Obsessão





- CAPÍTULO TREZE -


Obsessão


 


Alex se jogou em sua espaçosa cama de dossel, inspirando fundo quando sentiu o vento gelado que entrava pela porta aberta da sacada invadir seus pulmões. Sua garganta ardeu.


Sentiu sua cabeça latejar quando reviveu os acontecimentos da última hora em sua cabeça: Aya, nua, seu gosto, seu cheiro, seus olhos marejados quando ele finalmente cedeu às suas vontades.


             “Eu amo você.” – suas próprias palavras soaram como um eco distante em sua cabeça.


             Ele suspirou com raiva.


             Depois se lembrou da desordem, da enxurrada de informações que se seguiram e se sentiu um pouco menos... culpado


             Alex não estava exatamente no saguão quando o silêncio e a expectativa o cercaram; estava deliberadamente anestesiado para não ouvir – o que lhe parecia – sua sentença de escravidão, vinda com as palavras da princesa De Valois.


             Suspirou azedamente com a recordação. Seu raciocínio vagou por outras lembranças, montando uma linha do tempo que justificava sua decisão de ficar.


             Decerto ele fizera um juramento; não poderia escapar do voto perpétuo que fizera com Conde Adolphe assim que aceitara fazer parte da Sociedade Secreta dos Hussardos. “Procurar, encontrar, proteger”. Assim ele prometera sua vida a um rosto feminino desconhecido, que cedo – “cedo demais”, acrescentou uma voz em sua cabeça – tornou-se nitidamente em uma silhueta esbelta, cabelos platinados e olhos azuis-oceano.


              Era óbvio que a partir daquele momento ele não teria mais uma vida própria. Ele sabia. E mesmo assim tentava justificar para ele mesmo que aquela decisão era sua, que ele regozijara de seu livre-arbítrio para se casar com – fez uma careta – a princesa


             Rosnou em frustração.


             Passara o último ano que lhe restava de liberdade tentando se afastar ao máximo de Aya, tentando fazer com que ela superasse aquela... aquela obsessão que ela criara por ele desde seu quinto ano em Hogwarts.


             Alex sabia qual seria o caminho mais fácil de fazê-la se afastar, mas – sua garganta fechou – ele próprio talvez... talvez não quisesse que ela superasse aquela perseguição diabólica sem sentido.


             Dar a ela o que ela queria tornaria o afastamento dos seus sentimentos um processo natural com o tempo. Pois era assim que ele via a si mesmo na visão de Aya: uma coisa que ela queria e não podia ter. Não fora sempre assim, afinal?


             Alex teve uma visão borrada e desfocada de Aya aos seis anos, adoecendo de contrariedade porque queria um unicórnio. A pequena rechonchuda tanto fez, tanto importunou Olívio e Mia ignorando qualquer tentativa de distração (como um amável filhote de Golden Retriever), que conseguiu. Passou duas semanas grudada ao filhote de unicórnio prateado e logo arranjara uma nova obsessão: queria escalar o vale que rodeava a propriedade dos Wood em Hertfordshire, e para isso precisava de equipamentos para montanhismo.


             Seis anos.  Alex revirou os olhos, suspirando longamente.


             Era desse modo que a cabeça impulsiva, mimada e teimosa de Aya agia: encontrava um objeto de desejo – por mais estranho que o fosse – e depois que o conquistava perdia completamente o interesse, como se o desejo nunca tivesse de fato existido, e partia para uma nova fonte de obsessão.


             “Provavelmente ela trocaria essa perseguição por mim pela vontade de aprender a tocar piano.”, Alex pensou, amargurado.


             Por orgulho, pela própria teimosia e pelo instinto de auto-preservação ele não cedera à insistência contínua de sua mademoiselle nos últimos dois anos. Alex não era um objeto ou uma tarefa para que ela cumprisse ou adquirisse e depois largasse. Tinha de admitir, no entanto, que em algum momento em seu sexto ano seu orgulho se tornou... resignação.


             A energia que Aya empreendia tão fervorosamente para que Alex se apaixonasse por ela finalmente fora recompensada. Embora, é claro, ela não chegasse a ter conhecimento de tal fato.


             Em algum momento de seu sexto ano, quando as folhas pontudas da floresta proibida forravam o gramado de Hogwarts como um manto amarelado e laranja, Alex finalmente entendeu o que fazia com que Aya fosse tão popular entre a ala masculina de Hogwarts. Foi como ver um botão florescer na primavera: pela primeira vez ele reparou como os cabelos castanhos caiam em ondas pelas costas esbeltas, como a pele macia era como creme de leite, e quando ela corava, dois morangos surgiam para torná-la ainda mais tentadora. Sentiu seu peito se aquecer ao lembrar de sua gargalhada alta e distante, que lhe enchiam o peito de sentimentos inexplicáveis; e tinha também aquele cheiro.  


             Alex piscou, seus olhos vagueavam o teto enquanto seu cérebro traiçoeiro lhe revelava o momento que ele cautelosamente evitava: Foi quando ele enterrou o nariz no próprio travesseiro e reconheceu um cheiro de maracujá e flores – o cheiro dela – que ele soube o quão cego seu orgulho o deixara. E mesmo ciente de que se encontrava irrevogavelmente apaixonado, ele não cedeu.


             - Até hoje. – ele resmungou baixinho.


             Era quase irônico que depois de anos de relutância ele cederia momentos antes de se separar dela. Seu peito doeu em protesto ao pensamento, mas ele o ignorou, como se acostumara a fazer quando este tipo de reação lhe tomava.


             “Eu amo você.”


             Ele cedera. Agora era uma questão de tempo até que ela arranjasse algum outro objeto para se obcecar e fosse embora.


             Alex sentiu a garganta arranhar. Tentou fazer com que a pequena parcela de raiva que sentiu de si mesmo sobrepusesse toda a dor. Dor de saber que ela sairia de sua vida e seria feliz longe dele, que ele não estaria perto para acompanhá-la em suas jornadas malucas. Dor de nunca mais tocá-la, não sentir mais seu cheiro...


             Alex meneou a cabeça veemente. Tentou afastar o que realmente lhe incomodava naquela situação toda. Seus pensamentos seguiam uma linha pragmática de raciocínio: sabia que ela logo se desinteressaria por ele, assim que ele cedesse, mas não conseguia ignorar aquela sensação de incômodo (tentou não pensar na palavra dor) que latejava quando ele se lembrava de não ter escutado uma única vez ela dizer, com sua voz macia e gostosa, as palavras que ele mesmo entoara horas antes.


             “Eu amo você”. – a sua própria voz ecoou em sua cabeça novamente, como se zombasse de seu momento de comoção. Agora só lhe restava esperar ela decidir ir embora. Não demoraria muito. Ela teve o que queria, e agora... – ele grunhiu, tentando reprimir um suspiro pesaroso – iria embora, viver livre e feliz com suas obsessões momentâneas, enquanto ele... ele padeceria ao lado de uma pedante insuportável pelo resto de seus dias.


             - Larga de ser dramático! – resmungou, como se pronunciar as palavras em voz alta fosse reprimir todas as emoções que lhe enchiam o peito naquele momento.


             Ergueu-se da cama com um pulo, sem exata consciência de quanto tempo perdera em auto-comiseração, de repente não suportando mais ficar na companhia de seus próprios pensamentos.


             Seus passos eram calmos quando ele atravessou o largo corredor e desceu a escadaria principal. Mal reparou na decoração magnífica que piscava pra ele de seu – “argh! – casamento, quando cruzou o saguão e se dirigiu a cozinha, em busca de alguma distração.


             “...Conde Adolphe terá que entender, François.”, Alex escutou o sussurro dolorido de Amel e parou, escorando-se na parede ao lado do corredor; Não agüentaria uma atmosfera mais deprimente que a sua.


             François soltou um grunhido baixo, como o de um animal ferido.


             “Nós vamos com você”, James afirmou com firmeza, embora sua voz não passasse de um sussurro.


 


             François respondeu tão baixo que Alex não conseguiu escutar. Agora todos sussurravam de modo mais urgente e precavido. Alex apertou os olhos, curioso, e entrou na cozinha.


             A primeira pessoa que reparou em sua presença foi Amel. Alex não gostou do olhar repleto de censura que ela lhe dirigiu. Quem ela pensava que era pra entender de suas próprias frustrações...?


             E então ele reparou no círculo que se fechava em volta de François na mesa de jantar; O gorducho parecia... desolado. Al, James e Angus sentavam defronte de François, como se esperassem uma decisão. Amel vigiava uma chaleira fumegante enquanto consolava François de longe. Alex esquadrinhou a cozinha novamente, procurando inconscientemente por Aya, quando focou em um pequeno garoto encolhido nas sombras da varanda. Tão pequeno e silencioso que ele poderia simplesmente ter passado por invisível se Alex não estivesse tão disposto a achar alguém.


             - Desculpe. – o garoto sussurrou em francês, sua voz repleta de medo e... dor?  


             - Não precisa se desculpar, que tolice! – Amel retrucou, e o garoto se encolheu ainda mais – Agora beba um pouco de chá, você deve estar congelando.


             Alex viu as mãos ossudas do garotinho saírem fantasmagoricamente das sombras enquanto ele aceitava a xícara fumegante que Amel lhe oferecia.


             - Não podemos ir todos. – Al de repente falou. Ninguém parecia disposto a explicar a Alex o que acontecia. Ele tampouco perguntou – Conde Adolphe e a princesa irão desconfiar.


             - Eu vou sozinho. – disse François. Sua voz não passava de um murmúrio fraco. Ele se levantou, dispensando a xícara que Amel lhe oferecia, e se juntou ao pequeno garoto encolhido nas sombras da varanda.


             - Obrigado por me avisar. – Fraçois murmurou para o menino – Eu... eu queria tê-la visitado antes. Repeti pra mim mesmo que iria tão logo aparecesse um tempo de folga, mas fui... estupidamente negligente... 


              O menino assentiu a cabeça várias vezes, não em concordância com o sofrimento de François, mas como se consolasse mudamente o Ás. “Não foi sua culpa. Nós entendemos.”, Alex podia imaginar os pensamentos do garoto.


             Observou François e seu companheiro nas sombras. Eles não tinham nenhuma semelhança física: François, adulto e robusto, com seu rosto largo e suas feições imponentes, e o garoto, franzino a ponto de aparentar doente, com o nariz pontudo e os olhos fundos e negros. No entanto, ambos pareciam partilhar de segredos íntimos, que nenhum dos outros presentes na cozinha parecia entender. E então, como se encaixasse duas peças principais de um quebra-cabeça, Alex finalmente entendeu parte do que acontecia naquele momento.


 


             O garotinho provavelmente devia fazer parte dos Bronzes ou Vices, classe de cavaleiros pela qual François fora o único dos Ases que passara. Algo acontecera lá; o garoto viera avisar François, e agora ele se decidia se devia ou não visitar suas raízes.


             Antes que Alex completasse seu raciocínio, François e o garotinho desapareceram pela varanda da cozinha, rumo à escuridão das florestas gélidas dos Alpes franceses.


             - Pobre François. – Angus murmurou – Aquela senhora era como uma mãe pra ele. Lembro de que ele andava um pouco abatido esses dias, mas ele não me contou nada... Vocês sabiam de alguma coisa?


             Alex piscou, e se virou para encarar os olhos negros de Angus. Meneou a cabeça e viu seu gesto refletido em todos os presentes na cozinha.


             - Ele não gostava de falar dos Vices e dos Bronzes. – Amel comentou, e Alex reparou que em meio ao comentário banal havia um quê de censura em sua voz.


             - A senhora que tomava conta dos garotos estava terrivelmente doente e faleceu agora há pouco. – explicou-lhe Angus, aparentemente em resposta a sua expressão interrogativa – François foi prestar sua homenagem a ela.


             Alex franziu as sobrancelhas. “Prestar sua homenagem” soou quase como uma ofensa aos seus ouvidos. Imaginou sua própria mãe padecendo, os olhos amendoados incrivelmente verdes...sem vida.


             - Prestar homenagem... – rosnou, embora em um sussurro quase inaudível.


             Quase.


             - Você sabe, - Angus rebateu, embaraçado – caso a princesa ou Conde Adolphe perguntem, foi isso que ele foi fazer lá. Prestar sua homenagem em nome dos Ases.


             Alex assentiu impaciente, encarando o chão.


             - Auguste está demorando. – comentou James casualmente. Mas aquele comentário fez a atmosfera, que àquele momento era de pesar, tornar-se tensa de repente.


             - Onde ele foi? – Alex se surpreendeu perguntando. Não estava minimamente interessado nas atividades de Auguste, mas aquela era uma deixa para mudar de assunto e perguntar do paradeiro de outra pessoa.


             Foi o próprio James quem respondeu, em uma voz cansada.


             - Ele apareceu agora há pouco na cozinha e disse que precisava - 


             - ... fazer uma tarefa à pedido de Lorène. – Al o cortou, lançando um olhar perigoso a James.


             James retribui o olhar com um erguer de sobrancelha em desafio e questionamento. Alex não se importou com as palavras silenciosas. Sua garganta coçou quando ele retomou a conversa pra onde queria:


             - E Aya...? – perguntou, tentando não transparecer sua ansiedade.


             James abriu a boca para responder novamente, mas Amel foi mais rápida.


             - Ela está terrivelmant chateada, Alex. – de novo aquele olhar de censura! – Acho que foi dar uma volta. Ela disse que queria ir embora – Alex abriu a boca em protesto, mas Amel continuou – Mas nós dissemos a ela para não ir, a France está isolade dos outres países e Paris está sitiada. Ela não irá embora... por enquante.


             Alex suspirou, resignado. Queria procurá-la, ter ao menos uma vez na vida uma conversa franca com ela. Queria explicar sua relutância e sua decisão antes que ela partisse de vez de sua vida. Mas ele era fraco. Ter aquela conversa significava dizer um adeus permanente que ele não estava preparado para dar. Confessar todos os sentimentos só faria com que Aya superasse ainda mais rápido a obsessão que tinha – ou tivera – por ele.


             Sua cabeça latejou quando repassou a resposta de Amel em sua cabeça por outra perspectiva: “Ela disse que queria ir embora”, Amel dissera. Alex grunhiu com raiva. A obsessão passara ainda mais rápido que ele previu.


                 Alex aceitou com um aceno de cabeça a xícara fumegante de chá de maçã que Amel lhe ofereceu. O líquido desceu queimando por sua garganta mas ele não se importou. Talvez ele precisasse de ar. Talvez ele quisesse uma desculpa para esbarrar acidentalmente com Aya pelos jardins de Château D'aile e aproveitar um pouco de seu tempo limitado com ela antes que sua obsessão mudasse.


             “Se já não mudou”, uma voz ecoou em sua cabeça.


             Alex piscou, desviando sua atenção de suas próprias divagações pra encontrar os olhares preocupados de James e Amel voltados para ele.


             - Eu realmant não entendo. – Amel murmurou, meneando a cabeça enquanto organizava graciosos petit fours de chocolate em uma assadeira – Você e Aya, quer’uo dizer.


             Alex a encarou. Os olhos cinzentos de Amel bronqueavam um sermão silencioso para ele. Fingiu não entender. Virou-se para encarar de James de volta. A réplica de olhos azuis de Harry Potter parecia ansiosa e desconfiada enquanto desviava o olhar de Alex para Al.


             - Sou egoísta e ela é mimada, é isso que acontece entre Aya e eu. – Alex respondeu amargo, forçando mais um gole de chá pela garganta.


             Alex não agüentava mais os olhares desconfiados e atmosfera fúnebre da cozinha. Sentiu-se sufocado. Tinha que sair e dar uma volta pelo jardim, e bem, se esbarrasse com Aya em algum momento de seu passeio, seria apenas uma coincidência feliz.


             Alex largou sua xícara de chá no balcão da cozinha, e estava disposto a ignorar qualquer contradição à sua atitude vinda de quem quer que fosse na cozinha, quando o barulho ensurdecedor da porta principal do saguão sendo escancarada ecoou pela cozinha.


             Alex se adiantou para a porta com Al e Angus aos seus calcanhares.


             - Fique aqui. – ele escutou James dizer ansioso para Amel, enquanto os seguia.


             - De jeito nenhum! – Amel protestou, indignada.


             Logo os cinco se desviavam dos pilares que Amel conjurara para a cerimônia do dia seguinte em direção às portas principais. Um vento gélido invadiu o aposento, balançando fantasmagoricamente os véus que enfeitavam o lustre e as cadeiras.


             Alex sentiu seu coração falhar. Uma chapa de ferro comprimiu seu peito assim que seus olhos focaram a porta.


             François carregava em seus braços um corpo imóvel e branco feito giz. Os cabelos castanhos balançavam da cabeça mole que se pendurava em um ângulo estranho. O rosto do Às era de alguém que acabara de sofrer uma violência indescritível. Sua boca estava escancarada, os olhos esbulhados, a cabeça balançava incrédula em sinal de negação.


             Alex tentou se focar nas reações de François para não prestar atenção no corpo que ele trazia nos braços. Era óbvio que não era – Não podia ser... Mas mesmo assim a semelhança do corpo imóvel com ela fez um arrepio cruzar sua espinha como um raio.


             - Eu... eu a encontrei, lá no acampamento. – François balbuciou, os olhos cheios de lágrimas – Não foram eles, eu juro que não foram eles. Eles estavam tão chocados... acharam ela largada no meio da floresta... Eles não têm culpa, Alex, não foram eles...


             Foi o seu nome, pronunciado em meio ao desespero e ao choque, que fez Alex despertar de sua negação.


             Seu corpo inteiro tremia involuntariamente. Sentiu seus dentes baterem violentamente um contra o outro e um rosnado feroz se formou em sua garganta. Seus olhos arderam, assim como seu peito, que àquela hora parecia queimar em brasas.


             Ele observou François avançar mais alguns passos, o corpo pequeno e magro em seus braços parecendo cada vez mais familiar...


             - Aya! – o ganido ferido de Amel furou seu ouvido.


             Observou a morena avançar em uma corrida inútil em direção a François, convencendo-o a depositar o corpo pequeno no tapete vermelho.


             Alex não conseguiu mover um músculo. Seu corpo inteiro doía e queimava. Seus olhos o enganavam. Não era possível. Não podia ser... não era... Não, não...


             - NÃO. – a última palavra de seus pensamentos saiu como um rosnado de sua boca.


             Ele sentiu-se avançando em direção a François, Amel e o corpo imóvel no chão, ignorando os esforços de James e Angus em mantê-lo longe. Arrastou-os consigo sem nem ao menos sentir o peso extra.


             Ouvia nitidamente os soluços de Amel e sua voz engasgada. Sentia os ganidos de François como se fossem os seus. Seu corpo tremia de raiva, ódio, frustração, negação, pesar, enquanto James, Angus e Al o arrastavam para longe.


             - Calma, Alex. – James murmurava, sua própria voz o contradizendo trêmula.


             - Ela... ela está... morta? – a voz cautelosa de Angus furou seus ouvidos como uma faca.


             Alex se libertou com fúria dos braços que lhe seguravam e avançou para o chão, afastando Amel e François, que lhe tapavam a visão.


             E então ele não sentia mais.


             Sabia que seu corpo tremia, pois podia ver sua mão em direção ao rosto dela balançar sem motivo. Sabia que chorava pois as lágrimas ardiam em seus olhos e molhavam seu rosto. Sabia que gritava, pois sua garganta doía em protesto.


             Mas ele não sentia.


             Alex viu o rosto duro e sem vida de Aya pender para o lado quando ele agarrou seu corpo. Viu os cabelos castanhos balançarem quando a brisa entrou, afagando suas próprias lágrimas.


             Ele não conseguia escutar o que Amel lhe dizia, o rosto contorcido de dor e desespero. Ele não sentiu suas mãos afagando seu ombro em sinal de consolo. Os rostos de François, de Al, Angus e James passaram como um borrão vermelho por seus olhos.


             Sua garganta queimava. Seus olhos ardiam. Era tudo fogo. Uma chama se alastrando por suas veias. Seu corpo todo doía, como se o torturassem.


             Então o fogo tornou-se gelo.


             Assim que seus dedos trêmulos tocaram a pele do rosto dela seu sangue congelou. Seu coração foi jogado em um montinho de neve. Ela estava assustadoramente fria. Terrivelmente...


             Morta.


             Seus dedos protestaram quando ele tocou o rosto dela de novo. Estava tão gelada. Sua cabeça pendeu para baixo, latejando, ignorando a dor e tentando formar um raciocínio lógico para o que acontecia. Alex precisava culpar alguém. Precisava machucar alguém tanto quanto fosse possível machucar. Tanto quanto fosse possível ferir como ele estava ferido.


             Ergueu seu olhar para focar em François. O gorducho parecia tão desolado, tão terrivelmente triste e amargurado com a dupla perda da noite, que Alex se sentiu incapacitado de lhe fazer qualquer acusação.


             As lágrimas geladas – como estava todo seu corpo desde que seus dedos tocaram a pele fria do rosto inerte de Aya – borraram sua visão novamente. Escutou, além dos soluços estrangulados de Amel ao seu lado, uma risadinha satisfeita atrás de seu corpo.


             Virou-se com violência, encontrando Auguste e Lorène na escadaria. Pela primeira vez desde que conhecera o Ás, Alex viu a clássica expressão indiferente de Auguste sendo alterada para uma de atordoamento, confusão e decepção. Lorène era um contraponto a Auguste: parecia maravilhada com o que via.


             Alex sentiu um chicote estalar em sua cabeça. De repente sentiu-se um animal, um touro vendo tudo em vermelho vivo, provocando, invocando-o. Lorène era como uma grande e brilhante bandeirola vermelha implorando pra ser atacada.


             Durou meio segundo.


             Alex puxou a varinha do bolso, assistindo pela visão periférica os movimentos em câmera lenta de Amel, François, James e Angus, tentando impedi-lo. Um jorro de luz verde saiu de sua varinha direto para o peito de Lorène. Auguste tentou protegê-la, mas não foi rápido o bastante. O feitiço ricocheteou no peito de Loréne, jogando-a para trás, e voltou na direção de Alex.


             Ele fechou os olhos, abraçando a vontade de morrer. 


 


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N/A: Enfim, mais um capítulo! Fiquei com vergonha de postar aqui, já que faz mais de um ano (acho) desde que postei o ultimo capítulo. Espero que vocês não tenham perdido a fé e o gosto pela fic! Esse capítulo deu início a toda uma nova fase que eu tô ansiosa pra escrever: os acontecimentos na perspectiva do Alex. Pra quem não entendia direito o porquê de tanta agressividade e cautela da parte do loiro, eis um pouco do que se passa na cabeça dela. Espero que tenham gostado!


 


Muito obrigada a todas que sempre lêem e comentam, me deixam nas nuvens, sempre. Dão uma mão, um braço e uma perna pra eu me animar e me levantar! Muito obrigada de coração!


Lígia: Tinha vezes que eu me sentia forçando a barra na hora de descrever a princesa, nunca tinha encontrado um ser humano que pudesse fazer essas atrocidades sem um peso na consciência. Ela quase não parecia um personagem "realista", até que vê como uma pessoa que nada teve e de repente tem tudo se porta. Os escrúpulos acabam indo pro ralo e voilà! hehehehe. Espero que tenha gostado desse capítulo! E como anda seu TCC? Beijos!!


Tammie: Ah, eu sempre falo com você, seja por Twitter, Orkut ou msn, mas sinto tanta a sua falta aqui na F&B! hahahaha não que você não bata ponto nas minhas fics, o que você faz sempre, com seus comentários maravilhosos, mas mesmo assim, não parece o mesmo. A Aya precisava mesmo dessa caída na real, né? Pena que a gente entrou na visão do Alex e ele entendeu tudo errado. Dois cabeças-dura... hehehe. Espero que você tenha gostado do capítulo!! muito muito obrigada por tudo!! por todo o apoio e paciência ao longo desses muitos anos!!! Adoro você!!

Miss Tatiana Lot: Oi Tati!! Nossa, muito muito obrigada por todo o apoio que você tem me dado ao longo das fics! Vi suas fotos de Londres e Paris no orkut! Que MARA! Espero que você tenha aproveitado bastante!! Obrigada mesmooo!


Emmy Bortoleto: Emmy!! Primeiramente, muitas e muitas saudades!! Os seus comentários sempre me comovem, porque você entende o que os personagens estão sentindo. Muito muito obrigada mesmo por todo o apoio ao longo desses - pasme! - 4 anos de fic!!



Vicious: AAAAAAAAAH! Minha sobrinha favorita! Nem tenho palavras pra dizer o quanto fiquei feliz com a sua volta!! Muito obrigada pelo apoio que você me dá e vêm dando ao longo dos anos e das fics!! Espero que você não fique muito chateada nem decepcionado comigo por causa do capítulo. Desculpa por ter demorado tanto pra atualizar!! Adoroo!!

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