CAPÍTULO III



CAPÍTULO III

Harry dormiu até as primeiras horas da tarde. Quando despertou, sentia-se bem-disposto. Seu ombro ferido estava rígido, mas não o incomodava. Anotaria isso como crédito a favor de Gina.
Jogou as cobertas para um lado, lançando um olhar distraído para seu casaco de montaria. Estava em péssimas condições, mas teria de vesti-lo assim mesmo, já que não podia usar um traje de noite àquela hora do dia! Até que seus baús chegassem, não havia outro jeito senão conformar-se com a situação.
Passou a mão pelo queixo barbudo, pensando o que diria seu criado de quarto se o visse naquele estado. O caro e fiel Parkins! Ficara aborrecido ao saber que iria permanecer em Londres enquanto seu patrão viajava para as bárbaras montanhas da Escócia. Embora conhecesse o verdadeiro propósito dessa viagem, ele não se mostrara menos ansioso em empreendê-la. Mas o que fazer com um criado de quarto em Glenroe?
Harry olhou-se no espelho e, com um suspiro, pôs-se a escanhoar o queixo. Podia não ser capaz de dar um jeito no casaco amarrotado ou nas rendas de sua camisa, mas sabia barbear-se sozinho!
Meia hora depois, banhado e reanimado, desceu para o andar térreo. Encontrou Molly Weasley, usando um avental sobre o simples vestido caseiro, a esperá-lo no hall de entrada.
- Lorde Potter, espero que tenha descansado bem.
- Muito bem, lady Weasley. Obrigado.
- Deve estar com fome, naturalmente.
Com um sorriso, ela colocou-lhe a mão no braço e conduziu-o à sala de jantar. Antes de entrar, fez um sinal à criada.
- Fiona, diga à cozinheira que lorde Potter desceu e que gostaria de almoçar.
Na sala, já havia um lugar posto à longa mesa de carvalho.
- Prefere comer sozinho, ou gostaria que eu lhe fizesse companhia?
- Se quiser dar-me esse prazer, madame...
Com um sorriso Molly aceitou a cadeira que ele lhe puxou.
- Ainda não o agradeci como devia. Quero me desculpar por isso e dizer quanto lhe somos gratos por ter trazido nosso filho para casa.
- Gostaria que ele tivesse chegado em melhores condições.
- O senhor o trouxe para nós e é isso que importa.
- Rony é meu amigo. - disse Harry com afeto.
Molly tomou-lhe a mão e acariciou-a de leve.
- Foi o que ele me disse. Mas isso não diminui a dívida que temos para com o senhor.
- Como está ele?
- Suficientemente bem para queixar-se. - O sorriso de Molly era maternal. - Rony é como o pai, impaciente e impulsivo.
Falaram coisas banais, enquanto a refeição, preparada com esmero, era servida. Havia um caldo espesso de hortaliças enriquecido com grossas fatias de presunto, porções de peixe fresco com ovos, bolachas de aveia, café e uma grande variedade de geléias.
Harry sentia-se confortável, à vontade. Achava o sotaque de lady Molly encantador e sua conversa agradável. Esperava que ela lhe perguntasse o que havia discutido com seu marido na noite anterior, porém ela parecia contente com seu papel de dona de casa.
- Se quiser, my lord, remendarei seu casaco.
Ele olhou para a manga que a espada do bandido estraçalhara e fez um pequeno gesto de pesar.
- Acho que não tem mais conserto.
- Faremos o que for possível.
- Obrigado.
Continuaram nesse tom por mais cinco minutos, até que Molly afastou a cadeira e levantou-se.
- Poderá desculpar-me, my lord? Tenho muito o que fazer até a chegada de meu marido.
- Lorde Weasley partiu?
- Sim, mas voltará ao anoitecer. Também ele tem muito o que fazer, antes que o príncipe Charles comece a agir.
Harry fitou-a com admiração. Jamais conhecera uma mulher que considerasse a ameaça de uma guerra com tanta calma! Fez-lhe uma reverência cortês e subiu ao andar superior. Do corredor, ouviu Rony resmungar:
- Não vou comer esse grude!
- Vai comer, sim! - Era a voz de Gina. - Gwen fez isso especialmente para você.
- Não adianta insistir. Não vou comer e ponto final!
Ficou a observá-los por um instante do limiar, depois entrou no quarto. O amigo recebeu-o com um suspiro de alívio.
- Chegou em boa hora, Harry! Mande-a levar de volta essa papa horrível. Eu quero comer carne. Carne! - repetiu ele com mais vigor. - E tomar uísque!
Harry aproximou-se da cama e deu uma espiada no mingau ralo que enchia a tigela.
- Não é nada apetitoso.
- Foi o que eu disse. - Rony apoiou a cabeça no espaldar da cama e tornou a suspirar. - Ninguém, a não ser uma mulher teimosa, esperaria que eu comesse esta lavagem.
- Tivemos presunto no almoço.
Os olhos do escocês brilharam.
- Presunto?
- Cozido, no ponto certo. Cumprimente sua cozinheira por mim, srta. Weasley.
- Meu irmão precisa comer mingau de aveia, - disse ela entre dentes - e é isso que ele vai comer!
Harry deu de ombros e sentou-se na beirada da cama.
- Isso é com você, Rony.
- Mande-a embora daqui!
- Terei prazer, certamente, em fazer tudo o que estiver a meu alcance. Mas acho perigoso recorrer a mim. Sou inglês!
Rony virou-se para a irmã.
- Vá para o diabo, Gina! E leve este mingau de aveia com você!
- Muito bonito! É assim que agradece o esforço de Gwen? Ela não só cuidou de você, mas teve até o trabalho de lhe preparar algo com suas próprias mãos. Levarei a bandeja para baixo, se é isso que você quer. E direi a Gwen que prefere jejuar a comer o mingau que ela fez!
Virou-se e caminhou para a porta. Mal havia dado dois passos, Rony a chamou:
- Com mil demônios, Gina! Volte e me dê essa bandeja!
Ela aproximou-se dele com um sorriso e enfiou a colher no mingau.
- Abra a boca, querido.
- Não preciso de sua ajuda. Vou comer sozinho!
- E respingar mingau sobre os lençóis limpos? Nada disso, meu irmão!
Harry levantou-se.
- Já vou indo, Rony. Bom apetite.
O rapaz agarrou-lhe o pulso.
- Não me deixe sozinho. Ela... - Ele fez uma pausa, quando sua irmã enfiou-lhe uma colherada de mingau na boca. Depois de engolir, continuou: - Ela é o diabo em pessoa, Harry!
Harry voltou-se para Gina.
- Verdade?
Ela deu de ombros, com indiferença.
- É, acho que sou.
Rony conteve a custo o riso e perguntou em tom casual:
- Soube que recebeu uma estocada no ombro, Harry.
- Coisa à toa. Sua irmã já cuidou disso.
- Gwen é um anjo!
- Ela estava muito ocupada. - explicou Harry. - Foi Gina quem tratou dos ferimentos.
- Tratando de um inglês, irmãzinha querida? - disse Rony e todo o seu rosto era um grande sorriso.
- Farei você engolir essa colher, Rony Weasley! - ameaçou ela.
- E preciso mais do que o arranhão de uma espada para me pôr fora de combate, mocinha. Tenho ainda forças para dar-lhe umas boas palmadas no traseiro!
Ela lhe enxugou delicadamente a boca com o guardanapo.
- Lembra-se da última vez que tentou fazer isso, querido?
Rony fez que sim com a cabeça e voltou-se para Brigham.
- A moça é valente, Harry! Ela me deu um pontapé... - Ao notar o olhar furioso que a irmã lhe lançava, ele concluiu apressado: - Ela me feriu o orgulho.
- Vou me lembrar disso, se um dia chegar a discutir com a srta. Weasley.
Rony recostou a cabeça no travesseiro e suspirou.
- A moça mais linda de Glenroe... Mas que gênio, Harry! Tão diferente daquelas lindas e doces francesinhas de cabelos dourados...
- Tive o prazer de descobrir isso por mim mesmo, meu amigo.
- Ela me forçou a tomar essa droga...
- Que tarefa ingrata cuidar de um irmão doente! - atalhou Gina com brandura.
- Amo você, Gina. - murmurou ele, fechando os olhos.
- Sei disso. E agora durma.
Ela o aconchegou ternamente no edredrom de plumas, deixando-se ficar um momento a contemplá-lo. Depois, apanhou a bandeja e fez menção de sair do quarto.
- A senhorita dormiu bem? - perguntou Harry, bloqueando a passagem.
- Bem, obrigada. - Gina tentou manter o sangue-frio. - Desculpe-me, lorde Potter, mas tenho muito o que fazer.
- Lorde Potter... Para que tanta formalidade? Afinal, passamos a noite juntos!
Ela lançou-lhe um olhar de puro ódio.
- Por quem me toma? Por uma daquelas francesinhas da corte do rei Luís? Guarde sua intimidade para elas!
Ele sorriu, divertido.
- Sabe que tem os olhos mais incríveis que já vi? Quando fica zangada, eles ardem como duas chamas verdes!
Gina corou profundamente. Sabia como lidar com a lisonja, como aceitá-la, ou descartá-la. Mas era difícil manter a confiança em si mesma, quando sua vontade estava em luta com a daquele homem forte, altivo e resoluto.
- Deixe-me passar.
- Logo agora que a conversa está ficando interessante?
- Para o senhor!
Harry agarrou-a pelo braço.
- Você teria me beijado, não teria, se sua irmã não tivesse aparecido?
- Saia da minha frente!
Nesse instante, um garoto de cerca de dez anos, cabelos ruivos e olhos verdes, chegou correndo pelo corredor e estacou à porta do quarto.
- Malcolm! - disse Gina, levando o dedo indicador aos lábios. - Não faça barulho, Rony está dormindo.
- Que pena! Eu queria vê-lo.
- Você pode dar uma espiada nele, mas antes vai ter que se lavar. Está parecendo um garoto de estrebaria!
- Eu estava com a égua. Ela vai dar cria dentro de um ou dois dias.
- Isso não é desculpa.
- Está bem. Voltarei mais tarde. - Antes de virar-se, o menino apontou para Harry. - É ele o maldito inglês?
- Malcolm! - disse Gina escandalizada. Depois, corando, acrescentou: - Queira desculpá-lo, my lord.
Harry lançou-lhe um olhar zombeteiro. Sabia de quem o garoto ouvira a expressão ofensiva.
- Não quer nos apresentar?
- Meu irmão Malcolm, lorde Potter.
- Seu criado, sr. Weasley. - disse ele, com voz calma e impessoal.
O menino sorriu diante do tratamento formal.
- Meu pai gosta do senhor. – confidenciou ele. - E também minha mãe e Gwen.
Os lábios de Harry curvaram-se num leve sorriso.
- Sinto-me honrado.
- Soube que tem os melhores cavalos de Londres. Nesse caso, eu também vou gostar do senhor!
Harry desmanchou-lhe os cabelos e olhou para Gina.
- Viu só? Outra conquista.
Ela ergueu o queixo e ignorou-o.
- Vá se lavar, Malcolm.
- Elas estão sempre querendo que eu me lave. - disse o menino com um suspiro. - E bom que haja mais homens na casa!

Cerca de duas horas depois, a carruagem de lorde Potter chegou a Glenroe causando sensação. O conde era um homem requintado e seu aparato de viagem não constituía exceção. A carruagem, negra com adornos de prata, era conduzida por um cocheiro vestido de preto, com o auxílio de um jovem palafreneiro, instalado a seu lado, na boléia.
- Ei, garoto!
O cocheiro saltou ao chão e chamou um menino, que estava sentado à margem da estrada, admirando a carruagem.
- Onde fica o solar Weasley?
- Siga em frente. A casa fica no alto da colina. Esta é a carruagem do lorde inglês?
- Acertou, garoto.
Satisfeito, o menino apontou para o alto.
- Ele está morando lá em cima.
Harry viu quando a carruagem parou no pátio do solar e começou a descer as escadas de pedra.
- Por que demoraram tanto?
- Peço desculpas, my lord. As estradas estavam ruins.
Ele apontou para os baús.
- Traga-os para dentro, Wiggins.
- Pois não, my lord.
- Os estábulos ficam atrás da casa, Jem. Leve os cavalos para lá. Vocês já comeram?
O jovem palafreneiro, cuja família servia os Potter durante três gerações, saltou ao chão, meio tonto.
- Apenas um bocado, milorde. Wiggins estava com pressa.
- Tenho certeza de que encontrarão uma refeição quente na cozinha. Se vocês...
Harry interrompeu-se quando a porta da carruagem abriu-se, e um homem, mais altivo do que um duque, pôs o pé no estribo.
- Parkins!
Seu criado de quarto inclinou respeitosamente a cabeça.
- My lord.
Então ao notar o estado dos trajes do patrão, ele estremeceu e sua voz encheu-se de horror:
- Oh, my lord!
Harry olhava para ele, a boca entreaberta, como se estivesse vendo um fantasma. Depois de um longo silêncio, explodiu:
- Mas o que está fazendo aqui?
- O senhor precisa de meus cuidados. Eu sabia que tinha de vir e, agora, não tenho mais dúvidas a esse respeito. Vou dar ordens para que os baús sejam levados imediatamente para os aposentos de my lord.
- Não vai fazer coisa nenhuma! Não preciso de um criado de quarto aqui no campo!
Parkins não se deixou dispensar com tanta facilidade.
- Faz vinte anos que sirvo à família Potter. E vou continuar a servi-la. Não voltarei para Londres.
Harry suspirou fundo. Era difícil permanecer insensível à lealdade e à nobre cortesia do homem.
- Pelo inferno, entre! Aqui fora está um gelo! - disse, tomado de ligeiro desespero.
Parkins subiu os degraus com toda a dignidade que lhe foi possível.
- Cuidarei imediatamente da bagagem de my lord. - Ele lançou um olhar aflito ao casaco do patrão. - Se pudesse persuadi-lo a me acompanhar, eu o deixaria apresentável num minuto.
Harry cruzou os braços sobre o peito e estudou-lhe o rosto pálido e contraído. Por fim, disse, com um sorriso aberto:
- Bem-vindo à Escócia, Parkins!
Um ligeiro rubor animou as faces descoloridas de seu criado.
- Obrigado, my lord.

Jem conversava com Malcolm, completamente à vontade, quando Harry empurrou a pesada porta de carvalho o entrou na estrebaria.
- Ouviu certo, sr. Weasley. Lorde Potter tem, efetivamente, os melhores cavalos de Londres. E sou eu que cuido deles!
- Gostaria que cuidasse também da minha égua, Jem. Ela vai dar cria em breve.
- Com muito prazer, sr. Weasley.
- Jem!
O rapaz virou a cabeça. Quando viu seu patrão parado à porta da estrebaria, endireitou-se.
- Sim, senhor. Os cavalos estarão prontos num piscar de olhos.
Malcolm voltou-se também.
- O senhor tem belos cavalos, lorde Potter. Gostaria de conduzi-los.
- Por que não? - Harry tirou o capote de lã e preparou-se para trabalhar. - Talvez, num dia desses você queira me mostrar suas habilidades guiando minha carruagem.
Não havia meio mais rápido para conquistar o coração do menino.
- Verdade? - disse ele, entusiasmado. - Sua carruagem é muito pesada, senhor. Temos uma carruagem leve, de duas rodas, mas minha mãe não permite que eu a guie sozinho.
- Irei com você, está bem?
Harry afagou-lhe os cabelos e depois virou-se para examinar seus cavalos.
- Eles parecem em boa forma, Jem. Vá dar uma olhada na égua do sr. Weasley.
- Não gostaria de vê-la também, senhor? - disse Malcolm. - Ela é uma beleza!
- Terei imenso prazer.
O menino tomou-o pela mão e guiou-o através da estrebaria até uma das baias.
- Aí está minha Betsy.
Ao ouvir seu nome, a pequena égua castanha enfiou o focinho por entre as ripas do portão e fungou.
- É uma lady encantadora.
Harry esfregou-lhe o focinho aveludado e ela o fitou com olhos calmos e interrogadores.
- Betsy gostou do senhor! - disse Malcolm, exultante.
Na baia, Jem examinava a égua, que permanecia quieta, suspirando ocasionalmente, quando seu ventre estremecia, ou agitando o rabo.
- Ela irá dar cria logo. - confirmou o cavalariço. - Dentro de um ou dois dias, segundo meus cálculos.
- Eu queria dormir aqui, mas Gina não vai permitir. - queixou-se Malcolm.
- Não se preocupe. Betsy está em boas mãos agora.
- Jem me avisará quando chegar o momento, senhor?
- Claro! Não se preocupe. - Harry colocou a mão no ombro do menino. - Não quer levá-lo até a cozinha? Ele ainda não almoçou.
- Oh, sim! A sra. Drummond terá imenso prazer em lhe preparar alguma coisa para comer.
- Boa tarde, lorde Potter.
- Harry, por favor - sugeriu ele.
Malcolm sorriu e apertou a mão que lhe era oferecida. Então, dirigiu-se para a porta, convidando o cavalariço a segui-lo.
- Jem. - disse Harry, antes que seu empregado saísse. - Lembre-se de que ele é jovem e impressionável. Não solte pragas nem maldições na frente dele, ou a culpa recairá sobre mim.
- Sim, milorde. Prometo que saberei me comportar.
Harry deixou-se ficar ali. Talvez porque o estábulo estivesse silencioso e os cavalos fossem boa companhia. Gostava deles e podia, se necessário, arrear uma parelha tão rapidamente quanto seu cavalariço, ou ajudar uma égua no trabalho de parto. Em outra época, acalentara o sonho de criar cavalos. Mas tivera de esquecê-lo, quando herdara não só o título como as responsabilidades que isso comportava.
Porém, não era em cavalos ou nos sonhos perdidos que pensava agora. Era em Gina. E talvez porque seus pensamentos estivessem tão concentrados nela, não ficou surpreso ao vê-la entrar na estrebaria envolta numa grossa capa de lã.
Também ela estava imersa em pensamentos. Não fizera outra coisa no decorrer da manhã, senão pensar no homem que se hospedava em sua casa e comia em sua mesa. Por que permitira que ele a tocasse e a olhasse daquele modo? Lembrou-o de pé junto à janela, a luz da manhã envolvendo-o em seu brilho. Seus olhos haviam-se tornado tão escuros...
Sabia quando um homem a olhava com interesse. Já havia sido cortejada por alguns, fora beijada e sentira-se até mesmo excitada. Porém nunca havia experimentado uma emoção tão poderosa como a que ele lhe despertara.
No entanto, estava disposta a resistir, a fazer valer sua independência. Quando tivesse uma nova oportunidade de deparar-se com o arrogante conde Potter, saberia como tratá-lo!
Suspirou e olhou em torno da estrebaria mergulhada em obscuridade.
- Malcolm, seu diabinho! Vou levá-lo para casa nem que seja à força. Você ainda não terminou suas tarefas!
- Sinto muito, mas a senhorita terá que procurá-lo na cozinha. - Harry saiu das sombras, satisfeito em surpreendê-la. - Acabei de mandá-lo para lá junto com meu cavalariço.
Ela fitou-o com altivez.
- Com que direito? Ele não é seu criado!
Harry chegou mais perto e notou que as cores da capa, que lhe caía em amplas e graciosas pregas em torno do corpo esbelto, combinavam com o tom de seus cabelos.
- Malcolm tomou-se de simpatia por Jem. Também ele, como seu irmão, tem um grande amor pelos cavalos.
O coração de Gina enterneceu-se, como acontecia sempre que se tratava de Malcolm.
- Ele não sai daqui. Tenho sempre quer vir buscá-lo e levá-lo para casa à força. - Ela fez uma pausa. - Não permita que ele o perturbe.
- Malcolm e eu nos entendemos muito bem.
Harry deu mais um passo a frente. Ela cheirava a lavanda, um aroma leve e casto que parecia fazer parte de sua personalidade.
- Precisa descansar, Gina. Você está dormindo em pé.
- Eu estou bem, obrigada. E estaria ainda melhor se o senhor não me tratasse com essa insolente familiaridade!
- Gosto do seu nome. Gina...
"Soa diferente nos lábios dele", pensou ela, perturbada.
- O senhor impressionou meu irmão com seus cavalos, não foi isso?
- Ele é um tipo mais acessível do que a irmã.
- O senhor não tem nada que possa impressionar-me, my lord.
- Não acha cansativo desprezar tudo o que é inglês?
- Não. Acho gratificante.
Harry sorriu.
- Por que temos de discutir o tempo todo?
Por um breve instante, o coração de Gina amoleceu, mas ela reagiu depressa, fazendo reavivar o ódio que alimentava há tanto tempo. Não podia perder a batalha!
- Porque, para mim, o senhor é apenas um nobre inglês que quer tudo à sua maneira! Como pode estar preocupado com as condições de nosso povo se nada sabe a nosso respeito? Se ignora os atos de falsidade, opressão e tirania?
- Sei muito mais do que pensa. - disse ele controlando-se.
- Enquanto o senhor ficava ao abrigo de sua linda casa em Londres, ou de seu solar no campo, sonhando com os novos valores e as grandes mudanças sociais, nós tínhamos de lutar apenas para conservar o que era nosso! O que o senhor sabe sobre nossos anseios, ou sobre a frustração de não sermos capazes de fazer outra coisa senão esperar?
Harry agarrou-a rudemente pelos ombros.
- Não me faça acreditar que compartilha da hostilidade que seu povo alimenta contra o meu! Você me despreza, Gina?
- Sim! - gritou ela com todas as suas forças.
- Porque sou inglês?
- Não é uma boa razão para desprezá-lo?
- Não! E vou dar-lhe outra melhor!
"Para minha satisfação e para acalmar essa ânsia que está me consumindo", pensou ele.
Ela girou o corpo e tentou escapar, mas Harry estava preparado para isso e agiu com rapidez. No momento em que lhe tomou a boca, ela cessou de lutar. Os lábios dela eram macios, suaves. Com um gemido, envolveu-a pela cintura, pressionando-lhe os seios contra o peito.
Gina reconheceu a própria vulnerabilidade. Dissera que o desprezava e o odiava, mas seus sentimentos, seu coração e seu corpo diziam coisas muito diferentes. Uma excitação febril a tomou de assalto, levando-a a abandonar-se contra aquele peito forte, correspondendo ao beijo apaixonadamente.
Harry sentiu-lhe a doçura da língua e a volúpia dominou-o por completo. Encostou-a num pilar de pedra e tornou a cobrir-lhe a boca com beijos profundos e possessivos.
- Bom Deus, onde você aprendeu a beijar assim?
"Aqui, nesse instante", quis dizer Gina. Mas a vergonha e a confusão fizeram-na calar-se. Ela permitira não só que ele a beijasse, mas correspondera aos seus beijos! Precisou de alguns segundos para recuperar o auto-domínio.
- Deixe-me ir. - murmurou então, com voz fraca.
- Não sei se posso.
Ele quis acariciar-lhe o rosto, mas, sabendo o que poderia ocorrer se fraquejasse de novo, Gina empurrou-o rudemente e cruzou os braços sobre o peito.
- Não!
Harry permaneceu onde estava e tentou recuperar o fôlego. Um momento antes, ela correspondera aos seus beijos como o faria uma cortesã, versada na arte do amor. Mas, agora, a indignação estampada no rosto delicado o fez cair em si.
Tentara seduzir a irmã de seu amigo, a filha de seu anfitrião na estrebaria como se ela fosse uma mulher fácil!
- Queira aceitar minhas profundas desculpas, srta. Weasley. Meu comportamento foi imperdoável!
Ela ergueu as pálpebras, a revolta brilhando nos olhos.
- Se fosse homem, eu o mataria!
- Se a senhorita fosse homem, eu não teria do que me desculpar.
Ele curvou-se cortesmente e saiu da estrebaria, esperando que o ar fresco pudesse desanuviar sua cabeça.


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