deveria parar de me acertar, já é a segunda vez em dois dias. – Ele abriu novamente na página onde estivera lendo e deu mais uma perscrutada ali, tendo certeza de que ainda conhecia o caminho. – Não tenho tempo para conversas, tenho mais o que fazer.


O rapaz disse, voltando a caminhar pelo corredor, passando pela garota voltando-se para o seu destino.


Monique levantou-se de um salto ao ouvir as palavras proferidas pelo garoto. O que mais ele teria para fazer? Especialmente num momento como esse, em que os professores haviam pedido para recolherem os alunos às suas respectivas Salas Comunais. Sem pensar duas vezes ela virou-se 180º encontrando-se com as costas do rapaz, que já estava duas passadas à sua frente.


- Vai aonde? – Ela perguntou inocentemente, começando a andar rápido para acompanhar as passadas leves do rapaz.


Peter revirou os olhos. A garota estava pedindo.


- A nenhum lugar que você esteja indo. – Ele parou um instante, deixando-a passar. – Você pretende me SEGUIR? - O tom de sua voz foi... Assassino.


- Sim. Não tem nada melhor para fazer. – Um sorriso brincalhão se estendeu pelo seu rosto.


- Espero que você entenda que eu não conheço o significado da palavra Paciência... – O rapaz disse, quase bufando de raiva.


- Já tinha percebido.


- ...Nem misericórdia. – Ele adicionou, muito mais irritado.


- Nada surpreendente, seja mais criativo, Peter. – Ela falou, a testa franzida em reprovação. – Agora... Vamos ficar parados por aqui?


Peter jogou a cabeça para trás, colocando a mão direita sobre o rosto, num sinal de completa frustração. O que ele deveria fazer para que aquela garota sumisse de seu caminho?


Pensando bem, por que ele deveria se importar? Ela era só um inseto, tudo, bem, um inseto com um zumbido extremamente irritante, mas ainda assim um inseto que poderia e iria ser calado.


- Fique à vontade para ir aonde quiser. – Ele disse. – Mas fale uma única palavra e eu sumo por trás da primeira porta que eu vir.


A garota alargou o sorriso, assentindo veementemente.


O rapaz deu um início de sorriso que morreu menos de um segundo depois de ser cogitado. A garota ao menos era obediente. Teria sido um ótimo brinquedo na época de sua infância.


Começando a andar, ele decidiu esquecer que havia passos rápidos e curtos ao seu encalço, voltando sua atenção novamente para o livro vermelho.


...


Peter mal acreditou ao ver que a passagem secreta que o livro falara era completamente comum. Nada mais que uma porta no fundo de um hall escuro, aparentemente inutilizado há algum tempo. Por pouco não desistiu completamente da empreitada, ficando apenas por ter certeza que havia algo ali atrás. A porta palpitava em magia antiga.


- É aqui. – Ele disse, caminhando para a porta, sua mão próxima a maçaneta, ciente do olhar curioso da garota a suas costas, um olhar que estava começando a deixa-lo com raiva.


A sua mão girou lentamente, como para dar um ar dramático à situação e a maçaneta, obrigada pela força da magia, cedeu, caindo junto com o trinco e todo o resto que a segurava, deixando a porta bamba, segurada por uma dobradiça mal colocada.


Ele olhou por cima do ombro direito, como para ter certeza que a garota não sumira no meio do caminho, coisa que ele estava extremamente esperançoso que houvesse ocorrido. Infelizmente, ela ainda estava ali, uma expressão reprovadora no rosto, como quem diz que o que ele fizera fora algo totalmente desnecessário.


E fora, é fato.


Com um pequeno impulso a porta rangeu, indo para frente, revelando um quarto escuro, embora amplo ou talvez escuro por ser amplo. Mas a questão não era a escuridão no quarto ou a amplitude do mesmo, a questão era o enorme cão que pairava deitado no centro. Ele deveria ter pelo menos uns quatro metros de altura e um corpo repleto de músculos rígidos e fortes. A luz incitou sobre seu focinho, que repousava sobre as patas. Erguendo a cabeça Peter mal pode se conter de surpresa quando percebeu que não era o tamanho que deveria o impressionar, mas sim as outras duas cabeças que ladeavam a central.


O enorme cachorro de três cabeças ergueu-se, aproximando-se do rapaz, deixando seu corpo musculoso à mostra. Um corpo que rechaçaria um rapaz como Peter, caso ele não fosse quem era.


- Um Cérbero. Mas será possível? Como um ser como esse veio parar aqui? – Ele riu uma gargalhada divertida. – Faz tanto tempo que não vejo um filhote como esse que até me parece divertida a ideia de imaginar o que pretendem fazer quando possuir cerca de 50 metros.


Seus devaneios pararam por aí. As cabeças enormes se aproximaram, rosnando ameaçadoramente para o rapaz.


- Nossa, que fofo. – Ele disse, com desdém, erguendo a mão para acariciar o focinho próximo.


O animal abriu e fechou a boca, por pouco não acertando a mão erguida.


- Que feio. – Peter meneou a mão, usando de magia para obrigar o cão a se sentar. – Vamos por partes: Você NÃO irá tentar me morder novamente, ou isso vai lhe custar os dentes que acertarem minha pele. Depois, vai me permitir passagem a qualquer instante que eu queira e, acima de tudo, VAI me obedecer.


O Cérbero grunhiu, desanimado, sem poder diante da força do rapaz.


- Agora, Alexios, me diga, o que você esconde?


O cachorro virou a cabeça de lado. Como aquele simples humano poderia controlá-lo com a força da mente? E mais ainda, como saberia seu nome de nascimento? Aquele ser, pois não poderia ser humano, escondia mais coisas do que ele poderia imaginar.


- Sabe. – Peter continuou. – cérberos são seres que convivem com a morte, por isso, eles têm mais força quando estão perto dela, como se fosse um lugar-comum para eles, na verdade, os antigos acreditavam que só seria possível ver um Cérbero na hora da morte e que ele os guiaria até o inferno. Eu passei toda a minha juventude no meio deles, aprendendo sobre a morte e sobre como ela fazia sentido, aprendendo a deixar a vida seguir e ser liberta. Foi por causa deles que me tornei um dos Guardiões da Morte, como costumavam se denominar.


Monique se remexeu, atrás dele.


- Entenderei isso como uma permissão para abrir a boca. – Ela falou, sarcástica, se aproximando e ficando ao lado do rapaz, próxima ao Cérbero. – Eu estudei bastante sobre mitologia, mas nunca havia visto por esse ângulo. Assim parece ainda mais interessante, para falar a verdade.


Peter suspirou, novamente.


- Da próxima vez, não ENTENDA. Agora, meu caro Cérbero, o que tem aí dentro? – Ele apontou para o alçapão que havia no centro da sala, embora só houvesse sido revelado quando o animal levantou-se.


Mais uma vez, a cabeça central virou, como se a pergunta não houvesse sido entendida.


Medo.


Morte.


Perdição.


Cada palavra havia sido pronunciada com um tom de mal agouro, cada uma por uma cabeça, embora em uníssono.


- Bom, ao menos é algo com o que eu estou familiarizado. – Ele sorriu sarcástico, aproximando-se do alçapão. O cachorro tentou mover-se para junto, mas lembrou-se das ordens que lhe haviam sido dadas. Além disso, se o rapaz estivesse falando a verdade, ele era um superior. Alexios tinha a obrigação de sair da frente.


O garoto chegou à borda, movimentando a mão, fazendo a tampa do alçapão se abrir sozinha, batendo no chão e levantando uma enorme nuvem de poeira.


- Você vem? Sabendo que eu não pretendo erguer uma mão para protegê-la, é óbvio.


A garota acenou com a cabeça, confirmando a obviedade da pergunta. Seus olhos se dirigem até o Cérbero. Um olhar de pena, por não poder se aproximar de algo tão fofo e encantador.


Peter suspirou ante ao olhar da garota.


- Vamos. – E então pulou para a escuridão que vinha embaixo.


...


Mas onde Diabos ela Está? Hermione pulou de impaciência para irritação em alguns poucos segundos. De início estava apenas excitada, mas depois, percebeu como era crueldade o que estava fazendo. Mas não podia esperar mais.


Ela estaria usando Ginny por um mísero instante, mas naturalmente a garota não se importaria quando tudo fosse explicado.


Parou um instante, apoiando-se na parede rachada ao seu lado. O que estava acontecendo? Essa não era ela, ela não era assim.


Por que era tão importante  assim provar que havia algo errado com os Draconians?


Fechou os olhos e respirou fundo. Se ela estivesse certa (e, convenhamos, normalmente estava) havia muitos motivos para se preocupar com o que os irmãos, especialmente o rapaz, seriam capazes de fazer.


- Você viu meu irmão? – A voz apareceu do nada, por trás de seu ombro, fazendo os seus nervos pularem. – Ops, desculpa.


Kate pôs a mão por sobre o ombro da garota, tentando acalmá-la.


Mione sorriu.


- Não, não vi. – Ela assumiu um tom mais preocupado. – Você precisa vir comigo, um bloco de pedra caiu por cima da Gina, eu estava procurando alguém que pudesse ajudar, por favor.


Katherine olhou para o caminho que o irmão tomara. Vai ter de esperar, pensou.


- Eu acho que posso ajudar, Mione. – Ela disse sem ser muito clara. – Mas você precisa ir atrás de um professor, eles saberão o que fazer melhor do que eu.


Mione maneou a cabeça, como quem está em desespero.


- O Harry já foi atrás da professora minerva e da Madame Pomfrey. Ela está com muita dor, você precisa ajudar.


Os olhos da garota brilharam por causa das lágrimas que tentava deter.


- Eu vou. – Kate disse, por fim, sua voz alguns tons mais baixo que o normal. – Me leve até lá.


Hermione assentiu, ainda pesarosa e irritada consigo mesma. Mais tarde ela diria que considerou aquela atitude um mal necessário.


O caminho em si não foi muito demorado, apenas algumas escadas e corredores, mas foi longo o bastante para Katherine perceber que seu irmão causara um estrago enorme, derrubando blocos de pedra do tamanho de carros no meio dos corredores estreitos e muitas vezes obstruindo passagens inteiras.


Eu vou acabar com a raça dele... Quantos não deve ter mandado para a enfermaria?!


A sala de poções estava uma desgraça, com líquidos de cores variadas se misturando no chão. Uma parte da parede onde Snape mantinha os frascos mais importantes havia caído direto na cabeça de um aluno da Lufa-Lufa que estivera esperando o início da aula e agora tentava espremer as espinhas que se formava por todo seu corpo.


- O quê? – Kate perguntou, ao perceber que Hermione tentava dizer algo ao qual ela não estivera prestando atenção.


- O castelo... Ele é à prova de terremotos. O que quer que tenha sido isso, veio daqui de dentro. Algo mágico. – Ela repetiu, sem tirar os olhos do caminho, que estava por terminar em uma porta quebrada e tombada.


A morena acenou, assentindo.


Algo bem mágico. Grunhiu para si mesma.


A saleta onde o acidente ocorrera era algo como um banheiro, embora agora não lembrasse nada parecido.


- Kate, Mione! Finalmente! – Rony correu para junto das garotas, Seu rosto empoeirado com alguns poucos caminhos nas bochechas, como se lágrimas estivessem passando por ali até recentemente.


- Você estava chorando? – Mione perguntou, com a voz confusa e quase divertida.


- De maneira nenhu... – Ele começou.


- Tava sim, como uma garotinha. – Uma voz disse, por trás do rapaz. – Agora, será que dava para vocês se apressarem? Não é como se eu estivesse muito satisfeita aqui embaixo.


Rony saiu da frente e então a garota pôde ver.


Havia uma pedra do tamanho de um homem adulto sobre a perna direita de Ginny, seu corpo parecia ter sido ferido em vários pontos e sua cabeça sangrava. Não era definitivamente uma das melhores posições para se estar.


- Acho melhor não perguntar se eu estou bem. – Ela falou, a voz meio irritada. – Deixe esse tipo de coisa idiota para o meu irmão.


Kate deu um sorriso rápido.


- Não se preocupe, eu vou ajudar. – A morena falou, ajoelhando-se ao lado da ruiva, retirando os cabelos da frente de seu rosto.


Gina assentiu. Uma expressão de dor passou por seu rosto quando ela tentou mover a cabeça para olhar para o irmão.


- Vá atrás do Harry. - Ela falou para o irmão. – Acho que ele se perdeu no meio do caminho.


Ele assentiu, correndo para o corredor.


Gina suspirou, repousado a cabeça novamente no chão frio. Estava doendo, doendo para burro, mas ela precisava ser forte.


- Você está indo bem, deve estar doendo muito. – Katherine falou, enquanto avaliava a situação de vários ângulos.


- Tente ser a irmã mais nova de seis rapazes, isso sim é difícil, isso aqui é fichinha. – Ela suspirou. – Você pode me ajudar mesmo?


Kate deixou-se fitar os olhos da garota. A dor ali dentro fez seu corpo tremer de raiva do irmão. Ela poderia ajudar, mas seria arriscado. Nunca fora uma boa curandeira, não sabia o que poderia acontecer com a perna da garota e nunca aprendeu uma magia de anestesia.


Isso significava que...


-...Vai doer, muito. Muito mesmo, não sei se você conseguiria aguentar.


Gina balançou a cabeça. A falta de sangue fez com que sua visão embaçasse.


- Não me importo. Faça.


Katherine assentiu. Com uma olhada para Hermione, que já roia a quinta ou sexta unha, ela disse:


- Eu aconselho a olhar para o outro lado, pode ser meio feio. – O seu rosto assumiu uma expressão de repugnância quando lembrou esmagamentos que havia visto no passado.


Hermione assentiu, entrando em um boxe que não havia sido destruído.


- Tape os ouvidos. – Ela falou um pouco mais alto, para Mione. – Eu não sei se ela vai aguentar não gritar.


Com um movimento de mão da garota, a pedra movimentou-se gentilmente, depois um pouco mais rápido e então, simplesmente pulou para o outro lado do banheiro.


O grito se expandiu por todo o aposento, poucos segundos depois de Katherine isolar o local com uma magia antisom. A agonia da garota fazia seu corpo se mover em ângulos estranhos e incompreensíveis. A perna direita sempre parada, morta.


Kate franziu o cenho. Havia pelo menos dezenove fraturas e outras inúmeras feridas.


- Faça... Parar! – Mione falou de dentro do boxe, lágrimas caindo de seus olhos como uma cachoeira e os ouvidos pressionados, mesmo assim, escutava a agonia da amiga claramente.


Katherine apressou-se a iniciar a magia, pondo as mãos alguns centímetros acima da perna da colega, sussurrando palavras ininteligíveis para os bruxos. Ela rezava no seu intimo para que tudo desse certo. Mais ainda, rezava por Peter, queria o apoio dele naquele momento, coisa que sabia que jamais receberia, fosse qual fosse a situação. Sobre o irmão, agora ela tinha uma certeza. Essa fora a gota. Ele iria pagar pelo que fizera àquela pobre garota. Ele iria aprender, de uma vez por todas, que não era onipotente.


Ele não poderia ser.


Mas ela sabia do contrário.


As feridas pareciam começar a desaparecer aos poucos, devagar, dolorosamente. Os gritos foram sumindo gradativamente, talvez pela dor, que ia embora, talvez pelo falta de oxigênio no corpo. Tudo cessou num instante, quando já não havia mais nada a ser curado. A luz que a mão da curadora projetava foi diminuindo quando já não havia mais nada que pudesse ser feito.


Katherine arfava. Gastara muita energia. Seus braços doíam e uma dor de cabeça irritamente apitava próxima ao seu ouvido.


- Ginny! – A voz de Harry parecia um rufar de tambores ao ouvido da morena. – Ela está bem?


- Vai... Ficar. – Ela falou, fraca, levantando-se cambaleante.


Harry segurou os ombros da garota, que ameaçava cair.


- Kate, você... O que houve? – Ele segurou a mão da garota, que parecia arder. – Ela está com febre. – Ele disse, para todo mundo. – Vou levá-la para a ala hospitalar.


Não, bobo, eu sou sempre assim mesmo. Ela teria dito.


Mas ela desmaiou alguns instantes depois, sem forças para se manter acordada.

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