Gweena Tirésias



~ Capítulo 6 ~ Gweena Tirésias ~

“Oh, Mulher, piedosa demais e demasiadamente sábia, longo foi o seu discurso. Mas se, em verdade, você tem o conhecimento da sua própria morte, como pode você pisar com calma coragem o altar como um touro conduzido por um deus?”

- Ilíada, Homero

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- Minha senhora! Minha senhora, acorde...

Lílian Evans abriu os olhos. Tinha a visão turva de lágrimas.

Estava em seu quarto. Era noite lá fora, da janela era possível ver um pedaço do céu infinitamente negro. O quarto era iluminada por um archote e no mínimo quatro elfos domésticos estavam ali, curvados sobre a cama, observando-a com idênticas expressões de preocupação.

- Minha senhora, minha senhora, o que a senhora sentir? Nós ficar muito preocupado quando ouvir o grito, nós tentar chamar alguém pela lareira... – se adiantou um elfo doméstico, aparentemente, do sexo feminino, a julgar pelo laço esfiapado preso no topo da cabeça. Grossas lágrimas rolavam por seus olhos amarelos e pulava de um lado para o outro.

- Alguém? – perguntou a jovem, atordoada.

Demorou algum tempo até que Lílian conseguisse reorganizar seus pensamentos. Sonhara com aquilo de novo – o quarto, o bebê e um grito. E a luz esverdeada incidindo no berço. Estava se tornando cada vez mais freqüente à medida que a gravidez evoluía.

Entrementes, os elfos que Tiago providenciara para cuidarem da esposa durante a sua ausência faziam um alvoroço entrando e saindo do quarto com bandejas de chá, copos d’água e lençóis novos. Ela só os observava sem saber muito bem como agir. Sempre tinha achado ruim a sensação de ter os outros fazendo as coisas por ela. Por outro lado não queria que a dedicação deles se convertesse em medo.

- Foi só um pesadelo – murmurou, finalmente. – Devo ter comido demais no jantar, foi só isso...

O elfo com laço de fita na cabeça enxotou os outros para fora dizendo que a senhora tinha que descansar e serviu chá numa xícara para Lílian. A jovem recebeu a xícara sem pensar muito.

- A senhora estar mesmo bem? O bebê...

Como que por reflexo, Lílian levou a mão à barriga e suspirou aliviada.

- Sim, está tudo bem, Dru – sorriu timidamente e a elfa pareceu se convencer. Saiu levando consigo a bandeja de chá e disse que voltaria mais tarde para apagar o archote. Lílian achava meio chato ter que usar archotes ao invés de luz elétrica, mas os elfos se sentiam muito desconfortáveis em lidar em interruptores e lâmpadas.

Se recostou nos travesseiros se sentindo muito cansada. À medida que a gravidez evoluía, Lílian passava grande parte do tempo dentro de casa. Parecia injusto que Tiago, que sempre estivera por perto para apoiá-la nos três primeiros meses, tivesse que fazer tantas viagens justamente quando as náuseas tinham passado e sua barriga começava a crescer e se arredondar.

Efetivamente, podia-se dizer que estava atravessando o período mais sereno de sua vida até então, um tremendo contraste com sua volubilidade usual, como seus amigos logo perceberam. Claro que nada estava realmente bem para a resistência, mas pelo menos parecia que uma longa fase negra tinha finalmente passado. Também tinha o fato de que Lílian agora se sentia quase de volta aos dias de menina. Por mais que tentasse sustentar uma pose sensata e racional, não podia evitar ficar toda boba quando saía com Marlene e Andrômeda a fim de esquadrinhar o Beco Diagonal em busca de coisas de bebê.

O lado ruim de tudo isso era que agora que a gravidez estava bem óbvia, todo mundo a tratava como se fosse feita de cristal ou algo do gênero. Quando perguntava sobre as missões da Ordem, as pessoas olhavam para o lado e trocavam de assunto o mais rápido possível ou respondiam evasivamente. Assim, a única forma de Lílian se manter informada era através de boatos e meias conversas ouvidas de relance.

Aparentemente, grande parte dos membros da Ordem estava agora na Cornualha, combatendo os últimos gigantes aliados à Voldermot sobreviventes após a grande ofensiva dos aurores, há dois anos atrás. Com a chegada da primavera, a luta tendia a se tornar mais fácil, ou pelo menos era o que Lílian esperava. Pensar em Tiago se escondendo em cavernas perigosas, tentando se proteger das tempestades intermináveis que tomaram o lugar das nevascas, enquanto ela se aquecia diante da lareira, a fazia se contorcer por dentro, mas não havia muito que pudesse fazer para ajudá-lo.

- A senhora querer que Dru chamar senhora Marlene?

Lílian se sobressaltou. Estivera tão imersa em seus pensamentos que não percebera a volta do elfo doméstico.

Bem que ela queria poder falar com alguém sobre o sonho. Sonho não. Porque desde o início, Lílian sabia que aquilo não era um sonho normal. Conhecia bem a sensação de ser acometida por uma visão, já tivera visões antes, quando ainda era estudante em Hgwarts. Sua professora de Adivinhação lhe dissera uma vez que ela possuía essa capacidade, mas Lílian nunca quisera realmente saber algo sobre o futuro, então nunca se interessara em desenvolver essa habilidade. As videntes geralmente tinham vidas depressivas, o conhecimento do destino as aprisionava, abandonavam a convivência com as pessoas, eram temidas.

- Não, Dru, não precisa. Eu quero apenas descansar um pouco, está bem?

- A senhora estar certa, amanhã vai ter que acordar muito cedo para ir à escola.

Dru saiu, ainda fitando a “senhora” com preocupação.

Lílian sorriu com a perspectiva de que em algumas horas estaria de novo em Hogwarts. Dumbledore pedira a ela que revisasse os feitiços anti-artes das trevas do castelo. Claro, ele mesmo poderia fazer isso, mas o velho diretor mal tinha tempo de parar na escola.

E talvez, lá, pudesse procurar alguma orientação para desvendar o mistério desses sonhos que se repetiam.

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Voltar ao velho castelo após tanto tempo foi uma experiência um tanto quanto perturbadora. Tudo ali lembrava alguma risada, alguma conversa divertida, alguma briga com Tiago. A bétula junto ao lago onde tantas vezes tinha repousado solitariamente com seus livros. As salas de aula, a biblioteca, a sala de monitores, os corredores propensos a correntes de ar, as masmorras úmidas, tudo parecia exatamente igual ao que era antes. Talvez os alunos estivessem mais silenciosos ou as torres parecessem um pouco menos suntuosas, mas o resto estava inalterado. Só ela estava diferente.

Na véspera do dia que enfim deixaria o castelo, Lília resolveu procurar a atual professora de Adivinhações. Minerva não falava muito bem dela, mas pelo menos não achava que ela fosse uma charlatona.

Então, no fim da manhã, a jovem rumou para a sala dos professores, onde diziam que Gweena Tirésias se refugiava durante o horário de almoço.

A sala estava cheia de professores a caminho do salão principal, mas não foi identificar a mulher sentada junto à janela.

Um facho de luz amarelada entrava através das cortinas semicerradas e incidia transversalmente na capa verde musgo. Um manto negro lhe cobria completamente a cabeça, os olhos negros brilhando como lanternas no rosto encoberto.

Lílian hesitou um pouco junto à porta se perguntando se era aquilo mesmo que queria fazer. Todos os outros professores já tinham saído.

Gweena era professora de Adivinhações de Hogwarts há apenas um ano, após muita insistência de Dumbledore, que não queria ter que parar de lecionar a matéria em Hogwarts. No último século, videntes realmente bons tinham sido muito raros e, após a morte da antiga professora, Cassandra Vablatsky, havia sido realmente difícil achar uma substituta.

Vê-la isolada daquele jeito, coberta da cabeça aos pés, alheia a todo o movimento de pratos e talheres alguns andares abaixo, fez Lílian fraquejar em sua decisão. Era mesmo necessário se distanciar assim do sentimento humano para ser uma vidente?

- Senhora Tirésias?

A mulher ergueu os olhos para a jovem e Lílian deu um passo para trás, surpresa. Naquele rosto pálio e magro, a pele flácida formando rugas pronunciadas, estavam um par de grandes olhos muito escuros, como dois túneis sem fim. E olhar dentro deles fez Lílian sentir um espasmo de terror, como estivesse voltando ao pesadelo e ouvisse de novo aquela gargalhada gélida.

- Gweena - murmurou a velha, entrelaçando as mãos pálidas cobertas de manchas sobre o joelho -, Helena, Joana, do que prefere me chamar?

- A senhora é Gweena Tirésias, professora de Adivinhações da escola?

- Não é o meu nome que você devia estar me perguntando, mas o seu.

Lílian ergueu o queixo e enfrentou com firmeza o olhar enigmático da vidente. Por alguns segundos, experimentou a estranha sensação de cócegas na cabeça.

- Sou Lílian Potter - falou. A outra abaixou os olhos e mirou a janela e Lílian soltou a respiração, que ignorava estar prendendo, com um longo suspiro.

Gweena então puxou uma cadeira e a apontou para Lílian, que se sentou receosa, imaginando se tinha sido uma boa idéia procurar uma vidente de verdade que pudesse lhe ajudar a interpretar o sonho. Mas precisava saber o que eram aqueles pesadelos, só assim poderia fazê-los parar. Se fossem mesmo visões, ela queria saber o que queriam dizer.

- Você sabe por que veio falar comigo, não sabe?

- Sim... – suspirou Lílian. – Porque eu... eu achei... eu posso ter tido uma visão.
- Não – cortou Gweena, com veemência. – É porque você tem o dom.

A jovem piscou, incrédula. Sabia que as videntes eram geralmente muito dramáticas, mas dom? É claro, era uma bruxa, mas o que tinha isso de especial numa escola de bruxaria? Não tinha nenhum dom especial de magia, era boa em feitiços, sim, e também tinha facilidade com Adivinhações, mas nada comparado a Tiago, que se tornara animago sem orientação especial com apenas quinze anos. Era uma pessoa como todas as outras, tinha medo do futuro, justificava tudo que fazia para si mesma, sustentava uma fortaleza sem limites, quando nunca tinha se sentido tão fraca. Enfim, nada que pudesse indicar um dom especial.

É claro, talvez Gweena estivesse apenas usando a palavra errada. Podia ter dito que sua aura era diferente, que eu tinha visão interior, mas um dom... Devia ser verdade aquela história de que videntes perdem um bocado da humanidade ao longo da vida. Essa mulher certamente não sabia de nada sobre seres humanos.

- Você tem – Gweena cruzou os braços e se recostou na cadeira de espaldar alto. – Embora eu saiba que você não acredita em mim e acha que eu estou apenas tentando te impressionar.

- Eu não disse...

- Não precisa dizer. É assim que as pessoas me vêem. Bom, não posso culpá-las, a vidência nunca foi completamente entendida por trouxas e, muito menos, por bruxos. Videntes geralmente não têm grandes poderes mágicos e costumam afugentar as pessoas com previsões apocalípticas. Somos pessoas muito solitárias, na verdade.

- Por que está me dizendo essas coisas?

A vidente maneou a cabeça como se pensasse no assunto.

- Eu não sei. Talvez seja esse dom que você não acredita que tem. Ou eu posso ter percebido uma grande semelhança entre nós, já que você também costuma ter visões inexplicáveis – Lílian abriu a boca para replicar, mas Gweena levantou a mão espalmada para que ficasse quieta. – Mas nada disso basta para explicar tudo. Talvez eu só esteja cansada da solidão, sabe o que é isso?

- Sei. Mas por que está me dizendo isso assim de repente? O que você quer de mim?

- Nada. Você é que precisa de mim. Tem algo muito importante acontecendo aí dentro, eu sei.

Gweena apontou para Lílian, mas a jovem não pôde dizer se ela se referia às suas visões ou à sua gravidez.

- Quando... quando descobriu que era vidente? – perguntou, finalmente.

- Eu sempre soube. Minha mãe era vidente e me disse que eu seria também. Mas se está perguntando de quando meu dom começou a se manifestar, isso foi quando eu tinha quatorze anos. E, se você quer saber, passei todo o resto da minha adolescência fingindo que nada acontecia, achava que assim um dia poderia me livrar disso. Não preciso dizer que não adiantou muito. Mas, no fim das contas, meu mundo não é tão solitário e louco quanto parece.

- Eu nunca disse isso.

- Não precisa dizer. Eu só queria que soubesse que não é tão ruim assim ser eu. Principalmente quando não se tem escolha. Ninguém perguntou se queríamos essa responsabilidade, ninguém se importa se tínhamos outros sonhos ou se trabalhávamos para alcançá-los. Nós somos simplesmente escolhidos para portarmos esse poder e temos que aprender a conviver com isso.

Gweena voltou a encarar Lílian nos olhos, mas dessa vez a jovem não teve a sensação de estar tendo seus pensamentos esquadrinhados como na vez anterior.

- Quer mesmo saber o que sua visão quer lhe dizer?

- Quero - respondeu Lílian, sem firmeza na voz.

Gweena enfiou a mão esquelética numa das dobras das vestes e tirou para fora um pergaminho amarelado e uma pena.

- Certo, do que você se lembra?

- Quase nada... não sei, era tudo tão apavorante. Só me lembro do bebê e da luz verde. E também da gargalhada.

- Gargalhada de quem? – a vidente escrevia febrilmente no pergaminho, a pena parecia ter algum tipo de feitiço de fluência de tinta, pois não precisava ser recarregada a cada linha.

- Não sei.

- Está bem - respondeu, ainda concentrada em suas anotações. - Já teve outras visões antes?

Lílian olhou ao redor hesitante antes de responder:

- Sim, algumas, na verdade. Mas eu não tinha uma já faz muito tempo.

- Quando foi a última?

- Quando eu tinha dezesseis anos. Eu vi o meu casamento com Tiago – a jovem se arrependeu de ter dito isso logo em seguida ao sentir meu rosto esquentar de rubor.

- Ele já era seu namorado na época?

Por um segundo, Lílian pensou ter surpreendido no olhar enigmático da mulher idosa um lampejo de divertimento, mas talvez tivesse simplesmente imaginado, pois no momento seguinte seu rosto estava completamente impenetrável como antes.

- Era uma espécie de dança - a quentura em seu rosto aumentava. - Eu não sei se era exatamente o meu casamento, estava tudo muito embaçado, mas eu acho que era sim.

- E então você se viu grávida...

- Sim, e logo em seguida eu tinha um bebê nos braços. Ei, como você pode saber, eu não tinha falado nada sobre isso!

- Nem tudo precisa ser dito com palavras - Gweena deixou seu pergaminho de lado e começou a se levantar. - Era seu filho?

- Tinha os olhos exatamente iguais aos me... - Lílian parou de falar sentindo que seus olhos estavam querendo sair de foco. Ela tentou fixá-los em algum lugar, mas uma familiar sensação de dissolução a assaltou. Podia ouvir ao longe a voz de Gweena, ela estava pressionando o dedo em sua testa, enquanto recitava sem parar com a voz asmática:

- Queremos, nesse mundo de guerras dos homens, o olhar de uma mulher. O olhar de Cassandra, que previu a tragédia e a morte com suas palavras de sabedoria profética, Cassandra que trazia em si a sensibilidade de perceber o que outros ignoravam. Queremos um olhar que transcenda os véus, essa distração sensorial que, ao mesmo tempo que esconde, revela.

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Lílian estava em um quarto escuro, apertando uma criança contra o peito. A única coisa que tinha em mente era que precisava salvá-lo, não importava como fosse. A porta se escancarou com estrondo. Seus braços se enrijeceram ainda mais quando sentiu os rumorejos malignos no ar. Não tinha sua varinha, mas, de alguma forma, sua mente estava clara e teve certeza do que devia ser feito.

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- Vamos, fale, o que foi que você viu? - Lílian apertou os olhos, ofuscada pela claridade repentina. Estava de novo na sala dos professores em Hogwarts e Gweena acabara de fazê-la entrar em transe para lembrar do sonho e agora não parava de insistir: – Você viu quem era? Conte logo, conte de uma vez...

Lílian desejou poder ficar um pouco sozinha, ou pelo menos em silêncio com seus pensamentos, para reorganizar suas idéias e também para poder assimilar aquela angústia enorme que a visão trouxera consigo. O bebê parecia de repente muito agitado e ela queria poder dizer alguma coisa para acalmá-lo, mas mal conseguia acalmar a si própria com Gweena falando sem parar.

- Fale de uma vez – a vidente não parava de insistir.

- Eu estava num quarto escuro – começou Lílian, se sentindo muito fraca para falar mais alto que um sussurro. Passava a mão trêmula pela barriga redonda, sentindo que, aos poucos, o bebê se aquietava. – E sabia que tinha que proteger meu filho. Mas eu falhava, meu filho sobrevivia, mas... mas a ameaça continuava lá.

- Você viu a pessoa que riu?

Lílian meramente balançou a cabeça negativamente. Não ouvira risada alguma, estava tão concentrada em fazer alguma coisa que não teve tempo nem de ouvir o que acontecia ao redor.

- Certo - Cassandra suspirou ruidosamente e se largou na cadeira, voltando a se concentrar na janela. – Você vai voltar a me procurar daqui há alguns dias. Sei que vai embora da escola amanhã, mas tenho certeza que encontraremos um modo de nos ver novamente.

Lílian nunca saberia explicar como acabou conseguindo se levantar e andar até o quarto cedido por Dumbledore para ela pelo período que ficasse na escola. Suas pernas pareciam feitas de gelatina e suor frio lhe escorria pela têmpora.

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Desculpem pelo atraso, tive um problema no pc q tinha gravado a fic e tive q esperar vir aki na casa do meu pai pra pegar o disquete *isso q dá ser desorganizada u.u*

+ hein, naum deixem d comentar =p

Bjos, o/

Bel_Weasley

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