Carlotta tem um monte de idéia

Carlotta tem um monte de idéia



O céu noturno se estendia, um suntuoso retrato de diamantes cravejados no veludo negro. Acima da floresta, algumas nuvens esbranquiçadas se amontoavam, e um vento suave passava pelos terrenos, cada folha do gramado tremia e a folhagem farfalhava. Lily fechou os olhos, respirando profundamente e inclinando-se um pouco mais contra a moldura da janela. O frio, o escuro, as estrelas, o rastro de luz no lago espelhado – eram lindos. Estavam entre as coisas mais belas que Lily podia imaginar. Estava apaixonada pelo cenário, mas aquilo tinha que acabar.


"Lily, você está acordada?" veio a voz de Marlene, e a ruiva se virou para encarar a amiga, que espiava através das cortinas de sua cama. Ela ainda estava praticamente dormindo. "Essa é a quarta noite seguida."


Era a terceira, mas Lily não discutiu. "Volte a dormir, Mar."


"Lily…" mas a loira já estava obedecendo, fechando as cortinas e desabando sobre o travesseiro, de modo que Lily pôde ouvir o leve baque. Ela deu um sorrisinho.


A terceira noite seguida.


A terceira bela, cansativa, noite sem sono, seguida.


A sétima no mês.


Há duas semanas, Lily assistira outubro chegar pela mesma janela do dormitório feminino, e em outras duas semanas ia – sem dúvidas – estar assistindo ele desaparecer e dar lugar a novembro. Suspirando, a ruiva descansou o queixo sobre as mãos e fechou os olhos, rezando por um pouco de sono... apenas cinco ou seis horas...


"Lily!" gritou uma voz do abismo, e a ruiva virou a cabeça. Não queria dar atenção a ela. Não queria ser tirada daquele... "Lily, são oito e meia!"


Merda.


Os olhos dela se arregalaram e Carlotta Meloni estava à sua frente, as mãos nos quadris perfeitamente esguios e uma sobrancelha castanha arqueada. "Você dormiu no parapeito da janela novamente, Lily," disse Carlotta enquanto a ruiva tropeçava nos próprios pés.


"Droga. Você disse oito e meia?"


Carlotta assentiu.


"Onde estão as outras?"


"Desceram para o café há 45 minutos. Elas me disseram para te acordar às oito, mas eu estava no banho e..."


"Não, tudo bem."


Lily olhou em volta do dormitório, tentando encontrar seu uniforme. Carlotta, com um leve sorriso em seus lábios rosados, apontou para o malão da ruiva. "Obrigada," disse a monitora, agarrando as roupas e dirigindo-se à penteadeira. Ela começou com a maquiagem.


"Sabe," começou Carlotta, sentando-se na cama. "Eu teria cuidado se fosse você."


"O que quer dizer?" indagou Lily, sem prestar muita atenção. Ela passou o pincel do rímel rapidamente por seus cílios espessos.


"Bem, uma vez eu li um livro que dizia que se você está perdendo o sono sem razão alguma, é porque seu espírito sabe que alguma coisa está prestes a acontecer."


Lily olhou para Carlotta pelo reflexo no espelho. "Algo ruim?"


"Provavelmente," disse a morena. "Algo grande, com certeza."


"Ah. Bem, provavelmente não tem nada a ver com isso… Quer dizer, a escola tem sido muito estressante ultimamente e tudo mais."


"Certo." Carlotta assentiu, passando uma mão por seu cabelo escuro e sedoso. "Tenho certeza que não é nada desse tipo." Ela ficou calada por um tempo.


Lily mordeu o lábio. "E você, Carlotta? Está... perdendo o sono?"


"Ah, não. Estou bem." Mas a voz da morena parecia um tom mais alta que o normal. "Nada demais, considerando... sabe, o que aconteceu em setembro."


Sabendo que estava atrasada, mas também reconhecendo que tinha alguma obrigação com a garota que a acordara naquela manhã, Lily pressionou: "Qual é o problema, Carlotta? Há algo errado na escola?"


"Não, não… é só que… é bobagem. Problemas com garotos, sabe."


"Problemas com garotos? Você? Carlotta… querida… algum garoto já te rejeitou?"


A morena riu (até isso era perfeito). "Eu passei um tempo com esse cara nas férias," começou ela radiante. "Ele é... encantador e fantástico, mas... eu não faço o tipo dele."


"Ele é gay?"


"Não."


"Então você faz o tipo dele, Carlotta."


"Então você acha que eu devo… ir atrás dele?"


"Se você gosta dele, e acha que ele pode gostar de você, por que não?"


Carlotta sorriu. "Obrigada, Lily. Não posso falar com Shelley sobre esse tipo de coisa… ela não entende como alguém pode gostar de um garoto que não seja James Potter."


"Essa obsessão ainda não acabou?" suspirou Lily. Carlotta sacudiu a cabeça.


"Te vejo na aula, Lily."


"Certo. Até mais."


"E… Lily… Tenho certeza que nada de ruim acontecerá."


Ela saiu flutuando do quarto, e Lily a observou sair. Sozinha, a ruiva olhou para o espelho e encarou seu reflexo privado de sono. Carlotta tinha um monte de ideias estranhas... Essa sobre "não dormir" provavelmente era uma delas. Era provável que fosse apenas...


Oito e trinta e quatro.


"Merda," praguejou, terminando de aplicar o rímel no outro olho. Se não se apressasse, alguma coisa ruimdefinitivamente aconteceria, não havia mistério algum nisso...

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