Universos Paralelos

Universos Paralelos



Capítulo 4
Universos Paralelos


“Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito...”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.”
(Pablo Neruda)


Os meses escorriam imutáveis. Os dias eram quentes, as noites vivas e o sangue corria veloz pelas veias. Em Nova Orleans era carnaval o ano inteiro, bastava conhecer os lugares e pessoas certas. Um eterno Mardi Gras (1). O que mais podia querer?

Pena que não fosse bem aquela garota que gostaria de estar beijando.

- O que está fazendo?

A voz da moça o despertou de devaneios bem fora de momento.

- O que te parece que eu esteja fazendo? – as mãos de Harry estavam a meio caminho por dentro da saia de Cho Chang.

- Me parece que está no mundo da lua. – ela retirou suas mãos sem cuidado, assentando bem a saia de volta ao lugar.

Estavam dentro do carro, parados à porta da casa dela, no bairro de Metairie, em uma de suas despedidas quando a noite era agradável e sem brigas, mas o programa do qual voltavam não incluía nada de mãos e beijos esfaimados em seu roteiro.

- Não é meio tarde pra bancar a puritana? – ele riu de canto, assumindo sua costumeira postura de “estou me lixando”.

- Não sou puritana, Harry. – ela apertou os olhinhos de um jeito muito seu. Contrariedade e esperteza constantes. - Mas tenha o cuidado de estar cem por cento comigo quando estiver com as mãos por baixo da minha saia.

- Está num daqueles dias? – falou com o excesso de rispidez que usava quando alguém enxergava bem aquilo que ele queria esconder.

- Você é um nojento malicioso, não é? Não me confunda com uma das suas vagabundas. Nós dois estamos juntos porque, até agora, foi conveniente para os dois. Mas isso pode mudar.

- Droga... você não me ama mais? – usou o tom debochado que ela mais detestava.

Cinco segundos antes de responder. Ela estava batendo algum recorde de auto-controle.

- Amar você? Amo tudo o que aprendemos um com o outro naqueles três anos de “parentesco”. – usou um jeito bem sarcástico, como sempre, demonstrando a ele que também era exímia em usar as garras quando era preciso. – Faça o que quiser por aí, mas lembre-se que não sou uma a mais na sua vida.

Ele se endireitou sobre o banco de couro, segurando o volante e fitando um ponto qualquer à frente. Era sempre assim quando sentia dever desculpas a alguém. Mais fácil arrancar um dente.

- Bom argumento. – falou afinal. – As mãos lamentam. – ele agitou os dedos divertidamente.

Cho arqueou as sobrancelhas muito de leve e enfiou a cabeça para fora da janela do carro, fitando por segundos o firmamento.

- O quê? – ele indagou, perdendo o lampejo de bom humor.

- Você quase pediu desculpas, de modo que... estou só averiguando se vai chover.

- Engraçadinha. – ele fechou os dentes numa imitação de sorriso.

- Vai me dizer o que está te perturbando?

- Não. – olhou para a frente de novo.

- Talvez... eu pudesse ajudar. – ela tentou conter a curiosidade.

- Nós não conversamos, Cho. Sabe disso. Não temos nada pra compartilhar, exceto nossas “conveniências”.

- Cuidado, Harry, posso desistir de você.

Ele se voltou para ela com o sorriso mais sacana que conseguiu encontrar.

- Você não vai. – aproximou-se até sentir sua respiração bater na maça do rosto dela.

- Me dê um só motivo pra não fazer. – ela falou com frieza, embora a familiar fraqueza nas pernas ainda a assaltasse. Mesmo depois de tanto tempo.

Harry se afastou de uma vez só, percebendo a garota contrair os maxilares, frustrada e ainda mais contrariada.

- Um motivo? – ele contraiu o cenho com ironia. – Tem certeza que quer só um? Ok, você nunca vai desistir de mim porque eu sou a droga de alma mais gêmea que você já teve na vida.

Cho deu uma risadinha seca.

- Querido... não estou nos achando mais tão parecidos... Em termos de maldade, malícia... Coisas que os outros dizem a meu respeito, – falou em total descaso - você não chega aos meus pés.

- Não são até seus pés que me interessa chegar. – ele tornou, impassível.

Interessante como palavras atrevidas podiam se tornar tão frias na boca dele.

- Boa noite, Harry. – ela desceu elegantemente do carro. - Tenha sonhos solitários, “priminho”.

Ele a fitou intrigado, o coração tendo dado uma pontada desagradável.

- Desci algum degrau no seu conceito?

- ? – ela armou o bote se fingindo de desentendida.

- De “irmãozinho” à “priminho”? Estou sendo rebaixado?

- Não querido, - ela sorriu como a aranha que apanha uma mosca suculenta em sua teia.- mas como você parece gostar tanto de ser chamado assim... achei que “priminho” seria um tratamento mais adequado para recapturar sua atenção. Resta saber...

- O quê? – ele agora não fazia nenhum esforço para trincar os dentes.

- Por que motivo, – ela ergueu uma sobrancelha esperta. – ou por quem.

- Acho que você andou mordendo a língua. – ele passou os dedos pelos cantos da própria boca, fingindo limpar uma seiva inexistente. – Envenenada?

- Só curiosa.

- Não devia fazer insinuações quando pode não gostar do que vai ouvir.

- E o que eu ouviria?

- Já foi mais inteligente, Cho.

- E você uma companhia melhor, Harry. – a despeito do sorrisinho, ela bateu a porta do carro com excessiva força. – Boa noite, “priminho”.

Se ele tivesse prestado um pouco de atenção, teria visto o sorriso da garota se desfazer lentamente num esgar de ódio. Mas acontece... bom, ele não estava dando a menor para isso, não é?

“Priminho”, o motor do carro roncou furiosamente. Uma simples palavra, tão usada no passado, e Harry sentia o estômago dar frias cambalhotas. Seu universo paralelo o chamando novamente. Cho ainda não tinha se afastado quando ele arrancou sem ao menos se despedir. E sabia que ela já esperava por isso. Eram a droga de almas gêmeas invertidas. Ao menos seriam, soprou uma vozinha insistente, enquanto seu teatro de sarcasmo e ironia inconseqüente existisse. “Por muito tempo então”, ele devolver feroz.

Pena que a gravidade do seu planeta vermelho, bem escondido no buraco negro do seu universo alternativo, não desse a mínima para palavras ferozes.

Bravatas. Aquele planeta rubi sabia bem que eram apenas bravatas.

Controlando o impulso que ordenava seguir para a casa no Garden District, não mais para o balanço azul, mas para o chão, ao pé do carvalho, onde se afundaria em samambaias, musgo e vertigem, ele conseguiu resistir e chegar à salvo até o apartamento que dividia com o padrinho. Mas Sirius não estava, nenhuma conversa salvadora sobre esporte, carros, escola ou, “até que ponto cheguei”, responsabilidades da vida adulta.

Ponto para seus devaneios. Não teria para onde escapar.

Quando finalmente se deitou em sua cama, rendido, pareceu a ele que se vestia automaticamente de astronauta e, num piscar de olhos, já viajava para seu outro mundo.

Morgan. Morgan. Vermelho. Asas. Beijo. Virgínia.

Nunca uma pessoa tivera impacto tão grande em sua vida, em tão pouco tempo. Era irritante o modo como se perdia pensando nela, como seus olhos a procuravam em cima da árvore, onde sabia não mais estar. Irritante como seu corpo estremecia ao recordar o perfume dela, sua total entrega debaixo daquela árvore. O gosto de Virgínia. Ela era mera lembrança, um fantasma. Mas fantasmas não costumavam ser tão reais, não tinham a nitidez que observava quando recordava sua última tarde em Nova Orleans. Fantasmas não faziam você pensar sobre sua vida e desejar guiar o leme para mares diferentes. Não faziam você mudar sua rota... ou crescer.

Era uma sensação contraditória, que misturava raiva e libertação, mas entendia que, de certo modo, tinha gostado de ser sacudido. Do jeito que acontece quando um vento forte bate, desarrumando a casa e te forçando a ver as coisas que existem ali dentro. Te forçando a arrumar a bagunça ou, ao menos, tomar consciência daquilo que te falta.

Falta. Tudo o que ele sentia era falta. Um oco do tamanho do mundo ocupando seu peito. E se perguntava o quanto mais poderia sobreviver daquele modo. Vazio e à salvo.

Uma ruiva já tinha regido sua vida, a mulher que fora a primeira e única a partir o seu coração. A causa de suas dores inconfessadas, de seu amor vergonhoso, que ele não devia sentir, mas que teimava em sobreviver. Em uma foto manuseada, desbotada e escondida, Lily Morgan sorria, debruçada sobre um menininho moreno.

- Você não vai fazer comigo o que fez com o meu pai. Não vou deixar. – em sua angústia ele as confundia, sem perceber que outra ruiva começava a compartilhar a regência de seus pensamentos e anseios.

Seria ironia demais que sua armadura reluzente se trincasse por conta de outra delas. Outra perigosa bruxa ruiva.

Cabelos vermelhos enlaçados como cordas em torno do seu coração.

Por acaso estava se tornando romântico? Ele deu um grito baixo, como um rosnado, atirando os travesseiros para o chão.

“Sofra as conseqüências, Harry. Você não a beijou, seu grandíssimo idiota? Não fraquejou, sem conseguir controlar seja lá que força estranha aquela garota tem? Então... faça como a frase predileta de Sirius, prazer versus responsabilidade ‘ad nauseum’. Sofra, sofra e sofra as conseqüências, seu imbecil obcecado.”



XXXXXXXX


Em outra parte daquele país as pessoas se apressavam pelas ruas noturnas, em seu movimento continuamente frenético. Pessoas que bem podiam estar torcendo e esperando com alegria uma brisa fresca que anunciaria a chegada do seu frágil verão. Mas ali dentro, na semi-obscuridade do escritório, nada poderia estar mais longe deste ideal. Virgínia Morgan espremia, desolada, a cabeça ardente nas mãos. E isso não era nem de longe o suficiente para conter os pensamentos que a assolavam aos borbotões, muito menos alterava o clima ainda frio, tanto nas ruas de Nova Iorque, quanto dentro do próprio apartamento.

Coisas estranhas acontecendo. Coisas demais. E o pior de tudo... não podia controlar nenhuma delas. Na verdade, não podia sequer expressar essa intuição perigosa de que seu destino estava a ponto de serem alterado. Apenas gostaria de saber de que modo.

No escritório de Michael, no mesmo lugar onde descobrira a verdade sobre sua descendência, ela esperava pelo telefonema secreto de Lizzie. Agora Eugênia estava bem, mas foram dias agoniantes sabendo que a adorada bisavó estivera internada no Mercy Hospital, em Nova Orleans. O coração cheio de vida falhando em saltos descompassados, dolorosos. Um coração que já não conseguia acompanhar a dona.

Foram dias em que a exilada Virgínia poderia ter gritado por horas a fio.

Não conseguira convencer a mãe de que precisava abandonar tudo, o apartamento em Park Avenue (2), a escola, os problemas que sua mera presença causava na rotina ao seu redor. Mas ninguém pareceu lhe dar atenção. Já esperava de Molly uma dura negativa, só não atinara que Candice e todos os parentes mais próximos concordassem que não havia motivos para Ginny voar até Nova Orleans e se aboletar ao lado da bisa, implorando para que não a deixasse. Bem, era justamente isso o que teria feito.

Era inadmissível perder Eugênia, ter chegado tarde demais para apreciar aquela vida que definhava lentamente. Mesmo no segundo em que se conheceram, que se abraçaram, Ginny pressentiu que aquele corpo de idade não sustentaria muito mais o espírito forte da mulher.

Tinha tantas coisas a lhe perguntar, tanto a saber...

Agora Eugênia já estava em casa. Segura e saudável, disseram todos. “Confortável e paparicada como um recém nascido”, a própria bisa lhe dissera por telefone, quando Ginny ainda tinha permissão para falar em um. Tudo muito certo e tranqüilo, exceto por um detalhe, por detrás das palavras confortadoras de todos eles, havia a irrefutável verdade de que uma pessoa podia ser diferente, podia ter estranhos sentidos e forças paranormais, podia até ser uma bruxa, mas não podia viver para sempre.

Ela fez uma careta, se recordando das últimas semanas em Nova Iorque, dos dias tediosos que ela forçara até o limite e de tudo que andara aprontando.

“Nada bonito, Virgínia”, ela brincou num musical sotaque sulista, “Onde aprendeu coisas tão feias?”.

E mesmo nervosa, com a cabeça funcionando em descargas elétricas enervantes, ela sorriu de canto, pensando no que acontecera há duas ou três semanas.


xxxxxxx

Há duas ou três semanas:


- Ela está... como uma planta num habitat errado. – a voz de Michael Rosings ecoou suavemente pelo aposento espaçoso e conjugado do décimo segundo andar.

- O que quer dizer com isso? – o mesmo não se podia dizer da mulher ruiva que apesar de aparentar tranqüilidade, tinha um tom estridente no modo de perguntar.

- Querida, pode ser um choque pra você, mas Virgínia cresceu. – ele girou o copo que tinha nas mãos, fazendo os cubos de gelo se chocarem num ruído agradável. O que queria mesmo era juntar argumentos para prosseguir. – Molly, sua filha agora se parece mais com uma moça do que com uma criança. É natural que queira ter uma vida mais parecida com a de outros adolescentes.

- Ter quinze anos é ser criança. - ela se encrespou. - É ser um bebê!

- Daqui há pouco ela fará dezesseis. Os meses passam voando. – ele respondeu sem perder a tranqüilidade. – Você está se esquecendo de que não pensava assim nessa idade.

Molly fez uma careta de desagrado, jogando a culpa no lado mais fraco da corda.

- Foi aquela família. – sua voz saiu rancorosa. – Foi, Michael! Devia ter visto Ginny naquela cidade.

As palavras da esposa fizeram o homem confirmar seus pensamentos:

- Talvez seja por isso. – disse como que para si mesmo.

- Do que está falando? – ela tinha a testa franzida em sinal de interrogação e desafio. – Quer fazer o favor de continuar?

- Ela parece... triste. Antes era uma menina quieta, mas agora está melancólica.

- Melancólica?! – Molly pulou meio metro do chão. – Com tudo o que anda aprontando?

- Ela sente falta deles. E tem andado nervosa pelo que houve com a bisavó. – o homem terminou a dose obrigatória de whisky - Além disso, pular o muro da escola não foi tão grave assim. – não pôde evitar um sorriso de lado, enquanto abraçava a esposa pelas costas.

- Para o lado dos garotos, Michael! – ela enfatizou as duas últimas palavras. – O que ela achava que estava fazendo? Aquele rapaz...

- É só um garoto, Molly. Virgínia não quer nada com aquele menino. Ela estava apenas chamando sua atenção ou arranjando um jeito de ser expulsa. Particularmente acho que as duas coisas.

Molly deixou a cabeça cair de encontro ao ombro dele.

- E você acha pouco... Ela está me pondo louca. Completamente.

- Desestabilizar para modificar. – ele anuiu com a cabeça. – Ela tem suas táticas. Por algum segundo já te passou pela cabeça fazer a vontade dela?

- Mudar para Nova Orleans?! – ela quase gritou.

- Não, mas há outras coisas em que poderia ceder.

- Está falando de De La Salle, não é? Acredita mesmo que faria diferença trocar de escola? Logo agora que as coisas estão para mudar...

Ele notou o tom de ceticismo.

- Ainda não temos certeza, querida. A diretoria da Rosings Enterprises ainda está negociando itens importantes no contrato. O resultado deve sair dentro de poucas semanas, mas mesmo assim você poderia ao menos avaliar a possibilidade de uma escola que fosse mista. De La Salle me parece rígida demais para a sua plantinha exótica. – ele riu de canto, usando uma das expressões que ela não gostava.

- Plantinha exótica... Está precisando é de ser podada, isso sim. O comportamento dela está pedindo um castigo, não um prêmio.

- Bom, eu criei dois filhos praticamente sozinho e o único modo de passar por esta fase, com um mínimo de estrago, foi fazendo algumas concessões.

- Dennis e Jonathan são uns amores de rapazes. – ela não aceitou a comparação. – Um casado e daqui há pouco, pai de família, o outro acabando de se formar com louvor... Ah, Michael, seus meninos são maravilhosos.

- Eu sei que são. E também sei que você os vê e pensa que são centrados demais para terem dado trabalho em qualquer fase da vida. Só que está errada, meu bem. – ele balançou o dedo. – Eles são esses amores porque eu soube quando apertar e quando afrouxar também. E Deus sabe que na maior parte do tempo eles eram uns demônios. Dê graças por ter uma garota ajuizada.

- Ajuizada? – ela falou desanimada. – Agora você está brincando comigo. Subir numa árvore para pular um muro de quase quatro metros é coisa de uma perfeita desmiolada.

- Ela teve ajuda... – ele riu internamente. – Está se esquecendo do garoto?

- Eu não me esqueci. – falou carrancuda. – Por nenhum minuto. Só me faltava essa... Espero que não seja um namoro.

- Não é um namoro. É só o jeito que ela arrumou pra te chacoalhar.

- Então conseguiu. Sinto que um terremoto acabou de passar.

- Quinze, dezesseis anos... – ele cerrou os olhos se lembrando de seus filhos chegando àquela idade. - É só o primeiro terremoto, Molly. Só o primeiro.

Nenhum deles viu a garota ruiva que se esgueirara para fora, na ponta dos pés.

“Ah, agora ela andava espionando as conversas alheias, é? Elizabeth ficaria satisfeita”.

Virgínia tinha fechado a porta de seu quarto antes de sentar-se à beira da janela. Tinha estado enroscada num sofá quando escutou, à princípio sem querer, a conversa toda. Ainda bem que nenhum dos dois percebeu sua quieta presença, ou mesmo que o começo tenha se dado sem o seu planejamento, sua excelente audição, aguçada pela curiosidade, fariam com que corresse o sério risco de seu atual castigo se tornar eterno. Nada de telefone, computador, livros. Mas, droga, estava num momento em que a vida pedia atitudes drásticas.

Ela tinha observado a paisagem cinzenta da cidade. O sol não daria o ar de sua graça. Ficou estranhamente satisfeita, a paisagem estava combinando com seu estado de espírito. Deixara-se escutar a conversa do casal como o único modo de descobrir o que se passava pela cabeça da mãe e o que aqueles dois andavam tramando. Descobrir como suas atitudes estavam influenciando as coisas. E também descobrir que tinha um aliado onde menos suspeitara. O usualmente sisudo, Michael Rosings. Os ventos não estavam assim tão maus, não é? Molly nem tinha feito um escândalo... Ao menos nenhum muito grande.

Certo, pular o muro da escola fora um momento de particular rebeldia sem noção. E depois de acontecido, Dean Tomas tinha deixado de achar engraçado. Típico dos garotos. Cheio de bravata e auto-confiança, “Garotas não sobem em árvores, muito menos para quebrar regras”. Tinha ficado constrangido assim que ela provou que era capaz de vencer aquele desafio bobo. Atravessar um limite estúpido e invadir a ala masculina? Brinquedo de criança. Usando duas árvores altas como ponte? Era até crueldade com o menino. Ele não sabia com quem estava lidando, e até outro dia, ela mesma também não.

A outra Virgínia estava cada vez mais acordada. Tinha sido ela a nortear seus passos naquela manhã, há duas semanas? Bem, se foi, palmas para a garota. Podia faltar sensatez, mas ela tinha coragem.

A ruiva havia passado de uma árvore para outra, achando que ninguém veria. Atravessou o alto muro, como uma ágil macaquinha, e então deslizou pelos galhos, saltando graciosamente na frente de um ainda sorridente Dean. Só um raladinho bobo no joelho, muito bem escondido pela saia do uniforme.

Apesar de, na hora, ter achado um pouco divertido, ela não tinha sido muito legal com Dean. Sabia que logo nos primeiros instantes tinha fitado o rapaz de um jeito um pouco intimidador. Daquele jeito lânguido que dizia: “Agora estou aqui. O que mais planejou pra nós dois?”. Um simples olhar inquisitivo. Tinha sido tão drástica a mudança de atitude do pobre garoto... O que antes era malícia peralta se tornou um forte rubor. Sim, ela agora sabia certas coisas à respeito do que uma garota provocava. Até parecia que nunca haviam se beijado. Quinze minutos de embaraço unilateral antes que uma das colegas irritantes desse o alarme. Freiras esbaforidas por todos os lados. Virgínia nem se deu ao trabalho de se mover.

Ainda assim, Dean continuou telefonando. Mesmo com Molly tendo vetado todas as ligações. Principalmente depois daquela reunião massacrante no colégio. Ele ainda mandava mensagens incessantes pelo computador, mas o castigo fora absoluto, nem seus pensamentos mais íntimos pareciam ter sido poupados. E a despeito de não vê-lo, infelizmente Ginny não estava dando à mínima. Não sentia falta dele, nem mesmo das poucas conversas que tinham. Fora superficial e agora que percebera o quanto eram distantes, emocional e intelectualmente, nenhuma ponte poderia os unir. Queria apenas ter conseguido conversar direito com ele, não gostava de coisas mal resolvidas. Quem sabe uma aproximação durante as semanas que faltavam até o término do ano letivo? Era questão de aguardar. Isto é, se suportasse freqüentar a escola até lá. De pária ela se tornara a celebridade mais odiada entre as colegas de ano. Virgínia, a que não compreendemos, a que invejamos e a que amamos odiar.

Ela nunca tinha sentido tanta falta de Nova Orleans.


xxxxxxx


E agora, já de férias, ela sabia que as coisas não poderiam ter sido diferentes. É claro que não tinha conseguido falar com Dean, não quando o “Forte Nox” composto por freiras-pingüim a vigiava como uma condenada perigosa. Mas pior que isso, pior em escala geométrica, era que a cada dia que se passava, por mais que se esforçasse, a falta de Nova Orleans crescia e se tornava dolorosamente visceral.

Quantos dias sem ver o céu azul? Sem turquesa e cerúleo? Sem o vento no topo do carvalho? Dias sem Eugênia, sem Candie, Lizzie, sem...

Harry?

Ela podia estar sentindo falta de uma pessoa de quem não sabia nada? Alguém que depois daquela tarde... aquela tarde... havia desaparecido como se nunca tivesse existido de verdade?

Era esquisito. Como ter um velho amigo que, na verdade, você nunca conheceu. O Harry que vivia em sua cabeça era muito mais real que o de carne e osso, com o qual convivera tão pouco. Isso dava alternativas interessantes quando se punha a sonhar de olhos abertos, mas perdia consideravelmente em relação a um contato de pele. Ela já não recordava aquele beijo nos mínimos detalhes. Tinha a árvore, o vento, o gosto do primo. Tinha um som suave ao fundo, quase como uma música. Folhas farfalhando? Dois corações batendo juntos? Não. Com certeza havia poetizado o momento. Nada no mundo real podia ser assim tão romântico.

Essa fora a porta de entrada para Dean. Depois de meses de lembranças que roubavam seu sono, que roubavam sua tão pequena concentração no mundo ao seu redor, ao menos em Nova Iorque, ela tinha decidido verificar se todos os beijos seriam da mesma forma. Doce, pimenta e sal.

Não eram.

Úmidos, velozes ou quietos. Faltava aquele tom a mais, faltava aquilo que secretamente chamava de “Ah, Deus...” ou “Ahhh...”. Palavras sistematicamente repetidas por sua mente e lábios naqueles seus dois últimos dias em Nova Orleans.

As lembranças pálidas de Harry eram mais reais que as mãos de Dean Tomas em sua cintura, que o modo apressado de beijá-la na saída da escola. Os dois protegidos pelo secular muro dos fundos e pela vigilância de Simas Finnigan, assobiando discretamente sempre que alguém se aproximava ou quando o carro finalmente vinha apanhá-la. Dean... o belo Dean, com sua pele negra fazendo um contraste tão bonito com a dela. Com ele a coisa toda fora mais... explorada, por assim dizer, e mesmo então, infinitamente mais pobre. Pele contra pele, agradável e nada mais. Então porquê? Se a realidade era tão banal, porquê outra boca ainda ocupava seus devaneios? Porquê outros olhos invadiam seus sonhos nebulosos? Como podia aquela sensação, de meses atrás, ainda a perseguir?

Tinha sonhado tudo aquilo?

Precisava apenas correr a língua sobre os lábios, a memória do gosto de Harry ainda existia no cantinho de sua boca.

Ela apertou as têmporas mais uma vez, tentando banir o primo do seu presente.

“Pensamentos idiotas”.

Não importava sobre o que estivesse raciocinando, as coisas sempre descambavam para o mesmo lado. Para a mesma pessoa.

E onde estava aquele maldito telefonema?

“Droga, Lizzie! Estou esperando!”


XXXXXXX


Um telegrama! Em plena era da informática e sua prima precisava subornar alguém para enviar um mero recadinho. Elizabeth não tinha entendido porque Ginny não podia simplesmente telefonar escondido. A explicação de que Molly colocara senhas em todas as linhas telefônicas, soara totalmente neurótica, mas enfim... O que sabia sobre a estranha Molly Prewett? Mal tinha posto os olhos sobre a mulher, mas só o fato dela haver seqüestrado a prima do convívio familiar, por pura paranóia, já era o suficiente para se pensar que a dama em questão não era nada equilibrada. A ruiva devia saber o que estava fazendo.

Tinha alguma coisa na prima, algo que fazia crer que Ginny sabia mais coisas do que deixava transparecer. Não tinha ligado para Lizzie e, em meio à conversa mais trivial, dito, repentinamente, que estava preocupada com a bisa? E isto antes mesmo que qualquer um em Nova Orleans fosse avisado de sua repentina internação? Não tinha a ruiva se adaptado à casa Morgan de um jeito inteiramente incomum? Tudo bem que Lizzie não fosse conhecida por sua grande coragem, mas não era nem de longe uma bobinha covarde. E mesmo tendo sido praticamente criada correndo pelos jardins e corredores da mansão, tinha que confessar que algumas vezes a casa lhe dava calafrios. Nada muito concreto, os olhos vigilantes dos retratos, uma porta que se fechava de repente, sem que houvesse corrente de ar, o som do piano, que ás vezes soltava notas desconexas sem que tivesse ninguém no teclado, e aquele arrepio estranho que todos eles sentiam de vez em quando.

Liz lembrava-se perfeitamente de uma ocasião, todos eles pirralhos, brincando na sala de música, a pequena Caroline Morgan encontrando uma bela caixa de madeira marchetada e descobrindo, encantada, que estava repleta de lindos brinquedos faiscantes. Jóias de família deixadas por ali, como se de fato não valessem uma fortuna. Sua mãe sempre dizia que Eugênia Morgan era uma displicente irreversível com aquelas coisas. Foi só começarem a remexer as peças valiosas que a sensação de algo maligno surgiu repentina. Todos sentiram, não precisaram nem de palavras, os mais velhos se entreolharam apreensivos, enquanto os menores se aconchegaram amedrontados.

Foi uma das coisas mais bizarras que Lizzie já tinha presenciado, o sol de domingo brilhando forte lá fora e essa quietude calada, agressiva, sombreando a sala.

Só um dentre eles teve o bom senso de fechar a caixa e abrir a porta do aposento, como se esperasse alguém chegar. De fato, Eugênia logo aparecera apressada, passando por Harry como se ele a tivesse chamado sem utilizar a voz.

Ao perguntar o que acontecera, somente o garoto tivera coragem de verbalizar:

- Aquilo está acontecendo de novo, bisa... aquela mulher...

Foi o sinal para as crianças menores começarem a chorar, sem explicação. Lizzie gostaria muito de não ter sido uma delas.

Como bisa Eugênia havia ficado séria, então. Até furiosa. E bisa Eugênia furiosa não era algo que se visse todos os dias. Fizera Candie levá-los dali, mas não antes que a vissem ficar por algum tempo fitando o nada, os olhos nublados percorrendo o aposento sem ver, e então, dizendo estranhas palavras em francês, coisa que lembrava igualmente uma oração como uma praga.

Tudo acontecera muito rápido, as palavras pronunciadas num sotaque forte e a bisa logo se trancando em seu quarto e não saindo até o dia seguinte, pelo que se soube. Nesta hora a casa ficara tão silenciosa que era como se as paredes estivessem prestando atenção, como se os retratos à óleo perscrutassem, escutando cada ruído ou murmúrio em seu interior. Os parentes, como a um sinal combinado, tinham ido embora ao mesmo tempo, uma da primas se persignando assustada, todos conseguindo levar as crianças sem nenhuma resistência. Raridade. Os pequenos nunca queriam partir de lá. Mas a sensação... Droga, Lizzie se arrepiava até agora. Nunca tomara real conhecimento sobre o que tinha acontecido, também não tinha insistido no assunto. Certas coisas era melhor não saber.

E era nesta casa... viva, por assim dizer, que Ginny dissera estar mais à vontade do que em qualquer outro lugar em sua vida.

Aquela garota parecia... bem, parecia uma bruxa.

Todos eles tinham seus segredos, seus encontros secretos em Oak’s Heaven, mas tirando uma ou outra coisa, sabiam que eram só garotos curiosos mexendo com coisas além de suas possibilidades. Dentre eles apenas Harry e Keisha pareciam possuir um algo mais, um sentido mais aguçado, mas todos, sem exceção, percebiam certas coisas.

Ela sorriu sacudindo a cabeça, eram como Mickey Mouse naquele filme infantil, Fantasia, aprendizes desastrados brincando de feitiçaria.

Tirando a bisa, “Por Deus, aquela mulher parecia saber de tudo”, eram poucos os que tinham conhecimento sobre o que acontecia na antiga fazenda semi-abandonada.

Enfim... nem tudo eram festas inconseqüentes.

A lembrança das bagunças que aprontavam relampejou pela mente da garota e, como de costume, a festa mais incrível, a maior, mais comentada, e também mais desastrosa, foi a que se fixou dentre tantas. O aniversário de dezesseis anos de Harry, ocorrido há quase um ano. Aquilo sim, fora um evento social. Social para os quesitos Morgan, que ficasse claro. Depois de um jantar formal, poucas pessoas num dos restaurantes glamourosos da cidade, a festa de fato começara. Longe dali.

Não havia um único jovem Morgan de fora, legítimos ou bastardos. Nenhum que não comparecesse levando dúzias de amigos, que por sua vez traziam outra dúzia.

A música ensurdecedora na sala principal, luzes espocando sobre os corpos frenéticos dos que se espremiam na pista de dança improvisada, quartos secundários ocupados por toda sorte de gente, vociferando sobre a performance dos Saints no último campeonato de basquete ou se embebedando enquanto discutiam seus graus de parentesco da forma mais bizarra, fazendo crer que toda Nova Orleans tinha um pouco de sangue Morgan. Camas onde se aboletavam fazendo conchavos e fofocas habituais sobre quem queria ficar com quem, quem de fato estava com quem, e quem iria quebrar a cara e sobrar. Lógico que, em certos quartos, portas trancadas, as camas estariam sendo usadas em propósitos mais íntimos. Sorte que Harry sempre insistisse em fechar à chave os aposentos principais, que ficavam no andar superior da mansão feudal. Nada de estranhos por ali.

Naquela noite, Lizzie trombou com Draco à todo instante, era só se virar e lá estava o rapaz. Estavam naquela boa e velha implicância saudável, quando a Chang começou a troçar que tinham trazido leite especialmente para ela.

- Não sendo o seu, queridinha... - Elizabeth tinha dado as costas, mas ficara a questão no ar.

Bom, Liz não tinha nada que ter dado ouvidos, muito menos tomado o copo inteiro de bourbon das mãos de Draco e o virado de uma vez. Um gosto forte queimando garganta abaixo. Seria Jack Daniels? Céus... o mundo tinha girado de verdade.

Tinha poucas recordações do resto da festa. “Jura que não bebi um copo só?”, ela perguntara insistentemente à Hermione, nos dias seguintes, e a amiga invariavelmente dava a mesma resposta, “Você tomou quase meia garrafa e não houve Cristo que conseguisse te impedir”.

Exagerada! Hermione estava biruta. Tinha certeza de ter tomado no máximo duas ou três doses. Não era forte para a bebida.

Agora sabia que, em dias de festa, ao menos festas como aquela, precisava pendurar um aviso no pescoço advertindo dos perigos do bourbon sobre Lizzie Dixon Morgan. Em letras miúdas, também advertindo sobre os perigos oferecidos por louros altos de olhos cinzentos.

Infelizmente sua amnésia alcoólica não nublara acontecimentos que ela, sinceramente, preferia esquecer. Como Draco tratara de levá-la para cima, enfiando meio pote de sorvete por sua boca e depois tentado fazê-la dormir. Como Lizzie tinha fugido assim que ele virou as costas. Como ele a ameaçara, dizendo ser capaz de levá-la para casa naquele estado. Como ela tomara outro copo de “sei lá o quê” das mãos de “sei lá quem” e o provocara, numa coragem embriagada: Du-vi-do. E se lembrava muito bem das suas pernas se sacudindo no ar, enquanto o rapaz a carregava sobre os ombros, em direção ao carro.

- Você não tem o direito... – ela não conseguia nem se soltar do cinto de segurança. - estou só me divertindo!

- Sei exatamente como essa diversão termina, eu ouvindo um belo sermão de tia Candie e você de joelhos, abraçada à louça branca do sanitário.

Tia Candie? Pelo menos ele não iria levá-la para casa.

Draco tinha colocado uma música alta, como se a festa continuasse dentro do carro e ela não percebesse que se afastavam cada vez mais de Oak’s Heaven. Provavelmente tinha dado certo, porque ela quase se lembrava de ter cochilado, pulando sobressaltada sobre o banco, um tempinho depois.

- Mas ainda é muito cedo... – choramingou - Não quero ir embora...

- Tarde demais, - ele deu uma risada acima do barulho das caixas de som - se não percebeu estamos na estrada rural, na metade do caminho.

- Seu... estraga prazeres!

- Sabe o que mais? Se eu tivesse te deixado lá, imagino muito bem que tipo de diversão você teria arranjado. – ele murmurou alguma coisa entre dentes e ela só pôde escutar o final. – Bêbada como um gambá... qualquer um podia ter feito o que quisesse.

Lizzie não estava tendo muito senso de nada na ocasião, mas achou terrivelmente engraçada a cara do rapaz. Começou a rir, se descontrolando gradualmente. Pelo menos isso ela podia fazer, cada risada puxando a próxima, sem que nem mesmo soubesse o que achava de tão hilário.

- Posso saber o que é tão engraçado?

- Você. – as risadas já provocavam cólicas. – Já te disseram como é ridículo?

- Isso! Ria mesmo! – ele rosnou, ficando muito irritado. – Está absolutamente certa! Tem que ser muito ridículo pra ter escolhido passar por isso. Eu aqui, perdendo toda a festa... – logo depois ele tinha dito palavras não muito bonitas – Está aproveitando, madame? Era essa a diversão que queria?

O riso foi acabando aos poucos, enquanto outra sensação ia sendo despertada, tanto pelo que ele dizia, como pelo rosto emburrado a seu lado. Cara, ele ficava uma graça quando estava bravo. Na verdade, cada pedacinho dele era... suculento. Todos aqueles anos em que se sentira atraída pareceram ainda mais vívidos e impossíveis de serem ignorados. Ela sempre tivera esta queda inconfessada por ele e, se estivesse certa, com Draco não era muito diferente.

- Não, Draco. – Lizzie usou um tom malicioso, destravando o cinto de segurança da sua poltrona.

- Não o quê? – ele desviou a atenção da estrada, por segundos, parecendo um pouco surpreso pelo jeito que ela o fitava.

- Não era bem isso o que eu tinha planejado, mas agora que falou, tem uma coisa que me divertiria muito mais. – e fazendo exatamente como nos filmes que tinha visto, ela passou as pernas por cima dele, e sem se importar com o carro, com as frases praguejantes, com a dificuldade de manter o controle da direção, ela o segurou pela gola da camisa e o beijou de uma só vez com sua boca sequiosa.

Ele jogou o carro para o acostamento e se descolou da boca dela de imediato.

- Ficou louca?! – tendo freado de uma vez, ele instintivamente segurou o corpo pequeno da prima com firmeza, impedindo que fosse lançada de encontro ao volante. – Está tentando matar à nós dois, Dixon?!

Os dois se encararam por segundos, antes que Elizabeth passasse os braços por seu pescoço e embrenhasse as mãos pelos cabelos finos, o puxando novamente para si. Sentiu que ele arrepiava. O segundo beijo teria sido inevitável, de todo jeito.

Sim, glória e tragédia. Tudo começara bem ali.

Draco a beijava de um jeito... nenhum outro garoto tinha feito assim. Ele ainda murmurava coisas para ela, ainda brigava, nervoso, mas não estava tentando tirá-la de cima de si. Hummm... Não estava não.

Ela tinha gosto de bourbon e sorvete e Draco trincou os dentes levemente sobre os lábios dela.

- Lizzie... – lamuriou de um jeito ansioso, fazendo crer que queria isso há muito tempo.

Ela escutou o cinto dele ser liberado e logo depois os braços do rapaz a puxarem com mais vontade, fazendo uma dança sobre a poltrona que não precisava de nenhuma música de incentivo.

Liz entrou em outra dimensão, onde as poucas palavras que ele soltava só faziam sua vontade aumentar.

- Não posso... Lizzie, não podemos... Você não está no seu juízo perfeito.

Ela sorriu dentro da boca dele:

- Não estou, não. – se ele queria parar, porque a pressionava cada vez mais de encontro ao volante? Porque capturava o pescoço que ela jogara para trás? – Nenhum juízo. Não é bom assim?

- Maluca...

Ela puxou a camisa dele para cima, arranhando de leve as costas que já tinha admirado mil vezes nos banhos de piscina, no verão.

- Pára, Lizzie... pára com isso. – as mãos dele avançavam por suas pernas, recuavam assombradas e logo voltavam a percorrê-las.

Aquele querer e não poder atiçava mais do que qualquer outra coisa.

- Então pára por nós dois, - ela mal conseguiu ofegar - porque eu não consigo... não quero.

- Isso é loucura... – Draco gemia em seu ouvido. – Você não sabe... Eu não sei o que estou fazendo...

“Não sabia?”, se ele continuasse não sabendo daquele jeito...

Ela tinha planejado apenas alguma emoção ou aquele fogo todo fazia parte? Mais um pouco daquilo e entraria em combustão espontânea.

Draco estava afagando suas costas, seus cabelos curtos, virando sua cabeça para morder a nuca exposta. Uma das mãos lutando contra o frágil zíper do seu vestido amarrotado. A camisa dele já estava no chão quando Lizzie sentiu seu zíper arrebentando. Ah, e tudo o que ela queria era dar graças a Deus por ter estragado quando já podia arrancar a peça. Já tinha ficado com outros rapazes, vez ou outra em trajes menores, mas nunca usando tão pouco e nem daquela forma. O que estavam fazendo... Era bom, era bom demais. E pensar que nunca tinha beijado Draco...

Desperdício, desperdício, desperdício.

O cd finalmente devia ter chegado ao fim, porque a única coisa que Elizabeth escutava eram as respirações pesadas dos dois, unidos em carícias e beijos cada vez mais ousados. Ela levou a mão até o fecho da calça do rapaz, não tinha a menor experiência naquilo, mas isso agora não parecia importante.

Sentir as mãos pequenas tateando, quase o levando a gritar, foi o sinal definitivo para Draco acordar para o que faziam e a empurrar o suficiente para tirar as mãos da garota.

- Chega... está maluca... não vou me aproveitar de você. Não vou. – ele repetia convencendo a si mesmo.

- O que tem de mais? – ela devia estar uma graça, toda descabelada, semi-nua, as mãos presas, mas ainda tinha topete. - Eu quero, Draco.

Ele gemeu de frustração.

- Droga! Droga! Droga! – ele beijou suas mãos, as esfregou pelo rosto, pelos cabelos, então respirou fundo, as afastando novamente.

- Eu não posso, Lizzie. Só... não seria certo.

Ela ainda nem tinha assimilado o fora, quando o som de uma porta de carro batendo fez ambos arregalarem os olhos na mesma direção. Havia uma viatura policial parada bem na traseira.

Draco só teve tempo de colocá-la no lado do passageiro e lhe jogar a camisa. Um homem uniformizado batia de leve no vidro do motorista.

Com o pileque sumindo como por encanto, Lizzie praticamente mergulhou dentro da roupa, que nela era quase uma túnica. Certo, seu vestido estava arruinado, de qualquer forma, e ela sabia que o rubor no seu rosto era apenas o prenúncio de coisas muito piores.

O homem os estudou pela janela e deu uma risadinha sarcástica.

- Ora, ora, o que dois garotos da cidade alta estariam fazendo neste descampado?

- Admirando os insetos noturnos. – Draco parecia estar discutindo de igual para igual, o corpo virado, tampando Elizabeth o quanto podia da visão do policial. Estava nu da cintura para cima, o botão da calça aberto, e parecia sem nenhum constrangimento pela situação. – Poderia nos dar licença? Queremos continuar com a pesquisa.

Liz queria ter dado um soco na cabeça do rapaz por estar provocando o homem daquele jeito. Já não tinham problemas o suficiente?

- Documentos, moleque! – o policial previsivelmente se encrespara, mas ao averiguar a licença de motorista, foi se tornando mais e mais constrangido, como se tivesse sido ele quem fosse pego no flagra.

- Certo... vou escoltá-los em segurança até a cidade. Sabe, é bem perigoso por aqui, à noite.

Draco assentiu e deu um sorrisinho de lado, ligando o motor do carro. Lizzie nem mesmo abriu a boca, sentia que nunca mais iria conseguir olhar para o primo, muito menos falar. De qualquer forma, enquanto seguiam para a cidade com a viatura à sua frente, ela nem precisava se dar ao trabalho de perguntar, aquilo só podia ter dedo de Lucius Malfoy. Tinham sido salvos pelo “Al Capone” de Nova Orleans e ela sabia que tinha sido a maior causadora de tudo. Falar para quê?

Eles não trocaram uma única palavra durante o trajeto, mas se Lizzie tivesse arriscado um olhar, teria reparado que ele também parecia um tanto constrangido.

Mas o fim de noite perfeito não ficou por aí, o céu estava se tingindo de violeta quando estacionaram na garagem da Casa Morgan. Viram tia Candie vestindo um robe, o semblante preocupado... E surpresa! Os pais de Elizabeth, esperando com ela.

- Ah, inferno... – ela chorou.

Tinha certeza que se esquecera de algo. De avisar, ou melhor, de mentir adequadamente. Pois bem, depois do jantar os pais a deixaram sair, só não sabiam que a festa seria em Oak’s Heaven, não faziam idéia de onde estava a filha até aquela hora, mas estavam com cara de que começavam a imaginar. Outro pequeno detalhe, eles sabiam exatamente que aquela camisa masculina não se parecia nem de longe com seu vestido de noite.

Ao entreolhar para Draco, percebeu que ele estava mais pálido que um fantasma.

Pelo menos isso.

Desde então se tornara mais esquiva que um bicho acuado. Se Draco se aproximasse pelo Norte, ela saía pelo Sul. Nunca tinham conversado decentemente sobre o ocorrido, o que era uma bênção, ao menos não ficaria tão embaraçada. Bastavam as brincadeiras e indiretas que era obrigada a tolerar.

Lizzie se espreguiçou longamente, mordendo a pequena antena do telefone sem fio. É... mas tinha sido um senhor amasso... Não tinha contado todos os detalhes para ninguém, a não ser por uma confidenciazinha ou outra a Mione e Ginny. Apesar disso o escândalo dos pais fora tamanho que toda a família soube em que estado tinha chegado em casa. Daí para somarem dois e dois...

Ela crispou as mãos, apertando sem querer uma das teclas luminosas, o aparelho fazendo um ruído que a despertou de uma vez.

- Droga! A ruiva! – a prima ia matá-la.


XXXXXXX


- Quer fazer o favor de dizer por que demorou tanto? – Virgínia rosnou do outro lado da linha.

- Desculpa, prima, estava distraída... Mas olha só, depois do que eu te contar vou ganhar um beijo na boca.

- Não aposte nisso.

- Grandes novidades! – a voz excitada da garota, disparou do outro lado do bocal.

Virgínia tentou abafar o timbre ao máximo. Se a pegassem no gabinete de Michael, no meio da noite, escondida com o telefone... Aquele era o castigo mais longo do século. E tudo por aquela bobagem com Dean Tomas, mais que passado. O mês de julho correndo e Molly toda estranha, nem querendo ouvir sobre a família em Nova Orleans. Na verdade, nas últimas semanas, ela e Michael andavam muito... cuidadosos com o que falavam na sua frente. Era como voltar à escola e ter todos aqueles segredinhos às suas costas. Nada bom. Definitivamente, nada bom. Tinha coisa ali.

- Sabe, Lizzie, se suas novidades incluírem um meio de convencer minha mãe a me deixar passar as férias aí... pelo menos o que restarem delas, – ela imitou a prima. – Garota, juro que eu é que te dou um beijo na boca.

- Ok, vamos pular essa parte. – ela a dispensou com naturalidade. - Tenho certeza que seus beijos devem ser maravilhosos, ao menos eu imagino... ou foi o que tia Candie falou.

- Tia Candie falou sobre beijos? Beijos meus? – a ruiva interrompeu, desconcertada. A tia não podia saber, podia?

- Falou sobre um rapaz aí dessa sua cidade cinzenta. – Lizzie foi propositalmente evasiva. – Anda se esfregando com Ianques, garota?

- Ah, isso. – ela quase suspirou de alívio. O beijo “verdadeiro”, aquele sob o carvalho, morreria em segredo se dependesse dela. – Bom, estou viva, não é?

- Uma perfeita Morgan. Quero todos os detalhes quando estiver aqui. – então mudou de tom. – E aí, quer escutar as novidades ou não?

- Manda. – ela usou seu novo vocabulário, se enfiando debaixo da escrivaninha com o telefone sem fio. Coisa boba, mas assim sentia-se mais segura. Portas fechadas e Molly desmaiada em seu sono pesado, e ela ficando paranóica. Nota pessoal, perguntar à Candie se havia doenças mentais na família.

- Tenho uma notícia boa e outra maravilhosa. Qual quer primeiro?

Elizabeth sabia ser dramática quando queria.

- Lizzie! – Ginny sussurrou um grito.

- Certo, a boa. – a outra quase ofegava em contrações de fofoca. – Você vai receber visitas. Não qualquer uma, mas de tia Candie e bisa Eugênia, em pessoa.

- Quê?! – ela se amaldiçoou por exclamar agudamente.

- Isso mesmo. Estão indo te ver, passagens reservadas e tudo.

Ao contrário de ficar eufórica, Ginny se mostrou receosa:

- Porque, Lizzie? Porque elas estariam vindo de repente? Com a bisa doente e tudo...

- A bisa está ótima. – Liz se impacientou. – Quer parar com essa estória? Nem tudo é tragédia, sabe? Ela vai aproveitar para procurar um outro especialista quando chegar em Nova York, coisa de praxe, mas o fato é que as duas estão indo te ver e, se tudo der certo, você volta com elas para as férias. Não é fantástico?

- Claro. – ela mal conseguiu forçar um tom animado. – Fantástico.

Lizzie voltou a tagarelar e Virgínia se perdeu em pensamentos sombrios. Receber essa visita era um sonho longamente acalentado, mas algo a alertava de que havia mais coisa por ali.

Antes que desligassem, Ginny se ouviu perguntar automaticamente:

- Ah, e qual era a notícia maravilhosa?

- Céus! Quase me esqueço do melhor! – Lizzie se esganiçou, encantada. – Está sentada?

- Como uma pedra.

- Há alguém livre como um passarinho silvestre... – ela cantou – Pode soltar os fogos, ruiva, Harry e Chang terminaram tudo.

Ginny ficou muito quieta. Não estava inclinada a pensar em mais nada do que a visita da bisa, mas aquilo tinha terminado de bagunçar sua cabeça. Não era bem uma notícia maravilhosa, visto não lhe dizer absolutamente respeito. Era só... uma coisa boba que, assim por acaso, tinha feito seu coração pular para a garganta.

- Eu não tenho nada com isso, Lizzie.

Do outro lado, a prima completou com a voz absolutamente pausada:

- É claro que não, garota. Nada. Nadinha.

Ginny conseguia até divisar o sorrisinho maroto do outro lado da linha.


XXXXXXX


Ás vezes a vida realiza certos sonhos de um jeito muito diferente do imaginado. Depois de sonhar durante meses com sua volta à Nova Orleans, com a visita de algum parente, ou mesmo algum milagre que a viesse libertar, Virgínia receberia tia e bisavó naquela tarde. Mas, ah... como a situação era o avesso do que tinha sonhado.

Cinco dias depois do telefonema de Lizzie, uma devastada ruiva abria, pessoalmente, a porta do imenso apartamento para tia Candice e bisa Eugênia Morgan. Antes que dissesse uma única palavra já estava embalada num abraço confortador. Ao se afundar nos braços da bisavó, mesmo em meio ao alívio em vê-la e ao desespero em que se encontrava, Virgínia notou que a saúde da anciã não estava tão bem quanto o rosto firme aparentava.

- Bisa, você veio! Você soube! – ela não conteve o jorro de palavras ansiosas. – Soube antes de todos, não é? Eles querem me levar... Vão me afastar de vocês novamente.

- Ainda não, Ginny. – Candie se mostrava ambiguamente consternada e furiosa. – Não tão depressa.

- Se acalme, minha querida. – Eugênia a afagou, tranqüilizadora. - A luta ainda não está perdida.

- Não deixe. Por favor, não deixe.

Mas Eugênia tinha parado de acariciar sua cabeça. Pelo silêncio que se seguiu, Ginny percebeu que a mãe as observava do portal da sala.

- Estava pensando quando viria. – Molly falou sem rancor, mas também sem nenhuma cortesia. Como se falasse com uma mera conhecida que tivesse saído de sua vida muito antes.

- E adivinhou quando seria, naturalmente. – Eugênia replicou, afastando a bisneta gentilmente.

Molly assentiu, franzindo a testa.

- Tem bons informantes, Eugênia.

- Eu cumpro meu dever, Molly. Cuido da minha família.

- Assim como eu. – a mulher ruiva pousou um olhar severo sobre a filha e Virgínia percebeu que as coisas não podiam ser piores.

Dois dias antes, o centro do olho do furacão se instalara dentro do seu coração. Depois de desvios hesitantes e palavras tortuosas, a mãe terminara por soltar a bomba: os negócios de Michael exigiam uma nova mudança. Ele necessitaria voltar para a Inglaterra, sem previsão de volta. Naturalmente a “família” deveria segui-lo.

“Não!”, ela gritara na ocasião. Não podiam ser tão cruéis. Tinha vivido sem amigos, sem família e nunca se ressentira do fato por, simplesmente, não saber como seria se os tivesse. Mas agora ela tinha seu lugar no mundo e também tinha a si mesma, a Ginny verdadeira. Eles não podiam lhe tirar tudo, tirar sua identidade. Não quando ela já sabia o que era ter nada.

A briga fora imensa, nunca havia se descontrolado daquela forma. Nem se importara com a porta do quarto estrondando às suas costas, sem que sequer a houvesse tocado. Fosse o que fosse, combinava com sua impotência, com sua raiva. E em meio à tempestade, lutando inutilmente contra um muro de pedras, a única conseqüência fora ver sua mãe esgotada, como jamais vira. Esgotada e inflexível.

Mas os Morgan não abandonavam os seus.

Do lado de fora do escritório, junto à tia Candie, Virgínia aguçava inutilmente suas antenas internas. O que quer que estivesse acontecendo por detrás da porta fechada, o que quer que estivesse sendo dito, ela confiava que não poderia estar em melhores mãos.

Eugênia Morgan era sua última esperança.


xxxxxxx


Molly Prewett era acostumada a ser sozinha. Mesmo tendo Michael, sua segurança se baseava em saber que, se voltasse a acontecer, se novamente fosse deixada só, ela permaneceria de pé, no final das contas. Dentro do seu coração havia um abrigo nuclear, onde poderia buscar refúgio sempre que as tormentas chegassem. Ali dentro, só a filha tinha morada eterna.

Do alto de toda sua certeza sobre o que seria melhor para Virgínia, do alto do poder, que como mãe, não lhe podia ser tirado, ela estacou no meio do aposento e não pôde deixar de estremecer. Dezesseis, quase dezessete anos sem pôr os olhos sobre Eugênia Morgan. Tinha se esquecido do poder daquela mulher. Um poder diferente do seu, um tipo que não vinha do seu dinheiro, nem da sua idade veneranda. A matriarca sempre tivera uma força muito mais ofuscante e perigosa, a força da verdade.

Em tudo o que dizia ou fazia, Eugênia sempre tinha a seu lado a verdade. Aquilo despertava a lealdade e desarmava o mais feroz inimigo, porque não importava quem você fosse, o que viesse perguntar ou responder, nunca haveria ilusão e mentira naqueles olhos lúcidos. Por isso Molly estremeceu, porque a verdade é para poucos. E por isso também, ela buscou uma força quase perdida dentro de si. Molly estava disposta a retribuir da mesma forma.

- Fiquei sabendo sobre sua saúde. – ela indicou o sofá. - Não veio ver nenhum especialista, não é, Eugênia?

Eugênia permaneceu de pé, mãos apoiadas na bengala de cabo de prata e madrepérola.

- Está enganada, vim ver um especialista, sim. Você. É especialista em Virgínia, não é?

- E o quê está tentando fazer?

- Tê-la conosco em Nova Orleans. – e só depois de deixar as coisas bem claras, ela se sentou.

- Veio me pedir para deixá-la morar com vocês?

- Vim para te trazer um aviso, Molly. Você está perdendo sua filha. Não para nós. Está perdendo Virgínia para si mesma.

- Este argumento é novo. – Molly franziu o nariz. – Está me dizendo o quanto a criei mal?

A anciã negou.

- Você a criou muito bem, mas parece não conhecer a força e sensatez que tem essa menina. Durante muito tempo eu me perguntei em quê você se baseou para condenar meu neto daquele jeito. Condenar a nós todos. Então julguei que o tempo a faria cair em si, a faria enxergar que não havia motivo algum para nos tratar como proscritos. Me enganei. E até hoje não compreendo porque não confiou no amor que ele sentia por você. Arthur a amava, jamais teria feito nada para te magoar.

A dúvida e a culpa novamente assaltaram Molly. Havia tido algum dia em sua vida em que não pensasse se havia sido injusta com Arthur? Sempre uma sensação horrível, que costumava levá-la ao descontrole. Era mais fácil culpar do que reconhecer a própria culpa.

- Mas fez! Arthur me machucou quando preferiu se envolver com aquela gente, com bruxaria... com aquela mulher. Ele me estraçalhou quando morreu e me deixou sozinha com uma filha.

- Não conheço todos os lados da vida, mas tenho a confiança de que meu neto jamais a traiu. Ele apenas tinha o direito de buscar a própria felicidade, assim como você.

- Estudando bruxaria com aquela gente?

- Aquela gente era sua família, e a bruxaria... – Eugênia disse a palavra com a tranqüilidade dos habituados aos mistérios. – era um dom natural que você poderia ter se esforçado para compreender, ao invés de se deixar cair na cilada da chantagem, “ou aquilo, ou eu”.

- Você não compreende o quanto eu odiava aquilo?

- Compreendo melhor do que ninguém, e também compreendo que isso já não pode ser mudado. – falou sensatamente. - Este tempo já passou. É algo que apenas você vai poder resolver com sua consciência. Mas aqui, dezessete anos depois, eu lhe pergunto, é justo que seu ódio atinja sua filha?

Molly emudeceu de imediato. Eugênia sempre sabia como a nocautear.

- Eu nunca magoei... – titubeou - Eu nunca quis magoar minha menina. – ela sentou-se muito devagar. Esconder da filha sua família, era magoar.

- Assim como o Arthur nunca quis lhe magoar. – Eugênia sorriu com bondade. - As pessoas não são iguais. As pessoas não gostam de ser modificadas contra sua vontade.

- Ginny nunca tinha sido diferente. Sempre foi cordata. Ela nunca tinha sido rebelde como agora. Primeiro a escola, agora isso...

- Está sugerindo que essas mudanças se devem a nós?- Eugênia abanou a cabeça. - É inteligente demais para isso, Molly. Virgínia está se tornando uma mulher e está cada vez mais apta para decidir o caminho certo para sua vida. Você formou uma jovem sensata. Mas mesmo tentando criá-la como um pequeno querubim, não destruiu seu gênio. Ela é uma Morgan dos pés à cabeça. Quanto a isso, sim, tenho que concordar, não somos de temperamento fácil. – ela sorriu matreira. – Faz parte do pacote, e você o comprou muito feliz quando se casou com o Arthur.

Elas se fitaram em silêncio, um sorriso quase surgindo nos lábios tristes de Molly Prewett. Então Eugênia pôs seus olhos que tudo viam, profundamente sobre a mulher.

- Dê este voto de confiança à nós, à família que já foi sua. E se não puder, dê este voto de confiança à sua filha.

Molly não sabia como, mas pela primeira vez na vida, começou a pensar em como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele ainda estivesse vivo. Se ela tivesse feito outras escolhas na vida

- E se ela sofrer? – disse surpresa. Estaria ela pensando sobre a possibilidade...?

- Sofrer? Como você, eu, como cada pessoa existente neste planeta? Então ela será humana. – Eugênia suspirou, o semblante tranqüilo, estava certa de que acabara de dar um passo definitivo para qualquer coisa. Talvez algo bom. - Não impeça sua filha de crescer. É o aviso que vim lhe trazer. Insisto, não é um pedido ou ameaça, é um... conselho. – e sorriu da palavra que não gostava. - Dentro de dois anos ela será maior de idade e você sabe que irá nos procurar. Não adianta mais, Molly, a distância de agora será apenas física. Faça apenas com que nos procure de forma a não destruir a relação que vocês têm. Faça que seja por amor, não pela dor.

- Não posso me afastar dela. – ela murmurou. – Não farei isso.

- Olhe para mim. Meu tempo está se acabando e a cada dia eu tento me agarrar mais e mais à vida por um único propósito: a família. Eu tive que enterrar marido, dois filhos, meu neto querido, parentes de três gerações. Só eu permaneci. Só eu fiquei para trás. Virgínia é a única continuação da minha árvore. A única continuação de Arthur. Deixe-me tê-la um pouco. Deixe que ela nos tenha um pouco. E talvez ela vá te amar muito mais.

E a dura Molly, a de firmeza e constância, começou segurar lágrimas impossíveis de serem detidas.

- Não faça isso, Eugênia. Está usando sua saúde. Está me dizendo que se eu não permitir... Que se ela estiver longe quando você... – ela tentou não pronunciar a palavra morte, mas estava bem claro. – Ela vai me odiar.

- Chantagem emocional? – a anciã assentiu pesarosamente. – Não foi minha intenção, mas sim, por Virgínia eu me rebaixaria a isso. Por meu amor à ela. E quanto ao seu amor? Estaria disposta a se sacrificar um pouco por ele?

Eugênia se levantou com alguma dificuldade.

- Ficaremos na cidade por alguns dias. Nossa vez de explorar o ambiente de metal e concreto de Nova York. Espero não ter te trazido mais sofrimento do que o que se impôs. – ela falava e Molly mal conseguia se mover. - Apenas pense. Como impedir o destino de cumprir o seu curso?

De dentro do escritório, uma Molly paralisada pôde ouvir as perguntas agudas de Virgínia, as palavras acalmadoras da bisavó, o sussurro baixo de Candice. Pôde ouvir as três Morgan se despedindo. Três. Um baque surdo no coração. Sua filha era uma delas.

Quantos minutos se passaram? Quantos até escutar a voz baixa e insegura da pessoa que mais amava sobre a face da terra?

- Mamãe? – a garota estava parada à sua frente.

- Não posso ficar sem você. – Molly sussurrou quase inaudivelmente.

- O quê está dizendo? – perguntou confusa. Savia que algo importante acontecera ali, apenas não calculava a extensão.

- O que você faria se eu te forçasse a partir conosco? – Molly a surpreendeu. - Me odiaria?

Virgínia sentiu os olhos arderem novamente. Então era isso, estava tudo acabado.

- Não, mamãe. Se me forçar... eu farei o que você quiser, não foi sempre assim? – os olhos castanhos brilharam com lágrimas duramente contidas. – Eu farei e um dia, quem sabe, eu possa te perdoar.

E a verdade desabou sobre os ombros de Molly. Até mesmo uma menina conseguia ser menos egoísta que ela. A sua menina, que ela jurara amar e fazer feliz. Sacrifícios. Que direito tinha de lhe provocar tanto sofrimento?

- Eu não te obrigarei, Ginny. – disse entrecortado. – Não sei o que fazer, mas não vou mais te obrigar a ser quem não é. – e então abriu os braços. – Venha aqui, minha menina.

E Virgínia se jogou nos braços abertos da mãe. E as duas choraram juntas e se compreenderam juntas. E o abismo de uma vida inteira finalmente deixou de existir.


XXXXXXXXXX


N/A: Oi gente! Depois de muita espera e muita saudade (minha de vocês), consegui terminar o capítulo. Ai, se eu soubesse o quanto este ano o trabalho iria exigir de mim, não teria começado outra fic sem terminar a primeira. Mas como comecei, podem ficar tranqüilos, apesar da demora não pretendo desistir de jeito nenhum. Vocês terão apenas que ser um pouquinho pacientes.
Vocês devem estar se perguntando qual foi a decisão de Molly, não é? Pois bem, isso saberemos no capítulo a seguir. XD

Esclarecimentos:
1 – Mardi Gras: no carnaval de Nova Orleans é a terça-feira gorda, literalmente. O dia principal dos festejos e também o mais animado. Alguma semelhança?

2 – Park Avenue: região podre de chic em Nova Iorque.


A todos vocês que me mandaram mensagens particulares e recadinhos de incentivo, meu muito, muito obrigada. É um alento saber que compreendem que cada etapa da vida exige seus sacrifícios. Eu não colocaria no ar um cap. escrito de qualquer jeito, só pra postar. Chego a arrepiar sobre esta hipótese. Então só posso torcer pela espera ter valido a pena.

Sobre o capítulo: Estou em estado de graça... Sempre que começo um novo capítulo gosto de colocar um pensamento, um trecho de música, algo que resuma o que será lido à seguir, e neste, depois de tudo pronto (inclusive o título!), me deparei com este poema do Neruda, engavetado em meus arquivos há séculos. Nossa! Surpresa grata e atordoante. O poeta disse tudo em poucas linhas. Ainda bem que existe poesia e ainda bem que ela me encontrou.
Quanto aos casais, o conflito entre Lizzie e Draco foi mostrado (foi tão bom de escrever, hihi), mas não houve espaço para contar a estória de Candie e Sirius. Tentei encaixar mas não ficou natural. Vamos ver no próximo... Espero que as lembranças dos personagens e mini-saltos no tempo não tenham ficado confusos. Podia ter pedido opiniões para minhas fic-irmãs e todas seriam excelentes, mas ainda não consigo mostrar para ninguém antes. Dá pra entender? Coisa visceral.

Copiando minha querida irmã, Sally Owens, mandei avisos de atualização por e-mail, para aqueles que acompanham minhas fics e deixam seus reviews. Infelizmente não consegui o e-mail de todos. Pry e Lanni, não consegui ler o de vocês no meu e-mail (arrrrgh!). Então vamos fazer o seguinte, quem quiser me passar, pode deixar no meu Orkut, Georgea R, ou dentro dos reviews, no caso do FF e Aliança 3 V. Combinados?


E um abraço especial para meus maiores incentivadores:

Ginny Potter: Meu primeiro review no Aliança! Fico contente demais de estar achando maravilhosa. Recados são o melhor modo de se ter um retorno da fic, saber o que pensam e o quanto nos apóiam. Muito obrigada pelos votos de inspiração, ela veio, e acompanhada de muita transpiração também. Trabalho duro, mas sempre recompensado. Super beijo.

Remaria: Ah, nada como colocar um pouquinho da gente nas personagens. Ainda mais quando tem romance no ar. E o bando de casais que eu arrumei... Mérlin, que trabalhão. E ainda vai ter pelo menos mais um. *Georgea desanimada, olhando pros dedos doloridos. É o preço do vício. Rsrsrsrsrssrsrsrsrs. Obrigada por torcer por mim e saiba que o carinho é recíproco. Beijo grande, irmã.

Miaka: A fabula da raposa e da uva... tenho a impressão que a Gi deu uma de desentendida. Rsrsrsrs. Mas não adiantou nada, a atração rolou e o beijo também. \o/ Brigada pelos coments e apoio, Mi. Bjo.

Ara Potter: Irmããã!!! Te amo! Dizem que rir rejuvenesce. Se for verdade estou uns dez anos mais nova. Não pira a cabeça do cunhado, heim? Já pensou se ele te proíbe de ler minhas fics? Pára de confundir o menino... Ahuahuahuahauhauahua! E muito obrigada pelo amasso da CTTM. Quero mais! Adorei ser sua Beta 3, e adoro ser sua amiga. Mil beijos.

Michelle Granger: Mana, você leu tudo de uma vez e acabou enxergando tudo turvo, daí também ficou dodói... Ai, será que a culpa foi minha? Rsrsrsrsrsrsrsrsrssrsrsrs. Olha lá, pega leve com estas coisas. Fic demais vicia. *Geo tomando fic na veia. Tomara que já esteja melhor. Um beijo grande, saudades de você (pc mau!).

Livinha: Sirius e Candie... pois é. Vai ter que esperar mais um pouquinho. Mas você merece, depois de como terminou seu último capítulo (Humpf!). Puxa, mana, você entendeu bem o espírito das personagens. É isso mesmo, parecem ser complicados, mas no fundo nem são tão diferentes do que a gente vê por aí, todo dia. Oh, Mr. Harry! Eu também estou apaixonada... Beijo enorme, querida.

Nani Potter: Nana linda, vem mais beijo por aí. *Cruza os dedos, beija e jura. Obrigada por arrumar um tempinho nessa sua agenda impossível. Adoro você. :-*

July Black: Querida, pode comemorar. Agora nosso moreno TDB está solteiríssimo! \o/ No futuro pode ser que a Gi sofra, mas também há de ser beeeeem feliz. Também com nosso Harry apaixonante... Reza e fica na torcida. Rsrsrsrsrsrs. Bjo, bjo, bjo.

Sil 17: Querida amiga, que saudade de você e das suas fics! E que coisa mais gostosa ter estes seus reviews pra ler quando as energias estão baixas... Como sempre, você estava certa nas suas suposições. Há algo “mágico” no nosso garoto. Isso ficou subentendido durante as memórias de Lizzie. Vamos ver o que acontece no desenrolar do novelo. E a Gi florindo... Puxa, que lindo ficou isso. Agora ninguém segura nossa plantinha exótica. E meu obrigada imenso por me comparar com as escritoras citadas. Estupendas, né? Estou muito feliz por ter te encontrado virtualmente pelo mundo. Meu beijo carinhoso e saudoso.

Sally Owens: Já viu como as tempestades nunca chegam sozinhas? E reparou que quando elas passam tudo fica mais limpo e bonito? Assim tem sido conosco, não é? Contratempos, mudanças pequenas e gigantescas, e nosso porto seguro ali, firme e forte. Nossos amores, nossa família, nossas estórias. Elas nos sustentam mesmo quando a gente se sente a mais esgotada do planeta. Quando chega o fim do dia e a gente acha que não vai agüentar dar mais um passo. Ninanão. Lá estão elas na frente do pc, pescando sonhos. Obrigada por embarcar comigo nesta viagem à Nova Orleans e por ser esta pessoa meiga, que sinto conhecer há anos. Um beijo, irmã. Ah, e a Gi pensando sobre o beijo: se seriam todos “doce, pimenta e sal”, eu meio que roubei de seu coment.

Lani Lu: Céus! Você descreveu um sonho bom... Sua descrição de Lizzie e Draco se completando como uma massa sobre uma estátua rachada, o beijo de Gi e Harry, forte e frágil ao mesmo tempo... Sempre acreditei no poder dos reviews sobre um autor, e agora percebo o quanto eles nos tocam, e modificam o próprio modo de enxergar nosso trabalho. Querida, obrigada por me mostrar sua visão, e obrigada por ela ser tão linda. Beijo enorme.

Lilly: Ah, nada como um “merchan” de Arinha Robert... Estou muito feliz que tenha gostado. E apesar de não ter sido a Gi quem quebrou o salto da Cho, acredito que ela teria gostado muito de fazê-lo. Rsrsrsrsrsrsrsrsrs. De qualquer modo foi ela a causadora do tumulto. Na festa e no coração do nosso Potter. Um beijão.

Diana: Querida, mesmo com a demora na atualização, espero que continue passando por aqui. Pode sossegar, não vou desistir nunca. Um monte de beijos estalados.

Lais Mayara: Linda, sei que estou em falta com vocês, e sei que não posso prometer atualizações rápidas. Vida corriiiiiida... Só prometo não os abandonar, e tratá-los com todo o respeito que merecem. Obrigada pelo apoio. Bjoka.

Macah Potter: Família grande é minha sina. Rsrsrsrsrsrs. Daquelas bem barulhentas, cheias de segredinhos, carinhos e cheia de apoio quando a gente mais precisa. Mais ou menos Morgan. Agora, um primo igual ao Harry... ainda bem que eu também não tenho. Ia ser conflito na certa. Rsrsrsrs. Beijão.

Hanna Burnett: Demorada, mas atualizada. Tomara que goste, querida. Beijos.

Lis.Strange: Ah, Lis, que delícia ter achado isso. É bom demais ler um coment dizendo isso. Sobre Anne Rice, eu adoro a “rainha”. E leia, leia, leia! São ótimos. Quanto ao Lasher, não haverá um, mas como o capítulo mostrou, algo espreita pela casa... E Lizzie Morgan agradece o carinho. Bjos XD

Sônia Sag: E o amasso entre a gralha loura e Lizzie? Gostou? Ahuahuahua! E este beijo H/G deu mesmo o que falar. Como esse Potter é poderoso, amiga. Estou amando sua fic sobre os fundadores, viu? Mil beijos e obrigada pelo carinho.

Mayana Sodré: \o/ Eu também gostei muito de Ron ser definido como a “vadia” da Keisha. Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs. Sabe quando a gente fica rindo sozinha na frente do pc? Sério, até vi a cara sarcástica da Lizzie, dizendo. E novamente sobre Keisha, tem um mistério sim. Vamos ver... Obrigada pelo recado e força. Tomara que não tenha ficado ansiosa demais com a demora. Beijos mil.

Gina W. Potter: Puxa, querida, obrigada por todos os recadinhos carinhosos (tão bem vindos), e pela atenção. E o poema... ai... sou fissurada em poesia, e Neruda é mestre em descrever o amor. Brigada pela força. Um abraço, um beijo e um cheiro.

MárciaM: Mas que saudade, poderosa! E seu feitiço anti-Cho está funcionando que é uma beleza. E como você ousa pedir por mais que beijos, quando é a rainha da enrolação? XD Calma com os agarros, que isso mata! KKKKKKKKKKK. Um beijo, bruxinha, tô com saudades de rir com você.

Morgana Black: Morg, amiga, eu também me senti no lugar da Gina. Eu também!!! E o Harry, sabe como é, não adianta fugir do que a gente mais quer. Aquilo acaba perseguindo a gente. E que perseguição mais boa! ^^ Muito obrigada pela atenção, querida. Beijos, e a gente se vê no Fórum.

Paty Black: Patyyy- Mariaaa!!! *Geo corre e pula no pescoço. Você voltou pra nós! Aposto que toda bronzeada, né? Que bom que está gostando, mana. Está sendo feito com sacrifício, mas muuuito prazer. Mil beijos pra você. Estou morta de saudades. XD


Um cheiro,
Geo.






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