Passado



Eles cruzaram um corredor do terceiro andar, repleto de armaduras e archotes. Snape direcionou Serena para uma porta à esquerda e os dois entraram. A garota continuava calada, e o homem sustentava a carranca, nenhum dos dois se deixando levar pelas emoções em seu íntimo.


                Severo procurou em uma antiga estante de carvalho e retirou de lá um objeto de pedra trabalhada. Parecia uma bacia, e continha um líquido curioso em seu interior.


                Ele chamou Serena com um aceno de cabeça, ela se aproximou da bancada em que o objeto havia sido pousado, porém sem se aproximar realmente de Snape. Ele retirou a varinha das vestes e puxou um fio prateado de lembrança. Serena ficou extasiada ao ver aquilo – e curiosa – porém nada demonstrava.


                Colocou o fio cor de prata no líquido, que começou a girar.


 


                Alexandra chegara cansada de sua sala na Torre da Grifinória, sentou-se na grande e alta cama de casal e tirou os sapatos, depois as meias. Suspirou. Passou a mão no ventre liso e sorriu.


                Deixou a capa pendurada em um mancebo antigo, de mogno, e tirou o suéter cinza que vestia. Soltou os cabelos ruivos e eles caíram até o meio de suas costas, em ondas graciosas. Foi até a penteadeira e mirou-se no espelho, e até mesmo ele lhe dizia como estava cansada. Os olhos azuis tinham seu brilho sempre, mas hoje estavam sonolentos. Alexandra retirou a fina pulseira de ouro com a qual o marido a presenteara no último natal. Ela simplesmente adorava a jóia.


                Não via Severo desde o jantar. Ele lhe dissera ainda pelo café da manhã que aplicaria algumas detenções grifinórias nesta semana.


                Antes de tirar o resto da roupa, acenou com a varinha na região da barriga: ‘Finite Incantatem’, ela disse.


                Era um alívio. Não que aquele simples feitiço para esconder incomodasse realmente, era mais o fato de parecer que não estava mais ali. Mirou o ventre cheio sob as vestes.


                Ao terminar de se despir, Alexandra pegou uma toalha branca de uma das gavetas da cômoda e rumou para o banheiro.


                Tomou seu banho sem pressa alguma e deixou com que a água quente escorresse por seu pescoço e costas doloridas, era relaxante, e o bebê parecia gostar também, já que tremia dentro dela, dando pequenos sinais de vida. Um cordão de ouro pendia em seu pescoço, e nele havia um pequeno anel - também de ouro - como pingente.


                Secava-se quando a porta foi aberta calmamente, por um Severo sorridente.


                O sorriso sumiu no ar quando viu a esposa ali, nua. A protuberância no ventre.


                Ele não precisou dizer nada, ela olhou para cima, o semblante relaxado e feliz, que também mudou quando viu Snape encarando-a secamente.


                ‘-Não!’ – disse ela desesperada, colocando as mãos protetoramente sobre a barriga – ‘Severo, por favor. Não.’ – Alexandra tinha uma expressão de súplica que Severo jamais havia visto igual na vida.


                ‘-O que é isso?’ – perguntou, frio – ‘Por que não me contou sobre nada, Alexia?’


                ‘-Severo, não me faça abortar o nosso bebê. Me mate depois que ele nascer, faça qualquer coisa comigo, Severo, mas por favor, me deixe tê-lo.’ – Alexandra começara a chorar silenciosamente enquanto encarava a expressão de desdém do marido.


                ‘-Você não respondeu minha pergunta. Por que você não me contou, Alexandra?’ – seu tom estava ainda mais frio e furioso.


                ‘-Eu... Eu... ’ – ela gaguejou, soluçando – ‘Tive medo, Severo. Eu sabia qual seria sua reação quando soubesse, tive tanto medo que você me matasse antes de o bebê nascer que usei um feitiço até agora para escondê-lo. ’ – ela disse, as mãos ainda cruzadas protetoramente sobre a proeminência – ‘Por favor, Severo. Faça o que quiser comigo depois, eu não me importo. ’


                Ao ver a mãe, a beleza dela, os olhos e feições herdadas dela, lágrimas vieram aos olhos de Serena. E deixara-se chorar em silêncio quando a mãe dizia todas aquelas coisas, protegendo-a mesmo antes de ela nascer.


                Severo olhou para os dois lados depois para ela, que se curvava ligeiramente sobre a barriga.


                ‘-Quantos meses?’ – perguntou ele, com frieza.


                ‘-Quase cinco.’ – respondeu, trêmula.


                Os olhos azuis de Alexia estavam suplicantes e marejados, seu rosto alvo, e já corado normalmente, estava vermelho.


                ‘-Por hora não farei nada contra a criança, afinal ela está dentro de você. ’ – Ele disse e virou-se, em direção novamente ao quarto – ‘Não a farei fazer um aborto, Alexia, sobre isso, acalme-se.’


                Alexandra chorou de alívio e felicidade.


                Enrolada na toalha branca foi para o quarto, a fim de vestir-se. Os cabelos de fogo contrastavam com sua pele e a toalha que a envolvia.


                Até mesmo sob a toalha o bebê já se fazia notar, Severo reparava.


                Alexandra tirou uma camisola folgada e vestiu-a, virando-se para o marido, sentado em uma das poltronas verde-escuras, lendo O Profeta Diário com feições de deboche.


                ‘-Alguém mais sabe?’ – perguntou ele.


                ‘-Sobre o bebê?’ – disse Alexandra, acariciando, sem propósito, o ventre e recebendo um aceno positivo de Severo – ‘Não. ’


                ‘-Dumbledore terá que saber’ – comentou sem entusiasmo e sem tirar os olhos do jornal – ‘É melhor que contemos para ele sem demora. Esse feitiço que estás a usar, Alexia, e já deves saber, terá efeito somente por, no máximo, mais duas semanas. ’


                ‘-Eu sei. ’ – respondeu, sentada na cama, de cabeça baixa – ‘Pensei em falar com ele, mas queria te contar primeiro, Severo, mas estava com medo. ’ – confessou baixinho.


                ‘-Amanhã nós dois temos a segunda aula após o almoço vaga, não é mesmo?’ – ela concordou – ‘Pois bem, falaremos com ele então. ’


                Alexandra concordou debilmente com a cabeça, tudo o que tinha em mente era o alívio que sentia, por ter livrado seu bebê do destino terrível.


                Após algum tempo de tensão, Severo e Alexia deitaram-se para dormir. Ele tocara o colar de ouro que usava, também com um anel da mesma cor como pingente e adormeceu. Ela virou de lado e sorriu, acariciando o ventre, o semblante aliviado dominando seu rosto.


                ‘-Como você pôde?’ – perguntou Serena, perplexa, ao final da primeira lembrança – ‘Olhe o alívio no rosto dela, Snape! Isso a devia estar torturando!’


                Snape não respondeu, encarou a garota por alguns instantes e voltou a mirar uma Alexia suspirando profundamente.


                A segunda lembrança começava na sala do diretor.


                ‘-Ora, ora, que novidade esplendida!’ – disse Dumbledore sorrindo verdadeiramente feliz – ‘Uma criança, pois não!’


                Alexandra sorria também, o rosto todo se iluminando. Severo apenas observava, impaciente.


                ‘-Viemos aqui tratar, diretor, sobre o que faremos quanto à gravidez de Alexia, em relação aos alunos.’


                ‘-Claro, claro.’ – respondeu ele, pensativo – ‘Você dará aulas até quando quiser, e se sentir bem, correto, professora?’ – ela respondeu afirmativamente – ‘E, bem, acho que o melhor a fazermos agora é comunicar aos alunos.’ – quando Snape ameaçou fazer uma objeção, Dumbledore pediu-lhe calma com as mãos – ‘E mantendo, é claro, a discrição do relacionamento de vocês, assim como mantemos desde o casamento, Severo. Falaremos, então, aos alunos que o bebê é somente de Alexandra, pois nada interessa a eles a vida pessoal dela, e daqui a pouco tempo a criança mostrará sinais de vida que nenhum feitiço poderá esconder.’ – o diretor fez uma pausa, olhando por cima dos óculos de meia lua, ambas as mãos apoiadas sobre a mesa – ‘Estão de acordo?’


                Alexandra agitou a cabeça, feliz.


                ‘-Obrigada, Alvo. Nunca vou poder agradecer por tudo que já nos fez. ’ – então ela sorriu, encantadora, como sempre.


                ‘-Eu sempre estarei ao dispor dos amigos, Alexandra.’ – ele sorriu também.


                Severo acenou em agradecimento com a cabeça, a expressão ainda fria.


 


                Naquela mesma noite, durante o jantar, Alexandra e Severo comiam à mesa dos professores, e os alunos celebravam o fim dos exames em animadas conversas. O tilintar das taças se ouvia de longe, já que todos brindavam aos anúncios do diretor.


                Por fim, ele pigarreou.


                ‘-Ainda temos mais uma coisa. É a última, prometo, e poderemos comer em paz. ’ – todos se sentaram e calaram – ‘Daremos hoje, as congratulações à querida professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, a professora Spring, pela próspera notícia de que será, em breve, mãe. ’ – Dumbledore sorriu e todos os alunos levantaram-se, aplaudindo.


                Alexandra levantou-se e fez uma reverencia exagerada, em um agradecimento brincalhão. E ela estava feliz, e radiante, como nunca antes.


               
               
Severo estacara diante da lembrança. Ela fazia tanta falta, aquele jeito alegre e seu bom-humor em qualquer hora do dia faziam dela uma pessoa especial.


                Após voltarem da segunda lembrança, Snape foi até o armário e olhou frasquinhos rotulados, que tinham uma substancia prateada em seu interior. Escolheu um e abriu-o. Deixou-o descansando na bancada e olhou para Serena.


                ‘-Essa lembrança não é minha.’ – disse – ‘Foi-me concedida por uma aluna de Alexia.’


                Serena olhava somente para a Penseira. Severo puxou o fio prateado de dentro do frasco e colocou-o na bacia de pedra.


               
                A aula do sétimo ano era dupla de Sonserina e Grifinória, e a professora Spring estava sentada em sua cadeira, examinando alguns contra feitiços novos. Ouviu sons de pés a subir pela torre, e concluiu que seus alunos estavam chegando. Levantou-se e foi até a porta para recebê-los.


                A sala era toda decorada com cartazes e imagens que se moviam, colados nas paredes, a janela era grande, portanto toda a sala recebia luz durante o dia. Havia objetos estranhos e brilhantes sobre os armários e a coruja de estimação de Alexandra ficava empoleirada próxima à janela.


                ‘-Bom dia, professora Spring.’ – cumprimentou Guinevere Lots, uma aluna da grifinória.


                ‘-Como vai, professora?’ – John O’Brian, um grifinório, entrara cantarolando e cumprimentara-a.


                ‘-Olá, Thomas.’ – disse uma Alexandra feliz a um aluno da sonserina.


                ‘-Professora! Não te vi ai, como vai?’ – respondeu ele, em seu modo desleixado, recebendo da professora um tapinha nas costas.


                Alexandra não conseguia começar sua aula, já que um turbilhão de perguntas era direcionado para ela. Todas sobre sua gravidez. Até mesmo os sonserinos, mais reservados em outras aulas, falavam muito nas aulas dela.


                ‘-Professora, quem é o pai do seu bebê?’ – perguntou Alice Gumper, uma sonserina.


                ‘-Ei, ei, pessoal. Íntimo demais. Vamos discutir sobre o uso correto de azarações. Lembram do nosso combinado?’


                Muxoxos vieram da sala toda, era a maior curiosidade dos últimos dias.


                ‘-Você é casada, professora Spring?’ – perguntou uma grifinória sentada no fundo da sala – ‘Você não usa aliança... ’


                ‘-Vamos maneirar nas perguntas, classe. Está ficando muito pessoal, e, sim, eu sou professora de vocês.’ – disse, como se já tivesse dito aquilo muitas vezes.


                A lembrança se interrompia, depois o que a sucedia era o final da aula daquele dia.


                Todos os alunos saiam da sala em direção ao Salão Principal para o almoço. Eles acenavam e gritavam despedidas para a professora.


                Restara apenas uma aluna, grifinória e loira, com traços parecidos com os de Alexia.


                Ela se aproximou e acariciou o ventre da professora.


                ‘-Você está feliz, tia?’ – perguntou ela, docemente, encarando Alexandra.


                ‘-Sim, querida, muito.’


                ‘-Ei, está mexendo!’ – vibrou ela, sorridente, e encostou o rosto à barriga da tia.


                ‘-Ele faz muito isso ultimamente. ’ – Alexia sorriu e acariciou os cabelos de Elena.


                ‘-Quem é o misterioso pai do bebê?’ – perguntou, curiosa.


                ‘-Não posso te dizer, isso, querida. Afinal, ainda sou sua professora. ’ – disse, censurando a garota.


                ‘-Mas você não é casada, tia.’ – insistiu ela.


                ‘-Não adianta, mocinha. Vá, o almoço já deve ter sido servido. E não ouse me desobedecer, Elena Summers.’ – então Elena foi, rindo e acenando para Alexia.


               


                Serena sentia um sentimento aflorando em seu coração de gelo. A mãe amava-a, e a gravidez de Alexandra tinha sido celebrada por toda Hogwarts. Ela fora querida e esperada, mas nada fazia sentido em sua mente agora. Se a mãe a queria tanto, por que ela acabara abandonada em um orfanato trouxa?


                Snape estava pensativo. Pareceu decidir-se minutos depois, quando puxou mais um fio prateado de sua própria lembrança.


               
                Ele andava pelos corredores, próximos à Torre da Grifinória. No final da gestação, Alexandra dava aulas somente no período da manhã, e Severo durante a tarde, e ele passava a manhã a andar pelos corredores, com discrição, porém, para que nenhum aluno notasse o que ele estava a fazer.


                Certa manhã, ele fazia o patrulhamento de sempre, quando um zunzunzum fora do comum tomou conta da sala da professora Spring. Flich chegara primeiro à porta da sala e perguntava aos alunos o que estava acontecendo.


                ‘-A bolsa da professora rompeu.’ – disse Eleanor, amparando-a.


                Severo entrara na sala.


                ‘-Graças a Merlim!’- disse o zelador quando o viu – ‘A professora Spring está em trabalho de parto, professor. Quer que eu chame Madame Pomfrey?’


                ‘-Não será necessário, Flich. Cuide da sala e eu acompanharei a professora até a Ala Hospitalar.’


                Snape entrou na multidão de alunos que rodeavam Alexandra.


                ‘-Está tudo bem, professora?’ – perguntou Snape, com voz branda demais para sua própria pessoa – ‘Acha que consegue andar, ou é preciso conjurar uma maca.’


                ‘-Eu consigo andar, Snape, obrigada, e prefiro também.’ – ela levantou-se de sua cadeira, escorando-se no professor de Poções.


                ‘-Quer que eu te acompanhe, tia?’ – perguntou Elena, baixinho.


                ‘-Não, meu amor. Obrigada, vou bem com o professor Snape. ’ – Alexandra sorriu e soprou-lhe um beijo.


                Saíram os dois da sala e rumaram à Ala Hospitalar. Madame Pomfrey estava alerta nos últimos dias, pois sabia que a criança nasceria a qualquer momento.


                ‘-Alexia, está tudo bem mesmo?’ – perguntou, com tom de confusão.


                ‘-Sim, Severo, pois sim.’ – ela disse e apoiou uma das mãos no ventre dilatado.


                ‘-Não queres mesmo uma maca?’


                ‘-Não, meu querido, já disse que não.’ – ela tinha o semblante relaxado, contente.


                Chegaram até grande porta branca da Ala Hospitalar, e Severo abriu-a. Alexandra sentou-se nos bancos de espera da ante-sala que antecedia a enfermaria. Severo bateu três vezes na porta e sentou-se ao lado da esposa.


                ‘-Você sabe que vai doer, Alexia.’ – ele disse, inconformado com a feição de felicidade que se instalara no rosto dela.


                ‘-Eu sei, Severo, sei sim. Mas tudo vai valer a pena quando vir o rostinho da criança.’


                ‘-E toda a dor, Alexandra, será culpa minha. Minha e somente minha. Eu lhe deixei neste estado.’


                ‘-Não se culpe por algo que não é culposo, meu amor. ’ – ela disse e acariciou levemente o rosto dele – ‘Somos casados, e se há culpa alguma, somos dois culpados. ’ – ela sorriu – ‘E também, se é culpa sua, agradeço-te. Você me fez a mulher mais feliz do mundo. ’


                Ele sorriu, verdadeiramente, e suspirou. Segurou a mão da esposa com mais força entre as suas. Ela era a única que o fazia sorrir daquele modo, tão simples, e tão verdadeiro. Severo Snape era dela. Inteiramente dela.


                Madame Pomfrey abriu a porta dupla que separava a ante-sala da enfermaria e sorriu, presunçosa, ao vê-los.


                ‘-Sabia que seria ainda nesta semana! Está sentindo dor, querida?’ – perguntou a mulher, chegando perto de Alexandra, que acenou negativamente – ‘Hum, logo já as contrações vão começar. Mas pelo meu ver, ainda demorará.’


                Madame Pomfrey virou as costas e ouviu-se uma cortina fechando-se em volta de uma das macas.


                ‘-Pronta, Alexia, pode vir. Há um aluno ali, e como Severo entrará com você, achei por bem que não os vissem juntos.’ – explicou-se


                ‘-Fez bem, Papoula, agradeço-te.’


                ‘-Vamos, entrem.’


                Madame Pomfrey levou-os até uma ala da enfermaria separada.Era mais clara e tinha duas macas confortáveis.


                ‘-Pronto, Alexandra. Aqui tenho tudo de que preciso, além de que esta área não é do conhecimento de nenhum aluno, visto que ninguém pode ver o que acontece aqui, devido ao feitiço Cave Inimicum e nem ouvir, graças ao Abaffiato.’ – Severo sorriu, ao ouvir Papoula fazer referencia ao feitiço que ele próprio havia criado.


                ‘-Pelo jeito, vai demorar por aqui, professor’, disse ela, indo até um armário e pegando algumas poções de cores variadas.


                ‘-Tudo bem, Papoula.’ – disse, esperando Alexandra sair do banheiro em que fora trocar as vestes molhadas por uma camisola branca.


                Madame Pomfrey guiou Alexia até uma das camas e tirando a varinha das vestes fez alguns exames rápidos.


                ‘-Hum, pode ser que aconteça mais rápido do que eu espero’ – disse, pensativa – ‘Mas ainda assim será demorado.’ – comentou, e virou-se para Alexia – ‘Você não está tendo contrações ainda, está?’


                ‘-Não’ – respondeu Alexandra.


                Pomfrey foi até uma saleta abarrotada de poções e Severo foi até a esposa.


                ‘-Tudo certo?’ – perguntou ele, preocupado.


                ‘-Sim, querido, não se preocupe. ’ – ela disse calmamente – ‘Por que você não avisa Dumbledore e dá uma olhada no sétimo ano para mim? Não confio em Flich na minha sala e você sabe disso. ’ – ele respirou, pensativa – E avise Minerva também, para avisar a grifinória e aos outros diretores das casas.’


                ‘-Tem certeza, Alexia? Não quer que eu fique aqui, com você?’ – perguntou, se aproximando dela.


                ‘-Tenho, Severo. Vá em paz. Madame Promfrey disse que quando começarem as contrações será rápido. Mas não tenho nem indícios disso ainda. ’ – Alexia sorriu e colou os lábios carinhosamente aos do marido.


                Ele olhou-a mais uma vez e saiu.


               
                Severo parecia não agüentar aquelas memórias. Ele engolia em seco e encarava os pés. Serena não apercebia-se de nada. As lágrimas escorriam furtivamente, silenciosas. Porém sua vontade era de desabar em um longo choro compulsivo, mas nunca – jamais – faria isso na frente de Snape.


                Ele lentamente puxou mais um fio prateado, a mão trêmula empunhando a varinha.


                ‘-A última, senhorita Serena.’ –falou, sem ânimo.


               
                Snape andava pelos corredores de Hogwarts até alcançar uma grande porta branca. Ele estava aflito pois sim,por ter deixada Alexandra lá, sozinha, e demorara mais do que o planejado. Todos os professores, de repente, falavam com ele e queriam notícias que ele não podia dar. Queriam saber como a querida professora Spring, como estava o bebê, quando a criança nasceria, e diversas outras perguntas para as quais ele não tinha resposta.


                Bateu na porta da Ala especial da enfermaria, e uma Pomfrey alarmada saiu, fechando a porta às suas costas. Severo estranhou. O que estava acontecendo ali?


                ‘-Papoula, o que aconteceu?’ – perguntou ele – ‘A criança vai nascer já, ou ainda demorará?’


                ‘-Sente-se, Severo’ – pediu ela, indicando uma cadeira encostada à parede.


                ‘-Não vou me sentar, Papoula. O que está acontecendo?’


                ‘-Logo que você saiu, as contrações começaram. E eu disse que logo que começassem, o bebê nasceria. Mas com isso vem uma série de problemas, Severo, ligados à Alexia.’


                ‘-O que? Como?’ – perguntava, confuso – ‘Seja clara, Papoula, faça-me o favor.’


                ‘-Eu sabia dessa possibilidade. Sempre há uma chance disso acontecer, porém é muito raro. Quando o parto é rápido assim, as conseqüências são graves.’ – o rosto dele perdia a cor aos poucos – ‘Ela escolheu, meu caro.Quando as contrações começaram eu a avisei. Ela me mandou prosseguir, eu realmente sinto muito.’


                ‘-Alexia está morta?’ – perguntou, aflito.


                ‘-Não. O que acontece quando a criança nasce tão rápido assim, é que nós, bruxos, não temos o concepção tão rápida quanto os trouxas, e os órgãos dela estão paralisando, aos poucos e...’ – Severo interrompeu-a.


                ‘-Abra a porta, Pomfrey! ABRA A MALDITA PORTA AGORA, EU QUERO VER ALEXANDRA.’


                Enquanto Papoula abria a porta, Severo ainda gritava.


                Severo adentrou correndo a enfermaria especial.


                ‘-Severo, não seja rude com Papoula. Ela foi tão boa para nós.’


                Então ele a viu, brilhando como sempre, sua Alexia. Mas ela tinha os olhos cansados, a pele ainda mais alva e trazia nos braços um embrulho pequenino.


                Severo perdeu a fala ao ver a cena, e seu maxilar cedeu ligeiramente. Ele não respondeu, apenas aproximou-se dela.


                Contemplou sua face por alguns instantes, até que disse:


                ‘-Por quê?’ – as palavras estavam carregadas da mais pura dor.


                ‘-Ela é linda, Severo, você viu?’ – ela disse, ignorando a pergunta e afastando a manta branca do rostinho do bebê que dormia.


                ‘-Por que, Alexia, por quê?’ - suplicou ele – ‘Eu te amo tanto... ’


                ‘-É nosso bebê, querido.’ – ela disse olhando para a filha – ‘Entre ela e eu, eu nunca me escolheria.’


                ‘-Mas, Alexia...’


                ‘-Shhh, Severo. Me deixe falar.’ – ela o repreendeu – ‘Logo em breve não estarei mais aqui, e não culpe ninguém, por favor. Foi minha escolha. Preciso agora que você me prometa algumas coisas.’


                ‘-Tudo o que você quiser, meu bem, qualquer coisa.’ – ela sorriu fino, e acariciou o rosto rosado da filha. O marido lhe segurava a outra mão.’


                ‘-Severo, me prometa que você cuidará dela.’ – Alexandra disse, séria – ‘Por favor, não deixe que nada de mal, nunca, aconteça a ela. E proteja-a. Sempre e acima de tudo proteja-a. Com sua vida, se preciso. É tudo que eu te peço.’


                Ele concordou com a cabeça, debilmente.


                ‘-Me promete?’ – ela perguntou, baixinho.


                ‘-Eu juro.’ – ele respondeu, levantando a cabeça para encará-la.


                Então ela virou de Severo para o bebê, que começava a se mover em seus braços.


                ‘-Calma, meu amor’ – sussurrou ela, beijando de leve a cabecinha da criança – ‘Mamãe está aqui. ’ – ela sorriu com os olhos marejando para o pequeno embrulho – ‘Eu sei, querida, que quando você crescer vai parecer que eu nunca estive aqui. Você não se lembrará de mim, mas eu estarei com você, sempre. Mamãe vai sempre olhar por você me qualquer canto, qualquer lugar, até mesmo no fim do mundo, viu?’ – ela secou os olhos molhados com as costas da mão – ‘E você nem se lembrará disso’ – ela sorriu em meio às lágrimas – ‘ Mas não fique com raiva da mamãe, por favor. Queria poder ver você crescer. Mas não vai ser possível, querida. Eu te amo. ’ – ela secou as lágrimas mais uma vez e abriu um largo sorriso ao ver os olhinhos do bebê a encarando.


                Alexandra apertou forte a garotinha contra seus braços, e virou-se para Severo, que também a encarava com olhos marejados.


                ‘-O nome dela é Serena. Serena Spring Snape.’ – ela disse com calma – ‘Você gosta?’


                ‘-É o nome mais lindo de todos. ’ – Severo sorriu verdadeiramente,engolindo em seco e fungando baixinho.


                ‘-Eu te amo, querido. Pra sempre. ’ – Alexandra disse e suspirou.


                Severo viu-a fitar o vazio, sorrir e fechar os olhos vagarosamente, até que seu corpo amoleceu e sua cabeça tombou para o lado, inerte. Madame Pomfrey, que observara tudo ao pé do armário, correu até eles e tomou a criança nos braços.


                Ela tinha os olhos lacrimejados, e o rosto de Severo estava cravado por profundas marcas de dor.


                ‘-Tome, pegue o bebê, Severo. Vou avisar o diretor. ’ – nisso ela passou a criança para os braços do pai e desapareceu pela porta, enxugando algumas lágrimas.


                Ele olhou a menininha por alguns instantes e arriscou-lhe um sorriso.



               
Quando a lembrança acabou, Serena soluçava e tremia. Severo sustentava a mesma carranca de dor da lembrança, mas agora seu rosto era mais marcado e tinha mais rugas.


                ‘-Aprendeu, senhorita, a não mais falar de Alexia?’ – perguntou, frio.


                 Serena não respondeu de imediato, apenas desatou a chorar copiosamente.


                ‘-Eu nunca imaginara nada disso, Snape! A vida no orfanato não nos deixa crer que nossas mães podem ser assim!’ – ela disse, em meio a soluços.


                A garota escondeu o rosto entre as mãos e saiu correndo porta afora.


                 Snape ficou lá, paralisado. Sabia que o certo era correr atrás dela, consolá-la e dar todas as explicações que lhe devia, mas não o fez. Somente ficou olhando pela porta, vendo a garota desaparecer pela direita.

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