O revide de Harry



Um pesado álbum de fotografias caiu sobre a mesa diante dos olhos de Harry. O elfo doméstico que havia aberto a porta da casa para o auror e seu acompanhante agora trazia, além das fotos, alguns pergaminhos. O serviçal se retirou e fräulein Dietrich pegou sua varinha para abrir o livro numa página do meio.

- Este é Frank, nos primeiros dias em que entrou para o ministério. Era um bruxo fabuloso. Podem ver como era um homem alinhado, sempre bem arrumado. Olhem sua expressão de inteligência, o ar determinado do rosto, reparem na força que emana de sua figura. Ele capturou em si o melhor da família – observou com orgulho incontido.

As imagens não pareciam trazer grandes pistas, pensou Harry. O bruxo folheou as páginas enquanto fazia algumas perguntas a respeito do cotidiano do antigo chefe dos aurores. A mulher respondia sem entusiasmo. Frank Dietrich era um sujeito rígido. Gostava de chegar cedo em sua casa e queria tudo muito arrumado. Schmidt balançou a cabeça e Harry não sabia se aquilo significava que “sim, Dietrich era daquele jeito mesmo” ou se significava “nada como ser organizado!”. Acabara de refletir isso quando notou uma fotografia esmaecida de uma mulher de pele clara e cabelos escuros. Estava ao lado de Dietrich numa postura quase submissa.

- Quem é ela?

- Yoanna, a esposa de Frank. Ele se casou depois que fez uma viagem à Grécia, onde conheceu essa mulher.

- É a mãe de... Styx, é esse o nome?

- De Styx e Perséfone. Ela teve um casal de gêmeos – afirmou com a voz fria.

- E onde eles estão?

Fräulein Dietrich torceu os lábios. Uma ruga se aprofundou na testa. Harry esperou um minuto enquanto virava as páginas do álbum de fotografias em busca de novas imagens que lhe dessem informações importantes da vida do bruxo alemão.

- Não ouvi, fräulein. Onde estão seus sobrinhos? E a sua cunhada? – insistiu, desta vez fixando seus olhos na mulher.

- Eu não sei onde está meu sobrinho. Faz tempo que ele não me visita. Styx vendeu a casa paterna e disse que viajaria pelo mundo. Minha cunhada e minha sobrinha morreram. Há alguns anos.

- Lamento, fräulein – murmurou Schmidt, interrompendo as anotações que fazia em um pergaminho que imediatamente se enrolou e se fechou com um lacre.

- Como eles morreram? E, aliás, do que morreu seu irmão? – Harry voltou à carga.

A mulher se ajeitou na cadeira.

- Frank morreu de causas naturais. Pode ver o pergaminho que atesta o óbito. E aproveite para conferir a data da morte – disse, fazendo com que um pergaminho se erguesse e pousasse nas mãos de Harry. – Ele não era muito novo. Quando se casou já tinha 45 anos. Mas não aparentava. Sempre foi bonito – declarou com os olhos brilhando.

O bruxo verificou o papel e o entregou para Schmidt. Estava ali a prova que Dietrich morrera seis meses antes. E não há dois meses como vinha acreditando o antigo chefe do departamento de mistérios.

- Sério? Realmente, seu irmão tinha uma aparência jovial – acrescentou sem deixar evidente a ironia. – E a sua cunhada? Quantos anos ela tinha quando se casaram?

- Yoanna era jovem demais – e o brilho do olhar se foi, substituído por um trejeito de desprezo. – Mal tinha completado 20 anos.

- Bruxa?

- Sim, claro! Foi uma loucura de Frank escolher uma mulher tão jovem e tão pouco ligada às nossas tradições. Uma grega! Minha mãe bem o disse. E Frank não teria se casado se meu pai fosse vivo. De toda forma, ela era bruxa! Meu irmão não chegou à insanidade absoluta – resmungou.

Harry balançou a cabeça, concluindo que Frank Dietrich deveria ser daqueles bruxos que prezavam demais sua linhagem puro-sangue. Entretanto, preferiu não abordar esse aspecto, optando por outro caminho para traçar o perfil do homem.

- Sua família não gosta de gregos, fräulein? – inquiriu, abrindo um pergaminho, o do casamento de Frank.

- São fantasiosos demais. Yoanna e sua mania de mitologia mexiam com os nervos de minha mãe...

- Vocês, alemães, também têm mitologia...– cortou com o máximo de indiferença que pode reunir.

- Bobagens! Tudo não passa de desperdício de imaginação – replicou, cruzando os braços no colo.

- Talvez. Aparentemente, seu irmão não ligava para isso. Afinal, casou-se com uma grega “fantasiosa”.

- Quem poderá dizer que ela não usou algum feitiço de encantamento?! Hmpf. Ela nem era tão bonita assim. Ach, isso agora é passado - bufou. – Frank tinha juízo e pôs fim a certas manias da minha cunhada. Ficar repetindo histórias absurdas como se houvessem deuses não era algo sadio.

- E seus sobrinhos? Também detestavam essas “manias”?

- Styx nunca foi disso. Ele é um rapaz estudioso. Não perde tempo com baboseiras – disse, pretendendo se calar, mas ante o ar perscrutador de Harry teve de prosseguir. – A menina seguiu o pendor da mãe. Felizmente, Frank também tratou de dar um pouco de juízo à filha.

O auror a encarou por segundos. Fräulein Dietrich manteve uma postura que parecia serena. Mas Harry era perspicaz o suficiente para perceber a respiração ligeiramente acelerada e as sobrancelhas arqueadas. Sinais de que havia algo a ser descoberto. Encostou-se melhor na poltrona sem deixar de fitar a sisuda senhora. Sentia que estava atingindo um ponto importante.

- Herr Potter, por que todas essas perguntas? Não deveria questionar apenas a respeito da arca? – sussurrou Schmidt. – Embora julgue que ela não terá a menor idéia do que a arca se trata.

- Por isso mesmo, Schmidt. Estou interessado na arca, claro, só que suspeito que aqui vamos encontrar algo valioso.

- Se já acabaram... – interrompeu a mulher, incomodada com os cochichos.

- Ainda não me contou do que morreram sua cunhada e sua sobrinha.

- Yoanna era uma criatura frágil. Entristecia-se facilmente. Ela não suportou a separação dos filhos quando eles foram para a escola. Foi definhando e Frank nada pode fazer. Um dia, caiu de cama e jamais voltou a se levantar novamente. Morreu com 36 anos.

- Seus sobrinhos deveriam ser bem novos.

- Tinham 16 anos. Yoanna engravidou muito rapidamente. Mas teve complicações durante a gestação e o parto foi prematuro – e a mulher exalou um suspiro. – Frank teve muito trabalho. Cuidar de uma mulher fraca e de dois bebês não foi fácil. Styx sempre foi quieto e gentil. Já Perséfone era seu oposto. A casa dele nunca mais foi sossegada.

- E o que aconteceu com Perséfone?

- Houve um acidente quando ela terminava a escola – e um tremor inédito se manifestou nos braços magros e secos da mulher. – Perséfone tinha mania de provocar. Era rebelde demais. Vivia causando tumultos no lugar em que estudava. Frank foi chamado muitas vezes. Mas a vida cobra seu preço... Um dia ela foi atacada por uma gangue. Não conseguiu se defender.

- Que tragédia – lamentou em seu canto um pálido Schmidt. O bruxo não conseguia se ver envolvido numa briga. Muito menos numa briga com morte. Harry também estava assombrado. Já se metera em encrencas nos tempos de Hogwarts. No entanto, era lhe penoso aceitar um violento ataque dessa natureza promovido por uma gangue. “Exceto se fosse comandada pelo Malfoy”, pensou. E fez uma careta.

- Sim, foi uma tragédia. Eu fui a primeira a ser comunicada. Frank tinha se metido numa missão e não estava localizável. Então enviei uma coruja para Styx para avisá-lo e junto mandei uma carta autorizando sua saída da escola. Frank chegou a tempo de ver os ritos fúnebres. Eu teria ido se não estivesse doente na época...

- Calma. A senhora avisou Styx? Um “acidente” desses se espalharia rapidamente pela escola. Ele não precisaria receber coruja alguma...

- Styx estudava em Durmstrang. Perséfone, não.

- Durmstrang? Por quê?

- Porque Frank considerava que era uma escola forte, na qual Styx poderia se preparar melhor. Meu sobrinho fez os testes de aplicação e passou com louvor. Eu teria escolhido uma escola alemã, porém meu irmão achava que Durmstrang tinha mais nome.

O cérebro de Harry voltou ao passado, quando foi realizado o Torneio Tribruxo. Teria Styx viajado com a comitiva?

- Qual a idade do Styx?

- Ele tem 27.

Harry se levantou da poltrona. Aproximou-se da alemã.

- É a minha idade, fräulein. No tempo que em que estive em Hogwarts, um grupo de estudantes de Durmstrang esteve lá também. Para acompanhar o Torneio Tribruxo. Sabe se seu sobrinho esteve lá?

- Frank não permitira! Ele não concordava que seus filhos participassem de competições. E Styx não era afeito a esse tipo de coisas. Evidentemente, se fosse com Perséfone, ela teria insistido até aborrecer Frank – resmungou.

O auror estava intrigado. Cada vez mais desejava saber quem era Styx de fato. Por onde ele andaria?

- Ahn, fräulein Dietrich, perdão – pediu Schmidt, com polidez. – A título de registro, poderia, por favor, me dizer onde estudou sua falecida sobrinha.

- Ela começou seus estudos de magia numa escola nas cercanias de Berlim. Mas era uma estrutura pequena e não existe mais. Já ouviu falar de Dorf? Ficou lá até os 15. Depois foi para outro lugar.

- Sim, sim. Lembro-me que foi uma comoção na imprensa bruxa quando ela fechou – comentou Schmidt. – Sua sobrinha deve ter ido para Von Schelp, uma bela escola para onde a maioria das estudantes de Dorf se dirigiu.

Fräulein Dietrich se retesou.

- Na verdade, ela foi para uma instituição um pouco distante. Um lugar que também não existe mais.

- Que lugar? – perguntou Harry, que estivera mergulhado em seus pensamentos até aquele momento.

- Saint Petrus.

Schmidt se ergueu e ficou parado ao lado de Harry, que não compreendeu a mudança de atitude de seu acompanhante.

- N-não po-pode ser. Saint Petrus era uma casa de correção. Para jovens bruxos delinqüentes.

A mulher fez que não notou a perturbação do homem franzino. Continuou, sem emoção.

- Eu disse. Perséfone era rebelde demais... Aquela gangue acabou com ela. Pobre menina. E pobre do meu irmão. A morte da filha minou a saúde dele. Ela tinha os traços da mãe. Frank sempre disse que gostaria que esses traços fossem preservados.





*****




Harry deixou a casa com passos apressados. Atrás dele podia ouvir Schmidt acelerando o ritmo de sua caminhada. Ao virar-se para conversar com o bruxo, viu que ele enxugava o suor com um lenço imaculadamente branco. Junto ao corpo, trazia uma maleta pendurada que agora estava mais gorda, recheada com alguns pergaminhos e fotos que fräulein Dietrich cedera ao ministério.

- Muito bem, Schmidt. Qual sua opinião sobre o caso?

- Que caso? Temos um caso? Nein, herr Potter. Para mim, aquilo foi apenas o relato da trágica vida de uma família...

- Não desconfia desse Styx, não?! Analisemos. O chefe dos aurores morre, mas durante quatro meses alguém se faz passar por ele. E engana todo mundo no ministério. Quem poderia ser a não ser um bruxo que o conhecesse muito bem? O senhor que é um homem... como disse mesmo? Ah, sim, meticuloso. Um homem tão meticuloso deixaria escapar um detalhe fora do contexto?

- Herr Potter, não seria difícil a qualquer um bancar herr Dietrich, visto que ele era um homem de costumes imutáveis. Eu o conheci muito tempo atrás e lhe asseguro que não mudou nada em todos esses anos.

- Ou talvez ele não tenha morrido.

- O atestado de óbito é claro.

- Documentos podem ser forjados.

- Mas ele morreu!

- O senhor viu o corpo?

- Por Merlin, não. E-eu... Agora o senhor me deixou confuso.

Harry engoliu uma risada. Estava disposto a desnortear Schmidt para que Binder não conseguisse seguir sua linha de raciocínio.

- Qual sua teoria? Styx se fez passar pelo pai? Ou herr Dietrich simulou a própria morte? E o que isso tem a ver com a arca? O senhor não acredita que o chefe dos aurores tem algo a ver com o roubo, acredita?

- Eu acredito em tudo – respondeu, fazendo uma cara de intriga. – Bem, deixe-me ver os documentos com as notas que Styx tirou em Durmstrang. Quero ver se ele é tudo isso que a tia falou.

O bruxo examinou os papéis com um rápido olhar.

- Humm, o cara era um sabe-tudo. Como a Mione.

- Quem?

- Uma amiga. Por mil gárgulas, se eu mostrar essas notas para ela é capaz de armar um bico. Ela não gosta de concorrência – e sorriu. – Se bem que nos dois últimos anos o inteligente Styx já não tinha notas espetaculares.

- É evidente. Como poderia estudar com as mortes de sua mãe e sua irmã tão próximas?

- Belo chute, Schmidt. Belo chute – replicou, sacando de sua mochila uma capa que despertou a curiosidade do alemão.

- É uma capa de invisibilidade?

- Outro chute certeiro, meu caro. Bom, leve esses documentos todos para o ministério e vê se cuida bem deles. Por enquanto, vou ficar apenas com as notas de Styx. Para atormentar a minha amiga.

- Err, vai se esconder para atormentar sua amiga? – perguntou, estranhando que Harry tivesse jogado a capa sobre os ombros, deixando apenas sua cabeça à mostra. Uma cena fantasmagórica demais para um bruxo que preferia a vida trouxa à mágica.

- Ah, não. Isso é porque hoje é dia de passe livre para turistas no ministério inglês. Às vezes chegam grupos de vários lugares. Normalmente, entro mais cedo para não ter que encontrá-los. É que eles me pedem autógrafos e isso me deixa embaraçado. Como já é tarde, melhor me esconder e entrar sem fazer tanto estardalhaço.

- Mas o senhor consegue passar pela segurança?

- Eu me revelo na hora de cruzar a barreira da segurança. E até chegar lá já driblei um monte de gente. Ahn, obrigado pela companhia. Até a próxima.

Harry puxou o capuz sobre a cabeça, sumindo da vista de Schmidt. Ele só soube que ele tinha partido quando ouviu o som típico emitido por um bruxo que não se preocupa em camuflar seu desaparecimento. CRACK.




*****




Draco Malfoy entregou sua varinha para a equipe de segurança do ministério da magia. Enquanto aguardava sua liberação, foi surpreendido por uma voz que o chamou alegremente. Uma mulher bonita surgiu diante dele.

- Oh, como vai, senhor Malfoy? Pensei que viria depois do almoço.

- É a senhorita Peterson, não é?! Desculpe, minha memória quase me trapaceia. Respondi faz pouco para a ministra. E pedi para antecipar nosso encontro. Acho que não soube da mudança de planos porque enviei uma mensagem diretamente para sua chefe – disse exibindo um sorriso cálido.

- O ajudante de ordens deve ter recebido sua mensagem. Eu estive esta manhã inteira conduzindo esta jovem pelo departamento de relações exteriores – afirmou Pinski, cedendo espaço para apresentar uma moça loura. – Ela veio com uma excelente carta de recomendação e vai passar um período comigo para me auxiliar na organização do encontro da Confederação Internacional dos Bruxos. Eu estava precisando mesmo de uma assistente.

- Que ótimo – murmurou Draco, sem prestar muita atenção à garota. Pegou sua varinha de volta e subitamente reparou que uma pessoa que conhecia tinha acabado de aparatar na entrada do ministério. Pinsky seguiu seu olhar e também identificou a recém-chegada.

- Gina Weasley! Minha tia te chamou? Incrível. Passo a manhã fora da minha sala e fico sem saber das notícias.

Ela não comentou. Exibiu um sorriso breve apenas para cumprimentar as pessoas. Malfoy inclinou a cabeça charmosamente. Pinsky retribuiu o sorriso. E a jovem loura piscou os olhos.

- Weasley? Alguma relação com Rony Weasley?

- Sim, sou irmã dele. Você o conhece?

- Quem não conhece o auror Ronald Weasley? - respondeu timidamente. – Na verdade, sei pouco. Desconhecia que ele tem uma irmã, por exemplo. Perdão.

- Não tem problema – começou Gina.

- Vou discordar – disparou Draco, dirigindo-se para a moça. - Garota, se quer mesmo fazer um bom trabalho aqui tem de conhecer as pessoas que se destacam no ministério. Gina é auror e já tem grandes feitos em seu currículo.

Gina ficou um tanto vermelha. Como auror ainda não fizera nada de excepcional. Tinha consciência que Draco se referia a seus feitos quando ela ainda não era mulher de Harry Potter. Pinsky aprumou o corpo. Abriu a boca, fechou-a e voltou a abri-la.

- Sim. Pelo que sei, Gina Weasley cumpriu muito bem 100% dos deveres para os quais foi designada. Merece todos os adjetivos possíveis – e sorriu. – Harry deve ficar orgulhoso.

- O chefe dos aurores? – inquiriu a jovem.

- É. Harry Potter, o marido dela – completou Draco, fazendo uma careta enigmática.

Então, Pinsky anunciou que precisava sair. Iria com sua nova assistente para um restaurante do Beco Diagonal. “Quase nunca saio na hora do almoço. Esta mocinha aqui me convenceu que o dia está lindo e que eu mereço um momento livre com boa comida e num ambiente mais tranqüilo do que o refeitório daqui”. E partiu rumo à área onde poderiam desaparatar.

O fato de estar escondido sob a capa de invisibilidade livrou Harry de encontrar Pinsky no momento em que ambos estavam diante da fonte do ministério. A um canto o bruxo viu um grupo de crianças com identificações grudadas nas vestes. Um adulto os acompanhava e um funcionário entregava pergaminhos com instruções para todos. Avançou tomando cuidado para não esbarrar em ninguém. De repente, divisou Draco Malfoy ao lado... de sua mulher! “Que diabos o cara-de-fuinha está fazendo aqui?”, perguntou-se sentindo o calor subir pelo pescoço. Esgueirou-se como pode até chegar perto de Gina. Conteve a respiração arfante e o ciúme crescente para ouvir o que conversavam.

- Eu realmente não sei, Draco. Não tenho a confiança plena da ministra. Isso é um privilégio do Harry.

- Ah, nem precisa se preocupar. Foi só curiosidade. Não saquei o que a Charlotte quer de mim. Vamos entrando. Já fui liberado pela segurança – disse Draco, estendendo um braço para abrir passagem para Gina.

A auror bateu com a varinha num bolso e seu crachá se materializou liberando seu acesso por uma barreira de luz que não deixava passar quem não apresentasse um cartão com uma fileira de marcas especialmente desenhadas como código de segurança. Draco pendurou ao pescoço o cartão que recebera da segurança e entrou no prédio. Na sua vez, Harry olhou de um lado para o outro. Não havia ninguém os observando. Sacou seu crachá e estendeu a mão para fora da capa no momento em que atravessou a barreira. A luz circundou seu corpo por segundos, mas o bruxo deu uma corridinha para que os visitantes não percebessem um estranho oco em forma de homem se deslocando pela faixa luminosa. Foi tão ligeiro que nem Gina notou o que tinha acabado de ocorrer.

- Charlotte deve querer comentar com você como foi a reunião com os americanos. O ministro me pareceu bastante convencido. É como se ele pudesse tudo.

- Ele pode quase tudo – concluiu Draco, que limpou a garganta antes de continuar. – Gina, sabe, a nossa conversa ontem foi tão agradável que eu gostaria de... hummm...

Harry teve vontade de esmurrar Draco. “Humm, o quê, dom Juan do inferno”, maldizia para seus botões.

- O que, Draco?

“Ah, não. Páre de chamar o cara-de-fuinha de Draco”, exasperou-se Harry, fazendo força para permanecer de lábios cerrados.

- Aceita jantar na minha casa uma noite dessas?

Por muito pouco, Harry não se descobriu e partiu para cima do antigo rival. O elevador abriu as portas e os três entraram. Gina apertou o botão do andar dos aurores. Draco, o da sala da ministra. Ele a encarou à espera de uma resposta.

- Draco, você é muito gentil...

Harry ficou paralisado, com dificuldade de respirar. Olhou angustiado para Gina.

- Mas sabe que não posso aceitar.

- Nós não fizemos nada demais naquela noite. Só conversamos. Não confia em mim?

- Confio, só que não é isso.

O peito do auror estava agitado. Assistia à cena em silêncio, porém com o coração na mão. “Ela confia nele depois de tudo que aconteceu nas nossas vidas?!”

- E o Harry? – questionou Draco, com o maxilar duro. – Para ser bem honesto, se ele não confia em você...

- Ele confia em mim! – aborreceu-se. – Sabe que jamais faria algo que o machucasse. Harry é a minha vida.

Harry quase socou o ar, num gesto de vitória. Agora queria partir para cima de Gina e cobri-la de beijos. Conteve-se para ouvir sua mulher.

- Não é disso que estou falando. Ele não se sente confortável com a sua presença por perto. Nunca se sentiu. Então, você acha que vou submetê-lo a esse desconforto? – depois hesitou por segundos. – Mesmo que a possibilidade de existir algo entre nós seja zero, não pretendo criar chances de magoar o Harry.

Draco sorriu com sarcasmo.

- Magoar? Como ele é sensível.

- Ah, ele é mesmo. E eu adoro que seja assim.

- Nesse caso, parabéns – retrucou depois de refletir um pouco. – Tive a impressão ontem que vocês não estavam assim às mil maravilhas. Devo ter me enganado.

Gina enrubesceu, mas como o elevador parou no andar da ministra ela não precisou se estender sobre o assunto. Despediu-se de Draco, que saiu, e esperou a porta se fechar para desabafar em voz alta.

- Era só o que me faltava. Ainda mais agora que o Harry está tão irritadiço.

Ela encostou a testa no painel dos botões.

- Ai, Harry, Harry, Harry. Você às vezes me dá dor de cabeça – e suspirou. – Mas sinto muito sua falta.

O elevador parou no andar dos aurores. Gina ganhou o corredor sem saber que seu marido estivera o tempo todo ao lado dela. Harry estava se sentindo leve. Bebera cada uma das palavras da mulher como se tivesse sorvido o néctar dos deuses. Estava enlevado e distraído. As portas do elevador se fecharam. Só que ele não se importou. Riu sozinho. “Draco se ferrou”, e gargalhou. Aproveitou o momento, tirou a capa e a guardou na mochila. Apertou o botão do andar da ministra. Desceu no piso assobiando. Caminhou pelo corredor, entrou na enorme sala de visitas de Charlotte e descobriu Draco sentado no sofá. Cumprimentou o ajudante de ordens pedindo para avisar a ministra que ele estava lá. Em seguida, foi até o ex-capitão da Sonserina.

- Draco Malfoy, que honra – exclamou, caprichando no auto-controle.

Era a primeira vez que se encontravam frente a frente desde que Draco se mudara para os Estados Unidos. Draco ficou de pé e fitou Harry nos olhos.

- A honra é minha – disse, com frieza.

O olhar de ambos estava carregado de significados. Desconfiança, irritação, desafio. Mediam suas forças em silêncio.

- A que devemos essa nobre visita?

- A ministra me chamou.

- Humm, onde está seu amigo, o ministro americano? Ele falou muito bem de você ontem à noite.

- Mitch já foi embora. Eu soube o que ele falou. Mitch me contou.

- Você está se dando bem na vida, não é?! Seu amigo disse maravilhas. Vocês têm um hobby comum. Velejar. Dá para notar pelo seu tom de pele. Um tom meio gigolô americano. Ah, desculpe pela piada.

- Eu diria que é um tom saudável. Já você parece estar se dedicando muito ao trabalho. Está branco como o Nick Quase Sem Cabeça.

- Ah, o velho Nick. Que saudades dele. Por falar nisso, o que te trouxe de volta à Inglaterra? Saudades?

- Os negócios vão bem nos Estados Unidos. Não preciso mais ficar lá o tempo todo. Posso controlar daqui. E, você sabe, é ótimo retornar para o lugar onde nascemos.

- Não precisa fazer negócios aqui? Ei, por que não entra para o ramo das antiguidades? Alguém me disse que era promissor. Que acha? Imagine a aventura que é procurar um objeto raro e encontrá-lo. Um quadro, um livro, uma arca – comentou, jogando uma isca para ver se Draco a mordia.

- Aonde pretende chegar, Potter?

- Engraçado. Essa pergunta eu planejei fazer a você.

Draco sorriu com ironia.

- Não sei onde pretendo chegar, Potter. Mas tenho certeza que terei tempo livre o suficiente para dedicar a minha esposa, quando eu tiver escolhido uma.

- É alguma indireta, Malfoy?

- Só acho que você não a merece. As pessoas comentam seus passos, sabia?!

- Sei. Você está dizendo isso para desviar o assunto ou para me irritar mesmo?

- Que assunto? Eu não desviei de nada.

- Não veio fazer... negócios aqui?

- Isso não é da sua conta.

- É a mesma resposta que deveria dar quando você começou a discutir meu casamento. Só que resolvi ser educado. Mas já me arrependi.

Os músculos de Harry se enrijeceram por baixo das vestes. Era fantástico como conseguia sentir a adrenalina percorrer seu corpo em situações como aquela. Em que se concentrava no oponente, quando tinha a certeza que podia derrotá-lo. Draco franziu o cenho, cerrou os punhos e contraiu os lábios. Seus olhos cinzentos chispavam.

- Então, é verdade. Gina me disse que você é um sujeito “sensível” – riu com sarcasmo. E acrescentou maldosamente. – Tivemos uma excelente conversa ontem à noite. Ela te contou?

Harry rilhou os dentes. Era um golpe baixo. Tinha certeza disso. Se não tivesse escutado Draco e Gina conversando no elevador, a picada do ciúme teria sido terrível. Draco queria desestabilizá-lo. Mas não daria esse gosto para ele. Nesse minuto, o ajudante de ordens apareceu, dizendo que a ministra desejava que os dois, Potter e Malfoy, entrassem em seu gabinete. “Ela ficou contente que você tenha aparecido, Harry. Queria mesmo trocar umas palavras com você”. O auror não respondeu de imediato. Engoliu a raiva.

- Outra hora eu volto. Tenho assuntos a tratar que só podem ser discutidos por gente de confiança.

Foi a vez de Draco se irritar.

- Você é um idiota, Potter. Seus modos são de um gorila e suas respostas são patéticas. Não dá para entender como te admiram por aí... – disse entre dentes. – Por que não bate a cabeça na parede para fazer os neurônios acordarem?

Ele não esperou um segundo. Deu um soco forte no nariz de Draco. O golpe arremessou o rapaz de cabelos platinados contra a parede. Draco soltou um urro que saiu abafado porque ele cobrira o nariz sangrando com uma das mãos.

- Maldito!

- Ah, você estava falando de bater a minha cabeça?! – fingiu surpresa. – É que ouvi você falar que não estava entendendo algo. Achei que era para dar uma bela sacudida nos seus miolos. Humm, com licença. Tenha um bom dia, Malfoy.




*****




Harry surgiu no meio da sala de estar de sua casa. Estava esgotado. Tinha sido um dia longo. Olhou para o relógio. Dez da noite. Tinha se ocupado a tarde inteira com as investigações sobre a arca. Conversara longamente com Rony. Depois tivera de se reunir com a ministra para discutir... bobagens! “Arre, estou ficando cansado disso”. Ouvira uma reprimenda de Charlotte por ele ter se indisposto com Draco Malfoy. Deu uma risadinha discreta. Apesar da fadiga, seus sentidos ainda estavam alertas. Percebeu um vulto na porta que dava para as escadas. Era Gina que descera descalça assim que escutara o marido aparatando. Olharam-se.

- Boa noite. Está um pouco tarde, não é?! – observou o bruxo.

Algo em Harry desconcertou Gina. Ela não compreendia o quê. O marido não estava nem nervoso como naquela manhã, nem angustiado como no dia anterior. Parecia confiante. Ela não atinava com o motivo. E, como há milênios acontece no mundo, o desconhecimento gerou temor. Gina receava tomar a atitude errada e aumentar o caos da sua vida. Optou pelo silêncio.

- Ah, que simpático. Continua sem falar comigo – emendou Harry, erguendo as sobrancelhas e avançando alguns passos em direção à mulher. – Você é uma criatura teimosa, Gina Weasley.

Ela ficou escarlate.

- Como se você fosse um doce de pessoa.

- A velha Gina de volta. Lembro que em Hogwarts de vez em quando você dava umas respostas atrevidas para mim, para o Rony, para o Fred, para o Jorge.

- Desenterrando cadáver? Eu também posso fazer o mesmo – rebateu a ruiva.

- Falando em cadáver, encontrei o Malfoy no ministério. O seu “falecido” – tripudiou. – Que me diz disso? – provocou Harry, se aproximando mais de Gina.

- Vai começar de novo? – resmungou.

- Ele comentou, assim como quem não quer nada, que vocês ficaram conversando longamente na noite passada.

- E daí?

- Tive que dar um soco na cara dele. Charlotte não gostou muito – acrescentou subindo um degrau. Já estava bem perto de Gina.

- Comportamento exemplar – ironizou a mulher.

- Precisei tomar uma atitude. O comentário dele exigia algo à altura. Uma porrada, por exemplo.

- Ou você poderia ter me dado um voto de confiança. Só vou te lembrar que, entre nós dois, quem esconde coisas é você. Não eu – sibilou.

- Não? Você passou um dia inteiro sumida. Isso não é se esconder? Em vez de vir conversar comigo e me dar mais oportunidades para me explicar...

- Nem vem. Foi você que pisou na bola. Não tente inverter os papéis – disse, com as pupilas brilhantes.

Harry subiu mais um degrau. Via o rosto da mulher em todos seus detalhes. O nariz erguido, orgulhoso, desafiador. Os lábios entreabertos, prontos para um contra-ataque verbal. Os cílios espessos piscando. Ele sorriu. Gina se encolheu um pouco. Notou os olhos verdes semi-cerrados, penetrantes. Decidiu retornar para o quarto.

- Cansei desse papo...

- Não vai admitir, Gina?

Ela girou o corpo para encará-lo de novo.

- Admitir o quê?

- Que sente a minha falta?

- Está se achando o gostosão, é? – retrucou. E revidou. – Já que você viu o Draco hoje, deve ter notado o quanto ele estava elegante. Você nem fez a barba. E seu cabelo está desarrumado. Parece um selvagem.

- Gina, essa provocação não vai funcionar! E quer saber? Não estou nem aí para os elegantes. Dane-se o cara-de-fuinha.

E pegou Gina no colo com facilidade. Surpresa, a ruiva não teve reação. Harry a carregou até o quarto. Abriu a porta com um piscar de olhos. “Se quiser continuar brigando, vai ter de encontrar outra causa”. Antes que ela protestasse dizendo que não inventara causa alguma, Harry selou a trégua com um beijo. Foi providencial. Afinal, até os teimosos cansam de bater cabeça.














Nossa, demorou, eu sei. Não fiz revisão do capítulo. Farei amanhã ou terça. Sério, gente, está difícil arranjar tempo livre. Sem falar que minha vida sofreu uma reviravolta... Chuif! Chuif! Tô sentindo uma falta danada de uma certa pessoa. Paciência. Agora, é arrumar a casa. E a cabeça. Ah, não se preocupem. Não é nada sério de verdade. Quer dizer, não muito. Acho. Obrigada pela leitura e pelos comentários. Bjs, K.

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