Contrafeitiço da coragem



Finalmente! Chegou o capítulo mais esperado. Pelo menos para mim...



Boa leitura!



 





 



Para ouvir antes, durante ou depois da leitura do capítulo:



I hate u, I love u



(Gnash e Olivia O'Brien)



http://bit.ly/2aX3sbo



 



 



 



"Se o amor quiser voltar

Que terei pra lhe contar

A tristeza das noites perdidas

Do tempo vivido em silêncio

Qualquer olhar lhe vai dizer

Que o adeus me faz morrer

E eu morri tantas vezes na vida

Mas se ele insistir

Mas se ele voltar

Aqui estou sempre a esperar..."



(Vinicius de Moraes)



 



 



 



 Carlinhos agiu com autoridade ao ver o irmão se levantar da cadeira. "Fique aí, Ron. Honre a nossa família, que é formada por bruxos corajosos, todos ex-alunos da Grifinória, e escute o que Hermione tem a falar com você", ele foi imperativo. Surpresa, a garota observou o ex-namorado voltar a ocupar seu lugar à mesa.



— Tudo bem - Ron concordou com o irmão e finalmente se dirigiu à menina - Senta, se quiser. Mas vou logo avisando que estou com pressa.



Aquela era a situação mais constrangedora vivida por Hermione em toda a sua vida. Tinha vontade de sair correndo da taberna. Mas já havia se arriscado demais para chegar até ali. Não podia voltar atrás.



Ela deu a volta na mesa e sentou-se ao lado de Carlinhos e de frente para Ron. O ex-namorado olhou-a de relance e deixou escapar um suspiro mal-humorado. Foi o especialista em dragões que a salvou de um constrangimento ainda maior. Saudou Hermione com dois beijinhos, perguntou como tinha sido a viagem e, por fim, pediu desculpas pela atitude do irmão.



Confirmando ser uma pessoa de atitude, Carlinhos chamou o garçom e pediu duas cervejas amanteigadas e uma porção de carnatzlach. Ron, que permanecia de braços cruzados e com a cara amarrada, questionou o irmão: "Você não vai perguntar se ela quer beber algo"?



— Uma das cervejas é dela, Ron. Quem está indo embora sou eu. Hermione viajou do Canadá até aqui para conversar com você. Escute-a simplesmente - ele foi enfático e, ao se levantar, deu um beijo na testa da garota, desejando-lhe boa sorte.



Ron não esboçou qualquer reação. Continuou emburrado e não encarava a menina que, ao contrário, contemplava atentamente a fisionomia dele. Molly não exagerara. O rosto do ruivo estava mais magro, ele parecia cansado, com a barba por fazer e tinha olheiras pronunciadas. Hermione permaneceu em silêncio, aguardando inconscientemente que o rapaz a olhasse nos olhos.



— Não sei por que Carlinhos foi embora. Eu não tenho nada para falar com você em particular! - Ron desabafou depois de quase cinco minutos.



— Sou eu que preciso falar com você, Ron - a voz de Hermione soou tranquila.



O azul daquele olhar escureceu, as pupilas estavam contraídas, as orelhas vermelhas. Ron não precisava dizer nada. Ela sabia exatamente o que o rapaz sentia. As palavras, ainda assim, saíram mais duras do que imaginava.



— Você quer falar o quê?! Já conversamos tudo. Há dois anos não temos mais nada a dizer um ao outro - o rapaz a olhava de um jeito fulminante e Hermione sentiu o estômago embrulhar.



— Se você tentar ouvir, sem me julgar, será mais fácil falar - fez uma pausa, esperando que o ruivo dissesse algo, mas, diante do silêncio dele, continuou: - Eu acreditava que tinha alguma experiência como bruxa, não me deixaria enganar facilmente, mas, na verdade, não foi bem isso que aconteceu...



A confissão foi interrompida pela chegada do garçom, que trazia duas tulipas grandes de cerveja amanteigada e uma espécie de croquete de carne. Hermione logo entendeu tratar-se do prato romeno pedido por Carlinhos. Diante da hesitação da menina, o ruivo falou: "Pode comer. É um pouco forte, mas é muito bom".



Hermione tomou logo um gole de cerveja amanteigada. Estava precisando de algo para acalmá-la um pouco. Comeu um pedaço de carnatzlach e elogiou: "Leva um pouco de pimenta, né? Mas é bem gostoso". Ron, que também bebia a cerveja, apenas balançou a cabeça em concordância. "Pode continuar a falar", o rapaz mostrou um pouco menos de mau humor.



— Bem, eu... Eu achei que estava fazendo a coisa certa quando resolvi me afastar de você. Não imaginei que não tomava essa decisão por mim mesma e... - Hermione sentia que lhe faltavam palavras.



— Seja mais clara. O que você quer me procurando depois de tanto tempo para falar desse assunto? - Ron estava tornando aquela confissão ainda mais difícil.



— Eu não sei o que você sente por mim. Parece que apenas uma grande raiva. Mas ainda assim acho que tem direito de saber por que achei melhor terminarmos o nosso namoro - a jovem renovou a coragem.



— Para quê? Isso não vai mudar nada do que aconteceu - as orelhas de Ron voltaram a ficar vermelhas.



— Pode não mudar o passado, mas quem sabe o futuro... - ela ainda se lembrava das palavras da Madame Murdock.



— Então fala logo o que tem a dizer, Hermione. Já perdemos tempo demais um com o outro - o bruxo estava sendo cruel.



— Como posso explicar... Ron, sempre que perguntou o que eu sinto por você, nunca consegui mentir. Nunca falei que não gostava de você, que o considerava apenas um amigo. A minha única resposta era que a gente precisava se afastar... - ela decidiu falar logo do seu sentimento pelo ruivo.



— E nos afastamos, Hermione! Não entendo então por que veio quebrar essa decisão que foi sua e me procurou - Ron cortou a garota.



— Quando pedi para nos afastarmos, tinha a convicção que isso era o melhor para nós dois. Acreditei que eu não podia fazer você feliz e que ao seu lado também não seria uma pessoa realizada. Sempre brigamos demais... Mas o meu sentimento por você não mudava e por isso não consegui me afastar totalmente. Só que acontecia algo muito estranho. Quando eu estava com você experimentava uma grande angústia, parecia que eu estava fazendo algo errado, colocando a sua vida em risco... - como custava  para Hermione relembrar o passado.



— Você já falou tudo isso. O que mudou agora? Se é que mudou alguma coisa - ele voltou a cortar a menina.



— O que mudou foi que fiz duas descobertas. A primeira delas é sobre o sentimento que tenho por você. Não posso mais fugir dessa verdade, Ron. Eu ainda te amo - ao encarar aqueles olhos azuis, ela percebeu que o rapaz havia se surpreendido com a inesperada confissão. - Descobri também que a agitação, o desejo de me afastar, o medo de estar ao seu lado não foram realidades criadas pela minha cabeça. Eu estava enfeitiçada.



Mesmo se o rosto de Hermione ganhara o tom de púrpura, as mãos suavam, o coração batia com muita força, ela se sentia aliviada. Finalmente conseguira dizer tudo que precisava.



— Enfeitiçada?! Como assim enfeitiçada? Uma pessoa sob um feitiço não consegue levar uma vida normal como você... - os olhos dele estavam arregalados e a respiração, acelerada.



— Eu também acho tudo muito estranho. Quando fui para a Austrália, tive alguns apuros, como já sabe. Você deve lembrar que, por sugestão de uma amiga da sobrinha da professora Minerva, fui procurar uma bruxa que diziam ter talento para encontrar pessoas e reverter feitiços... De fato, ela me orientou, mas também acabou se apoderando daquele anel que você me deu de presente. Eu não percebi na hora. Achei que tinha perdido. Tudo só começou a fazer sentido agora, quando essa bruxa foi presa e foram descobertos todos os seus crimes - ela continuou.



— Que crimes? Se apoderar de anéis e outros objetos? Mas por que isso haveria de interferir no seu relacionamento comigo? Não faz sentido - Ron abrandou a voz, mesmo se ainda parecia impaciente.



— Ron, escuta... A história pode parecer sem sentido, mas é verdadeira. Ela foi presa pelo Departamento Internacional de Crimes Bruxos. Descobriram que teve uma grande desilusão amorosa. Como não era uma pessoa do bem, sentiu inveja dos casais apaixonados e começou a afastá-los usando feitiçaria. Ajudava as pessoas para conseguir realizar esse macabro propósito. Ela só precisava de um objeto que os conectasse de alguma forma, entende? Um anel, um cordão, algo que um tivesse presenteado ao outro... Parece que conseguiu separar mais de 100 casais ao longo de dez anos. Inclusive nós dois - ela contou com tristeza.



— Pensando na hipótese de eu acreditar na história louca que está me contando, como você descobriu tudo isso agora? - questionou-a.



— Acho que fui mesmo muito ingênua, despreparada... Nunca imaginei que alguém pudesse lançar um feitiço para nos separar de quem a gente ama pelo simples prazer de ver pessoas infelizes... Saiu nos jornais a notícia da prisão dela. Conheci aquele rosto assim que vi a foto na reportagem e fui pessoalmente à Austrália para conferir de perto toda essa história - ela falava com presa, mostrando toda a sua ansiedade.



— Isso tudo não faz sentido, Hermione. Se o feitiço foi para nos afastar, como namoramos depois que você voltou da Austrália? Bem, na verdade, nosso namoro foi muito confuso mesmo. Cheio de idas e vindas, com muitas brigas, desentendimentos. Mas daí a achar que isso aconteceu por causa de um feitiço... - ele parecia confuso, muito confuso.



A bruxa interrompeu a própria fala e começou a remexer na bolsa de forma tensa. Ron demonstrava estar ainda mais agitado que Hermione depois de tudo que acabara de ouvir. A expressão do ruivo permanecia fechada, o olhar era rígido, inquisidor. Mas a garota tinha esperança que algo tivesse mudado naquele coração que devia ser de pedra.



Ela finalmente encontrou o que procurava com tanto desespero. Abriu a mão direita na frente de Ron e mostrou o anel de ouro branco que trazia uma delicada pedra azul no centro. "Consegui recuperar o anel na Austrália", a garota se antecipou. Hermione colocou rapidamente a joia no dedo anelar direito e a pedrinha começou a brilhar.



— O anel não está mais enfeitiçado? - ele questionou e, ao ouvir a resposta negativa da menina, fez nova pergunta: - Por que a pedra está brilhando?



— Por que, Ron? Você sabe perfeitamente bem o porquê - o olhar dela era sentido, intenso, marcado por tantas lágrimas já derramadas.



Os dois se encararam profundamente. Enquanto aquela luz suave brilhasse, o amor entre eles também estaria acesso. O encontro de olhares, que se prolongou por um longo minuto, trazia perguntas, queixas, medos, esperança.



— Preciso ir, Hermione. Amanhã levanto cedo - Ron justificou-se. E antes de receber qualquer resposta da menina, perguntou: - Onde você está hospedada?



— Estou no Hotel Riverton, no Centro - ela respondeu.



— Vamos. Eu deixo você lá - o ruivo levantou-se.



— Espera, Ron - pediu à menina ainda sentada à mesa. - Preciso falar uma última coisa.



Ele voltou a sentar, cruzou os braços e olhou a jovem com firmeza. "Não sei como você vai receber isso. Mas preciso te falar o que sinto. Acho que devemos nos dar mais uma chance, recomeçar o nosso relacionamento de onde realmente foi interrompido", Hermione propôs com coragem.



— Isso é impossível. Não somos mais quem éramos naquela época. Muita coisa aconteceu em nossas vidas. Não dá para voltar atrás e esquecer tudo - Ron foi enfático.



— Eu não falei em esquecer, mas simplesmente em recomeçar. Se existir o principal, o sentimento, tudo vai se acertando aos poucos. É verdade que enfrentamos muitas situações difíceis, amadurecemos... Mas aquela Hermione e acredito que também aquele Ron que fomos um dia ainda existem dentro do que somos hoje - ela insistiu.



— Não dá mais, Hermione. O cristal se quebrou e nenhum feitiço pode recuperá-lo. Nosso tempo passou. Você não devia ter me procurado - o rapaz foi rude, quase agressivo.



Hermione não queria chorar na frente de Ron, mas a dor da nova rejeição era intensa demais. "Tudo bem. Se você prefere assim.", foi tudo que ela conseguiu dizer enquanto enxugava uma lágrima.



Tentando contornar a tristeza, ela aceitou que o ruivo a levasse até o hotel, que ficava muito próximo. Caminharam 10 minutos em silêncio. De vez em quando, uma lágrima insistia em cair pela face de Hermione.



"Obrigada pela companhia, Ron", ela agradeceu quando chegaram à porta do hotel. "Você volta para o Canadá amanhã?", ele quis saber. "Não, amanhã fico por aqui. Viajo depois de amanhã, no sábado. Por que?", Hermione o olhou esperando alguma palavra.



O rapaz perguntou qual seria a programação dela, que ficou constrangida. Não quis confessar haver pedido dois dias de folga na escola de bruxaria porque tinha esperança que ela e Ron pudessem passear juntos, conversar... "Vou tentar antecipar minha passagem", disfarçou. "Ah, melhor, né? Não tem muita coisa para ver aqui na Romênia", ele falou.



Quando chegou à recepção do hotel, Hermione não esperou o elevador. Decidiu subir até o quarto, que ficava no quinto andar, pelas escadas. As lágrimas que controlou com heroísmo agora molhavam todo o rosto da inteligente bruxa. Mal fechou a porta, ela se atirou na cama. Tantos planos, tanta expectativa e Ron a desprezava daquele jeito...



Quem sabe o ruivo tivesse razão. O amor deles, tão puro e verdadeiro, talvez fosse um cristal. E agora estava partido para sempre! Mas se era assim, por que a pedra do anel brilhava com tanta força? Por que Molly e Carlinhos acreditavam que Ron ainda gostava dela? Tantas perguntas... E precisava apenas de uma resposta.



 



 



* * * * * * * * * * * *



 



O que acharam? Ron foi muito duro? Hermione foi sentimental demais? Será que ela vai antecipar o voo para o Canadá? O que imaginam que vai acontecer agora?



Bem, estou provocando vocês com essas perguntas porque gostaria, sim, de receber algum retorno (pode ser por aqui, pelo twitter, e-mail, sinal de fumaça). Escreve aí, vai!  ♥



 


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Comentários (3)

  • lehleh potter

    adorei o capitulo, tudo bem construido, quero ver Romione logo, mentira, pode demorar um pouquinho, eu adoro um drama, principalmente se tiver final feliz, esperando ansiosamente o proximo capitulo, só uma dica, coloca o nome do cantor quando você coloca o nome da musica no final do capitulo!

    2016-08-16
  • Morgana Lisbeth

    Nossa, como você foi rápida, Ana! Eu ainda estava fazendo uma última alteração no texto (sou um perigo! não posso reler que logo decido trocar uma palavra ou outra hehehe) e vc já tinha comentado! Ah, sim, não se assuste. Não mudei a história não, só umas palavrinhas aqui e ali. Então, sei que não é muito fácil entender a atitude de Ron, mas temos que lembrar que os dois estão separados há dois. Um bom tempo, aliás, tempo suficiente para fazer crescer muitas caraminholas na cabeça!Hermione também estava bem encucada, mas parece que, ao encontrar o anel, ela ganhou novo ânimo e coragem. Mas nada tão simples assim porque, afinal, temos ainda mais 27 capítulos pela frente. Beijos e, mais uma vez, obrigada pelos comentários :)) 

    2016-08-15
  • Ana Clara Molina Ramos

    Esse capítulo foi realmente bom! Meu Deus! Claro que nós,leitores, queríamos uma reconciliação agora com muitos beijos e abraços, mas sabemos que uma história boa e emocionante não é escrita assim. Queremos Romione juntos logo, tá? "Por que a pedra está brilhando? — Por que, Ron? Você sabe perfeitamente bem o porquê [...] Os dois se encararam profundamente. Enquanto aquela luz suave brilhasse, o amor entre eles também estaria acesso. O encontro de olhares, que se prolongou por um longo minuto, trazia perguntas, queixas, medos, esperança." Cenas assim acabam comigo. Meu Merlim! Ai ai.....entendo o quão bravo o Ron está, mas a Mione tá sofrendo. Ai Merlim! "Quem sabe o ruivo tivesse razão. O amor deles, tão puro e verdadeiro, talvez fosse um cristal. E agora estava partido para sempre! " Não faça esse tipo de afirmação, Hermione Granger! "Mas se era assim, por que a pedra do anel brilhava com tanta força?" Porque não acabou. " Por que Molly e Carlinhos acreditavam que Ron ainda gostava dela?" Eles sabem o que falam, acredite menina. " Tantas perguntas... E precisava apenas de uma resposta." Todos estão esperando ansiosamente por essa resposta.

    2016-08-15
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