Capitulo 12



Capitulo 12

Quando Rony chegou, o dr. Irving já tinha visto o Picasso e constatara a fraude. Hermione dera-lhe um Matisse para que ele verificasse também. E, enquanto o perito trabalhava, os três, Hermione, Harry e Rony, aproximaram-se de uma janela da biblioteca.

-Precisamos saber o que dizer a Malfoy – Harry observou silencioso.

-Tudo, é lógico! – o advogado exclamou.

-Quero saber quem está com o original do Picasso. – Hermione ajeitou os cabelos. – Se conseguisse falar com Stoney, poderia tentar rastreá-lo. Se Neville não se abrir, não terei como procurar nada. Vou buscar mais chá para o dr. Irving. Isso faz parte de meu trabalho no museu também.

Quando ela se foi, Rony aproximou-se mais do amigo:

-Harry, não deve conduzir essa investigação sem o conhecimento da polícia! Você disse que vinte e sete arquivos foram encontrados. Isso significa o quê? Cinqüenta milhões em obras de arte, não?

-Mais ou menos.

-Então! Pessoas já morreram nessa confusão toda. Farei o que você quiser, mas... não se arrisque tanto. Vejamos o que Irving diz sobre o Matisse. O arquivo estava aqui, com data atualizada, e Hermione acha que o quadro é original.

Hermione voltou, com uma bandeja, com chá para Irving, água para Rony, uma coca-cola para ela própria e cerveja para Harry.

-Acho que deve contratar o dr. Irving para verificar toda sua coleção, Harry. Afinal, se Longbotton for a julgamento, tudo aparecerá na imprensa, e será bom que você tenha alguém para declarar a autenticidade de suas antiguidades para que continuem a ter valor de mercado.

Minutos depois, o perito ergueu os olhos da tela, tomou um gole de chá e garantiu:

-Este, para mim, é verdadeiro.

Harry dirigiu-se a Rony:

-Agora podemos falar com Malfoy.

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No fim da tarde, muitas peças falsas lotavam a biblioteca. Harry estava furioso, mas Malfoy dissera-lhe que tudo aquilo serviria de evidência e não deveria ser tocado. Caso contrário, ele mesmo colocaria figo na parafernália, tão bravo estava.

-Neville é bem esperto. – Hermione balançou a cabeça. – Alguns dos arquivos que removeu e parou de documentar com datas são de peças genuínas. Poderia, assim, alegar que não notara a fraude, se tudo fosse descoberto. Poderia até culpar você, Harry, pelas falsificações.

-Bem, posso deter Longbotton pela tentativa de assassinato, mas quanto a um crime desse porte, devo avisar o FBI. – o detetive aceitou o sanduíche que Harry lhe oferecia.

-Não quero que me envolvam nisso.

-Já está envolvida, senhorita, porque não posso esperar que a outra vítima, o segurança Prentiss, testemunhe contra Longbotton, uma vez que está morto.

Ela olhou, aflita, para Harry.

-Calma. Cuidaremos disso – ele garantiu.

Assim que o detetive se foi e Rony seguiu para o escritório, Hermione aproximou-se de Harry e abraçou-o pela cintura.

-Não quero me envolver com a lei, e você sabe disso.

-Prometi que você não será envolvida, querida. Confie em mim como confio em você.

Ela suspirou.

-Tive uma idéia sobre o que pode ter acontecido aqui na noite da explosão, Harry. Quer saber?

-Claro!

-Então, vamos esperar escurecer. Quero seguir os passos de Etienne.

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Apesar de tudo, Malfoy concordou em interrogar Neville Longbotton mais uma vez e esperar para contatar o FBI. Isso fez Hermione apreciá-lo. Na verdade, estava se envolvendo com gente que jamais quisera ver nem de longe: um policial, um advogado...

-Minha teoria é que Etienne tomou esta direção porque é a mais segura. Lembra-se de que encontramos a pegada no muro?

Harry concordou.

-Mas para que tanto cuidado se Neville cuidaria de alterar as câmeras de vídeo, Mione?

-Já vou explicar. Pode abrir os olhos agora.

Harry obedeceu. Estavam diante de uma janela pequena, na parte de baixo da residência.

-O que há aqui dentro? – Hermione quis saber.

-Cadeiras extras, mesinhas para festas, esse tipo de coisa.

Com uma lanterna, ela viu as marcas próximas ao trinco.

-Ah, aqui está! Ele usou um pé-de-cabra e entrou por aqui.

-Então, não só as câmeras e os sensores externos foram desligados.

-Não creio que estivessem desligados, ou Etienne não teria sido tão cuidadoso para entrar. Longbotton deve ter deixado tudo ligado para que ninguém desconfiasse. Venha até esta sala.

Foram pelo lado e entraram, utilizando-se do clipe de papel mágico de Hermione.

-Vê? O trinco da janela foi quebrado.

-DeVore o quebrou para parecer que estava trancado, mas saiu pela mesma janela.

-Sim.

-E por que DeVore entraria na casa se Longbotton ia trocar as pedras?

-Essa é minha dúvida. Muito bem, se fôssemos Etienne, saberíamos onde fica a galeria. A câmera da sala de segurança não estaria funcionando, e seria seguro entrar pela janela. O que fizemos então? Subimos pela escada dos fundos, para evitar os guardas. Não tomamos cuidado com a porta de cima porque tudo iria ser destruído...

à medida que ela falava, ambos reproduziam os passos de Etienne DeVore.

-Pegamos a pedra porque os sensores estão desligados, e tornamos a sair, fechando a porta. Se Prentiss visse a porta aberta, teria mudado sua ronda, sem tropeçar no arame. Mas essa é a parte em que ainda tenho dúvidas. Deixe-me pensar.

Harry concordou, passando os olhos ao redor. E então lhe ocorreu:

-E os demais guardas? Neville não poderia detê-los.

-Eles fazem rondas de quinze em quinze minutos. Etienne sabia disso, como eu também.

-Nesse caso, Longbotton e DeVore estavam juntos nisso.

-Não creio. Etienne devia saber que Longbotton ia desligar os alarmes, mas não vejo indícios de que Longbotton soubesse da presença de Etienne na mansão. Vejamos... Coloquemo-nos no lugar de Longbotton por um minuto.

Hermione desceu a escada até o quarto do gerente de aquisições.

-Como estava acostumado a trocar as peças de arte por cópias, ele devia saber como desligar todos os alarmes. Isso, ou subornava Clark. Bem, Neville devia estar com a pedra falsa aqui, já que você e Rony tinham acesso a seu escritório. – Hermione analisou em torno. – Eu ia perguntar-lhe: porque não há peças de arte aqui?

-Não sei. Não supervisionei a decoração dos quartos particulares.

-Mas as acomodações de hóspedes têm obras de arte. E o homem encarregado de toda a arte por aqui não tem nada em seu dormitório... Bem, desligamos os alarmes e pegamos a pedra falsa para colocá-la no lugar da outra. Avisamos nosso comprador quando teríamos a pedra verdadeira, e ele deve ter contado a Etienne ou a quem o contratou. Afinal, Etienne sabia que os alarmes estariam desligados.

Harry tornou a assentir, concordando com o raciocínio.

-Neville, sabendo ou não que você ia voltar de Stuttgart, tinha de fazer a troca. Etienne não devia saber que você estaria aqui, mas isso seria irrelevante para ele. Neville começa a troca, deixa o rádio ligado por segurança ou porque Clark poderia avisá-lo de algo. Deve ter ouvido os guardas se comunicar, como você ouviu, avisando sobre um intruso. Assustado, ele volta para seu quarto e religa os alarmes.

-E então tudo explode, a pedra desaparece e ele fica com a falsa.

-Exato. Mas, se eu não tivesse entrado, e você não estivesse aqui, teria sido ele a tropeçar no arame.

Harry a encarou.

-Então... Neville era o alvo!

-É possível.

-E por que alguém contrataria DeVore para pegar a pedra e matar Longbotton, se Longbotton ia pegar a pedra de qualquer maneira?

-Não sei. E há outro pormenor também: por que alguém iria me quere aqui quando tudo acontecesse?

Passados alguns segundos de total silêncio, Harry arriscou:

-Teria sido O’Hannon quem contratou vocês três para o mesmo serviço?

Hermione fez que não, explicando:

-Ele não teria tanta imaginação para coordenar um roubo assim, em que nenhum dos intrusos soubesse dos demais. Além disso, foi assassinado também. Meu palpite é que eu seria o bode expiatório. Presa ou morta, levaria a culpa por tudo. Deviam esperar que Neville e a pedra falsa fossem descobertos; achariam que era a original e que ele a teria tirado de mim antes da explosão. O problema é que, com Etienne e O’Hannon mortos, não posso descobrir quem os contratou. Talvez Stoney conseguisse, mas nem imagino onde se encontra. E não podemos perguntar a Longbotton, porque, dentro de algumas horas, Malfoy o entregará ao FBI, junto com as obras falsas. As pistas apontam todas contra mim, você sabe, e acho que nosso acordo, milorde, acaba de ser rompido. Tenho de desaparecer.

Hermione fez um movimento brusco, parecendo querer fugir de imediato, mas Harry a deteve. Experimentou a terrível sensação de que seu mundo iria ruir se Hermione se fosse. Foi aí que uma idéia lhe ocorreu:

-Mione, coloque aquele vestido que usou no jantar na casa de Rony. E saltos altos.

-Do que está falando?!

-Confie em mim.

Hermione retornou ao quarto. Tensa, ela ponderava. Tinha ainda algum tempo. Poderia pegar um vôo durante a madrugada, se necessário. Fosse o que fosse que Harry pretendia, queria que ela estivesse bonita; por isso ajeitou os cabelos e maquiou-se. Ao ver-se no espelho, pronta, sentiu uma vontade enorme de chorar, mas controlou-se.

Encontrou Harry no saguão e sentiu um arrepio na espinha. Com o terno elegante, ele assumia a posição poderosa e confiante do homem que era, na realidade.

-Pronta?

-Sim. Para onde vamos?

-Para a delegacia.

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Na sala havia apenas uma mesa e três cadeiras. Na parede em frente, um espelho enorme, atrás do qual Hermione imaginava quem poderia estar.

-Calma – Harry murmurou. – Confie em mim.

Ela forçou um sorriso.

Neville apareceu, algemado, escoltado por um policial. Harry pediu ao guarda que o soltasse e foi atendido, com certa relutância.

-Imagino que tenha vindo para me auxiliar – disse o gerente de aquisições, com raiva. – Trabalhei para você por dez anos, Harry e só porque essa ladra se deitou em sua cama, você passou a acreditar em tudo o que ela diz!

-Não vim para ouvir esse tipo de coisa – Harry respondeu tranqüilo. – Mandei Rony arranjar-lhe um advogado, que estou pagando.

-Pois nem sei o que andam dizendo de mim, além de que roubei a pedra e tentei matar essa aí. Por que eu faria isso?!

Harry encostou a perna na de Hermione, num sinal para que interferisse.

-Dinheiro? – ela indagou, ainda tensa com o espelho.

-Eu tenho dinheiro! Harry pega bem, porque faço um bom trabalho. Não teria motivos para roubar a pedra.

-Não me refiro à pedra. Ela vale pouco, até para um pateta como você.

Longbotton abriu as mãos sobre a mesa, alterado.

-Pateta é você, que tentou roubá-la! Acharam a réplica em suas coisas, não nas minhas!

-Porque todas as suas falsificações já estavam espalhadas pela mansão.

Longbotton empalideceu.

-Não entendi.

-Deixe disso, Neville... O Picasso pareceu ter sido pintado por um babuíno. E você, um completo idiota, até anotou quando pegou o verdadeiro.

-Mentira!

-Junho de 1999.

Longbotton a olhava com ódio.

-Não pode provar nada, moça. Sou um homem bom.

-Posso provar tudo. Quer mais detalhes? O Gauguin, por exemplo? – inquiriu.

-Cale a boca!

Harry assistia a tudo, atento aos movimentos de Neville.

-Não fará diferença – Hermione continuou. – O FBI virá falar com você amanhã de manhã. Eu só queria lhe informar que sei o que fez e que contei tudo a Harry. Vamos, agora? – ela olhou para Harry.

-Cretina... – Longbotton sussurrou, de súbito esgotado.

Harry bateu com o punho no tampo. Os dois estremeceram.

-Já chaga! Quero duas palavras suas, Neville, e então verei o que posso fazer para ajudar. Se não me der a resposta que quero, gastarei até meu último centavo para provar que matou Prentiss e tentou me matar também!

-Mas eu nunca...

-Dê-me o nome de seu comprador para a pedra! Sabemos que tinha seus planos!

Neville engoliu em seco. Murmurou, por fim?

-Meridien. John Meridien.

Harry ficou em pé.

-Farei o possível por você. Mas, para seu próprio bem, seria melhor que ficasse na cadeia para sempre.

Em segundos, Hermione e Harry estavam fora dali. Diante do carro, ela pediu:

-Deixe-me dirigir. Você não gostou nada de ter ouvido o nome desse tal de Meridien, não é?

Harry entregou-lhe as chaves.

-Dirija bem rápido.

Meridien devia ter algo a ver com os negócios de Harry, Hermione concluiu. Para ela, o nome era conhecido, mas não significava nada. E, dali em diante, apenas uma preocupação não a abandonava: tinha de escapar antes que o FBI chegasse.

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Malfoy viu o guarda recolocar as algemas em Longbotton. Quebrara a ponta do lápis com o qual tomava notas. Hermione Granger poderia ter sido uma policial se seu pai não a tivesse transformado no que era. John Meridien. Um banqueiro, ou algo assim. Notara que Potter reconhecera o nome e ficara tenso. Ele e Granger fariam algo, com certeza. E teria de tomar a dianteira naquela investigação, pois queria uma prisão, fosse como fosse.

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Assim que entraram na mansão, Harry seguiu para a escada.

-Não vai me explicar nada?

-Depois. Preciso chegar a Stuttgart amanhã. Isso... ficou muito pessoal, Hermione. Não posso lhe dizer nada neste momento.

Ela concordou.

-Boa sorte, então. Você tem de ir, e eu também.

Ele sentiu o coração se apertar.

-Como assim? Retornarei de Stuttgart em apenas dois dias!

-Neville falará sobre mim ao FBI amanhã. Não posso ficar esperando.

-Sendo assim, venha e faça as malas. Você virá comigo!

-Não! Pode ser preso por cumplicidade, Harry. Não foi esse nosso acordo.

-Vamos, Mione, estou com pressa! E não a deixarei!

-Mas...

Ele tornou a descer, tomou-a pelos ombros e a beijou com paixão.

-Mandarei meu piloto preparar o jatinho para amanhã bem cedo. Tenho de fazer algumas ligações para saber onde Meridien se encontra. Eu e você teremos uma conversinha com esse sujeito.

-Mas... quem é ele?

Harry respirou fundo. Três pessoas tentaram roubá-lo. Não deixava de ser um consolo jamais ter gostado de Meridien. A ironia era que a pessoa que escolhera para confiar mais naquela confusão toda era uma ladra.

-Ele quase foi meu sócio num empreendimento bancário, duas semanas atrás. – e subiu os degraus, apressado.

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-Mudança de planos – Harry avisou, depois de uma hora e meia de vôo. Acabar de desligar o telefone, ao qual estivera praticamente desde que saíram da Flórida. – Rony acaba de ligar avisando que Meridien não está em Stuttgart, mas em Londres. Fico imaginando por que ele me queria mais um dia em Stuttgart depois de pedir tanto dinheiro por suas ações no banco. Até ofereceu uma visita à fábrica da Mercedes-Benz...

-Porque não pretendia tê-lo no meio do roubo.

-Porém, isso levanta a questão: John sabia sobre DeVore e os explosivos?

-Se sabia, não o queria morto.

-Claro que não. Não poderia salvar seu banco se eu morresse.

-E se Longbotton deu-lhe esse nome só para tirá-lo do caminho? Meridien seria capaz de fazer isso com você?

Harry balançou a cabeça.

-Você disse que DeVore era ambicioso, pensando sempre mais nos fins do que nos meios para conseguiu o que desejava. John também é assim. Tentou me passar para trás em algumas transações e acabou com grandes perdas por causa disso.

-Por esse motivo queria que comprasse as ações de seu banco...

Ele se levantou.

-Vou avisar Jack de que mudaremos o curso para Heathrow. Durma um pouco. A poltrona vira leito.

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Harry queria seguir direto do aeroporto para a casa de John, mas era cedo para o banqueiro ter chegado do trabalho. Harry tinha uma casa em Londres, embora sua residência oficial fosse em Devon. Assim, foi para lá que seguiram, ao longo do Tamisa.

De repente, um caminhão avançou contra a limusine, empurrando-os para o rio. Tudo ocorreu muito rápido, tomando-os de surpresa.

-Ernest! – Harry gritou para seu motorista.

-Estou fazendo o possível, senhor!

Mas o caminhão continuava, atingindo-os de novo.

-Abra o teto solar! – Hermione pegou sua arma de tinta. Levantou-se, pedindo a Harry que a segurasse pelas pernas, e disparou três vezes contra o pára-brisa do caminhão.

O motorista quase perdeu a direção e, atingindo o carro mais uma vez, continuou, um tanto às cegas, deixando de persegui-los. Ernest conseguiu para a margem.

-Estão todos bem? – Harry perguntou.

-Sim – disse Hermione.

-Sim, senhor. Mas assustado – afirmou Ernest.

Logo, dois policiais apareceram numa viatura, para verificar os estragos. Harry pegou a arma de tinta. Aquela era sua cidade, e era melhor que não fizessem muitas perguntas sobre Hermione.

-Não sabia que costumava levar seus apetrechos em suas viagens.

-Nunca saio sem eles. – ela sorriu.

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Lá estava ela numa outra delegacia em menos de vinte e quatro horas. Harry deu seu depoimento sobre o incidente, e a queixa foi registrada. Logo foram liberados. Não era a primeira vez que tentavam matar Harry Potter, pelo visto.

-Ficaremos sozinhos em casa – ele comunicou a Hermione, dentro da viatura que os levava. – Dispensei a criadagem por medo de haver perigo para eles. O esquadrão anti-bomba já foi verificar tudo, mas... nunca se sabe.

A casa era pequena. Harry dera a maior para Samantha e Eric, e ela não ficava tão longe assim, como Harry explicou assim que se acomodaram.

-Deixou obras de arte com ela também?

-Não, Mione. Por quê?

-Para saber se Neville poderia ter se mantido ocupado lá.

Ela foi até a janela, que dava para o Tamisa.

-Em que está pensando? – Harry indagou, ao notá-la tão calada.

-Amanhã, tudo deverá ter terminado.

-É. Sabe, não fico longe de Devon por muito tempo. Gostaria de conhecer meu verdadeiro lar? Poderíamos... passar algum tempo juntos após resolvermos tudo.

Hermione hesitou.

-Não me responda agora. Pense bem a respeito.

-Farei isso, Harry.

O telefone tocou, sobressaltando-os.

Harry atendeu, e sua expressão mudou, tornando-se séria, dura.

-Não, Samantha. Aconteceu há horas. Não sou responsável pelo que a BBC põe no ar, e não, não devo avisá-la quando estarei na cidade. Não, a mulher que estava comigo não é da sua conta. Agora, vou desligar, estou no aguardo de outra ligação. Não quero jantar com você. Vim a negócios. É, com ela.

Pelo que ouvia, Hermione avaliava o quanto Samantha ainda queria se manter perto do ex-marido.

-Não. Nem desjejum, nem almoço. Nada. Eric não está ai? Ótimo. Então, vá falar com ele. Não tenho a menor disposição para esse tipo de assunto.

Hermione resolveu ir para o banheiro. Saiu de lá pouco depois, e se encaminhava para a sala quando ouviu ainda parte do telefonema:

-Sim, é sério. Ela é adorável. Mexe comigo. Não, não a comparo a você. Pelo amor de Deus, Samantha, encontrei outra pessoa! E você também, não?

De repente, numa atitude instintiva, Hermione correu para o banheiro novamente e se trancou lá dentro. Harry dissera que era sério. Que mexia com ele... Era verdade. Para ela, também o relacionamento era sério! Estava em pânico.

-Mione? Tudo bem aí?

-Sim. Sairei num minuto!

Em cinco minutos, ela entrava na sala.

-Acabou o telefonema.

-É. – Harry não sabia se ela ouvira tudo, mas isso não importava, de fato. – Vamos comer alguma coisa?

-Um sanduíche seria ótimo.

-Certo. Venha até a cozinha.

-Harry, você disse que Eric o decepcionou. Samantha também, imagino. E muito.

-Bem, além do óbvio, Samantha tinha planos: dinheiro, uma bela casa, vida social. Fui o instrumento perfeito. Não pensei muito, na verdade e... após alguns meses de casamento, nós dois soubemos que não era aquilo o que, na verdade, nos interessava.

Hermione sorriu, acompanhando-o. planos mudavam. Interesses mudavam. Mudariam para ele também?

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Harry pegou sua BMW e seguiu, com Hermione, até a casa de John.

Sentia-se ansioso. E não queria estar despreparado, ainda mais sabendo que Meridien não era conhecido por sua complacência e amabilidade. Por isso, enfiou um revólver no bolso da jaqueta. Descobrira que não iria lidar com gente boa, pelo que vira acontecer na Flórida.

Pararam diante da residência de Meridien.

-Vamos pelos fundos? – Hermione quis saber.

-Eu vou pela frente.

-Então, irei pelos fundos. Talvez possa encontrar a pedra.

-Não quero que infrinja a lei.

-Você é quem está fazendo isso. Estou apenas ajudando.

-Oh, moça, você é terrível!

-Terrível foi ser quase jogada no rio por aquele caminhão. Dê-me dois minutos e depois faça bastante barulho na entrada principal, certo?

-Tome cuidado.

-Você também.

Um beijo rápido selou a despedida breve.

Harry aguardou o tempo pedido e em seguida enfiou o pé na porta, arrombando-a.

-O que está havendo aqui?! – protestou John Meridien. – Vou pegar meu taco de críquete! E chamarei a polícia!

-Chame.

-Harry?! Mas o que...

-Surpreso em me ver, imagino.

-Você quebrou minha porta!

-Você roubou minha pedra troiana.

-O quê?!

-Pediu para que eu ficasse mais um dia em Stuttgart. Foi para me proteger ou para garantir que conseguiria o que queria?

-Não faço idéia do...

-Três pessoas morreram, John! Pense bem na história que vai inventar.

-Harry, você enlouqueceu! Não tem o direito de entrar aqui e me acusar de nada.

-Harry! – Hermione o chamava do corredor. – Precisa ver isto!

Sem vacilar, ele a encontrou no escritório de John. As gavetas dos armários tinham sido todas arrombadas. E Hermione lhe mostrava uma foto que parecia ser uma cópia dos retratos da pedra troiana que a companhia de seguros tinha.

John apareceu, então, à soleira , com o rosto molhado de suor.

-Saia da minha casa agora, Potter! Você e essa mulher, seja ela quem for!

-Tenho uma sugestão melhor, John. Por que não se senta e me conta toda a verdade? Como nomes e tudo mais.

-Vocês podem ter plantado isso aqui. Não significa nada.

-Para a polícia, talvez não, mas para mim... Agora, sente-se e comece a falar!

Por um segundo, John, que era alto e forte, murmurou coisas sobre não poder confiar em ninguém. Mas acabou obedecendo.

-Não fiz nada de errado, Harry.

-Posso não fazer acusações se me contar quem está por trás disso. Posso, também, emprestar-lhe dinheiro para salvar seu banco.

Uma vaga esperança apareceu nos olhos do sujeito.

-O banco? Longbotton falou apenas que tinha algo para vender e me ofereceu uma parte do lucro.

-Neville falou com você pessoalmente?

-Sim. E agora chamarei meu advogado e a polícia.

-Quem mais, além de Longbotton, ofereceu-lhe a pedra? – Hermione interferiu.

-Quem é você? – John rebateu.

-O bode expiatório enviado pelo outro sujeito que, quando contatou você, mandou alguém para roubar a casa de Harry e matar Longbotton.

John arregalou os olhos.

-Vai nos dizer que não sabia, que foi tolo o suficiente para que o culpassem por tudo? O sujeito que roubou a pedra está morto; o outro, que contratou minha amiga aqui, também; e esta tarde alguém tentou empurrar meu carro para dentro do Tamisa, conosco dentro! Como pode ver, não estou nada contente! Quero nomes!

Hermione passou os olhos ao redor.

-O Gauguin também está aqui, Harry. Deve ser ele mesmo quem coordenou tudo.

-Sou um colecionador, moça. Não tive nada a ver com essas mortes.

-Então, prove! Quem é o outro, John?

Parecendo cansado, abatido, John quase gemeu.

-Oh, Harry, será que ainda não percebeu?!

-Não. Sou lento demais. Vamos, diga-me!

Meridien suava em bicas.

-É meu nome que interessa? – um homem alto e loiro entrava no escritório com uma pistola em uma das mãos e um taco de críquete na outra.

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A pistola estava apontada para Harry; e o taco, para Hermione.

-Você...

-É, meu caro, você fornece uma boa vida a quem está em sua órbita.

Meridien ficou de pé.

-Eric, eu...

O taco moveu-se rápido, colocando-o no chão.

-Eric Wallis?

-Moça esperta! Por isso sempre esteve à frente de meus passos. Quanto a você, meu velho companheiro, acho que terei de matá-lo e fazer parecer que você e John tiveram um... desentendimento.

-Espere. – Hermione tentava ganhar tempo. – As peças falsas em Palm Beach estão com o FBI. O que você pegou é original, Longbotton está preso... Nada o ameaça agora.

-Longbotton irá falar. É um idiota. Terei de eliminá-lo mais cedo ou mais tarde.

-Neville tentou vender a pedra a John sem você saber, não?

-Esperta, de fato...

-E Etienne e O’Hannon? O que lhe fizeram?

-Etienne ficou nervosinho porque descobriu que você foi chamada para estar na casa naquela noite. Erro de O’Hannon. Eu disse a ele para mandar alguém tolo o suficiente para acabar pagando por tudo. O imbecil mandou você e depois entrou em pânico.

-Bem, você é novo no ramo de roubos, pelo que sei. Não irão acusá-lo de nada. O’Hannon era detestável. O fato é que todos nesse negócio saberão que você matou dois de nós. Alguém falará, em especial se houver uma recompensa oferecida pela polícia.

-Que tal calar a boca, mocinha? – Eric voltou-se para Harry. – Engraçado, não, colega? Venho roubando você há anos, e nunca percebeu. Aliás, roubei sua mulher, o que não demandou muito esforço, devo confessar. Agora, vou matá-lo e será o fim. Quase consegui, na semana passada, mas sua amiguinha aqui foi mais rápida do que imaginei. Ou Neville foi idiota demais, não sei.

-Quer dizer que foi você quem me acordou com a máquina de fax...

-Brilhante! – Eric ironizou. – Os jornais sempre mostraram o quanto foi gentil doando sua casa para mim e Samantha, Harry. Nunca mostraram como me levou quase à falência no negócio de Nova York! Não comentaram que tirou os móveis da residência que nos deu, que pintou as paredes de vermelho e deixou colchões sujos no chão!

Hermione olhou para Harry,espantada.

-Achei que seria poético – disse ele, com um macabro senso de humor.

-Mas eu acabei vencendo, seu idiota! E agora, quem vai primeiro? Você ou ela?

-Eu – Harry respondeu, frio.

-Noto que Meridien tem um sistema de câmeras na casa e que você está sendo filmado? – Hermione começava a se desesperar.

Eric vacilou por um segundo; foi tudo de que Hermione precisou para pegar o abridor de cartas com que forçara as gavetas e arremessá-lo contra ele, atingindo-o na parte de cima do peito.

A arma que ele segurava caiu, mas, com o taco ainda atingiu Harry, que o derrubava com um soco. Outro golpe, Eric atingiu Harry na testa, que sangrou de imediato.

Hermione avançou contra Eric, mas ele foi mais rápido e derrubou-a, agarrando-lhe os cabelos e batendo sua cabeça contra o piso. Foi então que ela viu Harry levantar-se com dificuldade, apanhar o taco e golpear a têmpora de Eric. Então, tudo ficou negro.

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Quando conseguiu abrir os olhos, Hermione viu Harry muito próximo, completamente desesperado.

-Acorde, meu amor! Por favor! – dizia ele.

-Minha cabeça... – e fechou as pálpebras.

-Eu te amo, Hermione Granger! Não vai me deixar agora, vai?

Ela sorriu de leve.

-Depois dessa declaração? Não, mesmo! – e tornou a desmaiar.

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Dessa vez, ela acordou e viu Harry com o lábio superior inchado e uma atadura no supercílio. Havia homens uniformizados andando ao redor, ocupados, e Hermione estava atada a uma maca.

-Mantenha-se calma, querida. Tudo ficará bem – Harry lhe dizia.

Estavam entrando numa ambulância.

-E Eric? E John? – Hermione não queria desmaiar de novo.

-Em outras ambulâncias.

-Acha que Samantha sabia de tudo?

-Não. Mas será interrogada. Olhe, Malfoy ligou para a Scotland Yard e pediu para que interrogassem Meridien pelos roubos.

-Ele devia estar atrás daquele espelho, na delegacia...

-Devemos uma cerveja ao bom detetive, não acha?

-É. Gosto dele, sabia? Apesar de ser policial.

O paramédico aproximou-se para amarrar a maca e colocou-se entre Hermione e Harry.

-Só mais uma coisa, querido. Quero ir para Devon.

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Duas semanas depois, ambos passeavam pelos campos da propriedade rural.

-Samantha garantiu que testemunhará contra Eric. – Harry passou o braço pela cintura de Hermione.

-Acho que ela quer você de volta.

-Problema dela.

-O que Samantha sabe sobre o que houve?

-Que Eric esteve na Flórida por dois dias na semana passada.

-Para matar Etienne e pegar a pedra.

-Exato. Alugou uma BMW.

-A que vimos na estrada!

-Isso mesmo.

-E eu? Não vou ter de testemunhar?

-Você, meu amor, ficará sempre protegida da lei em alguma de minhas propriedades. A propósito, já que perdi tantas de minhas obras de arte, começo a pensar em reiniciar minha coleção. O que acha de ser minha consultora?

-Isso me tiraria de minha profissão...

-Não é mesmo?

-Olhe... Andei falando com Stoney. Creio que vamos nos aposentar e abrir uma firma de segurança particular.

Harry a encarou, incrédulo. E, rindo, comentou:

-Ótimo. Pode ser minha consultora e ter sua firma. Desse modo, terá muito o que fazer. Ah, mais uma coisa: acho que lhe darei um presente. O que me diz?

-Depende do presente.

-O Bentley.

Os olhos dela se arregalaram.

-A mulher que eu amo merece o que há de melhor.

-Claro... Sabe, acho que sua oferta de emprego está ficando mais interessante a cada minuto, milorde.

-Você fica brincando com esse título, mas sabia que sou mesmo nobre?

-Ora...

-Sério! Marquês de Rawley.

-Está brincando...

-Juro.

O caminho de volta ao pequeno castelo de Devon estava cheio de flores e também de uma felicidade que parecia emanar daquele casal tão diferente e, no entanto, tão elegantemente apaixonado...



Obs:O FIM......Ah, como é triste ter que postar o último capitulo de uma fic, né? Bom, espero que vocês aprovem o final de "Flertando com o Perigo" e meu parabéns a Nick Granger Potter que acertou em parte quem estava por trás de toda essa confusão. E para a Monalisa Mayfair e a Ana Lívia, meninas foi uma boa sugestão, mas infelizmente.... errada!!!!hehehe....
Ainda hoje eu posto a resumo da minha nova fic "O Senhor da Paixão" e no domingo o primeiro capitulo!!!!!Bjux e até lá!!!!

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