A Batalha



Os gritos ecoavam em meus ouvidos. O caos aumentava à medida que as pessoas avistavam a Marca Negra no céu, apontavam e entravam em pânico.


Fiquei desnorteada e depois de poucos segundos descobri que estava sozinha.


- Tiago! Tiago! – gritei em meio à multidão, mas meus gritos eram baixos comparados a tantos outros.


As pessoas continuavam a se empurrar, outras desaparatando. E foi assim que eu os vi.


Vestidos com capas longas e negras, mascarados, aproximadamente dez Comensais da Morte vinham descendo a rua, lançando feitiços nas vidraças das lojas, atingindo pessoas que caíam inertes no chão. Pareciam estar se divertindo.


Onde estariam os aurores agora? Onde estaria Tiago e os outros?


Os Comensais continuavam a avançar e decidi correr de volta ao Três Vassouras. Era mais fácil agora, pois as pessoas iam para mesma direção. E novamente me perguntei por que elas continuavam a correr e não aparatavam logo dali.


- Tiago! Tiago! – voltei a gritar, tentando enxergar na escuridão. Os poucos lampiões que restavam na rua eram destruídos por feitiços que vinham de todos os lugares.


Os gritos continuavam e finalmente consegui me aproximar do pub. Estava vazio, talvez, exceto, por Madame Rosmerta, que tinha fechado o local.


- Ah, meu Deus... – murmurei, quando pro meu espanto, não avistei ninguém ali.


Eu me sentia cada vez mais perdida e desesperada, meu coração martelava e eu podia sentir minha mão tremer no aperto da varinha.


Será que eles tinham aparatado? Eu não podia sair dali sem saber. Eu precisava saber.


Tentei voltar e dessa vez foi quase impossível; todos fugiam do lugar onde os Comensais da Morte agiam.


Com um assomo de pânico, por pouco não fui atingida por um feitiço azul, que passou de raspão por meus cabelos, fazendo-os arrepiarem.


- Lílian! Lílian! – ouvi alguém gritar.


Fiquei atenta, procurando a origem do chamado, quando alguém segurou meu pulso.


- Lílian, que bom te encontrar! – era Maria, e estava com um grande corte na cara. – Você viu Dougie? Viu os outros?


- Não, nem Tiago. – lamentei. – O que aconteceu com você?


- Caí. – ela resumiu. – Onde estão os aurores daqui?


- Não sei também. Mas fique perto de mim.


Continuamos a andar, ainda perdidas e de mãos dadas. Alguns bruxos, que com certeza eram aurores duelavam com dois Comensais.


- Que horror! O que vamos fazer? – Maria disse, esganiçada.


- Vamos procurar os outros e sair daqui.


Decidimos subir um pouco mais. A rua da vila tinha menos movimento, pois as pessoas continuavam a aparatar. Outras continuavam a correr pra cima e pra baixo, de varinha a postos.


- Onde será que eles estão...? – comecei, mas então um Comensal entrou em nosso caminho. Ele parecia estar sem máscara, mas a noite impedia de vermos seu rosto.


- Estupefaça! – gritei, mas ele rapidamente lançou um escudo, e continuou a avançar. Eu podia sentir o corpo de Maria tremer.


- Expelliarmus! – Maria ordenou, mas o Comensal defendeu novamente e desta vez atacou.


- Protego! – gritei, antes que o feitiço nos atingisse. – Maria, tudo bem?


Olhei para os lados, espantada. Uma figura desacordada estava no chão. Maria desmaiara.


- Ah, não... – eu disse, mas o Comensal ainda caminhava até nós, a cabeça tombada, me fitando.


- Impedimenta! – eu disse, mas ele defendeu novamente; eu recuei.


O homem abriu a boca pra falar, sem levantar a varinha, porém saiu um rosnado.


Me assustei e tropecei, caindo de costas no chão, ao lado do corpo imóvel de Maria. O tombo me fez perder a varinha de vista.


A figura escura do Comensal se aproximou. Eu não sabia o que viria a seguir, quando um estampido e uma luz vermelha o lançou para trás.


- Fique longe dela, seu desgraçado! – escutei a voz de Tiago gritar, enquanto eu tateava a terra seca em busca da minha varinha.


- Lílian, Lílian, você está bem? – Tiago correu ao meu encontro.


- Sim. Maria...


- O que aconteceu com ela? – Sirius também chegou.


- Desmaiou. – expliquei, finalmente encontrando minha varinha e murmurando: - Enervate!


O corpo de Maria tremeu e aos poucos ela foi abrindo os olhos. Piscou duas vezes e se sentou depressa.


- Comensais!


- Tá tudo bem, Maria. – eu disse depressa. – Temos que sair daqui. Cadê os outros?


- Dorcas, Edgar e Joanne foram pra um lugar seguro. Rabicho desaparatou com Emelina. – Tiago respondeu.


- E os outros?


- Aluado deve está por aí. Acho que Laura e Peter também foram embora.


- Acha? – indaguei, espantada.


- Espere aí, e o Dougie? – Maria se pôs de pé rapidamente.


- Não sabemos. – Sirius disse.


- Como assim não sabem? – ela arregalou os olhos, histérica. - Temos que encontrá-lo!


- Nós vamos. – afirmei.


Ajudamos a por Maria de pé. Ela olhou para o Comensal caído e sussurrou, como se pudesse acordá-lo.


- Quem é esse?


- Greyback. – suspirou Sirius. – Aluado teria prazer em lutar com ele. Deixa ele aí.


- Certo, agora vamos procurar Dougie! – Maria guinchou, apertando as mãos contra o corpo.


Saímos correndo pela rua, agora decididamente mais vazia, porém mais outras pessoas corriam.


- Porque será que elas não vão embora daqui? – perguntei, quando uma mulher corria apressada e aos tropeços.


- Alguns são moradores daqui, querem proteger seus pertences, suponho. – Tiago respondeu. – Outros devem estar procurando amigos, como nós.


A rua tinha várias pessoas desacordadas, algumas cuidando de ferimentos, outras cuidando de outras pessoas em estado deplorável. Vi de relance um homem correr desembestado, gritando pelo filho.


No caminho encontramos Alice e Franco, ambos duelando com um único Comensal da Morte.


- Podem ir! – Franco berrou, projetando rapidamente um escudo. – Vamos nos cuidar. Nos veremos mais tarde!


Assentimos depressa e voltamos a procurar por Dougie, Maria a frente, gritando.


- Dougie! DOUGIE!


- Caramba, isso tá um caos. – Sirius comentou, tão despreocupadamente que tive um estranha vontade de rir.


- Ele deve estar por aq... – Tiago começou, mas então tropeçou e caiu de borco no chão.


- Tiago, você está bem? – perguntei, ajudando-o a levantar.


- Sim. Acho que tropecei em alguém...


- Dougie! – Maria gritou e se abaixou junto a mim, espantada.


Dougie estava imóvel no chão; quase era invisível sobre a noite escura.


- Oh, minha nossa! – Maria exclamava desesperada e chorosa, enquanto o examinava.


- Calma, Maria, ele ainda está vivo. – Almofadinhas tentou tranqüilizá-la, o que não adiantou muito. – É melhor você levar ele daqui.


- P-Pra onde? – ela gaguejou.


- Leve ele pra... pra...


- Para a casa da mãe dele. Em Londres. – Tiago sugeriu. - Oxford Street, 15.


- T-tudo bem.


Ajudamos Maria a por Dougie em pé, apoiado apenas por um ombro.


- Nos vemos em breve. – falei a ela.


Ela assentiu, deixando mais lágrimas caírem. E então com um estalo desaparatou.


Mal contemplamos o lugar onde Maria estava antes, quando Aluado veio correndo até nós.


- Tudo ok? – ele arfou. – Os aurores chegaram.


- Então agora podemos ir? – indaguei, o alívio tomando conta de mim.


- Eu não vou. – Sirius respondeu, pra surpresa geral. – Quero ficar e lutar. Sei que ainda tem muitos Comensais por aqui.


- Mas... – Tiago começou e Sirius balançou a cabeça.


- Não entende? Devo ter muitos parentes por aqui. Nada melhor do que uma reunião em família.


- Mas é perigoso! – exclamei, assim que mais estampidos e gritos enchiam nossos ouvidos.


- Eu vou ficar. – ele insistiu. - Esse é o objetivo da Ordem, não é?


- Pois eu também vou ficar. – Tiago disse excitado.


- Também vou. – Aluado concordou.


- E eu também.


- Nada disso, Lílian. – Tiago disse com seriedade. – É melhor você sair daqui. Tem que ir pra casa dos seus pais.


- Mas, Tiago, eu quero ficar! Eu pertenço a Ordem também!


- É perigoso demais. – ele balançou a cabeça.


- Se você ficar, também vou.


- Não comece...


- Eu já sou responsável por mim mesma. – falei sem rodeios. – Se eu quiser ficar eu vou. Você não pode me impedir.


- Deixe de teimosia, Lílian! – Tiago reclamou olhando para os amigos, em busca de apoio. – Você está horrível.


- O vestido não é problema...


- Não é do vestido que eu estou falando. Você está toda machucada.


- Não estou. – menti. Na verdade, eu cortara minha perna quando tropecei, e acabei me cortando em vários pontos quando as pessoas corriam e os feitiços passavam de raspão.


- Claro que está. E está decidido. Você vai.


- Eu não vou ficar na minha casa imaginando o que está acontecendo aqui! Ficar martelando em minha cabeça a idéia de que vocês correm perigo!


- Isso não vem ao caso...


- Olha aqui – Sirius interveio -, vocês podem discutir o quanto quiser. Eu vou subir.


- Vou com você. – Aluado respondeu.


- Pontas, se eu fosse você levaria Lílian pra fora daqui. – Almofadinhas falou. - Hoje os Comensais da Morte decidiram se divertir um pouco, então é melhor vocês irem embora.


Eles trocaram olhares significativos; por fim, Tiago assentiu.


- Vamos. – Sirius falou para Aluado, e eles sumiram no meio das pessoas que ainda restavam.


- É melhor irmos emb...


- Cuidado! – gritei, empurrando para o lado, onde por pouco um feitiço atingira sua cabeça.


- Como é, Potter! – o Comensal que lançara o feitiço gritou. – Vai fugir agora?


Sua voz era terrivelmente familiar. Ele se aproximou mais um pouco e despiu a máscara, mostrando...


- Mulciber. – Tiago murmurou com desdém.


Mulciber sorria, satisfeito e com ar superior.


- Então, conseguiu o que tanto queria, não é? – Tiago falou em resposta. – Se juntou ao seu amado Lorde das Trevas. Suponho que hoje seja seu primeiro dia no cargo? Que comovente!


- Você não aprende nunca, não é mesmo Potter? – ele elevou sua voz rouca.


Depois disso fiquei imaginando se Severo por acaso poderia estar se juntando a ele também. Senti um aperto no coração.


- Você é que sempre será o mesmo. – Tiago desafiou, erguendo a varinha. – Nunca vai entender que com seu Lorde ou sem seu Lorde idiota continuará o mesmo lixo de sempre.


Tiago me empurrou pro lado e eles começaram a duelar. As varinhas se movimentavam rapidamente, feitiços verbais e não-verbais. As pessoas presentes que não corriam desesperadas ficaram excitadas com o duelo.


- É o melhor que sabe fazer, Potter? – Mulciber gritou, mas então saquei minha varinha.


- Impedimenta! – alguém gritou; por reflexo me desviei por um triz.


Olhei pro lado, atordoada, quando percebi o feitiço lançado por mais um Comensal que se aproximara.


- Não sabe que é incorreto dois contra um, doçura? – ele disse; tinha uma voz arrastada e não pude ver seu rosto, atualmente mascarado.


- Expelliarmus!


- Crucio! – o Comensal gritou.


Os feitiços se chocaram; a varinha do homem voou longe e eu aproveitei e ordenei:


- Estupefaça!


O Comensal foi lançado longe. Caminhei rapidamente até seu corpo inerte e murmurei:


- Incarcerous.


Cordas surgiram em seu corpo e conclui que estava bem amarrado.


Enquanto isso, Tiago e Mulciber continuavam com o duelo, agora mais voraz e mais rápido do que nunca.


- Mostre o que é capaz, Mulciber!


- Avada Kedavra! – Mulciber berrou e Tiago desviou por pouco.


Fiquei em estado de choque, o medo e a raiva de Mulciber por querer matá-lo subia velozmente por meu cérebro.


- Estupefaça! – os dois gritaram ao mesmo tempo, porém Tiago tinha um segundo de antecedência. Mulciber foi lançado longe, e as pessoas que assistiam, aplaudiram.


Porém Mulciber já estava se levantando, tonto e cambaleante. Tiago ergueu a varinha, mas ele já havia desaparatado.


- Covarde. – Tiago resmungou triunfante.


- Tiago! – chamei. - Tiago, precisamos sair daqui!


Nesse instante, Alice e Franco corriam até a gente, ofegantes.


- Tudo bem. – Alice disse, curvando-se pra se apoiar nos joelhos. – Os aurores estão providenciando tudo.


- Prendemos um Comensal da Morte. – Franco anunciou contente, e olhando para o Comensal amarrado, sorriu. – Dois agora.


Mas, antes mesmo de alguém comentar ou comemorar e pra piorar a situação, houve mais gritos. Centenas de dementadores avançavam da escuridão. O frio repentino, o medo e a tristeza indicavam que eles estavam perto. As pessoas gritavam e as poucas que sabiam, conjuravam Patronos.


Tiago correu até mim e segurou firmemente minha mão.


- Não acredito! – Alice exclamou. – O que eles estão fazendo aqui justo agora?


- Lancem Patronos! – Franco gritou.


- Vamos lá, Lílian. – me disse Tiago. - Expecto Patronum! – ele ordenou, fazendo assim, o cervo surgir da ponta de sua varinha e investir contra os vultos encapuzados.


- Expecto Patronum! – Alice e Franco também gritaram e dois quadrúpedes saíram de suas varinhas.


Respirei fundo e pensei em Tiago, em Maria e todos os meus amigos. Eles ficariam bem.


Mas algo me puxava pra baixo, como um poder estranho e destruidor, que te fazia perder as esperanças, as forças. Como um objeto pesado demais, tenso demais para você aguentar e ele te levar para um abismo.


A imagem de Dougie caído veio à tona. Estaria vivo? Teria condição de sobreviver a qualquer coisa que tenha acontecido com ele? E os outros? Laura e Peter estariam bem? E quanto a nós? Sairíamos dali vivos apesar dos aurores terem chegado?


Tiago apertou ainda mais minha mão, como um estímulo.


- Expecto Patronum! – a corça se juntou ao cervo e juntos iluminaram parte da rua, esbeltos.


Os dementadores recuaram, mas notamos que apenas subiam a rua, em direção onde mais pessoas, Comensais e também aurores, deveriam estar.


- Tiago... – eu disse, fraca.


- Vou te levar daqui. – ele disse, sobre mais gritos. – Segure-se firme.


Eu apertei com a maior força possível seu braço.


Jurei ter visto um raio verde voar em nossa direção, mas já tínhamos rodopiado.


Nunca gostei muito de aparatação, confesso. Sempre fiquei enjoada e desconfortável. Continuávamos a girar, e eu ainda apertava Tiago com força. Uma dor lancinante em minha perna esquerda anunciou que estávamos perto, e as imagens se tornaram borrões, até tudo virar escuridão.

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