Percepções



O dia seguinte àquela noite amanheceu cinzento, assim como as semanas seguintes também amanheceram. O outono chegara, levando embora todas as flores que remanesceram da última primavera. As aulas andavam passando rápido demais, tudo andava passando rápido demais desde aquela noite. Era sempre assim. Quando as coisas boas chegavam perto do fim, elas passavam mais rápido, cada vez mais rápido. Se não fosse por Harry, Hermione até teria esquecido de falar com Gina.

- Estou em outra... – ela respondeu friamente, quando a morena lhe perguntou o que havia acontecido. Já fazia um tempo que Gina estava diferente. Ela parecia ausente, distante. Era como se tivesse esquecido dos velhos amigos. Harry? Aparentemente se conformou também. Não havia mais nada a fazer, a não ser partir para outra assim como ela. No começo ele ficara muito triste, andava desatento e submisso, mas agora as coisas melhoraram. Quase tudo melhorou para todo mundo, na verdade.

“Só para mim que não” – pensava Hermione naquela tarde fria de Outubro, enquanto terminava a tarefa de Transfiguração. Desde que beijara Draco, nunca mais trocara uma palavra com o loiro. Nem um insulto, nem nada. Apenas alguns olhares discretos, que no fundo não pareciam significar nada. Já havia se convencido de que não adiantava se martirizar por ele, de que nada nunca voltaria a acontecer. Já havia até chegado a ponto de jurar para si mesma que se não parasse de pensar tanto nele, tentaria qualquer coisa com Ron. Que besteira. Ele nunca seria igual ao Draco. Ela sentia que aquilo ficava cada vez mais patético, mas sempre adiava o momento de esclarecer as coisas. Era tímida demais nesses assuntos, e nunca havia gostado tanto de alguém a ponto de se sentir mal por isso.

Sim, a pior mentira é aquela que se conta para si mesmo. Ela já havia confessado para si que gostava dele sim, mesmo o tendo odiado por tanto tempo. Já havia confessado que gostava de seu perfume, o qual ainda insistia em invadir-lhe a narina em noites solitárias... Que gostava de seu sorriso de tantas cores, do cinza indefinido de seus olhos, do olhar que lhe envolvia por inteira, e do cortejo úmido de seus lábios em seus próprios. Nunca esqueceria aquele beijo. Ela, Hermione Granger, se via apaixonando-se por Draco Malfoy. Paixão involuntária; nutrida por ausência presente e por desejo incessante. Cada aula em sua companhia era uma tortura. Era-lhe tortura observar o riso, mesmo que sem propósito, mesmo que maldoso. Era-lhe tortura notar que ele estava bem sem ela, que nada daquilo fez diferença em sua vida.

Era só o que ela pensava.

Draco Malfoy não se sentia melhor. Na verdade, se diria de passagem que ele estava em uma situação pior que a de Hermione. Não só não esqueceu daquele beijo tão doce, como também não havia esquecido de todas as sensações que a morena lhe havia proporcionado em uma fração de minuto. O momento mais perfeito de toda sua vã existência. Nesse intervalo de tempo, costumava até pensar que sua vida só começou após ter experimentado dos lábios de Hermione. Hermione? Sim, já pensava nela usando o primeiro nome. Chamá-la de Granger lhe lembrava um passado distante e envelhecido, que não fazia mais sentido. Sempre que lhe vinha à cabeça a lembrança de tê-las em seus braços, um leve sorriso sincero tomava-lhe os lábios. Gostava dela. Não queria gostar, não achava certo. Mas gostava. Gostava de tudo que lhe compunha... De todas as rimas de sua beleza, que era poesia sem fim aos próprios olhos. E vê-la sem tocá-la, esbarrá-la sem nada lhe dizer, escutá-la e vê-la sorrir esporadicamente o machucava.

Como pôde aprender a gostar de verdade em tão pouco tempo, sendo que levou uma vida inteira perdido em volúpia? Era estranho querer tanto o bem de uma pessoa que se odiou durante tanto tempo. É, ele via-se se apaixonando por Hermione Granger. E sempre que lembrava disso uma dor fina tomava conta de sua razão. Ela não o merecia, ele sabia disso. Por isso se afastava. Se afastava quando o que mais queria era ficar perto, se afastava quando o que mais queria era abraçá-la e afagá-la em seu abraço. Porque as coisas teimavam em dar errado com ele?

Monitorias? Elas eram o único jeito de ficar a sós com ela, nem que fosse apenas por alguns segundos. Porque sempre que se encontravam se afastavam, era como se ela o repelisse agora. Já lhe passou pela cabeça que de tanto que a ignorou após tê-la beijado, já que achava que era o melhor a fazer; ela se cansou e simplesmente esqueceu. Esqueceu e simplesmente se afastou, mas do que ele esperava. Mas do que lhe era suportável.

Mulheres sempre foram difíceis de se entender.
Quando terminou a tarefa, Hermione resolveu passear um pouco pelos jardins do castelo. É, seria a melhor coisa. Harry e Ron provavelmente estariam por lá, eles haviam lhe dito que queriam tomar um ar. Os dois haviam percebido que ela andava meio distraída nesse último mês. No começo eles perguntavam-lhe a todo o momento o que havia acontecido, porque ela estava daquele jeito... Mas depois de tanto ouvir que não era nada, provavelmente se cansaram e desistiram. O que lhes restara a fazer era tentar animá-la, fosse lá o que estivesse a afligindo. Porque amigos fazem isso. Eles são para essas coisas.

Um pouco de antes de sair da Sala Comunal da Grifinória, ela avistou um novo recado em papel chamativo no grande mural rabiscado que havia ao lado do retrato. Havia vários adornos em torno do que ele dizia, além de letras prateadas e observações. Foi quando Hermione leu o título que ela passou a se sentir pior do que já estava se sentindo. Era incrível como tudo tinha que acontecer de uma vez só. Não que aquilo fosse ruim, porque não era. Se fosse no último ano em que tiveram aula, seria maravilhoso. Mas agora... Agora não fazia sentido. Não fazia sentido nenhum.

-- Baile de Inverno --

Hogwarts tem o orgulho de vos informar que será realizada uma grande festa em homenagem à reabertura de nossa querida escola. É de nosso conhecimento que o Baile de Inverno é tradição do tão aclamado Torneio Tribuxo, mas abriremos uma exceção durante este ano somente, para apreciação de nossos queridos estudantes.

Data: 24/12
Local: Salão Principal

Obs¹: Será somente permitida a entrada de alunos superiores ao quarto ano.
Obs²: Será somente permitida a entrada de alunos acompanhados.

Grata; Vice-Diretora Minerva McGonnagal.


Não era possível que o mundo todo estava conspirando contra ela. O que tinha feito pra merecer aquilo? Não ia. Definitivamente não ia. Saiu a passos largos em direção ao jardim, e, por acaso, trombou com ninguém mais, ninguém menos do que Minerva McGonnagal um pouco antes de ver a luz do sol. Não que ela não quisesse ver a professora, mas o seu momento de ódio repentino por todos os administradores daquela escola ainda estava infinitamente presente dentro de si.

- Srta Granger! Que bom que a encontrei! – disse a professora, sorrindo para a garota. – Nós precisamos urgentemente conversar sobre o Baile de Inverno. Quer dizer, você já sabe do Baile, né? – ela perguntou, aparentemente animada.

- Já sei sim, professora. – respondeu Hermione, tentando, sem sucesso, parecer alegre ao saber da notícia. – O que exatamente eu preciso saber?

- Acompanhe-me até meu escritório por um instante, eu vou chamar os outros monitores. – concluiu a vice-diretora puxando Hermione pelo braço, sem reparar na expressão profundamente desgostosa que a garota estampava no rosto. Draco Malfoy era monitor.

“Merda”.

As duas chegaram na sala de McGonnagal algum tempo depois. Era um lugar claro; decorado em tons vermelho e pastéis e aparentemente aconchegante e hospitalar. Havia uma escrivaninha extremamente organizada e duas cadeiras logo em frente, as quais a professora conjurou algumas mais a fim de comportar todos aqueles monitores. Hermione estava aflita. Sentou-se enquanto esperava os outros alunos. O que de importante McGonnagal teria pra dizer-lhes? Será que... Será que monitores eram obrigados a ir ao Baile?

Após vários longos minutos, ela entrou seguida de Lovegood, Boot, Bones, Finch-Flechley, Malfoy e Ron. Todos pareciam extremamente desanimados com a visita, exceto por Luna. Talvez ela já soubesse sobre o Baile. Talvez todos já soubessem, e ela não fosse a única que estivesse realmente desanimada. Não, não era lógico. A maioria deles namorava, não era possível que estivessem desanimados sabendo que poderiam desfrutar da companhia de seus respectivos amores em um Baile tão aclamado quanto aquele.

- Bom, como já é de conhecimento de alguns de você, será realizado um novo Baile de Inverno em nossa escola. – começou McGonnagal, quando todos já estavam devidamente acomodados. – Chamei vocês aqui para avisar-lhes que os monitores ficarão encarregados da organização do Baile, assim como em todos os anos que o fizemos. – alguns deles pareceram realmente animados com a notícia, Hermione pode notar até um brilho estranho nos olhos de Ron. – Alguma objeção?

- Eu estava pensando em não participar do Baile, professora. – murmurou a morena pouco envergonhada com a mão esquerda levantada. Pronto, já havia dito. Não fora tão difícil.

- Por quê, Srta Granger? – perguntou a professora, fraternalmente.

- Eu só não estava com vontade... – respondeu Hermione, muito sem graça. McGonnagal pensaria que ela não se achava capaz de conseguir um par. Que se danasse, se ela quisesse ela poderia ir com Ron. Mas isso não vinha ao caso, ela não pretendia ir com ele.

- Sinto lhe informar, querida, mas monitores têm de ir ao Baile. – ela disse calmamente, já se levantando. – E você, Luna, arranje-os para que combinem a decoração do Baile, certo? Eu não posso ficar aqui por muito mais tempo, então espero que vocês, como monitores, honrem sua função e consigam organizar uma festa decente. – concluiu, se retirando da sala. – Passar bem.

“Ótimo” – pensava Draco. Por que esse Baile tinha de aparecer naquela hora, justo quando ele não conseguia pensar em ninguém mais para convidar além de Hermione? Era incrível como as coisas teimavam em dar errado pra ele. Tinha de parar com isso, com essa mania maluca de pensar nela. Não podia, não era pra ser. Coçou a nuca, pensativo, e percebeu que alguém estava falando com ele já havia algum tempo.

- Malfoy! –gritou Luna alterada, visto que já o havia chamado cinco vezes. – Finalmente você acordou!

- Eu não estava dormindo, Di-Lua. – ele disse com desdém. – É que a sua voz é tão insuportável que eu estava fingindo não ouvir.

- Idiota! – ela gritou nervosa – Quem você pensa que é pra falar assim comigo?

- O rei da galinha frita, Di-Lua... – ele disse divertido, com ar de superioridade.

- Pois você vai arrumar todas as coisas do Baile com a Granger! – ela gritou alterada de princípio, e abriu um sorrisinho estranho, como se imaginasse que aquilo fosse um martírio pra ele.

Ron ficou inquieto ao notar a falta de reação de Hermione quanto à notícia. Por que será que ela não havia ficado nervosa? Ela estava aparentemente desconexa, absorta. Será que havia gostado da idéia? Ou será que nem ao menos havia ouvido?

- Eu acho que você anda nervosinha demais desde que começou a namorar aquele garoto do quinto ano, Di-Lua. – disse Draco, com o típico sorriso Malfoy estampado na cara. Já havia feito a besteira de deixá-la nervosa, não havia mais volta. Teria de fazer as coisas com Hermione. Não que isso fosse um suplício, como todos pensavam que era, porque não era mais. O único problema era que ele sabia que não podia levar em frente esse sentimento. Mesmo que fosse prazeroso, mesmo que lhe fizesse bem gostar dela. Tinha de pensar no bem dela. Parar de ligar somente pra si mesmo. Ela não era pro bico dele. Ela era boa. Não o merecia.

- C-como você sabe disso? – gaguejou Luna, tão vermelha quanto os cabelos de Ron.

- Tenho minhas fontes. – ele disse sorrindo maliciosamente – E então, vai nos contar ou não o que temos de fazer? Já estou cansado de olhar pra sua cara. – concluiu dando uma checada nas unhas, desdenhoso.

- Você é desprezível, Malfoy. – disse Luna com repugnância, antes de se virar para os outros e começar a passar as tarefas. – Weasley, você vai com Justino, e terão de cuidar dos comes e bebes com os elfos domésticos. – Ron sorriu ao notar que teria de lidar com comida, e Finch-Flechley deu de ombros. – Suzana, você vai comigo e com o Téo, e a gente vai cuidar da decoração da festa aqui no castelo. – a garota ruiva da Lufa-Lufa sorriu e Téo Boot continuou observando o teto. – Granger e Malfoy, vocês ficarão encarregados da música no dia da festa. Se virem para trazer uma banda boa pra cá. – concluiu, se levantando – Podem ir!

Ron esperou que Hermione parasse de observar algum lugar além da parede, e a chamou para que o acompanhasse. Ainda estava um pouco desconfortável com o fato de ela ter de fazer dupla com Malfoy novamente, mas sabia que não havia mais nada a fazer e que aparentemente ela não estava feliz com a idéia. Se estivesse, provavelmente não estaria assim, sem reação. Será que ela estaria pensando em como ia se virar para encontrar alguma banda? Se ele bem a conhecia, ela já estaria preparando tudo para não precisar nem da ajuda e nem da companhia de Malfoy futuramente. É, antigamente seria assim. Mas agora ele já não tinha tanta certeza.

- Mione? – ele perguntou depois de alguns minutos caminhando, já perto da entrada do Salão Comunal da Grifinória.

- Hum? – ela murmurou distraída.

- O que você tem? – esboçou Ron carinhosamente. Ao pensar um pouco mais percebeu que aquela seria a oportunidade perfeita para aquilo que esperara tanto tempo.

- Nada, Ron. Eu só estou um pouquinho cansada... – ela disse fingindo bocejar.

- Então acho que você precisa descansar um pouco... – ele disse, pouco corado. Aquela vergonha infantil o consumia de tal maneira que ele não era capaz nem de fazer aquele simples convite. Hermione já subia as escadas do dormitório feminino e ele ainda não havia dito nada do que queria. – Ei! Mione! – ele gritou.

- Fala, Ron?

- Você... QueriraoBailecomigo?

- Quê?! – ela perguntou confusa, descendo os poucos degraus que já havia subido para ver se captava a mensagem.

- Você... Quer ir ao Baile comigo? – criou coragem Ron e perguntou. Suas orelhas se encontravam agora mais vermelhas que seus próprios cabelos, e ele mirava o chão envergonhado.

- Er... – hesitou a morena – Tá. – ela esboçou um sorriso, enquanto observava os olhos tão lindos de Ron brilharem como nunca. Sentiu-se mal. Não estava o acompanhando pelo prazer de sua companhia. Estava acompanhando-o única e exclusivamente porque andava procurando meios de tirar Malfoy da cabeça. E isso não era tão fácil assim como parecia. – Eu vou descansar um pouco agora Ron, diz pro Harry que eu queria conversar com ele um pouco mais tarde, ok?

- Certo! – ele respondeu quase dando pulinhos de alegria, com seu sorriso aberto de orelha a orelha.

Hermione subiu as escadas para o dormitório feminino pensando sobre o que tinha feito. Não era legal fazer essas coisas com os sentimentos de Ron. Na verdade isso era horrível, desprezível e patético. Ela estava se sentindo a pior pessoa do mundo. Mas ela não tinha como recusar. Como diria que já estava acompanhando alguém se eles haviam acabado de receber a notícia? Não, não teria coragem de mentir pra ele. Entrou no quarto e se jogou em sua cama, abraçando forte seu travesseiro. Queria chorar. Chorar muito, como se as lágrimas que pelos seus olhos escorressem acalmassem todo aquele sentimento em seu coração. Mas, quando havia só começado sua tarefa de inundar o dormitório, escutou um barulho diferente e enxugou o rosto. Era Gina. Gina que adentrara o quarto também em lágrimas, e parara em frente à cama da morena.

- Gina? O que aconteceu? – perguntou Hermione assustada. O que poderia ter acontecido afinal? Havia séculos que Gina não conversava com os meninos, tampouco com ela, e agora aparecia ali para desabafar. Deveria ser algo realmente intrigante.

- Mione, eu... – ela começou, gaguejando entre soluços – Eu queria pedir desculpas! Eu tenho sido uma idiota e... E tudo por causa daquele maldito! E eu não sei mais o que fazer, Mi, eu já não sei mais! – desabafou Gina correndo pros braços da morena, que continuava sem entender muita coisa.

- Tudo bem Gina, a gente releva esse assunto todo, agora por favor, se acalma e me conta o que está acontecendo! Por quê você se afastou tanto da gente? Por quê deixou o Harry? – ela perguntou afagando Gina em seu abraço.

- Certo. – ela disse se afastando de Hermione e enxugando um pouco o rosto nas costas da mão – Mi, eu não faço a mínima idéia de como te dizer isso, na verdade eu não faço a mínima idéia de como isso foi acontecer!

- Tá, eu já entendi isso Gina! Agora, dá pra você me dizer por favor o porquê disso tudo? – questionou Hermione, já um pouco aflita com a demora de Gina.

- É que... – ela começou, fechando os olhos – Eu acho que eu estou gostando de um menino... – Hermione sorriu com a infantilidade da amiga, e disse, fraternalmente:

- E tudo isso porque esse garoto não é o Harry?

- Não, Mione, não é só porque não é o Harry. É porque esse garoto é... – ela colocou as mãos no rosto e afagou um soluço involuntário – é Draco Malfoy.

O queixo de Hermione caiu. Ela quase pode sentir o quanto o assoalho do quarto estava gelado àquela tarde. Não podia ser. Ela havia ouvido mal. Mais do que mal. Provavelmente andara pensando demais naquela doninha vagabunda e estava imaginando coisas. É, só podia ser isso. Gina e Draco? Não, não tinha meios de ela gostar dele. Ao menos que ela fosse mais uma daquelas tantas menininhas sem cérebro que dariam tudo por uma noite com ele. E ela não era assim. Pelo menos não até onde Hermione a conhecia.

- Mione? – tateou Gina, aparentemente se sentindo melhor pelo fato de aquilo abalar mais Hermione do que a si própria – Tudo bem?

- Tudo bem sim, Gina! – disse a morena, com um sorriso forçado.

- Pois não parece! Você não vai dizer nada? Não vai gritar um “Você é completamente louca da cabeça” ou simplesmente dizer “Vai em frente se você gosta de verdade”? – perguntou Gina impaciente.

Hermione ficara sem ação novamente. O que diria? Não havia meios de chamá-la de louca, afinal, ela estava na mesma situação. E tampouco adiantava afirmar que gostava mais dele do que ela, isso é coisa de derrotada. Tá, ela sabia que estava quase derrotada. Mas aquilo era demais, era pior do que uma facada no peito. Ela já tinha que procurar forças dentro de si para lutar contra seu próprio orgulho e timidez, e agora teria de encontrar armas para vencer Gina. Ei, vencer Gina? De onde havia tirado isso? Que ela ficasse com ele todo pra ela. Não queria mais essa vida, de querer sem poder. É, esse seria o jeito ideal de esquecê-lo definitivamente. Gina precisava conseguir alguma coisa com ele. Precisava, para o bem da humanidade.

- Eu realmente não sei o que dizer Gina, desculpa. – ela disse, sendo sincera – Era o último garoto o qual eu esperava ser.

- Eu entendo, Mi. – respondeu a ruiva, ainda um pouco triste.

- Você... Você já conversou com ele alguma vez? Já... Interagiu com ele? – perguntou Hermione, um pouco ruborizada e sem graça.

- Não, na verdade. Mas, ele tem um magnetismo próprio, um jeito inexplicavelmente atraente que eu não tenho como explicar. Ele é perfeito, é lindo, inteligente, tudo o que alguém poderia querer... – Gina disse, sonhadoramente.

- É, eu sei. – murmurou a morena, pensativa.

- Sabe o quê? – perguntou Gina, desconfiada.

- Nada, não Gina, desculpa! Continua! Foi por isso que você terminou com o Harry? – questionou Hermione, a fim de mudar de assunto.

- Foi, na verdade. – ela respondeu cansada – Quando eu estava com o Harry, eu parava e olhava o Malfoy, e eu percebia, que ele era o que eu queria na verdade, já estava ficando saturada daquele mela com o Harry, que não me dava um segundinho sequer pra eu poder respirar!

- Nossa Gina! Você cansada do Harry é de assustar! – sorriu afetada a morena.

- Ah não Mi, não dava mais!

- É, eu entendo. E quanto ao Malfoy, o que você pensa em fazer? – pronto. Adentrara terreno suspeito. Não havia se decidido ainda. Queria mais que tudo que ela tomasse alguma decisão, queria se livrar do Malfoy. Mas... Não queria. E esse era o problema. Seu coração não queria. Seu coração gritava desesperado “mate essa ruiva!” e ela insistia em não escutá-lo, insistia em querer apoiar Gina. Talvez fosse a melhor coisa a fazer. Talvez não.

- Eu não sei. Eu queria ir ao Baile com ele. Queria que ele me convidasse. Mas... Eu não vejo como!

- É, isso é realmente uma tarefa difícil. Se eu tivesse como te ajudar Gina, eu te ajudaria, mas você sabe que eu não bato com o Malfoy e...

- Mentira. Eu sei que vocês dois andaram conversando muito, lembra do ciúme doentio do meu irmão há algum tempo atrás? – disse Gina, como se andasse querendo dizer aquilo já há muito tempo.

- Gina, isso já faz mais de dois meses! Há dois meses eu não troco uma palavra com ele, nem uma alfinetada, nada! – respondeu a morena, ruborizada.

- E então por quê você ficou vermelha? – disse Gina levantando-se já enervada – Olha Hermione, se você não quer me ajudar, tudo bem, é só dizer, ok?!

- Não é isso Gina, eu só não... – começou Hermione, mas foi cortada por Gina:

- Ah, quer saber?! Deixa pra lá, Hermione! Eu sabia que não devia ter vindo te contar isso! – e então a ruiva virou as coisas e saiu do quarto correndo, às lágrimas.

“Pronto. Era só o que me faltava.” – pensou a morena, jogando a cara no travesseiro novamente. A ficha ainda não havia caído. Não, não havia. Gina? Ela, uma Weasley, gostando de Draco, um Malfoy? Não, fora tudo fruto da sua imaginação fértil. Como queria que fosse. É incrível, quando você pensa que já está no fundo do poço, alguma coisa acontece e você desce um pouquinho mais. Estava cansada disso. Na verdade, não sabia como explicar seus sentimentos. Não sentia raiva de Gina. Sabia pelo o que a garota estava passando, sabia que não era fácil se ver gostando de seu maior inimigo. E também frisava o fato de que se Gina conquistasse Draco, seria um motivo a mais para que ela esquecesse dele completamente. Era ridículo pensar nesse “esquecer”, eles nunca tiveram nada. Estava se sentindo ridícula, na verdade. Ele provavelmente nem lembrava da existência dela e ela ficava ali, agonizando, se sentindo a pior das criaturas do mundo. Não, aquilo não estava certo. Já era a gota d’água, não havia motivo para brigar com sua melhor amiga por causa dele. Ok, havia meses que elas não se falavam e que Gina a ignorava quase que por completo, mas mesmo assim, ainda eram amigas. E não havia motivo para brigar com ela só por causa de um beijo. Tá, ela sabia que não fora só o beijo. Quem dera tivesse sido. Fora toda a sensação, a segurança, a fragilidade, a sensibilidade e a emoção que um simples roçar de pele naquele maldito lhe proporcionava. Às vezes se pegava pensando na sensação. Então sorria. Sempre sorria, assim como sorriu agora.

- Hermione, você está aí? – perguntou uma Lilá tranqüila adentrando o dormitório.

- Ah sim, estou Lilá! – respondeu a morena, pouco mais calma – O quê foi?

- Você já tem par pro Baile? – questionou a outra, sorrindo.

- Er... Já. – É, se esquecera de Ron depois de tudo aquilo. Ainda tinha muito que pensar sobre isso. – Vou com Ron.

- Ron? – brincou Lilá fazendo uma careta – Achei que fosse com alguém mais interessante!

- O que você quer dizer com alguém mais interessante? – questionou a morena, desconfiada.

- Ah, disseram por aí que você ia com Malfoy. – respondeu Lilá inocente, enquanto o queixo de Hermione caía novamente.

- Quem disse esse absurdo? – exaltou-se Hermione – Eu vou só acompanhá-los nos preparativos da festa, Lilá! Alôô!

- Ai, não precisa falar assim comigo! Já vou indo, era só pra esclarecer isso mesmo! – sorriu amarelo a outra e saiu correndo escada a baixo.

“Não duvido que daqui a dez minutos vão me perguntar o que eu vou fazer com Malfoy para o Baile...” – pensou a morena, ajeitando sua cama de leve. Estava na hora de se desenfurnar daquele quarto, estava cansada de ficar ali; então decidiu dar aquela volta no jardim que gostava de dar em Domingos normais (diferentes daquele).

Malfoy havia sido o último da deixar a sala de McGonnagal. Ainda não conseguia parar de pensar no que faria. Era incrível o modo como as coisas conspiravam contra ele. Quando mais ele sentia vontade de se afastar, mas a sua necessidade de ficar perto gritava em algum lugar ali dentro. E agora mais isso. Procurar uma banda com ela. Ele procuraria sozinho, pra não ter de se aproximar dela novamente. Bah, ele sabia que não era isso que ele queria. Sabia que o que queria era mais essa oportunidade, uma nova oportunidade. Queria ficar perto dela de novo, queria sim, mesmo que pra isso tivesse que machucá-la mais uma vez. Não era pra ser egoísta, não era! Mas já era difícil não pensar em si mesmo quando o assunto era ela. A queria para si por completo, toda, inteira, com todas as suas derrotas e confusões. E não importava se ela não quisesse. Ele tentaria. Tentaria mais uma vez. E dessa vez não seria covarde. Já havia sido muitas vezes durante sua vida. Ia chamá-la para o Baile. Estava decidido. Ela havia acabado de receber a notícia da festa, não teria conseguido um par tão rápido. Ao menos que...

- Weasley. – murmurou o rapaz.

Então saiu correndo pelas masmorras, atrás de Hermione. Não era pra ninguém saber que ele estava correndo atrás dela, aliás, não havia motivos para ele correr trás dela. Até teria parado de correr, mas alguma coisa não deixava. Incrível, o mundo é uma conspiração contra Draco Malfoy. Quis dizer, o mundo não, a própria mente de Draco Malfoy conspira contra ele. Ele não conseguia parar de correr. Até que foi parado à força, no Saguão de Entrada. Havia trombado com alguém. E... Aquele perfume. Aquela tão conhecida essência de morango, que ele tanto gostava.

- Granger! – ele disse, sem ação quando observou a garota no chão após o trombo.

- Malfoy! – ela respondeu, um pouco envergonhada, ainda no chão. Tentou com algum esforço se levantar até que Draco estendeu sua mão para lhe ajudar – Er... Obrigada!

- Não há de quê, fui eu quem te derrubei mesmo. – ele disse, indiferente.

- Bom, então... Eu vou indo! A gente precisa conversar sobre a banda do Baile, antes que eu me esqueça. – ela disse já um pouco mais séria, recobrando os sentidos.

- Ah, é. Já tinha esquecido. – ele disse em rebate. Não sabia o porquê, mas havia pensado em tantas coisas pra dizer-lhe quando a encontrasse e agora que a encontrou, não conseguiu dizer nada do que queria. Não podia deixá-la ir sem nem ao menos parecer... Interessado. – Ei, Granger! – gritou quando a garota já estava próxima à porta do Saguão. – Hoje à noite, às nove horas, na biblioteca!

- O quê? – ela respondeu assustada.

- Pra gente ver o negócio do Baile! – ele gritou, já virando as costas e seguindo seu caminho – Até mais!

É, que ótimo. Queria o máximo se ver longe dele, e não havia tido tempo nem de inventar uma desculpa convincente para não ir à noite. Aquilo tudo parecia uma conspiração. Havia ficado tanto tempo afastada dele, e agora vinha tudo de uma vez... O Baile, Gina, isso. Isso? Que idiotice. Era apenas uma reunião formal para decidir o que seria feito no Baile. Nada mais. Mas ela sabia que não era só isso. Pressentia que alguma coisa aconteceria. E um lado seu queria mais que tudo que essa coisa acontecesse. Porém o outro insistia em desistir. Desistir do único sentimento verdadeiro que ela já havia sentido por um homem. Homem? É, ele já era um homem. Sua barba que vez em quando ela reparava estar mal-feita delatava isso. Não só a barba. Seu corpo já era de homem, seu cheiro natural também já era de homem e sua voz já havia se tornado tão masculina quanto ela podia imaginar. Como ela reparava nisso? Não sabia. Era involuntário, reparar nele. Ele tem o costume de não beber enquanto se alimenta. Também tem o costume de coçar a cabeça quando se sente pressionado e morde o lábio quando está nervoso, ou quando está...

“É, afaste esses tipos de pensamentos de sua cabeça, Hermione.” – pensou enfim, antes de se sentar embaixo de uma árvore no jardim.

Draco voltava tranqüilo até seu quarto. Devia ter falado com ela naquela hora. Devia não ter dado chance alguma ao Weasley. Como foi idiota! Agora aquele projeto de bruxo teria a chance convidá-la antes dele! Mas não havia mais o que fazer. Não teria coragem de voltar e convidá-la. Não teve coragem de primeira vez, imagine se tivesse que voltar. Na verdade não entendera aquela conversa. Conversa? Nossa, que conversa! Mas é, não entendera. Achava que tampouco ela havia entendido. Tinha certeza que não conseguiria ser grosso ou caçoar dela como costumava fazer, mas não se imaginava sem ação do jeito que ficou. E ela provavelmente estivera esperando por um insulto qualquer, pela sua cara de assustada quando ele estendeu à mão para que ela levantasse. Será que ela ainda o achava tão horrível?

“Mesmo que ache, eu não vou desistir agora.”

Já havia desistido de muita coisa nessa vida. Já havia deixado muita coisa importante pra trás, e não faria de novo. Ela... Ele simplesmente não sabia explicar o que ela significava pra ele. E foi tudo tão rápido, parecia ridículo! Em menos de três meses ele aprendera a gostar dela, que ele tanto havia odiado. Será mesmo que a havia odiado tanto? Ou será que odiava aqueles outros dois e descontava nela? Às vezes se pegava pensando nessa possibilidade. Porque um sentimento não cresce tão rápido dessa forma dentro do coração de uma pessoa. Por isso que ele ainda não conseguia encontrar uma maneira de ela gostar dele da mesma maneira que gostava dela. Tampouco sabia se gostava dela ainda. Já havia declinado para a idéia de que aquilo fosse amor. É, amor. Aquele sentimento que todos dizem ser o ápice da vida das pessoas. Draco achava todas aquelas teorias ridículas, mas... Mas era verdade. O amor mudava as pessoas. Já havia percebido isso, e não fora observando o sentimento que o prendia a Hermione. Fora reparando no amor alheio. Mas isso não vinha ao caso. Estava estagnado no pensamento sobre o amor. É, o amor. O que move barreiras, destrói o mau e habita os corações dos sonhadores. Nunca fora sonhador. Tampouco fora bom. Mas de algum jeito sabia que o que sentia por Hermione era muito mais do que apenas uma simples afeição. Nunca havia amado. Talvez aquilo não fosse amor, ele não sabia o que era amar de verdade. Mas...

“Deixa estar.” – pensara.

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