Curativos



Capítulo VI
Curativos

Cygnus engoliu o pouco orgulho que lhe restava e aceitou a ajuda de Eric para se levantar.
-Você não precisa me chamar pelo sobrenome, pode me chamar de Cygnus. - ele falou, olhando nos olhos do príncipe. Foi a única coisa que conseguiu formular, depois de ter sido humilhado daquele jeito.
Eric assentiu, entendo aquilo como um pedido de desculpas do outro, que o havia subestimando tanto.
-Bem, acho que foi o bastante por hoje. - Cygnus continuou, tentando fixar o olhar em algum ponto na parede e não nos presentes. - Vamos continuar as aulas práticas amanhã, no mesmo horário. Vejo vocês no jantar.
Cygnus nem esperou o príncipe concordar, seguindo para o seu quarto o mais rápido que podia sem parecer que estava correndo. Ainda pôde, no entanto, ouvir, Jack e Noah perguntando a Eric o que havia acontecido dentro da sala. Ele não chegou muito longe antes de ser alcançado por Stella e Lyra.
-O que foi aquilo, Cygnus?O que, diabos, aconteceu lá dentro?- sua irmã perguntou, embora já tivesse uma idéia bem clara do que havia acontecido.
-Não se faça de sonsa, maninha. Você sabe o que aconteceu. Não vou ficar repetindo somente para agradá-la.
-Cygnus, você está bem?- Lyra perguntou, honestamente preocupada com os ferimentos do primo, que pareciam bem feios. A camisa branca estava rasgada em vários lugares, onde começavam surgir hematomas roxos. Ela imaginava que o resto do corpo do primo não estivesse muito diferente, já que ele havia sido jogado contra a porta e depois contra a parede.
-Estou bem, sim, ruiva. Não se preocupe. - ele respondeu, sorrindo para a prima. - Vou estar novo em folha no jantar, espere só. Agora vou para o meu quarto.
Cygnus deixou as duas sozinhas no corredor e continuou seu caminho, chegando ao quarto rapidamente, e fechando em seguida a porta com um feitiço. Tirou a blusa e olhou-se no espelho, o corpo, tão bem trabalhado, estava quase todo roxo, por causa do baque com a porta.
Ao contrário do que ele falara para a prima, não tinha certeza que ia se sentir muito melhor no jantar, se pelo menos tivesse alguma daquelas misturas, ungüentos...
-Cygnus, você pode abrir a porta?- ele ouviu a bela voz que vinha do outro lado, enquanto a moça tentava abrir a porta, que estava devidamente trancada.
-Não. - ele respondeu, curto e seco.
-Então vou arrombar, ouviu?
-Arrombe. Eu não ligo. - ele falou, sem se importar com o que a garota faria.
Ele ouviu Persephone suspirar do outro lado. Ela não cumpriu exatamente a ameaça, invés de arrombar a porta, ela simplesmente lançou um feitiço e abriu a porta, entrando e fechando-a rapidamente em seguida.
-Por Merlin, ninguém tem mais privacidade nessa casa?!- ele reclamou, indo sentar-se na cama.
Ela não se importou, sabia que ele só estava tentando brigar com ela por causa do hã, evento.
-Por Merlin digo eu. Você está horrível. - O que era verdade, Cygnus não parecia nada bem com o corpo todo roxo. Mas ela não pôde deixar de perceber que ainda sim ele parecia atraente, com aquele corpo perfeito. Ele chegou mais perto e sentou na beirada da cama. - Você devia ter chamado um medi-bruxo para vê-lo.
-Besteira, eu posso muito bem cuidar de alguns arranhões.
Ela suspirou. Por que todos os Black tinham que ser tão teimosos?!
-Deixe pelo menos eu dar uma olhada, você sabe que eu sou boa cuidando de ferimentos. - Ele fez um movimento com a mão para tentar impedi-la, mas acabou cedendo, ela pelo menos cuidaria daquilo bem melhor do que ele.
-Exatamente como eu pensava. - ela murmurou. - O ungüento que eu trouxe vai deixar você novo em folha.
-Como você pensava?- ele perguntou sarcástico. - Stella não conta nada pela metade, não é?
Ela sorriu. - Não fale assim da sua irmã. Ela me contou e me descreveu seus ferimentos sim, e tudo é para o seu bem.
-Ah, sim, e pra completar todo o castelo já sabe como eu fui humilhado por aquele anormal...
-Cygnus, não vou discutir com você. Se isso aconteceu foi somente porque você não o tratou com o respeito que todo e qualquer adversário merece. Agora, deite-se. - ela falou séria. E ele, a esteve escutando com atenção, levantou a sobrancelha e lançou um olhar debochado à tia.
-Tia, por mais que eu quisesse e eu quero, não acho que esse seja o melhor momento para...
-Cygnus, pare de falar e deite. Preciso passar o remédio nas suas costas, elas estão horríveis. - ela continuou série, não querendo responder às brincadeiras dele.
Cygnus pareceu desapontado por um instante, mas fez o que ela mandou. Ela aplicou o remédio devagar, com cuidado, e ele rapidamente começou a relaxar. No entanto, ele sabia que a sensação de relaxamento não tinha nada a ver com o que quer que ela estivesse aplicando, mas simplesmente por causa daquelas mãos, aquelas mãos fazendo mágica...
-Então, você vai me contar o que houve?- ela perguntou quando percebeu que ele havia relaxado.
-Você não deixa nada barato, né tia?Sabia que você ia perguntar isso, Perse...
Ela sorriu.
-Então conte, oras.
-Bem, tudo começou, quando...
“-Segure a varinha direito, Eric.
A voz de Cygnus, embora soasse amigável para qualquer estranho, na verdade tinha um quê de desdém óbvio para quem o conhecia.
O que não era o caso de Eric, diga-se de passagem.
- Eu estou tentando.
O primogênito dos Black teve de fazer um esforço para não rir da cara do príncipe. Ou então, lhe azarar de vez.
Eric segurava a varinha como quem segurava um bastão que estivesse incendiando próximo a mão, e pudesse lhe queimar a qualquer instante. Se era insegurança ou pura falta de jeito, era o que Cygnus gostaria de descobrir.
-Então tente não segurá-la como se fosse explodir a qualquer instante. Seria um bom começo. - Ele estendeu o braço na direção do príncipe para que ele pudesse ver bem -Observe o modo como eu seguro, e faça ao menos parecido.
-Isso é mais difícil de segurar da maneira correta do que uma espada, embora seja menor. - Eric admitiu baixinho.
Um sorriso macabro percorreu levemente os lábios de Cygnus, quando ele falou.
-E mais perigosa, também.
-O que você quer dizer com isso?
Os olhos azuis do príncipe brilharam em alerta, ao mesmo tempo que erguia a sobrancelha.
-Um feitiço, quando bem usado, vossa Alteza, pode salvar a sua vida. Mas também, pode causar a mais profunda dor, dar a você controle total sobre seu inimigo, ou até mesmo... -o sorriso macabro aumentou -destruir a vida dele num instante.
A voz de Eric saiu cuidadosa.
-Por que está me dizendo isso?
-Apenas para te dar noção do que o objeto em suas mãos pode fazer.
Mas o sorriso de Cygnus sugeria algo além disso.
-Agradeço a informação, então. – Eric murmurou, tentando parecer cordial, encarando-o firmemente. Cygnus o observou, um tanto quanto surpreso.
Aparentemente, o rapaz não se intimidara nem um pouco e, de certo modo, ele não gostara disso.
-Pelo que eu já havia lido, realmente a magia é bem abrangente, mas eu devia ter imaginado que, assim como todos os outros homens, o instinto de sobrevivência também impera por aqui, ou melhor, o instinto de matar. – comentou seriamente. – E agora, estou segurando certo? – completou, erguendo a varinha calmamente.
Cygnus franziu o cenho e apenas assentiu, notando que a capacidade de aprendizado do príncipe, aparentemente, era visual, pois o mesmo o observara por um breve período antes de estar segurando a varinha com tanta exatidão. Como ele segurava.
Algo lhe dizia que ele não ia gostar nem um pouco disso.
-E então? – Eric comentou, um tanto quanto disposto. – O que é para fazer agora?
Cygnus suspirou calmamente.
-Bom, irei te ensinar a execução de alguns feitiços simples. – falou num tom ligeiramente formal. – E depois... veremos. – ele sorriu meio de lado.”
-E...? – a voz de Persephone ecoou pelo recinto tão logo a de Cygnus silenciara. O rapaz deixou escapar um leve ruído de dor, quando as mãos da mulher pressionaram de leve o ungüento sobre os hematomas.
-Perse, eu estou cansado... – ele comentou num resmungo.
-Oras, vamos, Cygnus, eu não te pedi para contar tudo desde o começo. – ela inclinou-se um pouco sobre ele, a fim de encarar o rosto que estava ligeiramente enterrado na cama. – Você vai me deixar a desejar? – ela sentiu vontade de rir quando notou que o rapaz prendera a respiração.
-Eu só ensinei alguns feitiços a ele, como o de proteção, alguns feitiços de ataque e sugeri uma aula mais prática. – ele comentou num tom rouco. Aparentemente o fato de ela estar com o corpo debruçado sobre o seu imperava diante da dor que isso lhe causava. – Como o rapaz tem um grande senso de observação, ele começou a me imitar nos feitiços que eu lançava para ele. – ele fez um ruído muito estranho com a boca, como se irritado por continuar a prosseguir com esse fato completamente humilhante. – E também, devo confessar... – ele pigarreou. – aquele idiota é muito ágil; não era muito difícil para ele desviar dos meus ataques.
-E depois, Cygnus? – ela comentou num tom ligeiramente risonho ao notar que ele parara de falar novamente.
Ele soltou um resmungo.
-Numa dessas ocasiões, eu não consegui desviar a tempo do feitiço que ele me lançou. E o resultado foi esse.
-Talvez, você esteja perdendo o jeito, sobrinho. – ela comentou num sussurro.
-Eu jamais perco o jeito, tia Perse. – ele comentou num tom ligeiramente malicioso.
-Mesmo? – ela se afastou dele com um meio sorriso. – Eu só acredito vendo. Cygnus.
Num gesto um pouco ágil para quem estava com o corpo todo roxo, Cygnus inverteu sua posição, deitando-se de frente para Persephone. Ela sentiu-se ser puxada para perto do rapaz rapidamente, ficando completamente debruçada sobre o tronco dele. Cygnus lhe lançou um sorriso meio sacana ao notar que a respiração dela estava descompassada; seu peito arfava.
-Por que você sempre me provoca dessa forma, hein, Perse? – ele comentou num tom completamente rouco, ao que ela sentiu um calor percorrer por todo o seu corpo quando se seguiu o fato dele apertá-la mais contra si, suas mãos segurando-lhe firmemente pela cintura.
-Cygnus, você pode piorar... – ela comentou num resquício de sensatez que lhe restava.
-Eu não ligo, Persephone. – ela sentiu um leve tremor quando sentiu os lábios dele roçarem de leve os seus, provocando-a. Conteve um suspiro.
-Cygnus, me solta, senão eu vou gritar. – ela comentou, mas em lugar do tom de ameaça que queria expressar, sua voz não passou de um sussurro rouco.
O rapaz riu e a largou calmamente. Persephone pareceu frustrada e ao mesmo tempo satisfeita quando levantou o corpo do tronco do rapaz e respirou profundamente, antes de esboçar um sorriso debochado.
-Eu disse, Cygnus, você está perdendo o jeito. – ela comentou. Era algo involuntário provocar aquele rapaz. Ela simplesmente não era capaz de impedir isso.
-Não, tia Perse, apenas não gosto de fazer certas coisas com platéia. – ele sorriu meio de lado e ela notou que ele lançava um olhar especial para a porta.
Persephone virou o rosto calmamente a fim de encarar a pessoa que, agora, estava parada no vão, observando-os seriamente.
A feição meio intrigada de Lynx deu lugar a uma ligeiramente maliciosa enquanto ela lançava um olhar meio vago para o irmão e depois para tia.
-Atrapalhei algo? – perguntou num tom inocente, mas depois arqueou a sobrancelha ao notar alguns hematomas sobre o corpo do irmão. – Céus, o que houve com você, Cygnus?
O rapaz esboçou uma nítida careta quanto ao fato e Persephone se controlou para não rir.
-Mas que diabos, será que toda pessoa nessa casa vai ficar me perguntando isso?
-Desculpe se eu sou sua irmã e, apesar de você não merecer, eu me preocupo um pouco com você. – ela comentou num tom irônico, adentrando o quarto e fechando a porta ao passar. – O que houve?
-Não me diga que você não soube. – ele resmungou, irritado. – Todo o castelo já deve saber agora.
Lynx não comentou nada, mas pelo breve sorrir que ela deixou escapar, Persephone soube que ela já estava ciente do fato.
-Acho que ser derrotado por um sangue-ruim vai ser bom para você, Cygnus. – Lynx comentou calmamente, esboçando um meio sorriso. – Pelo menos isso serviu para amansar um pouco o grande ego e orgulho que você carrega dentro de si. – completou, sentando-se num jeito meio moleque em cima da cama do irmão, ocupando o lado oposto ao que Persephone ocupava. – Você sabe quem vem jantar hoje aqui, Perse?
-Mas por que diabos você está vestida de homem, Lynx? – o irmão comentou num tom de desaprovação, antes mesmo que Persephone se pronunciasse, enquanto ela tirava o chapéu. – Eu estou começando a achar que você tomou gosto pela coisa e deseja ser um homem.
Persephone riu e meneou a cabeça quando Lynx sorriu radiante.
-Bem, essa é a intenção. – ela gargalhou ao ver a feição incrédula e de asco que o irmão exibiu. – Deixa de ser idiota, Cygnus. É claro que não é isso. – ela começou a desfazer a trança que prendia o cabelo calmamente. – Eu estou proibida de sair do quarto, esqueceu? – ela sorriu meio de lado. – Isso, de certa forma, é um disfarce.
-É; e onde você estava? – ele perguntou num tom irritado e desconfiado. Não gostava muito da idéia da sua irmã saindo por aí, sozinha. – Por acaso tem um amante?
Ela careteou, seus olhos gris ficando ligeiramente escuros.
-Não me ofenda dessa maneira, Cygnus. – ela comentou num tom sério.
-Ela só foi cavalgar com a Betel, Cygnus. – Persephone se manifestou na conversa, ao que teve a atenção de Cygnus desviada para ela.
-E elas foram para onde?
-Céus, Cygnus, para de bancar o irmão ciumento. – Perse murmurou num revirar de olhos, jogando um ungüento em cima do peito do rapaz num gesto emburrado. O rapaz gemeu de leve.
-Essa porcaria dói, sabia? – ele resmungou, ao que Lynx riu. – E como você está conseguindo sair do quarto, Lynx?
-Tenho os meus meios, Cygnus, você acha mesmo que eu vou te contar para você dizer ao papai? – ela falou num tom entre divertimento e aborrecimento. – Tia Perse, você sabe se algum pretendente vem hoje aqui?
-Não sei, Lynce, sua mãe não quer me dizer. – ela suspirou. – Por que você está perguntando isso?
-Isso tudo é muito estranho. Ela me deixou sair para jantar hoje.
-Talvez por que a Lyra e seus tios vieram nos fazer uma visita.
-Sério? – ela comentou num sorriso. – Espero que seja só isso mesmo. – murmurou seriamente.
-O que você está tramando, Lynx? – Cygnus comentou, desconfiado, visto que a irmã tinha um ar muito distante.
-O que eu vou tramar, Cygnus. – ela corrigiu, sorrindo. – O que eu vou tramar se a mamãe trouxer mais um pretendente para mim. – ela se levantou da cama num pulo e deu um beijo estalado na testa do irmão. – Vejo vocês mais tarde.
Cygnus lançou um olhar especial a Perse quando a irmã saiu do quarto.
-Eu não faço a menor idéia do que ela pode fazer. – ela retirou o ungüento do peito do rapaz e sorriu um pouco. – Se sente melhor? – ele assentiu, ao que ela prosseguiu. – Então, acho que meu trabalho acabou por aqui, melhor você se arrumar, nós vamos jantar daqui a pouco. – ela se levantou graciosamente da cama e começou a se afastar.
-Perse? – Cygnus o chamou depois de um tempo. Ela parou de andar e virou-se para ele, meio intrigada. – Hum, obrigado.
A mulher sorriu em resposta e saiu do quarto, fechando a porta silenciosamente ao passar.

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