CAPÍTULO 12



Gina tinha leucemia e sabia disso desde o Verão passado.
No momento em que ela me falou da doença, o sangue faltou-me do rosto e um feixe de imagens vertiginosas percorreu trepidante a minha mente. Foi como se, naquele breve instante, o tempo tivesse subitamente parado e eu compreendesse tudo o que tinha acontecido entre nós. Compreendi por que quisera que eu participasse na peça: compreendi por que razão, depois de termos representado naquela primeira noite, Arthur lhe sussurrara com lágrimas nos olhos, chamando a seu anjo; compreendi por que razão parecia sempre tão cansado e porque se afligia com as minhas idas constantes lá a casa. Tudo se tornou absolutamente claro.
Por que quisera que o Natal no orfanato fosse tão especial...
Por que pensava que não iria para a universidade...
Por que me havia dado a sua Bíblia...
Tudo fazia perfeito sentido e, ao mesmo tempo, nada parecia fazer qualquer sentido.
Gina Weasley tinha leucemia...
Gina, a querida Gina, estava a morrer...
A minha Gina...
- Não, não - murmurei lhe - tem de haver algum engano... Mas não havia e, quando ela me falou de novo, o meu mundo esvaziou se. A minha cabeça começou a andar à roda, e agarrei me a ela com força para não perder o equilíbrio. Na rua, vi um homem e uma mulher caminhando na nossa direção, de cabeça baixa e as mãos nos chapéus para evitar que o vento os levasse. Um cão atravessou rapidamente a rua e parou para farejar os arbustos. Um vizinho em frente estava em cima de um escadote, desmontando as suas luzes de Natal. Cenas normais da vida de todos os dias, coisas em que nunca teria reparado antes, subitamente fazendo com que me sentisse irritado. Fechei os olhos, querendo que tudo aquilo desaparecesse.
- Desculpa, Potter- dizia ela continuamente. No entanto, era eu quem deveria pedir desculpas. Sei isso agora, mas a minha confusão impediu me de dizer fosse o que fosse.
Lá no fundo, sabia que essa confusão não iria desaparecer. Abracei Gina de novo, não sabendo que mais fazer, as lágrimas enchendo me os olhos, tentando ser, mas sem conseguir, o rochedo de que ela precisava.
Choramos juntos na rua durante muito tempo, apenas a uma curta distância da casa dela. Choramos mais um pouco quando Arthur abriu a porta e viu as nossas caras, sabendo imediatamente que o segredo deles tinha sido revelado. Choramos quando contamos à minha mãe, mais tarde, naquele dia. Abraçou nos e soluçou tão alto que tanto a empregada como a cozinheira queriam chamar o médico porque pensavam que alguma coisa tinha acontecido ao meu pai. No domingo, Arthur anunciou a noticia à sua congregação, foi preciso ajudá lo a voltar para o seu lugar antes mesmo de ter terminado.
Todos na igreja se quedaram silenciosos e incrédulos perante as palavras que tinham acabado de ouvir, como se estivessem à espera de um desfecho para alguma história horrível que ninguém queria acreditar que tivesse sido contada. Depois em uníssono, ao mesmo tempo, começaram as lamentações.

- É assim que ela avança - explicou. - Sentimo nos bem, e depois, quando o corpo já não consegue continuar a lutar, começamos a sentir nos mal.
Lutando contra as lágrimas, não podia deixar de pensar na peça.
- Mas todos aqueles ensaios... aqueles dias compridos... talvez não devesses ter...
- Talvez - atalhou, pegando me na mão.
- Participar na peça foi o que me manteve saudável durante tanto tempo.

Mais tarde, disse me que tinham passado sete meses desde que fora diagnosticada a doença. Os médicos tinham lhe dado um ano de vida, talvez menos.
Hoje em dia, talvez pudesse ter sido diferente. Hoje em dia, poderia tê la tratado. Hoje em dia, Gina, provavelmente, teria sobrevivido. Mas isto passou se há quarenta anos, e eu sabia o que isso queria dizer.
Só um milagre a poderia salvar.

Por que é que não me disseste?
Esta era a única pergunta que não lhe tinha feito, aquela em que tinha estado a pensar. Não dormira naquela noite e tinha os olhos ainda inchados. Durante toda a noite, passei por sucessivos estados de choque, negação, tristeza e raiva, desejando que aquilo não fosse verdade e rezando para que não passasse de um terrível pesadelo.
Sentamo nos na sua sala de estar no dia seguinte, o dia em que Arthur dera a notícia aos fiéis. Estávamos a 10 de Janeiro de 1959.
Gina não parecia tão deprimida como eu pensara que ela fosse estar. Mas também já vivia com aquilo há sete meses. Ela e Arthur tinham sido os únicos a saber e nenhum deles havia confiado em ninguém, nem em mim. Fiquei magoado com isso e com medo, ao mesmo tempo.
- Tinha tomado a decisão - explicou me - de que seria melhor não dizer a ninguém e pedi ao meu pai para fazer o mesmo. Viste como as pessoas se comportaram hoje depois da missa. Ninguém era capaz de me olhar nos olhos. Se tivesses só alguns meses para viver, era isso que querias?
Sabia que ela tinha razão, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Pela primeira vez na minha vida, estava completamente sem saber o que fazer.

Nunca ninguém que me fosse próximo tinha morrido, pelo menos que me lembrasse. A minha avó morreu quando eu tinha três anos e não me lembro nada dela, ou do serviço religioso que se seguiu, ou até dos anos seguintes. Tinha ouvido histórias, claro, contadas tanto pelo meu pai como pelo meu avô, mas para mim não passavam de histórias. Era como ouvir sobre casos que poderia ter lido num jornal, sobre uma mulher qualquer que eu jamais tivesse conhecido. Embora o meu pai me levasse com ele ao cemitério quando ia pôr flores na campa da minha avó, nunca tive quaisquer sentimentos associados a ela. Sentia apenas pena das pessoas que ela tinha deixado para trás.

Ninguém da minha família ou do meu circulo de amigos alguma vez tivera de se confrontar com uma situação daquele gênero. Gina tinha dezessete anos, uma criança, quase uma mulher, a morrer e ainda muito viva, ao mesmo tempo. Eu estava com medo, mais do que alguma vez estivera, não apenas por ela, mas por mim também. Vivia com o receio permanente de fazer alguma coisa de errado, de fazer alguma coisa que a ofendesse. Seria correto ficar zangado na presença dela? Seria correto continuar a falar do futuro? O meu medo tornava a conversa com Gina difícil, embora ela fosse paciente comigo.
O medo, porém, fez me perceber outra coisa, algo que tornava tudo aquilo ainda pior. Percebi que nem sequer a conhecera quando ela era ainda saudável. Tinha começado a passar algum tempo com Gina apenas uns escassos meses antes, e sentia me apaixonado por ela havia dezoito dias apenas. Esses dezoito dias pareciam a minha vida inteira, mas agora, quando olhava para ela, tudo o que conseguia fazer era perguntar me quantos dias mais iríamos ter.
Na segunda feira, Gina não apareceu na escola e senti que ela nunca mais voltaria a percorrer aqueles corredores. Nunca mais a veria a ler a Bíblia sozinha à hora do almoço, nunca mais veria a sua camisola castanha deslocar se por entre a multidão quando ela se dirigia para a aula seguinte. Terminara para sempre a escola, nunca iria receber o seu diploma...
Não me conseguia concentrar nas aulas naquele primeiro dia de regresso à escola depois das férias de Natal, escutando os professores a dizer nos, uns a seguir aos outros, aquilo que a maior parte de nós já tinha ouvido. As reações foram semelhantes às que ocorreram na igreja no domingo. As moças choravam, os rapazes baixavam a cabeça. As pessoas contavam histórias sobre ela como se ela já tivesse morrido. "Que podemos fazer?" interrogavam se em voz alta, e procuravam em mim as respostas.
- Não sei - era tudo o que conseguia dizer.
Saí da escola cedo e fui até à casa de Gina, faltando às aulas depois do almoço. Quando bati à porta, Gina recebeu me da maneira como sempre fazia, alegremente e, assim parecia, sem qualquer preocupação no mundo.
- Olá, Harry- disse ela - mas que surpresa.
Quando se inclinou para me beijar, beijei a também, embora tudo aquilo me desse vontade de chorar.
- O meu pai não está em casa neste momento, mas podemos sentar nos na varanda se quiseres.
- Como é que podes fazer isso? - perguntei de repente. - Como é que consegues fingir que está tudo bem?
- Não estou a fingir que está tudo bem, Potter. Deixa me ir lá dentro buscar o casaco e sentamo nos cá fora a conversar, sim?
Sorriu para mim, à espera de uma resposta e, por fim, acenei lhe com a cabeça, os meus lábios comprimidos. Gina estendeu a mão e deu me uma palmadinha no braço.
- Volto já - disse ela.
Dirigi me para a cadeira e sentei me. Gina surgiu um momento depois, trazendo um casaco pesado, luvas e um chapéu para se manter quente. O vento de nordeste já tinha passado e o dia não estava nem de longe tão frio como durante o fim de semana. No entanto, era ainda demasiado frio para ela.
- Não foste à escola hoje.
Ela olhou para baixo e acenou com a cabeça:

- Eu sei.
- Nunca mais vais voltar? - Apesar de já saber a resposta, precisava ouvi la da sua boca.
- Não - respondeu baixinho - não vou.
- Porquê? Já estás assim tão doente?
As lágrimas enchiam me os olhos. Ela estendeu o braço e pegou me na mão.
- Não. Hoje, por acaso, até me sinto muito bem. É só porque quero estar em casa agora de manhã, antes de o meu pai ter de ir trabalhar para o gabinete. Quero passar o máximo de tempo com ele.
Antes de morrer, queria ela dizer, mas não o fez. Senti náuseas e não consegui responder.
- Quando os médicos nos contaram pela primeira vez continuou - disseram nos que eu deveria tentar levar uma vida o mais normal possível durante o maior período de tempo que pudesse. Disseram que isso me ajudaria a manter as forças.
- Não há nada de normal nisto - disse amargamente.
- Eu sei.
- Não tens medo?
Esperava que ela respondesse que não, que dissesse algo de sensato como diria um adulto, ou que me explicasse que não podemos pretender compreender os desígnios de Deus.
Desviou o olhar.
- Tenho - respondeu por fim. - Estou sempre com medo.
- Então por que é que não ages como se o tivesses?
- Ajo. Só que o faço em privado.
- Por que não confias em mim?
- Não - respondeu - porque sei que também estás com medo.

Comecei a rezar por um milagre.
Parecia que estavam sempre a acontecer e lera acerca disso nos jornais. Pessoas a recuperar o uso das pernas depois de lhes ter sido dito que não voltariam a andar, ou sobrevivendo a um acidente horrível quando se havia já perdido toda a esperança. De tempos a tempos, um padre itinerante montava uma tenda nos arredores de Beaufort, e muita gente ia lá para assistir à cura de pessoas. Fui algumas vezes, e embora presumisse que a maior parte das curas não passavam de um engenhoso espetáculo de magia, uma vez que eu nunca reconhecia as pessoas que eram curadas, de vez em quando aconteciam coisas que nem eu conseguia explicar. O velho Sweeney, o padeiro aqui da cidade, andou na Primeira Guerra a lutar com uma unidade de artilharia atrás das trincheiras e os meses de bombardeamentos contra o inimigo deixaram no surdo de um ouvido. Não fingia, ele realmente não conseguia ouvir nada e houve alturas, quando éramos miúdos, em que tínhamos conseguido fugir com um pãozinho de canela graças a isso. Mas o padre começara a rezar fervorosamente e, por fim, colocou a mão num dos lados da cabeça de Sweeney. Sweeney deu um grito forte, fazendo com que as pessoas praticamente saltassem das cadeiras. Tinha uma expressão apavorada no rosto, como se o padre tivesse tocado com um atiçador em brasa. Mas depois sacudiu a cabeça e olhou em volta, proferindo as palavras Consigo ouvir de novo.
Nem ele próprio conseguia acreditar.

- Deus - dissera o padre enquanto Sweeney voltava para o seu lugar ¬- pode fazer qualquer coisa. Deus escuta as nossas preces.
Assim, naquela noite, abri a Bíblia que Gina me oferecera no Natal e comecei a ler. Já ouvira ler a Bíblia na catequese de domingo ou na igreja, mas para ser franco, apenas me lembrava dos pontos altos - as sete pragas ordenadas por Deus para que os Israelitas pudessem sair do Egito, Jonas a ser engolido pela baleia, Jesus caminhando sobre a água ou a ressuscitar Lázaro de entre os mortos. Também havia outros pontos altos. Sabia que praticamente em cada capítulo da Bíblia Deus fazia alguma coisa de espetacular, mas não os conhecia todos. Como cristãos, aprendíamos muito os ensinamentos do Novo Testamento, e não sabia absolutamente nada de livros como o de Josué, ou de Rute, ou de Joel. Na primeira noite, li o Gênesis todo, na segunda noite li o Êxodo. A seguir veio o Levítico, seguido dos Números e depois do Deuteronômio. Algumas partes lia mais devagar, especialmente quando eram explicadas as leis todas. No entanto, não era capaz de pousar o livro. Era uma compulsão que eu não compreendia inteiramente.
Era já tarde uma noite, e já estava cansado, quando, por fim, cheguei aos Salmos. Por um motivo qualquer, sabia que era aquilo que procurava. Já todos ouviram o vigésimo terceiro salmo, que começa, "O Senhor é o meu pastor, nada me falta", mas queria ler os outros, uma vez que nenhum deles devia ser mais importante
que os outros. Uma hora depois encontrei uma seção sublinhada que supus ter sido anotada por Gina, porque significaria algo de importante para ela. Dizia assim:

A Vós clamo, Senhor.'
Ó meu rochedo não sejais surdo à minha voz,
Não suceda que, não me ouvindo,
Eu fique semelhante àqueles que descem ao abismo.
Ouvi a voz da minha súplica, quando clamo por Vós,
Quando levanto as minhas mãos para o Vosso santo templo.

Fechei a Bíblia com lágrimas nos olhos, incapaz de terminar.
De alguma maneira, sabia que ela a sublinhara para mim.

- Não sei o que fazer - disse entorpecido, olhando para a luz fraca do candeeiro do meu quarto. A minha mãe e eu estávamos sentados na cama. Aproximava se o fim de Janeiro, o mês mais difícil da minha vida, e sabia que em Fevereiro as coisas apenas iriam piorar.
- Sei que isto é difícil para ti - murmurou ela - mas não há nada que possas fazer.
-Não me refiro à doença de Gina, sei que nada posso fazer em relação a isso. Refiro me a Gina e eu.
A minha mãe olhou me, compreensiva. Estava preocupada com Gina, mas também se preocupava comigo. Prossegui.
-É difícil conversar com ela. Quando olho para ela só consigo pensar no dia em que não poderei fazê lo. Passo o tempo todo na escola a pensar nela, desejando poder vê la naquele instante, mas quando chego a casa dela não sei o que dizer.

- Não sei se há alguma coisa que possas dizer que a faça sentir se melhor.
- Então que devo fazer?
Olhou tristemente para mim e pôs o braço à volta do meu ombro.
- Amas a Gina de verdade, não amas? - perguntou.
- Com todo o meu coração.
Nunca a vira tão triste.
- O que te diz o coração para fazeres?
- Não sei.
- Talvez - disse ela com ternura estejas a esforçar te de mais para o ouvir.

No dia seguinte, senti me melhor na presença de Gina, embora não muito. Antes de chegar a casa dela, prometera a mim mesmo nada dizer que a pudesse deprimir que tentaria conversar com ela como costumava fazer antes e foi exatamente isso que se passou. Sentei me no sofá e falei lhe de alguns dos meus amigos e do que eles andavam a fazer; pu-la a par do êxito da equipe de basquete. Disse lhe que ainda não tido noticias da UNC, mas que esperava saber alguma coisa dentro das semanas seguintes. Disse lhe que aguardava ansioso a cerimônia de formatura. Falei como se ela fosse voltar à escola na semana seguinte e sabia que me mostrava nervoso o tempo todo. Gina sorria e acenava com a cabeça nas alturas apropriadas, fazendo perguntas de vez em quando. Mas penso que quando acabei de falar, ambos sabíamos que era a última vez que o fazia daquela maneira. Nenhum de nós se sentia bem com aquela conversa.
O meu coração dizia me exatamente a mesma coisa.
Voltei me de novo para a Bíblia, na esperança de que me ajudasse.
- Como te sentes?- perguntei dois dias depois.
Por esta altura, Gina já tinha emagrecido mais. A sua pele começava a ganhar um tom ligeiramente acinzentado e os ossos das mãos começavam a tornar se visíveis através da pele. Apresentava mais hematomas. Estávamos dentro de casa na sala de estar; lá fora fazia demasiado frio para ela.
Apesar de tudo isto, continuava linda.
- Estou bem - disse ela, sorrindo corajosamente. - Os médicos deram me um remédio para as dores e parece que ajuda um pouco.
Vinha a visitar todos os dias. O tempo parecia estar a desacelerar e a acelerar exatamente ao mesmo tempo.
- Precisas de alguma coisa?
Não, obrigada, estou bem.
Olhei em volta da sala, depois novamente para ela.
Tenho andado a ler a Bíblia disse, por fim.
Ah sim? O seu rosto iluminou se, lembrando me o anjo que vira na peça. Não conseguia acreditar que tinham passado apenas seis semanas.
Quis que soubesses.
Fico contente por me teres dito.
Li o Livro de Jó ontem à noite disse eu em que Deus pôs à prova a fé de Jó.
Ela sorriu e inclinou se para me dar uma palmadinha no braço, a sua mão macia sobre a minha pele. Era uma sensação tão boa.
Devias ler outra coisa. Nesse livro, Deus não está nos seus
melhores momentos.

Por que lhe teria Ele feito aquilo?
- Não sei respondeu.
Nunca te sentes como Jó?
Ela sorriu, uma pequena cintilação nos olhos.
- Às vezes.
Mas não perdeste a tua fé?
- Não. Sabia que não, mas acho que eu estava a perder a minha.
Porque pensas que podes ficar melhor?
Não respondeu porque é a única coisa que me resta.
Depois disso, começamos a ler a Bíblia juntos. Parecia o melhor a fazer, mas o meu coração, no entanto, dizia me que talvez ou ainda mais alguma coisa. À noite, fiquei acordado na cama, a pensar no assunto.

A leitura da Bíblia proporcionava algo em que nos podíamos concentrar. De repente, tudo começou a correr melhor entre nós, talvez porque não estivesse com tanto receio de fazer alguma coisa que a ofendesse. O que podia ser mais correto do que ler a Bíblia? Embora não conhecesse a Bíblia tão bem como Gina, penso que ela apreciou o gesto. Por vezes, quando estávamos a ler, ela colocava a mão no meu joelho e escutava simplesmente à medida que a minha voz enchia a sala.
Outras vezes, sentava me ao seu lado no sofá, olhando para a Bíblia, observando Gina pelo canto do olho ao mesmo tempo. Encontrávamos uma passagem ou um salmo, talvez até um provérbio, e eu perguntava lhe o que pensava dele. Tinha sempre uma resposta, e eu acenava com a cabeça, pensando no assunto. às vezes, era ela quem me perguntava o que eu achava, e eu também me esforçava, apesar de haver momentos em que fingia e tinha a certeza de que ela percebia.
É isso o que realmente significa para ti? perguntava, e eu coçava o queixo e pensava antes de tentar de novo. às vezes, porém, era por culpa dela que não conseguia concentrar me, com a sua mão no meu joelho.
Uma sexta feira à noite levei a a jantar a minha casa. A minha mãe fez nos companhia durante o prato principal, depois saiu da mesa e foi sentar se no escritório para que pudéssemos ficar a sós.
Era bom estar ali, sentado com Gina, e sabia que ela sentia o mesmo. Não saía muito de casa agora, e aquilo era uma mudança boa para ela.
Desde que me contou sobre a doença, Gina deixou de usar o cabelo apanhado. Era tão deslumbrante ainda como da primeira vez em que a vira com ele solto. Ela estava a olhar para o armário da porcelana
A minha mãe tinha um daqueles armários com luzes lá dentro quando estendi o braço por cima da mesa e lhe peguei na mão.
- Obrigado por teres vindo esta noite disse eu.
Voltou novamente a sua atenção para mim.
Obrigada por me teres convidado.
Fiz uma pausa.
Como está o teu pai a agüentar se?
Gina suspirou.
Não muito bem. Preocupo me muito com ele.
Ele ama te muito, sabes?
Sei.

E eu também disse eu, e quando o fiz, ela desviou o olhar. Ouvir me dizer aquilo pareceu assustá la de novo.
Vais continuar a ir visitar me a minha casa? perguntou. Mesmo mais tarde, sabes, quando...?
Apertei lhe a mão, não com muita força, mas o suficiente para que ela soubesse que eu falava a sério.
Enquanto quiseres que eu vá, eu lá estarei.
Não precisamos de continuar a ler a Bíblia, se não quiseres.
Sim disse baixinho acho que precisamos.
Ela sorriu.
És um bom amigo, Potter. Não sei o que faria sem ti.
Apertou me a mão, retribuindo o favor. Sentada à minha frente, ela estava radiante.
Amo te, Gina - declarei de novo, mas desta vez ela não teve medo. Em vez disso, os nossos olhos encontraram se por cima da mesa, e vi os dela começarem a brilhar. Suspirou e desviou o olhar, passando a mão pelo cabelo. Depois voltou se de novo para mim. Beijei lhe a mão, sorrindo também.
Também te amo murmurou ela finalmente.
Eram as palavras que eu havia rezado por ouvir.

Não sei se Gina falou a Arthur do que sentia por mim, no entanto, duvido, pois a sua rotina não mudou em nada. Era seu hábito sair de casa sempre que eu lá ia depois das aulas e isso continuou. Batia à porta e ouvia Arthur dizer a Gina que ia sair e que estaria de volta dentro de duas horas.
Está bem, Papá ouvia a sempre dizer. Em seguida, esperava que Arthur abrisse a porta. Depois de me deixar entrar, abria o armário do corredor e retirava em silêncio o chapéu e o sobretudo, abotoando este último de cima a baixo antes de sair de casa. O sobretudo era antiquado, preto e comprido, como um impermeável militar sem fechos éclair, daqueles que estiveram na moda no principio deste século. Raramente falava diretamente comigo, mesmo depois de saber que tínhamos começado a ler a Bíblia juntos.
Embora ainda não gostasse que eu ficasse dentro de casa enquanto ele lá não estava, continuava a deixar me entrar. Sabia que, em parte, isso se devia ao fato de ele não querer que Gina se constipasse sentada na varanda, e a única alternativa era esperar em casa enquanto eu ali estivesse. Mas penso que Arthur precisava de algum tempo sozinho também e essa era a verdadeira razão daquela mudança. Não me falou das regras da casa - pude divisá las nos seus olhos da primeira vez que me permitiu ficar. Podia permanecer na sala de estar, apenas isso.
Gina ainda se movimentava bastante bem, apesar de o Inverno estar horrível. Durante a última parte de Janeiro, soprou um vento frio que durou nove dias, seguido de três dias consecutivos de fortes chuvas. Ela não tinha qualquer interesse em sair de casa com um tempo daqueles, mas, depois de Arthur sair, eu e ela podíamos ficar na varanda durante alguns minutos para respirar o ar fresco do mar. Sempre que fazíamos isso, dava por mim a preocupar me com ela.

Quando líamos a Bíblia, havia gente que batia à porta pelo menos três vezes por dia. As pessoas estavam sempre a aparecer, algumas com comida, outras apenas para cumprimentar. Até Rony e Hermione apareceram para uma visita e, embora Gina não estivesse autorizada a deixá los entrar, vê lo de qualquer maneira. Sentamo nos na sala de estar para conversar um pouco, os dois incapazes de a olhar nos olhos.
Estavam ambos nervosos e precisaram de alguns minutos para, finalmente, chegarem ao assunto que ali os tinha trazido. Rony tinha vindo pedir desculpa. Disse que não conseguia imaginar por que é que, entre todas as pessoas, tudo aquilo tivera de acontecer a ela. Trazia também uma coisa para lhe dar e, colocou um envelope sobre a mesa, a sua mão a tremer. Tinha a voz estrangulada enquanto falava, as palavras vibrando lhe com a emoção mais sentida que alguma vez o ouvira expressar.
Nunca conheci ninguém com um coração tão grande como o teu disse ele a Gina, a voz perturbada e apesar de não ter ligado a isso e de nem sempre ter sido simpático contigo, queria que soubesses o que sinto. Nunca me arrependi tanto de uma coisa na minha vida. Fez uma pausa e limpou disfarçadamente o canto do olho. - És a melhor pessoa que por certo conhecerei em toda a minha vida.
Enquanto ele lutava contra as lágrimas e as fungadelas, Hermione já havia sucumbido às suas e soluçava sentada no sofá, incapaz de falar. Quando Rony terminou, Gina limpou as lágrimas da face, levantou se devagar e sorriu, abrindo os braços no que apenas podia ser descrito como um gesto de perdão. Rony aproximou se dela espontaneamente, começando, por fim, a chorar enquanto ela lhe afagava ternamente o cabelo, sussurrando lhe. Os dois abraçaram se durante muito tempo, e Rony soluçou até ficar demasiado exausto para chorar mais.
Depois foi a vez de Hermione, e ela e Gina fizeram exatamente a mesma coisa.
Quando Rony e Hermione estavam prontos para partir, vestiram os seus casacos e olharam para Gina mais uma vez, com o se para a recordar para sempre. Não tinha qualquer dúvida de que queriam
recordá la como ela estava naquele momento. Na minha opinião, estava linda, e sei que eles sentiam o mesmo.
Força disse Rony quando ia a sair. Vou rezar por ti. Todos nós vamos rezar por ti. Depois, olhou para mim e deu me umas palmadinhas no ombro. Tu também disse, com os olhos vermelhos. Enquanto os via partir, sabia que nunca tinha sentido tanto orgulho deles.
Mais tarde, quando abrimos o envelope, descobrimos o que Rony tinha feito. Sem nos dizer o que quer que fosse, tinha recolhido mais de quatrocentos dólares para o orfanato.

Esperei pelo milagre.
Não aconteceu.

Em princípios de Fevereiro, o número de comprimidos que Gina estava a tomar foi aumentado para a ajudar a combater as dores cada vez mais fortes que sentia. As doses reforçadas provocavam lhe tonturas e, por duas vezes, caiu quando ia a caminho da casa de banho, uma vez bateu com a cabeça contra o lavatório. Depois disso, insistiu para que os médicos reduzissem os medicamentos e, com relutância, eles cederam. Embora ainda conseguisse andar normalmente, as dores que sentia intensificaram se, e mesmo o simples gesto de erguer um braço lhe provocava esgares. A leucemia é uma doença do sangue, uma doença que segue o seu curso através de todo o corpo de uma pessoa. O coração vai continuando a bater até a doença o dominar implacavelmente.
Mas a doença enfraquecia lhe também o resto do corpo, consumindo lhe os músculos, tornando até as coisas simples mais difíceis. Na primeira semana de Fevereiro, perdeu quase três quilos, e pouco depois tornou se lhe difícil andar, a não ser que apenas por uma curta distância. Isto, claro, se ela conseguisse suportar as dores, o que passado algum tempo já não era possível. Regressou aos comprimidos, aceitando as tonturas no lugar das dores.
Continuávamos a ler a Bíblia.
Sempre que visitava Gina, encontrava a no sofá já com a Bíblia aberta, e sabia que agora o pai já tinha de a levar para ali ao colo se quiséssemos continuar. Embora ela não me falasse no assunto, ambos sabíamos exatamente o que isso queria dizer.
O tempo de que ainda dispunha era pouco, e o meu coração continuava a dizer me que havia mais alguma coisa que eu podia fazer.

No dia 14 de Fevereiro, dia de S. Valentim, Gina escolheu uma passagem da primeira carta aos Coríntios que tinha grande significado para ela. Disse me que, se alguma vez tivesse oportunidade, queria que fosse essa a passagem a ser lida no seu casamento. Era isto o que dizia:

O amor é paciente, o amor é benigno, não é invejoso; o amor não se ufana, não se ensoberbece, não é inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita, não suspeita o mal; não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Gina era a verdadeira essência dessa descrição.

Três dias depois, quando o tempo aqueceu ligeiramente, mostrei lhe algo maravilhoso, algo que duvidava que ela tivesse visto antes, algo que eu sabia que ela quereria ver.
O Leste da Carolina do Norte é um pedaço belo e especial do país, abençoado com um clima temperado e, na maior parte, uma paisagem maravilhosa. Em nenhum outro lugar é isso mais evidente do que em Bogue Banks, uma ilha mesmo ao largo da costa, perto do local onde crescemos. Com trinta e nove quilômetros de comprimento e quase dois de largura, esta ilha é um acaso feliz da Natureza, estendendo se de leste para oeste e abraçando a costa a oitocentos metros da praia. Os que ali vivem podem presenciar o espetáculo fantástico do nascer e do pôr do Sol o ano inteiro, ambos desenrolando se sobre a extensão do majestoso Oceano Atlântico.
Gina, muito agasalhada, encontrava se de pé a meu lado no extremo do portão Jron Steamer vendo cair aquela perfeita noite do sul. Apontei para o horizonte e disse lhe para esperar. Reparei nas nossas respirações, a dela mais rápida do que a minha. Tive de apoiar Gina enquanto ali permanecíamos parecia mais leve do que as folhas de uma árvore caídas no Outono mas sabia que ia valer a pena.

Finalmente a Lua, com as suas crateras, resplandecente, iniciou a sua aparente ascensão a partir do mar, projetando um prisma de luz através das águas que escureciam devagar, dividindo se em mil partes distintas, cada uma mais bonita do que a outra. Exatamente ao mesmo tempo, o Sol encontrava se com o horizonte na direção oposta, pintando o céu de vermelho, cor-de laranja e amarelo, como se o Paraíso acima tivesse subitamente aberto as suas portas e deixado toda aquela beleza evadir se dos seus confins divinos. O oceano transformava se em prata dourada à medida que as cores volúveis se refletiam nele, as águas encrespando se e cintilando com a mudança de luz, uma visão gloriosa, quase como no principio do mundo.
O Sol continuou a cair, projetando o seu brilho tão longe quanto a vista podia alcançar, antes de por fim, lentamente, desaparecer sob as ondas. A Lua continuava a sua vagarosa escalada, tremeluzindo em mil diferentes tons de amarelo, cada vez mais pálidos, antes de finalmente se tornar da cor das estrelas.
Gina observou tudo isto em silêncio, o meu braço apoiando a com firmeza, a sua respiração ofegante e fraca. Quando o céu, por fim, escureceu e as primeiras luzes cintilantes começaram a aparecer no distante firmamento do sul, tomei a nos braços. Beijei lhe delicadamente ambas as faces e depois, por fim, os lábios.
É isto disse eu - exatamente o que sinto por ti.

Uma semana depois, as deslocações de Gina ao hospital tornaram se mais regulares, se bem que ela insistisse em não querer passar lá a noite. Quero morrer em casa - era tudo o que dizia. Dado que os médicos nada podiam fazer por ela, não tinham alternativa senão fazer lhe as vontades.
Pelo menos, por enquanto.

Tenho andado a pensar nestes últimos meses disse lhe.
Estávamos sentados na sala, de mãos dadas enquanto líamos a Bíblia. O seu rosto estava mais magro, o cabelo começando a perder o brilho. Os olhos, no entanto, aqueles meigos olhos azuis, estavam tão bonitos como sempre.
Penso que nunca antes vira alguém tão bonito.
Também tenho andado a pensar ao longo deste tempo retorquiu.
Tu sabias, desde o primeiro dia na aula de Miss Garber, que eu ia fazer a peça, não sabias? Quando olhaste para mim e sorriste?
Acenou com a cabeça.
Sabia.
E quando te pedi para ires comigo ao baile, fizeste me prometer não me apaixonar por ti, mas sabias que eu ia apaixonar me, não sabias?
Gina tinha um brilho travesso nos olhos.
Sim.
Como é que sabias?
Encolheu os ombros sem responder, e permanecemos alguns instantes a observar a chuva batendo contra as vidraças.
Quando te dizia que rezava por ti disse ela, finalmente - de que é que achas que estava a falar?


O avanço da sua doença continuava, acelerando à medida que se aproximava o mês de Março. Gina estava a tomar mais medicamentos para as dores e sentia se demasiado enjoada para conseguir segurar muita comida no estômago sem vomitar. Estava a enfraquecer, e tudo indicava que teria de ir para o hospital para ficar, apesar de ela não querer.
Foi o meu pai e a minha mãe que mudaram tudo isso.
O meu pai tinha vindo de carro de Washington, partindo a toda a pressa apesar de o Congresso estar ainda reunido em sessão. Parece que a minha mãe lhe telefonou dizendo lhe que se não viesse para casa imediatamente, podia ficar em Washington para sempre.
Quando a minha mãe lhe contou o que estava a acontecer, o meu pai disse que Arthur nunca aceitaria a sua ajuda, que as feridas eram demasiado profundas, que era tarde de mais para fazer fosse o que fosse.
- Isto não tem nada que ver com a tua família, ou até com o Reverendo Weasley, ou com o que quer que tenha acontecido no passado disse lhe ela, recusando se a aceitar a resposta dele. - Trata se do nosso filho, que, por acaso, está apaixonado por uma jovem que precisa da nossa ajuda. E tu vais encontrar uma maneira de a ajudar.
Não sei o que é que o meu pai disse a Arthur, ou que promessas teve de fazer, ou quanto é que a coisa toda acabou por custar. Tudo o que sei é que de um momento para o outro Gina se viu rodeada de equipamentos caros, foram lhe proporcionados todos os medicamentos de que precisava e era vigiada por duas enfermeiras a tempo inteiro enquanto um médico vinha examiná la várias vezes ao dia.
Gina iria poder ficar em casa.
Naquela noite, chorei ao ombro do meu pai pela primeira vez na minha vida.

Arrependes te de alguma coisa? perguntei a Gina. Estava na cama sob as cobertas, um tubo aplicado a um dos braços providenciava o medicamento de que precisava. Tinha o rosto pálido, o corpo leve como uma pena. Mal conseguia andar e quando o fazia tinha de ser apoiada por outra pessoa.
- Todos nós nos arrependemos de alguma coisa, Harry- disse ela mas eu tive uma vida maravilhosa.
- Como é que podes dizer isso? reclamei, incapaz de esconder a minha angústia. Com tudo o que te está a acontecer?
Ela apertou me a mão, muito levemente, sorrindo me com ternura.
Isto admitiu, olhando em volta do quarto podia ser melhor.
Apesar das minhas lágrimas, ri me, sentindo me logo culpado por o ter feito. Devia estar a apoiá la, não o contrário. Gina continuou.
Mas além disso, tenho sido feliz, Potter. Tenho mesmo. Tive um pai especial que me ensinou acerca de Deus. Posso olhar para trás e saber que não podia ter tentado ajudar mais as outras pessoas do que ajudei. Fez uma pausa e olhou me nos olhos. - Até me apaixonei e fui correspondida.
Beijei lhe a mão quando ela disse aquilo, depois encostei a à minha face.
Não é justo disse eu.
Ela não respondeu.
Ainda estás com medo? - perguntei.
Estou.

Também estou disse eu.
Eu sei. Sinto muito.
O que é que eu posso fazer? perguntei desesperado. Já não sei o que devo fazer.
Lês para mim?
Fiz que sim com a cabeça, não sabendo, no entanto, se seria capaz de chegar à página seguinte sem desatar a chorar.
Por favor, Deus, diz me o que fazer!
entanto, se seria chorar.

Estávamos sentados no sofá no escritório, o fogo ardendo na lareira diante de nós. Naquela tarde, Gina adormecera enquanto eu lia e, sabendo que ela precisava de descansar, saí silenciosamente do quarto. Mas antes de o fazer, beijei a com ternura na face. Foi um beijo inofensivo, mas Arthur entrara no quarto naquele momento, e senti emoções conflituosas nos seus olhos. Olhou para mim, sabendo que eu amava a sua filha mas também que eu quebrara uma das regras da sua casa, ainda que não verbalizadas. Se ela estivesse bem, sabia que ele nunca mais me teria autorizado dentro de casa. Dirigi me então sozinho à porta.
Na verdade, não o podia censurar. Descobri que o tempo que estava com Gina esvaziava me da energia para me sentir magoado com o comportamento dele. Se Gina me ensinara alguma coisa durante aqueles últimos meses, foi que era através dos atos não dos pensamentos ou das intenções que se julgavam os outros, e eu sabia que Arthur me deixaria entrar em sua casa no dia seguinte. Estava a pensar em tudo isto sentado no sofá ao lado da minha mãe.
- Mãe? disse mais tarde naquela noite.
- Sim.
Acha que temos um objetivo na vida? - perguntei.
Era a primeira vez que lhe fazia uma pergunta daquele gênero, mas aqueles eram tempos extraordinários.
Não tenho a certeza se percebo o que estás a perguntar disse ela, franzindo o sobrolho.
Quer dizer como é que se sabe o que se deve fazer?
Estás a falar me de quando estás com Gina?
Acenei que sim com a cabeça, embora estivesse ainda confuso.
Mais ou menos. Sei que estou a proceder bem, mas... falta alguma coisa. Passo o tempo com ela e conversamos e lemos a Bíblia, mas...
Fiz uma pausa e a minha mãe completou me o pensamento.
- Achas que deverias estar a fazer mais?
Acenei afirmativamente.
- Não sei se existe mais alguma coisa que possas fazer, querido - disse ela delicadamente.
- Então por que é que me sinto desta maneira?
Aproximou se um pouco mais de mim no sofá e olhamos para as chamas juntos.
- Penso que é porque estás com medo e sentes te impotente e, embora estejas a tentar, as coisas continuam a tornar se cada vez mais difíceis para os dois. E quanto mais tentas, mais inúteis parecem as coisas.
Há algum modo de fazer com que deixe de me sentir assim?
Abraçou me e puxou me para mais perto dela.

Não - respondeu baixinho não há.

No dia seguinte, Gina não conseguiu levantar se da cama. Como estava agora tão fraca, até para andar apoiada, lemos a Bíblia no seu quarto.
Adormeceu passados alguns minutos.

Passou se outra semana e Gina estava cada vez pior, o seu corpo mais enfraquecido. Presa ao leito, parecia mais pequena, quase como uma criança de novo.
Gina implorei que posso fazer por ti?
Gina, a minha querida Gina, dormia horas a fio agora, mesmo enquanto falava com ela. Não se mexia ao som da minha voz; a respiração era ofegante e fraca.
Sentei me ao lado da cama e fiquei a observá la durante muito tempo, pensando em como a amava. Segurei a mão dela junto ao meu coração, sentindo a magreza dos seus dedos. Parte de mim quis chorar ali mesmo mas, em vez disso, pousei de novo a sua mão na cama e voltei me para a janela.
Por que razão, questionei me, é que o meu mundo se havia subitamente desmoronado daquela maneira? Porque tinha tudo aquilo acontecido a uma pessoa como ela? Perguntei me se havia uma lição maior a tirar do que estava a acontecer. Seria tudo, como diria Gina, simplesmente parte dos desígnios de Deus? Quis Deus que me apaixonasse por ela? Ou foi isso resultado da minha livre vontade? Quanto mais tempo Gina dormia, mais sentia a sua presença a meu lado e, no entanto, as respostas àquelas perguntas não eram mais claras do que antes.
Lá fora, as últimas gotas de chuva da manhã tinham caído. Parecia que ia ser um dia escuro, mas naquele momento o sol do fim de tarde estava a romper por entre as nuvens. No fresco ar primaveril, vi os primeiros sinais da Natureza regressando à vida. As árvores lá fora estavam a brotar, as folhas esperando pelo momento certo para se desenrolarem e se abrirem para mais outra estação estival.
Na mesa de cabeceira ao lado da cama, vi a coleção de objetos que Gina conservava mais perto do coração. Havia fotografias do pai, segurando a quando era ainda criança, no seu primeiro dia no jardim de infância; havia uma coleção de cartões que as crianças do orfanato lhe haviam mandado. Suspirando, peguei neles e abri o cartão que estava no topo da pilha.
Escrito a lápis, dizia simplesmente:

Por favor fica melhor depressa. Tenho saudades tuas.

Tinha sido assinado por Lydia, a menina que adormecera ao colo de Gina na véspera de Natal. O segundo cartão expressava os mesmos sentimentos, mas o que realmente me chamou a atenção foi o desenho que o rapaz, Roger, tinha feito. Tinha desenhado um pássaro, voando sobre um arco íris.
Contendo as lágrimas, fechei o cartão. Não suportava olhar mais, e quando coloquei de novo a pilha sobre a mesa, reparei num recorte de jornal, ao lado do copo de água. Peguei no artigo e vi que era sobre a peça de Natal, publicado no jornal de domingo depois da segunda representação. Por cima do texto, vi a única fotografia que nos tinha sido tirada.

Parecia há tanto tempo. Aproximei o artigo de mim. Enquanto o observava, lembrei me da maneira como me senti quando a vi naquela noite. Olhando de perto para a sua imagem, procurei algum sinal de que ela suspeitasse do que iria acontecer. Sabia que sim, mas a sua expressão naquela noite nada revelava. Em vez disso, via apenas uma alegria resplandecente. Por fim, suspirei e pus o recorte de lado.
A Bíblia estava ainda aberta na página onde eu interrompera a leitura e, apesar de Gina estar a dormir, senti necessidade de ler mais um pouco. Acabei por descobrir outra passagem. Era isto que dizia:

Não digo isto como quem manda. mas para provar; comparando a à dos outros, a sinceridade do vosso amor.

As palavras trouxeram me as lágrimas de novo e, no momento em que ia começar a chorar, o seu significado tornou se me subitamente claro.
Deus tinha, finalmente, respondido à minha pergunta e, de repente, soube o que tinha a fazer.

Não podia ter chegado à igreja mais depressa, mesmo de carro. Meti por todos os atalhos possíveis, atravessando a correr os quintais das casas, saltando cercas, e atravessando uma garagem, e saindo pela porta do lado. Tudo o que aprendera sobre a cidade quando criança foi aproveitado naquele momento, e apesar de nunca ter sido grande atleta, naquele dia estava imparável, impelido pelo que tinha de fazer.
Não me preocupei com o aspecto que teria quando lá chegasse porque suspeitava que Arthur também não se importaria. Quando entrei, por fim, na igreja, reduzi o passo, tentando recuperar o fôlego enquanto me dirigia para as traseiras, na direção do seu gabinete.
Arthur olhou para cima quando me viu e percebi por que é que ele ali estava. Não me convidou a entrar, desviou simplesmente o olhar, mais uma vez em direção à janela. Em casa, lidava com a doença da filha fazendo limpezas e arrumações quase obsessivamente. Ali, porém, os papéis estavam espalhados pela secretária, os livros dispersos pelo gabinete como se ninguém o tivesse arrumado há semanas. Percebi que aquele era o lugar onde ele pensava em Gina; aquele era o lugar para onde Arthur vinha chorar.
Reverendo? - chamei baixinho.
Não respondeu, mas entrei de qualquer modo.
- Gostaria de estar sozinho resmungou.
Estava com um aspecto velho e exausto, tão estafado como os israelitas descritos nos Salmos de David. Tinha o rosto caído, e o cabelo tornara se mais ralo desde Dezembro. Até mais do que eu, talvez, ele tinha de manter o ânimo na presença de Gina, e a tensão que isso provocava estava a esgotá lo.
Fui direito à sua mesa, e ele olhou me de relance antes de se voltar de novo para a janela.
Por favor disse me, num tom derrotado, como se nem tivesse forças para me confrontar.
Gostaria de falar consigo insisti. Não o incomodaria se não fosse muito importante.

Arthur suspirou, e eu sentei me na cadeira onde me tinha sentado antes, quando lhe perguntara se ele me deixaria levar Gina a jantar fora na véspera do Ano Novo.
Escutou me enquanto eu lhe disse o que tinha em mente.
Quando terminei, Arthur virou se para mim. Não sei o que estava a pensar, mas felizmente não disse que não. Em vez disso, limpou os olhos com os dedos e voltou se para a janela.
Até ele, penso eu, ficara demasiado chocado para poder falar.

Corri novamente, mais uma vez sem me cansar. O meu objetivo dava me a força de que precisava para continuar. Quando cheguei a casa de Gina, entrei de rompante pela porta sem bater, e a enfermeira que estava no quarto dela veio cá fora ver o que causara aquele rebuliço. Antes que ela pudesse falar, falei eu.
Ela está acordada? perguntei, eufórico e apavorado ao mesmo tempo.
Está respondeu a enfermeira cautelosamente. Quando acordou, quis saber onde você estava.
Pedi desculpa pelo meu aspecto desalinhado e agradeci lhe. Depois perguntei lhe se não se importava de nos deixar a sós. Entrei no quarto de Gina, encostando a porta atrás de mim. Ela estava pálida, muito pálida, mas o seu sorriso deixou me perceber que ainda continuava a lutar.
Olá, Harry disse ela, a voz fraca - obrigada por teres voltado.
Peguei numa cadeira e sentei me perto dela, tomando a sua mão na minha. Vê la ali deitada fez me sentir alguma coisa a apertar se com força no fundo do meu estômago, fazendo quase com que me apetecesse chorar.
Estive aqui mais cedo, mas estavas a dormir.
Eu sei... Desculpa. Parece que já não consigo evitá lo.
Não faz mal, de verdade.
Ergueu ligeiramente a mão de cima da cama, e eu beijei a, depois inclinei me para a frente e beijei lhe a face também.
Amas me? perguntei lhe.
Ela sorriu.
Sim.
Queres que eu seja feliz? - Enquanto lhe fazia a pergunta, senti o coração começar a acelerar.
Claro que quero.
Fazes me um favor, então?
Ela desviou o olhar, a tristeza atravessando lhe as feições.
Não sei se ainda consigo.
Mas se pudesses, fazias?
Não consigo descrever satisfatoriamente a intensidade daquilo que estava a sentir naquele momento. Amor, raiva, tristeza, esperança e medo, redemoinhando juntos, aguçados pelo nervosismo que sentia. Gina olhou curiosa para mim, e a minha respiração tornou se mais fraca. De repente, sabia que nunca sentira tanto por uma pessoa como naquele momento. Enquanto a olhava nos olhos, a simples compreensão desse fato fez me desejar pela milionésima vez poder fazer com que tudo aquilo cessasse. Se tivesse sido possível teria dado a minha vida pela dela. Queria falar lhe dos meus pensamentos, mas o som da sua voz silenciou subitamente as emoções dentro de mim.
- Sim - respondeu por fim, a voz fraca mas de alguma forma ainda cheia de esperança. - Fazia.

Controlando me por fim, beijei a de novo, depois levei a minha mão ao seu rosto, passando ternamente os dedos pela sua face. Maravilhei me com a suavidade da sua pele, a doçura que vi nos seus olhos. Mesmo naquele momento, ela era perfeita.
Comecei de novo a sentir um nó na garganta, mas como disse, sabia o que tinha de fazer. Já que tinha de aceitar que não estava ao meu alcance poder curá la, o que queria era dar lhe algo que ela sempre desejara.
Era o que o meu coração me dissera para fazer há muito tempo.
Gina, compreendi então, já me tinha dado a resposta de que estivera à procura, que o meu coração precisara de encontrar. Dera me a resposta quando estávamos sentados à porta do escritório de Mr. Jenkins, na tarde em que lhe fomos falar da peça para os órfãos.
Sorri ternamente, e ela retribuiu o meu afeto apertando me levemente a mão, como se confiasse em mim e no que eu estava prestes a fazer. Encorajado, inclinei me para mais perto dela e respirei fundo. Foram então estas as palavras que saíram de dentro de mim.
- Casas comigo?



Penúltimo capitulo. Esse ta enorme e é um dos mais triste também

Bruna é esse mesmo, TUDO POR UM BEIJO de Diana Palmer, casais principais Harry e Gina. Já adaptei inteira, esta com minha beta, porque do jeito que havia baixado havia muitos erros, e por segurança mandei para ela.

Amanha posto o último
acho que semana que vem já posto a nova adaptação
Bjokas a todos

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