Entrelaçados



Capítulo 9 – Entrelaçados


 


Hermione tentou abrir os olhos. Estavam pesados, mas seus ouvidos pareciam atentos. Escutava uma discussão ao longe. Pareciam vozes conhecidas: Harry e Macgonagal, talvez. Esforçou-se para sentar sem sucesso, os olhos ainda semicerrados, enquanto procurava entender onde estava e o que acontecia. Sentia uma profunda dor em todo o corpo, mas a origem parecia ser em algum lugar do estômago, como se alguém a tivesse esfaqueado e aquela urgência em procurar Voldermort parecia uma lógica ensandecida: tinha medo, nojo e desprezava Voldemort, mas alguma coisa a impulsionava a retornar ao mestre das trevas. Imaginava que talvez essa urgência assolava as pessoas drogadas. O problema das drogas era o efeito avassalador da abstinência, nela, os efeitos colaterais era aquela insuportável dor, coisa excruciante que a fazia tremer, seus lábios arroxearem e sua respiração pesar. Precisava concentrar-se com muito esforço para não sucumbir ao que sentia.


Olhou em volta. Estava a salvo no Castelo de Hogwarts, na Ala da Enfermaria. Na sala de Madame Pomfrey, cuja porta estava entreaberta, podia escutar a voz de Harry que discutia com alguns membros do ministério, entre eles, Jonas Tribes, um dementador que parecia bastante alterado:


- Você não deveria ter feito isso, Potter! Contradizer as ordens do ministério para resgatar essa garota, essa garota estúpida que pode custar nossas vidas e essa guerra!!!


- Você é o único estúpido aqui, Tribes – Harry revidava, bastante irritado – Se pensa que Voldemort nos deixaria em paz se eu não a tivesse resgatado. Acha mesmo que ele deixaria de avançar nos esforços em conquistar o mundo inteiro. Talvez a melhor coisa que tenhamos feito até agora contra ele, tenha sido exatamente resgatar Hermione. Ele adiou a sua coroação na França. Isso o abalou de certa forma....


- É.... mas a que custo? Acaso não leu as palavras de Voldemort no Profeta Diário: “Ou Hermione é entregue a ele, ou ele destruirá o Castelo de Hogwarts, o que sobrou dele do primeiro ataque, e o Ministério da Inglaterra, por ousar desobedecer suas ordens. Não vê, Potter.... não há outra alternativa a não ser entregar Granger para ele. Seja lá o que ele quer com ela, é a única coisa que pode nos poupar agora. – Esbravejou Tribes. Hermione não podia ver o que acontecia direito dentro da sala da Madame Pomfrey, mas sabia que Jonas devia estar balançando o Profeta Diário na frente dela.


- Não vou entregar Hermione a ele, por nada no mundo. Hermione vai ficar aqui. E se ele quiser pegá-la, que venha pessoalmente retirá-la de mim. Eu estarei preparado para ele, dessa vez.


- GAROTO TOLO, ESTÚPIDO! GRANGER JÁ ESTÁ MORTA, NÃO VÊ COMO ELA ESTÁ???? ELA JÁ ESTÁ MORTA, SEU IDIOTA! E VOCÊ VAI MATAR A TODOS NÓS POR UMA PAIXÃO ESTÚPIDA POR UMA GAROTA, UMA SANGUE-RUIM????


- BASTA!!! – Dessa vez, era a voz da Professora Macgonagal. – Eu entendo a sua posição Tribes. Entendo a posição do Ministério: um mal menor para o bem maior. Mas nós no Castelo Hogwarts não pensamos assim. Ninguém vai ser entregue a Voldemort sem uma grande luta antes. Se começarmos a sacrificar pessoas por medo, por sujeição, onde iremos parar???


- O ministério não vai apoiar a sua decisão!!! – falou Tribes, completamente aborrecido.


- E quando é que nos apoiou? – revidou Harry, carregado de ironia.


Depois disso, Tribes escancarou a porta e saiu da enfermaria, sem nem ao menos olhar para Hermione que, por precaução, havia fechado os olhos.


A professora caminhou para fora da sala de Madame Pomfrey e suspirou ao olhar para Hermione que mantinha os olhos fechados.


- Ah, Potter. Eu nunca entregaria Hermione, nunca a sacrificaria, você bem sabe disso! – falou a professora, com uma nota de desânimo na voz. – Mas a verdade, querido, é que nós dois sabemos que se Voldemort realmente atacar, e não há nada que o impeça de fazê-lo, dessa vez, não poderemos fugir dele. Nós morreremos todos.


- Sei disso, professora – falou Harry, nervoso e preocupado. – E não espero que ninguém fique no Castelo, esperando a morte. Organize a fuga para Hogsmeade. Vá com os estudantes, os que restaram em Hogwarts e salve sua vida, Professora. Talvez a senhora, ou outro da ordem da Fênix, consiga encontrar alguma alternativa para a situação em que nos encontramos. Eu, contudo, vou fazer o que devia ter feito a muito tempo antes. Ficar e enfrentar Voldemort.


- Harry... podemos tentar resistir mais uma vez.... – falou a professora.


- Não. Isso não funcionou antes, quando éramos muitos. Agora que somos poucos e enfraquecidos, um ataque seria muito pior e fatal para todos.


- Mas Harry...


- Faça isso, professora. O prazo que Voldemort deu no Profeta Diário foi vinte quatro horas que acabarão daqui a duas horas. Não há mais o que fazer. Fuja... quem sabe terei sorte ao enfrentar o Lord das Trevas. Quem sabe não o derroto?


- Ah, Potter...


- Sempre precisamos ter fé, Professora... fé e esperança.....


 


Harry aproximou-se de Hermione que ainda mantinha os olhos fechados, apesar de agora estar completamente acordada e alerta, enquanto a professora Minerva abandonava a enfermaria. Com aquilo tudo, Hermione não sabia o que pensar, mas não podia simplesmente ficar parada e assistir Harry se matar ao tentar enfrentar Voldemort por causa dela. Hermione tinha que fazer algo, mas o que?


- Eu senti muito a sua falta, Hermione. – Falou Harry, segurando a sua mão e a acariciando com a ponta dos dedos. Para ele, ela ainda dormia tranquilamente. E Hermione fingia com todas as forças, apesar de sentir aquela dor excruciante consumindo-a por dentro. – Não sabe o quanto você significa para mim, Mione. Nem mesmo eu sabia, até aquele dia em que você me salvou. Carregou-me escada acima. Salvou a minha vida e ficou para trás para enfrentar Voldemort. Eu não sabia até aquele dia, até ver você em perigo que você era quem eu mais amava...


Harry aproximou-se de Hermione. Ela o sabia, pois sentia a sua respiração no seu rosto. Sentiu quando ele tocou a sua face com os lábios. Esforçou-se para respirar normalmente apesar de seu coração ter disparado com aquele contato. “Meu Deus, Harry está me beijando?”, Hermione pensava, quando sentiu os lábios dele tocarem os seus. Hermione sentiu todo o seu corpo tremer e a dor que sentia, tão forte, amenizou-se incrivelmente. Manteve-se firme, no entanto, fingindo alheia e absorta num sono pesado, enquanto seu ser fervia de emoção internamente.


- Eu amo você, Hermione... – escutou a voz de Harry bem perto a seus ouvidos quando ele separou seus lábios dos dela. – Sempre vou te amar. Não tenho medo de morrer porque eu sei que um dia, não importa quanto tempo eu leve, eu vou achá-la nessa vida ou na outra, procurá-la nos céus e nos infernos e vou achá-la, não importa como... E então eu poderei olhar nos seus olhos, sentir a sua presença e finalmente dizer o quanto eu te amo... Só queria poder dizer-lhe isso agora, antes que...


Harry não falou mais nada, mas Hermione podia entender o que ele sentia. Ele a amava. Deus, ele a amava. E era tudo o que Hermione precisava saber. Harry afastou-se de Hermione, meio titubeante, e deixou a enfermaria.


Hermione sentou-se na cama no mesmo minuto que a porta da enfermaria se fechou atrás de Harry. Seus lábios estavam trêmulos, mas não mais pela dor. Chorava, mas não mais de angústia. Seu ser, seu coração, seu corpo, sua alma... tudo dentro de si pulava de emoção.


- Eu também te amo, Harry – disse ela, baixinho. – E espero que um dia me perdoe...


 


Duas horas depois, Hermione estava de pé, diante do portal de entrada da estrada que levava ao Castelo de Hogwarts, há quilômetros de distância. Ela se apoiava na grade do portal enquanto observava o horizonte: uma nuvem negra se aproximava.


Pensava na sua vida, em tudo que vivera nesses anos que passara em Hogwarts ao lado de Harry Potter. Mesmo que pudesse voltar no tempo, não o faria. Tudo, tudo valera a pena. Ter ficado do lado do seu amigo, ter participado da sua vida, das suas angústias, das suas aventuras, já teria valido a pena. Mas ter sido amada, como agora sabia que o fora, aquilo mudava tudo. Era a força que precisava para enfrentar seu destino e o enfrentaria com coragem. Já não sentia medo, já não sentia fraqueza e a dor parecia se dissipar diante do que sentia. “Um amor tão grande, mas tão grande, meu Deus, obrigada pela oportunidade de um dia ter sentido isso”. Sentia tão agradecida por aquele sentimento que chegava a ter pena de Voldemort por nunca ter sido amado, de nunca ter sentido o que ela agora sentia. A incapacidade de amar o levara a uma vida de morte e escuridão.


Quando Voldemort e meia dúzia de Comensais, entre eles, Bella, se materializaram na sua frente, Hermione sentia-se completamente pronta, firme, e preparada.


- Ah... sabia que o covarde do Potter acabaria cedendo, garotinha sangue-ruim... – falou Voldemort com aquela voz sibilante.


- Bem, primeiro, Harry não cedeu nada... eu resolvi me entregar a você. E, segundo, saiba que foi você que me escolheu para ser sua rainha... eu, uma SANGUE-RUIM... então cale a sua boca e faça o que tiver de fazer...


- Ora, ora... a menininha parece ter adquirido coragem nas últimas horas em que esteve longe de mim. Quem sabe algumas horas de tortura, e ela se lembre de que deve tremer diante de mim. – Falou Voldemort, erguendo a cabeça, cheio de orgulho.


- Não... é você quem deve tremer diante de mim, Voldemort... porque quando eu morrer, ainda terei amado e sido amada e você, será só um espectro em mais uma orcruxe, uma alma fragmentada e condenada a escuridão, nada mais...


Voldemort fixou o olhar em Hermione, mas ela não abaixou a cabeça.


- Pode ser, menininha... – falou Voldemort, com um brilho estranho no olhar. – Mas antes que você deixe esse mundo, você vai ser o meu brinquedinho na nossa noite de núpcias... um brinquedinho que eu farei questão de quebrar....


- VOCÊ NÃO VAI VIVER ATÉ A SUA NOITE DE NÚPCIAS, VOLDEMORT... SUA HISTÓRIA ACABA AQUI E AGORA...


Hermione virou-se assustada para a estrada que ia até Hogwarts. Harry caminhava para eles, segurando a sua varinha firmemente nas mãos.


- HARRY... HARRY NÃO!!!  - Hermione gritou, assustada. – VOLTE, SAIA DAQUI... SAIA!!!


Mas Harry não parou de avançar até alcançar Hermione e abraçá-la.


- ORA, ORA, POTTER, POTTER... ESTAVA MESMO NA HORA DE MATAR ESSE...


Nem Harry, nem Hermione escutavam o que Voldemort dizia. Abraçados, ollhavam um no olhar do outro como se estivessem se olhando pela primeira vez.


- Achou que eu não sentiria a sua falta, Mione? – falou Harry, puxando Hermione ainda mais para perto de si. Hermione espalmava o peito de Harry com uma profunda tristeza no olhar. Sabia que aquilo era a morte dele. Ele não poderia enfrentar Voldemort sozinho.


- Você não deveria ter vindo, Harry...


- Não tenha medo, Hermione...  – sussurrou ele, nos ouvidos dela. – Eu escutei o que você disse a Voldemort: sobre amar e ser amada... E no final, no fim de tudo, é só o que importa, não é mesmo. Essa é a nossa história, Hermione. Se é para o que fomos feitos, então tudo bem... Eu amo você e sei que você me ama.... Então não importa se morremos ou vivemos... estaremos sempre juntos... Sempre juntos, amiga... irmã... sábia conselheira... meu amor...


Hermione quis segurar, mas não conseguiu e uma lágrima sibilou em seus cílios e depois rolou pela face, que Harry beijou docemente.


- É MELHOR TIRAR ESSA BOCA SUJA DA MINHA RAINHA, POTTER... ELA SERÁ MINHA... ANTES MESMO DE TER SIDO SUA.... – Voldemort esbravejava, sem que Harry ou Hermione lhe prestassem atenção. – PREPARE-SE PARA ME ENFRENTAR, GAROTO!!!


Harry deu um passo e colocou-se à frente de Hermione que o abraçou, apoiando o rosto nas costas do amigo. Com a mão esquerda, Harry buscou a mão de Hermione e entrelaçando seus dedos com os dela, levou-a até seu coração, enquanto levantava a varinha na mão direita, preparado para qualquer coisa.  Não tardou muito para que um raio verde saísse da ponta da varinha de Voldemort  e se aproximasse dele e de Hermione como se procurasse por suas almas: não importava mais... estavam ambos preparados...


 


 


 

Compartilhe!

anúncio

Comentários (0)

Não há comentários. Seja o primeiro!
Você precisa estar logado para comentar. Faça Login.