Rony e Hermione



Prólogo

Procurando fazer o menor barulho possível, Harry abriu a janela de seu quarto e escorregou para fora de casa com sua Firebolt debaixo do braço. Caiu de joelhos com um baque seco. Limpou a calça resmungando, e após recompor-se, passou as pernas por cima do braço de sua vassoura. Um impulso e estava no ar, o vento castigando seus cabelos. Aquela velha sensação de liberdade que ele tanto sentia falta quando estava de férias da escola.

Era muito tarde, e não havia ninguém nas redondezas da rua dos Alfeneiros. E, de qualquer forma, a escuridão era forte o bastante para protegê-lo de olhares indesejados. Como odiava o tédio das férias... E essas, mais do que nunca, estavam sendo praticamente insuportáveis. Quanta coisa mudara nele em apenas um ano e meio! Tantas descobertas, tantas surpresas... tanta dúvida.

Lembrava-se claramente do dia em que acontecera, e ainda podia sentir o gosto dos lábios dela nos seus. A sensação... o perfume... Como poderia esquecer?

Era inverno, e os terrenos de Hogwarts estavam cobertos de neve fofa. Fazia mais frio do que os outros anos, e por conta disso muito gente estava pegando resfriados. Rony foi uma dessas pessoas. Repousando na ala hospitalar, ele resmungava constantemente que não agüentava mais tomar sopa de legumes. Hermione, como sempre, ralhava com ele.

- É bom para a sua saúde. E não faça essa careta, está parecendo um bebê mandrágora - ela falava, e Harry apenas ria.

Eles estavam voltando de uma visita à Rony na ala hospitalar, e Hermione sugeriu que fossem tomar um pouco de ar nos jardins. Havia muita gente lá fora, brincando com bonecos e bolas de neve. Harry, no entanto, não estava muito animado para esse tipo de coisa. Achava que estava pegando a gripe de Rony, pois seu nariz estava começando a escorrer. Mas Hermione insistiu tanto que ele acabou cedendo.

E lá estavam os dois, caminhando pelos jardins. Mione não estava muito bem agasalhada, e Harry sentiu-se na obrigação de oferecer-lhe seu casaco.

- Oh, não precisa! - ela exclamou apressada, e então completou corando - Mas se você quiser passar os braços ao redor dos meus ombros... assim... eu fico muito grata.

Harry tinha certeza de que nunca se sentira tão quente e subitamente envergonhado antes. Caminhar com seu corpo tão colado de Hermione não era algo que ele fazia todo dia, e seu corpo estava reagindo muito rapidamente àquele contato; Harry até achava que poderia ter tirado o casaco sem se preocupar em sentir frio.

A atitude dos dois atraia olhares curiosos de várias pessoas, o que deixava Harry ainda mais incomodado. Eles foram até a cabana de Hagrid no intuito de beber um chocolate quente, mas o guarda-caça não estava em casa. Com um suspiro, eles se sentaram no degrau da cabana do bruxo e ficaram observando o movimento em silêncio. Hermione estava enganchada em seu braço, o corpo muito colado no seu.

- Se eu pegar uma pneumonia, a culpa será toda sua - Harry disse, quebrando o silêncio.

- Você não vai pegar - riu Hermione.

- Ah, vou sim. E você vai se sentir culpada por toda a eternidade por ser a responsável pelo meu sofrimento - Harry falou dramático.

Hermione ergueu uma sobrancelha.
- Não seja exagerado. Está parecendo o Malfoy...

- O quê?! - exclamou Harry ofendidíssimo, afastando-se de Mione com um pulo. Ela riu ainda mais.

- Não seja tão bobão, Harry! - ela disse, puxando-o para junto dela outra vez. Dessa vez, Mione encostou a cabeça em seu ombro.

Harry mordeu os lábios, confuso sobre o que estava acontecendo e com o que deveria fazer. Então começou a brincar com os cachos do cabelo da garota, sentindo como se fosse a primeira vez que andava com Hermione. Ele remexeu-se, incomodado. Aquilo não podia estar certo.

- O que foi? - perguntou Hermione.

Harry a encarou, e ela segurou o olhar com alguma relutância.

- Eu acho que você deveria me dizer... O que, exatamente, está acontecendo entre nós agora - ele disse, e percebeu a respiração de Mione falhar momentaneamente.

E então, antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo, ela puxou-o pela gravata e colou seus lábios nos dele. Harry, os olhos arregalados, sentiu seu corpo pegar fogo.

Tão rápido como aconteceu, terminou, e Mione levantou-se escarlate murmurando um "Sinto muito" e correndo para longe de um Harry completamente sem reação.

Harry lembrava-se disso, agora, do mesmo modo que vinha fazendo desde que aquele beijo acontecera.

Deitado num dos telhados idênticos da rua dos Alfeneiros, o garoto meteu a mão no bolso do casaco e apanhou a carta que Hermione lhe entregara em mãos quando encontrara com ela no salão comunal da Grifinória, no dia em que ela o beijara. E pela milésima vez Harry leu as linhas que a garota lhe escrevera... e que ele nunca respondera.

Eu não faço a menor idéia de como começar essa carta, e já estou há um tempo considerável encarando esse pergaminho em branco. "Caro Harry"? Muito formal... "Querido Harry"? Muito... próximo. E eu não tenho certeza de qual é o vocativo mais adequado para essa situação. Então vamos pular essa parte, está bem?

Tenho certeza de que você está muito confuso com tudo isso. É minha culpa, claro. Eu deveria ter lhe contado antes... Muito antes...

Quando meus sentimentos por você começaram a mudar? Nem eu sei. De repente eu acordei e percebi que você era muito mais especial para mim do que um simples amigo, e eu fiquei apavorada com essa idéia. Mas acho que você nunca percebeu nada, não é?

O fato, Harry, é que eu não posso mais esconder o que sinto por você. Eu gosto muito, muito de você. E estou tremendo agora, porque estou apavorada com a idéia de que você estará lendo essas palavras em algumas horas.

Estarei esperando por você na Torre de Astronomia essa noite... E então você poderá me dizer se existe alguma chance de nós dois, você sabe, darmos certo.

Um beijo,
Mione.


Harry suspirou e guardou novamente o pergaminho. "Estarei esperando por você na Torre de Astronomia essa noite". E ela ficou esperando, porque Harry simplesmente não apareceu. Covardia? Talvez. Mas estava muito confuso e, sinceramente, não queria encontrar com Mione tão cedo.

Ele imaginou que as coisas fossem ficar decididamente estranhas depois daquilo, mas se enganou. Hermione simplesmente agiu como se nada tivesse acontecido, e nunca mais tocou no assunto com ele. Harry sabia que ela interpretara a sua ausência como uma resposta negativa, e sentia uma pontada de culpa sempre que pensava nisso.

Mas achava que tinha feito a coisa certa, pois não valia a pena arriscar uma amizade de tantos anos por um sentimento que ele sequer tinha certeza qual era... Valia?

Então por quê sempre sentia um arrepio quente percorrer seu corpo cada vez que lembrava do beijo que Hermione lhe roubara...? Harry achava que nunca teria a resposta para essa pergunta.

Estava enganado.

Capítulo 1

A luz do sol entrava pela janela escancarada do quarto e feria seus olhos, despertando seus sentidos. O garoto sentou-se na cama, esfregando os olhos. Estava realmente muito cedo para se acordar numa manhã de sábado, levando-se em consideração o fato de que estava de férias.

É claro que Harry não tinha o costume de deixar a janela aberta durante a noite. Aquela era uma estratégia que utilizava quando precisava acordar muito cedo no dia seguinte, já que não podia contar com um despertador. E esse era um desses dias. Harry combinara de encontrar com Rony e Hermione no Beco Diagonal, onde compraria o material que precisaria para cursar o sétimo ano em Hogwarts e, em seguida, iria com eles para a Toca.

Com esses pensamentos alegres na cabeça, Harry levantou-se de um pulo e cambaleou até o banheiro. Mergulhou o rosto nas mãos em concha cheias de água, e encarou seu reflexo no espelho. Concluiu, com um suspiro, que seu cabelo estava medonho. Tentou dar uma melhorada na sua aparência com as mãos, sem muito sucesso. Conformado, o garoto voltou ao quarto para trocar de roupa.

Vestiu um de seus jeans velhos e largos, uma camiseta vermelha desbotada e seu casaco da escola (era o melhor que tinha). Então apanhou seu malão, que já arrumara na noite anterior, e desceu as escadas o mais silenciosamente possível. Não estava interessado em arranjar problemas com os Dursley aquela hora da manhã.

Após uma passada na cozinha para encher os bolsos do casaco e da calça com biscoitos secos de fibra (era só o que Duda comia, ultimamente), Harry deixou a casa e caminhou sem pressa para a estação de trem. Era uma caminhada um pouco longa, mas o garoto tinha tempo folgado para isso. Os amigos só chegariam no Beco Diagonal depois do almoço, provavelmente por volta das 13h, Harry calculava.

Em sua caminhada até a estação de trem, Harry observou a cidade começar a despertar lentamente para o novo dia. Pouco antes das 9 horas, o garoto já estava sentado no banco da plataforma do trem para Londres, a passagem em mãos. Mordiscava alguns dos biscoitos de fibra, imaginando como Duda podia gostar tanto daquela porcaria sem gosto.

A viagem até Londres foi tranqüila. Não havia muita gente no trem, de modo que Harry pôde pegar um vagão inteiro para si. Tentou ler um pouco de Quadribol Através dos Séculos, mas percebeu que forçar a vista num veículo em movimento fazia sua cabeça latejar. Acabou cochilando durante a maior parte da viagem. Estava muito cansado, pois fora dormir bastante tarde e tivera que acordar mais cedo do que o normal.

Harry despertou com o ruído do trem chegando na estação. Venceu a distância até o Caldeirão Furado rapidamente, e logo estava sentado em um banquinho bebendo cerveja amanteigada enquanto esperava Tom servir-lhe o prato do dia.

Depois de um almoço razoavelmente bom, Harry decidiu esticar as pernas numa caminhada pelo Beco Diagonal. Parou para admirar a vitrine da Artigos de Qualidade Para Quadribol. Havia um belo moletom dos Chudley Cannons exposto num dos manequins, e Harry imaginou se Rony já teria tomado conhecimento disso. Mas, é claro, ele não teria dinheiro para comprar. Harry pensou que talvez pudesse dar ao amigo de presente de Natal, se ele realmente gostasse.

- Ei, Harry! - a voz de Rony chamou jovialmente.

Harry se virou para a multidão, onde distinguiu Rony e Hermione caminhando sorridentes para ele.

- Oi, Rony. Mione - cumprimentou Harry, dando um beijo rápido na bochecha de Hermione e um abraço amigável em Rony. - Vocês chegaram cedo!

- Nós almoçamos por aqui mesmo - informou Rony, encolhendo os ombros. - Já estávamos no Beco Diagonal desde cedo.

Harry ergueu a sobrancelha.

- E por que não me procuraram?

- Ah - Rony começou, mas Hermione o interrompeu.

- Nós achamos que você fosse demorar mais para chegar.

Harry achou que aquela explicação não era muito convincente, mas preferiu deixar quieto. Perguntou onde eles tinham almoçado.

- No Centauro Prateado - disse Mione. - É um restaurante bem em conta que fica perto da loja da Madame Malkins. E a comida é melhor que a do Caldeirão Furado!

- Eu gosto da comida do Caldeirão - resmungou Harry, quando eles entraram na Floreios & Borrões.

Harry e Rony foram olhar os livros sobre quadribol, enquanto Hermione cuidava de achar, no meio do tumulto que estava a loja, os livros que cada um precisaria para a escola. Rony folheava emocionado A Novíssima Biografia dos Chudley Cannons, de J. P. Thomas; Harry tentava espiar por cima dos ombros do amigo, sem sucesso. Rony crescera ainda mais durante as férias, atingindo seus 1,87m. Harry continuava com seus humildes 1,74m.

Harry reparou em um grosso anel de prata que cintilava no dedo anelar do amigo. O garoto franziu o cenho, confuso.

- Desde quando você é chegado em anéis? Está parecendo até o Malfoy... - brincou o garoto, e por algum motivo o rosto de Rony ficou quase tão vermelho quanto seus cabelos.

- Depois eu... Hum... Vou te contar umas coisas que aconteceram nesse tempo em que você esteve longe - Rony disse, desviando os olhos.

Harry encolheu os ombros, e afastou-se para examinar a capa de um livro sobre os grandes times de quadribol da Grã-Bretanha. Quando se virou novamente para mostrar a Rony a página que falava dos Cannons, o amigo não estava mais lá. Bastou uma rápida olhada pela loja para que Harry localizasse Rony; Ele estava falando qualquer coisa no ouvido de Hermione, e os dois lançaram olhares estranhos para ele.

Rony e Hermione de segredinhos? Harry começou a achar que havia alguma coisa muito estranha acontecendo ali e, pela atitude dos amigos, ele provavelmente não ia gostar nem um pouco de saber.

Não levou muito tempo para que comprassem todo o material escolar. Hermione mandou que Harry e Rony fossem comprar penas e pergaminhos novos, enquanto ficava na fila do caixa da Floreios & Borrões. Depois os três se reuniram em frente à sorveteria, onde pegaram uma mesa para descansar e colocar a conversa em dia. Harry pagou sorvetes de chocolate e nozes para os três, e eles saborearam enquanto discutiam a nova medida do Ministério da Magia, que estava abrindo um concurso para auror.

- Os requisitos necessários são ser maior de idade, e ter formação escolar básica - informou Mione.

- Carlinhos queria uma vaga, mas não passou nas provas - Rony contou, encolhendo os ombros.

- Mas eu pensei que somente pessoas especialmente treinadas pudessem se tornar aurores do Ministério - Harry disse, confuso.

- E realmente era assim, Harry. Mas a situação de segurança no país está tão ameaçada que o Ministério não conseguiu achar outra solução senão treinar bruxos comuns para os cargos. E existem realmente muitas pessoas interessadas.

- Mas o papai disse que o salário dos Novos Aurores será infinitamente menor que o dos aurores realmente profissionais - falou Rony.

- É claro, mas as pessoas não estão interessadas no cargo por causa de dinheiro, Rony. Elas estão interessadas mesmo é no curso, para aprender a se defender dos servidores de Voldemort.

Rony remexeu-se incomodamente na cadeira ao som do nome do bruxo, e algumas pessoas lançaram olhares irritados aos três. Harry suspirou, sacudindo a cabeça. Certas coisas nunca mudavam.

- Acho que já é hora de irmos - disse, empurrando a cadeira.

Rony e Hermione concordaram, e após pagarem a conta eles se dirigiram ao Caldeirão Furado. Harry acertou suas contas com Tom, e o trio dirigiu-se a lareira. Rony foi primeiro, levando o malão de Harry. O garoto e Hermione ficaram sozinhos por uns momentos, se encarando.

Então Harry sorriu e fez uma reverência engraçada, estendendo a mão para Hermione:

- As damas primeiro - falou pomposamente. Mione riu, e pegou sua mão.

Poucos segundos antes de soltar a mão da garota e deixá-la partir, Harry reparou numa coisa decididamente horrível: Hermione estava usando um anel exatamente igual ao de Rony em sua mão direita.

O choque daquela descoberta foi tão grande, que Harry engasgou com as cinzas da lareira e aterrissou de cara no chão da Toca, tossindo furiosamente. Antes que ele tivesse tempo de raciocinar, a Sra. Weasley colocou-o de pé e deu-lhe um de seus abraços sufocantes, fazendo Harry desconfiar que suas costelas deviam ter sido danificadas de algum modo.

- Ah, Harry querido! É tão bom tê-lo conosco novamente! - ela disse sorridente, espanando a fuligem de seus cabelos e concertando, com um toque de varinha, os óculos que tinham se espatifado no chão.

- Com certeza é bom estar de volta, Sra. Weasley - Harry respondeu, ainda sentindo-se muito tonto.

- Harry! - exclamou Gina, descendo as escadas rapidamente para lhe cumprimentar. Ela deu-lhe um beijo na bochecha de boas vindas, e então parou para encará-lo. - Nossa, você está horrível...

- Obrigado, Gina - resmungou Harry, largando-se na primeira poltrona que viu na frente.

- Achei que você já tivesse aprendido a viajar com o Pó de Flu - riu Rony.

Ele e Hermione estavam parados perto da porta da cozinha, encarando-o de maneira divertida. Harry baixou os olhos para as mãos dos amigos, e xingou Rony intimamente por estar com as duas mãos nos bolsos. Mas o anel de Hermione estava ali, cintilando para ele.

Harry sacudiu a cabeça, horrorizado. Tinha a esperança de que tivesse se enganado, mas agora percebia que não.

- Mas não é possível... não pode ser - murmurava Harry, inconformado.

- Harry, você está passando bem? - perguntou Gina, preocupada. - Você está pálido como um Malfoy...

- Estou bem - grunhiu Harry, irritado.

Gina encolheu os ombros e correu para ajudar a Sra. Weasley na cozinha, deixando Harry, Rony e Hermione sozinhos na sala. Harry respirou fundo, e então ergueu os olhos para os dois.

- Então - disse friamente - Acho que vocês têm algo para me contar, não?

Rony e Hermione entreolharam-se.

***

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