Capítulo 10



Capítulo 10

Havia muitos lugares para falar com os fantasmas. Uma mente aberta não precisava de noite escura, ventos uivantes ou turbilhões de neblina. O dia estava luminoso e belo. Os topos das árvores, tocados pelo outono, reverberavam em dourados e rubros contra um céu tão azul que parecia pintado em tela.
Ouvia-se o canto dos pássaros e sentia-se o cheiro da grama recém-aparada. Os campos estalavam com as espigas de milho postas a secar e, como um milagre, uma solitária corça parara na borda da mata e farejava o ar em busca de algum odor humano.
Hermione chegara sozinha ao campo de batalha. Cedo. Demorara-se ali, perto da longa depressão no terreno conhecida como Trilha Sangrenta. Conhecia a batalha, cada ataque e recuo, e o horrível estágio da luta quando os homens haviam caído e jazido em pilhas embolados naquela cavidade de aparência inocente.
A torre no fim do campo fora construída muito depois da guerra. Ela a subira antes, sabia que a vista do alto era gloriosa. Dali, viam-se a pousada, as matas, parte dos campos de Harry.
Mas não a atraía como aquele local. Ali, no chão, não havia muita distância entre os vivos e os mortos.
Ela sentou-se na grama, sabendo que ia sentir apenas tristeza, uma ligação intelectual com o passado. Tão absorvente, tão aureolada quanto o terreno, ela só podia ser historiadora.
Os fantasmas não falavam com ela, pelo menos não ali. Para ela a chave estava na fazenda. A fazenda que agora lhe assombrava não apenas os sonhos, mas também as horas de vigília. Ela aceitava isso. Mas qual era a ligação? Qual o elo emocional? Um elo tão forte que a atraíra durante anos e a milhares de quilômetros.
Isso ela não sabia.
Sabia apenas que estava apaixonada.
Ergueu o rosto para a brisa, deixou-a correr os dedos pelos seus cabelos, como Harry muitas vezes fazia. Como poderia estar tão contente, e apesar disso tão perturbada? Havia muitas perguntas não respondidas, muitos sentimentos não resolvidos. Ela se perguntava se o amor era assim.
Seria tão passiva, tão sem exigências aos outros, que aceitava tão facilmente o que Harry oferecia? Ou tão necessitada, tão faminta de amor, que se inquietava querendo mais quando já tinha o suficiente?
De qualquer modo, isso provava que parte dela, com fundas raízes, não mudara. Talvez jamais mudasse.
Harry se preocupava com ela, desejava-a. Sentia-se pateticamente grata por isso. Ele ficaria chocado se soubesse, tinha certeza. Ia guardar o segredo consigo, do mesmo modo como guardava para si aquele amor incrível e arrasador por ele.
Tinha muita prática na contenção e restrição de suas emoções.
O bom senso dizia-lhe que estava sendo gananciosa. Queria todo o amor, a paixão, a resistência que havia naquela casa para ela. Queria a estabilidade, a constância e a aceitação da casa.
Ela era a transitória, como sempre fora.
Mas não ia embora de mãos vazias desta vez, e esse pensamento a tranqüilizava. Não seria apenas uma troca de conhecimento, mas de emoção, mais emoção do que ela algum dia recebera e mais do que já dera. Era uma coisa para comemorar, e entesourar.
Devia bastar para qualquer um.
Sentada sozinha, fitava o campo, a encosta da colina, a estreita trincheira. Tão pacífico, tão intocado, e com uma beleza terrível. Estudara história suficiente para conhecer as estratégias da guerra, as motivações sociais, políticas e pessoais por trás. O bastante, também, para compreender a atmosfera romântica que a acompanhava.
A música, o rufar do tambor, as bandeiras agitadas e o brilho das armas.
Imaginava o ataque, homens correndo feito loucos em meio à fumaça do fogo de canhão, olhos avermelhados, dentes expostos. Os corações martelavam, rugindo de sangue. Eram homens, afinal. Medo, glória, esperança, e um pouco de loucura.
O primeiro choque das baionetas. O sol faiscando no aço. Haveriam os corvos esperado, maus e pacientes, atraídos pelo barulho das espadas e o troar do morteiro?
Do Norte ou do Sul, haviam corrido para a morte. E os generais nos cavalos, jogando xadrez com vidas, como se sentiram, o que pensaram, vendo a carnificina ali? Os corpos empilhando-se, azul e cinza unidos pela mancha de sangue. Os gritos infelizes dos feridos, os berros dos agonizantes.
Ela tornou a suspirar. Guerra era perda, pensou, independente do que se ganhava.
Sempre haveria um John e uma Sarah, a essência dos pais enlutados de filhos mortos. A guerra roubava famílias, refletiu Hermione. Cortava pedaços de corações que jamais poderiam sarar de fato.
Assim construímos monumentos às guerras, e aos filhos mortos. Dizemos a nós mesmos que não devemos esquecer. John e Sarah jamais esqueceram. E o amor resistiu.
Isso a fez sorrir ao levantar-se. A grama era verde ali, e o ar parado. Ela concluiu que o mundo precisava de lugares de perda para ajudá-lo a lembrar o que tinha.
Foi para casa escrever.
Era quase hora da ordenha vespertina, percebeu Hermione, e riu consigo mesma. Que coisa mais curiosa medir o dia pelas tarefas da fazenda. Balançando a cabeça, digitou a frase seguinte.
Por que passara a vida toda escrevendo trabalhos técnicos?, perguntou-se. Aquele fluxo de emoção, pensamento e imaginação era tão libertador. Ao diabo se não achava que podia acabar escrevendo um romance um dia.
Dando risadinhas da idéia, enfiou-a no fundo da mente. Muita gente consideraria seu tema atual, o sobrenatural, pura ficção.
Quando o telefone tocou, ela deixou a idéia seguinte rolar na cabeça e levantou-se para atender. Estendeu meio ausente as mãos para o bule de café e o telefone ao mesmo tempo.
- Alô?
- Dra. Hermione Granger, por favor.
Ela enrijeceu-se e ordenou-se que relaxasse. Por que a surpreendia, e até aborrecia, o fato de não reconhecerem sua voz?
- Aqui é Hermione. Alô, mãe.
- Hermione, tive de recorrer ao seu trabalho para localizar você. Achava que você estava em Nova York.
- Não, não estou. - Ouviu a porta se abrir e conseguiu dar um sorriso casual, embora rígido, a Harry. - Estou passando um tempo em Maryland.
- Circuito de conferências? Eu não soube.
- Não, não estou em um circuito de conferências. - Visualizava facilmente a mãe percorrendo o arquivo para anotar. - Estou... estou fazendo pesquisa.
- Em Maryland? Sobre o quê?
- A Batalha de Antietam.
- Ah. Isso já foi coberto de forma muito adequada, você não acha?
- Vou abordar por um ângulo diferente. - Afastou-se para que Harry chegasse ao café, mas não o olhou. - Posso fazer alguma coisa por você?
- Na verdade, eu é que posso fazer alguma coisa por você. Onde diabos você está hospedada, Hermione? E muito inconveniente você não ter me avisado. Eu preciso de um número de fax.
- Estou hospedada com uma amiga. - Deu as costas, evitando os olhos de Harry. - Não tenho fax aqui.
- Certamente tem acesso a um. Não está na Idade Média.
Então Hermione olhou para Harry. Sentiu o cheiro de terra, do qual trazia um bocado no próprio corpo.
- Não exatamente. - respondeu seca. - Vou ter de verificar isso e lhe telefono de volta. Você está em Connecticut?
- Quem está é seu pai. Eu estou em um seminário em Atlanta. Você pode me ligar no Ritz-Carlton.
- Tudo certo. Posso perguntar do que se trata?
- Uma senhora oportunidade. O diretor do departamento de história da universidade em que me formei vai se aposentar no fim deste semestre. Com suas credenciais e minhas ligações, não vejo por que você teria alguma dificuldade de conseguir o emprego. Fala-se em abrir uma cátedra. Seria um senhor negócio, em vista de sua idade. Aos 24 anos, acho que você seria a mais jovem dos chefes de departamento ali.
- Eu fiz 25 em março passado, mãe.
- Mesmo assim, ainda seria um senhor negócio.
- É, sei que seria, mas não estou interessada.
- Não seja ridícula, Hermione.
Ela fechou os olhos um instante. Aquele tom, aquele tom rápido de descarte, a açoitara pelo caminho escolhido para ela toda a sua vida. Precisou de um esforço brutal e doloroso para manter-se controlada.
- Receio que tenha de ser. - E de onde vinha aquela voz fria e sarcástica? Perguntou-se. - Não quero lecionar, mãe.
- Lecionar é o mínimo, Hermione, como você bem sabe. O próprio emprego...
- Eu não quero ser catedrática de história, nem chefe de departamento, em lugar nenhum. - Teve de interromper-se rápido, ao reconhecer o velho e familiar embrulho no estômago. - Mas obrigada por se lembrar de mim.
- Não estou satisfeita com sua atitude, Hermione. Você é obrigada a usar seus talentos, e as oportunidades que seu pai e eu lhe proporcionamos. Um avanço dessa estatura fará a sua carreira.
- Que carreira?
Ouviu um suspiro. Resignado.
- Obviamente você está em um humor difícil, e vejo que não haverá gratidão. Mas vai depender do seu bom senso. Mande-me seu número de fax o mais breve possível. Estou meio com pressa no momento, mas espero ter notícias suas pela manhã. Tchau.
- Tchau, mãe.
Hermione desligou e deu um sorriso brilhante para Harry, mais que brilhante, enquanto os músculos do estômago se fechavam em um nó.
- Bem, já pôs todas as vacas para dormir?
- Sente-se, Hermione.
- Estou morrendo de fome. - Aterrorizada pelo receio de que ele a tocasse e ela desabasse em lágrimas, ela se afastou. - Acho que ainda tem um pouco daquele bolo de chocolate que uma das mulheres do seu harém trouxe.
- Hermione. - A voz dele soou calma, mas tinha os olhos perturbados. Notou que ela continuava apertando a barriga com a mão, como se sentisse alguma dor lá dentro. - Acho que você deve se sentar.
- Posso fazer um pouco de café. Já desvendei essa coisa. - Ia estender o braço para pegar a lata, mas ele se adiantou e a tomou delicadamente pelos ombros. - Que foi? - ela perguntou, e a palavra se partiu, o corpo tremendo.
Cuidado, ele pensou, perturbado pela expressão frágil nos olhos dela.
- Então você é de Connecticut.
Ela hesitou, depois encolheu os ombros sob as mãos dele.
- Meus pais moram lá.
- Onde você foi criada.
- Não exatamente. Eu morava lá quando não estava na escola. Você não precisa beber isso. - acrescentou, olhando a panela. - Está aí há horas. Eu disse que ia fazer café fresco.
- Que foi que ela disse que perturbou você, querida?
- Nada. Não é nada. - Mas ele continuou a segurá-la, a olhá-la com infinita paciência e preocupação. - Ela quer que eu faça campanha por um emprego na universidade. E uma posição de muito prestígio. Não estou interessada. Uma divergência de opiniões, e ela não está acostumada a me ver ter uma opinião.
Era muito simples, ele pensou, ou devia ser. Mas nada de simples havia na reação dela.
- Você disse não.
- Não tem grande importância. Nunca teve, nas raras ocasiões em que eu de fato arrumei coragem para dizer. Espero que meu pai ligue em breve, para me lembrar de minhas obrigações e responsabilidades.
- Com quem?
- Com eles, com a educação, a posteridade. Eu tenho a responsabilidade de usar meus talentos, e colher as recompensas. Apenas uma variação do "Publique ou pereça", o grito de guerra do mundo acadêmico. Vamos esquecer.
Ele deixou-a afastar-se, porque ela parecia precisar disso. Hermione tinha as mãos firmes ao medir o café, e o rosto pálido quando encheu a panela.
Então, com um arrepio, ela largou tudo.
- Eu não acredito que estou fazendo isso. Foi assim que fiquei com úlceras.
- De que diabos você está falando?
- Úlceras, enxaquecas, insônia, e um quase colapso nervoso. Não foi por isso que estudei psiquiatria? - Não falava com ele, percebeu Harry, por isso ficou calado. Mas começava a arder por dentro. - Repressão não é a resposta, eu sei disso. E uma das coisas que punem o corpo pelo que ficou preso na mente. E sempre muito mais fácil analisar os outros, e muito mais difícil ver tudo quando se trata de nós mesmos. - Passou as mãos rígidas pelos cabelos. - Não vou deixar que me manipulem desta vez. Não vou deixar que me martelem até eu ceder. Ao diabo com eles. Ao diabo com eles. Jamais fizeram coisa alguma, além de me tornar uma aberração neurótica e infeliz. - Tornou a voltar-se para ele, e não tinha mais o rosto sem expressão, mas lívido. - Sabe como é ter quatro anos e esperarem que você leia Dante em italiano, e discuta? Sentar-se à mesa do jantar, quando não lhe enfiaram em algum outro lugar, e ser interrogada sobre física ou conversar sobre o Renascimento, em francês, naturalmente?
- Não. - ele respondeu em voz baixa. - Por que não me conta como é?
- E horrível. Horrível. Seus próprios pais encararem você como uma coisa, um excitante sucesso da genética. Eu odiava, mas que escolha a gente tem quando é criança? Faz o que esperam que faça. Então vira um hábito e você acaba fazendo o que eles querem, mesmo não sendo mais uma criança. Um dia você olha no espelho e vê uma coisa tão patética que dói olhar. E se pergunta: por que simplesmente não acabar com tudo?
A raiva dentro dele transformou-se em um choque que o deixou de boca seca.
- Hermione.
Impaciente, ela balançou a cabeça.
- Talvez a gente fantasie, até mesmo fique obcecada com isso. E você é inteligente, tão inteligente que pode encontrar o caminho mais eficaz, mais indolor, para conseguir. E, claro, o mais arrumado.
Ele ficou mudo. Ela o deixara abalado, e ele ficara gelado até a medula. Aquela mulher, aquela linda e preciosa mulher, pensara em acabar com a própria vida.
Ela esfregou, meio ausente, o meio da testa, onde a dor de cabeça latejava.
- Mas você é inteligente demais, bem programada demais, para tolerar esse tipo de desperdício. Você se assusta um pouco com a compreensão de que pode realmente fazê-lo, por isso decide, em vez disso, como pessoa prática, estudar o comportamento humano, psiquiatria. Uma saída muito mais produtiva, no todo.
- Que idade você tinha... - ele conseguiu perguntar, mas teve de inspirar para estabilizar-se antes de continuar. - Que idade você tinha quando...
- Pesquisei o suicídio? - ela perguntou calma. - Doze anos. Uma idade perigosa, tendo de lidar com as mudanças hormonais. Um choque para o sistema arregimentado. Você tem de lembrar a si mesma que a vida, por mais miserável que seja, é tudo que tem, e seguir com ela. É mais fácil seguir com ela se você simplesmente fechar as portas, trancar-se atrás de livros e teorias, credenciais e diplomas. Até compreender que se trata apenas de um tipo diferente de suicídio. - Inspirou fundo e demorado. - Estou cansada. - murmurou, esfregando o rosto com as mãos. - Eles me deixam tão cansada...
Ulceras, colapso. Deus do céu, suicídio. Que diabos haviam feito com ela? Ele queria rasgá-los ao meio. Todos eles. Qualquer um que houvesse ignorado o coração dela para chegar à mente. Queria desesperadamente retornar no tempo e encontrar a menininha, dar-lhe tudo que ela precisava e merecia.
Mas só conseguia chegar à mulher.
- Venha. - Harry aproximou-se dela e a apertou com força e delicadeza, apesar da tempestade que rugia dentro dele. Ela precisava de sua calma, não de sua fúria. - Só se encoste um pouco em mim.
- Estou bem.
- Não, não está. Mas vai ficar. - Ele ia cuidar disso muito bem. - Apóie-se em mim, querida.
Ela o fez, e era tão fácil!
- Ela não fez nada errado, na verdade, não. Não vemos uma outra há mais de um ano. Duvido que ela ou meu pai me reconhecessem se cruzássemos na rua. A mudança ia surpreendê-los.
Ele esfregou a face nos cabelos dela. Sentiu-a tão frágil. Por que não vira isso antes? Onde deixara de olhar para ver aquele lado ferido e vulnerável dela?
- Não importa o que eles pensam, só o que você quer.
- A gente não se pode ter sempre o que deseja. Um dia eu quis que eles me amassem. Teria feito qualquer coisa se eles apenas dissessem que me amavam. Sabe qual é o problema de uma memória como a minha? A gente não esquece nada, mesmo quando quer. Lembro quando me mandaram pela primeira vez para um internato. Eu sentia tanto medo, tanta solidão e infelicidade. Eles me puseram em um avião, nem sequer me acompanharam. Eu tinha seis anos de idade.
- Oh, querida, eu sinto tanto.
- Eles viam que eu tinha uma mente adulta, mas jamais levaram em conta o coração da criança. Bem, eu já sou adulta. Devia lidar melhor com isso.
- Está lidando muito bem.
- Não muito, mas melhor. - Ela afastou-se um pouco. - Desculpe. Se você chegasse uma hora depois, eu já teria superado.
- Eu quero que você me conte o que sente. - Muito delicadamente, ele baixou a cabeça e tocou os seus lábios nos dela. - Quero saber quem é você, e como chegou lá. Não consegui decifrá-la, Hermione. Todos esses pedaços diferentes de você parecem jamais se encaixar. Agora começam. Faça-me um favor.
- Qual?
- Não ligue de volta para ela. Deixe de molho. - Ela deu um breve sorriso.
- Seria rude.
- É? E dai?
- Ela simplesmente vai ligar de novo. E meu pai. Eles... - Para provar o que ela dizia, o telefone tocou. - Aí está.
Ele apertou mais os ombros dela antes que ela pudesse se mover. Não permitiria aquele ar de tristeza no rosto dela enquanto ele ali estivesse para protegê-la.
- Não estou ouvindo nada.
- O telefone.
- Não temos telefone. - Pensando apenas em proporcionar paz a ela, ele tornou a beijá-la. E aproximou-se um pouco também. - De qualquer modo nós não estamos aqui.
- Onde estamos?
Ele enfiou o braço sob os joelhos dela e levantou-a.
- Em qualquer lugar que você queira. - Como o telefone continuava a tocar, ele levou-a para fora da sala. - Desde que demore realmente muito tempo para chegar lá.
Quando chegou ao quarto, colocou-a no chão. O telefone parara de tocar, e ele tirou-o do gancho e o pôs em uma gaveta para abafar o barulho.
- Isso deve servir.
- Você nem sequer tem secretária eletrônica. Isso vai deixá-los doidos.
- Ótimo. - Ele gostaria de uma oportunidade de falar com qualquer um dos pais. Mas isso podia esperar. No momento, tinha apenas uma prioridade: apagar o ar perturbado do rosto de Hermione. - Então, aonde quer ir?
Ela balançou a cabeça, com uma expressão intrigada.
- Eu achava que já estávamos lá.
- Este é apenas o ponto de partida. - Ele correu o dedo pelo colete que ela usava sobre uma camisa masculina. - Uma ilha tropical? Um... como se chama... chalé na montanha? Podíamos ficar presos pela neve. Um castelo, talvez. - Ele roçou os lábios na testa dela. - Vamos fazer de conta.
- As fantasias muitas vezes são... - Ele deslizou os lábios pelos dela.
- Vamos fazer de conta. Uma praia comprida e vazia, areia branca, palmeiras. Sinta o cheiro das flores. - Beijou delicadamente os olhos fechados dela. - Ouça as ondas. Vamos para lá. Eu adoro a aparência da sua pele à luz da lua. - Mordiscou-lhe os lábios, afastando o colete e devagar, muito devagar, abriu os botões da camisa. - O luar bate na água, em você. Bela Hermione. - Enconchou de leve os seios dela. - Venha comigo.
- A qualquer parte. - ela murmurou, e deixou que ele a tomasse.
- Não há ninguém além de nós. - Ele tirou a sua camisa, sem desgrudar-se da boca, dos lábios, da face, da curva da orelha dela. - E nada a fazer além de amor. Quero fazer amor com você, Hermione. Só você, Hermione. Noite e dia.
As palavras seduziam-na. As palavras eram poderosas, sabia, e as dele a cativavam. Ela alisava-lhe a pele, maravilhosamente lisa e quente. Sentia o coração dele bater devagar e denso contra o dela. Juraria que ouvia as ondas chiando e subindo na areia.
- Na onda. - disse sonhadoramente, enquanto aquelas mãos maravilhosas deslizavam sobre ela. - A água subindo e baixando.
- Correto. Sua pele molhada e fria. Escorregadia. - ele disse, continuando a despi-la e a si mesmo. - E com gosto de sal. - Ainda murmurando, baixou-a na cama. - A luz das estrelas em seus olhos. - Via isso mesmo, embora os últimos raios de sol entrassem enviesados pelas janelas. - Prata faiscando sobre ouro. Podemos ficar o tempo que você quiser. O tempo que você quiser.
Deslizou a boca sobre a dela, dando, recebendo, recebendo apenas mais um pouco quando ela amaciou os lábios em um suspiro. Embaixo dele, o corpo dela era macio, cedia, entregava-se. Ele sabia que a tinha consigo agora. Pulso com pulso. Queria mostrar a ela o que era ser querida.
Por isso suas mãos eram delicadas, os lábios ternos, e cada movimento, cada mudança de posição, fluidos e pacientes. Amorosas. Ele se demorava onde sabia que mais agradava a ela, indo em silêncio, fácil, afundando um pouco mais a cada passada de mão na fantasia que criara para ela.
Hermione flutuava. Como se a água escorresse por ela, de tão sensíveis eram as mãos dele. E a dádiva que ele lhe trazia era um líquido anseio tanto da alma quanto do corpo.
Ela sonhava que havia areia embaixo deles, molhada e lisa. E o vento nas janelas era o murmúrio musical das ondas. A luz baça parecia rica e prateada com a lua cheia em ascensão. O exótico perfume das flores da ilha, o mar da meia-noite a se estender para sempre, o canto romântico dos pássaros tropicais.
E o amante ali com ela, segurando-a.
- Onde anda você, Hermione?
- Com você.
- Fique comigo.
Ela envolveu-o com os braços.
Ele amava-a eternamente, acelerando o ritmo, deixando a corrente elevá-la, cobri-la. Quando ela desabou, ele ali estava para pegá-la, para recomeçar toda a jornada. Sabendo-a perdida em si, neles, era a coisa mais excitante que já sentira. Cada suspiro, cada gemido, cada respiração dela que ele pegava, parecia música, com uma batida compulsória que ardia no sangue.
Ele mostrara-lhe que ela era querida. Agora mostraria que ansiava por ela.
Pensava apenas na tempestade que chegava.
Agora já desabara, louca, com ventos fortes, e as ondas açoitavam-na, ameaçando-a arrastar para baixo, para a rodopiante escuridão. E ela iria de boa vontade, desde que pudessem continuar juntos. Por isso agarrava-o, a boca desesperada na dele, forçando o corpo para cada queda dilacerante. Mergulhou as mãos nos cabelos, agarrou gananciosos punhados quando ele a ergueu para correr lábios e dentes pelo seu corpo.
Afogava-se, em toda glória. Em algum canto escuro da mente, ouvia sua própria voz pedindo mais.
O luar se fora. Agora havia apenas o raio, o berro do trovão. Ainda assim ele continuou a segurá-la, a atacar o seu organismo, destruir seus nervos. Ela sentiu os músculos dos braços dele quando ele mudou de posição e se pôs por baixo.
- Olhe para mim. - A voz dele era rouca, rude, os dedos enterrados fundo em seus quadris. - Olhe para mim. Quero ver os seus olhos.
Ela abriu-os, e com a visão oscilante viu o rosto dele. Tenso, esticado. Belo.
- Entre em mim. Agora, pelo amor de Deus, Harry. Eu preciso de você.
- Quem é você?
- Sua. - ela disse, e gritou quando ele a desceu sobre si.
Hermione não conseguia respirar, tinha certeza de que o coração parara. O corpo curvava-se para trás como um arco dobrado. Tonta, desfeita, ela passava as mãos acima e abaixo do próprio corpo trêmulo, da barriga aos seios, depois até os cabelos, onde se enredavam como para ancorá-la.
Ele jamais vira coisa mais bonita, mais excitante, mas emocionante, do que Hermione perdida em prazer. Viu-a deixar cair a cabeça, a intensidade do clímax que a percorria. Para saborear o momento, manteve-se imóvel, deixou-a absorver cada instante daquele ataque de sensação,
Então ela começou a balançar-se, e essa ritmada demanda o incitou a igualá-la. Mais rápido, até só importar a velocidade. Quando não mais pôde esperar por ela, ele agarrou-lhe as mãos, tomou-a, e arrastou-a para baixo consigo.
Ao sentir a mente mais clara, percebeu que o sol se pusera e o quarto ficara suave com as sombras. E que jamais em sua vida se sentira mais satisfeito.
Esperou até ela parar, o corpo esparramado sobre dele, a respiração quase regular.
- E aí, aonde quer ir agora?
O riso dela começou baixo na garganta, depois despejou-se ruidosamente para fora, como ele mais gostava.
- Por que não experimentamos aquele chalé na montanha? A neve seria uma mudança de ritmo legal.
- Boa idéia. Depois do jantar a gente pode...
- Depois do jantar uma ova.
Olhos perversos, ela ergueu a cabeça e começou mordiscá-lo.
- Ah, escute querida, eu... - Ele perdeu o fôlego quando ela deslizou para baixo e arranhou-lhe o mamilo com os dentes. - Talvez se você me desse uns dez minutos para...
Ela deslizou a mão mais para baixo, muito mais baixo. A praga dele foi baixa, reverente.
- Você tem uma reputação a manter. - ela murmurou, decidindo que gostava da idéia de bancar sedutora com um homem exausto. - Eu soube na cidade que você era... digamos assim... insaciável.
- E, bem. As pessoas exageram. Um pouco. - Dez minutos, pensou. Não, cinco, corrigiu-se, olhando aquele corpo nu, liso e estreito, que serpeava sobre o seu. Precisava apenas de cinco minutos para se recuperar. - Escute, por que nós não...? Nossa, você está ficando boa nisso!
Ela ergueu o olhar e riu, satisfeita consigo mesma!
- Eu tenho memória fotográfica, caso você tenha esquecido, e a mente muito rápida.
- E é você quem me diz. De qualquer modo, por que não tomamos um banho de chuveiro, ou damos uma cochilada. Acho que eu não me sairia bem agora. - Engoliu ar quando ela baixou a já ocupada boca. Imaginou se estava vesgo. - Mas também, talvez eu possa dar um jeito, afinal.
- Acho que podemos contar com isso. - Tomaram o banho de chuveiro depois. Hermione viu Harry enfiar a cabeça sob o jato d'água e gemer agradecido. Por detrás, ela envolveu-o com os braços e apertou a boca em suas costas molhadas.
- Nossa mulher, será que eu pareço um coelho? - Mas voltou-se para ela, sempre disposto a tentar.
- Não. - Rindo, ela ergueu as mãos para os cabelos ensopados dele. - Isso foi para agradecer.
- Tudo bem.
Ele jogou xampu nos cabelos dela e esfregou.
- Agradecer o quê?
Ela piscou, com a espuma pingando e ardendo nos olhos.
- Você devia estar cansado e com fome quando chegou. Mas queria que eu deixasse de pensar em tudo.
- É, foi difícil, sem dúvida. - ele disse. - Não sei como sobrevivi.
Sorrindo, deu-lhe uma cotovelada.
- Eu falei sério. - Ela cuspiu e tentou, sem conseguir, enxugar os olhos. - Você foi maravilhoso. Eu jamais vou esquecer.
- É o que todas dizem. - Ele sorriu quando ela se voltou para encará-lo com olhos semi-cerrados. - Estou brincando.
- Você sabe, claro, que a maioria dos acidentes domésticos ocorre no banheiro.
- Já ouvi falar. A gente tem de olhar onde pisa.
- Então olhe.
Ele pôs as mãos nos ladrilhos e cercou-a.
- Lembra a primeira vez que fizemos amor aqui? Claro que sim, não esquece nada.
Ela ergueu as sobrancelhas.
- Você não vai me distrair desse jeito.
- Eu podia, se quisesse. - Ele baixou a boca sobre a dela. - Mas se não comer, vou desabar.
- Que tal eu fazer uma sopa? - Ele pareceu magoado.
- E precisa?
Ela farejou o ar, passou sob o braço dele e deixou o banheiro.
- Faça o jantar então.
- Sabe o que eu notei? - Ele desligou o chuveiro e estendeu a mão para pegar uma toalha. - Você pega tudo em um estalo. Quer dizer, faz um milhão de perguntas, calcula e arquiva tudo. Aposto que pode sair de manhã e ordenhar as vacas sem uma falha.
- Não comece a ter idéias. - ela advertiu-o, e depois se envolveu em um roupão.
- Eu vi você fazer palavras cruzadas em menos de dois minutos. Naquela vez que fomos ao supermercado, você comprou os produtos e já tinha o dinheiro antes de saber qual era o total. Até o último centavo.
Ela encolheu os ombros, pegou um pente na borda da pia e passou-o pelos cabelos.
- E daí? Sou boa em truques de salão.
- Na certa poderia construir um reator nuclear na sala se decidisse fazer isso. Mas não sabe fritar um ovo. - Olhando-a, ele amarrou a toalha na cintura. - Ou, mais precisamente, não quer fritar um ovo, por isso não se preocupa em calcular como.
Ela lançou uma olhada para trás.
- Nessa você me pegou. Agora que quer dizer?
- Eu cozinho, e você constrói reatores nucleares.
Ela riu, mas ele viu o sinal de nuvens em seus olhos.
- Hermione. - Paciente, enconchou o rosto dela nas mãos. - Seu cérebro é apenas uma das coisas muito atraentes em você. Eu gosto quase tanto de ver você pensando quanto gosto de ver quando não consegue pensar. O que a levou a esse ponto não interessa. Porque você está aqui?
Ela deu um suspiro.
- É difícil deixar de querer ser normal.
- Querida, você é normal. Isso não significa que não possa ser especial.
Era tão simples, ela pensou. E tão sensato, e tão dele. Erguendo-se nas pontas dos pés, ele tocou os lábios nos dele.
- Obrigada.
- De nada.
Ela expirou.
- Tudo bem, vamos descer. Pode me dar a primeira aula de culinária.



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