A Visita



Apesar de eu ter morado em Washington D.C. a vida toda (a não ser por aquele ano que a minha família passou em Marrocos), nunca tinha visto o presidente dos Estados Unidos em pessoa (e quatro deles tinham passado por lá durante o decorrer da minha vida).

Ah, eu tinha visto quando ele passava em alguma comitiva de carros, e claro que também o vi na TV. Mas, tirando o dia anterior, na Capitol Cookies, eu nunca tinha visto o presidente de perto.

Então, quando eu o vi parado ali no meu quarto de hospital com a minha mãe e o meu pai e a Lucy e a Rebecca e a Molly e os agentes do Serviço Secreto e todas as flores e os balões e tudo o mais...

Bom, foi bem estranho.

Além disso, estava parada ali do lado dele a mulher, a primeira-dama. Eu também nunca tinha visto a primeira-dama em pessoa. Já tinha visto na TV e na capa da revista Good Housekeeping, aquela para donas de casa, em que ela exibia seus brownies premiados e tudo o mais, mas nunca em pessoa. De perto, tanto o presidente quanto a primeira-dama parecem maiores do que na TV.

Ah, dããã. Claro que sim. Mas eles também pareciam... sei lá.

Tipo mais velhos, e mais reais. Tipo, dava para ver as rugas e essas coisas.

-Então, é você a mocinha que salvou a minha vida – foi o que ele disse. O presidente dos Estados Unidos. Aquelas foram as primeiras palavras que o presidente disse para mim, naquela voz profunda que eu sou obrigada a ouvir praticamente toda noite, quando os meus pais me obrigam a mudar o canal de Os Simpsons para as notícias.
E o que foi que eu respondi? O que foi que eu disse em resposta ao presidente dos Estados Unidos?

Eu fiquei tipo:

-Hã?

Atrás de mim, ouvi a Lucy soltar um suspiro bem satisfeito. Isso porque ela tinha terminado sua produção de maquiagem a tempo. Se ela tivesse que parar alguns minutos antes, eu poderia ainda estar com cara de quem acabou de acordar.
Aparentemente, a Lucy não se ligava para o fato de eu soar como uma idiota. Ela só ligava para o fato de eu não estar com aparência de idiota.

-Bom, precisei dar uma passada aqui para pedir a sua permissão para apertar a mão da garota mais corajosa do mundo – o presidente prosseguiu com aquele vozeirão.

E daí, esticou a mão direita.

Fiquei olhando fixamente para aquela mão. Não que fosse diferente da mão das outras pessoas. Não era. Bom, claro que era, porque pertencia ao presidente dos Estados Unidos. Mas não era por isso que eu não conseguia tirar os olhos dela. Eu estava olhando fixamente para ela porque estava pensando no que o presidente tinha acabado de dizer, que eu era a garota mais corajosa do mundo. E foi interessante porque, apesar de muitos dos cartões das flores, dos balões e dos ursinhos que a minha mãe tinha lido dizerem coisas parecidas, foi a primeira vez que eu de fato parei para pensar sobre o assunto. De eu ser corajosa e tal.

E o negócio é que, simplesmente, não era verdade. Eu não tinha sido corajosa coisa nenhuma. Você é corajosa quando faz alguma coisa porque sabe que é o certo, mas ao mesmo tempo você tem medo de fazer, porque você pode se machucar ou algo assim. Mas você faz, mesmo assim. Tipo quando eu defendo a Luna da Gina Weasley quando a Gina começa a encher o saco por causa dos vestidos de Os Pioneiros que ela usa ou algo assim, mesmo sabendo que o próximo alvo de encheção serei eu. Fala sério, aquilo sim é coragem.

O que eu fiz (pular em cima das costas do sr. Uptown Girl) não tinha sido um ato corajoso porque eu não tinha parado para pensar nas conseqüências. Eu simplesmente tinha pulado. Vi a arma, vi o presidente, pulei. Só isso.
Eu não era a garota mais corajosa do mundo. Eu só era uma garota que por acaso estava ao lado de um cara que queria assassinar o presidente. Só isso. Eu não tinha feito nada de extraordinário. Não mesmo.

Não sei quanto tempo eu teria ficado lá olhando a mão do presidente se a Lucy não tivesse cutucado as minhas costas. E também doeu bastante, porque a Lucy tem unhas muito compridas e pontudas, que fica lixando toda noite.
Mas não deixei que os outros percebessem que a minha irmã mais velha tinha me apunhalado pelas costas com uma de suas garras. Em vez disso, mandei:

-Nossa, obrigada – e estiquei minha mão para apertar a do presidente.

A não ser pelo fato de eu, obviamente, ter esticado a mão direita, que estava engessada. Todo mundo riu como se fosse a piada mais hilariante do mundo, e daí o presidente apertou a minha mão esquerda, que não estava enfiada em um monte de gesso.

Daí a primeira-dama também apertou a minha mão e disse que esperava que eu e minha família nos juntássemos a ela e ao presidente para um jantar na Casa Branca algum dia destes, “quando as coisas tiverem se acalmando um pouco”, para que eles pudessem mostrar de fato seu apreço pelo que eu tinha feito.

Jantar? Na Casa Branca? Eu?

Ainda bem que, naquela hora, minha mãe assumiu o controle, dizendo que ficaríamos encantados de nos juntar à primeira-família para jantar um dia destes.
Então a primeira-dama se virou e meio que reparou em alguém parado à porta do quarto. E o rosto dela se iluminou ainda mais, e ela mandou:

-Ah, aqui está o Harry. Posso apresentar-lhe o nosso filho, Harry?

E entrou no quarto o filho do presidente, Harry.

Que por acaso também era o Harry da minha sala de desenho com a Susan Boone.

O Harry do Save Ferris. O Harry da “bota legal”.

E foi aí que eu percebi por que eu achava que já tinha visto aquele garoto em algum lugar.

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