A Carta





Uma semana se passara e a esperança que restara em Sirius já havia envelhecido. Ele observava os trouxas através da janela de seu quarto. Pegou um lápis e anotou em um pedaço de pergaminho:

"Viver sem magia

Ainda desconheço muitos assuntos referentes à magia, bruxaria, varinhas, poções, caldeirões, unicórnios, centauros, feitiços e afins. Isso tudo parece ser realmente precioso e complexo, e tenho plena certeza de que eu faria qualquer coisa para que me convocassem para ser um aluno da escola de magia e bruxaria. Viver sem magia, como será? Se contentar com a imaginação, com as ilusões. Isso tudo pode ser mais importante do que a própria magia? Certamente que não, todos sabemos que não, a magia é trabalhosa, analítica, complexa, inteligente, enquanto a imaginação qualquer um pode ter, qualquer um. Magia é para poucos. Não que sejam melhores ou piores, mas que, no meu caso, por já estar introduzido nesse “mundo”, é um grande choque não poder me vincular completamente. Como será ser um deles?"

Dobrou o papel e guardou-o junto com o panfleto que pegara há alguns dias. Ergueu os olhos para o céu, estava incrivelmente azul, sem nuvem alguma. Avistou um pontinho preto que contornava a imensa curva norte e sul, parecia um pouco desorientado, a procura de um lugar para descansar.

Tratava-se de uma bela ave, podia notar pela silhueta. O pontinho mudou de direção como se percebesse que alguém o observava. Por mais que voasse para outra direção, ela estava cada vez mais próxima, e já era possível notar dois grandes olhos amarelos.

- Uma coruja! – gritou Sirius entusiasmado.

Havia tempos que sua família não recebia cartas, não havia remetentes.

Talvez, vezes ou outras do único avô vivo, Virgílio Black, mas só. Ninguém simpatizava com os Black, apesar de serem de uma nobre linhagem de sangue-puro – Não cansavam de dizer isso a todos -. Pensou na hipótese de haver outros bruxos na região, quem sabe...

- Não acho que não. – disse tentando convencer a si mesmo. – Bom, talvez... Nunca se sabe...

A coruja voava desengonçada. Apesar disso, não perdia o ritmo, e a cada instante estava mais próxima, definitivamente, a carta era para a casa dos Black. A coruja já estava muito próxima, e não perdia a velocidade, pelo contrário, parecia estar ganhando cada vez mais. Em um movimento brusco, ela parou no parapeito de sua janela.

- Nossa! – disse o garoto assustado – Péssima aterrissagem, Merlin!

Ela encarava Sirius, e dava a impressão de que se não pegasse logo à carta e lhe oferecesse alguma recompensa, a ave morreria ali ou partiria com a carta sem jamais retornar. Sirius apressou-se, ao ver que seu nome estava escrito com tinta vermelha escarlate no envelope. Desamarrou-o da pata direita da ave, e acariciou-a. Saiu de seu quarto em busca de água. Régulos passava pelo corredor no momento, e notou a felicidade em Sirius. Adentrou o quarto e viu a coruja, ficou extremamente intrigado, olhou para o criado-mudo e viu ali a carta. Rasgou o envelope e leu-a.

- Mamãe! Mamãe! Suba cá! – gritava com um tom desagradável na voz – Venha ver! Sirius recebeu a carta! Olhe só!

- Isso é meu! Devolva-me! – disse o ‘menino-mais-velho’, que entrava no quarto com um copo d’água.

- Eu ainda tinha esperanças do que você fosse um aborto!

- Vamos Régulos, não banque o tolo!

- Se eu rasgar a carta, será que vão lhe mandar outra? Ou então, se conformarão de que você não tem capacidade alguma de se tornar um bruxo digno... – disse Régulos com ar ambíguo.

Sirius riu.

- Talvez... – disse com sarcasmo.

- Parabéns Sirius! – disse Régulos entregando-lhe a carta.

- Babaca, sai daqui vai...

Inacreditável como uma pessoa age de forma distinta quando não está em companhia de outras pessoas específicas. Régulos agia como um completo tolo quando estava com qualquer membro da família, mas quando encontrava-se a sós com o ‘garoto-mais-velho’ era simpático, fazia graça, era agradável, podia-se conversar. Sirius não o detestava, era como uma relação normal de irmãos, mas em certos momentos Régulos mereceria danar-se.

De repente, surpreendentemente outra coruja muito parecida com a primeira pousou no parapeito trazendo uma carta igual à primeira. Tanto Sirius quanto seu irmão ficaram perplexos olhando a coruja.

- Ela realmente achava que eu ai rasgar...

- Vindo de você tudo é possível.

- Ah, mas...

- Cala a boca Régulos, sai daqui!

- Calem-se os dois! – disse a Senhora Black que acabara de chegar ao quarto – Deixe-me ver a carta!

Régulos ligeiramente entregou-lhe a carta. É, realmente inacreditável.

- Hum – disse a Senhora Black ao terminar de ler – Vá sozinho comprar seu material, Sirius, e espero que não desonre a nossa família em Hogwarts, você sabe o que isso significa!

- Certo – disse Sirius contendo a alegria – Vou amanhã mesmo ao Beco Diagonal.

- Haverá moedas ao lado da lareira, e sabe onde encontrar o pó... – disse a mulher se retirando do quarto.

Régulos saiu do quarto junto de sua mãe, e lançou um olhar de louvor a Sirius, que sorriu. O humor de sua mãe havia se alterado, e tanto ele quanto Régulos notaram que ela sorria satisfeita. Sirius fechou a porta, serviu água para as duas corujas e leu a carta:

"Sr. Sirius Black
Largo Grimmauld, número 12, Londres
Primeira porta a direita, no segundo andar"

A carta era de fato para ele. Ele observou as corujas partindo, e quando elas já não estavam mais no seu campo de visão ele abriu seu armário e retirou de lá uma caixinha, desceu correndo as escadas, e saiu de casa. Respirou profundamente o ar fresco do fim da tarde. Correu diretamente para a praça.

Ao chegar no destino, retirou a caixa do bolso do casaco, e dela tirou um giz de cera azul. Duas crianças apareceram.

- Vamos ajudá-lo, Ed! – disse a menina.

E os três rabiscaram os locais ‘limpos’. E só pararam quando todos os gizes haviam acabado, e depois disso resolveram correr em torno das árvores, repetidas vezes. Aquilo era incrível, e realmente não cansava. A felicidade de Sirius era descomunal.

Deitou-se e adormeceu rapidamente.

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