Esconderijo



Capítulo 8 - Esconderijo
 


Sirius abriu os olhos. Havia uma luz amarela sobre seu rosto e ele não conseguia enxergar direito. Cobriu a cabeça com o travesseiro, tentando voltar a dormir. Por algum motivo, não queria descobrir que já era dia.


Então, sentiu um movimento no colchão e, em seguida, um sopro de ar quente em seu ouvido:


- Não posso esperar por você pelo resto do dia – escutou.


O rapaz se levantou num salto, ficando ajoelhado na cama. Percebeu que ainda estava usando as botas com que saíra da cama na noite anterior. O quarto estava claro, mas não tão claro quanto pensara quando tinha aberto os olhos. Então, olhou para frente e deu com Marlene, sentada na beira da cama, segurando seu isqueiro prateado, direcionando um facho de luz diretamente para o peito dele, descendo ao longo da linha de botões.


Os pensamentos agora corriam rapidamente pela mente de Sirius. Marlene chegara na noite anterior, com a capa encharcada de sangue. E tinha ficado furiosa com ele. E depois tinha caído sobre ele no sofá.


Ela pareceu adivinhar que ele estava pensando nisso, pois ficou vermelha quando seus olhos se encontraram. Ele percebeu que ela vestia uma capa limpa.


- Já vai embora? – indagou.


Marlene mordeu o lábio inferior. Brincava distraidamente com o isqueiro entre os dedos.


- Dumbledore acha que preciso ficar escondida por alguns dias – ela suspirou. – Porque eu dei o alarme para a Ordem ontem e...


- Para onde você vai? – interrompeu Sirius.


Marlene crispou os lábios.


- É um esconderijo, não é para todo mundo saber onde é – resmungou ela.


Sirius sorriu em resposta. Então, estendeu a mão na direção dela. Marlene fez um movimento para se afastar, mas ele tocou seu rosto, correndo os dedos sobre sua pele.


- Eu não sou todo mundo – falou ele.


- Ah, e quem você é? – perguntou Marlene. Ela tentava parecer indiferente ao toque de Sirius. Mas não conseguia. Não podia desprender os olhos dele. E não podia simplesmente levantar e ir embora. Não depois que ela percebera como se sentia perto dele. Viva. Viva, como não era há muito tempo.


- Sirius – respondeu ele.


- Black... – os dedos dele pousaram em seus lábios.


- É Sirius – repetiu.


- Nenhum de nós tem tempo para brincar – falou ela, afastando a mão dele com um gesto brusco.


- Se está com tanta pressa por que veio me acordar? – ele cruzou os braços.


Marlene abriu a boca, mas não falou nada. Então, aproximou-se de Sirius, arrastando o corpo sobre os lençóis e travesseiros. Tinha o braço encostado ao dele quando colocou a mão sobre a dele. Apertou seus dedos.


- Sirius – murmurou, como se tivesse medo de falar aquele nome. – Eu teria te amado para sempre – entrelaçou os dedos aos dele. – Teria guardado para sempre cada brincadeira, cada momento em que você se proclamou meu futuro marido. Mas não somos mais crianças. Não podemos mais agir como se fosse uma brincadeira.


Sirius suspirou. Sentia-se subitamente frio.


- Você não precisa dizer isso para mim. Não fui eu quem fez aquilo ontem, se bem me lembro.


A garota deixou a cabeça cair no ombro dele.


- Não estou dizendo que foi você. Só estou esclarecendo as coisas.


- Pois para mim parece que está se despedindo – resmungou Sirius.


Marlene soltou sua mão, deixando na palma da mão dele o isqueiro prateado.


- Estou – falou, com simplicidade.


Ele virou-se para olhá-la nos olhos. O gesto sobressaltou Marlene, que fez menção de se afastar, mas ele a segurou pelo braço. Os olhos dela brilhavam e seu rosto estava abatido. Ela não queria chorar. Não ali. Sabia que ia chorar, mas queria que fosse bem longe de Sirius.


- Quando vai perder essa mania de fugir das coisas que não consegue controlar? – perguntou ele, impaciente. Não a segurava de modo gentil, mas com raiva.


- Por que não me deixa ir? – ela fazia força para se desvencilhar.


- Porque quero saber do que você está fugindo – ele insistiu.


- Black, me solte – ela mandou, mirando-o com os olhos azuis arregalados de fúria.


- Não.


- Então diga por que quer que eu fique.


Sirius piscou. Não tinha uma resposta. Pelo menos, não tinha uma que não fosse óbvia. Não queria que ela fosse porque já tinha muita gente que ele gostava desaparecida. Porque sabia que ela estava fugindo dele e do que sentiam um pelo outro. Porque ele queria estar perto dela para poder ajudar. Mas não achava que nenhum desses motivos fosse bom o bastante. Aquela situação era estranha. E estava ficando pior. Marlene pareceu perceber que ele estava confuso. Não tentava mais se soltar. Então, Sirius fez a única coisa que achou que devia ser feita. Ele a puxou mais para perto, envolveu seu rosto com as mãos e se inclinou.


Ela tentou empurrá-lo, mas no instante seguinte estava segurando a gola da blusa dele, afogados naquela única e intensa sensação de que nada mais importava.


Eles separaram os lábios muito devagar, como se precisassem de tempo para se acostumar à idéia de que o beijo não poderia durar para sempre. Marlene permaneceu com o corpo apoiado sobre o dele, exatamente da mesma forma que estava quando Sirius a puxou, concentrada em ouvir a respiração dele. O rapaz estava apoiado na cabeceira da cama. Segurava a mão da garota, a mão que ele vira paralisada.


- Não me importo com o que você não quer ou não pode me contar – falou ele. – Apenas... não quero mais perder você.




Marlene entrou no apartamento carregando a mala. Ainda era o mesmo lugar terrível que ela conhecera há algumas semanas. Exceto pelo fato de que agora era dia e Sirius tinha subido as persianas e a sala estava cheia de luz. Mas isso não necessariamente melhorava a aparência do lugar. Destacava as partes rasgadas do papel de parede e as manchas no chão. Os móveis, por outro lado, pareciam bem mais novos, os sofás e poltronas tinham ganhado um novo e vivo colorido.


- Já pedi para instalarem uma lareira – falou Sirius atrás dela, fechando a porta.


- O quê? – indagou Marlene, distraída pela idéia de morar num lugar que serviria muito bem aos fantasmas da Casa dos Gritos.


- Uma lareira – ele repetiu, sacudindo a varinha repetidas vezes para ativar os feitiços de segurança. – Você vai precisar de uma para se comunicar com o resto da Ordem enquanto estiver escondida, não vai?


Ela balançou a cabeça. Pousou a mala no chão. Talvez pudesse se acostumar mais rápido com o lugar se fizesse algumas melhorias. Correu a mão pelo papel de parede, usando um feitiço para remendar um rasgo. O papel continuava velho e desbotado, mas pelo menos não ficava tão ruim.


- Então, onde quer que eu coloque isso? – perguntou Sirius.


Marlene se virou para ele. Ela não tinha pensado nisso. Sabia que o apartamento tinha um único quarto – e uma única cama.


- Eu... você decide – falou ela. – Só não misture com as suas coisas, eu não gostaria de encontrar uma meia sua no meio das minhas roupas – completou.


- Eu lavo minhas meias – protestou Sirius.


Marlene deu de ombros e voltou-se para o papel de parede. Sirius deixou a sala, seguindo pelo corredor em direção ao quarto, resmungando. Abriu a porta e acenou com a varinha, ao que as persianas subiram, iluminando o quarto. Ele suspirou. Não achava que estivesse tão ruim.


Havia roupas espalhadas pelo chão, os lençóis estavam embolados sobre a cama, com vários conjuntos de vestes limpas que ele ainda não guardara. A mesinha ao lado da cama e a escrivaninha estavam apinhadas de todo tipo de objeto. Sirius começou guardando a roupa limpa, depois juntou a roupa suja num canto e acenou com a varinha, transportando-as direto para a área de serviço. Então, começou a abrir as gavetas de uma cômoda e despejar as coisas que atulhavam a mesinha, enquanto trocava a roupa de cama com mágica.


Quando finalmente achou que o quarto estava apresentável, Sirius voltou para a sala. Encontrou Marlene em cima de um banquinho, remendando o papel de parede junto ao teto.


- Não ria – ela advertiu, lançando-lhe um olhar de ameaça. Então, parou e olhou ao redor, curiosa.


– Você nunca pensou em pendurar nada nessas paredes?


- Como eu já disse, isso aqui é provisório – respondeu, fazendo um gesto de pouco caso.


Marlene saltou o baquinho e se afastou para admirar o trabalho que tinha feito numa das paredes. Tinha tentado imaginar uma nova estampa para o papel, já que o antigo não podia mais ser identificado. A parede agora estava coberta de pequenas flores roxas.


- Não acha que está meio... – falou Sirius – florido demais?


- Como florido demais? – perguntou Marlene.


- Assim... como se esse apartamento fosse da minha avó – respondeu Sirius.


Marlene pareceu contar até dez antes de falar novamente:


- Está melhor que antes.


Sirius sorriu com a irritação dela. Marlene andou em direção à cozinha. Aquela parte da casa – e talvez só aquela – estava impecavelmente arrumada, exceto pela camada de poeira que denunciava que ela não era usada há muito tempo.


- Não sou bom cozinheiro – justificou Sirius.


- E você come exatamente o que quando está em casa? – ela abriu um armário. Tudo que havia dentro eram algumas teias de aranha.


Sirius pegou uma série de folhetos de propaganda que havia sobre a bancada da cozinha e os passou à garota. Eram mais de dez cardápios de restaurantes que entregavam comida. Ela olhou ao redor e encontrou, perto da porta, um telefone.


- Então você só come... hum, comida chinesa, pizza e sanduíches? – ela perguntou, incrédula, examinando os cardápios.


Sirius deu de ombros.


- Basicamente. Não é ruim, ou pelo menos é bem melhor que comer minha própria comida.


Marlene sacudiu a cabeça. Então, passou os folhetos à Sirius dizendo:


- Eu não vou comer isso.


- E vai fazer o quê? – Sirius deixou as propagandas sobre a bancada e seguiu Marlene, que examinava os outros armários.


Foi colocando em cima da bancada as coisas que encontrava, na esperança de conseguir preparar algo comestível. No fim, estava diante de um saco de farinha, algumas latas de alimentos em conserva e um conjunto de panelas que pareciam mal terem sido tiradas das caixas (segundo Sirius, tinham sido presentes dos pais de James quando ele se mudara para lá).


- Ovos! Você tem ovos? – ela perguntou, com urgência.


Sirius apontou para a geladeira. Dentro havia apenas uma caixa de ovos, leite e água. Já era mais do que poderia esperar, Marlene se consolou. Mas sabia que ia ter que mandar Sirius às compras mais tarde.


Começou a trabalhar sob o olhar curioso de Sirius. Ele, na verdade, estava muito interessado. A única bruxa que já vira cozinhando fora a senhora Potter, e ela não gostava que ele e James ficassem na cozinha enquanto fazia isso. A mãe de Sirius nunca tinha cozinhado. Nem suas primas. Ele quase podia gargalhar ao imaginar Narcisa com um avental de cozinha.


Mas observar Marlene era mais interessante ainda porque ela não usava uma varinha, apenas direcionava as coisas com a mão, com gestos tão naturais que alguém poderia dizer que ela sempre fizera magia assim.


- Sirius, quer sair da frente do fogão? – mandou Marlene, acenando para ele com uma frigideira.


- Tem certeza que sabe o que está fazendo? – perguntou ele, observando enquanto ela acendia uma das bocas com um gesto e pousava a panela lá.


Marlene fez um barulho estranho, mas não respondeu. Estava concentrada em despejar o conteúdo de uma tigela na frigideira sem sujar as luvas.


Sirius parou de olhar para o trabalho dela e seus olhos foram pousar no rosto de Marlene, que estava tão concentrada no que fazia que nem percebeu. Havia uma mancha de farinha em seu queixo. Ela tinha amarrado os cabelos, mas algumas mechas insistiam em cair sobre seu rosto claro. Também tinha puxado as mangas das vestes de modo a poder trabalhar mais livremente, mas não tirara as luvas. Ele se perguntava quando ela ia dizer alguma coisa sobre aquilo. Ou sobre os outros mistérios que a envolviam.


Marlene exclamou algo e se adiantou em direção à pia. Abriu a torneira e colocou o braço debaixo da água, mas não conseguia fazer isso direito, porque tentava não molhar a luva.


- Você se machucou? – Sirius se aproximou.


- Não está vendo? – ela fez uma careta de dor.


- Você deveria tirar essa luva – disse ele calmamente. Então, tomou a mão dela, desabotoou a luva e começou a puxá-la.


No primeiro instante, Marlene pareceu sem ação. Mas, passada a surpresa, ela reagiu violentamente, empurrando-o com tanta força que Sirius caiu de encontro à bancada. Puxou a luva de volta para o lugar e fechou os botões. Sirius a mirou surpreso com a força e com o desespero do gesto.


- Nunca mais faça isso – ela o advertiu, antes de voltar para o fogão, resmungando.


- Eu...


- Estou falando sério – falou Marlene, de costas para ele. – Você garantiu que não ia ficar fazendo perguntas.


Sirius suspirou. Não era assim que ele tinha imaginado as coisas. Marlene mexia o conteúdo da frigideira furiosamente, ignorando-o.




Era fim de tarde e Sirius descia a avenida do subúrbio carregando quatro sacolas de plástico em cada mão. Resmungava baixinho enquanto andava, sua comprida sombra ondulando nas irregularidades da calçada.


Marlene havia lhe entregue uma lista de compras. Exigia que ele fosse ao supermercado e abastecesse a casa. Por que ele não podia simplesmente pedir comida para os dois? Quer dizer, ele gostava de vê-la cozinhando, mas não valia o sacrifício de fazer compras. E depois, voltar para casa com todas aquelas sacolas sem usar magia. Era exaustivo demais.


Dobrou uma esquina e estava na rua onde morava. Parou diante do prédio e teve que passar todas as sacolas para o mesmo braço para conseguir pegar as chaves. Subiu as escadas tão rápido quanto podia com todo aquele peso e chegou ao seu andar. Abriu a porta do apartamento.


Já tinha escurecido lá dentro.


Sirius colocou as sacolas no chão e foi para a sala. Encontrou Marlene novamente ocupada com o papel de parede. Estava obcecada com aquilo. Ela sorriu ao vê-lo. A parede agora estava branca.


- Vou deixar a estampa invisível até ter terminado tudo – anunciou ela. – Assim você só vai reclamar uma vez.


- Por que se preocupa tanto com isso? – ele fez uma careta. – É só um papel de parede.


Ela se aproximou de Sirius. Parecia muito leve e descontraída. Ele quase podia dizer que Marlene estava feliz. Ela pousou as mãos em seus ombros com suavidade. Então, envolveu seu pescoço, apoiando o rosto junto ao seu ombro. Ele fechou os olhos, sentindo o perfume dela, o toque leve de suas mãos em seu rosto. Inclinou o rosto para frente e seus narizes se tocaram.


- Eu achei que nunca mais íamos ficar assim – sussurrou ela.


- Do jeito que você fala, parece que vivemos por anos em mundos diferentes – ele disse, correndo os dedos pelas costas dela.


- Nós vivemos.




Próximo (e penúltimo) capítulo:


"Sirius se aproximou dela. Queria poder dizer algo que a fizesse ficar. Passou os braços em torno de sua cintura. Puxou o capuz da capa, revelando seus cabelos. Precisava sentir o cheiro dela.
- Quando tudo isso acabar, quero que se case comigo – murmurou.
- Pensei que já tinha cansado dessa brincadeira – ela se afastou dele, evitando o seu olhar.
- Não estou brincando – falou Sirius, com sinceridade."

Compartilhe!

anúncio

Comentários (0)

Não há comentários. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.