Capítulo 11



Capítulo 11

- Eu realmente agradeço pelo seu tempo, Savannah. - Savannah esticou as longas pernas e olhou para o gravador que Hermione pusera na mesa entre elas.
- Não tem problema. Eu tenho tempo. - Hermione examinou a sala de estar da cabana, luminosa e amontoada.
Layla sentava-se no tapete próximo e emitia ruídos de motor enquanto fazia correr um grande caminhão de plástico.
- Uma mulher com um filho ativo e dois bebes de fraldas não tem muito tempo disponível. Só fica doideira aqui dez a doze vezes por dia. - Savannah lançou um olhar à filha. - Agora parece uma calmaria.
- Como você consegue? - perguntou Hermione. - Quer dizer, três filhos, um novo bebê, sua casa, sua vida.
- O primeiro segredo é gostar. E eu gosto. Como eles não estão aqui para ficar convencidos, eu lhe digo que meus homens fazem a sua parte.
- Você tem uma bela família. - Ouvindo a melancolia em sua voz, Hermione livrou-se dela. - Deixe-me explicar o que procuro. O livro em que estou trabalhando trata especificamente de Antietam, da batalha, claro, mas os ângulos que mais me interessam são as lendas que cercam esta área, as experiências pessoais.
- As histórias de fantasmas.
- De certa forma. A ligação com os Potter. - continuou Hermione. – Gina e Draco. Os dois foram atraídos para a pousada e partilharam experiências extraordinárias. Draco voltou para a cidade por causa da pousada, e Gina foi atraída a ela por ele. A pousada também desempenhou um papel importante na vida de Luna e Rony, e no relacionamento deles. Entrevistei cada um deles em separado, e um corrobora as experiências e sentimentos do outro. Algumas dessas experiências foram partilhadas, outras separadas, mas todas parecem tocar a história dos dois cabos.
- E você quer que eu conte a minha.
- É. Entrevistei Neville hoje de manhã no escritório dele. Oh, e queria dizer a você que adorei seus quadros. Em especial o da floresta.
- A floresta é nosso elo. Se quiser usar a palavra ligação, creio que é nossa. - Savannah estreitou os olhos ao lembrar. - A pousada exerce uma atração muito forte. O que Gina e Draco fizeram lá, e com Luna e Rony morando lá, é, não sei, produto de muita tristeza. Foi um lugar triste por muito tempo. Mas Gina me disse que você encontrou alguma informação sobre o cabo confederado.
- Franklin Gray, sim.
- Você disse que Abigail o identificou e localizou a família dele. - Pensando nisso, Savannah balançou a cabeça. - Foi muita coragem dela. E muita bondade.
- Abigail também tinha filhos. Deve ter imaginado o que sentiria a mãe daquele rapaz. A família do rapaz ianque jamais saberia. O outro cabo... - Hermione deu um suspiro, com apenas um indício de frustração. - Foi só o que consegui descobrir sobre ele até agora: lutou pela União e era cabo. Pelo menos é a informação passada pelas gerações dos Potter.
- O que os Potter fizeram por aquele rapaz também foi corajoso e bondoso. - comentou Savannah. - Mas você precisa saber quem era, não é? Saber o nome, ver a cova. Para resolver o caso.
- Acho que sim. Eles foram mortos há muito tempo, mas o caso parece... inacabado. Lutaram e morreram nas mãos um do outro, dois jovens comuns que jamais chegaram a viver de fato. Mas a morte deles afetou muitas outras pessoas. E parece que ainda afeta. Não é isso parte do que a gente sente nas matas, Savannah?
Savannah inclinou a cabeça.
- Quais as emoções que você considera as mais fortes, Hermione?
- Amor e ódio. Tudo mais deriva disso.
- E. - Satisfeita, Savannah sorriu. - Essa foi boa, para uma cabeça oca. De qualquer forma, foi o que senti nas matas. Amor, suponho, por Neville e pela casa. Ódio, mais o medo e a violência que o ódio deixa atrás. Por que nós dois fomos atraídos para lá, e mais fortemente para o lugar onde esses dois rapazes lutaram há mais de um século? Ligações? - Ela deu de ombros. - A necessidade de resolver o caso, ou suavizá-lo, ou compreendê-lo.
- E você fez isso?
Savannah ergueu uma sobrancelha.
- Neville lhe contou que a primeira vez que fizemos amor foi naquelas matas?
- Não, não contou.
- Na certa achou que ia deixar você constrangida. - Um sorriso cálido e absolutamente feminino curvou os lábios de Savannah. - A cabana estava vazia, havia uma cama em perfeitas condições no andar de cima, mas nós fomos para a mata. Porque era correto, porque estávamos... ligados. Porque o amor cura.
Hermione lembrou-se de Harry e do carinhoso presente que ele lhe dera.
- E, cura.
- Eu ficava sentada aqui e ouvia as folhas estalarem sob as botas, ouvia as respirações tremulas dos garotos amedrontados, os gritos de guerra, o choque das baionetas. Já os ouvia antes de ouvir a história.
Hermione estreitou os olhos com novo interesse.
- Você não sabia dos dois cabos quando veio para cá?
- Não. Neville me contou depois, mas eu já sabia. Não, sentia.
- Você se considera médium? - Savannah sorriu então.
- Não mais que qualquer um. - Um choro nervoso a fez olhar para a escada. - Hora da comida. - murmurou. - Volto já.
- Bebê. - disse Layla quando a mãe se dirigiu ao andar de cima. Engatinhando, entregou a Hermione uma boneca. - Bebê.
- Lindo bebê. - Compreendendo, Hermione beijou a boneca, depois a criança. - Quase tão lindo quanto você.
Com um piscar de olhos que vinha dos Potter, Layla espremeu a boneca com ferocidade e devolveu-a a Hermione, guinchando de prazer quando Savannah desceu com Miranda esperneando nos braços.
- Bebê, bebê, bebê. - arrulhou a mãe, dando beijos molhados no rosto rubro e furioso de Miranda.
- O bebe está com fome. - explicou Savannah, e revirou os olhos para Hermione. - E, não é que diz isso mesmo?
Hermione viu Savannah tagarelar com as duas filhas, os dedos abrindo os botões com habilidade. O bebê uivava, a mãozinha minúscula massageando o seio e a boca ativa encontrando o mamilo.
A inveja, pura e primal, que invadiu Hermione a chocou. Por causa disso, engoliu as perguntas que lhe vieram à mente. Qual é a sensação de amamentar o filho com o próprio corpo? É a intimidade que faz os olhos da gente se suavizarem?
- Prefere acabar isso depois? - perguntou.
- Não, agora está ótimo.
- Gina parece a Virgem Maria quando amamenta. - murmurou Hermione. - Você, não. - A sobrancelha erguida a fez dar uma breve risada. - Não é um insulto. Eu comprei um baralho de taro, parte da minha pesquisa. A Imperatriz é uma carta de felicidade, poder feminino. É o que você parece.
- Eu posso viver com essa.
- Bem.
Inspirando fundo, Hermione voltou ao trabalho. Fez as perguntas, fazendo a outra passar das generalidades para os pontos específicos, e depois para assuntos mais esotéricos. Quando acabou, o bebê voltara a dormir, a boca leitosa e frouxa.
- Agora eu gostaria de fazer uma pergunta. - disse Savannah, e levantou-se para acomodar Miranda em um berço ao lado da cadeira.
- Claro.
- Que pretende você, exatamente, fazer com tudo isso? Um livro, eu sei, mas não entendo bem como vai tratar o que eu lhe contei. O que todos lhe contamos.
- Quero me concentrar nas experiências dos três casais. E a influência das lendas em suas vidas. E intrigante, e romântico, a forma como o passado se sobrepôs ao presente e ao futuro de vocês. Seis pessoas que se tornaram três famílias. - explicou, gesticulando com as mãos para ilustrar. - Três famílias que formam em essência uma só. Todas as suas relações foram afetadas pelo que aconteceu há muito tempo aqui, antes de qualquer um de vocês ter nascido. Assim, até onde o passado nos influencia? Como atua o passado, a força do quem e o que foi, sobre os que estão abertos a ele?
- E você vai acrescentar todos os seus dados a isso, as provas e teorias?
- Correto.
- E sua reputação? - Savannah voltou-se. - Que vão dizer todos aqueles institutos e caras de terno que os dirigem sobre o interesse da dra. Granger pelo ocultismo?
- Alguns vão balançar a cabeça e achar que é uma pena uma cientista brilhante perder o juízo. Outros... bem, estão fazendo alguns excelentes estudos sobre o paranormal em alguns desses institutos. E... - sorriu -... como estou fazendo isso para mim mesma, na verdade não me importa o que eles pensem.
Savannah tornou a sentar-se, com Layla nos braços.
- Por que não conversou com Harry?
- Como?
- Você disse que ia entrevistar todos nós, e pretende usar todos nós no livro. Mas nunca falou de Harry.
- Ele não se sente à vontade com isso. - Hermione ocupou-se em repor o gravador na bolsa. - Tem sido muito tolerante com o que faço, mas não gosta. De qualquer modo, não se encaixa na equação. Seis pessoas, três casais. A ligação.
Balançando a cabeça, Savannah correu a língua nos dentes.
- Você sabe, matemática não é o meu forte, mas acho que são oito pessoas, quatro casais. - respondeu Savannah, e deu um tapinha na criança quando ela escorreu do seu colo e saiu em busca de outra diversão. - E a sua ligação? Você, Harry, a fazenda?
- Na verdade, não se aplica.
- Claro que se aplica. É óbvio que você se apaixonou por ele.
- E? - conseguiu dizer Hermione, relativamente calma. - Você está confundindo atração, afeto e relacionamento físico com... diabos. Tem certeza de que não é médium?
Coitada, pensou Savannah, solidária com qualquer mulher que caísse por um Potter.
- Você é um tipo bem controlado de mulher, Hermione. Não anuncia os sentimentos na cara. Mas eu vejo as coisas. - Savannah acenou com uma das mãos. - Eu sou uma artista e tenho xamãs como ancestrais. Pode atribuir a isso, ou ao fato de que uma mulher apaixonada muitas vezes reconhece outra.
Hermione baixou os olhos para as próprias mãos.
- Não sei se fico aliviada ou preocupada com essa conclusão.
- Eu gosto de você. Não gosto de todo mundo. Sou seletiva. Na verdade, não achava que gostaria de você de modo algum. - À vontade, tornou a esticar as pernas. - Uma intelectual profissional, cientista, todas aquelas iniciais no seu nome. Eu terminei o curso supletivo já grávida de Layla, e quando Gina falou de você eu apenas imaginei aquele enorme cérebro de óculos com aros de chifre.
A imagem fez Hermione dar uma breve risada. Já andara um bom caminho, pensou, quando tal descrição trazia mais alegria que dor.
- Se você me pintar desse jeito, eu penduro o quadro em meu apartamento.
- Feito. De qualquer modo, gostei de você. Gosto de você. Se tentasse montar uma mulher que servisse para Harry, não teria a menor semelhança com você. E estaria errada. O camponês e a cientista. - A expressão fez Savannah sorrir. Pobre Harry, pensou. Pobre e afortunado Harry. - Neste caso, deu certo. Que é que você vai fazer?
- Relaxar e aproveitar. Enquanto durar.
- E isso basta?
- E mais do que já tive. - Teria de pagar um preço, claro, pensou. Mas estava disposta a pagar. - Sou uma mulher prática, Savannah.
- Talvez. Mas até onde vai a sua coragem, e sua dedicação? Vai mesmo escrever um livro, tirar todo o tempo, empregar todo esforço, e deixar um pedaço fora? Seu pedaço, e o de Harry? Pode ignorar essa ligação?
Podia? Perguntou-se Hermione, ao voltar a pé para a fazenda pela mata. Pelo livro, sim. Podia e faria isso por Harry. Pessoalmente, aceitara que a ligação entre eles permaneceria consigo para sempre. Mas podia partir, ia partir. Ia magoá-lo, mas sobreviveria. Intelectualmente, sabia que ninguém jamais morrera de coração partido. Emocionalmente, desconfiava que alguns talvez morressem. Mas seria mais fácil viver depois de amar do que fora existir sem jamais conhecê-lo. Conhecia bem as tragédias gregas. Sempre havia prazer, e sempre havia pagamento.
Sabia que sua conta, por assim dizer, estava vencendo. Se Savannah podia ler seu coração, outros também podiam. Harry, por exemplo, e depois o pagamento se tornaria alto demais para suportar. Ele significava demasiado para ela, para que ela o pusesse em uma posição desconfortável. Teria de começar a pensar nesse primeiro passo de afastamento.
No dia seguinte era o aniversário da batalha. Era importante, e mesmo imperativo, ficar na fazenda o dia todo, e talvez o seguinte. Depois provavelmente seria melhor voltar para a casa de Gina passar alguns dias e voltar para Nova York. Hermione atravessou a floresta e olhou a fazenda. Saía fumaça da chaminé da lareira na sala de estar. Fazia frio suficiente para acenderem uma. Ela via a própria casa, casa forte, pedra forte, madeira pintada, os silos, telheiros e anexos.
Percebeu que seria quase tão doloroso deixar a casa quanto deixar Harry. Fora mais feliz ali do que jamais fora em sua vida. Encontrara o amor. Por isso ficaria mais agradecida que arrependida.
E melhor ir embora, importunava-a uma voz dentro do cérebro, do que correr o risco. De repente gelada, ela esfregou os braços e começou a atravessar o campo não cultivado.
Ouviu um carro passar zunindo pela curva da alameda e o rio parar ao lado da casa. Uma rápida e amistosa buzinada e os cachorros já corriam para receber a ruiva que saltou.
O ar estava límpido o bastante para trazer o riso da mulher até onde Hermione parara. E a distância não era tão grande que ela não visse o radiante sorriso de Harry ao sair pelo lado da casa para receber a outra. O ciúme fluiu e refluiu, fluiu e refluiu, em uma maré desagradável e imprevisível enquanto Hermione os via abraçarem-se na maior descontração, os braços da mulher trançados em torno do pescoço dele.
Oh, não, não faça isso, ela advertiu em silêncio. Ele ainda é meu. É meu até eu ir embora.
Os dois permaneceram juntos enquanto conversavam, e seguiram-se mais risadas, mais um beijo rápido, antes que a mulher se afastasse e voltasse a entrar no carro. Harry acariciou os dois cachorros, endireitou-se e acenou. Hermione soube quando ele a viu no campo e voltou para a casa. O carro disparou estrada abaixo entre eles, e desapareceu depois da curva.
- Ei. - Ele enfiou os polegares nos bolsos da frente. - Como vai Savannah?
- Ótima. Tive uma chance de olhar os quadros dela. São maravilhosos.
- É. - Com os instintos advertindo-o a prosseguir com cautela, ele tentou ler o rosto dela. - Ah, aquela era Frannie Spader. Você já conheceu Frannie.
- Eu julguei reconhecê-la.
Como eles queriam atenção, e era um bom ardil, ela se curvou para acariciar os cachorros.
- Foi uma visita rápida.
- Foi o que vi. Preciso transcrever as entrevistas.
- Hermione. - Ele tocou no braço dela para detê-la. - Não aconteceu nada. É uma amiga. Ela só deu uma passada aqui.
Foi em pura autodefesa que ela arqueou a sobrancelha.
- Por que acha que tem de dar explicações?
- Porque eu... Escute, Fran e eu éramos... Éramos... - concluiu furioso consigo mesmo. - Agora não somos, e não somos desde... bem, desde que você chegou à cidade. Somos amigos.
Oh, era uma satisfação vê-lo retorcer-se.
- Acha que eu exijo uma explicação?
- Não. Sim. - Diabos. Ele se imaginou dando um passeio e, na volta, encontrando-a aos beijos com outro homem. Alguém teria de morrer. - Não quero que você faça uma idéia errada, só isso.
- Acha que eu fiz uma idéia errada?
- Quer cortar essa? - ele exigiu, e afastou-se, depois voltou. - Eu odeio quando você faz isso.
- Quando eu faço o quê?
- Transforma tudo em uma pergunta. Como se sente? Que acha? - Voltou-se para ela, os olhos disparando chispas de mau humor. - Diabos, se tinha uma pergunta a fazer, devia ser: "Que diabos fazia você beijando outra mulher?"
- Você acha que uma demonstração de ciúme seria mais adequada? - Como ele apenas lhe armasse uma carranca, ela deu de ombros. - Sinto não poder satisfazê-lo. É claro que você tinha uma vida antes da minha chegada, e terá outra depois que eu me for.
- E isso aí. Jogue o passado em minha cara.
- Acha que estou fazendo isso? - Ele rosnou.
- Será que não consegue brigar como uma pessoa comum?
- Só quando há alguma coisa pela qual brigar. Suas amigas são problema seu. E como eu não faço idéia de quantas dessas... amigas... eu posso encontrar toda vez que vou à cidade, seria muitíssimo improdutivo me preocupar com isso.
O cérebro dele gritava mandando-o deixar isso para lá, mas a boca simplesmente recusava-se a obedecer.
- Escute Hermione, se eu tivesse dormido com tantas mulheres quanto as pessoas pensam, jamais teria saído da cama. E tampouco fiz sexo com todas as mulheres com as quais saí. Eu não... Por que diabos estou lhe dizendo isso?
- Ia ser minha pergunta seguinte. E em minha opinião o que você faz é projetar sobre mim... seus sentimentos, sua reação antecipada a uma situação. Além disso, há o sentimento de culpa, e a irritação resultante dessa culpa. Ao transferir a irritação de si mesmo para mim, você...
- Cale a boca. - Com os olhos tão voláteis quanto uma tempestade no mar, ele agarrou o rosto dela nas mãos. - Ela apareceu para perguntar se eu queria sair mais tarde. Eu disse que não. Ela perguntou se eu estava envolvido com você. Eu disse que sim, muito envolvido. Conversamos mais um minuto, ela disse que me veria por aí. Só isso. Satisfeita?
Ela sentiu o coração dar um ligeiro tropeço. Mas sua voz era calma e levemente curiosa:
- Eu teria a impressão de estar chateada?
Os olhos dele se estreitaram e brilharam. Hermione achou bastante satisfatório. Quase tão satisfatório quanto o xingamento dele ao girar nos calcanhares e afastar-se.
Belo trabalho, sra. Hermione Granger, ela disse a si mesma. Achava que Harry não ia sair beijando mais ninguém durante algum tempo. Cantarolando baixinho, entrou em casa.
Na verdade tinha trabalho a fazer, pensou, e bateu em um dos monitores de vídeo ao passar. Mas podia tirar um momentinho para saborear a presunção.
O coitado fora tão previsível. Reações clássicas. Susto com a idéia de que alguma coisa, por mais inocente que fosse, pudesse ser interpretada errado. Além do peso á mais de sua infame carreira de conquistador. Não mulherengo, ela pensou. Um dia ela talvez lhe explicasse a diferença entre um homem que amava e apreciava as mulheres e outro que as usava.
E depois, pensou, enquanto se dirigia com um risinho à cozinha, o nervosismo, depois a irritação com a razão racional dela. Impacto direto no ego.
Era muito mais interessante estudar os jogos que homens e mulheres faziam uns com os outros quando se estava no meio do campo do que quando se observava das arquibancadas.
Ela podia escrever um trabalho sobre o assunto, pensou, dirigindo-se à janela. Depois de conseguir bastante distância emocional. A essa altura, saberia não apenas como era apaixonar-se, estar apaixonada, mas perder no amor.
Um dia talvez tivesse a coragem para lhe perguntar o que significava para ele, o que o tempo que haviam passado juntos significara para ele no plano geral. É, pensou, divertida consigo mesma. Talvez encontrasse a coragem para isso dentro de uma ou duas décadas.
Dizendo-se que o importante era o agora, e perguntando-se se esse pequeno incidente lhe valeria mais flores, decidiu arriscar-se a preparar o jantar sozinha. Na verdade tudo não passava de fórmulas, afinal. E tinha na bolsa a fórmula - não a receita, lembrou - de frango frito dada por Gina. Pegando-a, leu-a toda e memorizou-a. Como a cozinha de Harry não oferecia aventais, enfiou um pano de prato na cintura das calças e empenhou-se em algumas sérias experiências.
Ao empanar o frango com farinha temperada com ervas, descobriu que aquilo tranqüilizava mesmo. Pelo menos em um nível casual. Imaginava que se alguém tivesse de planejar, cozinhar, cuidar do tempo e da bagunça dia após dia, refeição após refeição, seria tedioso.
Mas como passatempo, tinha lá suas vantagens. Se ela conseguisse evitar que esse passatempo se tornasse vocação, como tantas outras haviam feito, estaria muito bem.
Com o frango fritando no óleo quente, em uma caçarola de ferro fundido, ela recuou e parabenizou-se. Cheirava bem, parecia bom, tudo nos conformes. Logo, segundo as leis básicas, devia ter gosto bom. Harry não ficaria surpreso, e talvez até perplexo, quando entrasse e encontrasse o jantar em preparo? Era hora da ordenha, ela pensou, espetando o frango crocante com um garfo de cozinha. E a noite chegava mais cedo, à medida que os dias se encurtavam rumo ao ainda distante inverno...
Veria as fogueiras do acampamento acesas se olhasse pelas janelas? Os soldados já se achavam muito perto, perto e à espera da madrugada da batalha.
Ela desejava que John entrasse. Assim que ele e os animais se instalassem, podiam fechar a casa. Estariam seguros ali. Tinham de estar. Ela não podia perder outro filho. Não sobreviveria. Nem John. Apertou com a mão a outra que cobria o ventre, como para protegê-lo de qualquer ameaça, qualquer dano. Esperava muitíssimo que fosse um filho. Não para substituir o que haviam perdido. Johnnie jamais poderia ser substituído ou esquecido. Mas se o bebê que carregava fosse homem, de algum modo aliviaria o pior da dor de John.
Ele sofria. Sofria tanto, e não havia conforto. Ela podia amá-lo, cuidá-lo, dividir a dor, mas não podia pôr-lhe um fim. As meninas tentavam, e sabia Deus que eram uma alegria. Mas Johnnie se fora. Cada dia em que a guerra continuava era uma dolorosa lembrança dessa perda.
Talvez acabasse ali. Ela voltou-se para o frango na caçarola, como fizera tantas vezes na vida. Seria alguma espécie de justiça, aquela horrível guerra acabar ali, onde seu filho nascera?
Estaria o homem que o matara lá fora, nessa mesma hora, sentado, à espera, no acampamento da União? A quem mataria no dia seguinte? Ou seria o sangue dele que encharcaria a terra por onde ela andara por tantos anos? Por que não iam embora? Simplesmente ir embora e deixar os vivos em paz com suas mágoas...
A gordura quente saltou da panela e queimou a mão de Hermione. Ela mal a sentiu ao recuar cambaleando. Emoções, idéias, palavras, sons se misturaram em sua cabeça. Possessão, pensou vagamente. Aquilo era possessão. E pela primeira vez na vida desmaiou. Disposto a uma briga, Harry entrou pela porta.
- E mais uma coisa... - começou, antes de ver Hermione desabada no chão da cozinha, antes de sentir o coração parar. Adiantou-se correndo e caiu ao lado para tomá-la nos braços. - Hermione. - Correu as mãos pelo rosto dela, esfregando-lhe os pulsos. - Hermione, vamos. Acorde!
Desajeitado de tanto terror, balançava-a, beijava, implorava. Até que ela abriu os olhos, confusa.
- Harry...
- Está tudo bem. - O alívio percorreu-o como uma inundação. - E só ficar imóvel, querida, até sentir-se melhor.
- Eu era ela. - murmurou Hermione, combatendo a névoa. - Eu fui ela por um minuto. Preciso verificar meu equipamento.
- Ao diabo com seu equipamento. - Era dolorosamente fácil mantê-la no lugar. - Obedeça e fique imóvel. Bateu com a cabeça? Está machucada em alguma parte.
- Eu não... acho que não. Que foi que houve?
- Diga você. Eu entrei e encontrei você no chão.
- Deus do céu. - Ela inspirou fundo, firmando a respiração, e deixou a cabeça repousar na curva do braço dele. - Eu desmaiei. Imagine só.
- Não tenho de imaginar. Você simplesmente tirou dez anos da minha vida. - Agora, claro, a fúria cobria o medo. - Por que diabos você desmaiou? Comeu hoje? Diabos, você nunca come o suficiente para manter vivo um passarinho. Também não dorme o suficiente. Dorme quatro ou cinco horas e depois já está rondando por aí, digitando ou matraqueando naquele estúpido computador. - Estava exaltado, mas não conseguia parar. - Bem, isso vai ter de mudar. Você vai começar a se cuidar. Não passa de ossos e nervos. Não lhe ensinaram nada sobre as necessidades físicas básicas? Ou acha que não se aplicam a você?
Ela deixou-o falar até sentir que a cabeça parara de girar. Harry seguia dizendo que ia levá-la ao médico, interná-la em um hospital, comprar vitaminas. Acabou por tomar-lhe a mão e levá-la à boca.
- Eu jamais desmaiei na minha vida, e como não gostei, não pretendo fazer disso um hábito. Agora, se acalme e me deixar levantar. O frango está queimando.
Ele disse uma coisa incrível e improvável quando aplicado a frango queimado, mas levantou-a e a fez sentar-se em uma cadeira. Rapidamente, desligou o fogo.
- Que diabo você estava fazendo?
- Cozinhando. E acho que ia ser um belo sucesso, ainda por cima. Talvez possa ser salvo.
Ele grunhiu, voltou-se para a torneira da pia e encheu um copo d'água.
- Quer beber?
Hermione ia responder que era ele quem precisava mais daquilo, mas achou melhor não. Obediente, bebericou a água.
- Eu estava cozinhando - tornou a dizer - e deixei a mente vagar. E aí não eram mais minhas idéias. Eram muito claras, muito pessoais, pode-se dizer. Mas não minhas. Eram de Sarah.
Um gelo escorreu pela espinha dele.
- Você só está se deixando envolver por essa coisa toda.
- Harry, eu sou uma mulher sensata. Racional. Sei o que aconteceu aqui. Ela estava fazendo frango. - Com um balançar de cabeça, Hermione pôs o copo na mesa. - Não é estranho que eu tenha decidido tentar a receita de Gina esta noite, 16 de setembro? Sarah estava fazendo frango na noite antes da batalha.
- Então agora você sabe o que eles comiam.
- Sei. - ela respondeu, enfrentando o sarcasmo dele. - Agora eu sei. Ela estava fritando o frango, preocupada com a família, e pensando no filho e no bebê que trazia no ventre. Imaginando quem ia morrer pela manhã. Os soldados acampavam não muito longe daqui, à espera da madrugada. Ela fritava o frango, o marido estava fora com os animais. Ela queria que ele entrasse, para fecharem a casa toda e apenas ficarem juntos. Preocupava-se com ele. Tinha feito tudo para acalmar a mente dele.
- Acho que você anda trabalhando demais. - disse Harry, com cuidado. - E que se deixou influenciar pelo fato de que esse aniversário é amanhã.
Mais uma vez firme, ela se levantou.
- Você sabe que não é verdade. Sabe o que existe aqui e decidiu não enfrentar. Ê escolha sua, e eu respeito. Embora eu saiba que você sonha algumas noites, e que os sonhos o perturbam, respeito sua decisão e intimidade. Espero que demonstre o mesmo respeito por meu trabalho e necessidades.
- Meus sonhos são problemas meus.
- Foi o que eu acabei de dizer. Não estou lhe pedindo que me conte nada.
- Não, nunca pede, Hermione. - Ele enterrou as mãos nos bolsos. - Só espera e cansa a gente com a espera. Eu não quero tomar parte nisso.
- Quer que eu vá embora? - Como ele não respondeu, ela se preparou e falou calmamente. - Acho que vou ter de perguntar. E importante para mim estar aqui pela manhã. Não posso lhe dar dados claros e racionais do motivo, só meus sentimentos. Gostaria muito que me deixasse ficar, pelo menos mais um dia.
- Ninguém pediu que você vá embora, pediu? - Ele cortava as palavras, já furioso consigo mesmo. Por que entrar em pânico com a idéia de ela fazer as malas. Jamais houvera promessas. Ele não as fizera, não as quisera. - Se quiser ficar, fique, mas me deixe fora disso. Eu preciso terminar alguns trabalhos e depois vou sair.
- Tudo bem.
Ele queria desesperadamente que ela perguntasse para onde, e lhe haveria arrancado a cabeça se ela o questionasse. Claro, Hermione não o fez, por isso ele não pôde. Pôde apenas sair, quando tudo que desejava era ficar.




Compartilhe!

anúncio

Comentários (0)

Não há comentários. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.