Uma chance para amar



Na manhã seguinte Petúnia estava aérea. Se sentia mais leve que o ar. Será que isso era amar? Devia ser, pois Válter não saia de seu pensamento. Até na noite anterior tinha sonhado com ele.
No seu sonho Válter era um sapo e ela uma princesa. Quando ela o beijava ele se transformava em um lindo príncipe.
Pet não sabia o porque de estar assim. Ria sozinha. Havia sempre um sorriso bobo em sua face. Tinha devaneios constantes com Válter. Não parava de pensar na noite anterior. Se desligava do mundo, fechava os olhos e tentava se lembrar como era o toque dos seus lábios com os dele.
Era estranho. Petúnia não era novata em assuntos do coração, mas aquilo era diferente. Nenhum dos namorados que tivera a havia encantado tanto em tão pouco tempo.
Sua mudança de comportamento de garota revoltada a menina dócil chamou a atenção de seus pais logo no dia seguinte ao beijo, mais um domingo ensolarado em Los Angeles.

- Você está bem, filha? - perguntou Jeannie amavelmente durante o café da manhã.
- Hã? O que você disse? - Petúnia tinha sido pega em mais um de seus devaneios.
- Eu perguntei se você está bem.
- Por que não haveria de estar? Hoje é um belo dia de sol nessa linda cidade. Os pássaros cantam, as pessoas se aglomeram nas praias, o sol radia seu calor intenso - Petúnia falava tão alegremente, algo fora do habitual - Não há motivos para ficar triste!
- Você se encontrou com alguém ontem? - perguntou Jeannie indiscretamente, em um tom tão baixo que Jerry e Lílian que conversavam na mesma mesa não ouviram.
- Mamãe! - reprimiu Petúnia corando violentamente - Eu fui apenas a praia com a Su e umas colegas dela - mentiu a garota.
- Então como eu falei com ela ontem pelo telefone na hora que você estava na praia? - perguntou Jeannie virando literalmente a mesa e tomando o controle da situação.
- Posso saber para que você falou com Susan ontem? - perguntou Petúnia desafiadora.
- Para saber com quem você tinha saído, é lógico!
- Você me deixou sair. Eu pedi a sua permissão. E você concordou.
- Lógico que eu concordei. Mas você disse que ia sair com Susan. Então, quem é o seu amor de verão?
- Não tem amor de verão algum! Se houvesse eu não haveria por que de não te contar.
- Tudo bem. Você não quer me contar, eu entendo. Já fui jovem um dia, só que no meu tempo o namoro era no portão de casa, com meus pais olhando e apenas de mãos dadas. Só podia beijar depois que se casasse.
- Isso já faz muito tempo, mãe - disse Petúnia.
- Nem tanto tempo assim. Sua mãe ainda é muito inteirona - disse Jeannie brincando - Mas, esses bons costumes deveriam retornar a sociedade.
- Que caretice, mãe...

Petúnia queria conversar sozinha com Susan para falar sobre o encontro e de tudo o que pensava sobre Válter. Era estranho estar apaixonada. Você quer gritar para o mundo o quanto ama alguém, mas ao mesmo tempo não quer que ninguém saiba. Pelo menos com Susan ela poderia contar sobre tudo o que sentia.
Pet e Su combinaram de se encontrar numa lanchonete da região à noite para conversarem. Apesar de saber que ia falar com sua melhor amiga, Petúnia não conseguia esquecer Válter. Passou uma idéia pela cabeça de Petúnia. Era uma idéia maluca, mas não era ruim. A garota iria aproveitar que hoje sua família resolveu descansar no hotel e iria contar para Lílian sobre o encontro. No começo isso parecia estranho, mas com a idéia amadurecida ela foi conversar com sua irmã. Após o almoço, Petúnia foi para o quarto e Lílian também. Pet começou a falar:

- Eu queria te agradecer por você ter convencido a mamãe a me liberar do castigo.
- Você se mostrou minha amiga de uns tempos para cá, Pet. Eu só queria retribuir - disse Lílian carinhosamente enquanto penteava seu cabelo.
- Ontem eu me encontrei com o Válter. Você sabe, o garoto de quem eu te falei!
- Claro, claro... eu me lembro - disse Lílian - Eu já imaginava isso. Mamãe também já desconfia que você saiu com ele.
- Como você sabe? - perguntou Pet surpresa.
- Eu escutei você e a mamãe conversando durante o café da manhã. Eu ouvi tudo.
- Mas, você estava conversando com o nosso pai. Como pode ter ouvido? - perguntou ela mais surpresa ainda.
- Pet, Pet...eu sei de mais coisas do que você acha - disse Lílian sorrateiramente piscando o olho para Pet - E também sou muito mais esperta do que aparento.
- Você me surpreende cada dia mais, Lílian - falou Pet ainda espantada com a resposta da irmã - Bem, mas vamos ao que interessa. Eu quero lhe contar tudo sobre ontem. Quero que você seja minha confidente. Claro, se você assim quiser.
- Lógico que eu quero. É como você falou, somos irmãs, e a as irmãs são confidentes umas das outras - disse Lílian feliz pela confiança que a irmã depositava nela.

Petúnia achou estranho, mas não pode deixar de se sentir feliz por se abrir para alguém, mesmo que fosse com sua odiada irmã. Pensando melhor, Pet viu que sua irmã não era bem como ela pensava.

***

Assim os dias foram se passando. O beijo entre Petúnia e Válter só foi o começo. Juntos aproveitaram o verão. Cada dia até seu último raio de sol.
A amizade entre Pet e sua irmã cresceu. No início o interesse de Petúnia era apenas se aproveitar de Lílian, mas com tempo viu que ela podia ser uma boa amiga. Agora ela a via de uma maneira diferente, do mesmo jeito que aconteceu com Válter. Só que depois ela percebeu que não eram as pessoas que mudavam, e sim ela que deixava de ser uma garota mimada para ser uma pessoa carinhosa e amável.
Enquanto as semanas passavam o relacionamento foi ficando mais sério e Jeannie exigiu que Pet lhe apresentasse seu namorado.
Jeannie e Jerry marcaram de se encontrar com Válter eu um restaurante chamado Toca do Tubarão, sugestão de Jeannie que sempre queria conhecer os locais mais esquisitos de Los Angeles.
Válter tinha medo de que os pais de Pet não o achassem bom para ela e comentou isso em um dos inúmeros encontros que tiveram. Pet apenas disse que seu pai com certeza iria gostar dele, mas que era normal que sua mãe odiasse todo mundo.
Na noite do jantar Válter se arrumou impecavelmente. Não que ele fosse um largado que andasse de qualquer maneira pela rua, mas hoje ele tinha que causa uma impressão em sua sogra.
Ele já imaginava que o encontro seria no mínimo escabroso. Nunca tinha namorado sério com uma garota. Era um tanto quanto estranho estar na frente de Jerry e Jeannie naquela noite.
Quando Válter chegou pontualmente às sete, Jerry, Jeannie e Petúnia já o aguardavam. Ele os avistou e veio se sentar na mesa cumprimentando os presentes.

- Boa... boa noite - disse Válter enquanto se sentava. Seu modo de andar e falar declarava seu visível nervosismo.
- Boa noite - disse Jerry, sendo o único a cumprimentar o rapaz.

Assim que Válter sentou-se ao lado de Pet, pode ter sua primeira impressão sobre os pais da garota. Jerry não tinha uma feição estranha no rosto como se estivesse lá a contra-gosto, porém o que mais chamou sua atenção foi o comportamento de Jeannie. Com certeza ela não parecia nada feliz. Sua cara estava fechada e nem sequer deu-se ao trabalho de abrir a boca por um bom tempo.

- Então, Válter, quais são as suas reais intenções com a minha filha? - perguntou Jerry pegando Válter de surpresa. Nunca imaginou que o pai de Pet pudesse ser tão direto.
- Papai! - disse Pet recriminando seu pai - Contenha-se!

Válter apenas deu um sorrisinho bobo e comentou:

- Er... talvez fosse melhor nos pedirmos o jantar primeiro - falou acanhado. Com certeza o clima naquela mesa não era nada confortável. Aliás, aquela noite em si já caminhava para ser um total desastre.
- Talvez - disse Jerry fechando a cara - Ou talvez você queira me enrolar!
- Não - disse Válter surpreso com o comportamento de Jerry - É só que eu estou com fome.

Jerry chamou uma garçonete que veio rapidamente deslizando em seus patins.

- Boa noite senhores. O que vão querer? - disse ela com um sorriso forçado no rosto.
- Podemos ver o menu? - perguntou Jeannie falando a última palavra com um forte sotaque francês.
- Er... Minha senhora, aqui é uma lanchonete.
- Então o que esse espelunca tem? - disse Jeannie irada com o atendimento daquela reles garçonete. Válter se assustou com a agressividade de sua futura sogra.
- Hambúrgueres, cheeseburguers, cachorro quente... - falou a garçonete ainda exibindo um sorriso.
- Já deu para entender, minha filha - disse Jeannie - Traz qualquer coisa. E rápido...
- Eu vou querer um cheeseburguer - disse Pet.
- Para mim um cachorro-quente - disse Jerry.
- E o senhor? - perguntou a garçonete a Válter enquanto anotava os outros pedidos.
- Nada - disse Válter simplesmente.
- Nada? - perguntou a garçonete surpresa.
- É, minha filha! Qual parte do "nada" você não entendeu? N-A-D-A - disse Jeannie para a garçonete.
- E para acompanhar, querem o que? - perguntou a garçonete.
- Quatro refrigerantes - disse Jerry.
- Para mim diet - disse Pet.
- Para mim também diet - falou Jeannie - Que é? - perguntou ela quando Jerry a encarou - Preciso manter meu corpinho!
- Para mim água - disse Válter.
- Água? - perguntou a garçonete novamente surpresa.
- De novo, minha filha? Será que você é tão lerda a ponto de não entender o que seja água? - perguntou Jeannie nada educadamente.
- Já vou providenciar - disse a garçonete dando meia volta querendo sair o mais rápido possível de perto desse malucos.

Jeannie não demorou muito para soltar uma das suas:

- Do jeito que ela é lerda nós só comeremos amanhã - comentou.

Realmente o pedido demorou para chegar. Válter amaldiçoava mentalmente a garçonete já que queria que a noite terminasse o quanto antes. Não era fácil escapar de perguntas como "o que você quer com nossa menininha?" ou "por que você quer namorar sendo tão jovem?", mas no final até que ele se saiu bem.
Quando acabaram de jantar, Jerry falou francamente com Válter.

- Você não me parece ser má pessoa, e se Petúnia gosta de você então eu acho que vocês podem namorar - disse ele seriamente. Válter agora estava aliviado, surpreso e feliz. Nunca achou que os pais de Pet deixariam alguém como ele namorar sua filha.
- Eu não vou decepcioná-lo - disse Válter cumprimentando a mão de Jerry. Petúnia sorria discretamente se sentindo imensamente feliz. Jeannie, apesar de tudo, não foi contra o namoro e até ficou contente pelos dois.
- Espero que não, ou você vai se ver comigo - disse Jerry também rindo.

Depois dos pais de Pet conhecerem Válter o namoro já podia ser considerado oficial. Eles eram namorados. Tinham um compromisso. Um relacionamento. Entretanto, mais importante do que as formalidades, era o fato de eles se amarem.
Mas apesar disso Petúnia tinha suas preocupações. Ela não queria admitir, mas aquilo não poderia passar de um tórrido romance de verão. Ela iria voltar para a Inglaterra assim que acabasse o verão, e ele iria continuar na América. Estariam separados por um imenso oceano. Sempre que Válter tocava no assunto Pet dizia que não era para pensarem nisso agora por que tinham muito tempo. Só que os dias passaram mais rápido do que ela imaginava e agora não sabia o que fazer.
Outra coisa que a preocupou durante muito tempo foi o fato de Válter ter mentido para ela quando se encontraram pela primeira vez. Pet sabia que era bobagem se preocupar com isso mais odiava ser enganada. Chegou até a pensar em perguntar a Válter sobre isso, mas desistiu por que não queria que brigassem e ela estragasse o relacionamento tão lindo que estavam tendo. Algo mais estranho e no mínimo um tanto quanto curioso era o fato de que Petúnia não conhecia os pais de Válter. Enquanto ele já tinha falado com os pais dela e até tinha jantado com eles, ela ainda nem sabia quem eles eram. Pet o questionou várias vezes sobre esse assunto e ele apenas respondeu com evasivas de que seus pais trabalhavam muito e não tinham tempo para a conhecerem. Susan disse também que não sabia muitas coisas sobre os pais dele a não ser que eram médicos e que nunca estavam em casa. Ela não sabia qualquer coisa a mais sobre ele. Nunca foi na casa dele e ele também nunca falava sobre sua família. Ele era um mistério a ser descoberto. Uma incógnita a ser revelada.
Esse mistério reinou durante muito tempo. Até que na penúltima semana das férias de verão Válter contou seu grande segredo enquanto ele a levava para o hotel depois de assistirem um filme no cinema.

- Pet, eu tenho algo para lhe revelar - disse Válter em um tom sério enquanto caminhavam pela calçada.
- O que foi, Val? - perguntou Petúnia curiosa.
- Sabe quando nós nos encontramos pela primeira vez? - Pet já sabia do que ele ia falar. Com certeza era sobre a mentira que ele contara e sobre todo o segredo que envolvia o rapaz. Finalmente ela saberia o por que de ele ter mentido para ela.
- Eu me lembro bem, foi quando eu comecei a te olhar de um jeito diferente. Nós estávamos naquela lanchonete, com quase ninguém ali, e você me mostrou o quanto poderia ser amável.
- Eu...eu... - Válter não conseguia dizer o que queria. Sentia suas mãos frias, seu corpo tremendo, seu estômago revirando-se dentro de si, nunca estivera tão nervoso assim.
- O quê é que você quer dizer? - perguntou Pet já sabendo sobre o que tratava.
- EU MENTI PARA VOCÊ! - gritou ele despejando diretamente tudo o que queria falar - Eu menti para você. Eu não tenho um tio que mora em Nova Iorque. Era mentira. Eu trabalhava no hotel. Eu sou pobre. Moro numa casa humilde e nunca quis que você soubesse disso por que eu achava que você ia me odiar pelo fato de eu não ter dinheiro.
- Eu já sabia que você estava mentindo! Porque você mente muito mal! Só que eu nunca poderia imaginar que fosse algo tão sério! Eu não ligaria se você tivesse me dito a verdade, mas por que mentiu para mim? Será que é tão fraco que não consegue agüentar a verdade? - disse ela gritando enquanto algumas poucas pessoas que estavam na rua os olhavam com certa curiosidade.
- Até parece! Você diz isso agora para se fazer de boazinha, mas você nunca ia sair comigo se soubesse que eu era pobre! Por que você é uma garota mimada pelos seus pais e que sempre teve tudo o que quis!
- E do que adiantou mentir, Válter Dursley? Adiantou alguma coisa? Você só quis brincar comigo! Deve ser assim com todas as garotas! Eu só sou mais uma na sua lista! Eu vou me embora e nunca mais me procure - gritou ela enquanto dava as costas para ele e caminhava na direção do hotel.
- Espere, Petúnia - disse ele a segurando pelo braço.
- Me solta seu mentiroso - disse ela enquanto soltava-se e caminhava decidida a esquecer Válter. Ele, sem nada mais a fazer, apenas ficou parado a observando ir embora.

Depois da briga que tiveram, Petúnia transformou-se em outra pessoa. Passou dois dias chorando no quarto sendo consolada por sua irmã que agora era sua melhor amiga. Pet sentia um ódio profundo por Válter tê-la enganado durante quase dois meses. Aquilo era muito sério. Se fosse uma mentira inocente ela até poderia relevar ou esquecer, mas o assunto em questão era muito grave. Esconder dela que era pobre e depois ainda dizer que se tivesse dito a verdade ela nunca gostaria dele foi um insulto. Ela não era uma garota fútil. Ou melhor, era. Só que quando o conheceu deixou de ser.
Pet pensou melhor. Talvez Válter tivesse um pouco de razão. Ela era fútil. Uma garota mimada e nojenta. Com certeza se soubesse na época que o garoto era pobre nunca sairia com ele. Se ele nunca houvesse mentido os dois nunca se conheceriam e ela não poderia viver momentos tão maravilhosos quanto os que viveu com ele.
Aquela mentira a fez deixar de ser uma menina mimada para ser uma pessoa mais madura e conhecedora da vida. E ao contrario do que dizem, nesse caso, os fins justificam os meios.
Pet ficou tentada em voltar para Válter. Se sentia sozinha e desprotegida, mas com ele ela se sentia completa e iluminada. Isso era o amor. Apesar de que ela sabia que não podia confiar totalmente em Válter, procurou entender os motivos dele.
Ela só viu o quanto gostava dele quando o perdeu. Isso não podia ficar assim. Por mais que ele tivesse mentido, ela não podia mais viver sem ele. Era como se fosse o ar dela. Graças a ele, ela teve os dois meses mais felizes de sua vida e não queria que isso ficasse apenas na lembrança. Não queria perdê-lo. Precisava dele. Precisava sentir o cheiro dele. Precisava sentir os lábios dele nos seus. Não ia ficar se lamentando pelo resto da vida por uma decisão errada. Pet finalmente decidiu dar uma nova chance ao amor.

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