Amigos Não Mentem Para os Outr

Amigos Não Mentem Para os Outr



- Achei que aquele jogo ia acabar nunca. – comentou Maria, abraçada a Dougie em uma poltrona na sala comunal mais tarde daquele dia. A festa durou o dia inteiro e agora só restava eu, Maria, Dougie, Tiago e Black na sala.


- Eu também achei. – comentou Black, esvaziando uma das últimas garrafas de cerveja amanteigada. – Foi uma captura sensacional a sua, Pontas.


- Obrigado. – ele falou bocejando. Com certeza estava cansado de escutar isso, já que durante o dia todo ouvira a mesma coisa milhares de vezes.


- Bom, vou dormir. – falou Maria, levantando-se. – Vamos, Lílian?


- Vamos. – respondi, me espreguiçando.


Ela beijou Dougie e acenou para os outros.


- Boa noite. – falei para eles e então segui Maria para o dormitório.


As outras garotas que dividiam o dormitório com a gente já estavam dormindo silenciosamente.


- E então? – perguntou Maria, enquanto vestíamos o pijama.


- Então o quê?


- Você e Tiago.


Revirei os olhos.


- Eu já te disse que isso não tem nada a ver.


- Eu vi você abraçando ele no estádio. – ela disse com um sorrisinho perverso.


- E daí? É só um abraço.


- Ele bem que gostou desse abraço. – ela comentou, rindo baixinho.


Eu não respondi. Apenas deitei na cama e entrei em baixo dos cobertores.


- Sabe, durante a comemoração toda ele não parava de olhar pra você. – ela continuava. – Acho que queria, mas acabou não conseguindo, ficar sozinho com você por uns minutos.


Continuei sem resposta. Decidi fingir que estava dormindo.


- Não adianta me ignorar Lílian. – ela falou, adivinhando meus planos. Distingui sua voz divertida no escuro.


- Repito que é para você parar com esse assunto.


- Tudo bem. Mas eu tenho certeza que a sua cabecinha vai ficar pensando nisso a noite toda.


Só por raiva, decidi tirar Tiago Potter da minha cabeça; acabou dando resultado. Não sonhei e nem sequer pensei nele durante a noite.


O dia seguinte amanheceu mais claro que o normal. Eu dei uma espiada pela janela: começara a nevar.


Quando desci para o Salão Principal ele estava novamente cheio. Registrei mentalmente para passar a acordar mais cedo dali em diante.


Decidi sentar com Tiago, que estava conversando com Rabicho.


- Bom dia Tiago, Rabicho. – falei, bocejando.


- Olá Lílian. – Tiago respondeu sorrindo. – Dormiu bem?


- Até que dormi. – eu disse, passando geleia na torrada.


Naquele momento o Salão se infestou de corujas, deixando cair embrulhos e cartas ao longo das mesas.


A última coruja que eu havia mandado para mamãe pousou suavemente na minha frente, estendendo a pata com a carta pra mim. Abri o envelope e li:


Querida Lílian


Acho ótimo você estar indo bem na escola, continue assim.


Por aqui está tudo normal, fora o fato de Petúnia já ter marcado a data do casamento. Ela queria que fosse em junho, mas eu a convenci para ser em julho, assim você poderá assistir à cerimônia.


Espero mais notícias suas.


Beijos


Mamãe


- O que foi? – perguntou Tiago, quando eu bufei depois de ter lido a carta.


- Minha irmã vai se casar. – eu disse, bebendo um copo de leite. – Com certeza ela não quer me ver presente porque queria marcar a data pra antes das férias de verão.


- Você não se dá bem com a sua irmã?


- Não é isso. É que ela não aceita o fato de eu ser bruxa. – eu disse, desolada.


- Não fica assim, Lílian. Um dia ela vai entender. – ele disse me consolando.


Terminado o tomar café, eu, Tiago e Rabicho nos dirigimos para a sala comunal para terminar os deveres que o dia de ontem nos tinha impedido de fazer.


Quando chegamos à sala havia um clima estranho. A maioria das pessoas cochichavam agitadas e outras pareciam meio abaladas.


- Maria, o que houve? – perguntei a ela, quando a encontrei em um canto junto com Dougie.


- Os pais da Joanne foram encontrados mortos na casa dela. – ela disse, com a voz trêmula.


Levei as mãos à boca, assustada.


- Joanne Bolton? – perguntou Tiago. – A que divide o dormitório com vocês?


- É. – respondeu Maria, balançando a cabeça. – Coitada, amanhã é o aniversário dela...


- Que ótimo presente ela ganhou. – disse Black, sentado numa poltrona próxima, brincando naturalmente com a pena na sua mão.


- Você é a pessoa mais insensível que já conheci, Black. – eu disse, lançando-lhe um olhar irritado.


Ele apenas deu de ombros.


- Com certeza foram Comensais da Morte. – falou Dougie.


- Ou o próprio Você-Sabe-Quem. – respondeu Maria, tristonha.


Com a agitação da noticia eu e os outros não conseguimos terminar os trabalhos ao longo da tarde. Os pertences de Joanne sumiram do dormitório e fiquei desapontada por não ter conseguido falar com ela.


- Lílian, tudo bem? – perguntou Tiago, enquanto tentávamos, sem sucesso, concluir o dever de História da Magia.


- Sim. – eu disse e então empurrei os pergaminhos para longe. – Acho que não vou conseguir terminar esse trabalho.


- É, eu também não. – ele disse, descansando a pena. – Depois de ter acontecido tudo isso fica muita coisa martelando na nossa cabeça.


- Como o que, por exemplo?


- É normal ter medo que um dia isso venha acontecer a nossa família. – ele comentou.


Eu tremi levemente. Na minha cabeça apareceu a imagem de meus pais e Túnia deitados no chão da sala, duros e imóveis. Eu balancei a cabeça.


- Não quero nem pensar.


- Vamos parar com esse assunto. – ele disse. – Você quer ir comigo à ala hospitalar visitar o Rômulo?


- Ok, tudo bem. – eu disse, e então fomos juntos para o buraco do retrato.


Madame Pomfrey era a rigorosa enfermeira da escola. Ela permitiu que ficássemos apenas cinco minutos visitando Ericson.


- Você está bem, cara? – perguntou Tiago.


- Acho que sim. – disse Rômulo com sua voz grave. – Fico feliz que ganhamos, apesar do meu acidente. Um dia vou me vingar daquele desgraçado do Berry... Ah, olá Lílian.


Rômulo ficara chocado com o que aconteceu a Joanne, e também ficou abalado, pois seu tio também morrera misteriosamente.


Ficamos uns minutinhos a mais do que o permitido, até que Madame Pomfrey nos expulsou da enfermaria.


Estávamos indo de volta para a Torre da Grifinória, quando, pro meu desespero, Sev topou com a gente.


Com todos esses últimos acontecimentos esqueci que hoje era minha noite de patrulha como monitora-chefe e que com certeza ele esperava me encontrar aqui sozinha.


- O que você está fazendo aqui, Ranhoso? – Tiago perguntou, sua voz ríspida.


- O que você está fazendo aqui? E com a Lílian?


- A gente foi visitar o Eri... – comecei, com medo de eles começarem a duelar novamente.


- Isso não é do seu interesse. – respondeu Tiago com a voz dura.


- Claro que é. Lílian é minha... – Sev parou, indeciso. Na verdade, eu também não sabia se ainda éramos amigos.


- Amiga? – perguntou Tiago, dando uma risada desdenhosa. - Amigos não chamam os outros de sangue-ruim e muito menos fala que tem nojo deles.


- Então você é amigo de Lílian? – perguntou Sev, crispando os lábios. - Sou.


- Que eu saiba, amigos não mentem para os outros, não é mesmo Potter?


Tiago não respondeu de principio. Encarou Sev como se o fuzilasse com o olhar.


- Não sei o que você está falando. – ele respondeu por fim.


- Tiago,vamos embora. – eu disse depressa, antes que o circo pegasse fogo.


- Tiago? – perguntou Sev, incrédulo.


- Vamos. – insisti puxando o braço dele. – Tchau, Sev.


Tiago lançou um ultimo olhar irritado para Sev, mas acabou me seguindo.


Apenas quando chegamos ao corredor do retrato da Mulher Gorda eu tornei a falar.


- Do que é que ele estava falando?


- Sobre o quê? – ele perguntou, embora sem me encarar.


- "Amigos não mentem para os outros." Do que ele estava falando? – indaguei, esperando que ele olhasse pra mim, mas ele continuava a olhar em outra direção.


- Eu também não sei o que ele quis dizer sobre isso.


- Você andou mentindo para mim? – perguntei definitivamente.


- Não, é claro que não! – ele disse com falsa indignação; notei que sua voz tremeu.


- Pois não foi isso que me pareceu. Cabeça de hipogrifo. – falei; o retrato girou e antes que Tiago pudesse fazer alguma objeção, eu dei-lhe as costas.

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