Capitulo 8



CAPÍTULO VIII

Cho reservara uma surpresa para Hermione à hora do almoço. Não somente insistira para que os Lancaster fossem, mas também providenciara para que Harry estivesse ali, com aparência irritada e relutante.

- Tenho certeza que não se importa que Harry se junte a nós, não é, meu bem? – indagou Cho a Hermione, em voz baixa. – Achei que seria interessante dar aos Lancaster as boas notícias de seu noivado.

Sem esperar resposta, afastou-se para receber o casal Lancaster.

- Sei que não estou entregando nenhum segredo de estado – começou Cho, logo depois dos cumprimentos. – Mas Harry e a srta. Granger pretendem casar-se.

Hermione teve vontade de dizer que o veneno estava escorrendo pelos cantos da boca, mas não ousou, na frente dos donos da companhia. Ao invés disso, sorriu o melhor que pôde.

- É verdade? – indagou sorrindo a sra. Lancaster.

Harry enrijeceu. Olhou para Cho de forma estranha e aproximou-se de Hermione, tomando-lhe a mão.

- É verdade – confirmou ele, sem parecer especialmente entusiasmado.

- Bem, nesse caso, precisamos colaborar com os preparativos do casamento – continuou a sra. Lancaster, o marido sorrindo ao lado. – Quando vai ser o enlace?

- Bem, ainda não marcamos a data – respondeu Harry, um tanto sem graça.

- Certamente deve ser logo, não Harry? – indagou Cho, com voz adocicada.

- Não temos pressa. Hermione e eu temos muito tempo.

Hermione sabia que ele não gostava de ser pressionado, mas parecia haver algo mais naquela troca de palavras. Harry não ficava nada à vontade, tendo que falar sobre sua vida pessoal em meio a tanta gente.

- É verdade – apoiou Hermione, mais para contrariar Cho que para agradar ao noivo. – Planejamos um longo noivado.

- Entendo – disse o sr. Lancaster, estreitando os olhos.

- Bem, se não estão pretendendo iniciar logo uma família, então não há pressa mesmo – comentou Cho. – Quantos filhos pretende ter, Harry? Dois ou três?

O rosto de Harry não moveu um músculo.

- Ainda não discutimos esse assunto. É muito cedo.

- Mas você quer filhos, não quer? – insistiu ela.

Harry olhou para o rosto dela sem responder, depois consultou ostensivamente o relógio.

- É melhor começarmos logo – observou o sr. Lancaster, aproveitando a deixa. – Todos temos nossos trabalhos paras desempenhar. E que história é essa de mudar a pessoa responsável por sua conta, srta. Chang?

- Não tenho nada contra a srta. Granger – apressou-se a declarar Cho. – Só acho que Mack será mais... acessível. Esta manhã, por exemplo, tentei durante um bom tempo localizar a srta. Granger, que parecia estar comemorando seu noivado com vamos dizer, entusiasmo demasiado. Sabemos como o trabalho fica prejudicado quando as pessoas estão com a cabeça nas nuvens.

Então era isso, pensou Hermione. Em um só golpe a outra fizera com que ela parecesse uma cabeça-de-vento incompetente.

- Hoje me atrasei para o trabalho, é verdade. Mas foi a primeira vez desde que entrei para esta companhia – defendeu-se Hermione com veemência. – Mas não acho que tenha havido prejuízo para o trabalho...

- Srta. Granger – interrompeu o sr. Lancaster. – Não queremos discordar da srta. Chang, queremos?

- Desculpe pelo atraso – continuou Hermione, corando por ter sido chamada a atenção. – Posso assegurar que não vai acontecer no futuro...

- No futuro pretendo tratar com Mack – disse Cho, com um sorriso encantador. – Eu e ele nos daremos bem. Afinal é uma conta importante.

Os Lancaster aceitavam o que a amiga dizia sem questionar. Hermione estava sendo diminuída, e não havia nada que pudesse fazer, a não ser contrariar frontalmente a cliente, o que seria impensável na frente dos patrões.

- Realmente, é uma conta importante – concordou o sr. Lancaster, friamente. – Tenho certeza que a srta. Granger não se importará se Mack tratar dela, daqui por diante.

O sentido era que seria melhor não se importar. Hermione perdia terreno e não sabia o que fazer para reconquistá-lo.

- Certamente que não me importo, embora nos tenhamos dado bem – afirmou ela, com diplomacia. – A satisfação da srta. Chang é nossa prioridade.

Cho agradeceu com uma inclinação de cabeça.

- Fico contente que concorde. Deus sabe como detesto criar problemas para as pessoas, mas essa promoção precisa ser perfeita. Mesmo porque pode levar a realização de muitas outras. Tenho bons contatos no mundo da moda.

- Sabemos disso, minha querida. Sua influência é bem conhecida. – concordou a sra. Lancaster.

O marido olhava para Hermione.

- Presumo que tenha outras contas a seu cargo – disse ele, demonstrando interesse pela primeira vez.

- Tenho trabalhado numa campanha promocional para uma nova cadeia de lanchonetes que vai servir apenas sopas e saladas – informou Hermione. – Aliás, os primeiros anúncios na televisão irão ao ar às oito da noite.

- Vamos assistir com atenção – garantiu o patrão.

Hermione tinha plena confiança de que a campanha seria um sucesso, e não ficou preocupada, a despeito da ameaça contida na observação do dono da companhia. Pelo menos agora ficara em evidência, graças ao truque sujo de Cho. Manteve a cabeça ereta pelo restante da refeição, sorrindo como se não tivesse uma só preocupação no mundo.

- Espero ser convidada para o casamento – disse Cho, ao despedir-se. – E ao primeiro batizado, claro.

Harry nem ao menos sorriu.

- Isso foi uma coisa muito baixa, mesmo vindo de você – declarou, em tom de raiva contida. – Se tem alguma diferença comigo, não deveria se vingar em Hermione. Ela nunca fez nada para você.

- Não? – Os olhos de Cho fuzilaram. – Ela tirou você de mim. Isso não é o bastante?

- Em primeiro lugar, para tirar é preciso ter, e eu nunca fui propriedade sua. Em segundo lugar, acho que está esquecendo que tenho vontade própria, e não sou um objeto para ser disputado. Faço o que tenho vontade. Ninguém me obriga. Nós dois somos como água e cera; diferentes demais para ficar juntos.

- Mas você me desejava – protestou ela.

- Você foi uma parte importante na minha vida por algum tempo. Espero ter sido importante para você. Mas eu nunca menti para você, nem prometi nada. Você sabe muito bem disso!

Ela mal conseguia se controlar. Olhou para Hermione, que conversava com a sra. Lancaster, e suspirou.

- Ela parece satisfeita sexualmente – disse sem rodeios, examinando o rosto dele para observar-lhe as reações. – Foi isso mesmo. O compromisso da virgem; você sentiu-se obrigado a propor casamento em troca da virgindade. Foi isso, não foi, Harry?

Ele não respondeu.

- Mas que coisa interessante... – comentou ela, com um novo brilho no olhar. – Sabia que os Lancaster são muito religiosos? Fundamentalistas, dos que preservam muito certos valores.

- Está fazendo alguma ameaça, Cho?

- Claro que estou, meu bem – confirmou ela, com um sorriso. – Ou você interrompe esse noivado, ou eu falo com os Lancaster sobre a falta de moral dela. E quando eu terminar, posso garantir que ela não terá mais emprego... ou referencias. Está entendendo o que estou dizendo, não está?

Ela terminou de falar e afastou-se. Harry ficou a observá-la, com um ímpeto assassino no olhar. Nem de longe imaginara que ela pudesse se tornar tão vingativa. Utilizara a imagem da modelo bem sucedida para provocar ciúmes em Hermione, sem querer reativar o relacionamento com Cho. Só que ela levara a coisa a sério, e queria arriscar tudo de uma vez. Agora Harry ficava entre a frigideira e o fogo. Ou casava imediatamente com Hermione, ou desistia dela, pois não tinha duvidas de que Cho cumpriria a ameaça. A alternativa para Hermione seria arriscar a própria carreira... e a profissão significava muito para ela.


- Estou achando você quieto demais – observou Hermione, durante o trajeto para a casa de Bob e Connie, em Floresville. – Algo errado?

Oslhos de Harry deixaram por um instante a estrada, antes de responder.

- Estava só pensando...você viu Erikson hoje?

Ela balançou a cabeça e cruzou os braços, estremecendo de repente.

- Será que podia ligar o aquecimento, Harry?

- Claro, gatinha. Não está gripada ou coisa parecida, está?

- Não. Estou apenas preocupada. O casal Lancaster não gostou nem um pouco do que Cho falou no almoço. Devem ter ficado com a impressão de que sou incompetente.

- Você é boa no que faz?

- Sou. Mas tem muita gente que também é. Eu, pelo menos sou original. O que é mais do que posso dizer do coitado do Mack – acrescentou ela, sorrindo. – Além de detestar Cho, ele não gosta de alta costura. Acha chato. Não vai fazer um trabalho ao gosto dela.

- O que você tinha imaginado?

- Uma noite sofisticada, cheia de astros e estrelas na platéia, com algumas socialites ajudando a exibir as roupas de Cho. O público não só ia adorar o espetáculo em si, mas comprariam as roupas. Significaria uma aumento real nas vendas, e não uma promoção superficial. O pai de uma das debutantes locais possui uma rede de lojas finas espalhadas pelo mundo. Nem mesmo Cho tem ligações a esse nível – afirmou Hermione, dando de ombros. – Mas ela não pareceu interessada. Não se deu ao trabalho de ouvir.

- Pena que ela não tenha concorrentes – comentou Harry. – Você podia colocá-la em dificuldades, se quisesse.

- Ela tem concorrentes, sim senhor – lembrou ela. – Mas a conta pertence a outra companhia, e ao que eu saiba, não planejam fazer nenhuma promoção até o final do ano.

O carro parou num sinal vermelho. Harry brecou e olhou longamente para Hermione, pensativo.

- Escute uma idéia que acabei de ter – disse ele – Que tal se você apresentasse suas idéias à companhia rival dela como produtora independente?

Ela arregalou os olhos.

- Acho que não seria muito ético, Harry.

- Saia da Lancaster. Mude de emprego. Arrisque.

- Harry, no final do mês tenho uma boa quantidade de contas para pagar – disse ela, rindo de nervosismo. – Não posso arriscar minha profissão. Não sou jogadora.

- Eu também não sou. Pelo menos normalmente. Mas às vezes a gente precisa se arriscar.

- Você não arrisca – protestou ela.

- Não? Eu pedi você em casamento, não foi?

A agressividade dela transformou-se em tristeza. Com uma sombra nos olhos, Hermione voltou-se para a janela, dedicando-se a observar atentamente a paisagem urbana.

- Desculpe, foi uma brincadeira idiota – disse ele, sem graça. – Estava tentando alegrar você um pouco.

- Cho percebeu tudo isso, hoje. Usou as perguntas para deixar você encurralado, e só faltou dizer que não tem intenção de casar.

A mão de Harry apertou o volante, recordando a ameaça de Cho.

- Eu não disse nada sobre a data, só isso.

Ela voltou-se, estudando a expressão sombria no rosto dele, atento à estrada.

- Você ainda não está pronto. Assim tem medo de se comprometer – declarou Hermione, sem rodeios. – Pensa no casamento como se fosse uma prisão, e os filhos como aquelas bolas antigas de ferro dos prisioneiros. Tudo isso para não deixar você andar solto por aí...

- Hermione...

- Por favor,... – pediu ela, tocando-lhe a manga da camisa. – Vamos ficar noivos por algum tempo, até que eu resolva o que fazer da minha vida profissional. Ficar na agência, ou me tornar independente. Mas não vou levar mais o noivado a sério, pelo menos como promessa de casamento, e quero que você faça o mesmo. Sua consciência pode reclamar um pouco no começo pelo que fizemos, mas acho que vai ultrapassar essa fase. Não aconteceu nada de mais, Harry. Fizemos amor, só isso. As pessoas fazem isso o tempo inteiro. Grande coisa.

- Pois para mim foi uma grande coisa – retrucou ele. – E se de fato não foi nada de mais, por que nunca aconteceu antes?

Ela inclinou a cabeça, apoiando-a no banco e fitando com calma os olhos dele.

- Você sabe por quê. Sempre soube... que pertenço a você.

O coração de Harry deu um salto no peito. Não conseguiu olhar para ela. Ela o atara com nós invisíveis e permanentes, mas fora ele quem fornecera a corda. Não queria que ela pensasse assim. Não pretendida ser prisioneiro da própria consciência. Ou do amor.

Ela retirou a mão e olhou para o outro lado. Ele ficara sem graça, embaraçado.

- Não precisa ficar se torturando. Não estou pedindo nada.

- Sei disso.

Hermione fechou os olhos, apreciando a escuridão que os envolvia, quebrada apenas pelos fachos ocasionais de faróis em sentido contrário. A estrada para Floresville era pouco movimentada e agradável. Se ao menos pudessem dirigir para sempre naquela penumbra, juntos no interior do carro, pensou ela. Seria maravilhoso não ter de voltar aos problemas passados, que terminaram com a saída de Harry de sua vida.

Adormeceu, e sonhou que faziam amor sob um grande carvalho, ao lado de um riacho. Abraçavam-se logo depois, murmurando palavras de amor um para o outro...

- Acorde Hermione – chamou a voz de Harry, despertando-a.

Ela estremeceu e abriu os olhos relutante.

- Que foi?

- Chegamos. E parece que está havendo um barulho dos diabos lá dentro. Escute.

Estavam à porta da casa dos Potter. Uma voz masculina gritava alguma acusação contra Connie, que se defendia veementemente. Misturada às do casal, uma vigorosa voz feminina com sotaque espanhol protestava.

- Governanta uma ova! – gritava Connie. – Vocês estavam se beijando!

- Eu só a estava abraçando porque ela estava chorando – berrou Bob.- Porque você disse que ela era uma destruidora de lares.

- Pois é exatamente o que ela é! Ela roubou até o Mike – continuou Connie, em altos brados. – Agora ele pede a Teresa para ler para ele, quer ir à escola com ela, quer Teresa sentada ao lado enquanto ele come...afinal, ele é meu filho!

A silhueta dos três era visível na varanda da frente, e eles não haviam se dado conta do carro estacionado.

- Acho que nem ele sabia disso, porque achava que seus filhos eram os carros.. você fica o dia inteiro com o nariz enfiado na oficina! Mikey precisa de carinho, sabia? E eu também...

Connie olhou para cima e levantou as mãos para o céu, num gesto exasperado de impotência. Pretendia responder à altura quando reparou no veículo parado com o casal no interior. Olhou para Bob e voltou a examinar o carro, limpando as mãos no macacão manchado de graxa.

- Harry? – gritou Bob, aliviado por uma interrupção na discussão. – É você, Harry?
- Parece que sim – confirmou Harry, com timidez. – Mas podemos voltar depois. Só viemos anunciar nosso noivado. Depois a gente passa pra conversar com calma...

- Noivado! – interrompeu Connie. – Você e Hermione? De novo?

Os dois saíram do carro, resignados a enfrentar outro interrogatório.

Bob e Connie aproximaram-se.

- Não chegamos a ficar noivos da primeira vez – explicou Harry.

- E quando vai sair o casamento? Logo?

- Gostaria que as pessoas parassem de fazer essa pergunta – desabafou Harry.

- Ainda não marcamos uma data – interveio Hermione, com educação. – Foi tudo muito rápido. Ainda nem tivemos tempo para sentar e discutir o assunto. Nossos empregos ocupam...

- Quer parar de fazer perguntas ao casal Connie? – disse Bob, voltando-se depois para a silhueta na varanda. – Teresa, poderia fazer um café e trazer umas fatias de bolo, por favor?

- Si, señor Bob – respondeu uma voz suave.

Em seguida a jovem mexicana entrou na casa.

- Teresa é ótima – comentou Bob, sorrindo. Ao olhar para a esposa, a expressão se alterou. – Ela não acha. Não aprecia o trabalho duro que a moça fez para ajudá-la a manter a maldita oficina.

- Tenho certeza que Connie sabe dar valor, Bob – comentou Hermione. – Podemos entrar, por favor? Estou com frio.

- Mas com esse calor? Como pode estar com frio, Hermione? – disse Harry, preocupado.

- Será que você está com febre? – indagou Connie, colocando a mão na testa de Hermione por alguns segundos. – Não, graças a Deus. Uma vez eu tive arrepios sem febre... se não me engano, foi quando fiquei grávida do Mikey.

- Não existe a menor possibilidade de ela estar grávida – interferiu Harry, com frieza.

- Claro que não, Harry. Não foi isso o que eu quis dizer. Só estava lembrando de quando tive a mesma coisa – explicou a cunhada.

Apenas Hermione reparou no rubor instalado no rosto do noivo. Depois chegou a considerar a possibilidade, mas lembrou-se de que tinham tomado precauções, e sentiu-se segura. Além do mais fazia tão pouco tempo que nenhum efeito poderia manifestar-se ainda. Simplesmente não poderia estar grávida. Seria praticamente impossível, pelo menos segundo as estatísticas. Ainda assim... o melhor era nem pensar nisso.

- Essa é Teresa – apresentou Bob,com um sorriso e os olhos brilhantes. –“Niñita, este es mi hermano Harry.”

-“Mucho gusto em conocer-lo, señor” – disse ela, sorrindo.

Connie tinha motivos de sobra para ter ciúmes. Os cabelos negros e brilhantes emolduravam um rosto de formato bonito e pele uniforme, onde dois grandes olhos castanhos cativavam instantaneamente. Teresa era linda.

- O prazer é todo meu – respondeu Harry. – “Le gusta trabajar acá, señorita?”

- “Si señor” – disse ela. – “Esta família es muy simpática, especialmente el niño.”

Ela gostava de Mikey, então. Connie examinava o rosto dos dois irmãos, à procura de algum indício sobre o que dissera a mexicana. Ela não falava espanhol.

- Fale em inglês – ordenou com frieza.

- Ela está aprendendo, Connie – interveio Bob. – Não seja desagradável.

A esposa colocou as mãos na cintura, e voltou-se para enfrentar Bob.

- Não tenho a menor vontade de ficar quieta, sabia? Acho que nesse instante mesmo você acha que está apaixonado por ela.

Bob ficou vermelho e abriu a boca para responder, mas conteve-se.

- Vamos lá, seu covarde – insistiu ela. – Pelo menos admita!

- Acontece que ela é uma mulher adorável, que gosta de crianças, do trabalho da casa, e de homens – afirmou o marido, olhando para ela. – Como espera que eu me sinta a respeito dela, quando minha mulher tem a aparência e o cheiro de um mecânico, e nunca tem tempo pra mim ou para o filho?

Connie, ficou parada por um instante, os olhos arregalados enchendo-se de lágrimas; depois saiu correndo para o quarto, soluçando e batendo a porta.

- Agora estraguei tudo – disse Bob.

Harry e Hermione trocaram olhares.

- Acho que escolhemos uma noite ruim para a visita.

- Não temos mais noites boas – resmungou Bob, reparando a seguir nas lágrimas que escorriam dos grandes olhos de Teresa. Passou um braço pelos ombros dela. – “No chores. Todo está bien”

- Tudo não está bem – discordou Harry. – E ela tem o direito de ficar triste, pois está a ponto de desmanchar o casamento de vocês. Por que não age como um homem casado e vai consolar a sua mulher, em lugar de consolar a governanta? Será que ela tem razão, Bob?

O rosto do irmão tornou-se vermelho como um pimentão. Devagar ele retirou o braço dos ombros de Teresa, e voltou-se para Harry.

- Não preciso que você venha me dar conselhos sobre como conduzir meu casamento!

- Não mesmo? – perguntou Harry, olhando por sobre o ombro de Bob.
Connie vinha descendo as escadas trazendo Mikey por uma das mãos, e carregando uma mala na outra.

- Onde vamos, mamãe? – quis saber o menino, com voz pastosa de sono.

- Para a casa da sua tia – respondeu Connie, olhando para Bob. – Quando voltar ao normal, se é que vai voltar, estarei na casa de Louise.

- E quanto à sua preciosa oficina lá atrás?

- Coloque a placa de “fechado” na porta. Sabe escrever, não sabe? – perguntou ela, com ironia. – Enquanto isso, Tod Steele tem vaga para mecânico na oficina dele, e tenho certeza que me contrata na mesma hora.

Bob arregalou os olhos.

-Não vou permitir que trabalhe na oficina do seu ex-namorado!

- Por que não? Pretendo conseguir logo o divórcio!

- Connie!

- Mamãe, porque está gritando com o papai? – quis saber Mikey, ainda sem entender o que acontecia.

- Porque ele não está escutando direito, meu bem. Ele não consegue entender uma frase simples como: despeça a moça.

- Não pode me dizer a quem devo despedir em minha própria casa.

- Pensei que também fosse minha, e de Mikey – respondeu Connie. – Mas agora acho que é de Teresa.

- Mas ela é só a governanta – disse Bob, como se só então atinasse com o que estava a ponto de acontecer em sua vida.

- Mas você não trata a moça como governanta – retrucou ela.

- E você não me trata como marido.

Connie ignorou a acusação e dirigiu-se ao filho.

- Diga boa noite para todos.

- Boa noite.

Ela sorriu, desculpando-se com o casal visitante e dirigiu-se para a porta com Mikey. Pouco depois, um motor foi ligado no quintal, depois o carro dela contornava o de Harry e ganhava a rua.

Bob estava lívido, os olhos semicerrados.

- Connie não é mais minha mulher – desabafou ele, subitamente. – É só o mecânico residente! Não tem tempo para nada, a não ser para o maldito trabalho. Mikey e eu somos apenas acidentes de percurso na vida dela, perceberam? Ela não tem a menor vocação para esposa e mãe, só quer a carreira. Muito bem. Que seja assim. Colaborei, ajudei a montar a oficina em casa, mas simplesmente não adiantou.

Hermione olhou disfarçadamente para Hary. Horrorizada, compreendeu que poderia estar em frente a uma cópia do noivo dali a alguns anos, só que na situação contrária. Será que ele só teria tempo para trabalhar, deixando a família de lado, como um “acidente de percurso”?

Harry também fazia suas comparações. Hermione também idolatrava sua carreira. Será que iria repetir o procedimento de Connie, aplicando o tempo de forma egoísta? Devia existir um ponto de equilíbrio, se ambos se amassem o suficiente. Ali, bem na frente dos olhos, presenciavam uma das maiores fontes de problemas nos casamentos. O desmontar do relacionamento de Bob e Connie mostrava os perigos de uma vida em conjunto, e até que ponto podiam chegar duas pessoas, apesar de se amarem. Se antes tinha prevenção contra o casamento, agora era muito pior.

- Estão vendo em que pode se transformar a vida de casado? – perguntou Bob, como se lesse os pensamentos do irmão. – Ela me disse que queria marido e família, quando na verdade queria uma oficina. Talvez na época nem ela soubesse. Acho que seria bom conversarem bastante sobre o que pretendem, para evitar essas cenas.

- Você já disse a Connie como se sente? – quis saber Hermione, hesitante.

- Até ficar roxo de tanto falar, tentando explicar o meu modo de ver as coisas. Mas o que Connie quer, Connie faz – disse Bob, virando o rosto para Teresa, que vinha silenciosamente da cozinha. – Você também vai embora?

Em espanhol, ela explicou que desejava ir para a casa do irmão, em San Antonio. Perguntou se Harry e Hermione poderiam lhe dar uma carona. O casal concordou, contente em colaborar na eliminação do problema.

- “Lo sinto. No fiques furioso a mi por favor” - sussurrou ela para Bob.

- Não estou bravo com você, Teresa – respondeu ele, olhando-a com uma intensidade que não deixava dúvidas.

Ela sorriu e despediu-se.

- Eu ligo amanhã, Bob – declarou Harry.

- Desculpem pela situação – disse Bob. – Procurem não me culpar muito...

Harry avançou e abraçou o irmão.

- Você é meu irmão, cara. Só quero ver você feliz.



Obs:Capitulo 8 postado!!!!Espero que tenham curtido!!!Capitulo 9 vem na sexta!!!Obrigada pelos coments!!!Bjux!!!!Adoro vocês!!!!

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