Vergangenheitsbewältigung



A pálida luz da manhã de outono, cujo sol tímido ainda lutava uma vencida batalha contra as pesadas nuvens escocesas, fora o suficiente para que os olhos de Bellatrix tivessem que se adaptar ao se abrirem. A bruxa, porém, em meio a seu estado levemente entorpecido após todos os acontecimentos que antecederam aquela manhã, agradeceu pelo desconforto ser tão sútil e durar tão menos tempo do que o esperado.



Durante o reduzido tempo em que ela encontrou-se cega pela luz, a mulher tateou a cama a seu redor e assustou-se ao encontrá-la vazia. Por um décimo de segundo, ela temeu ter imaginado a coisa toda. Porém, quando seus olhos se ajustaram finalmente e ela reconheceu o espaço a seu redor, um sorriso aliviado agraciou seus lábios estranhamente secos após o veneno.



— Madame Pomfrey nos alertou que você teria esse tipo de problema, por alguns dias. — a voz vinda da porta do quarto, e que ela reconheceria a qualquer hora do dia ou a qualquer distância, foi ainda mais reconfortante. Os passos dele tiraram dela qualquer vontade de se mover para olhar na direção da porta. Displicentemente, ela estendeu uma de suas mãos na direção de onde Voldemort vinha, e suprimiu um suspiro de alívio ao sentir os dedos longos dele entrelaçarem-se com os seus, a cama movendo-se com o peso dele ao sentar ao seu lado. — Você deveria comer. — ele beijou onde a raiz dos cabelos dela encontravam sua testa, encontrando a pele dela ainda mais quente do que ele poderia esperar. — Seu corpo ainda está expulsando o veneno, — ele balançou um frasco entre os dedos e ela franziu o cenho sonolenta. — e Pomfrey diz que você terá de tomar isso ainda por alguns dias. — Bellatrix assentiu e aninhou-se contra a lateral do corpo dele, vendo aos pés da cama a bandeja de comida a que ele provavelmente se referia.



— O que disse a eles? Sobre eu estar aqui, já que concordamos falar sobre isso só depois de expormos o culpado…



—  Questões de segurança. — ele deu de ombros, com simplicidade. — Depois de tudo o que aconteceu, ninguém iria me contrariar…



Bellatrix assentiu sonolenta e suspirou ao constatar que não teria como escapar o incômodo que assolava seu corpo inteiro, mas ela não se arrependeria de tudo o que fizera após escapar daquela enfermaria. O café da manhã aos pés da cama parecia apetitoso demais para ser ignorado, mesmo em seu corrente estado, e ela decidiu criar coragem para se sentar e, engatinhando pela cama, se aproximar da bandeja.



— Devo perguntar como conseguiu isso? — ela perguntou, segurando um morango entre os dedos e observando como Voldemort ajeitou-se recostado à cabeceira da cama.



Os olhos vermelhos do homem despudoradamente deixaram-se seguir as curvas do corpo ainda nu dela, parando em alguns pontos para perceber como este reagira ao frio, a pele arrepiando-se ao primeiro contato com o ar quando as cobertas ficaram de lado, os mamilos endurecendo-se quase imediatamente, enquanto ela displicentemente comia, não deixando transparecer qualquer incômodo fosse com a temperatura ou com a dor que sua mente a traía ao revelar. Algo dentro dele revirou-se com aquele pensamento, o sangue a borbulhar quase sendo o suficiente para distraí-lo da visão a sua frente. Pirrageando, ele decidiu deixar os pensamentos homicidas que tomavam conta de si para um momento mais propício, uma vez que ele asseguraria que não escaparia a chance vingança.



— Temo que conseguiria qualquer coisa nessa escola nos próximos dias, — ele respondeu, casualmente, enquanto ela bebia do chá e assentia. — com tudo o que aconteceu. Principalmente se disser que é para você. — os lábios dela se curvaram em um sorriso contra a porcelana da taça. — Afinal de contas, estamos falando da mulher responsável pelo fim da guerra… e a rainha que todos eles pediram.



— Isso explica porque eu fui o alvo. — Bellatrix comentou com simplicidade, arrependendo-se imediatamente ao ver a expressão dele se fechar. — Digo, hm, porque deve ser muito incômodo para pessoas como Potter e Longbottom ver essa reação popular a mim…



Lambendo os lábios e, pela primeira vez desde que ela saíra de debaixo das cobertas, desviando o olhar para o próprio colo, Voldemort negou com a cabeça. — Nós dois sabemos que esse não foi o motivo, Bella, sejamos francos. Por mais que isso tudo lhes dê asco, a verdade é bem diferente: Potter, ou seja quem for que ele mandou, fez isso para me atingir. Não foi um ato político, foi um ataque pessoal, destinado somente a me ferir, pelo caminho mais certeiro e rápido. Ou uma dos dois caminhos, é claro. O mundo sabe que você e Melinda são a maneira mais simples de me atingir… — ele soou cansado.



— E é por isso que passou anos pregando que o amor era uma fraqueza, — Bellatrix engoliu seco, e forçou mais chá garganta abaixo. — e cada vez mais me parece que não estava errado.



Voldemort voltou a encará-la, curioso com a reação dela, que continuava a comer calada, resignada com seus próprios pensamentos por mais dolorosos que fossem. Admirava aquela Bellatrix, que passara por Azkaban, por mais dor e decepção do que qualquer um poderia aguentar na vida, que virara as costas para a própria vontade e dignidade com muito mais frequência do que deveria, moldada por muito mais sofrimento do que alegrias até chegar à mulher que estava a sua frente, conformada com como a felicidade podia ser agridoce e confirmar seus medos.



Largando o vidro com a poção na cama a seu lado, Voldemort inclinou-se para frente e fechou os dedos ao redor do tornozelo de Bellatrix, que acabara de deixar a xícara lado, esquecida na bandeja, e puxá-la de uma vez em sua direção. A mulher, absorta em seus próprios pensamentos, só percebeu o que ele estava fazendo quando era tarde demais, e soltou um grito de surpresa quando, deixando-se render às risadas, suas costas deram de encontro ao colchão e o peso dele cobriu seu corpo.



— Em que posso lhe servir? — ela perguntou, em meio às risadas, um morango ainda preso entre seus dedos.



— Em nada. — os dedos dele arrumaram os fios de cabelo bagunçados de Bellatrix, que o encarava em um misto de diversão e curiosidade, a consternação de antes quase completamente enterrada em sua mente. — Só queria deixar algumas coisas claras.



— Sou toda ouvidos, majestade. — Bellatrix respondeu séria, ainda que suas pernas tivessem confortavelmente se ajustado ao redor do quadril dele.



— Voltamos às formas de tratamento, vossa graça? Não sei o quão adequadas à situação elas são, mas se preferir...



“Vossa Graça”? O que aconteceu com o ‘majestade’? — ela perguntou, franzindo o cenho, numa clara referência às diversas ocasiões na noite anterior em que ele se referira a ela já como rainha.



— O ‘majestade’ não pode se tornar um hábito até contarmos a todos, minha cara, e não se esqueça que ainda preciso te coroar…



— E se casar comigo…



— Não necessariamente nessa ordem, mas chegaremos lá, majestade. — Voldemort beijou os lábios dela rapidamente, sentindo os dedos levemente febris de Bellatrix tocarem seu pescoço em resposta, displicentemente brincando com a região, com uma naturalidade que seria dolorosa se não fosse tão incrível. - Agora…



— Você queria deixar coisas claras, sim… — ela mordeu o morango que estava em sua mão, falhando miseravelmente em parecer séria.



A expressão que tomou conta do rosto dele em seguida, contudo, foi o suficiente para tirar o tom de brincadeira da conversa: uma mistura de seriedade com preocupação que fazia com que Bellatrix quisesse se esconder e abraçá-lo na mesma intensidade.



— Milorde?



— Você está certa, — ele começou — sobre como as coisas são indiscutivelmente mais complicadas agora. — Bellatrix respirou fundo e assentiu. — No passado, eu me afastei de tudo e busquei não ter nada que fosse precioso o suficiente para mim a ponto de poder ser usado como arma. Pelo menos não coisas que as pessoas soubessem da existência… — como as horcruxes, ela entendeu. — Na noite passada, ficou muito claro o poder que você e Melinda têm de me ferir, a forma como perder vocês duas me destruiria. E não vou negar que fugi disso minha vida toda, Bella, seria mentiroso. Quando nossa filha nasceu, eu jamais imaginei que a amaria como amo, e por Merlin se há vinte anos meu eu da época soubesse o que você faria com ele… — ele riu-se, e Bellatrix pareceu envergonhada. — Com certeza não estaríamos aqui, e a Melinda nunca teria nascido, mas em toda minha arrogância ignorei todos os avisos e sinais de que terminaríamos exatamente nesse lugar.



— Lorde Voldemort admitindo arrogância e amor na mesma frase? Quem é você? — ela brincou, tentando amenizar o clima, e ele rolou os olhos.



— É conhecido como amadurecimento, me parece, é um conceito novo. Deveria aprender, minha cara, mas é um processo muito doloroso… Aceitar que nem tudo está sob meu controle não foi exatamente confortável. Digo, quem poderia imaginar que Lily Potter de todas as pessoas seria a responsável por me fazer encarar minha própria inevitável humanidade e essas verdades que jamais serão admitidas a ninguém além de você, é claro. — Bellatrix deixou-se sorrir e acariciou o pescoço dele, recebendo um beijo no pulso como resposta. — Meu ponto sendo: sim, eu estava completamente certo em me afastar de tudo, e minha vida seria infinitamente mais simples daquela forma. Amor é uma fraqueza, por definição, porque parte da sua felicidade está colocada em outras pessoas e, quando se é poderoso como eu, todos a quem você ama se tornam alvos, mas nós aprenderemos a lidar com isso como estamos aprendendo com todo o resto.



— Sinto muito… — ela respondeu, sincera e tentando não demonstrar tristeza. — Que tenhamos complicado as coisas… ainda mais nesse momento, em que tudo está como deveria ser, tudo o que menos precisava era mais uma preocupação.



— Ah, minha cara, mas é aí que está a contradição que eu nunca entendi e fui forçado a ver. — ele sorriu, e ela franziu o cenho. — Sendo uma pessoa que já viveu nos dois mundos, eu passaria pela dor e pela preocupação todos os dias se fosse para ter uma fração da felicidade que senti ontem. — Bellatrix esqueceu como respirar por um segundo, e esperou-o terminar. — Ter tudo o que eu sempre quis me enche de alegria, é claro, mas ter tudo isso e vocês duas ao mesmo tempo é completamente diferente… Como se todas as peças estivessem alinhadas, finalmente, nada falta, nada parece raso ou insuficiente. Ainda tenho muito a conquistar, mas eu sei que por mais que aumentem minhas preocupações, conseguirei tudo com muito mais facilidade com vocês duas ao meu lado.



— Porque sabe que jamais estará sozinho, mesmo quando as coisas derem errado. — ela assentiu, segurando o rosto dele entre as mãos. — Nós duas sempre estaremos lá para te ajudar a colocar as coisas nos eixos de novo e muito mais rápido.



— O que fazer? Eu posso ser extremamente genial, mas três gênios ainda ganham de um…



— Modéstia também não chegou no pacote Lily Potter?



— Falsa modéstia? Jamais. — ele piscou, e ela mordeu o lábio para não rir. — Em resumo: te amar nunca será algo de que eu me arrependerei, minha cara. — Bellatrix o beijou, antes que ele pudesse adicionar algo, suas mãos explorando o peito e as costas dele, tentando cegamente se livrar da malha de lã que ele usava e irritantemente o cobria até a metade do pescoço.



As mãos de Voldemort agarraram as laterais do corpo dela com força, a pressão muito perto de machucar seu corpo ainda sensível, mas ela não tentaria esconder como aquela reação a satisfizera, suas mãos e pernas puxando o homem ainda mais contra si, enquanto seus lábios se abriam para permitir que a língua dele encontrasse a sua. Finalmente, o frio no quarto, causado pela lareira que se apagara durante o sono dela, não parecia importar mais.



Bellatrix teria gemido em reprovação quando ele partiu o beijo, deixando-a ofegante e ávida, se ele não tivesse levado seus beijos consigo para o pescoço e clavícula dela, por entre seus seios e abdômen, numa trilha incandescente que acordava cada sentido do corpo da bruxa, fazendo-a esquecer qualquer coisa que não fossem os dois e aquele quarto. As mãos dela se agarravam na cama, aproveitando em delirante desespero a calma com que ele explorava seu corpo com os lábios e língua, as mãos experientes tocando os pontos que sua boca negligenciava ou deixava. Parte dela queria implorar para que ele não parasse de descer com seus lábios, que se perdesse de uma vez entre suas coxas e acabasse com a tensão que crescia como lava derretida dentro dela, mas outra parte dela queria aproveitar cada segundo daquela deliciosa tortura, que ela secretamente desejava que não precisasse terminar.



— Por Merlin, eu te amo… — ela suspirou, a voz sussurada e quase inaudível, quando os dentes dele mordiscaram logo abaixo do umbigo dela, uma de suas mãos trabalhando habilidosamente em seus seios.



— Eu sei. — ele respondeu, com a língua acalmando e incendiando novamente a região da mordida e, de repente, parou e se afastou.



Igualmente admirando a capacidade de controle dele, e odiando-o por ter parado, ela o encarou e viu que ele segurava o frasco de poção que ele havia deixando sobre a cama segundos antes. O antídoto que ela precisava tomar.



— E eu te odeio.



— Eu também sei disso. — Ele sentou-se na cama, e observou-a fazer o mesmo, mas não sem antes pegar o frasco de suas mãos. — Para me amar ou me odiar, no entanto, precisa estar viva. — Bellatrix arrancou a rolha que fechava o frasco e bebeu de uma só vez todo conteúdo amargo, largando o frasco vazio atrás de si.



— Satisfeito? — ela levantou uma sobrancelha e Voldemort deu de ombros, observando a aproximação da mulher e tentando não transparecer nenhuma reação, por mais que temesse que seu próprio corpo o estivesse traindo.



Assistir a uma Bellatrix completamente nua, com os cabelos ainda bagunçados da noite anterior, o rosto enrubescido pela provocação de minutos antes, engatinhar na sua direção, com a intenção tão clara em seu rosto quanto estava em sua mente, de não permitir que ele deixasse aquela cama, muito menos aquele quarto, sem tomá-la mais uma vez, era mais do que o suficiente para tirá-lo de qualquer eixo que pudesse ter tido. O fato de que tudo aquilo acontecia em Hogwarts era apenas mais um detalhe na grande lista de coisas que o excitavam na situação.



— Não sei se satisfeito seria a palavra, mas não vou reclamar. — ele respondeu, enquanto ela se apoiava as mãos nos ombros dele para sentar-se de frente para ele em seu colo. — E você deveria descansar…



— Eu vou descansar, só que depois… Agora tenho outros planos. — os dedos dela brincaram com o fim da gola alta que ele usava, afastando a lã para tocar sua pele.  — Que envolvem o conceito de satisfação. E considerando que fui eu quem nos privou por tantos meses, pretendo remediar esse erro. — a outra mão dela tocou-o despudoradamente por cima das calças, seguindo a ereção que se formava com as pontas dos dedos.



Voldemort fechou os olhos por um momento, e deixou a respiração mudar de ritmo sob os toques habilidosos de Bellatrix. Ele devia, provavelmente, sair dali e deixá-la descansar, mas a necessidade que tinha de atender àquele pedido específico e fazê-la gritar era mais forte do que ele. Ela queria, e teria.



Os dedos dela acharam o fecho da calça e abriram-na para tocá-lo diretamente e acabar com a torturante sensação de que elas haviam se tornado apertadas demais sob o toque de Bellatrix, e ela mordeu o lábio de uma maneira que ele só podia descrever como obscena ao perceber que ele já estava duro como pedra em sua mão.



— Sua culpa…



— Culpada com todo o prazer, Majestade. — ela respondeu, com a respiração mais ofegante do que ela geralmente gostaria de transparecer, não que estivesse prestando atenção com ele tão pronto em sua mão, maxilar cerrado para tentar manter o controle e ainda assim sendo traído pelo próprio corpo que fazia com que uma de suas mãos agarrasse o lençol ao lado deles.



Pressionou os lábios contra os dele, abrindo-os para deixar que a língua dele invadisse sua boca e tomasse conta com a mesma voracidade com que ele subitamente agarrou os cabelos dela. Por mais que ela usasse tudo de si para encontrá-lo no limiar, igualar-se a ele, acabava rendendo-se ao inevitável deleite que ser finalmente subjugada por ele nunca falhava em trazer. Impossivelmente duro em sua mão, Voldemort descontava nela toda a tensão e necessidade de libertação que sentia, como sempre orgulhoso demais para deixar-se dominar pelo prazer rápido demais, nunca antes de fazê-la gritar. E, por Merlin, ela não reclamaria, o mero pensamento daquilo era explicação o suficiente para o quão vergonhosamente molhada ela já estava. E, ainda que os efeitos da noite anterior continuassem sendo sentidos com clareza, tudo o que ela mais queria era tê-lo novamente dentro de si e apagar, mesmo que momentaneamente, o fogo que tomava conta de seu corpo.



Voldemort não se incomodou em usar sua energia para evitar o som que saiu de seus lábios, ainda que abafado pelos dela, quando Bellatrix guiou-o diretamente para sua entrada e abaixou-se lentamente, deixando-o preenchê-la aos poucos, seu corpo tensionando acima do dele com a sensação.



Quebrando o beijo para gemer baixo, quase que somente para si mesma, quando ele finalmente estava inteiro dentro dela, o toque aveludado e impossivelmente quente dela contra seu membro sensível sendo torturante enquanto ela permanecia parada, Bellatrix fechou os olhos e tirou os cabelos do próprio rosto com uma mão, enquanto a outra fechava-se com força contra o ombro de Voldemort. Engolindo seco, o homem fechou uma de suas mãos ao redor do pescoço dela, sem aplicar força, apenas mantendo-na ali. No fundo de sua mente, ele admitiria que seu receio vinha de como aquela ação imitava os acontecimentos da última vez em que estiveram em Hogwarts, mas cobrindo toda aquela linha de pensamento estavam todos os xingamentos que ele dirigia àquela maldita mulher que era tão maravilhosamente capaz de transformar tudo o que fazia em algo absurdamente afrodisíaco.



Contrariando os receios do Lorde, e confirmando todos seus pensamentos sobre sua devassidão natural, Bellatrix abriu os olhos imediatamente ao sentir os dedos dele ao redor de sua garganta, mas temor era a última coisa que eles demonstravam, o verde já quase não existente com as pupilas brutalmente dilatadas. Mordendo o lábio inferior, ela se apoiou também no outro ombro dele e ergueu-se com a mesma insuportável lentidão de antes, em clara provocação.



— Você não tem a mínima noção do que faz comigo, ou tem? — ele perguntou, os dedos tentativamente aplicando uma quantidade mínima de força, quando ela finalmente parou ajoelhada, somente com a ponta do membro do Lorde ainda dentro de si.



— Talvez eu tenha… — ela lambeu os lábios, e tocou o pulso dele com as unhas. — Ou talvez tenha que me mostrar. — e, sem aviso, ela sentou novamente, de uma só vez, gemendo em uníssono com um surpreso Voldemort.



Os olhos do Lorde se fecharam momentaneamente com o susto do que acabara de acontecer, e com a enxurrada de sensações que se apoderou de seu corpo em poucos segundos. Quando eles se abriram, contudo, Bellatrix teve uma suspeita de que ele mostraria aquilo e muito mais, que foi então confirmada pela agressiva e deliciosamente dolorosa forma com que ele usou sua mão livre para agarrar sua cintura violentamente, os dedos deixando marcas que perdurariam por dias. Ao sentir-se ser puxada para cima pelo pescoço e cintura, somente o suficiente para dar a Voldemort algum espaço, Bellatrix deixou-se gemer em antecipação pela estocada firme e descomedida que não a decepcionou segundos depois, acordando cada nervo de seu corpo no ímpeto de forçar-se ainda mais contra ele, quando Voldemort forçou o quadril para cima e a puxou novamente para baixo, em seu encontro. Ela havia pensado que ele a faria gritar ainda naquela manhã, e a prévia que estava tendo sobre a verdade em seus pensamentos era o suficiente para saber que agradeceria os feitiços silenciadores que ele aplicara no quarto, ou Hogwarts inteira saberia da verdade antes da hora.  





 



    O calor vulcânico do ódio de Melinda podia ser sentido a metros de distância da Princesa, que andava de um lado para o outro da antiga Mansão Riddle, tirando tanto Oliver quanto Draco do sério - por mais que nenhum dos dois tivesse a coragem de confrontá-la. Durante as horas em que os três ali haviam estado, junto com dezenas de pessoas pertencentes à guarda real distribuídas aleatoriamente no perímetro da mansão, a princesa já tentara todos os feitiços que conhecia para abrir as portas e terminar com o confinamento que tanto lhe afligia.



— Mel… — Draco ainda tinha a audácia de tentar algo, enquanto Oliver se contentava em ficar o mais longe possível da enfurecida garota.



A forma lenta como a garota se virou, cerrando os punhos e travando o maxilar, e se aproximou deles foi o suficiente para que ambos se arrependessem de sequer estar ali. Eles esperavam que Voldemort tivesse algum tipo de recompensa por expô-los àquele tipo de perigo, mesmo que não admitissem e soubessem que a probabilidade era extremamente baixa. Afinal, o trabalho de Oliver era proteger Melinda, fosse de forças externas ou dela mesma. E, Draco, bem… não tinha exatamente o melhor relacionamento com o sogro no passado recente, e era o consorte de Melinda. Se tinha alguém que tinha que conseguir lidar com ela, esse alguém era Draco Malfoy.



— Não se atreva a começar. — ela avisou, apontando na direção do namorado, que levantou-se e cruzou os braços. — Ou a dizer que eu devo fazer isso ou aquilo. — ela tirou a saia do vestido de festa, que infelizmente ainda vestia e a atrapalhava, com a mão livre para poder se aproximar mais rapidamente. — Eu não vou me acalmar, enquanto eu não sair daqui.



— Você tem ordens para não sair daqui. — Draco retrucou, e Melinda cerrou os olhos em resposta, ao passo que Oliver cobria o rosto num início de desespero. — E não me olhe assim, pode ser a Herdeira e Princesa adorada, mas todos nós ainda respondemos a ele. Olhe bem para o seu braço, caso esteja se esquecendo. O Lorde das Trevas ordenou que você ficasse aqui até segunda ordem, e é isso que você vai fazer, Melinda, goste disso ou não. Nem todas as ordens que ele dá são confortáveis, amor.



Melinda abriu e fechou os lábios algumas vezes, ignorando o olhar horrorizado de Oliver e a impaciência de Draco à sua frente, e calou-se por fim, deixando-se cair sentada em uma cadeira e fechar os olhos cansados. Ao fundo de sua mente, ouviu Draco pedir a Oliver que os deixasse sozinhos e, a julgar pelos passos rápidos que se seguiram, seu cavaleiro não hesitou. Não era como se ela estivesse em perigo algum naquela casa trancafiada com duas das poucas pessoas que nunca a machucariam. O toque calmo e confortável das mãos do loiro, envolvendo as suas, fez com que ela abrisse os olhos e o encontrasse ajoelhado à sua frente.



— Eu sei que é horrível essa sensação de impotência, e que você é infernalmente poderosa demais para se deixar ser protegida, mas estamos numa situação complicada. Sua mãe foi envenenada dentro de Hogwarts, num claro ataque ao seu pai. Imagina o que fariam se chegassem a você? Oliver e eu não estamos aqui porque somos mais capazes do que você, ou porque seu pai pensa isso, Mel, e você sabe disso. Por mais teimosa que seja, sabe muito bem que nós dois e os setenta homens e mulheres ao redor dessa casa somos somente distrações. Estamos aqui para morrer no seu lugar, atrasar quem quer que seja para que você possa se preparar ou fugir, e levar conosco quantos conseguirmos. Essas são nossas ordens. — Melinda engoliu seco e apertou as mãos dele, assentindo. — Assim como as suas ordens são para não morrer de forma estúpida, ou para provar um ponto. Você não é você, é o futuro de um país e um ideal. Você se tornou um símbolo, Melinda, e ganhou um alvo nas costas como preço por todas as coisas maravilhosas que também recebeu.



— Eu não sei mais o que é maravilhoso e o que não é, Draco… — Melinda confessou, lambendo os lábios e fitando o próprio colo envergonhada. — É tudo incrível, é claro, nós vencemos e o mundo é finalmente nosso para conquistar, mas… Eu sinto como se fosse explodir, sendo tão inútil! Eu fui concebida como herdeira, sim, mas fui criada como arma… Arma numa guerra que não mais existe, e meu propósito agora é sorrir e acenar! E, na primeira chance que eu tenho de fazer algo, de ajudá-los a encontrar quem fez aquilo, sou trazida para cá e escondida do mundo.



— Mel, você parece se esquecer do quanto ajudou quando estava escondida, no passado. — Draco tocou o queixo dela e fez com que ela o encarasse. — Quando Dumbledore estava vivo, antes dele descobrir, e tão poucas pessoas sabiam quem você era. Se for pra dizer algo, você passou mais tempo sorrindo e acenando do que lutando e conspirando. E é evidente que é muito mais frustrante essa posição, mas eu sei que ela é temporária. Seu pai é uma criatura da batalha, como você, ele tira prazer de utilizar seu poder. Quanto tempo você acha que ele vai se manter sem expandir? E nem todas as expansões se fazem na diplomacia. E, mesmo a diplomacia, pode ser um caminho interessante no seu futuro, porque nada mais é do que uma batalha velada. Agora, por enquanto, nada disso é possível…



— Porque estamos consolidando poder… — admitiu. — E eu sou a única sem um passado e lendas sobre mim. — ela suspirou frustrada. — Eu sou a humanidade dele, eu sei de tudo isso. Só não estou conseguindo lidar e nem muito menos tenho coragem de questionar meu pai sobre isso…  



— Pois talvez devesse. Depois que tudo isso sobre sua mãe passar, é claro. Quem sabe ele não te dá alguns deveres que não sejam sorrir e acenar e dançar com políticos? — Draco levantou e estendeu-lhe a mão. — Mas agora você pode, por favor, descansar? Você está de pé há horas…



— Você quer dizer desde que acordei do feitiço que vocês dois jogaram em mim? — Melinda arqueou a sobrancelha, mas mesmo assim pegou a mão do namorado com um sorriso. — Que seja, um banho e roupas confortáveis não me farão mal, talvez o tempo passe até mais rápido. — ela se levantou.



Draco sorriu de volta e, por alguns segundos, pareceu considerar se vociferar seus pensamentos era uma boa ideia. Depois de tudo o que ele já havia dito, não era como se fosse fazer muita diferença. Ela podia estar com toda a raiva do mundo, mas ele conhecia Melinda bem o suficiente para saber que ela não negaria certos tipos de proposta.



— Em primeiro lugar, eu gostaria de reforçar que não tive nada a ver com o feitiço. — ele piscou, e Melinda rolou os olhos, observando com interesse a aproximação do loiro, que encaixara uma de suas mãos na nuca dela.  



— Sei… E em segundo lugar?



— Tenho certeza de que poderia fazer esse banho ser ainda mais relaxante, se vossa alteza permitir. — a mão que antes estivera na nuca de Melinda movera-se na direção do maxilar da bruxa, e em seguida tocou seus lábios.



Os olhos verdes da garota traíram-na, caindo imediatamente na direção dos lábios do namorado, que não esperou nenhum outro tipo de resposta para beijá-la firme e intensamente, invadindo os lábios da jovem com a língua sem delongas, segurando-a pela cintura e nuca, sem dar-lhe muito espaço para fugir ou mudar de ideia. Melinda, mesmo que desconhecendo os temores do loiro naquele exato momento, com sua Legilimência deixada para o descanso naquela tão estressante manhã, tranquilizou qualquer medo que Draco pudesse ter ao agarrar o tecido da camisa semi aberta que ele usava e puxá-lo em sua direção, respondendo a seu beijo com a mesma intensidade e um toque de raiva que fazia tudo ainda mais estimulante.



Deslizar os dedos que estavam na nuca para o cabelo de Melinda, puxando-os somente o suficiente para fazê-la gemer entre o beijo, foi um desenvolvimento natural para Draco, que já considerava o lindo vestido de festa um empecilho extremamente irritante àquele ponto. Puxando as diversas camadas de saia para cima com pressa, tentando esconder a própria frustração e falhando miseravelmente, pela reação de Melinda que riu em meio ao beijo, ele buscou ter acesso o mais rápido possível à pele dela, e evitou com todas as suas forças reagir de forma desproporcional quando finalmente conseguiu sentir a coxa da bruxa em seus dedos.



Quebrando bruscamente o beijo, Draco segurou a perna da garota na região logo acima de seu joelho, e puxou-a para cima, tirando-a do chão e segurando-a firmemente pela cintura. Melinda aproveitou-se da posição e envolveu a perna que ele segurava ao redor da cintura do bruxo com a mesma força com que se segurava nos ombros dele, e a mão de Draco não mais necessária na região deslizou para cima e apoiou-se na curva das nádegas dela, apertando mais do que o necessário para mantê-la em seu colo, não que ela fosse jamais reclamar.  



A dor que tomou conta da jovem ao ter suas costas brutalmente atiradas contra a porta irritantemente encantada para que ela não saísse dali deveria tê-la incomodado, mas, em meio à inércia em que se encontrava pelas últimas horas, sentir algo que não fosse irritação ou frustração era quase uma benção. Cravando as unhas no pescoço pálido dele em resposta, Melinda puxou o namorado para mais um beijo, tão carregado de luxúria e ansiedade como todo o resto daquela situação que escalara para um fim inesperado, por mais delicioso que pudesse ser.



— E eu pensei que estávamos a caminho do banho…? — ela sussurrou, em meio aos beijos e mordidas que Draco levava na direção de seu queixo e pescoço.



— E estamos… — ele respondeu, ofegante, afastando-a um pouco da porta para andar na direção do corredor. — Mas nada nos impede de nos sujarmos um pouco mais no caminho. — o olhar que ele lançou na direção da garota, carregado de desejo e antecipação, não poderia jamais representar mais o que ela mesma sentia, e Melinda limitou-se a assentir, deixando-se esquecer dos problemas que a assolavam e que, por mais que ela odiasse a ideia, ela não tinha como resolver. A banheira e o caminho até ela a esperavam e, por Merlin, ela os aproveitaria.



 



Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts - Ainda Naquela Manhã



 



    — Você fez o quê? — a pergunta da bruxa deveria ter soado séria, mas coberta pelas risadas, e vinda de uma mulher completamente nua debaixo dos pesados cobertores, o efeito se perdia completamente. — Ela vai te odiar para sempre.



    Voldemort deu de ombros, e ajustou as próprias roupas, observando-a atento enquanto permanecia parado de pé ao lado da cama. Ela tinha um ponto muito forte, mas não era como se ele tivesse muitas outras opções.



    — Pra sempre é um tempo muito longo, mesmo para famílias imortais. — o bruxo respondeu, girando a varinha entre os dedos. — E Melinda tem idade o suficiente para entender que foi para o bem dela. — Bellatrix deixou-se rir mais ainda, e rolou os olhos.



    — Ser estuporada e carregada à força de Hogwarts, sem saber em que estado a mãe ficou, e permanecer presa na Mansão Riddle sem informação por… Quanto tempo pretende deixá-la lá? Dias? — Bellatrix cruzou os braços, e arqueou a sobrancelha, encarando-o com mais julgamento do que qualquer noção de juízo a aconselharia.



Voldemort cerrou os olhos e circundou a cama, encarando-a em um misto de surpresa, admiração e uma ponta de irritação que ele negaria até seu último suspiro. Aquela Bellatrix insolente e provocativa que ele sempre adorara e detestara em medidas iguais novamente mostrava suas garras e, por Merlin, ele sentira falta dela.



— Estaria eu sentindo um certo tom de julgamento em sua voz, minha querida futura majestade? — Voldemort provocou de volta, parando um momento e apoiando-se no dossel do outro lado da cama.



— Com certeza… — Bellatrix ajoelhou-se na cama, trazendo consigo as cobertas, para desapontamento de Voldemort, e inclinou-se na direção dele. — Não é minha culpa que você abriu uma ferida em nossa filha que vai levar meses para sarar!



— Já sabemos de onde a princesa puxou seu lado dramático. — ele cruzou os braços e rolou os olhos, o que serviu apenas para extrair uma expressão falsa de ofensa de Bellatrix.



— Ah, por que com certeza não seria do homem que deu a si mesmo um título e, na primeira oportunidade, se coroou rei? — ela devolveu, com uma piscadela, e mordeu o lábio inferior.



Voldemort não respondeu de primeira, dando a si alguns momentos para digerir o contra ataque da bruxa, que o encarava com uma expressão que beirava a inocência, e simplesmente lambeu os lábios finos, aceitando silenciosamente o desafio. Calmamente, ele se aproximou da cama e ajoelhou-se à frente dela, encarando Bellatrix fixamente nos olhos. Subitamente, uma das mãos dele agarrou os cabelos da nuca da bruxa, que reagiu somente com um gemido baixo que soou muito mais sexual do que de dor.



— A falta de noção do perigo já sabemos de onde veio. — ele sussurrou, e Bellatrix sorriu em resposta.



— Perigo? — a bruxa arqueou a sobrancelha e deixou-se rir. — E qual seria esse perigo? — ela perguntou, brincando com o cinto dele. — Nós dois sabemos muito bem que suas formas de me castigar nesse tipo de caso terminam muito mais prazerosas do que dolorosas.



Voldemort analisou-a por alguns segundos e soltou as madeixas presas entre seus dedos de forma tão abrupta como as puxara, e afastou-se da mulher, descendo da cama e andando na direção da suíte, deixando para trás uma Bellatrix muito mais confusa e frustrada do que ela jamais admitiria.



— E por mais que eu fosse adorar testar essa sua teoria, Bella, e passar o dia todo preso nesse quarto arrumando novas criativas formas de te castigar por sua sempre terrível insolência, infelizmente temos um culpado para pegar. — Voldemort esclareceu, e ouviu-a suspirar contrariada e cair na cama, sorrindo de costas para a bruxa que não podia vê-lo.



— E eu pensei que vossa majestade tivesse nos dado o dia livre e convencido a todos aqueles idiotas que precisávamos ficar trancados aqui… — o tom provocativo estava de volta, mas ele não se virou.



— Oh, minha cara Bellatrix, nem eles são tão tolos assim. — Voldemort estendeu a mão na direção do banheiro, e olhou de volta para ela. — Eu me juntaria a você, mas infelizmente me comprometi a uma reunião com o diretor e o Ministro da Magia em poucos minutos.



Bellatrix saiu de debaixo das cobertas e cruzou o quarto numa velocidade muito menor do que era necessário, observando como os olhos vermelhos seguiram cada movimento e cada curva sem o mínimo pudor. Chegando à porta onde ele estava parado, Bellatrix parou de andar por um momento, e ajustou as roupas dele. — Infelizmente. — ela sussurrou e, rapidamente, pressionou os lábios contra os dele, sumindo para dentro do banheiro no segundo seguinte.





 



Chamar o clima naquela sala de pesado seria o eufemismo do século, uma vez que a tensão era praticamente visível entre as partes, muito antes de Bellatrix entrar. As olheiras da bruxa estavam bastante visíveis propositalmente, por mais que somente Voldemort conhecesse a verdadeira razão por trás delas, causando um efeito incômodo nos outros presentes.



Voldemort, Shacklebolt e Snape haviam passado os últimos noventa minutos trocando educados tapas de luva de pelica, mas com o passar do tempo os ataques se tornaram cada vez menos delicados e a chegada de Minerva Mcgonagall, trinta minutos antes da chegada de Bellatrix, quando fora não muito confortavelmente convocada por Snape, não ajudara na missão de melhorar o clima que a duquesa terminou de piorar.



— Boa tarde. — ela cumprimentou, sua voz soando mais arranhada do que ela planejara e aprofundando a tensão em que todos estavam mergulhados. Todos, com exceção de Minerva se levantaram, e ela fez uma rápida reverência na direção de Voldemort, enquanto Snape e Kingsley direcionaram tímidos acenos de cabeça na direção dela. Sentando-se na cadeira indicada por Voldemort, a seu lado, a bruxa controlou-se para não aparentar mais do que devia sobre a atual situação deles, pois o foco deveria ser outro. — Obrigada, majestade. — Voldemort sentou-se, e foi seguido por ela e pelos dois outros homens.



O Ministro da Magia pigarreou e ajustou a gola das vestes, que começava a parecer apertada demais, e respirou fundo antes de escolher as palavras com que ia começar. — Madame Lestrange, ficamos extremamente contentes de vê-la de pé tão pouco tempo após o ocorrido. Confesso que parte de nós pensou que não a veríamos no dia de hoje.



— Ou seria mais correto dizer que parte de vocês esperou não ter que me ver hoje, Kingsley? — as palavras diretas da duquesa causaram um óbvio impacto em todos os presentes, inclusive Voldemort, que a encaravam espantados. — Para terem mais tempo de alinhar suas estratégias e histórias sobre como explicar como diabos eu fui envenenada dentro de uma escola durante uma comemoração? E, mais ainda, como veneno foi parar na mão de uma criança de onze anos? Ou acha mesmo que eu acredito que aquela garotinha planejou e executou tudo sozinha? — a voz arranhada de antes, ou a aparência doente e cansada da bruxa, em nada se alinhavam com a postura firme que ela mantinha ou suas acusações acaloradas, mas estas não impressionaram McGonagall e Snape, que conheciam Bellatrix melhor do que poderiam desejar.  



— São acusações muito pesadas, minha cara Bellatrix, insinuar que alguém plantou o veneno nas mãos da menina que lhe entregou o copo. — Snape assumiu a conversa, lambendo os lábios e recebendo um olhar de total desprezo da mulher.



— Não mais pesadas do que a realidade, meu querido Severus, e eu não estou insinuando, estou afirmando. — Bellatrix corrigiu, e olhou para Voldemort. — Corrija-me se estiver errada, majestade, mas suponho que a esse ponto já tenham interrogado a pobre criança e descoberto que ela não fazia ideia do que estava fazendo? Que provavelmente nem mesmo se lembra de me entregar o copo?



— Exatamente, exceto pela parte em que ela se lembra de entregar, de querer te entregar, mas não se lembra onde pegou o copo ou quem lhe entregou. —  Voldemort respondeu. — E demonstra sérios sinais de que recentemente foi obliviada ou teve as memórias alteradas.   



Bellatrix riu-se e rolou os olhos, cruzando os braços na frente do corpo, sua linguagem corporal demonstrando sem palavra alguma o quão indignada ela estava. Snape, Kingsley e McGonagall tiveram a decência de nem mesmo tentar esconder a própria preocupação. — Então, além de envenenar uma nobre, que aliás é mesma pessoa que acabou com a guerra, algum idiota atacou uma criança no processo?



— E possivelmente usou uma Maldição Imperius dentro da escola. — Voldemort completou, e todos o encararam com interrogações no rosto. — A criança se lembra de querer, mas não se lembra de diversos pontos importantes, mesmo debaixo de veritasserum? Tem as lembranças bagunçadas, mas sem idade para alterar as próprias memórias? O idiota que fez isso teria que ser muito convincente para convencer a menina fazer tudo isso e depois ainda teria que obliviá-la sem ninguém perceber. Provavelmente, usou uma Maldição Imperius para convencê-la a fazer e a esquecer depois.



— Podemos ser francos? — Bellatrix soou cansada e ajustou-se na poltrona desconfortavelmente. — Todos nós sabemos quem fez isso, é só uma questão de chamá-lo para interrogatório. Se usaram Veritasserum numa menina de onze anos,  por que não podemos fazer o mesmo com Potter?



— Porque não podemos acusar uma pessoa por simples preconceito, Bellatrix! — McGonagall respondeu, levantando-se da cadeira. — Não existe nada que ligue Harry Potter ao que aconteceu com você e, já que estamos sendo francas, ele não é nem de longe seu único inimigo. Devemos convocar todos a quem você já humilhou ou machucou para uma xícara de chá adoçada com poção da verdade? Porque vamos levar meses para passar pela lista toda.



Bellatrix levantou-se e andou até a outra mulher, seus músculos ainda em recuperação querendo traí-la pelo abrupto movimento, mas ela não se intimidaria, nem deixaria que aquela condição passageira a afetasse. — Honestamente, Minnie querida, eu não me importo quanto tempo vocês vão levar ou se vão ter que falar com todos os parentes de terceiro grau de pessoas com quem eu cruzei na vida e que podiam estar a dez quilômetros de Hogwarts ontem à noite, — Bellatrix mediu a outra mulher com os olhos, mas Minerva também não demonstrou nenhuma reação. — só resolvam isso ou eu vou levar isso a um nível muito mais institucional do que pessoal e considerar o ataque à general do rei um ato de terrorismo. E sabe o que isso significa? Que eu posso resolver do meu jeito e eu garanto que vamos chegar ao mesmo culpado, mas vocês vão gostar muito menos do processo.



— Isso é uma ameaça? — foi Kingsley quem perguntou, levantando-se e se colocando entre as duas.



— Ah, me desculpe, não fui clara o suficiente? — Bellatrix sorriu em resposta. — É um ultimato, Shacklebolt. Eu não falo como a Duquesa de Bordeaux, ou como a heroína que terminou com a guerra, mas como a oficial de maior patente do exército de sete países: você tem vinte e quatro horas pra me apresentar o culpado, ou eu assumo. E você sabe muito bem, Kingsley meu caro, que em casos de terrorismo eu só respondo à Coroa. Você estava lá quando nós assinamos a separação dos poderes, não é mesmo? E a Coroa — ela olhou na direção de Voldemort, que havia se levantado junto à Kingsley segundos antes. — aprova cada um dos meus métodos.



— Ou eu não teria a escolhido. — Voldemort completou, não se importando em esconder o quanto aprovava tudo aquilo. — Você ouviu minha general, Shacklebolt: vinte e quatro horas. Sugiro que tire Harry Potter de debaixo de suas asas protetoras e encontre o rastro que ele com certeza deixou. Estão certos, temos muitos inimigos, mas quantos seriam tolos o suficiente para agir de forma tão inconsequente? Qualquer um com meio cérebro sabe quem foi. Resolva. — A última palavra fora a ordem mais clara que qualquer um deles já havia ouvido.



Sem dizer mais nenhuma palavra, Voldemort estendeu o braço a Bellatrix, que o aceitou sem precisar olhar e deixou-se ser guiada para fora da sala de Snape. Os dois sabiam tão bem quanto qualquer um do outros três que Kingsley usaria cada minuto daquelas vinte e quatro horas para tentar arrumar maneiras de evitar o fim trágico que aquela história estava destinada a ter, mas nenhum deles acreditava que ele conseguiria, uma vez que sua outra opção era culpar um inocente, e ele não tinha o estômago para aquilo. O som da porta batendo atrás de Voldemort e Bellatrix fora tranquilizador e desesperador em medidas iguais para os três que dentro permaneceram, e o casal pôde ouvir do fim das escadas o som de diversos objetos se quebrando. Os diretores nos quadros haviam permanecido fora de suas molduras durante toda a discussão, e Snape agradecia a si mesmo por ter ordenado que eles sumissem e ninguém mais presenciasse aquele banho de sangue que fora a discussão.



— Foi ele, não foi? —  Snape perguntou, escondendo o rosto entre as mãos. Nenhum dos outros dois respondeu, mas o silêncio fora resposta mais do que o suficiente. — Ótimo. Ele confessou a alguém?



— Felizmente, não. — Minerva respondeu, voltando a se sentar. — Pelo menos, ainda não, mas Harry ultimamente…



— A provocação certa e ele vai escorregar. — Kinsley concordou, e sentou-se ao lado dela. — E eles estão contando com isso, por isso me deram um dia todo. Em um dia muita coisa pode acontecer, ainda mais com eles aqui.



— Porque é claro que não vão nos dar o prazer de deixarem a escola. — Minerva negou com a cabeça, e suspirou cansada. — E nós pensávamos que estávamos acabando com a guerra, que teríamos paz, e só estávamos nos afundando nessa bagunça…



— Ninguém podia prever que ele ia se coroar, Minerva, e que ia usar cada brecha daquele acordo…



— Ah, me poupe, Shacklebolt! — Snape interrompeu, recostando-se em sua cadeira. — Estamos falando de Lord Voldemort e, por Merlin, Bellatrix escreveu aquele acordo com todas as brechas possíveis sabendo que ele ia se aproveitar disso e nós devíamos ter previsto… Mas sabe qual a verdade? Nós não tínhamos escolha! E nos enfiamos nessa bagunça, aceitamos esse acordo, a coroação dele e tudo o que veio depois, porque eles venceram a maldita guerra! Eles tinham as armas nas mãos, todo o poderio de nos esmagar se quisessem, e quando Bellatrix veio até nós pedindo ajuda, com um papel brilhante que nos dizia que podíamos manter Harry vivo, dar a ele um futuro, e de brinde uma ilusão de controle sobre o poder deles? Nós assinamos sem nem pensar, porque a alternativa era muito pior! Mas parece que não importa quantas pessoas se sacrifiquem tentando proteger aquele garoto, ele tem um desejo de morte!  



— Talvez devêssemos ter deixado os dois morrerem. — Kingsley sussurrou, fitando o próprio colo, e riu-se.



— Com a falha no plano de que ele tem uma herdeira. — a voz de Dumbledore tomou a sala, e todos olharam na direção das pinturas dos diretores, que haviam silenciosamente retornado. — Tom morreria, caso de fato todas as horcruxes tenham sido destruídas, e Harry também, mas…



— Eles ainda venceriam porque a aprendiz de psicopata assumiria o comando! — Minerva bateu na mesa. — Como diabos perdemos em todas as frentes desse jeito?



— Simples. — Snape respondeu, se levantando. — Colocamos nossas fichas todas num líder que deixou-se ser morto antes mesmo da guerra começar, cujo herdeiro é um moleque inconsequente e despreparado que eu estou cansado de proteger de si mesmo!  



    Snape deixou a sala a passos largos e pesados e bateu a porta atrás de si, fazendo com que Kingsley e Minerva fechassem os olhos num susto e negassem com a cabeça, evitando olhar diretamente para o quadro de Dumbledore, que sem que eles soubessem já estava novamente vazio. O peso da verdade dita pelo diretor de Hogwarts pairava sobre eles, que não conseguiam negar o cansaço causado por constantemente proteger Harry dos próprios ímpetos e, ao mesmo tempo, não eram capazes de resistir ao impulso de protegê-lo. “Nós devemos muito a ele”, os dois silenciosamente diziam a si mesmos, sabendo que aquela frase tornava-se menos real a cada dia que passava.





 



    — Tem se tornado cada vez mais próximo da Srta Ceresier... — Bellatrix comentou, logo depois que Gabrielle Ceresier se despediu e deixou o quarto. Minutos antes, a garota os interceptara no caminho de volta alegando que precisava conversar com Voldemort sobre um assunto que muito lhe interessaria. A bruxa serviu-se de uísque de fogo e entregou uma dose similar a Voldemort, que se aproximava com um olhar curioso.



    — Nunca julguei que ciúme de adolescentes seria seu estilo, minha cara. — ele respondeu, pegando o copo das mãos dela, que rolou os olhos.



    — Até parece… Por mais que Gabrielle seja minha cria, e tenha um histórico de quedas por homens mais velhos e acima dela na hierarquia…



    — Soa mesmo como sua cria. — Voldemort a interrompeu, e não deixou de deleitar-se com a expressão levemente ofendida da mulher. — Irresistível, continue…



    Bellatrix suspirou cansada e bebeu um pouco, antes de continuar. — Que seja. Ela é leal demais a mim pra sequer olhar pra você, então eu jamais sentiria ciúme logo dela. O que eu quis dizer é que ela tem se tornado uma aliada extremamente forte em tão pouco tempo. — ajustando a saia do vestido, Bellatrix sentou-se na beirada da cama e observou-o repetir o gesto e sentar-se na outra ponta.



    — Gabrielle foi uma aliada crucial no fim da guerra, de acordo com o que você mesma me contou. — Bellatrix assentiu. — E foi a responsável por descobrir minha conexão com Potter, a “promoção” pareceu uma recompensa boa o suficiente, e agradável para mim, já que a garota é tão inteligente. De fato, ela tem sido de enorme ajuda, mas eu não esperava que ela fosse se voluntariar dessa forma.



    — Não vou negar que ter alguém espionando Snape o tempo todo é genial, mas seduzir o ex amor da vida dela para vigiá-lo… E ser a pessoa que pensou nisso? É um novo nível de frieza, estou impressionada.



    — Impressionante um pouco demais. — Voldemort apontou, pensativo. — Não podemos nos deixar esquecer de que a Srta. Ceresier ainda é uma adolescente, e que existe uma variável nesse plano que ela não consegue controlar.



    — O amor dela por Snape. — Bellatrix concordou. — Por mais que ele tenha a machucado, não sabemos até que ponto ela vai conseguir mantê-lo longe e por quanto tempo. Se nem eu consegui ser tão obstinada, imagino uma adolescente. — Bellatrix apoiou os pés na coxa de Voldemort, que a encarou sério. — O que? É a verdade.



    — Nossa história e a deles não tem nem comparação, Bellatrix. — ele repreendeu seco, e Bellatrix se limitou a bebericar do uísque. — De um jeito ou de outro, só aceitei porque eu não podia deixar a oportunidade passar, por mais breve que possa ser, mas manterei um olhar atento em Gabrielle, por precaução.



    — Melinda pode ajudar com isso... Assim que ela deixar de te odiar. — A morena provocou, e Voldemort levantou-se rapidamente da cama, deixando os pés dela cairem de volta ao chão.



    — Falando nela, — ele virou a dose de uísque de uma só vez e pegou um pedaço de pergaminho e pena que estavam sobre a escrivaninha no canto do quarto. — preciso atualizar Oliver.



— Quer dizer avisar o cão de guarda que ele ainda não pode libertar nossa filha? — Bellatrix jogou-se deitada na cama, enquanto o observava, o braço que segurava o copo pendendo para fora do colchão. — Falando nisso, já que ia colocar um idiota seguindo a menina o tempo todo, não podia ter escolhido um que pudesse de fato protegê-la? Oliver não é exatamente um guarda costas que coloca medo em alguém, é um menino e não dos muitos robustos.



— Primeiramente, ele não está ali para defendê-la fisicamente. Oliver é leal e extremamente talentoso com magia e, antes que você diga que ele nem se aproxima de Melinda como se eu não soubesse, ele é uma distração, está ali para ganhar tempo. — Ele respondeu, rabiscando com a pena rápidas letras no papel. — E morrer no lugar dela, se necessário. Quantas vezes vou precisar dizer isso? Ele é dispensável, ela não, e a noite de ontem só provou meu ponto sobre a necessidade da existência dele. Mas se faz você se sentir melhor, tenha certeza de que farei questão de escolher alguém mais amedrontador e robusto para você. — o som do vidro quebrando fez com que ele se virasse rapidamente na direção da cama, encontrando Bellatrix sentada novamente e o copo de uísque de fogo no chão.



— Para mim? — o tom dela era calmo, porém ele sabia que aquela era a calmaria antes da tempestade. — Desculpe-me, majestade, mas eu acho que entendi errado, pois tive a impressão de que você insinuou…



— Eu não insinuei nada, Bella. — ele repousou a pena sobre a mesa e respirou fundo — Eu afirmei e, honestamente, não vou ter com você a mesma discussão que tive com Melinda, até porque espero mais maturidade de você. A noite de ontem devia falar por si só, você precisa de alguém a seu lado o tempo todo, porque tem um maldito alvo nas costas.



- E por que você não precisa?



- Como se a guarda real não me seguisse por aí o tempo todo? Eu não tenho um cavaleiro, tenho dezenas que me seguem vinte e quatro horas por dia, e não me veem por aí reclamando. Eu sou o bruxo mais poderoso de todos os tempos, e até eu entendo o conceito de peões. Eu não preciso deles para me defender, eles estão ali para que eu não precise me colocar em perigo. Tudo o que eu peço a você e a Melinda é que me deixem colocar um guarda atrás de vocês, mas parece que é o fim do mundo.



— Porque nós não queremos! — ela se levantou da cama. — E eu não sou a herdeira do trono, eu sou sua rainha, ou futura rainha, que seja! Eu devia ter no mínimo uma opinião nisso, mas parece que você já tomou a decisão!



Voldemort tomou um momento para se recompor, o tom inconformado e exausto que ela usava só potencializando sua própria raiva, fechando os punhos com força até que as próprias unhas ferissem suas palmas. Ele não queria explodir, e estava usando toda a sua força para evitar uma reação colérica, mas a incapacidade de Bellatrix de se importar com a própria segurança era ainda mais irritante e absurda do que a de Melinda.



Como sempre. — Bellatrix completou, lambendo os lábios e o medindo de cima a baixo com os olhos, o desgosto estampado nas belas feições, naquele ponto distorcidas pelo descontentamento.



— Eu não vou discutir, Bellatrix. — ele fechou os olhos e respirou fundo. — Por mais que você esteja se corroendo de desejo por mais uma de nossas acaloradas brigas, você não vai me tirar do sério.



A bruxa se aproximou lentamente, sua feição mais séria do que ele havia visto em possivelmente meses. Parando logo à frente dele, Bellatrix cruzou os braços e deu de ombros. — Temo que essa decisão, meu caro, também não seja sua. Você não vai ordenar o que nós discutimos e o que eu simplesmente aceito. Novamente, eu não sou a Melinda, e nem pretendo ser. Você queria uma rainha, aqui está ela. — Bellatrix deixou os braços caírem ao lado do corpo, e viu-o abrir os olhos para encará-la.



— Exatamente, minha cara, eu queria uma rainha. — Voldemort se levantou e a encarou de cima, a diferença na altura nunca antes parecendo tão imponente como quando estavam assim tão perto, mas ela não se intimidou e levantou o queixo para acompanhá-lo. — Viva, de preferência. Não sei o que andam dizendo por aí, mas não sou exatamente adepto da necrofilia.



A mão que Bellatrix levantou jamais tocou o rosto de Voldemort, que segurou o pulso dela no meio do caminho, a falta de delicadeza que ela tanto aproveitara, poucas horas antes, sendo bastante incômoda na forma agressiva com que os dedos dele se fechavam contra a delicada pele dela, que já começava a avermelhar. Com mais força do que necessário, Voldemort puxou o pulso de Bellatrix para baixo e forçou o braço dela para trás, até que suas mãos juntas tocassem a cintura da bruxa, que ficara imobilizada muito para seu próprio desgosto.



— Tão cedo no relacionamento e já estamos partindo para a agressão física, querida?



“Cedo no relacionamento” não exatamente se aplica a nós dois, mas se eu considerar que você nunca entendeu o conceito de relacionamento podemos relevar. — as palavras da bruxa causaram somente um aperto mais violento dele contra o pulso dela. — Está vendo? Me solta.



— Eu vou terminar com marcas de garras no meu rosto se te soltar? — ele perguntou com uma calmaria que ela odiava. Bellatrix negou com a cabeça, e ele a soltou imediatamente, levantando as mãos acima da cabeça. — Mais calma?



— Não, mas obrigada. — Bellatrix massageou o próprio pulso e ajustou suas roupas, somente para cruzar os braços e encará-lo novamente. — Onde estávamos? Ah sim, na sua incapacidade de entender como um relacionamento funciona, que sua rainha não é mais um de seus súditos sobre quem você tem absoluto controle o tempo todo. A razão pela qual nós nos separamos foi porque ficou extremamente claro para nós dois que eu não podia ser sua consorte e súdita ao mesmo tempo, que isso jamais poderia dar certo se nós não estivéssemos em algum pé de igualdade, mesmo que fosse somente entre quatro paredes!



— E não estamos porque eu decidi colocar um guarda atrás de você, quando eu tenho dez? É parte de ser um monarca, Bellatrix, aceite. Quer dividir a coroa comigo? Existem lados negativos.



— Ótimo, então coloque a guarda real atrás de mim, em vez de um guarda costas! Ela é grande o suficiente para seguir a nós dois, e estamos juntos na maioria do tempo de qualquer forma!



— Com a exceção de quando não estamos, e eles teriam que dividir sua atenção, o que é uma vulnerabilidade! E eu não tenho um alvo pintado nas costas, Bella, porque metade do mundo sabe que eu fui por anos imortal e desconfia que ainda sou! — ele socou a escrivaninha atrás de si, e Bellatrix se sobressaltou por mais que tivesse tentado se controlar.   — Enquanto vocês duas, bem, nós dois vimos o que aconteceu! O mundo inteiro sabe que vocês são o caminho mais curto até mim e vocês se recusam a colaborar, mas que merda!



— Você não quer colaboração, quer submissão. — Bellatrix afirmou, ainda com os olhos focados nos nós dos dedos dele, vermelhos e arranhados pela madeira. — Quer que simplesmente aceitemos o que você pensa ser melhor. Eu não quero um cavaleiro, e não vou ter um! Eu sou sua general, por Merlin, não faz sentido nem há necessidade. Como um cavaleiro poderia ter me protegido ontem? Não é como se fossem provar toda a comida e bebida que passa pela minha boca!



— Não seria uma má ideia. — a forma como ele disse aquelas palavras, como se estivesse de fato considerando aquele curso de ação, fez com que Bellatrix suspirasse desacreditada e virasse de costas para Voldemort, negando com a cabeça.



— Eu não quero e não vou aceitar. Simples assim. — o tom da bruxa era de ultimato, mas a mão de Voldemort que se fechou ao redor do braço dela e a virou de frente para ele mais uma vez contava uma história diferente.



— Sinto muito, minha cara, mas esse assunto não está aberto para discussão. Você quer a Coroa, ela vem com um maldito guarda costas te seguindo vinte e quatro horas por dia, porque eu juro por Merlin, se você acha que o alvo nas suas costas é grande agora… — ele riu-se e rolou os olhos. — Espere só para ver como o peso de uma coroa e de um anel o deixarão fluorescente.



Bellatrix precisou de alguns segundos para absorver as palavras dele, que deixaram os lábios do homem com tanta dor e irritação. Uma parte dela queria engolir e aceitar, como sempre fizera, e tranquilizar aquele que por tanto tempo fora seu mestre, mas sua mente a lembrava de todas as vezes em que aquela dualidade na relação deles os levara ao fundo do poço e toda a dor e sofrimento que ficaria guardada para o futuro caso ela se dobrasse para acomodar a vontade dele.



— Não. — Bellatrix engoliu seco, e soltou-se dos braços dele. — A Coroa não vem só com um maldito guarda costas, ela vem com a sua vontade, as suas decisões e comigo mais uma vez respondendo ‘Sim, milorde’ toda vez que discordamos de alguma coisa. — o tom da bruxa era contido e baixo, e os passos que a levaram de volta à cama eram lentos e suaves, de modo que em nada se assemelhavam àqueles que antes a levaram até ele, tão decididos e raivosos. Ela não estava com raiva, não mais, tudo o que enchia seu peito era um inevitável senso de compreensão de tudo o que estava acontecendo, e do círculo vicioso em que mais uma vez eles estavam caindo. — Você não quer uma rainha, quer sua Comensal da Morte mais fiel e leal na sua cama, tão linda quanto é cegamente obediente, e nós sabemos onde isso termina. — a mão dela inconscientemente tocou o próprio pescoço, enquanto os olhos da bruxa fitavam o próprio colo.  



Voldemort se aproximou com cuidado, o desespero que o enchia toda vez que era confrontado pela possibilidade de perda ainda controlando grande parte de suas ações, mas a parte mais lúcida de sua mente o avisava para pisar com cuidado, que estava entrando em terreno perigoso, um do qual ele já pensara estar livre. Ela estava reconsiderando, ele podia ver na mente e no rosto da bruxa, cujos olhos começavam a encher-se de lágrimas, e a ideia de vê-la partir novamente era quase tão dolorosa quanto a de perdê-la para sempre. O problema era o quase.



— Bella… — a voz dele assumiu o mesmo tom da voz da bruxa, quando ele se sentou com cuidado ao lado dela. — Não diga sandices, você sabe que não é esse o caso.



— Sei? — ela perguntou, os olhos ainda mais verdes pelas lágrimas. — Não, eu não sei… E você também não sabe.



As mãos de Bellatrix tomaram as dele, tão confortavelmente frias entre as suas quentes, e a mulher lambeu os lábios como se pensasse em como continuar, mas lhe faltassem as palavras. Entrelaçando os dedos com os dele, com o polegar displicentemente acariciando a pele macia da mão dele, Bellatrix quase deixou-se cair na tentação de não dizer o que era necessário.



— Eu não quero ter que tomar essa decisão de novo… — ela confessou, lutando contra as lágrimas. — Eu não quero ter que passar por isso de novo, ter esperança para depois… Tom, por favor, não faz isso comigo, não faz isso conosco. Me ouve uma vez na vida, me mostra que eu tenho motivos pra acreditar que as coisas mudaram.



O uso do nome real dele não fora proposital, e muito menos consciente da parte da bruxa, mas não passara despercerbido por Voldemort, que ainda não entendia bem porque o som daquela palavra não lhe causara a onda de ódio que geralmente a acompanhava. Uma vez, no passado, ele a ouvira proferir aquele nome, o nome que deixara para trás por ódio de sua família e herança trouxa, mas nunca antes acordada. Um pedaço da alma dele, há muito adormecida, se acendera ao ouvi-la falar daquele jeito, e secretamente o fez desejar que entre quatro paredes ele pudesse ser o “Tom” de sua Bella, mas o que ela pedia era mais do que ele podia oferecer.



— Desculpe, eu não quis… — ela começou, ao perceber o que deixara escapar, mas Voldemort pressionou um dedo sobre os lábios dela e negou com a cabeça, sua expressão tranquila denunciando as palavras que ele jamais iria proferir: Você pode me chamar assim, só você.



— Sou eu quem peço pra não fazer isso comigo, Bella, não me faça escolher entre ter você e te manter segura, porque eu juro que não vou ser capaz de ser tão egoísta assim, não quando eu te vi morrer duas vezes em menos de seis meses. — ele encostou a testa contra a dela, cujos lábios já tremiam em anúncio das lágrimas que estavam por vir. — Eu senti você gelar nos meus braços, Bella, duas vezes e eu não… Eu não consigo. Por que você não consegue entender?



A forma como a voz dele quebrara ao fim da frase atingira Bellatrix direto no coração, enchendo-a numa onda de um sentimento que ela só conseguia descrever como luto. Luto por tudo o que eles tiveram, pelo o que poderiam ter mas não conseguiriam nunca mais ter. No fundo de sua alma, o amor que ela sentia tentava não se afogar entre toda a dor, mas era silenciado pela razão que insistia em lembrá-la de como aquele caminho terminava.



— Porque eu entendo muito além disso… — ela sussurrou de volta. — Eu entendo o que isso anuncia… Se eu não posso ter o mesmo poder de escolha que você em algo tão próximo a mim, como será com coisas outras coisas e… E mesmo que seja só em relação a mim, eu submeto a você todo o controle sobre minha vida? E Merlin sabe que o caminho fácil seria me entregar de alma e coração aberto de novo, me dobrar às suas vontades, mas a dor seria tão maior quando o espelho se quebrasse de novo, porque se um detalhe como esse foi capaz de trazer à tona todas as minhas dores e medos e seu lado controlador, eu não quero imaginar como seria com coisas mais sérias.



— Bella, não existe nada mais sério do que a sua vida! Você é mortal, — Voldemort soltou os dedos dos dela e segurou-a pelos ombros. — e eu não suportaria te perder, eu não saberia viver num mundo sem você, e viver em um em que você está em constante perigo é tortura o suficiente...



— Exatamente. — Bellatrix tocou o rosto dele delicadamente, e observou como ele se inclinou para encontrar seu toque. — É a minha vida, e eu não sou uma adolescente teimosa, sou uma veterana de guerra e ganhei o direito de decidir se vou ser seguida por um estranho ou não. Milorde, sabe tão bem quanto eu que pouquíssimos bruxos vivos são capazes de me derrotar, então o que tanto teme?



— Uma criança de onze anos...



Nada teria evitado. — Bellatrix afastou um pouco o rosto do dele, as lágrimas que ela tentava evitar começando a correr livres por seu alvo rosto. — Como eu vou convencer sete países de que posso protegê-los, quando preciso de um bruxo dez vezes menos talentoso me seguindo?



— Agora você está sendo orgulhosa...



— E você teimoso!  



Os dois se calaram por um momento, sem resposta prontas ou ataques desnecessários. Por detrás de todo o orgulho e agressividade, os dois sabiam que não tinham as condições emocionais necessárias para saírem daquele embaraço de vaidades e obstinação em que se encontravam.



— A quem estamos querendo enganar? — foi ela quem quebrou o silêncio. — Nenhum de nós irá ceder… Você já deixou bem claro que não está aberto a discussão e eu não vou simplesmente aceitar calada. Nós merecíamos mais do que isso, nós merecíamos um futuro, mas nos precipitamos, claramente. Eu me precipitei. Nós não estamos prontos, ainda não.  



A voz da bruxa era trêmula, e ela se levantou, apoiando-se no dossel da cama de costas para ele, ouvindo como a respiração de Voldemort aos poucos se alterava conforme ele entendia as palavras que atingiam seus ouvidos. Ela podia ouvir cada movimento, cada músculo se reajustando à medida em que ele se levantava e se aproximava, até parar atrás dela e tocar seus ombros. Inconscientemente, uma das mãos de Bellatrix tocou a dele, e não mais ela se preocupava em esconder o choro que se apoderava do corpo dela.



— Nós merecíamos, sim. — a voz dele já não era tão calma ou contida como antes, e Bellatrix percebia os tons de raiva que ele tentava esconder, e seu toque era menos cuidadoso do que o normal, como se ele estivesse a um passo de estrangulá-la. — Merecíamos que você nos valorizasse mais do que o seu orgulho desmedido, ou sua eterna necessidade de ser leviana com sua própria vida. Se minha sentença por insistir em te proteger é te perder, que assim seja, vossa graça. — ele abruptamente a soltou, e Bellatrix poderia jurar que conseguiu ouvir a conexão que insistia em os unir mesmo separados se despedaçando. — Antes longe do que morta, mas não pense que escapará de sua sentença. Volte para Bordeaux se assim se satisfaz, mas seu cavaleiro lá a estará esperando. E, já que voltamos a ter níveis diferentes na hierarquia, eu não estou pedindo ou implorando que você entenda meus motivos, porque eu simplesmente não preciso. É uma ordem, Madame Lestrange, e vou garantir que ela seja obedecida.



Bellatrix girou imediatamente nos calcanhares, encontrando-o com o rosto tão manchado pelas lágrimas quanto o dela, por mais que ela jamais as tivesse visto. A pose do homem era perfeita, e ele quase conseguira esconder a própria vulnerabilidade, mas ela podia ver através dele, a dor o corroendo provavelmente tanto quanto a corroía.



“Minha sentença”, — ela repetiu. — tão apropriado. Porque, eu me pergunto, qual o sentido em ter um cavaleiro sem ser sua rainha? Além de me punir? Nenhuma.



— É aí que se engana, minha cara, porque casada comigo ou não, infelizmente para nós dois, você ainda é a mulher que eu amo, e o maldito alvo nunca sairá das suas costas. E eu não conseguirei governar se estiver o tempo todo preocupado com você. — Voldemort pegou o paletó que anteriormente havia deixado próximo a porta e o vestiu, ajustando a gola com raiva.



— Não. — ela simplesmente respondeu, quando ele se dirigia à saída, e andou rapidamente para se colocar entre ele a porta. — Você não vai simplesmente sair, nós ainda não terminamos.



— Eu pensei que você tinha deixado bem claro que havíamos feito exatamente isso. — ele tentou sair, mas foi bloqueado por ela novamente. — Bella…



— Ordene. — ela provocou. — Ordene e eu saio. Vamos! Use seu poder contra mim novamente, para me forçar a fazer algo que eu não quero! Você pode, não é? Não precisa mais se explicar! Ordene!



Voldemort abriu e fechou os lábios algumas vezes e, para surpresa da mulher, simplesmente agarrou-a pela nuca e a beijou, sem dar nenhum tipo de aviso. Resistir àquele beijo foi algo que ela achou impossível fazer e, quando se deu conta já estava com os lábios abertos, deixando-o tomar conta de si, com seu corpo prensado contra a porta e centímetros acima do chão. Por mais que ambos desejassem terminar mais uma vez naquela cama, e resolver seus problemas como sempre haviam resolvido, eles sabiam muito bem que aquela maneira de lidar com as discussões nunca chegava em solução alguma, somente adiava o problema. Além disso, aquele beijo tinha um gosto muito mais agridoce do que qualquer um deles planejara.



— Eu não vou ordenar. — ele finalmente falou, ainda entre os lábios dela, com seus dedos firmemente entrelaçados nas madeixas negras da nuca de Bellatrix. — Não vou nos afundar ainda mais, não se preocupe.



— Ou não vai me dar o prazer de provar que estou certa? — a resposta saiu muito mais vulnerável e coberta de dor do que Bellatrix planejara, mas fora o suficiente para fazê-lo parar e encará-la, calmamente deixando-a escorregar de volta para o chão.



— Talvez você esteja. — ele confessou. — E eu seja controlador e narcisista e incapaz de dividir meu poder, ou de te dar a liberdade que você tanto quer, mas isso não muda o fato de que você também não consegue me dar a segurança que eu preciso. Ter a certeza de que eu não vou ter que lidar com perdas que me devastariam é tão importante para mim quanto seu poder de escolha é para você. A razão pela qual meus inimigos atacam você é porque eles sabem disso, sabem que eu não sei lidar com perda, que me destruiria, e te conhecem o suficiente para saber que você é teimosa e descuidada e orgulhosa demais para cuidar de si mesma!



Bellatrix tocou os lados do rosto dele e assentiu, a antecipação que a envolvia em relação às decisões que estavam por vir trazendo um gosto amargo à sua boca. As lágrimas mais uma vez tomavam conta da mulher, que precisava resistir a todos os seus instintos para não ceder e dar a ele a tranquilidade que ele precisava. — E, um dia, no futuro, talvez você não precise mais dessa segurança, ou eu dessa liberdade, mas agora o que eu preciso e o que você precisa são coisas opostas demais. Você precisa aprender a amar, e isso inclui perder, e eu preciso aprender a me amar e ser amada. —  ela lambeu os lábios, e foi ele quem assentiu. — E vai doer, e nós vamos nos machucar, e eu tenho todo o direito de estar com raiva, assim como você… — ela fechou os olhos, e o beijo que ele depositou em sua testa somente causou mais lágrimas. — Eu aceito minha sentença, por mais ódio que ela me traga, mas… Não consigo te liberar da sua. Não posso ser sua rainha, não nesses termos, não conosco ainda em níveis diferentes…



— E eu aceito a minha, por mais ódio que me traga. Contanto que você esteja a salvo… E Merlin sabe que eu queria poder ter a certeza de que estaria ao seu lado o tempo todo, garantindo que estivesse segura, e evitar tudo isso, mas é impossível… pelo menos por agora. — Voldemort fechou os olhos, lutando contra lágrimas que ela nem mesmo conseguiria ver. — Eu só não garanto que saberei lidar com essa perda, as chances são de que eu vou lidar muito mal com isso.



— Somos dois… Eu não respondo bem a ser obrigada a fazer algo que não quero. — Bellatrix confessou, entre as lágrimas, ainda sem abrir os olhos. — Então… — a bruxa respirou fundo, tentando se controlar para abrir os olhos.



— É isso, creio eu. — Voldemort fez menção de afastar, mas parou ao sentir a mão dela fechar-se ao redor de seu pulso.



Olhando de volta para ela, ele a encontrou olhando em sua direção, os olhos ainda vermelhos e inchados pela lágrimas, com os lábios entreabertos como se quisesse dizer algo que estava preso em sua garganta. Franzindo o cenho, ele se aproximou mais uma vez, tentando decifrar o que ela queria dizer, mas a mente da bruxa estava desordenada demais, até mesmo para ele.



— Eu… — Bellatrix começou, a voz embargada fazendo-a parar para se recompor, enquanto brincava distraidamente com a lapela do paletó dele. — Eu só queria que o amor fosse o suficiente. Seria tudo tão mais fácil, se resolvesse tudo como alguns idiotas gostam de pregar.



— O que eu disse a vida toda, minha cara? — ele mais uma vez assumiu o tom solene que ele usava quando estava na pele do grande Lorde Voldemort, líder forte de todos eles, rei de sete países e bruxo mais poderoso da história. Ele a teria convencido, se não fossem as lágrimas se se formavam no canto dos olhos dele. — Que esses tolos não tem a mínima ideia do que estão falando. Se o poder do amor por si só resolvesse qualquer coisa, nós não teríamos vencido a guerra. — Bellatrix teria começado a rir, se fosse capaz.



— E o que nós vamos fazer? — ela perguntou, soando bem mais perdida do que seu orgulho permitia.



— Seguir nossas vidas, imagino eu. Felizmente, ainda não havíamos contado para ninguém, então o estrago fica somente entre nós dois. — Voldemort finalmente se afastou, não deixando de notar a forma como as mãos dela ofereceram resistência, mas ignorando a faísca de esperança que aquela simples ação originou. Hábitos antigos, ele se lembrou. — Resolver a questão com Potter, liberar Melinda, te mandar de volta pra França, e fingir que a última noite nunca aconteceu.



— Como se isso fosse possível… — Bellatrix cruzou os braços ao redor do corpo, como se estivesse se protegendo, e apoiou-se na porta, inconscientemente evitando que ele deixasse o quarto e tornasse toda aquela conversa real de uma vez por todas. — Criamos algumas lembranças extremamente memoráveis… — ela olhou ao redor e não pôde deixar de sorrir.



— Nós merecíamos melhores lembranças desse lugar, por mais que elas agora sejam igualmente dolorosas… — ele engoliu seco. — Um gosto do que nunca teremos.



— Nunca é uma palavra forte. — Bellatrix respondeu, antes que pudesse se controlar.



Voldemort negou com a cabeça e fitou os próprios sapatos, organizando seus pensamentos, antes de voltar a falar. — Pelos últimos meses, tudo o que eu fiz foi buscar maneiras de te trazer de volta pra mim, Bella. Boatos se criaram, sussurros a meu redor sobre como minha obsessão com você estava afetando meu julgamento, e eu deixava tudo isso passar porque… Por mais absurdo que possa parecer, eu me alimentava da esperança de que este seria um período curto, mas as vozes estão certas, Bella. Eu não posso me agarrar eternamente a você, ou ao sonho do que poderia ser. A última noite me assombrará para sempre com a noção do que nós poderíamos ter sido, mas eu não posso mais passar os meus dias esperando pelo momento em que você vai voltar. Nunca pode ser uma palavra forte, mas não é justo com nosso legado que eu despedace tudo o que construímos para evitar que ela se torne realidade.



Meses antes, Bellatrix fora confrontada por seu medo do momento que acabara de chegar, o dia em que ele desistiria, aceitaria o fim deles e seguiria com sua vida. Por mais que ela soubesse que nenhum dos dois era capaz de realmente superar o que eles haviam vivido, ouvi-lo dizer em alto e bom som que o comportamento dos últimos meses, aquela eterna procura e tentativa de seduzi-la ou reconquistá-la, terminaria era tão doloroso quanto o término em si, se não fosse pior.



— Uma parte de mim queria que ontem nunca tivesse acontecido, — a bruxa confessou, ouvindo a própria voz falhar. — voltar a onde estávamos e simplesmente esquecer. — aquelas palavras causaram estranhamento nos dois, uma espécie de déjà vu extremamente incômodo, eles podiam quase afirmar que já estiveram naquela mesma situação.



— Nos obliviaríamos e então, o que aconteceria? Entraríamos no mesmo ciclo vicioso do qual estamos tentando sair? Sinto muito, minha querida Bellatrix, mas lidar com as lembranças que criamos ontem à noite é parte de nossa sentença, por mais cruel que o destino tenha sido nos dando acesso a essa outra vida por tão pouco tempo. — ele respondeu, andando mais uma vez na direção da porta, mas ela não se moveu. — Bella… não há mais o que discutir.



— Eu sei, mas eu também sei que no momento em que você sair por essa porta, tudo se torna real, nós seguimos nossas vidas sem olhar pra trás. — ela suspirou, rindo de si mesma. — E eu ainda não estou pronta pra fazer isso, e menos ainda pra ver você fazer.



— Minutos atrás eu diria que nenhum de nós tem que fazer isso, mas já ficou claro que isso não é verdade. — ele respondeu, no mesmo tom de frustração desesperada que ela utilizara. — E o que você sugere, que fiquemos aqui nos torturando até que o prazo de Kingsley se esgote?



Bellatrix não sabia como responder àquela pergunta, porque ela não tinha sugestões formadas em sua cabeça sobre o que eles deviam fazer, ou quais seriam seus próximos passos, tudo o que ela tinha certeza era que não o deixaria ir, não tão rápido, sem tempo para processar. Uma hora antes, eles planejavam um casamento e uma vida, e agora a vida lhes trazia de volta à realidade de quem eram e lhes mostrava que a felicidade não vinha tão simples assim. Talvez eles estivessem destinados a ficar separados e a serem infelizes, ou pelo menos não completamente felizes, e era possível que a vida lhes estivesse cobrando esse preço por lhes entregar a vitória, mas aquelas eram questões com as quais ela lidaria sozinha, quando ele tivesse saído por aquela porta e selado o acordo que eles tão dolorosamente haviam feito.



— Nós sempre fomos masoquistas, de qualquer forma. — Bellatrix respondeu sem pensar, e girou a chave atrás de si. Os olhos de Voldemort a seguiram num misto de curiosidade e preocupação, e ele não pareceu conseguir reagir quando Bellatrix pegou a própria varinha e com um lento floreio começou a desfazer o vestido que havia conjurado naquela manhã.



— Bella… — a voz dele era mais cansada do que irritada, ou qualquer outra coisa, mas a mão livre dela tocou os lábios finos dele quase imediatamente, e a forma como ela calmamente negou com a cabeça foi o suficiente para calá-lo.



    Guardando a varinha, por mais que o feitiço que ela colocara no vestido continuasse a ter efeito, destruindo lentamente o tecido do vestido, Bellatrix escorregou as mãos por baixo do paletó dele, puxando-o pelos ombros de Voldemort, até que caísse aos pés deles. — Há cinco meses, nessa mesma escola, você me disse algo… — Bellatrix levantou os olhos para encará-lo. — Não me lembro as exatas palavras, mas… Foi algo sobre querer se lembrar de mim, de nós, como nós éramos, e você me fez um pedido. Não foi bem um pedido, mas… Um último beijo. A despedida. Pois bem, você teve o seu beijo, e eu também tenho um pedido. A minha própria versão da despedida.



    Voldemort teria protestado, ou apontado o evidente erro que eles estavam cometendo seguindo aquele caminho, causando somente mais dor e estendendo uma despedida que já era insuportável por si mesma. Quando ela citou a batalha, contudo, todas as paredes que ele queria levantar caíram por terra. Ele poderia alegar que eles haviam tido diversas despedidas na noite anterior, e naquela manhã, mas estaria mentindo. Em nenhuma daquelas ocasiões eles poderiam imaginar a ruína que estaria por vir, ou menos ainda que aquela seria a última vez que teriam a oportunidade de estar juntos em um longo período de tempo que nenhum dos dois sabia quando iria acabar, se algum dia acabasse. Em luz de tudo aquilo, e incapaz de ignorar a forma como ela gradualmente se despia em sua frente, Voldemort silenciosamente atendeu ao pedido dela, tomando-a pela cintura e colando os lábios aos dela sem encontrar qualquer resistência.



    Bellatrix teria pensado que ele a beijava como se não houvesse amanhã, ou como se sua própria vida dependesse daquilo, se aquela linha de pensamento não fosse mais dolorosa do que ela pudesse aguentar, mas a forma como ele a tocava, como se fosse sumir por entre seus dedos em questão de segundos, afundava o coração da bruxa em seu peito com a mesma intensidade que os toques dele incendiavam seu corpo. Por alguns momentos, ela se dera ao trabalho de esconder e segurar as lágrimas, mas antes mesmo que chegassem à cama, a força de vontade dela se tornou inútil.



    — Até o pôr do sol. — ela respondeu, em algum momento que não teve capacidade de processar, quando ele perguntou algo sobre limites, ou fora o que ela em meio a seu estado entorpecido conseguiu entender. A falta de resposta dele foi uma benção e uma maldição, porque o silêncio era esmagador, o som dos beijos que eles trocavam, dos corpos se entrelaçando, dos lençóis abaixo dela, somente servindo para lembrá-la do que estava por vir.



    Bellatrix se perguntava se seus toques também causavam nele aquele misto de prazer e desespero, se ele sentia como se estivesse se afogando num luto que nem havia começado. A forma como ele a olhava e fazia questão de marcá-la e segurá-la contra a cama teriam respondido, se ele não tivesse feito a resposta ecoar na mente dela, que soluçou em resposta, sendo calada por mais um beijo, sentindo em sua língua o gosto dele misturado ao das lágrimas.



    Por diversas vezes, antes, eles haviam juntos experimentado os limites entre a dor e o prazer, mas nunca antes o prazer fora responsável por causar dor daquela forma. A estrada que os levava ao clímax, tão conhecida e percorrida pelos dois, naquela específica ocasião os guiava a um tortuoso caminho que fazia-os sentir como se suas almas fossem explodir com a mesma intensidade que seus corpos. Movendo-se juntos, com as mãos que haviam se enlaçado sem que nenhum deles percebesse, eles inconscientemente retardavam o próprio prazer, as consequências do final sendo difíceis demais para que eles quisessem enfrentar.



    Quando o nome dele rompeu os lábios de Bellatrix, o verdadeiro, pela segunda vez naquela tarde sem que ela percebesse o que estava fazendo, ela já não mais conseguia controlar a seu próprio corpo, por mais que não quisesse que aquilo terminasse. Até o pôr do sol, eles haviam silenciosamente prometido, mas nenhum dos dois era capaz de estender aquilo tanto assim. E foi entre os lábios dele, em meio a promessas falsas de que tudo ficaria bem, de que eles ainda tinham tempo, que ela se entregou ao orgasmo que desejava na mesma intensidade que temia.



    Foi somente quando ele parou dentro dela que ela finalmente entendera o que ele queria dizer e, em meio a seu estado entorpecido pela situação e pelo recente orgasmo, ela quase não conseguiu registrar o comentário dele sobre como ele pretendia aproveitar cada segundo que conseguisse do tempo que tinham. Trocando de posição para ficar por cima dele, ela somente assentiu e deixou-se entregar a seus impulsos e aceitar os medos que a invadiam mais a cada segundo. Eles tinham tanto tempo, e tão pouco, mas se ela podia aproveitar cada minuto nos braços dele, ela o faria.



    O tão temido por do sol chegaria muito mais rápido do que qualquer um deles poderia desejar, mas antes ambos fizeram questão de aproveitar cada centímetro do corpo do outro, extrair cada gemido e sensação que podiam, e gravar tudo com mínimos detalhes na memória, principalmente as palavras proibidas que eles proferiram em meio ao prazer, sabendo que logo seriam guardadas a sete chaves nas memórias que eles jamais poderiam esquecer, por mais que devessem. Aquela tarde fora uma péssima ideia, trazendo mais peso e sofrimento para duas almas já tão maltratadas pelas terríveis brincadeiras do destino, mas se perguntados os dois diriam que se pudessem voltar no tempo fariam tudo de novo, porque cada um daqueles toques foi necessário e seria importante no futuro, quando a dor da separação fosse insuportável demais.



    O quarto já estava escuro quando a porta se fechou atrás de um Voldemort que, com certeza, se dirigia à Câmara Secreta, para lidar com tudo o que havia acontecido do jeito que lhe fosse mais conveniente, num ambiente em que ninguém mais conseguia acessar. Ainda com o fantasma do último beijo em seus lábios, e cercada pelos lençóis que deviam ser dele, Bellatrix agradeceu mentalmente pelos feitiços silenciadores que cercavam aquele quarto, quando deixou-se entregar a um choro de absoluto desespero. Em algum momento, ela precisaria deixar aquele quarto e retomar a vida, ela sabia, mas aquele definitivamente não seria aquele momento.



    Horas depois, quando Voldemort se atreveu a retornar ao quarto, ele a encontou na mesma posição em que a deixara, porém adormecida, o rosto tão manchado quando a fronha do travesseiro que ela abraçava. Flexionando os nós dos dedos, feridos por horas descontando sua raiva e desespero contra o mármore da câmara, ele suspirou e resistiu ao ímpeto de beijar a testa da bruxa, direcionando-se para a escrivaninha, onde suas cartas semi escritas se encontravam. O sol já se pôs, ele se lembrou, sabendo que precisaria repetir aquela frase diversas vezes até que pudesse se convencer do que ela significava. A verdade era que ele duvidava que algum dia conseguiria.





 



    A noite já estava avançada e pesada, quando uma carta com o selo real de Voldemort chegou via correio coruja, e um Oliver ainda fielmente acordado a recebeu com alívio. As instruções não haviam mudado muito das de vinte e quatro horas antes, mas ter alguma notícia quebrava a terrível mistura de monotonia e tensão que o tempo naquela casa escondida havia se tornado.



    Dentro do bilhete para ele, Voldemort enviara uma segunda carta, desta vez fechada com o símbolo pessoal dele, uma caveira com uma serpente como a Marca Negra, com instruções de que fosse aberta apenas por Melinda. E, se Oliver bem conhecia seu Mestre, as instruções eram redundantes porque não era como se algum tolo que tentasse abrir fosse conseguir ou gostar de tentar.  



    Melinda estivera recolhida junto à Draco desde aquela manhã, e eles não haviam deixado o quarto que, de acordo com os outros membros da guarda, pertencera ao próprio Voldemort quando eles ainda utilizavam aquele lugar como sede e domicílio, antes da Mansão Slytherin, e uma parte insolente dele não podia deixar de sorrir frente ao atrevimento adolescente de sua protegida. Do topo de seus vinte e poucos anos, o jovem, que não era tanto assim mais velho que a Princesa das Trevas, demonstrava responsabilidade e maturidade acima de sua idade, mas não conseguia resistir a se entregar a certos instintos mais imaturos de sua pouca idade. Melinda era, além de bela, inteligente e poderosa, uma menina  mimada e extremamente divertida em sua falta de limites e decoro. Grandes poderes e pouca idade, ele pensava, mas ela tinha um futuro brilhante pela frente e dedicar sua vida a protegê-la lhe dava mais orgulho do que seus pais gostariam que ele admitisse. “Você poderia ser muito mais do que o cão de guarda da princesa…” o pai uma vez comentara, alegando que existiam diversas outras formas como ele podia servir ao Lorde das Trevas, maneiras mais, novamente nas palavras de seu pai, dignas. Tudo o que Oliver respondera àquele absurdo fora, “Então, meu pai, informe ao Lorde das Trevas que existem coisas muito mais preciosas para eu dedicar meu tempo do que a segurança de sua única herdeira.”, e seu pai nunca mais o incomodara, ao menos não aberta ou diretamente.



    Bater na porta da princesa no meio da noite não era exatamente ortodoxo, mas não era como se  o conceito de ortodoxo pudesse ser aplicado àquele trabalho ou àquela família, e ele preferia lidar com o desconforto de encontrar Melinda e Draco em situações constrangedoras do que não entregar a mensagem do rei e ter que enfrentá-lo nos dias a seguir. Com Melinda ele sabia lidar, ou não estaria apto a fazer seu trabalho, Voldemort era outra história. O que ele não esperava era que a garota fosse atender a porta somente enrolada no lençol.



    Com os cabelos negros bagunçados, e aparentando estar extremamente confortável com a própria seminudez, ela sorriu e deu espaço para que ele entrasse no quarto, murmurando um “Entre, Oliver querido” e divertindo-se com a forma como ele desviava o olhar para a direção oposta dela.



    — Alteza, — ele pigarreou e fez uma reverência, logo depois de entrar no quarto. — Sr Malfoy. — ele acenou a cabeça na direção de um Draco que, sentado na cama, trajava um roupão que ele imaginava pertencer a alguém muito acima dele na hierarquia. — Perdoem a intromissão, mas essa carta chegou para a princesa, vinda de Sua Majestade.



    Melinda tirou a carta da mão dele muito antes do que o garoto esperava, quando ele mal a havia estendido, e a observou curiosa. — Ora, ora… Meu amado papai finalmente lembrou-se da minha existência? Que honra! E com um bilhetinho somente para mim! — o sarcasmo da garota beirava o divertido, e o cavaleiro não pôde evitar de sorrir. — Obrigada, Oliver querido. Alguma instrução de quando devemos sair daqui?  



    Ele negou com a cabeça, não encontrando nenhuma surpresa vinda da parte dela, que não tinha motivos para esperar nada diferente. Meses antes, aquele pequeno problema com sua mãe teria sido resolvido de forma rápida, e possivelmente sangrenta, mas os tempos haviam mudado e ela seria a primeira a admitir que nem todas as mudanças haviam sido exatamente positivas. Agradecendo ao cavaleiro, que se retirou com mais uma educada reverência, e fechando a porta atrás de si, a bruxa deixou o lençol cair a seus pés, enquanto analisava a carta em suas mãos, tentando inutilmente quebrar o selo.



    — Quando vários pensaram que esse símbolo ia perder seu poder... - ela comentou, encarando Draco ao traçar a marca em seu próprio braço esquerdo com o a ponta papel dobrado que segurava em sua mão direita, cujo selo era idêntico à tatuagem que os dois carregavam. — qualquer carta que meu pai envia com esse selo causa tremenda disrupção.



    — Porque todo mundo sabe que são assuntos privados de Lord Voldemort, e convenhamos que seu pai não é exatamente uma pessoa simples em seus assuntos, muito menos naqueles que ele considera pessoais. — Draco respondeu, deixando seus olhos passearem pelo corpo nu da garota, mesmo que ela pouco se importasse com os olhares dele naquele momento. Por mais irritada que ela estivesse com o pai, a curiosidade sempre seria maior.



    Apoiando a carta sobre uma velha mesa, Melinda uma última vez tentou quebrar o selo com uma faca de abrir correspondências, sorrindo ao perceber que não tivera efeito algum. “Sempre tão cuidadoso, querido papai”, fora o último pensamento que correra sua mente, antes que ela apunhalasse o próprio dedo indicador, ouvindo um protesto um tanto exagerado de Draco, com a ponta da faca que segurava, e deixasse que o sangue escorresse sobre o selo. Como esperado, a carta se abriu, para encantamento dela e surpresa de Draco. O sorriso de Melinda apenas aumentou ao abrir o papel e ver que este estava completamente em branco, e o choque no rosto de seu namorado ficaria ainda mais evidente quando, no segundo seguinte, ela abrisse mais o corte em seu dedo e o passasse pelo pergaminho, ensanguentando a superfície em branco. Antes que ele, que havia se levantando da cama e corrido até ela, pudesse comentar ou reclamar, Draco parou logo atrás de Melinda e, boquiaberto, assistiu quando o papel sugou o sangue da garota e o transformou gradualmente nas palavras.



    — Impressionante, não?  — ela perguntou, por cima do ombro. — Sei que isso está em algum lugar do livro que ele me deu, e confesso que estou louca para chegar logo lá. — Melinda comentou casualmente, enquanto as palavras terminavam de se formar.



 



    Melinda,



 



    Imagino que a este ponto você espere um pedido de desculpas e garanto que, em algum momento, ele chegará, junto com alguma forma de compensação que será de seu agrado, como de costume. Mas não vou perder meu tempo nesta hora crucial com formalidades, uma vez que sei que é madura e inteligente o suficiente para entender o que estamos fazendo aqui.



 



    O que aconteceu ontem em Hogwarts foi um aviso do que podia acontecer, de como as coisas poderão sair de nosso controle se as deixarmos, e foi por isso que te removi da escola e te mantive segura na Mansão Riddle.



 



    Segura demais em vista de uma ameaça fraca? Talvez, mas eu precisava ter tempo de me certificar que você não seria o próximo alvo e, no processo, fazer a ameaça parecer mais forte do que ela é.



 



    Esteja certa de que o ataque à Duquesa de Bordeaux não foi nada além de uma tentativa infantil e frustrada de Harry Potter em me atingir, e que sua mãe está bem e logo estará completamente recuperada.



 



    Quanto a Potter, o Ministro da Magia tem até amanhã para resolver, ou sua mãe o fará.



 



    Confesso que espero que ele não resolva nada, e possamos reagir à nossa maneira, mas tenha certeza que de um jeito ou de outro te libertarei no segundo em que o prazo dele acabar, pois ou já teremos lidado ou isso ou… Bem, eu não te deixaria fora da brincadeira, não sou um pai completamente desnaturado - não importando o que você provavelmente tenha pensado nas últimas horas.



 



    Um pouco de paciência, minha cara, e esperança… pois amanhã poderemos ter um pouco de diversão à moda antiga.



 



    Seja como for, até amanhã, minha cara filha. E obrigado pela paciência, por mais que eu saiba que você não a teve de fato.



 



L.V.”



 



    Logo que Melinda terminou de ler, o papel começou a pegar fogo pelas bordas até desaparecer. Draco, que ainda estava atordoado atrás dela, abriu e fechou a boca diversas vezes, tentando organizar seus pensamentos em frases completas, estendeu a mão na direção em que antes estivera o papel, franzindo o cenho em confusão.



    — Corrija-me se eu estiver errado… — ele começou a falar, mais balbuciando do que qualquer coisa no início. — Mas, ele não disse nada…? Digo, nada importante o suficiente para mandar uma carta carregada de maldições de sangue e que se auto destrói? — o tom dele beirava a indignação e, como se suas palavras o tivessem lembrado de algo, ele convocou rapidamente a própria varinha e, segurando a mão direita de Melinda, iniciou um feitiço para fechar o corte ainda sangrando no dedo da garota.



    Melinda, por sua vez, sorria olhando para o nada, como se houvesse decifrado algo extremamente importante que Draco ainda falhava em enxergar. Negando com a cabeça, quando o corte já havia sido totalmente curado, a Princesa das Trevas encarou o namorado com a expressão mais bem humorada que ele havia visto em dias, provavelmente semanas.



    — E é aí que se engana, amor. — Melinda sussurrou e mordeu o lábio inferior, animada. — Essa carta, se caísse nas mãos erradas, causaria infinitamente mais problema do que você imagina. Porque nela eu vi um Lord Voldemort que não via há meses, meu verdadeiro pai em toda sua sede de vingança, e não Sua Majestade o Rei da Inglaterra, com toda sua pose diplomática e conciliadora face a seus inimigos. Ele admite que está torcendo para Kinsgley falhe e nós possamos, bem, ser nós mesmos. — o sorriso dela se abriu ainda mais, e a garota deu de ombros. — Não que qualquer um pudesse esperar nada diferente dele, é claro, mas dizer as palavras pode ser perigoso, principalmente em relação a um ato que poderia começar uma nova guerra… E é aí que as coisas não se encaixam.



    Passando por Draco, e quase deixando de ouvir o questionamento do namorado sobre o que não se encaixava, Melinda sentou-se à beira da cama e silenciosamente pensou por mais alguns momentos, arrancando uma expressão frustrada do namorado, por mais que um teimoso sorriso de curiosidade e orgulho insistisse em se formar no canto dos lábios dele. Mesmo nua e com diversas marcas pelo corpo provenientes da tarde de diversão que eles haviam dividido, Melinda exalava, em toda sua compenetração e foco, extrema inteligência e era quase como se ele pudesse ver os estratagemas saindo de seu cérebro e tornando-se tangíveis no ar ao redor dela. Merlin sabia que ele acreditava no poder dela o suficiente para de fato se perguntar se um dia ela não seria capaz de materializar pensamentos. O coração dele chegava a afundar em seu peito de imaginar que algo que ele pudesse ter feito nos últimos meses fosse atrapalhar o que eles tinham e o impedir de assistir o que ele acabara de imaginar, e aquilo só intensificava a necessidade que ele tinha de conversar com Voldemort e acertar o que quer que fosse que estivesse errado entre ele e o poderoso sogro.  



    — O que aconteceu ontem é, no mínimo, um ato de terrorismo, se não for uma declaração de uma nova guerra. — Melinda, finalmente, falou e tirou o namorado de seus pensamentos. — E é evidente que nenhum dos lados quer uma nova guerra tão rápido. Tudo bem que eles estão quase dizimados e, mesmo que nossos ranques também não estejam em sua total força, nós com certeza os iríamos derrotar, mas meu pai não tem planos de governar sobre países terraplanados. — Draco assentiu. — Essa é uma das razões pelas quais ele aceitou os termos do acordo de paz, e porque criamos toda a estratégia de aceitação, porque precisamos de súditos sobre os quais reinar. O ponto sendo: uma declaração de guerra tão cedo é um problema enorme, então meus pais provavelmente tratarão o que aconteceu como um ato de terrorismo, caso Kingsley falhe, e o resolverão prontamente como um caso isolado.



— Exceto pelo fato de que não podem matar Harry Potter, e aprisionar O Menino que Sobreviveu não falaria muito pela popularidade de seu pai. — Draco ponderou, causando uma careta na garota, que não teve opção a não ser concordar com a cabeça. — E a última coisa que seu pai quer, além de uma guerra, é uma revolta.



— O que ascende minha curiosidade sobre como eles pretendem lidar com isso, apesar de eu ter algumas teorias, mas não é o que está me incomodando… Draco, um ato de guerra ou de terrorismo, que seja, ocorreu ontem à noite. Você acha mesmo que meu pai levou vinte e quatro horas para decidir que ia dar mais vinte e quatro a Shacklebolt? — Draco deixou o queixo cair, como se finalmente a linha de pensamento de Melinda tivesse se tornado clara a ele.



— Jamais. — a voz dele era um misto de curiosidade e choque. — Não, a decisão dele não deve ter passado dessa manhã, principalmente porque envolveu a tia Bellatrix. — Melinda sorriu em resposta e arqueou uma sobrancelha. — Então…



— O que pode ter acontecido para meu querido papai ter levado um dia inteiro para nos avisar, ou melhor ainda, dar instruções a Oliver?  Meu pai é tudo menos displicente em suas estratégias e planos, tanto que essa escapatória de emergência estava combinada com Oliver provavelmente há meses, e eles devem ter outras… Um homem que planeja tudo com tanta antecedência e tem tanto controle sobre seus ranques, deixaria logo o cavaleiro de sua única herdeira sem ordens por tanto tempo? Algo está bem errado, e ele não deixou nada escapar nem na minha carta nem na do Oli... — Draco não perderia seu tempo em perguntar como ela sabia o que a carta de Oliver dizia, já que resposta era tão óbvia: Legilimência. Não era como se Oliver fosse tolo o suficiente para usar Oclumência na presença da Princesa das Trevas.



— E como você pretende descobrir? — Melinda suspirou desolada, de forma excessivamente dramática, e Draco franziu o cenho, segurando a risada.   



— Não pretendo. Temo, meu amado Draco Malfoy, que se meu pai não quer que eu saiba o que aconteceu eu nunca descobrirei. — Melinda cruzou os braços, ainda teatralmente parecendo de coração partido. — Meus poderes de Legilimência podem ser incríveis, mas ainda são apenas uma sombra perto dos dele.



— Vamos ficar na curiosidade pra sempre? — ele soou mais desesperado do que queria.



— Infelizmente…



— E a tia Bella? Ela estava lá! Você pode descobrir na mente dela o que aconteceu…



— A mesma Bellatrix que passou anos escondendo o pequeno fato da minha existência do Legilimente mais poderoso do mundo? — ela negou com a cabeça. — Minha mãe consegue me bloquear com Oclumência para sempre se quiser, o que é bem frustrante aliás, e se meu pai ordenou que ela não falasse… esses pensamentos estarão escondidos debaixo de infinitas portas, e eu levaria anos para quebrar todas sem que ela percebesse.



Draco cobriu o rosto com as mãos, mentalmente amaldiçoando Melinda por ter dividido suas teorias com ele, e levantando sua curiosidade somente para lhe dizer que nunca descobririam a resposta para aquela pergunta. Algo havia, com certeza, acontecido e ele daria tudo para descobrir o que fora, mesmo porque uma pequena parte dele acreditava que aquele conhecimento poderia ser útil em sua conversa com Voldemort, mas era inútil pensar em possibilidades que nunca seriam realistas.



— Nesse momento, eu te odeio. — ele confessou, e Melinda deu risada. — Agora eu nunca vou conseguir parar de teorizar sobre isso!



— Nesse momento, eu me odeio, meu amor. — Melinda se levantou e caminhou até o namorado, segurando a lapela do roupão que ele usava com ambas as mãos. — Às vezes, eu queria ser menos inteligente… A vida seria menos frustrante.



Draco rolou os olhos e negou com a cabeça, murmurando um simples “Não queria não.” que Melinda nunca respondeu. Estranhamente, ela abriu o roupão que ele vestia e começou a tirá-lo do corpo do garoto sem aviso, mas antes que Draco pudesse fazer algum comentário sobre as ações dela, Melinda se afastou dele na direção da porta, vestindo o roupão no caminho.  



— O que você…?



— Alguém precisa garantir que meu estimado cavaleiro descanse. — Melinda respondeu, com a mão na maçaneta. — E eu não posso sair do quarto só com o lençol, né?



— Seu pai esqueceu de dizer a ele que não vamos ter nenhuma novidade até amanhã?



— Não, ele disse. Mas digamos que Oliver é um tanto… Viciado em trabalho. — Melinda esclareceu, recostada à porta, enquanto Draco rolava os olhos e se dirigia à cama. — E ele não entende que não pode me proteger se estiver caindo de exaustão.



— E o que te faz pensar que ele vai te obedecer, se ignorou seu pai? — O loiro perguntou, colocando-se confortavelmente debaixo das grossas cobertas, enquanto Melinda abria a porta com um sorriso divertido e dava de ombros.



— Ah, mas obedecer é uma palavra muito forte, Draco. Mesmo porque eu não pretendo ordenar nada, e sim pedir com jeitinho… E você sabe que pouquíssimas pessoas conseguem negar um pedido meu, e Oliver não é uma delas. — Melinda piscou e, fechando a porta atrás de si, murmurou um “Me espera acordado?”. Ela nunca ouviu o “Sempre” que ele respondeu, mas Draco riu-se ao perceber que ele também era uma das pessoas incapazes de dizer não aos pedidos dela.



 



A luz de velas vinda da sala da Mansão Riddle confirmara as teorias de Melinda sobre a desobediência de Oliver, que ela encontrara sentado no canto da sala, um copo entre os dedos - provavelmente a poção que o mantinha acordado aquele tempo todo. Quase dois dias? Provavelmente. Ele não encontraria ingredientes naquela casa para produzir aquilo, não mais, então só podia significar que ele trouxera consigo ou que alguém, provavelmente ele mesmo, preparara e equipara a casa para aquele tipo de emergência. A bruxa não conseguiu segurar um sorriso de orgulho ao pensar naquilo, que seria quase impressionante, mas ela não esperaria menos do jovem que seu pai escolhera para acompanhá-la. Brilhante era o mínimo aceitável.



— Insubordinação… Não sabia que fazia parte de seu estilo, Ashworth. — Melinda comentou, da porta da sala, divertindo-se um pouco demais com o pulo que Oliver deu, colocando-se de pé imediatamente, apenas para lembrar-se de sua posição e fazer uma desajeitada reverência.



— Sua Alteza Real… Perdão, mas… Não compreendo, o que fiz? — o jovem deixou de lado o copo que segurava, enquanto Melinda se aproximava lentamente. — Para ser insubordinado, digo eu.



— Não é o que você fez, e sim o que não fez. — Calma e quase carinhosamente, Melinda respondeu. — Corrija-me se estiver errada, Oliver, mas meu pai não lhe avisou que não teríamos nenhum novo acontecimento até amanhã? — Ele assentiu, e ela se sentou em uma das poltronas, indicando para que ele se sentasse à sua frente. — E não te liberou para descansar?



Sentando-se sem discutir, Oliver abriu e fechou a boca diversas vezes, buscando a melhor forma de responder à pergunta de Melinda sem mentir para a princesa. Não que ele fosse conseguir, já que a menina podia literalmente ler seus pensamentos. Envergonhado e possivelmente corando, ele se limitou a fitar o próprio colo em face da pergunta obviamente retórica.



— Imaginei que sim… O que eu não compreendo é como você espera me proteger caindo de exaustão?  — Melinda cruzou os braços e acenou na direção da poção. — Ou carregado disso aí? É útil, eu sei, mas desnecessário agora. Oliver querido, votos perpétuos não entendem falhas baseadas em devoção exagerada como menos negativas… — Apesar do tom sério, Melinda sorria, e Oliver sorriu de volta, sem conseguir resistir aos estímulos dela.



— E eu pensei que você não precisava de proteção, alteza? Ou de uma armadura…? — a provocação de Oliver não fez nada além de aumentar o sorriso da garota, que sentia que eles viriam a se dar muito bem no futuro que os esperava.



— E não preciso, mas nós não queremos perder um rostinho tão encantador em nosso exército por besteira, queremos? — Melinda mordeu o lábio e ele ficou sem palavras, o que apenas a encantou mais. — Como eu esperava. Durma um pouco, Oli, por mim?



— Oli? Isso significa que posso te chamar de “Mel”, alteza?



Melinda levantou-se, com um sorriso divertido, e pensou por alguns momentos, andando ao redor da poltrona em que Oliver estava sentado e parando logo atrás dele. Sem olhar para trás, Oliver segurou a risada, sabendo que seu atrevimento estava passando de um limite saudável, talvez influenciado pela falta de descanso e excesso de poções.



— Um dia, quem sabe, meu caro. Alteza está bom, por enquanto. — Por mais que ela tentasse se manter séria, sua voz estava falhando miseravelmente em ajudá-la. — Agora, venha comigo. — Melinda estendeu a mão e Oliver a pegou sem pestanejar, com mais rapidez do que ele gostaria de ter reagido, seguindo-a para fora da sala.



— Para onde estamos indo, alteza? — ele perguntou, pouco depois de saírem da sala, enquanto ela o arrastava escada acima.



— Estamos indo arrumar uma cama para você descansar, ou acha mesmo que vou deixar você dormir no sofá? O que diriam sobre como a Princesa das Trevas trata seus súditos? - Melinda respondeu, andando sem problema no escuro pelos corredores antigos que por tanto tempo chamara de lar, guiando um impressionado e curioso Oliver até uma porta extremamente familiar.



A porta ainda rangia nas dobradiças, mas o quarto estava magicamente limpo demais, e exatamente da mesma maneira que ela deixara a última vez que ali estivera. Quando ambos passaram o portal, a antiga lareira e as velas se acenderam. Oliver parecera impressionado, mas Melinda estava somente feliz que seu antigo feitiço ainda funcionava.



— Era uma vez uma garota que era conhecida como princesa mesmo antes de seu pai se tornar rei, que foi gerada para herdar um reino que ainda não estava formado, mas só soube de seu legado quando já tinha quatorze anos... — ela passou os dedos pela antiga penteadeira. — E, então, ela tomou posse de uma vez de todos o seus direitos, e teve os melhores anos de sua vida.



— E o nome dela…? — Oliver já sabia a resposta, e ela apenas sorriu.



— Poucos sabiam, na época, mas o mundo inteiro viria a conhecer em tempo. Bem vindo, Oliver Ashworth, aos primeiros aposentos reais da Princesa das Trevas. — Melinda girou ao redor de si mesma, estendendo os braços, e Oliver deixou-se rir. — Que, por esta noite e somente esta, lhe serão emprestados em agradecimento por seu tão empenhado serviço nos últimos dois dias. Aproveite, poucos tiveram essa honra.



Oliver lambeu os lábios, incerto, e observou como ela estendeu o braço na direção da cama, coberta por lençóis e cobertores negros, sem os brasões daqueles da Mansão Slytherin, mas igualmente elegantes e bordados com fios de prata.



— Deixe-me ver se eu entendi, alteza, eu ainda não posso chamá-la por seu apelido, mas posso dormir em sua cama? — o jovem perguntou, não soando nem perto do quão desconfortável ele esperava ter parecido, e andou na direção da cama, enquanto Melinda reagia a seu comentário com uma nada contida risada.



— O que posso dizer? Bem vindo a essa família, Oli! Como você pode ver, nós somos um tanto quanto peculiares… Mas tenho um pressentimento de que você se acostumará rapidamente. — com uma piscadela, Melinda andou na direção da porta. — Bom descanso, meu caro cavaleiro, você o mereceu. — a princesa desejou da porta —  Ah, e eu vou saber se você não descansar, então não tente me enganar! — e saiu sem esperar qualquer resposta ou protesto.



Oliver poderia jurar que, pouco depois da saída de Melinda, ouvira a voz da garota em sua mente. “Obrigada por me proteger de mim mesma.”, ele imaginara ter ouvido, mas não devia ser nada além disso, sua imaginação e sua mente exausta lhe pregando uma peça, ele estava certo. Tirando a capa de viagem e as desconfortáveis roupas do baile, ele se enfiou debaixo das confortáveis cobertas que cheiravam a alguma flor que ele não conseguia reconhecer, mas o aroma tinha um estranho efeito calmante que o levou a um profundo sono em poucos minutos. Uma parte dele pensava em agradecê-la, na manhã seguinte, mas ele conhecia a garota o suficiente para saber que ela agiria como se nada tivesse acontecido. “Bem vindo a essa família”, ela poderia fingir que não disse, mas ele jamais esqueceria de ouvir.





 



Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts - 2 de novembro de 1998



 



    Bellatrix não havia levado em consideração, ao dar o prazo a Kingsley Shacklebolt, o simbolismo que aquela segunda feira de outono carregava. O aniversário de seis meses do fim da guerra amanhecera frio e cheio de tensão para todos os envolvidos. O prazo para resolução daquele atentado acabaria em poucas horas, e àquele ponto todos já sabiam ou imaginavam que Kingsley não chegaria a uma conclusão satisfatória.



— O que vocês esperam que eu faça? — Harry bateu na mesa da Snape, durante uma reunião de que somente os presentes tinham conhecimento, ocorrida pouco antes do amanhecer, acobertada pelo sono que ainda reinava sobre a escola e que não agraciara os infortunados que precisavam resolver um problema sem solução. — Me entregue algemado para Sua Maldita Majestade por ter ferido sua puta favorita?



— Harry, por Merlin, se controle. — o quadro de Dumbledore comentou, enquanto os outros diretores dormiam.



— Eu não vou me controlar, ou confessar, ou arrumar um bode expiatório. — ele enumerou as opções que lhe haviam sido dadas. — Nada me liga a esse caso, até onde eu sei a garotinha agiu sozinha, por mais que eu concorde com ela em número, gênero e grau.  — Harry piscou, e foi a vez de Kingsley socar a mesa. Ginny Weasley e Minerva McGonagall taparam os rostos cansados, Ron Weasley encarava seu colo como se fosse muito interessante, e mesmo Hermione Granger parecia perdida pela primeira vez na vida.



— Sim, Harry, nós sabemos que você foi muito esperto. — O tom de Kingsley beirava o sarcasmo. — Parabéns por não deixar pistas, todos estão muito impressionados. Exceto Voldemort que sabe que foi você e ao meio dia vai soltar sua carrasca e, como você tão eloquentemente colocou, puta favorita em cima de todos nós, porque você fez o favor de transformar sua vingança pessoal num ato de terrorismo! E você, ao menos, sabe o que isso significa? Que o que quer que ela fizer vai ser considerado legítimo e ela vai vir com todo o poderio do ministério atrás dela!



— Porque um bando de velhos idiotas se borraram de medo de um bruxo das trevas e, quando ele foi representado por um rostinho bonito em um vestido apertado e uma coroa brilhante, assinaram qualquer coisa que foi jogada na cara deles! — Harry cuspiu de volta. — Repita isso mais algumas vezes, e teremos o sonho de Voldemort realizado! Ah, mas é isso mesmo que está acontecendo, não é? A mesma porcaria de sistema sendo aprovado em todos os países, porque a pátria mãe assinou! Bando de palhaços que só pensam em seu próprio poder! Ele quebrou o poder do ministério em mil pedaços para ser mais fácil de controlar vocês, e tudo que passou pela cabeça de políticos de carreira foi como ficou mais fácil ser Ministro da Magia, ou ter uma cadeira no Ministério, não é mesmo? Quanto tempo, Kingsley, você acha que essa posição conciliadora dele vai durar? Quando vai passar a primeira lei polêmica, porque a casa dos comensais da morte vota junta, e a casa das pessoas que deviam ser decentes está ocupada tentando se matar? Eles precisam de um voto, em teoria, então acho que todos nós precisamos nos acostumar com eles vindo com legitimidade, com todo o poderio do Ministério atrás deles!



O silêncio que pairava na sala só confirmava a verdade nas palavras de um Harry que aparentava ter envelhecido dez anos nos últimos meses. Ninguém ali tinha como discordar das palavras do garoto, que eram tão reais quanto o ar que eles respiravam, mas nenhum deles parecia ter também uma solução para o problema a frente deles: um acordo de paz que mais parecia uma ode ao poder dos vencedores da guerra, com algumas concessões para fazer os perdedores felizes, as forças da Ordem da Fênix deixadas destroçadas, seu poder na sociedade diminuindo a cada dia que se passava, com a posição conciliadora de um Voldemort que, em meio a seus cuidadosos passos e ações, ia manipulando a opinião pública para não parecer mais assim tão mau, reconstruindo e fortalecendo o país destruído pela guerra que ele iniciara, enquanto cegava a todos com a resplandecência de sua corte, representada frequentemente por sua jovem filha, de aparência sempre tão inocente, e sua adorada general, cuja beleza parecia causar um sério problema de amnésia nas pessoas ao redor dela.



A verdade era: a narrativa era genial por si só, o fato de que ele era agora capaz de amar e tão frequentemente lembrava a todos daquilo com seu insuportável joguinho com Bellatrix, e sua aparente devoção a Melinda, eram somente a cereja num bolo que lhes enjoava, mas o que todos eles teriam era a cortante certeza do que aquilo faria em tempo com a memória coletiva e, se eles estivessem certos, tempo não faltava àquela maldita família.



— Bom, — Minerva foi quem falou, depois de vários minutos de desconfortável silêncio. — acredito que já temos nossa resposta. Harry quer se abster e levar tudo até as últimas consequências… E é direito dele. — apesar do olhar repreensivo de Kingsley e Snape, ela não se intimidou. — Foi dito aqui que a vingança é pessoal dele e, apesar de todo o histórico de guerra, isso não deixa de ser verdade. Ele teve suas perdas e, mesmo que o resto de nós tenhamos engolido nossa vergonhosa derrota, se ele quiser retribuição e enfrentar o que quer que venha por conta disso, a escolha é dele. Harry é um adulto maior de idade que, por uma vida toda, teve terceiros tomando decisões por ele, e não podemos negar a ele sua própria liberdade. É chegada a hora de pararmos de tentar protegê-lo de si mesmo, e a única coisa que podemos fazer é torcer para que ele não se arrependa de suas ações. — a voz dela era sem emoção, apesar de exausta.



— Obrigado, professora. — Harry agradeceu, levantando-se. — E eu sei que não vou. Ao meio dia, eles vão mostrar ao mundo todo quem eles realmente são, e nada poderia me fazer mais feliz. Quanto ao que pode acontecer a mim… Bem, se eu levar Voldemort comigo, estarei em paz... — Ginny Weasley fez menção de protestar, mas foi segurada por seu irmão. — Agora, se me dão licença, eu ainda tenho muitas horas de descanso antes do meio dia. — Harry saiu sem ouvir respostas, protestos, ou qualquer coisa que se seguiu, principalmente o comentário sensato de Hermione Granger.



— Só que nada vai acontecer, não é? — ela comentou, fitando a pintura de Dumbledore. — Harry atacou Bellatrix porque um ataque direto a Voldemort significa suicídio, e ele está certo de que vai escapar porque Voldemort tem ainda menos tendências suicidas. — os mais velhos assentiram, e ela arregalou os olhos. — Mas isso só significa que Harry em si está a salvo.



— E, aparentemente, muito confortável com isso. — Ron cuspiu, e andou na direção da porta. — Ele está seguro, então tudo bem! Merlin salve a todos nós que temos um maldito alvo nas costas, porque o digníssimo Harry Potter claramente não vai nos salvar! Como se pessoas o suficiente já não tivessem morrido para salvar a porcaria do “Escolhido”… — batendo a porta atrás de si, ele deixou a sala.





 



O despertar nos aposentos do Lorde das Trevas fora tão desconfortável quanto aquela incômoda e intensa reunião, apesar de ter uma característica muito mais velada e os presentes serem capazes de controlar os próprios temperamentos de forma muito mais eficaz.



Bellatrix, para sua própria maldição, por um segundo não se lembrou do que havia acontecido e, cega por seu estado ainda parcialmente adormecido, deixara seus dedos vaguearem pelo frio e vazio espaço a seu lado no colchão. Percebendo, em poucos segundos, onde estava e sendo assaltada por uma enxurrada de lembranças que ela preferia esquecer, ela bruscamente puxou a mão para si e mordeu o lábio inferior para evitar que lágrimas chegassem a seus olhos.



Ainda que seus movimentos não tivessem passado despercebidos por um Voldemort bastante acordado, ele fora frio e elegante o suficiente, ou até demais se ela estivesse sendo brutalmente sincera, para fingir que nada havia visto. O Lorde das Trevas tinha papéis demais em sua mesa e uma garrafa de uísque de fogo pela metade, tudo extremamente inapropriado tão próximo ao amanhecer.



— Majestade, — ela sussurrou, mortificada ao perceber que ainda estava nua como ele a deixara, doze horas antes, e apertou o lençol ao redor de seu corpo. - não o havia visto. Bom dia.



— Bom dia, vossa graça. Espero que tenha dormido bem, teremos um longo dia pela frente, e precisa estar em sua melhor forma. — a frieza na voz dele, tão similar ao tom de voz que ele usava com os outros Comensais da Morte e que não costumava utilizar ao falar com ela, mesmo bem no início, desde o dia em que se conheceram, fez com que um arrepio não convidado subisse a espinha da bruxa, que lutava para manter a própria expressão impassível. — Madame Pomfrey entregou mais potes de poção ontem à noite, enquanto dormia, eles estão em sua cabeceira. Tome-os.



— Sim, milorde. — feliz por conseguir manter a voz sem embargar, Bellatrix enrolou-se nos lençóis, e levantou-se da cama, analisando os potes de vidro cuidadosamente colocados na cabeceira. — Creio que escolherei tomar café da manhã na mesa dos professores, no salão Principal, hoje.



Acenando positivamente e voltando a se focar nos papéis a sua frente, murmurando um simples “como preferir”, Voldemort retomou seu aparentemente muito interessante trabalho. A calma e facilidade com que o Lorde interrompeu a comunicação quase a fez se perguntar se ele havia apertado um mágico botão que o fazia desligar os próprios sentimentos e esquecer os dois últimos dias. Mas, se o uísque na mesa e os dedos feridos, que ela percebera sem precisar olhar muito, pois os hematomas quase brilhavam contra a pele pálida, diziam alguma coisa era só que ele era um incrível ator.



Educadamente pedindo licença, Bellatrix se apressou a entrar no banheiro, e o deixou sozinho, perguntando-se se ele ainda estaria lá quando ela retornasse. A incrível atuação de Voldemort, contudo, se quebrou em pedaços no exato momento em que a porta se fechou, e o bruxo escondeu o rosto entre as mãos, usando tudo o que tinha em si para não quebrar o quarto a seu redor, a frustração e o ódio que o corroiam borbulhando dentro de seu corpo em uma corrida contra sua força de vontade para tirar o pouco controle que ainda tinha.



As petições do ministério à sua frente, que não deixavam de chegar onde quer que ele estivesse, nunca pareceram tão entediantes, e o impulso de assinar todas elas sem nem mesmo ler era quase irresistível, mas no dia anterior ele havia prometido a si mesmo e a Bellatrix que não mais deixaria sua situação com ela afetar seu governo e ele não o faria. Focara seis meses de seu reinado naquela mulher, dedicando todas as suas forças, poder, e cada respiração em buscar o perdão dela, em trazê-la de volta, e estava cansado de provar que todos estavam certos e deixar que aquilo tudo o enfraquecesse. Por mais que doesse mais do que qualquer coisa que ele já experimentara, era a hora de seguir em frente e deixar nas mãos do Destino o que aconteceria com eles, e não mais deixaria que as esperanças, que insistiam em tentar se manter vivas dentro de si, o tirassem de seu foco.



Respirando fundo e focando suas energias em entender e avaliar cada uma das petições à sua frente, apesar da tentação de ouvir a banheira a se encher, e de todas as suposições e lembranças que aquele som trazia a sua ainda desconfortavelmente vulnerável mente. Bellatrix estava certa em um aspecto de toda sua extrema reação, quando se mudara para a França seis meses antes: a distância era o melhor meio de lidar com tudo aquilo, ou pelo menos o mais fácil, pois aquela proximidade perigosa onde os dois acabavam por sempre terminar era uma desnecessária tortura. E, se ele fosse franco, um pedido para que deslizes como os dos dois dias anteriores ocorressem. Uma semana antes, ele teria torcido para que eles deslizassem tanto quanto possível, mas após aquela breve e dolorosa reconciliação, beirando o que poderia ser chamado de traumatizante, ele percebera que não mais se interessava por esse tipo de pequenos pedaços de felicidade. Se era para tê-la de volta sempre temendo que o mínimo desentendimento a assustaria de volta à França, ele preferia a separação. Pegando a varinha em sua frente, Voldemort silenciou o banheiro, e novamente pôde ter paz para trabalhar e engrandecer o império que estava criando. Seu sonho, mesmo que seu teimoso cérebro insistisse em querer utilizar a palavra ‘nosso’.



Quando Bellatrix saiu do banheiro, muitos minutos depois, já completamente vestida com um sóbrio e elegante vestido bordô, Voldemort internamente rolou os olhos com a escolha de cor, por mais que externamente não demonstrasse reação alguma. A parte de cima do vestido, que ele se perguntava se ela havia conjurado ou trazido consigo a Hogwarts, era de grossa lã e se sobrepunha na frente do corpo da bruxa cruzando-se na altura da cintura dela, e formando um decote em “V” que estranhamente lembrava uma gola alta devido à forma como a lã armava e se projetava.



Os ombros da bruxa estavam quase nus, somente com uma pequena parte do vestido os cobrindo, antes que as longas e apertadas mangas se iniciassem e cobrissem não somente seus braços, mas até metade de suas mãos. Era interessante como aquela parte superior da vestimenta lembrava incrivelmente uma malha de lã, apesar de ser parte de um vestido e de um decote tão profundo tornar a roupa incapaz de esquentá-la apropriadamente. Ainda mais inesperado era o fato de a longa saia ser feita de um pano tão fino e delicado que seria definitivamente transparente se não estivesse em tantas camadas. Saias de tule eram, definitivamente, mais comuns em Melinda, mas a exagerada fenda lembrava a todos quem a estava vestindo.



Voldemort não pôde deixar de notar, para seu próprio desgosto, que ao redor da estupidamente minúscula cintura de Bellatrix, que com certeza estava usando um corpete debaixo do vestido, diversas rosas feitas tanto do tecido de lã quanto do tule enfeitavam a junção dos dois tecidos tão diferentes, limitadas às costelas e à fenda no quadril da bruxa. Novamente, a escolha da mulher o irritava e intrigava em medidas iguais.



De resto, como se quisesse dar um tom mais sério e sóbrio, ela havia prendido os cabelos em um simples coque na nuca e escolhera não usar jóia alguma além do anel de esmeraldas, sua horcrux, que ainda estava em seu dedo. Sem conseguir esconder sua reação, Voldemort assistiu quando os olhos dela caíram sobre o próprio anelar esquerdo. Lambendo os lábios cuidadosamente pintados num tom de bordô similar ao do vestido, e inconscientemente escondendo uma mão atrás da outra, ela limpou a garganta.



— Imaginei que, como originalmente quis que eu fosse a guardiã, talvez…



— Sim, é claro, mantenha-o. Faz todo o sentido. — Voldemort respondeu imediatamente, levantando-se da cadeira e organizando os papéis a sua frente. — Ele estará mais seguro com você do que comigo. Longe de meus inimigos. — Ele ouviu-a engolir seco às suas costas, e sentiu os papéis tremerem em suas mãos.



— Milorde… — ela começou, incerta.



— Não. — Voldemort girou nos calcanhares para encará-la. — Bella… Nós falamos tudo o que tínhamos para falar, e duvido que qualquer uma de nossas posições tenha mudado desde ontem, correto? —  Bellatrix não teve outra opção que não fosse assentir, fitando os próprios sapatos. — Como eu pensei. Então, por Merlin, façamos um pacto de não tornar esse dia mais difícil do que será por natureza. — Quase a contragosto, Voldemort colocou a longa casaca que estava repousada no encosto da cadeira, e estendeu o braço a ela. — Por favor?



Bellatrix engoliu seco e se aproximou dele a passos curtos e trêmulos, respirando fundo, mas evitando contato visual a todo custo. Ela não sabia ao certo o que faria caso se deixasse perder novamente nos olhos vermelhos de seu Lorde, e a proximidade era torturante o suficiente sem que ela criasse armadilhas para si mesma. Ele estava certo, por mais que doesse, e ela agradecia a escolha de roupas longas para o dia frio, pois não sentir o toque dele ao aceitar seu braço fez as coisas serem um pouco mais simples.



— É claro, majestade, tem toda a razão. Não há motivo para remoermos, falar mais sobre tudo nos trará apenas dor. — ela forçou um sorriso e convocou uma das garrafinhas de poção. — Para facilitar tudo, vou pedir a Snape que eu seja movida para o quarto que originalmente foi separado para mim.



Andando com ela em direção a porta, Voldemort negou com a cabeça, e friamente explicou como aquilo traria somente mais suspeita, lembrando-a de que a desculpa que fora utilizada para ela estar ali fora a segurança. — Não é como se o perigo houvesse simplesmente sumido, não é mesmo? Além do que, se tudo for como no plano, não passaremos mais uma noite em Hogwarts. — Bellatrix se limitou a assentir, enquanto se dirigiram ao Salão Principal, num silêncio sepulcral que fazia os corredores parecerem ainda mais frios.



Chamar todo o café da manhã que se sucedera de tenso seria um imenso eufemismo, em se tratando da primeira aparição pública de Bellatrix após o ocorrido, e com certeza grande parte daquelas crianças nunca comera tão rápido. Também, ainda sem um culpado apontado, e com os adultos tão claramente desconfortáveis, não era de se imaginar que algo estava para acontecer. A falta de algumas pessoas, como Harry Potter, fora mais um detalhe que intensificara a atmosfera pesada.



Um bilhete, contudo, com instruções para uma configuração específica da Sala Precisa e um horário, mudaria todo o curso daquele dia. Bellatrix o recebera misteriosamente debaixo de seu prato, e encontrara Voldemort a encarando com um similar entre os próprios dedos. Discretamente, eles repararam que eram os únicos que haviam recebido qualquer comunicação do tipo e, pedindo licença, se retiraram com calma para não levantar suspeitas.



— Isso é, com certeza, uma armadilha. — Voldemort sussurrou, pouco tempo depois que eles deixaram o Salão Principal, e Bellatrix respondeu negando com a cabeça.



— Pra mim parece muito mais alguém que sabe de algo. Eu sinto o cheiro de traidores a quilômetros, como você muito bem sabe, milorde… — Bellatrix arqueou a sobrancelha, não podendo perder a oportunidade de alfinetar, e Voldemort permitiu-se rir por um momento. — E um bilhete misterioso com informações para um encontro, no último dia de Kingsley, grita traição. Além do que… — ela mordeu o lábio inferior. — Quantos bruxos seriam necessários para derrotar a nós dois? Quem conseguiria montar uma armadilha dessas em Hogwarts tão rápido?   



— Eu jamais disse que seriam bem sucedidos, minha cara, mas a tolice… — ele deixou de falar, quando um grupo de primeiranistas passou por eles, fazendo reverências desajeitadas e escondendo sorrisos constrangidos. Bellatrix mordeu o próprio lábio para não xingar as pobres crianças e suspirou aliviada ao notar que estavam sozinhos novamente. — A tolice dessa gente não conhece limites.



— Se não seriam bem sucedidos, — ela abriu um sorriso que estava a meio centímetro de ser animado demais. — o que temos a perder?



Voldemort abriu e fechou os finos lábios algumas vezes, inconscientemente guiando-a na direção da Sala Precisa. Eles ainda tinham horas até o suposto encontro, de modo que nem mesmo ele entendia o porquê de estar se dirigindo tão cedo ao lugar, mas no pior dos casos aquela sala sempre se mostrava um lugar apropriado para pessoas que chamavam atenção como eles se esconderem. No fundo de sua mente, ele escondia os protestos desesperados baseados no que acabara de acontecer a ela, porque era evidente que Bellatrix jamais seria convencida a não participar do tal encontro.



— Aparentemente, nada. — ele respondeu, derrotado. — Juízo claramente não faz parte de seu vocabulário, minha querida.



— Nunca fez. — Bellatrix deu de ombros. — Além do que, sou sua general, temer e proteger fazem parte de minha descrição de cargo, não da sua. Aliás, você nem deveria estar indo nessa coisa, pra começar.



— Fora de cogitação.



Juízo claramente não faz parte de seu vocabulário, meu querido. — uma pequena parte de Voldemort queria esgana-la por citá-lo, a outra queria beijá-la pelo mesmo motivo. Aquela dualidade sempre fizera parte da relação dos dois e nada parecia ser capaz de mudar aquela realidade. — Não negue, está tão animado quanto eu. Quem será o traidor?



Apesar de não respondê-la verbalmente, limitando-se a assentir com um breve aceno de cabeça, Voldemort não podia negar o quão certa Bellatrix estava. Em meio a tantos tratados, reuniões e compromissos oficiais, um acontecimento como aquele, tão similar aos tempos de guerra, era quase um alívio.



De acordo com as instruções, a Sala Precisa abriu-se em frente ao casal com tremenda facilidade e a configuração do cômodo em frente a eles lhes concedia algumas pistas quanto à identidade de seu misterioso anfitrião. A sala havia se transformado numa mistura curiosa do Três Vassouras com o Caldeirão Furado, o que era um detalhe interessante para aquele tipo de negociação, mas as diversas canecas de cerveja amanteigada denunciavam a pouca idade da pessoa que imaginara aquela específica aparência.



Bellatrix deixou escapar uma risada ao ver a bebida que não tocara seus lábios em décadas, o aroma trazendo à tona lembranças de um tempo distante que já parecia parte de outra vida. Curiosamente observada por Voldemort, ela delicadamente passeou com os dedos pela borda de uma das canecas, tentativamente, como se analisasse se devia ou não aceitar a oferta da sala, ou do misterioso traidor.



— Arriscado demais? — ela perguntou, mordendo o lábio inferior, mais curiosa do que receosa. — Temos meia dúzia de canecas nesse lugar, devemos adivinhar quais estão envenenadas ou não? — a bruxa recostou-se na mesa, observando como Voldemort negava com a cabeça.



— Nenhuma está. — ele afirmou, com tranquilidade e ela franziu o cenho, tentando parecer confusa, por mais que o sorriso em seus lábios a traísse ao demonstrar diversão. — Em primeiro lugar, ninguém tentaria o mesmo truque em tão pouco tempo, precisamente porque desconfiaríamos de qualquer bebida oferecida. — Bellatrix assentiu, forçando o corpo para cima para sentar-se sobre a mesa. — E em segundo lugar, essas canecas não foram propositais. A forma aleatória como estão distribuídas e sua quantidade alta mostram que não são meramente um detalhe e sim parte fundamental da referência que quem quer que seja nosso traidor tem de um bar. No caso...



— O Três Vassouras.



— Exatamente.



— Bom, não posso culpar o tal traidor, aquele lugar cheira a Cerveja Amanteigada, nem mesmo eu consigo desvincular. — Bellatrix riu-se. — Mas nos leva ao ponto: definitivamente adolescente.  



— Sem dúvidas. — Voldemort não se deu ao trabalho de esconder o desapontamento, e descarada falta de paciência, em sua voz.



Bellatrix limitou-se a recolher uma das canecas e estudar o objeto por alguns instantes, curiosidade evidente em suas belas feições, enquanto convencia-se de que a frustração de Voldemort não tinha fundamento. Lambendo os lábios, ela voltou a fitar seu mestre, que a estava observando num estranho misto de diversão e descrença.



— Se estamos falando de um adolescente que alega ter informações importantes, considerando que a criatura esteja correta e o que quer que venha a nos dizer tem algum valor…



— Uma quantidade abusiva de “ses” nesse raciocínio, minha cara.



— De fato, mas acha mesmo que um adolescente teria os culhões de nos fazer perder tempo? — Bellatrix esclareceu, dando de ombros. — Duvido muito. Eles eram grandinhos na guerra, sabem quem realmente somos, e só nos chamar numa sala vazia já demanda coragem demais para ser uma brincadeira ou inutilidade. O que me leva a meu ponto: se estamos falando de um adolescente com algo de valor a nos oferecer, de qual dos amigos íntimos de Harry Potter estamos falando? Ou teria Potter sido estúpido o suficiente para ser visto ou pego por alguém distante?



— Não sei se ter as duas opções igualmente prováveis é mais exasperante ou esperado. — Voldemort respondeu, puxando a cadeira a frente de si e sentando-se com desalinho impressionante vindo dele, que sempre era tão perfeitamente composto. — De qualquer forma, a possibilidade de um traidor próximo a ele é encantadora demais para ser ignorada.



Apoiando-se na mesa à sua frente, com seu braço incomodamente posicionado para não tocar a coxa de Bellatrix, que era como sempre incapaz de sentar-se em cadeiras como propriamente devia, ainda que de forma inconsciente e assim iniciar mais uma discussão ou situação incômoda, Voldemort pôs-se a encarar a bruxa acima de si, usando todas as forças que tinha para não adentrar a mente dela.



— E fica ainda mais interessante quanto mais tentamos descobrir quem é. — Displicentemente, Bellatrix passou o dedo na borda da caneca, recolhendo um pouco do líquido e trazendo-o aos lábios, sob olhar censurador de Voldemort. Rolando os olhos, ela terminou de lamber a bebida de seu dedo e suspirou. — O que foi? Até parece que você não bebia isso em Hogsmeade! Por Merlin, é quase parte do cardápio oficial do ano letivo em Hogwarts!



— Sim, eu bebi. Entre…. 1940 e 1944? — ele arqueou a sobrancelha, ainda incrédulo. — Quando era menor de idade e não podia beber outra coisa oficialmente? E eu imaginei que você teria parado com isso nos anos 60?



— E parei… mas não pode negar que atiça a curiosidade…



— De provar que nossas lembranças adolescentes não são nem de longe tão interessantes quanto parecem?



— Não. De provar que o mesmo sabor tem um gosto diferente nas lembranças e percepções de várias pessoas. — Bellatrix levou a caneca aos lábios, deixando seu paladar ser inundado pela tão familiar mistura de baunilha e butterscotch. — É. Definitivamente não tem o mesmo gosto da versão do Três Vassouras. Ou pelo menos do que eu me lembro. — ela deu de ombros. — Essa versão baseada na lembrança de nosso traidor favorito é bem mais sem graça.



— Bellatrix, você não vai me convencer a beber Cerveja Amanteigada aos setenta   e um anos de idade. — Voldemort assegurou, negando com a cabeça e Bellatrix rolou os olhos, entediada.



— Será que sua versão mais divertida também é só uma construção das minhas lembranças? Ou teria eu imaginado? — Bellatrix provocou e estendeu a caneca. — Mas nem pela curiosidade? Pelo… conhecimento de como a memória afetiva funciona?



— Passo a oportunidade de esclarecimento. — Voldemort respondeu, mal humorado e empurrou a caneca com cuidado de volta na direção da bruxa, ainda que seus instintos mais primitivos em junção com a raiva que começava a crescer dentro de si desde a noite anterior lhe fizessem desejar ter ignorado a educação e arruinado o vestido dela com aquela porcaria açucarada. Mais uma queda de braço entre as vontades dos dois era tudo o que eles não precisavam naquela situação em que estavam, mas Bellatrix não parecia querer colaborar.



Franzindo o cenho e rolando os olhos, numa expressão tão infantilizada quanto a bebida que segurava, na visão do bruxo, Bellatrix suspirou ainda mais dramaticamente e bateu a caneca na mesa, levantando os dois braços em rendição.



— Que seja, se o grande Lord Voldemort, sempre tão ávido por poder e conhecimento, se recusa a participar de uma experiência empírica, quem sou eu para tentar convencer Vossa Majestade. — por mais que Bellatrix tivesse forçado seu tom para parecer brincalhão, Voldemort não pareceu assim tão impressionado com a suposta brincadeira da mulher e afastou-se bruscamente, levantando-se da cadeira num ímpeto e virando as costas para ela.



— Eu não vou beber essa porcaria só porque você quer e pediu com jeitinho, Bellatrix. — a resposta ríspida não causou surpresa após a reação, mas a forma como ele não se dera ao trabalho de esconder a própria raiva acendeu toda e qualquer defesa interna que Bellatrix houvera desligado nos dias anteriores. E não foram somente suas guardas que mais uma vez haviam despertado, mas também as mágoas que preferira engolir em nome da causa e de todo o trabalho que teriam naquele dia.



A resposta dele queimara muito próxima a feridas ainda sangrentas, e o sangue de Bellatrix não mais podia ser impedido de ferver dentro de suas veias já cansadas do controle que exercera em sua vida toda e, em especial, nos meses que antecederam aquele momento. Ela estava exausta e, se ele não ia facilitar, não mais pretendia assumir todo o custo daquela interminável guerra em que eles haviam se enfiado. Lambendo os lábios e cerrando os olhos e punhos, ainda que ele não pudesse ver, ela deu de ombros e deixou que seus pensamentos tomassem forma - mesmo que tivesse certeza de que ele já os ouvira minutos antes de sua voz tomar conta da sala.



— Bom, não é como se eu tivesse o direito de estar surpresa. — ela desceu da mesa, cuspindo as palavras com um tom de desgosto que beirava o nojo. — Minha vontade jamais foi importante o suficiente para ser levada em consideração por vossa majestade em casos significativos, por que seria diferente em futilidades? Ilusões de uma tola serviçal.



Voldemort girou nos calcanhares com uma lentidão que ela poderia ter considerado, um dia, torturante, mas que havia se tornado somente irritante. Se ele pretendia intimidá-la, perderia o próprio tempo. Por mais que a bruxa tentasse se controlar, ela conseguia ver o próprio peito arfando enquanto ela usava todas as suas forças para não perder o controle de seus pulmões, enquanto o ódio pulsava dentro de si queimando como um vulcão, corroendo-a por dentro mais rápido do que ela podia ter sonhado.



— Supostamente.... — ele sibilou, quando seu olhar queimou sobre ela, frio e incandescente, de uma intensidade que costumava aterrorizá-la ou derretê-la. Naquele momento, contudo, o ódio dela não perdia em nada ao que ele mesmo reservara nos olhos escarlate. — Esta é a hora em que eu me arrependo de minhas ações? — Voldemort andou na direção da bruxa, que reprimiu o desejo de abaixar o olhar e engolir seco. — Que ao ouviur suas palavras feridas sinto o peso de meu próprio egoísmo e te peço perdão? — ele riu-se, a maneira como seus lábios tremeram traindo sua real convicção, mas continuou. — Poupe-me de artimanhas e manipulações, Bellatrix, pois sabe bem que contra mim neste campo você não é nada além de uma criança birrenta querendo jogar com os adultos. Acha mesmo que vai me ferir com joguinhos adolescentes? Eu diria para ser clara e dizer logo o que precisa, mas imaginei que havíamos deixado bem claro de que qualquer conversa que fôssemos ter sobre o que quer que nós tenhamos sido ficou no passado. Ao deixar aquele quarto, minha cara,  enterrei a única parte de mim que você teria a chance de ferir, aquela que jamais deveria ter existido. Não espere que a desenterrarei somente para sua distração.



— E eu imaginei que tivesse sido extremamente clara. — Bellatrix lambeu os lábios e arqueou uma sobrancelha em desafio. — Não entendi onde encontrou jogos e dubiedades, milorde, se tudo o que fiz foi citar um fato que nos circunda há tanto tempo e, se me permite o atrevimento, é a razão pela qual estamos aqui na atual situação. — Voldemort franziu o cenho. — Deixe-me esclarecer: sua teimosia e falta de consideração por meus desejos é a razão pela qual nos tornamos um maldito circo para essa gente toda e pintaram um alvo em minhas costas. E, além disso, se estamos falando em jogos, foram seus jogos que me colocaram aqui, ao alcance delas, se não estou errada majestade.



— Foi sua própria teimosia que pintou um alvo em suas costas, Bellatrix,  em mais de uma maneira. — ele devolveu. — E nem mesmo me refiro a ter ido embora, antes que comecemos o eterno ciclo em que tentamos encontrar o verdadeiro culpado por nossa atual situação, e sim a como tudo começou. — foi a vez da bruxa franzir o cenho. Voldemort aproximou-se mais, erguendo-se diversos centímetros acima de uma Bellatrix que não deixaria a diferença em altura ser usada como vantagem. — Você se tornou um alvo porque fez-me te amar. Sempre fora seu maior desejo e, em sua eterna teimosia, finalmente conseguiu tudo o que desejou. Primeiro, abrir caminho até minha cama, o que nunca foi suficiente, foi? — ele ergueu uma sobrancelha e segurou o queixo dela com uma delicadeza inesperada. — Uma vez se convenceu de que apaixonar-se por mim não se tornaria um problema, pois poderia amar por nós dois, mas isso foi uma mentira que contou a si mesma. Você queria mais, sempre quis. No fundo de sua alma, não podia deixar de desejar que tudo fosse um pouco diferente, por mais que o pensamento todo soasse para você como um tipo de sacrilégio. Não tente negar, minha querida, eu tive acesso livre a sua mente por décadas. Até que, por uma volta do destino, seu desejo impossível se realizou, o que somente aumentou o alvo em suas costas, um alvo décadas antes pintado por uma mulher que não se contentava em me ter e em ser minha, mas que fizera questão de esfregar essa verdade na cara mundo inteiro. Não me culpe por algo que você iniciou. Meus jogos podem ter te colocado naquela festa, mas foram os seus que te colocaram em perigo. Imagino que seja positivo para nós dois saber que os jogos finalmente acabaram, não? Só me pergunto se um dia o alvo sumirá.



— Você fez questão de me proteger, mesmo que ele não suma, não é mesmo? — ela voltou a provocar. — E quanto à minha responsabilidade… — ela sorriu de uma maneira que ele não esperava. — Eu poderia argumentar de que foi você quem fez os inimigos, mas também não me eximirei de minha própria culpa. Está certo neste ponto, milorde, se olharmos somente por este ângulo. Pergunto-me apenas se conseguirá viver com uma outra perspectiva…



— E qual seria?



— De que seu desejo de desumanizar-se e as consequências de sua falha neste sentido, unidas com sua completa incapacidade de lidar com sua própria humanidade, serão a morte de todos nós. Terá mesmo sido Lily Potter a responsável por ressuscitar sua capacidade de amar, ou ela jamais fora completamente destruída apesar de seus esforços? — ela cruzou os braços e soltou o próprio rosto dos dedos dele. — Creio que nunca saberemos.



— E por que é isto?



— Porque você não quer saber.



— Para quem estava tão certa de que eu não poderia amá-la porque meu contato com a magia que protegia Harry Potter ocorrera depois de nosso envolvimento, está com teorias muito bem formadas sobre minha imortal humanidade, Bellatrix. — ele se afastou, levando as mãos ao ar. — Se não a conhecesse, diria que fora o desespero em responder-me à altura que levou-a a esta contradição.



— E eu diria que foi o constante contato com sua recente e interminável confusão que fez esta mudança em mim.



— Ah, aí está. A insolência de sempre. — ele fechou os olhos por um momento. — Eu quase senti falta. Apenas um pequeno lembrete de que os castigos não mais terminarão em prazer para você, minha cara.



— Apesar de seus desejos. — ela sorriu em retorno. — E aí está a confusão a que me referia. Não era este o homem que eu havia feito me amar? O que afastou-me de si em nome de me proteger e manter-me viva? Para que? Para me castigar por dizer-lhe as incômodas verdades que não quer ouvir? Castigue-me, se o fizer sentir-se melhor, ou se curar a confusão que o atordoa. Escolha, de uma vez por todas, seu orgulho. — ela abriu os braços. — Nunca quis amar, e todos sabemos disso, então liberte-se e escolha o ódio. Faça isso muito mais fácil para todos nós. A linha é tão tênue, meu caro.



Uma das mãos dele fechou-se ao redor do pescoço da bruxa, num toque infinitamente mais suave do que ela teria esperado, a pele macia da mão do bruxo quase confortável em contato com a dela, apesar do movimento brusco e em teoria violento. A forma como a ação inteira fora pautada pela mesma contradição que discutiam era altamente incômoda para Bellatrix, que permitiu-se engolir seco, principalmente quando imagens da manhã anterior invadiram sua mente sem sua permissão e ela desejou poder acreditar que era o legilimente em sua frente o responsável por aquilo, quando sabia a verdade desconcertante de que fora ela mesma a culpada.



— Eu podia… — ele sussurrou. — Seria tão mais fácil deixar-me cair para a estrada do ódio, Bellatrix… É isso que você quer? Passar de minha rainha a minha inimiga por um capricho? Mais fácil para todos nós, você disse, e não está completamente errada, mas há um problema nessa conta, um que eu não pretendo ignorar.



— Qual? — ela respondeu, incomodada o suficiente com a dubiedade para desejar que ele estivesse apertando a mão em volta de seu pescoço, machucando-a, fazendo-a odiá-lo.



— É a rota mais fácil para você também… e eu não pretendo facilitar sua vida. Lide com a nossa realidade, minha cara. — ele deixou a mão cair e se afastou dela. — Só não espere que eu a ajude com isso, porque você certamente não pretende levantar um dedo para me ajudar.



Bellatrix inconscientemente tocou o próprio pescoço e, lutando contra as lágrimas que insistiam em vir a seus olhos, respirou fundo para controlar sua irritante respiração que insistia em se desregular. Abrindo e fechando os lábios diversas vezes, a bruxa engoliu o próprio ódio que subia agressivamente por sua garganta quase completamente fechada pelo choque e raiva. A verdade nas palavras dele, que insistia em dar-lhe diversos motivos para odiá-lo, mas nunca o suficiente para deixar de amá-lo, era a causa do peso que sentia esmagar seu peito. Tornar-se inimiga dele seria a maneira mais fácil e mais rápida de esquecê-lo, deixar-se embriagar pelo ódio que a corroía lenta e preguiçosamente perdendo a guerra contra um amor que a dominara por décadas. Ao mesmo tempo, ela não sabia se a Bellatrix que sempre fora, adormecida dentro de sua alma enquanto a nova versão de si tomava as rédeas de sua vida, suportaria ser inimiga do homem que sempre venerou, por quem deu sua alma e teria tantas vezes dado a própria vida. Bem no fundo de si, ela sabia que para salvar a vida dele, mesmo na situação em que estavam, ela muito provavelmente não hesitaria em morrer.



— É claro… tolice minha. — a bruxa lambeu os lábios. — Iludir-me com a possibilidade de que você jamais me libertaria.



Voldemort riu-se e rolou os olhos, o maxilar fechando-se em seguida com força como seus dois punhos, enquanto negava com a cabeça. — “Libertar”? — ele perguntou, o sarcasmo dançando por entre cada letra. — Minha cara, para isso você teria que querer ser liberta. Quando, na maioria do tempo, o enorme “desejo de liberdade” que você alega ter não passa de um chilique vindo de uma mulher magoada que quer me ferir por todas as vezes que sofreu nos últimos vinte anos. Você quer vingança, não liberdade, existe uma diferença. Você não suportaria a liberdade, por mais que eu tema que virá a conhecê-la muito em breve.



— Ah, será que finalmente eu vou? Por que seria isso? Por que, finalmente, me concederia tamanha honra?



— Porque, minha amada Bellatrix, a sua liberdade completa só poderia vir com uma condição, que você costumava temer…



— E qual seria a condição? No momento, estou topando qualquer coisa. — antes de fechar os lábios, ela sabia que se arrependeria. A forma como ele a mediu de cima a baixo foi apenas uma infeliz confirmação.



— Pensei que havia deixado claro na última noite, mas não me importo de repetir: a indiferença. — Voldemort deu de ombros. — Faça o que quiser, minha cara, tenha sua suposta liberdade e aproveite-a ao máximo, como bem preferir, enquanto eu me deleito em não tomar conhecimento de nada que você faz desde que não envolva meu reino. De um ponto de vista pessoal, faça o que bem entender com sua vida. — Bellatrix não conseguiu disfarçar a mudança em sua expressão, um leve temor vencendo-a na batalha para manter-se impassível. Os pensamentos na esperança de que ele estivesse mentindo muito provavelmente também não conseguiram ficar atrás de sua barreira de Oclumência. Amaldiçoando-se pela própria fraqueza, a bruxa viu no rosto dele que ele sabia e não conseguiu evitar de sentir uma ponta de alívio ao perceber como as ações de Voldemort traíam suas palavras tanto quanto acontecia com ela. — Espere… não era exatamente isso o que você queria?



— Sim. — ela atreveu-se a responder, aproveitando-se da confusão que apossou-se dele por um instante. — Se a indiferença que tanto temi é o preço… que assim seja. Somente uma questão me confunde… Alega estar tão desinteressado no que faço com minha vida pessoal e ainda assim insistirá em me manter sob a vigilância de um cavaleiro? Até ontem a noite fazia exatamente porque não podia suportar a ideia de me perder, ao ponto de que me perdeu para manter-me teoricamente segura? Parece-me um pouco contraditório, majestade.



Mais uma vez, Voldemort pareceu ter tomado as rédeas da discussão, por mais que ela não conseguisse entender o que o levava a pensar aquilo. De um jeito ou de outro, Voldemort aproximou-se dela de forma quase predatória e tocou os cabelos da bruxa num movimento que ela não conseguia diferenciar se era mais intimidador ou carinhoso. Abaixando-se para ficar no mesmo nível dela, Voldemort permitiu-se sorrir antes de responder. — Se eu fosse atender a sua demanda, minha cara, eu o teria feito para te manter na minha cama, não agora. E, ainda que eu de fato não me importe, o mundo não sabe disso e muitos vão tentar se aproveitar de minha suposta fraqueza em relação a você. Para piorar a situação, você é a lider do meu exército. Não podemos ter um problema mais sério por conta de suas pirraças, podemos? Meu exército precisa ser liderado, mesmo em tempos de paz.



— Oh, então eu não perco minha posição?



— Bellatrix, por favor, desde quando posições em meu exército foram condicionados ao que acontece em minha cama? Pensei que havíamos esclarecido isso eras atrás? Sua posição não tem nada a ver com o que sinto ou posso ter sentido por você, e sim por tudo o que conquistou nas duas guerras, dentre isso o respeito dos Comensais, por mais absurdo que possa parecer. — Bellatrix fitou os próprios sapatos. — Então, não, você não vai escapar.



— É isto então? Uma medida para manter sua general viva e evitar aborrecimentos com inimigos e nada mais? — Bellatrix mordeu o lábio inferior. — Como um discurso muda em doze horas…



Antes tão controlado, Voldemort bruscamente virou-se na direção contrária e jogou para longe a primeira cadeira que viu. O barulho fez Bellatrix tremer, mas não tanto quanto o ódio que viu no olhar dele quando o bruxo tornou a encará-la. — Eu juro por Merlin, Bellatrix Lestrange, que se você me chamar de contraditório mais uma vez enquanto cospe contradições o tempo todo eu vou te dar todos os motivos para se arrepender de ter possivelmente nascido. — A bruxa engoliu seco. — Decida o que você quer ou faça como eu e convença-se de que decidiu. Essa brincadeira já foi longe demais… eu te dei sua vida para viver, como você quis, ainda que com alguém te protegendo, então pegue a oferta, aceite-a, e viva como bem entender.



Bellatrix gostaria de ter respondido, ou que ele não tivesse inconscientemente colocado-se na frente dela quando ouviram um barulho, mas a chegada do terceiro integrante daquela reunião fora uma maldição maior do que uma benção. Se pudesse ter respondido, ela provavelmente jogaria na cara dele que aquela indiferença toda que ele se convencera de estar sentindo não era nada mais do que mais uma fuga de sua própria culpa, e eles iniciariam uma nova discussão, por mais que ela soubesse que a verdade era um pouco diferente: a indiferença nascia da necessidade que ele teria de não saber o que estava acontecendo na vida dela para poder viver. A razão de ela saber? A única maneira que ela teria de sobreviver era fazendo o mesmo. Ele que vivesse como bem entendesse, longe dos olhos dela.



— Santo Merlin… — eles ouviram a voz ainda sem figura falar. — E de pensar que todos falam por aí sobre como vocês dois devem ser temidos quando estão perto um do outro, porque se completam e o escambau. Tudo bobagem, se fossemos espertos trancávamos os dois numa sala para se matarem. — Voldemort e Bellatrix quase não acreditaram quando a figura apareceu finalmente na frente deles. — Eu diria que o showzinho de vocês anteontem com as luzes teria me enganado, mas eu sempre soube que vocês eram doidos, então… — Ron Weasley deu de ombros e jogou-se numa cadeira. — Será que vamos conseguir manter a civilidade por meia hora com o ex-cônjuge ou vamos remarcar essa coisa toda?



Bellatrix fechou a mão em volta da varinha imediatamente e usou todas as suas forças para não rolar os olhos quando Voldemort fez um sinal para que ela se acalmasse. Ron Weasley, contudo, pareceu não se intimidar com a reação da bruxa. Era quase como se ele estivesse se divertindo.



—  Ou talvez eu devesse fazer o contrário e dar um pouco de privacidade aos pombinhos degenerados? Sei lá, ouvi uns boatos por aí que toda discussão de vocês dois termina de um jeito muito específico… ou terminava… Cedo demais? — Bellatrix travou o maxilar e afastou os pensamentos de ‘você não faz ideia’. — Talvez seja a razão de tanto estresse? Nunca saberemos, mas não me importo.



— O que você quer, Weasley? — foi Voldemort quem perguntou, no tom mais impassível que possuía, ainda que Bellatrix queimasse atrás de si. — Além de tentar nos atingir, somente para falhar miseravelmente, eu digo. Nos chamou aqui por uma razão, revele-a ou pararemos de perder nosso tempo.



O jovem cruzou os braços, sério, falhando em esconder o próprio desconforto tanto quanto falhara em atingir Voldemort, a despeito do efeito que causara na impulsiva Bellatrix. Fitando o próprio colo por alguns segundos, e buscando as palavras corretas em sua mente confusa, ele suspirou e confessou da maneira mais rápida e menos dolorosa que conhecia: — Eu vim proteger minha família. — Ron fechou os olhos por um momento. — E trair meu melhor amigo. Satisfeito?



— Não até que me diga como. — Voldemort permitiu-se sentar, observando o traidor do sangue a sua frente com uma satisfação que jamais esperou sentir.



— Foi ele. Harry… ele que fez… tentou acabar com o projeto de rainha das trevas ou sei lá o que. — ele fez um aceno na direção de uma cada vez mais irritada Bellatrix.



— Jura? — a bruxa respondeu, apoiando-se na mesa mais próxima. — Como se eu já não tivesse adivinhado. Poupe-nos de informações duplicadas e inúteis, Weasley. Sabemos muito bem que foi seu amiguinho Potter o responsável.



— Saber podem até saber… mas podem provar? Acho que não. — naquele momento, o garoto tomou finalmente a atenção dos outros dois. — Eu posso ajudar com isso, por um preço.



— E porque eu deveria acreditar em você? — Voldemort questionou. — O que levaria você a trair seu melhor amigo, Weasley?



— Porque eu faria qualquer coisa pela minha família, sabe, nós Weasleys estamos virando uma espécie em extinção e eu não vou deixar o Harry piorar isso. — Bellatrix rolou os olhos, mas fez um sinal para que ele continuasse, ignorando a expressão repreensiva que recebeu de Voldemort. — Ele tá fora de controle, não ouve ninguém, e é pra minha irmã que vai sobrar.



— Ah… — Bellatrix deixou-se sorrir abertamente. — Aí está o preço: sua adorada irmã… Você nos entrega Potter e nós deixamos sua irmãzinha ir… Mas e se eu simplesmente estiver com sede de sangue e quiser deixar sua pequena proposta de lado? Eu posso muito bem declarar a coisa toda terrorismo e agir por minha conta com litros e litros de veritasserum…



— Porque vocês não querem e nem podem começar outra guerra agora. — a forma como os dois o encararam em surpresa claramente fez com que Ron quisesse socá-los. Ele não era melhor em disfarçar suas expressões do que eles foram. — O quê? Eu ouço Kingsley quando ele fala, e não sou um completo idiota! Pegar ou largar.



Voldemort massageou as têmporas por um segundo e levantou-se, andando de um lado para o outro por incontáveis momentos, completamente ignorante ao fato de que Bellatrix e Ron se encaravam mau humorados. — E como exatamente pretende provar que foi seu amiguinho sem se expor? — o bruxo, finalmente, perguntou, pegando os outros dois de surpresa.



— Eu… eu não pretendia.



— Espera, espera aí. Milorde, por Merlin, estamos mesmo considerando levar isso a sério? — Bellatrix desceu da mesa e andou rapidamente na direção dele. — Tem tudo pra dar errado!



— Não me conteste, Bellatrix. Nós não estamos fazendo nada, eu estou.



— Pode estar com raiva de mim, mas como sua general...



— Como minha general, sabe muito bem a hora de aconselhar e a de somente ouvir. Ou deveria saber.



— Ai… gélido. — o olhar que Bellatrix lançou na direção do ruivo deveria ter sido o suficiente para desestabilizar o garoto, mas pareceu somente incentivá-lo.  



Ron nunca disse nada, ou demonstrou para os monstros à sua frente o nível da dor que sentia em fazer o que estava fazendo, mas infelizmente Harry ultrapassara um limite que ele não podia aceitar. Ferir sua família era algo que ele jamais aceitaria. E para que? Para que, mesmo depois de tudo, esses dois estivessem ali à sua frente, mais poderosos do que nunca, discutindo como duas crianças mimadas? A única vantagem daquilo, além de assegurar um longo e seguro futuro para sua irmã, era vê-los se destruir de dentro pra fora. Nenhum daqueles psicopatas merecia nenhum tipo de felicidade, então se estavam se matando aos poucos era lucro para ele. Demorou até demais, se ele podia ter uma opinião. Se eles tivessem se desestabilizado mais no começo da guerra, estariam mortos. “E Harry também”, ele pensou, sem conseguir afastar o sentimento de que talvez, somente talvez, tivesse sido o melhor para todos. Se o amigo não se importava com Ron, ou com as pessoas que amava, por que o ruivo deveria importar-se com ele?



— Eu sou todo ouvidos, Weasley. — Voldemort acenou na direção de um conformado Ron, que deu de ombros e começou a falar sob o atento e homicida olhar de Bellatrix, que não parecia nem um pouco confortável com a situação. Numa estranha mistura de super protetora e predatória, ela mantinha uma constante proximidade com Voldemort, seguindo cada movimento do mestre e antigo amante.



Ron Weasley falou por diversos minutos sobre como ele mesmo iria heroicamente depor contra o amigo, entregá-lo na frente de Hogwarts, sempre pontuando todos os seus extremamente nobres motivos, muito para cansaço dos dois outros bruxos, que buscavam uma solução prática.



— Minha única pergunta aqui seria: qual é o ganho que nós temos em aceitar sua ajuda? — Bellatrix interrompera, ao não mais aguentar ouvir as lamentações do garoto que os procurara. — O simples fato é que pegaremos Harry Potter de um jeito ou de outro, mas deste, bem… estaremos nos divertindo menos. Você fala e fala sobre como não podemos começar outra guerra, mas uma sentença bem colocada e de acordo com os termos da paz não faria isso.



— Não, mas quantas sentenças fariam? O que o estúpido do Harry não reparou ainda é que o que ele fez foi só o começo de ataques e contra ataques que vão terminar em um banho de sangue! Porque a sua “sentença bem colocada” geraria mais “terrorismo” e mais “sentenças” até que nós tivéssemos nos exterminado! — o garoto respondeu, irritado. — O que você ganha, além de manter a paz? Porque lógico que com vocês sempre tem que ter lucro… — ele mordeu o lábio por um momento, como se tivesse nojo do que estava para dizer. — Uma prova, é o que vocês ganham. Vocês falam por aí que querem o melhor pra todos, que pretendem ter um reinado de paz, vestem a filha psicopata de vocês de princesa de amor e caridade… se perdoarem minha irmã, com os Crimes de Harry expostos? Vocês provam a suposta piedade e reforçam a droga do reino de vocês. Um monte de bocas vão se calar.



— E, novamente, por que se sacrificar, Weasley? — Voldemort questionou, parecendo extremamente interessado. — Quando não há necessidade, e você poderia ganhar muito ficando nas sombras. Afinal, eu e você no final queremos a mesma coisa. — nem mesmo Bellatrix conseguiu esconder a expressão incrédula. Ron, então, jamais parecera mais perturbado.



— Eu e você nunca vamos querer a mesma coisa, seu monstro! — ele gritou e apontou o dedo na direção de Voldemort, sentindo a varinha de Bellatrix em sua jugular no milésimo de segundo seguinte. Voldemort, como típico, manteve-se impassível e delicadamente empurrou o dedo do jovem bruxo para o lado com um aceno de mão que Ron nunca sentiu tocar-lhe a pele.



— Bella, querida, não seja tão rude com nosso anfitrião, por favor. — Voldemort usara um tom sarcástico, quase deturpadamente divertido, que por alguma razão era familiar e íntimo demais para que ela se sentisse confortável. Isso porque ela escolhera ignorar o “querida”, ou teria sido pior. A contragosto, ela guardou a varinha. — E é aí que se engana tremendamente, Weasley. Porque, no fim das contas, tudo o que eu e você queremos é proteger os nossos, mesmo que de maneiras distintas. O ponto de confusão, eu sei, é que proteger os meus inerentemente ameaça os seus, porque somos geometricamente opostos. Você vê os meus como uma ameaça porque sabe como eu penso em relação a trouxas, traidores e sangues ruins, que são o tipo de pessoas que formam sua família. E não está errado em temer. De fato, você deve temer. — Voldemort cerrou os olhos. — Porque o poder para tornar real a maneira com que preferimos proteger nossas famílias está em minhas mãos, e eu posso garantir que não seja agradável para aqueles que pensam como você. E, como você mesmo lembrou, estou trabalhando muito duro para que menos e menos pessoas advoguem por ideais como os seus. Ao escolher ser amado, Weasley, eu garanto que meus atos terão apoio o suficiente para não começar outra guerra.



—- Você não é amado. Nem de longe!



— Ainda, mas olhe ao seu redor, perceba como os ventos mudam de direção, e entenda como aceitar minha oferta é a única chance que você e os seus tem de sobreviver.



— Sua oferta? Fui eu quem te chamei aqui!



— Para me oferecer um sacrifício desesperado, que não me interessa. Minha contraproposta, no entanto, é praticamente irrecusável.





 



    As pessoas Hogwarts, completamente alheias aos termos acordados ou não naquela sala escondida, ficariam chocadas com o desenrolar dos acontecimentos naquele fatídico dia. E, em total honestidade, mesmo os três bruxos envolvidos naquela inesperada e bastante desconfortável troca não poderiam ter previsto a extensão do dano causado por suas ações.



    Jack Sloper era o nome da vítima, do pobre peão que traria a cabo o plano engenhoso de um rei que nada mais era do que a versão coroada de um estrategista de guerra extremamente talentoso e cruel. O pobre garoto não fazia ideia de que, ao denunciar que presenciara dois de seus novos colegas de quarto e de quadribol, Harry Potter e Ron Weasley, em uma esquentada discussão naquela mesma manhã, que terminara com ambos concordando em queimar um pequeno frasco, estava não apenas entregando Potter a julgamento como também vendendo a alma de Ron Weasley de maneira possivelmente irreparável.  



Como Weasley fora capaz de extrair a verdade de Potter e fazê-lo entregar o frasco de veneno não era claro nem mesmo para Voldemort, possivelmente uma daquelas coisas de profunda amizade que os dois usavam tanto para se gabar. A tarefa de levar Sloper - mais novo e único que tranquilamente entregaria os dois, uma vez que Dino Thomas também era leal demais a Potter e ao falecido Dumbledore - coubera à Legilimência de Voldemort e fora mais simples do que eles jamais poderiam imaginar. Convencer aquele garoto de que ele havia esquecido algo no quarto fora praticamente entediante ao bruxo, assim como fortalecer na mente dele a necessidade de reportar o que havia visto.



A forma e o tempo da revelação foram as únicas coisas que fugiam ao controle de todos eles, e as que terminaram ocorrendo de forma mais desastrosa. Apesar do que eles haviam antecipado ou esperado, Sloper demorara tempo demais para revelar o que sabia a Kingsley ou Snape. Até momentos antes do meio dia, quando todos já estavam reunidos no salão principal para a resolução daquele triste acontecimento, o garoto não havia se pronunciado.



Somente após toda a confusão, as três mentes por trás de toda aquela armação entenderiam que a relutância de Sloper se baseava na fama de Potter e no medo que o garoto tinha de represálias, ou de que Kingsley ignorasse suas acusações. Em meio ao longo discurso de Kingsley sobre como acontecimentos como aquele não podiam se repetir na escola e como a falta de colaboração de todos levaria a Coroa a tomar medidas drásticas, claramente palavras escritas para ganhar tempo, Jack Sloper levantou e pediu permissão para falar.



Onze e cinquenta e sete. Somente três minutos antes do fim do prazo de Kingsley, aquele garoto criara a coragem necessária para fazer o que ele acreditava que mudaria a história do mundo bruxo. Completamente ignorante ao fato de que estava sendo manipulado, ele engoliu seco após receber um aceno de cabeça de Kingsley, e começou a relatar como voltara ao quarto horas antes para pegar parte de suas anotações de transfiguração e presenciara a confissão de Harry Potter quanto aos eventos da noite de Halloween.



O salão, antes profundamente silencioso, explodiu em murmurinhos, e os olhos de Voldemort se direcionaram imediatamente ao local na mesa da Grifinória onde Harry Potter permanecia sentado, ainda sem ter completamente processado o que acabara de acontecer. A seu lado, Ron Weasley se superava ao apresentar uma expressão de completo horror e desconcerto. Alguns amigos próximos olhavam entre eles e a porta do salão, como se esperassem que qualquer um deles devesse sair correndo. Tolice, é claro, eles jamais sairiam da propriedade.



Com um movimento da varinha, Voldemort encerrou aquela linha de pensamento e todas as conversas e suposições, ao fazer as pesadas portas se fecharem com um estrondo. Até mesmo Kingsley, que parecia ainda estar digerindo a informação que lhe fora passada, assustou-se com o barulho e virou-se para encarar os professores atrás de si em um estado de completa confusão.



Bellatrix, no entanto, já estava de pé e a caminho do palanque de onde Kingsley encarava a todos. Se não estivesse furioso com ela, Voldemort teria deixado que ela resolvesse a situação, mas no estado em que as coisas estavam entre eles, segui-la era a única solução plausível para ele.



— Senhor…? — ela já havia expulsado Kingsley e começado quando ele chegou e parou alguns centímetros atrás.



— Jack…Jack Sloper… Vossa…?



— Graça. — Bellatrix respondeu, com uma simplicidade e naturalidade quase esnobe. - Diga-nos, Sr. Sloper, tem certeza do que viu e nos diz? São seríssimas as acusações que traz a nosso conhecimento.



— Eu sei, vossa Graça, e eu quase não falei nada… — ele olhou por cima do ombro com insegurança, na direção da mesa da grifinória. — Eu não queria ser, a senhora sabe, hm… um dedo duro? Mas… — o garoto, que não devia ter mais do que dezesseis anos, coçou a cabeça. — Eu não queria que ninguém mais se machucasse e, o Sr. Kingsley e o Sr. Diretor disseram que se não descobrissem...



— Não há necessidade de se desculpar, Sloper, você fez a coisa certa. — Bellatrix circundou o palanque e desceu as escadas na direção das mesas. — Agradecemos seu serviço à Coroa e ao país. — pelo olhar de Jack Sloper, ele não tinha muita certeza se aquilo o agradava ou aterrorizava. Chegando próxima ao garoto, e segurando-o pelos ombros, Bellatrix sorriu de forma que muitos poderiam até aceitar como genuína. — Não dizem que somente os mais corajosos serão capazes de enfrentar seus amigos? Bravo, meu caro, volte para sua mesa com a segurança de que é o jovem mais corajoso deste salão… — ela se afastou e olhou ao redor do salão. — E evitou que muitas mais pessoas tivessem sido afetadas.



— Vamos simplesmente aceitar a palavra de um garoto? — Ron Weasley se levantou, e Bellatrix sorriu mais. — Assim? Como sabemos que vocês não o pagaram?



— E o que espera que eu faça, Weasley? — Bellatrix lambeu os lábios. — Use Veritaserum em todos vocês, ou será que estariam dispostos a nos mostrar suas lembranças desta manhã? — o terror no rosto do Weasley era digno de um prêmio. — Eu garanto que o Sr. Sloper estaria disposto a colaborar, uma vez que agora temos motivo o suficiente para isso, e vocês?



— Isso é perseguição!



— Não, isso é justiça. Vocês foram denunciados, por um de seus próprios colegas, Weasley. Eu não decidi que vocês cometeram o crime, há uma testemunha. — Bellatrix olhou na direção de um extremamente pálido Kingsley. — Ou estaria eu equivocada, Ministro?



Kingsley abriu e fechou a boca algumas vezes, até decidir que iria somente negar com a cabeça, levantando mais uma vez os murmurinhos ao redor do salão.



— Nada disso será necessário. — mais uma variável que nenhum deles havia considerado: o temperamento explosivo do criminoso da vez. — Lembranças, poções, testemunhos… — Harry Potter se levantou e abriu os braços. — Ótimo, parece que vocês me pegaram! O que querem que eu diga? Que estão errados? Ou que implore por perdão por ter dado a essa vagabunda o que ela merece? — ele cuspiu no chão. — Meu único erro foi não ter conseguido acabar com você! Pelo mínimo que eu consegui ver antes desse bando de bajuladores te salvarem, — o olhar dele direcionou-se a Voldemort. — teria sido um show e tanto caso tivesse dado certo. Tanto poder, tão facilmente destruído. Como se sente, majestade, sendo a prova viva de como sua teoria tinha fundamento? — passando a mão para o bolso de trás, Harry tentou pegar a varinha, mas foi impedido por algum dos guardas presentes no salão, que a jogou longe antes que ele tivesse tempo de segurá-la.



— Suas provocações, bem como suas ameaças, são vazias aqui dentro, Potter. — Voldemort deu de ombros, e acenou com a cabeça na direção dos membros da guarda real e aurores, aqueles infiltrados que sem dúvidas eram mais leais a ele do que a Kingsley, ali presentes. — E, francamente, me impressiona que esteja dificultando sua própria situação. Confessando tão abertamente sua participação… E, bem, sua quebra do acordo de paz.



— Como se eu me importasse com o que vão fazer comigo…



— Mas é claro que não, porque você sabe que não faremos nada a você. — Voldemort respondeu, com aterrorizante simplicidade. — Pois, em seu egoísmo, sabe que é protegido por seu status, e por toda uma sociedade que daria a vida para mantê-lo seguro, por mais que insista em arriscar a segurança de todos eles. Existe, contudo, este detalhe que insiste em ignorar… Você pode ser imune, Potter, mas o mundo não gira sem retribuição e consequências, e seus atos causaram uma perturbação que não pode ser ignorada. Legal e moralmente, não posso simplesmente fechar os olhos, não quando abertamente ameaçou e atacou minha família e isso é traição.



— Sinto quebrar suas fantasias, mas da última vez que chequei, ataquei uma pessoa que não fazia mais parte da sua família e muito menos queria fazer.



— E é aí que se engana, Potter. — Voldemort desceu os degraus na direção de Bellatrix. — Como mãe de minha filha e herdeira, independente de qualquer coisa, Bellatrix jamais deixará de fazer parte de minha família ou perderá minha proteção. Alguns de nós conhecem maturidade.



Bellatrix sorriu e se aproximou de Voldemort, encontrando-o no meio do caminho com uma pequena e educada reverência. — Agradeço sua eterna consideração, majestade. E, neste espírito, imagino que o apropriado e esperado seria estender a Potter a mesma cortesia que ele nos estendeu? Com sua quebra do acordo de paz, meu caro, — Bellatrix virou-se na direção do jovem, que a encarava com o cenho franzido. — só há uma forma com que podemos reagir.



— Para aqueles não familiares com os termos do acordo, estava descrito que caso um dos lados sucumbisse ao ímpeto de atacar e ferir os entes queridos do outro, o lado atacado poderia buscar reparação punindo alguém próximo ao responsável, quando este não pudesse receber a punição. — o silêncio ensudercedor deu lugar a diversos protestos, sons de horror e choque vindos dos alunos face às palavras de Voldemort. — Neste caso, por se tratar de traição, aplica-se a pena capital. Diga-me, Potter, qual de seus entes queridos morrerá por sua pequena vingança?



Dois guardas se lançaram para segurar um Harry Potter que xingava a todos a seu redor, cuspindo palavras de ódio inflamadas por sua própria frustração. Não era como se ele não soubesse os termos do acordo, ou que a ideia de que aqueles próximos a si terminariam feridos em seu lugar lhe fosse nova, mas perceber como eles haviam descoberto mesmo com todas as suas precauções era enlouquecedor. Ele confessara, é claro, mas ele mesmo sabia que a conversa com Ron fora real e que Sloper teria todos os meios de provar o  que vira. O nível do azar que tivera não podia ser medido e tudo o que ele desejara era ter mantido tudo pra si, como havia planejado, mas seus amigos sempre souberam que havia sido ele. Ron mantinha-se checando o próprio colo em completo horror, e Harry não podia dizer que não entendia o porque.



— Segundo a lógica, somente a senhorita Weasley se encaixa. — Bellatrix respondeu, captando a atenção de todos e, pela primeira vez, quebrando as paredes de Potter.



A pose atrevida e convencida de Harry Potter desmoronara, quando o peso das palavras dela atingiram sua mente e coração: traição, pena de morte, Ginny. Não era como se antes ele não houvesse sido alertado do perigo com que estava lidando e, mais ainda, com a irresponsabilidade com que encarava a atual situação, mas a proximidade e certeza da tragédia que estava por vir fora a única coisa que lhe convencera de que ninguém estava blefando.



Olhando para o lado, ele viu os guardas segurarem Ron pelos braços, que se debatia e gritava obscenidades na direção de todos. Enquanto isso, a seu lado, Hermione encarava a situação a sua frente em uma posição que poderia ser considerada por todos choque, mas que Harry sabia que dentro de si ela estava funcionando a milhares de quilômetros por segundo, tentando descobrir uma maneira de tirá-los daquela situação. Muito similares eram os olhares de Kingsley e McGonagall. Nenhum deles parecia encontrar a dita solução.



Ginny era, no entanto, o oposto de todos ali. Quando dois guardas aproximaram-se por trás e ordenaram que ela se levantasse e os seguisse até o meio do salão, Ginny nem mesmo piscou e fez como lhe for ordenado. Ela não daria a ninguém a enorme satisfação de vê-la temer.  Todos que as conheciam imaginavam que ela devia estar, evidentemente, aterrorizada. Não é todo dia que uma jovem de dezessete anos é levada para ser executada por um crime que não cometeu, mas do qual é legalmente culpada. A grande verdade, eles também sabiam, é que o ódio que ela sentia era três vezes maior do que seu temor.



Encarando Voldemort e Bellatrix com o queixo erguido, utilizando-se de sua atual negativa e irreversível situação, ela não se deu ao trabalho de se curvar. Definitivamente, aquela não seria uma de suas últimas ações. “Queriam a mim, aqui estou.”, atrevida como sempre ela cumprimentou. Em nenhum momento no caminho ela estendera um olhar a Harry, não depois de implorar para que ele desse a todos uma chance de viver normalmente, não depois de perceber que a vingança dele era mais importante do que o suposto amor que dirigia a seus amigos e a ela.



— Senhorita Weasley, sempre um enorme prazer. — Bellatrix respondeu, aproveitando demais a tensão que podia ver na garota. Habituada a brincar com a comida, a bruxa não tinha forças para resistir seus instintos de cutucar o inimigo o máximo que pudesse, antes de ser obrigada a seguir com o plano.



Voldemort fez um aceno com a cabeça e os dois guardas forçaram Ginny a ficar de joelhos, ainda que ela os encarasse com a mesma expressão desafiadora de antes. Ao longe, eles ouviam os gritos desesperados de Ron Weasley e um choro quieto de Hermione Granger. Os demais alunos estavam quietos e em choque, assim como o próprio Harry Potter que parecia não ser capaz de processar o que estava acontecendo. Puxando a varinha, Voldemort olhou na direção do garoto. - Algo mais que queira dizer, Potter? A mim, à mulher que você feriu, ou àquela que vai ser obrigada a pagar pelos seus impulsos?



Conforme o esperado, Harry explodiu numa enchente de ameaças, sobre como destruiria a ele e a todos que ele amava em dobro por cada um que ele ferisse, palavras que não fizeram mais do que conseguir um pequeno suspiro acompanhado de um aceno negativo de cabeça do monarca. Ao fim, ele tentou forçar um pedido de desculpas à namorada, que fechou os olhos e cerrou o maxilar ao ouvir a promessa de ser vingada.



— Bella… — Voldemort chamou e estendeu sua própria varinha à bruxa, que a segurou entre os dedos por alguns segundos, examinando a forma e o peso, antes de se dirigir à menina. Da mesa dos professores, McGonagall protestou, alegando que precisavam passar aquilo por um julgamento formal, mas foi segurada por Kingsley.



“Ele confessou, Minerva.”, foi tudo o que se foi ouvido vindo de Kingsley Shacklebolt, que estava em tamanho estado de frustração e dor de saber que Voldemort estava em seu direito, que não podia fazer nada além de lamentar e concordar com as maldições que Minerva jogou na forma como aquele acordo fora assinado, muito antes de qualquer um ter noção de como todos reagiriam.     



Conhecendo-a por sua competitividade, era possível pensar que Bellatrix agira somente para superar a atuação de Ron Weasley, mas a grande realidade era que a dramaticidade da coisa toda a encantava demais para simplesmente fazer o que tinha que ser feito. Lentamente apontando a varinha na direção da ruiva, com a respiração cuidadosamente controlada para parecer nervosa, a bruxa franziu o cenho algumas vezes, negando levemente com a cabeça, para confusão de sua suposta vítima, e deixou o braço tremer, antes de finalmente abaixá-lo abruptamente, fechando os olhos e abrindo e fechando a boca como se não soubesse o que dizer algumas vezes, antes de virar-se na direção de Voldemort, que ficara atrás de si.



— Eu não posso… — ela disse, com a voz baixa. — Eu não quero fazer isso. — ela deu de ombros, quase convencendo o próprio Voldemort daquela mentira. — Majestade, por mais legais que estejamos em nossa posição, fazem somente seis meses. Seis meses desde a última guerra, e é em outra que vamos terminar se começarmos com a política de um olho por um olho tão cedo. — ela lambeu os lábios. — De que nos serve responder loucuras e violência com mais loucuras e violência? Eu estou aqui, sã e salva, viva… E eu prefiro que minha sobrevivência a esse atentado sirva para fortalecer a paz, e não para enfraquecer algo já tão frágil. Se me permitir, majestade, havia me dito que eu como a vítima teria o direito de aplicar a sentença, mas… Eu gostaria de retirar as acusações. Como uma demonstração de boa vontade, em nome de tudo pelo que temos todos lutado nos últimos seis meses.



O silêncio que se seguiu não fora exatamente a reação que eles haviam esperado, mas funcionava. Até mesmo os mais crentes na mudança deles, na boa vontade, os olhavam em completa confusão, e os céticos pareciam ainda mais horrorizados do que antes. Voldemort quebrou o silêncio ao se aproximar de Bellatrix em passos firmes que ecoaram nas paredes do enorme salão, enquanto todos o observavam sem respirar. O monarca calmamente retirou a varinha da mão de Bellatrix e andou ao redor dela, olhando na direção dos guardas. Voldemort também apreciava o drama, quando aplicável.



— Está absolutamente correta, Vossa Graça. — o salão foi enchido com o som de diversas pessoas deixando de prender a respiração. — Não cabe a nós iniciar outra guerra agora. Este é um tempo de prosperidade e recuperação, não de novos lutos. — com um aceno de cabeça, os guardas soltaram Ginny. — Mas peço que não confundam nosso gesto com uma regra, — ele alertou. — Acredito que erros são cometidos e, em nome do bem maior, estou escolhendo dar a outra face e oferecer uma segunda chance a meu inimigo. Uma terceira jamais ocorrerá. — as últimas palavras foram dirigidas a Harry, logo que os guardas o soltaram. — Mantenha-se longe da minha família, Potter. Pelo bem da sua e de nossa delicada paz.  



Alguns passos atrás, Bellatrix estendia a mão a Ginny Weasley que, ainda perplexa, decidiu aceitar a ajuda sem pestanejar e parecer não cooperativa. Ela podia ver por detrás daquilo tudo, de como eles haviam usado a situação toda para se promover e, ainda que os rostos chocados e emocionados ao redor dela a irritassem por provarem que eles haviam conseguido, ela estava feliz por estar viva para ver mais um dia. No fundo de seu coração, ela esperava que o momento da retribuição no futuro chegasse, que o universo voltasse a ter harmonia mais uma vez e os punisse por seus atos, mas ela estava cansada de perder entes queridos e arriscar a própria vida fazendo o trabalho do universo por ele. Quantos mais dias de luto sua mãe precisaria suportar para que justiça fosse feita? Se a última guerra fora um exemplo, ela não gostaria de saber a resposta.



Perder era amargo, mas o que Harry não via era que eles perderiam novamente e em dobro se tentassem qualquer maluquice. Ignorando o ódio que pensar no que Harry fizera a trazia, e tentando enterrar os pensamentos que a diziam que quanto mais esperassem mais eles manipulariam as mentes das pessoas, ela se levantou com a ajuda de Bellatrix, sempre olhando-a do mesmo nível. Novamente, ela não traria mais dor a sua família, e Harry não tinha o direito de ter feito aquilo. Ah, a retribuição podia demorar para a família real, mas Harry… este teria o que lhe esperava muito em breve.



Ao longe, Ron Weasley mantinha a pose de pessoa recém assustada, e abraçara a irmã com toda a emoção de um irmão preocupado, assim que ela voltara à mesa.  Sem que ninguém percebesse, um rápido olhar foi trocado entre o jovem e Voldemort, não apenas uma confirmação de que ambos os lados haviam cumprido suas partes, mas também a promessa de que mais estava por vir. No fundo de si, o ruivo sentiu um pequeno arrepio trazido por uma ponta de arrependimento, mas sua irmã sã e salva em seu abraço era confirmação o suficiente de que ele não tinha do que se arrepender. Sua família ficaria a salvo, por mais que sua alma fosse o preço.



 



Melinda batera a porta atrás de si ao adentrar o escritório do pai na Mansão Slytherin, poucos minutos depois da chegada de Voldemort. Por cima, ela ouvira os rumores do que tinha ocorrido na escola, e tinha certeza de que conseguiria mais detalhes de qualquer um dos guardas, mas nenhum deles lhe devia uma explicação. Seu pai, no entanto, não tinha essa sorte.



— Decoro não faz parte do seu vocabulário, ou você escolhe ignorá-lo? — Voldemort perguntou, ainda de costas, com a voz pesada e exausta.



— Não era você que devia saber disso, sendo o responsável por minha educação? — Melinda se serviu de uma dose exagerada de uísque de fogo e assistiu como Voldemort riu e rolou os olhos, mesmo que não pudesse vê-lo ela podia ouvir os pensamentos dele antes que suas ações ocorressem.



— Este crédito realmente eu não posso tomar para mim, e nem sei se gostaria. — ele girou nos calcanhares e franziu o cenho. — Afinal de contas, que tipo de psicopata serve um drink só para si?



— Ah, papai, de acordo com nossos súditos, eu sou todos os tipos de psicopata, mas… no momento, o tipo extremamente puta. — Melinda respondeu, sentando-se em uma das enormes poltronas.



— Eu gostava mais quando você tinha medo de mim. — ele comentou, indo servir seu próprio drink.



— Mentira. — A jovem deu de ombros e continuou a beber. — Você nunca vai admitir, mas me prefere assim, ou com quem mais dividiria sua própria loucura? Imagino eu que era pra isso que queria um herdeiro?



— Começo a pensar duas vezes, em momentos como esse. Diga-me, minha adorada filha, em que posso lhe ajudar?



Voldemort recostou-se ao bar onde as bebidas estavam e assistiu enquanto a filha girava o corpo na poltrona, para olhá-lo pelo canto de olho num misto interessante de autocontrole, raiva e curiosidade. Ah, então em certo nível ela ainda o temia.



— Honestamente, eu só gostaria de ter o direito de saber o que aconteceu lá através de você, em vez de boatos da serventia? — fora evidente o esforço da garota em não soar tão nojenta quanto suas palavras a faziam ser, mas era inútil.



Voldemort ponderou por um momento, a face pesada e muito mais cansada do que ela jamais havia visto, similar somente àquela que tomara conta do rosto do pai meses antes quando Bellatrix estivera em coma. Naturalmente, ela imaginaria que aquilo se devia à quase morte da mulher, mas a falta de alívio que ele demonstrava e as diversas paredes mentais que cobriam os pensamentos não superficiais dele contavam uma história bem diferente. Havia algo mais, e Melinda temia nunca saber o que era.



Apesar de fisicamente contrariado, Voldemort começou a contar a história do acordo com Ron Weasley, como tudo havia acontecido e o desenrolar das ações de cada envolvido. Sob os olhos e ouvidos atentos da filha, ele procurou citar Bellatrix o mínimo possível, mantendo seus pensamentos bem longe da quase reconciliação e consequente briga. A última interação que eles haviam tido, quando ambos deixavam a escola e uma pequena faísca de possibilidade os cercou somente para ser destruída mais uma vez, ainda o atormentava e ele não queria que a filha soubesse.



— O que eu não entendo… — Melinda começou, brincando com o copo. — É porque Weasley aceitou não se expor. Entendo que para nós é positivo, pois ganhamos um espião, mas…



— Ronald Weasley tem um defeito, minha cara Melinda, que é o excesso de esperança. Unido aos diversos complexos que ele tem de inferioridade, a ideia de ter uma cadeira na casa nobre do ministério pareceu a ele como uma possibilidade de proteger a família, a ser o herói que impedirá que quaisquer leis passem que os prejudiquem. O fato de que a influência dele naquele meio é quase nula nem mesmo passou pela cabeça do garoto. — O bruxo respondeu, dando de ombros. — De um jeito ou de outro, o risco vale a pena para nós. Weasley se torna político, não pode ser auror, fica isolado na casa dos nobres e ganhamos um espião. Mesmo que ele consiga alguma influência, o que é bastante improvável, ainda estamos no lucro.



— Porque ele acredita e vai continuar acreditando que será a grande mudança que nos quebrará de dentro para fora. — Melinda concordou, com um sorriso. — Precisamos somente tomar cuidado para que ele não tenha os subsídios para se tornar algo a mais do que uma dor de cabeça.



— Não se preocupe com isso, minha cara, afinal sou eu quem escolho os membros daquele lugar. — Voldemort deu um meio sorriso e colocou o copo que ainda segurava de volta no bar. — Agora se me der licença, tenho que lidar com milhares de coisas.



Melinda passaria a desejar, segundos depois, que não tivesse interrompido o pai ou tentado impedi-lo de seguir seu caminho. “Vamos ficar assim mesmo?”, ela perguntara, sem nem perceber que havia se levantado e diminuído a distância entre eles, segurando Voldemort pelo braço.



— O que diabos você pensa que está fazendo? — ele questionou, soltando o braço das mãos da filha.



— Eu poderia fazer a mesma pergunta. — Melinda respondeu, firme. — Deixar-me inconsciente e me arrastar para fora da escola, me deixar sem notícias e presa? Eu não vou perguntar quem você acha que é, porque é bem evidente, mas quem você pensa que eu sou? Algum tipo de criança indefesa feita de porcelana que precisa ser protegida pelos outros? Não existia sequer um bruxo naquele salão, exceto você e talvez a mamãe, que conseguiria causar um  arranhão de mim! Eles estariam mortos antes disso! Eu literalmente leio a mente dos outros! — sem perceber, ela estava gritando.



— Merlin, por que você tem que ser tão parecida com a sua mãe? — Voldemort levantando a voz era uma ocasião rara e assustadora mesmo para Melinda, que deu dois passos para trás. — Antes de demandar que eu não te trate como uma criança, pare de agir como uma! Depois disso, lembre-se do que ocorreu em Hogwarts com a bruxa mais temida que nós conhecemos, que não só conseguiria derrotar qualquer um ali como a você, sem sombra de dúvida. Sabe por que, Melinda? Porque poder e imortalidade são coisas diferentes. Vocês são fortes, mas não indestrutíveis, e definitivamente não derrotam sozinhas a um exército! — a garota engoliu seco e segurou as lágrimas. — Você tem Oliver por uma razão, a mesma que fez o cavaleiro de sua mãe a esperar na maldita França, e vocês vão se acostumar gostem ou não! Eu tenho sete países para governar e não vou fazer isso me preocupando com duas mulheres adultas que se dizem tão poderosas e agem como duas pirralhas! Até mesmo eu no auge de meu poder me cercava de Comensais da Morte e não saia por aí me expondo à toa. Você não aprendeu nada jogando xadrez? Essa é a função dos peões. Agora, saia da minha frente e me deixe pensar em paz, Melinda! — à semelhança não somente de personalidade, mas física, com Bellatrix aumentava exponencialmente o ódio do bruxo, que estava tendo extremo trabalho em segurar a própria raiva.



A menina, com os olhos marejados, não se arriscou a dizer mais nenhuma palavra e saiu da sala a passos rápidos, batendo à porta atrás de si. Ela não fazia ideia do que tinha acontecido em Hogwarts, mas definitivamente podia ter uma ideia. Ele deu a Bellatrix um cavaleiro, eles haviam discutido, e as coisas piorado. A parte infantil dentro dela queria debochar da mãe por agir exatamente como ela, mas tudo estava fresco demais e Melinda sabia quando parar.





 



Draco Malfoy, no entanto, não dividia com a namorada a arte de saber quando estava passando dos limites e só veio a descobrir que precisava aprender, quando alguns minutos depois se viu sendo jogado para fora do escritório de Voldemort e caindo com um baque surdo no chão no meio da outra sala, chamando a atenção de todos os guardas.



— Fiquem fora disso! — foi a ordem do Lorde das Trevas, que explosivamente deixou o escritório atrás do loiro que havia acabado de arremessar. Tudo havia se iniciado quando Draco o procurara para tentar entender o que estava acontecendo entre eles, o porquê de após a guerra seu mestre insistir em deixá-lo de fora de tudo. Encontrando resistência e negação da parte de Voldemort, ele insistira diversas vezes e o resultado daquela insistência combinada com o mau humor do sogro fora o feitiço que o expulsara do escritório e as costelas contundidas que ele definitivamente tinha.



— Parece que algumas das pessoas nessa casa esqueceram-se a quem servem! — Voldemort vociferou, jogando Draco ainda mais longe. — E, principalmente, que eu não devo explicação a nenhum de vocês! Defenda-se, Malfoy!



— Milorde… — a hesitação de Draco trouxe-lhe apenas mais dor.



— Eu mandei se defender! — naquele ponto, Voldemort já estava berrando de forma que qualquer um na Mansão pudesse ouvir.



Não demorou muito até que a próxima peça do quebra cabeças aparecesse e uma aterrorizada Melinda descesse as escadas correndo, possivelmente alertada por um dos guardas com quem fizera amizade ou o próprio Oliver. Toda de preto, ela parecia muito mais com a versão dela que ele conhecera do que a princesa que todos começavam a amar. Por mais que a voz dela fosse calma, a varinha da bruxa já estava em punho dez degraus antes do fim da escada.



— Pai, pelo amor de Merlin, se acalme! Eu tenho certeza que podemos resolver o que quer que tenha acontecido de outra maneira… — ela se aproximou com calma, mas Voldemort atacou Draco mais uma vez.  



— A falha na sua lógica é pensar que eu me importo, Melinda, com a sua opinião. — ele respondeu, displicente. — Você sabe, isso é entre o Sr. Malfoy e eu… Não posso ser culpado pela incapacidade e negação dele em obedecer minhas ordens e se defender.



— Ouça a si mesmo! Quem obedeceria a essa loucura? Ninguém! Os guardas acabariam com ele antes que...



— Eu ordenei que ficassem fora disso, não sou um covarde, Melinda! — Voldemort cuspiu e levantou a varinha novamente, somente para sentir ela ser lançada para longe de sua mão, quando a filha mostrou as garras e o desarmou, cuidadosamente se movendo até ficar entre ele e o namorado. Ao longe, Draco implorou que ela não interferisse, somente para ser ignorado. Se havia alguém que poderia segurar Voldemort, esse alguém era a filha. — Dolorosa é a traição daqueles próximos…



— Sinto muito, majestade, mas o que quer que aconteceu em Hogwarts está afetando seu julgamento. — Melinda tentava parecer firme, mas sua respiração era trêmula. Voldemort levantou as mãos como se em derrota, mas com um aceno rápido convocou a varinha de Draco, a mais próxima de si e a apontou para o pescoço de Melinda.



— Saia da minha frente. — ele ordenou. — Eu não quero te machucar, mas saiba que eu vou.



— Sabe que, pelo bem de todos nós, eu não posso. — a varinha dela também se mantinha apontada. — Quanto a me machucar, nós dois sabemos que não vai fazer isso…



— E de onde vem tanta certeza?



— Do fato de que você passou tempo demais me transformando na imagem do seu império. Que tipo de rei e pai carinhoso fere sua adorada e indefesa princesa? — ela deitou a cabeça para o lado por um momento, e viu o ódio borbulhar nos olhos dele, mas não a tempo de assistir enquanto ele a desarmava e agarrava seu pescoço com a mão livre.



Nas pontas dos pés, e segurando a mão do pai com ambas as suas, tentando soltar-se do aperto, Melinda arregalou os olhos e ouviu Draco gritar alguma coisa e os guardas se congelarem, assim como Oliver, que não sabia o que fazer. O voto perpétuo o faria agir, mas ele ainda não conseguia processar o que via.



— O tipo de rei que te fez, literal e metaforicamente, Melinda! Você não é nada sem mim, então vai dar um jeito de aprender respeito! — jogando para o lado a filha, que caiu metros depois para ser recebida por Oliver que, aterrorizado a ajudou a se levantar, Voldemort retomou seu percurso na direção de Draco.



O que veio depois estava longe das expectativas de todos os presentes. A despeito de suas ações anteriores, Draco convocou a varinha mais próxima, a de Voldemort, e se levantou para defender-se dos ataques do rei, andando para trás como se pudesse fugir. Sabendo que aquela opção era inviável, Melinda convocou a própria varinha e partiu na direção do pai, ajudando na defesa de Draco e atacando Voldemort para tentar pará-lo com um conhecimento e habilidade que o loiro sabia que não tinha.



Coube a Draco cair em derrota poucos minutos depois, acordado e alerta ainda que sem forças para se mover ou contra atacar, a Varinha das Varinhas esquecida ao longe, e assistir com horror o duelo que se estendia entre o Lorde e a Princesa das Trevas.



Àquele ponto, todos os guardas e servos haviam se escondido em cantos diferentes da sala, enquanto um furioso Voldemort e uma extremamente concentrada e magoada Melinda dançavam numa chuva de feitiços coloridos, contra-feitiços explosivos e os cacos de vidro que se espalhavam por toda parte. O chão abaixo deles refletia a bela e aterrorizante dança, e era coberto pelas marcas de toda a raiva carregada. Claramente, Voldemort descontava neles algo que ninguém fazia ideia do que fosse, e Melinda era obstinada demais para se render.



Mesmo que cansada e ferida, ela recebia os feitiços do pai com maestria, os continha com todas as suas forças, fazendo uso de feitiços não verbais e sem varinha, às vezes em seguida de feitiços comuns, equilibrando e se defendendo de dois ou três ataques por vez, sendo capaz de derrubar e ferir Voldemort sempre que teve a oportunidade.



Caso a coisa toda não fosse aterrorizante, Draco a parebenizaria pela forma como ela ateou fogo nas cortinas da sala e nos cacos de vidro no chão, transformando as chamas numa cortina entre ela e o pai, defendendo uma revoada de feitiços que ele lançou na direção dela.



Voldemort demonstrava a mesma maestria de sempre, não parecendo querer poupar Melinda de nada. Pelo menos nada não fatal, se os presentes pudessem considerar que adagas de vidro e fogo não eram fatais o suficiente, mas ambos estavam se abstendo de maldições imperdoáveis. Era como se eles só quisessem machucar, mas machucar demais.



Quando duas cobras de fogo maldito encheram a sala, a luz machucando os olhos de todos, aquela teoria caiu por terra. Talvez eles estivessem fora de controle. A cobra vinda da varinha de Voldemort circundou a de Melinda e a esmagou no ar, causando uma explosão que arrastou os dois para lados opostos da sala, o ódio de pai e filha quase palpável.



Melinda, no entanto, não conseguiu se equilibrar e caiu com um baque doloroso, sua expressão deixando claro o quanto ela sabia que a queda a prejudicaria. Como ela previra, antes que pudesse se levantar, foi novamente jogada no chão pelo pai, somente para ser puxada para o ar e lançada contra o mármore mais uma vez. Levantando a varinha para tentar se defender, ela sofreu a ação somente mais uma vez, sentindo um leve gosto de sangue na boca e a dor que se estendia por todos os seus nervos. Aquela fora a última coisa que ela sentiria antes de Voldemort apontar a varinha de Draco para a mão dela.



— Accio varinha. — ele não precisava dizer, mas era quase como se fosse prazeroso para humilha-lá. A jovem tentou lutar, mas seus músculos desistiram e ela caiu mais uma vez, ficando na mesma posição estirada de Draco a poucos metros de si. Do outro lado, ela viu Oliver desacordado e lembrou-se que no meio da adrenalina havia feito aquilo com ele quando ele tentara impedi-la de enfrentar o pai. A simetria com o Halloween a fez sorrir. — Acabou, Melinda, conforme-se.  



Recuperando a Varinha das Varinhas do chão, Voldemort se aproximou de Draco e devolveu ao loiro a própria varinha. Naquele momento, a expressão no rosto cheio de cortes mudou e, pela primeira vez naquele dia, o monarca sorriu. — Bem vindo de volta, Malfoy..



A confusão no rosto de Draco era quase hilária, e Voldemort teria dado risada se não estivesse chamando medibruxos para os dois. Melinda, no entanto, parecia furiosa. Ela havia entendido o que estava acontecendo.



— Você…. — ela respirou fundo, gemendo pela dor que sentia. — Queria só a varinha. — ela forçou para se sentar.



— Não era para você ter se empolgado tanto, mas fico feliz que esteja praticando tanto.. — Voldemort se agachou ao lado dela, que tentou dar-lhe um tapa, mas desistiu no meio do caminho.



— A Varinha das Varinhas ainda era minha. — Draco disse para si num misto de vergonha e raiva. — Milorde, com todo o respeito, poderia ter me dito!



— Não, eu não podia. — ele se levantou. — A outra opção seria te matar, Malfoy, e bem… pelo o que vimos aqui hoje, não era exatamente uma opção, não é mesmo? — as palavras de Voldemort, que deviam ter sido calmantes, o deixaram somente mais envergonhado. — Muito obrigado aos dois pela inconsciente colaboração, pelo menos alguma coisa tinha que dar certo hoje… — ele completou muito mais para si do que para eles.



Com ordens aos demais para que saíssem dali e voltassem ao trabalho, recomendando que os dois descansassem e cuidassem de seus ferimentos, Voldemort novamente se trancou no escritório, deixando na sala mais perguntas do que respostas. Ele também tinha novos ferimentos para tratar, e Melinda tinha cada vez mais certeza de que ela não era responsável por todos.





 



“False hopes are more dangerous than fears.”





  • J.R.R Tolkien




Compartilhe!

anúncio

Comentários (1)

  • thealiens-hbc

    Quando vejo que tem capítulo novo, chega meu coração se enche de alegria! Eu leio essa fanfic faz muitos anos, mas nem lembro qual foi a última vez que comentei porque não lembrava as informações de login. Enfim, depois de ler esse capítulo novo tive a necessidade de criar uma conta nova, pois preciso falaaaar. P*** *** ****U, meu coração ficou deslacerado. Se eu parar para refletir sobre HDM I, II e III, essa foi pra mim a pior briga de todas!!!!! Nunca fiquei tão desesperada lendo alguma coisa e tive que fazer uma pausa para assimilar o que estava acontecendo. AAAAAAA não consigo nem escrever esse comentário direito. Eu estou muito, muito triste com essa separação!!! T_T Tiveram tantos outros acontecimentos, mas só consigo pensar nessa parte que me deixou impactada. Senti as dores desse momento como se fossem minhas. O que posso dizer agora é CONTINUUUUUA!!!! Essa vai ser sempre a MELHOR fanfic que eu já li na minha vida!!! Simplesmente me faz parar tudo para ler e mesmo que as atualizações sejam demoradas, o tamanho dos capítulos me conforta, apesar que no momento que você termina de ler bate um desespero. Mel Black você tem um talento muito grande e se essa história fossem livros, eu compraria facilmente. AAAAAAAAA Que fanficzona da p***a!!

    2019-01-30
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.