Quase como antes



Fazia tanto tempo que não tocavam juntas. Finalmente se deu conta de como era sentar-se ao piano com aquela que lhe ensinou tudo o que sabia, se era o que era, devia tudo isso a Isabella.
Algum tempo se passou, e quando deu por si, já era o horário da terceira aula... Se corresse, chegaria a tempo. Isa mandou-a ir dizendo que estaria em Hogsmead e que Dumbledore havia lhe dado permissão para ficar em Hogwarts quando quisesse. A menina deu um beijo estalado na bochecha da mulher, ganhou um abraço apertado e saiu correndo na direção de... de... De onde? Procurou pelos horários dentro dos livros e a terceira aula era de... Poções!!! “Droga!” Correu pras Masmorras e quando chegou, seus colegas estavam um pouco mais a frente. Os alcançou:
-Laura!? A gente achou que você não fosse assistir às aulas hoje...-Harry disse.
-É! Eu não ia, mas agora eu vou!-Respondeu ofegante, mas prendeu a respiração involuntariamente ao ver que Snape esperava os alunos na porta. “Maledetto!” E viu de relance a sombra de Karkaroff passando por ela. “Graças a Deus! Ele foi embora!” Entrou na sala por último e nem olhou nos olhos do professor ao passar por ele. Viu com satisfação que a única mesa que sobrou foi a mais afastada da sala, bem no canto da parede. Respirou aliviada. Mas só havia uma cadeira, o que significava que a poção de hoje seria individual. Sentou-se e arrumou seu material sobre a mesa. Snape passou os ingredientes da Poção Do Sono Sem Sonhos no quadro negro e mandou que fizessem. Laura logo começou. Quanto mais rápido terminasse, mais rápido sairia dali. Quando terminou, sua poção estava perfeita, levou-a até a mesa do professor e ele disse para a toda turma que ninguém sairia antes do final da aula. Com isso, Laura percebeu que tudo conspirava contra ela. Ele devia estar se divertindo fazendo-a sofrer. Sentou-se novamente e pegou um livro de dentro de sua mochila, era intitulado “Partituras Clássicas”. Abriu. Olhou o índice. Tinha Rondó Allá Turca, de Mozart, Für Elise e Patética de Beethoven, e finalmente a que ela procurava: Canon, de Johann Pachelbel, seu compositor favorito, sua música favorita. Olhou a partitura, tinha seis folhas, mas ainda assim, era fascinante. Enquanto os outros terminavam as poções, ela estudava a partitura. Havia sido a primeira música que aprendera a tocar no piano, mas queria mais. Essa versão era a mais difícil, mas conseguiria. Snape a observava. A paixão com que ela estudava aquele livro de escrita desconhecida, a delicadeza com que dedilhava sobre a mesa e o brilho nos olhos. Mas não esperava que ela o olhasse. Os olhares se cruzaram. Laura achou que morreria ali, mas ele não desviou, nem teceu nenhum comentário ácido. Simplesmente manteve seu olhar e esboçou um leve sorriso com o canto do lábio. Laura se aqueceu por dentro. Baixou a cabeça e voltou a ler, mas agora, a imagem daquele sorriso estava gravada em sua mente. A aula acabou e quando saiu, olhou para trás e viu a imagem dele ficar longe, mas não sem antes ele levantar a sobrancelha e dar-lhe um sorriso divertido, fazendo uma reverência com a cabeça. Laura pensou: “Você não muda...Rs...” Virou-se de costas e começou a caminhar, mas logo, aquela voz ressoou em sua cabeça: “Não mesmo...” Olhou de volta, mas ele não estava mais lá, e quando voltou a olhar para frente, lá estava ele, caminhando a passos largos a metros a sua frente. “Como ele faz isso?” E mais uma vez, ele a surpreendia. Continuou seu caminho. No horário vago, pegou a matéria de Transfiguração com Meg, e depois, foi almoçar no Grande Salão. Isabella estava sentada no lugar que antes pertencia a Karkaroff, ao lado de Snape e lhe sorriu. Laura abriu um sorriso iluminado naquela direção. O homem arregalou os olhos levemente, mas logo percebeu que não era para si, mas para a mulher a seu lado. No final do almoço, ele a viu levantar e a seguiu com o olhar, foi até a mesa da Grifinória, abaixou-se e falou com Laura.
-Estou indo, viu? Só vem te avisar...-Falou com as mãos apoiadas nos ombros da menina.
-Ok... Mas quando você volta?
-Não sei ao certo... Talvez amanhã...
-Talvez?-Fez carinha de pidona.Isabella riu.
-Tudo bem, Laura Baglioni. Eu volto amanhã.- A menina sorriu e recebeu um beijo na testa. Abraçou a amiga.-Fica bem ta? Amo você...
-Você também se cuida. Amo você também... Até amanhã.
-Até...- O resto da tarde se passou tranqüilamente. Laura assistiu às outras aulas e á noite foi para a torre, treinar a partitura. Tocou com maestria. Canon e Für Elise, músicas que ela adorava... Mas sentiu um perfume... E logo depois, ouviu um barulho vindo da porta. Estancou. Queria se virar, mas teve medo. Medo de olhar e encontrar quem mais queria. E num súbito momento de coragem, virou. Mas não havia nada, viu apenas a sombra... Conheceria aquela sombra de longe... Aquele perfume que a inebriava. Era ele. Sorriu. E virou-se para o piano novamente, olhou para a porta mais uma vez, mas quando o fez, deu de cara com ele.
-Boa noite, Laura.
-P-professor...
-Do jeito que anda me ignorando, vou achar que não me quer mais por perto.-E lhe sorriu.-Durma bem.-Foi embora, deixando-a com seus devaneios. A menina piscou várias vezes... Não podia ser verdade... “Mas que cínico! Eu que o ignoro???” Mas logo sorriu ao perceber que, pelo menos, ele não a odiava. Foi para a sacada e pôde ver claramente a lua brilhante pairando sobre o lago. A noite estava linda, as estrelas podiam ser vistas facilmente e já não tinha mais tanta tristeza em seu coração.
Durante um período, Karkaroff visitou Hogwarts com freqüência, o que deixava diretamente Laura muito mal. Mas o tempo foi passando e as visitas também. A cada dia que passava, Snape se mostrava como antes. Vez ou outra, aparecia na torre ou nos jardins e conversavam tranqüilamente sobre assuntos das aulas. Isabella também estava cada vez mais próxima de Laura. Numa tarde de segunda-feira, Laura andava pelos corredores da escola com Rosely, uma amiga que tinha conhecido nas aulas extras de Poções que estavam tendo. McGonagall a chamou.
-Sim, professora.
-Preciso falar com você, srta. Baglioni.
-Claro... Rose, depois a gente se fala, ta?
-Ta bem... Tchau Laura, Professora McGonagall...- A professora apenas fez uma reverência com a cabeça. Laura seguiu a mulher até a sala de Transfiguração.
-Sente-se.-A menina obedeceu. A professora começou.- Querida, soube que no final do ano letivo houve um episódio entre você e o professor Snape.-O coração da menina gelou.-Tenho adiado essa conversa ha muito tempo, mas acho que já está na hora. Primeiramente, você nunca fez nada de errado dentro dessa escola, mas deve haver um certo clima de ressentimento entre vocês dois. Mas eu queria pedir que você não continuasse com isso.
-Como? Isso o que professora?-Não entendeu.
-Ter esperanças em uma relação entre vocês dois. Eu sei que você ainda o procura.-Laura deixou o queixo cair. Isso não era verdade.
-Professora McGonagall, ha muito tempo eu parei com isso e sinto muito em lhe informar que sua fonte errou...
-Querida, quem me disse isso foi o próprio Severus.-Ela não pôde acreditar no que ouvia. Ele não mentiria dessa forma. Era ele quem a procurava...
-Ele não fez isso...-Sussurrou baixinho...
-Sim, ele fez... Mas eu só quero tentar faze-la entender que Karkaroff não é flor que se cheire, ele pode tentar fazer algo. Se você fosse maior, eu deixaria nas suas mãos, mas não é. Então, a responsável por você, é sua diretora de casa, ou seja, eu. Você sabe o quanto a estimo e sei que não é fácil, mas saiba que pode contar comigo. Esqueça-o. É o melhor que pode fazer...-Laura não conseguiu dizer nada, apenas acenou com a cabeça e disse:
-Obrigada professora.
-Não agradeça. Meus alunos são como filhos para mim.-A garota sorriu fracamente e abraçou a professora.
-Mesmo assim, agradeço muito. Mas agora tenho que ir, o trabalho de Herbologia me espera.
-Vá com Deus.
-A senhora fique com ele. E boa noite.
-Boa noite, querida.- E se foi. Como ele pôde fazer isso com ela? Mentiu descaradamente. E ainda por cima, Dumbledore já devia saber. “Eu não acredito...”
À noite, depois do jantar, Laura ficou no jardim com Isabella. Contou para ela sobre McGonagall e a mulher disse para ficar calma, tudo ia se resolver. Quando a amiga foi embora, Laura ainda ficou sentada debaixo da árvore, admirando o lago quando sentiu alguém as suas costas. Não se virou, sabia que era ele. Continuou lá até que ele se abaixou e disse:
-Sábado, a espero na Casa dos Gritos, terceiro andar, primeira porta do corredor à direita, às 16:00 horas... E foi embora. A menina deixou que uma lágrima escorresse e quando viu que ele não estava mais por perto, correu para seu quarto. “E ainda diz que eu o procuro...” Mas iria, essa conversa estava sendo adiada há muito tempo... E assim, adormeceu.
Sábado parecia que nunca chegaria... Mas chegou. Laura estava em Hogsmead com os colegas e quando deu a hora marcada, rumou para a Casa dos Gritos. Estava frio... Vestia uma calça jeans, uma blusa preta, um casaco e seu All Star da mesma cor. Os cabelos estavam soltos e ela estava diferente. Estava mais pálida do que o normal, mas continuava bonita. Quando chegou, o viu sentado numa poltrona velha do cômodo.
-Eu achei que você não viria...-Abriu um sorriso que Laura nunca havia visto antes.
-Boa noite professor...-Disse incerta.
-Venha. Sente-se aqui.-Apontou para uma poltrona em frente a sua. A menina sentou-se, olhando para os próprios pés, até que ele falou.-Bom... Essa conversa era para ter sido
feita há tempos atrás...-Ela concordou.-Então... Como se começa?-Sorriram.
-Talvez pelo começo...-Ele sorriu.
-E como se começa pelo começo?-Ela sorriu.-Bem... Vamos lá... Aquela confusão do ano passado aconteceu e nós nem pudemos conversar. Então, eu queria esclarecer algumas coisas com você.-A menina ouvia tudo atenta.-Eu não fiquei com você, mas não foi por sexualidade nem nada do tipo. Foi pela sua idade. Você é uma menina linda, atraente, inteligente e tudo mais, mas só tem 14 anos. Eu realmente gosto muito de você, Laura. Só que as pessoas não entendem. Eu só queria que você soubesse. E quanto as nossas conversas pelo caderno, dê tempo ao tempo.-Ela assentiu. Ele sorriu.-Você quer dizer alguma coisa? Fale agora ou cale-se para sempre!-Riu do comentário dele e negou. Mas, na verdade, ela havia ido pronta para atacar. Achou que diria tudo o que estava preso em sua garganta, mas ele a desarmou quando começou a falar.
-Na verdade, tenho sim. Eu queria me desculpar pelo transtorno que causei . Juro que não foi minha intenção
-Eu sei. E não ha o que se desculpar.
-Há sim! Eu causei tantos problemas e...
-Hey! A culpa não foi sua...
-Achei que você me odiava.
-Como odiar alguém que gosta da gente?-Ela sorriu.
-Então, você não ficou chateado comigo?
-Não.-Ela respirou aliviada e ele lhe deu um sorriso.
-Obrigada.
-Não agradeça. Só espero que você não me ache um canalha pelo que aconteceu.
-Não. Mas, porque me evitou tanto?
-Pra te proteger. Isso faz sentido pra você? Meu silêncio e indiferença eram a única maneira de te proteger.-Ela baixou a cabeça e se permitiu sorrir.
-Obrigada.-Olhou nos olhos dele e ficaram se olhando, até que ele se levantou, estendeu a mão para ela, que aceitou receosa. Então, ele beijou as mãos dela e sussurrou:
-Quem sabe um dia, daqui a alguns anos, nós nos esbarremos por aí...-Deu outro beijo e saiu, deixando Laura com as pernas bambas e um sorriso bobo nos lábios.
Pelo menos, agora, nem tudo estaria perdido...

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