Dorme feliz quem pode



Se para Harry e Ginny, felizes, seria fácil dormir naquela noite, o mesmo não se aplicava a Ron e Hermione. Os dois não tinham trocado sequer uma palavra a não ser bom dia ou boa noite desde que ela chegara nA Toca. Será que ela não tinha lido o bilhete dele? Será que ela não sentia nada por ele?

Aproveitando o momento no qual Harry saiu para o jardim com Ginny, ele respirou fundo e decidiu falar com ela, de uma vez por todas. Alguma coisa qualquer, que fizesse com que Mione conversasse normalmente com ele. Afinal, porque ela estava tão estranha? Ele não se lembrava de ter feito ou dito nada para magoá-la. Ela estava sentada numa cadeira na cozinha à meia-luz. Ela estava incrivelmente linda!

Usando uma camisola preta de seda (afinal ela não era mais uma criança), visível apenas porque ela estava sentada com as pernas em cima da cadeira também, o queixo encostado em seu joelho, um robe de flanela por cima, os pés descalços, ela parecia estar em outro mundo. Os cabelos castanhos soltos, o olhar distante, e um cheiro gostoso de lavanda. Ela tinha saído do banho há pouco tempo.

Ron a observava de longe, admirando sua beleza natural. Ela estava tão distraída que só percebeu a presença dele depois de alguns minutos.

- Que susto você me deu Ron! Tudo bem?

Ron estava lindo! Os pés descalços também, uma camiseta um pouco justa (teria ele crescido ainda mais em horas? Seria possível?), que marcava os contornos de seu peito agora forte e musculoso pela prática do Quadribol, diferente daquele Ron magrelo de antigamente... uma calça de moleton cinza, bem surrada, também um pouco apertada, marcando as formas das coxas, da bunda dele, e tudo mais dele (ela corou ao olhar), os cabelos um pouco compridos e desajeitados, os profundos olhos azuis serenos, uma carinha de cachorro sem dono que dava uma vontade louca nela de beijar e morder! Mas não era momento pra isso, não era! Desviou o pensamento dessas coisas, estava pensando em coisas mais importantes, como salvar o mundo, por exemplo.

Ele queria dizer que não estava tudo bem, queria dizer tudo aquilo que sentia por ela, queria explodir! Mas só conseguiu replicar com a voz muito baixa:

- Eu só... só queria conversar um pouco com você. Afinal, não tivemos chance de conversar desde que você chegou, e eu, bem, eu só queria saber...

- O que você quer saber?

- Como você está.

- Preocupada. Nervosa. Pensando no que vamos enfrentar. Você não? Com tudo isso que está acontecendo, sem sabermos o que vai acontecer conosco? Francamente, como é que o Harry tem cabeça pra namorar num momento como esse? Eu não entendo! Claro, torço muito pelos dois, sempre torci, mas...

- Mas o quê Mione? Tá com inveja é? Quem você acha que é pra julgar o Harry e a minha irmã? Só você mesmo, com a cabeça sempre enfiada num livro ou estudando, pra falar mal de alguém que quer curtir a pessoa que gosta antes que...

- Que... (o olhar dela era duro e sem emoção)

- Que seja tarde demais. Só isso. Não acredito que você está dizendo isso Mione. É uma decepção muito grande pra mim. Vou dormir, ganho mais do que tentando falar com uma pessoa tão sem...

Ele parou de falar. Não queria ofendê-la. Amava Hermione demais para magoá-la, mas será que ela não podia ser mais acessível, pelo menos uma vez na vida?

Ela se assustou com a repentina agressividade dele. Logo ele, o ser mais lento da face da terra, falando de sentimentos? Sobre amor? Como ela podia pensar em gostar de um ser tão estranho, que mudava de idéia de uma hora pra outra? Como pensar em ter uma conversa franca sobre sentimentos com alguém que pensava em se divertir nessa altura dos acontecimentos, quem ele pensava que era?

Ele saiu da cozinha, ainda tonto com a idéia de se declarar a uma pessoa tão egoísta e intrometida. Ainda bem que ele não falou nada! Decidiu esquecer o assunto de uma vez por todas, se ela quisesse ficar sozinha tudo bem. Ele não queria uma namorada mesquinha como ela, querendo se meter na vida dos outros.

Eles nem desconfiavam que estavam, na verdade, pensando na mesma coisa! Ela pensava sobre o bilhete, ele queria explicá-lo melhor, os dois eram muito teimosos, ninguém queria perder a razão ou dar o braço à torcer. Dessa maneira seria tão difícil que os dois se acertassem...

Ron foi para a cama magoado e confuso. Jamais pensou que Hermione pudesse ter esse tipo de comportamento, logo ela, sempre apelando para as lágrimas em qualquer ocasião! Ela só podia estar enlouquecendo... ou será que ela não gostava dele e não queria contar?

Enquanto isso, ela chorava baixinho, em silêncio. Ela tinha certeza de que Ron queria falar sobre aquele bilhete com ela, mas, como sempre, estando nervosa e com a cabeça cheia de problemas, ela exagerou na reação, falou demais, e falou bobagem, por medo, e estragou tudo... será que o amor resistiria a tanta teimosia? Ela não mentiu quando disse que achava que o momento era impróprio para o amor, ela realmente queria que tudo acabasse logo, para que eles pudessem finalmente se acertar. E caiu em si, viu como foi tola e infantil, ele só queria conversar, e ela o agrediu, ela sempre faz TUDO errado mesmo, que droga, será que um dia ele a perdoaria?

Ele se deitou extremamente triste. Nem viu Harry chegando para dormir.

Ela foi se deitar depois de Ginny, que dormia profundamente quando ela entrou no quarto, com um sorriso estampado no rosto.

Quem estaria certo? Será possível amar no meio de uma guerra?

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