Verdades que doem



Capítulo 27 – Verdades que doem



Papéis, memorandos, papéis, corujas a voar, papéis, pessoas a correr pelos corredores, e mais papéis… uma palavra: aborrecimento. Era preferível estar a dar aulas em Hogwarts, a perseguir devoradores da morte para os enviar para Azkaban, ou quem sabe, se tivesse alguma sorte, jogar uma partida de Quidditch. Em vez disso, passou os últimos dias a escrever relatórios, preencher formulários, a partir a ponta de tantas penas, que tinha perdido a conta de todas elas… apenas trabalho burocrático. Porque é que não deixavam esse trabalho para pessoas como Percy Weasley, aqueles idiotas que adoram lamber as botas ao ministro.

- É… o Quartel-General de aurores já não é o que era no meu tempo. – falou o quadro da parede, quase tão aborrecido quanto James, endireitando levemente o seu chapéu de bruxo. – Quando eu era chefe desta secção, não havia um único auror que passasse tantas horas sentado numa secretária, a preencher papéis.

James desviou os olhos do pergaminho para o quadro falador. Sir Thomas Kandel era conhecido por ter sido um dos melhores aurores de todos os tempos e por ter defendido, com bravura, o mundo mágico durante diversas situações críticas, tendo adquirido o título de cavaleiro ao salvar, sem querer, é certo, a rainha de Inglaterra. Apesar de tudo isto, ele tinha o defeito de falar mais do que o normal, aborrecendo muitas vezes os aurores que tentavam concentrar-se no trabalho. James não era excepção e, sempre que podia, mandava-o dar uma volta pelo Ministério, ver se estava a chover no gabinete do ministro, ou chatear a “sapa velha da Umbridge”, tarefa esta que o quadro cumpria com toda a dedicação.

- Sir Thomas… – James estava prestes a enviá-lo para mais uma “missão”, quando subitamente se lembrou de algo – Sir Thomas, se chegasse à conclusão que o Ministro da Magia está a agir como um idiota e que, por causa disso, talvez a segurança do mundo mágico esteja ameaçada, o que faria?

O velho homem enrolou o seu grande bigode com o dedo e inclinou a sua cabeça para a frente, como que a confidenciar um segredo a James.
- Meu jovem auror, se nós estivéssemos no meu tempo, Rufus já teria virado cinzas ou já estaria sem cabeça. – Dando uma gargalhada sonora, ele encostou-se de novo para trás, sob o olhar chocado de James. – Pena que aquela época já passou há muito tempo! Bem… – Prosseguiu ele, levantando-se da sua cadeira e começando a dirigir-se para junto da moldura do quadro – … o meu caro contemporâneo, o ministro Grogan Stump convidou-me para tomar chá no quadro dele. Até mais!
Com um olhar sonhador, Sir Thomas desapareceu da moldura, deixando James sozinho, a pensar, sarcasticamente, na grande ajuda que o quadro senil lhe tinha dado. Um friozinho surgiu no estômago dele e uma sensação estranha percorreu a sua mente. Detestava aquele tempo de espera, pensando que a qualquer momento os devoradores da morte poderiam atacar. Eles estavam muito parados desde a fuga de Azkaban e isso era sempre um mau presságio. A falta de ataques, durante vários dias seguidos, só podia significar que Voldemort planejava algo muito maior do que um simples ataque.

Um novo pressentimento o assaltou. James tinha aprendido a confiar no seu instinto e na sua capacidade de prever o perigo, capacidade esta que se intensificou a partir do momento em que se tornou um animago. Geralmente, essas sensações surgiam sob a forma de arrepios dos pêlos do pescoço, o acelerar do coração, suores frios e um estado de alerta, que nem ele sabia muito bem de onde vinha. Naquele momento, o seu instinto avisava-o do perigo de alguém muito próximo a si.

Dando um pulo da cadeira, James foi até à lareira do seu gabinete, pegou em pó de Floo e atirou-o sobre as chamas, que adquiriram um tom verde. Rapidamente ajoelhou-se e enfiou a cabeça entre as chamas.

- Apartamento dos Potters, Londres! – Disse com alguma urgência na voz. Durante vários segundos sentiu a familiar sensação de andar à roda e, momentos depois, viu, na sua frente, a sala de sua casa. – Lily! Estás aí? Lily!

Lily deveria estar em casa àquela hora. Devido ao avançado estado da gravidez, foi-lhe concedida uma redução de horário no trabalho e, naquela manhã, ela ficara em casa. Ao ver que ninguém lhe respondia, James deu consigo a ficar cada vez mais nervoso. Respirou fundo, para tentar acalmar-se. Afinal, Lily poderia ter apenas ido fazer compras à Diagon Alley. Mas… e se os Devoradores da Morte atacassem o local? E se Lily corresse perigo nesse momento? E se… e se… James detestava os “e se” tanto como odiava ter de ficar sentado à espera que alguma coisa acontecesse.

- James, o que estás a fazer na lareira a chamar por mim? – a voz da sua doce Lily chegou-lhe aos ouvidos, mas não vinha da sala de sua casa. Não…a voz vinha de trás de si.

James levantou-se rapidamente, mas os seus planos não incluíram a beira da lareira por cima de si, da presença da qual só se apercebeu quando sentiu uma dor aguda no topo da cabeça. Talvez devido à força do impacto, ou à surpresa de ver Lily no seu gabinete, James viu, por segundos, as coisas a andarem à roda e caiu no chão, sentado, enquanto coçava a cabeça. Lily apenas soltou uma risada, antes de se baixar ao lado dele para ver se o marido estava bem.

- Ri-te, ri-te! – James colocou na voz o melhor tom magoado que conseguiu, apenas arrancando mais risadas a Lily. – Estás a rir-te porque não foste tu. Isto dói, sabes?

A ruiva ajoelhou-se ao lado dele e beijo-lhe a cabeça no lugar onde começava a aparecer uma elevação.

- Só o meu galo é que tem direito a um beijo?! Eu não tenho?

Lily afastou-se dele, com uma expressão de desafio, e esforçou-se por se levantar, tarefa que não era nada fácil, pelo que voltou a ficar de joelhos. Vendo isso, James rapidamente se colocou de pé para a ajudar a levantar e levá-la até uma cadeira para se sentar.

- A Helena está a dar-me mais trabalho do que eu imaginava. – ao ver os olhos de James a observarem-na com preocupação, ela apressou-se a sorrir-lhe. – Acho que afinal não é só o galo que merece um beijo.

Lily não chegou a cumprir o seu objectivo, porque uma bola de fogo surgiu em pleno gabinete, dando, de seguida, lugar a uma bela Fénix, com belas penas vermelhas e douradas, que voou até à secretária de James.

- Fawkes?! – James dirigiu-se até à ave e acariciou-lhe as penas enquanto lhe tirava uma carta que ela transportava na perna. Depois olhou com preocupação para Lily, enquanto abria o pergaminho. – Tem o símbolo da Ordem da Fénix!

- Será que Dumbledore convocou alguma reunião? Talvez tenha descoberto alguma coisa de novo.

À medida que James ia lendo a carta, a cor do seu rosto ia desaparecendo e os seus olhos iam-se abrindo de espanto. Agora estava explicado o motivo do seu pressentimento.

- Hogsmead está a ser atacada! E hoje é dia de visita dos alunos à vila. Tenho de avisar os outros aurores! – sem dar tempo de Lily reagir, James correu até à porta e saiu por ela, sem olhar para trás.

Não demorou dez segundos e James entrou, outra vez, no gabinete, ofegante e a apontar um dedo em riste a Lily, que ficara demasiado chocada para agir.

- E tu, nem te atrevas a levantar esse lindo rabinho dessa cadeira! Se saíres daqui é para atravessar aquela lareira ali até nossa casa! Percebeste?!

James estava num daqueles raros momentos em que perdia qualquer tom de brincadeira e deixava para trás qualquer vestígio da sua personalidade marota. O tom de voz que ele usara, demonstrava que não era muito aconselhável contrariá-lo.

Lily acordou nesse momento do choque e, depois de se levantar, deu dois passos na direcção dele, elevando as mãos para envolver o rosto dele.

- Não deixes que nada de mal aconteça com o Harry!

James beijou-lhe os lábios e deu meia volta para abandonar a sala, mas foi impedido por Lily.

- E volta são e salvo para mim, por favor!

James apenas lhe sorriu em resposta e puxou-a para si para a beijar novamente, desta vez com maior intensidade e paixão. Se não fosse pelo perigo que os alunos de Hogswarts corriam, James teria ficado ali a aproveitar aquele momento. Mas a situação não o permitia. Haviam coisas que teria deixar para mais tarde. Se houver um mais tarde pensou ele.

- Vai tudo correr bem, Lily! Eu prometo.

Com um pressentimento cada vez pior, James libertou-se da ruiva e correu ao longo dos corredores que o separavam do gabinete do chefe de aurores. Era urgente agir e evitar que o pior acontecesse em Hogsmead. James apenas esperava que não fosse tarde de mais.



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Ron e Hermione tinham passado uma manhã maravilhosa em Hogsmead. Pela primeira vez, desde que a tinha conhecido, Ron pôde, finalmente, ter um dia a sós com a namorada, na vila, pelo que pretendia aproveitá-lo ao máximo. Hermione estava também delirante pelo passeio e parecia mais bonita do que nunca, emitindo uma luz que hipnotizava o ruivo.

- Às vezes eu fico a pensar, Mione! – disse o ruivo, deitado na grama, de barriga para cima, com a cabeça de Hermione a repousar no seu ombro. – Como é que eu consegui passar tanto tempo a recusar-me acreditar que te amava.

- Talvez porque sejas mais míope do que o Harry?! Ou talvez porque eu seja mais teimosa do que todos os Weasleys juntos e não te tenha dado oportunidade para perceberes isso?!

A mão de Ron passeava do braço de Hermione para o cabelo dela, que era enrolado pelos dedos dele. Hermione virou-se de modo a ficar de frente para ele e a olhá-lo nos olhos azuis brilhantes, que transmitiam todo o amor que ele sentia por ela. Arqueando-se sobre Ron, ela deu-lhe um beijo leve, mas logo se viu envolvida pelos braços do namorado, que imediatamente aprofundou o beijo. Hermione deixou soltar um gritinho quando Ron rodou o seu corpo sobre ela.

- Parece que estou em vantagem, senhorita Granger! – disse Ron vitoriosamente, colando a sua testa à dela.

- Isso não vale! – Hermione fez um muxoxo que divertiu Ron – Eu fui apanhada de surpresa.

Uma explosão ecoou por toda a vila e logo gritos começaram a ser ouvidos. Ron ficou sério, de repente, e saiu de cima de Hermione, sentando-se de modo a olhar para o local de onde vinham os gritos. Foi então que viu vários devoradores da morte a aparecerem do nada e atacarem os habitantes de Hogsmead, destruindo casas e lojas e atirando feitiços para todos os lados.

- Raios! – Ron tinha vontade de amaldiçoar todos aqueles invasores com os feitiços mais dolorosos, por terem estragado o seu momento a sós com Hermione. Mas uma nova imagem veio à sua mente. – Será que a Ginny e o Harry estão bem?

Hermione sentou-se também e beijou o rosto do ruivo.

- Conhecendo aqueles dois como eu conheço, certamente já estão a arranjar problemas.

Noutra ocasião qualquer, Ron teria encontrado algum sinal de humor naquela frase de Hermione, mas, dada a situação actual, apenas poderia desejar que, desta vez, Hermione estivesse errada. Numa pose decidida, Ron levantou-se e estendeu a mão à namorada para a ajudar.

- Acho que talvez seja melhor procurá-los!

Hermione observou Ron pegar na varinha e preparar-se para a luta. Perguntara-se mil vezes porque se apaixonara por ele, já que era cego que nem um trasgo, sensível como uma porta e outras coisas bem menos simpáticas de que Hermione já o tinha acusado. Mas, nestes momentos, ela percebia o porquê. Porque ele era leal, corajoso, nobre, disposto a lutar até ao fim pelo que acreditava e pelas pessoas que amava.

Antes que Ron pudesse correr para a batalha que decorria, Hermione puxou-o pela mão e beijou-o com toda a intensidade. Quando se separou, sorriu para o ruivo, que ficara surpreso pela demonstração de afecto da namorada.

- Só queria que soubesses que te amo! – e dizendo isto, pegou na sua própria varinha e dirigiu-se para o centro da batalha.



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Neville lançava feitiços para todos os lados com toda a fúria. Nem queria acreditar que tinha ensaiado, durante toda a semana, aquela frase e, exactamente no momento em que a ia dizer, teve de se desviar de um feitiço que vinha na sua direcção. Agora toda a sua coragem para dizer a tal frase extinguia-se, parecendo ser camuflada pela raiva que sentia naquele momento. Em poucos segundos, tinha colocado fora de combate vários devoradores da morte e preparava-se para abater mais um.

Luna, que o acompanhara a Hogsmead, observava tudo com surpresa, enquanto se tentava livrar de um atacante que a perseguia. Não conseguia perceber de onde Neville tirara toda aquela energia e qual o motivo para estar tão furioso. Era certo que ele ia contar-lhe alguma coisa que parecia ser importante, mas teria isso tanta urgência assim para provocar uma alteração tão grande num rapaz normalmente tão pacífico e controlado?

Os dois estavam junto à cabana dos gritos, quando começou o ataque e, naquele momento, já não restava quase nenhum devorador da morte consciente, grande parte deles nocauteados por Neville. Um deles começou a levantar-se e ia atacar Neville pelas costas mas alguém o salvou no último segundo.

Neville olhou, suspirando, para o seu salvador.

- Obrigado, pai!

Frank sorriu-lhe, antes de estuporar o último atacante daquela zona.

- De nada! É para isso que servem os pais! Vê se tens mais cuidado e volta para o castelo. Eu vou ver se alguém precisa de ajuda.

Neville viu o pai afastar-se novamente. Luna aproximou-se por trás, na sua expressão lunática e colocou-lhe uma mão no ombro, fazendo-o estremecer.

- Querias falar-me alguma coisa, antes de sermos atacados?

Neville engoliu em seco. Onde estava a sua coragem agora? Não tinha para onde escapar e não tinha outra alternativa a não ser inventar alguma história… ou contar a verdade. Respirando fundo, Neville prosseguiu, sob o olhar atento de Luna.

- Luna… nós já nos conhecemos há mais de dois anos. Bem… nós tornámo-nos muito amigos… na verdade tu és a minha melhor amiga.

- Neville, se estás a tentar contar-me que estás apaixonado por alguém, podes confiar em mim, eu não falo para ninguém. É para isso que servem os melhores amigos.

(Nota de Gui: E esta vai para, a minha querida beta, Lightmagid! Porque é que de repente fiquei com uma sensação de perigo eminente, como se estivesse prestes a ser atacada por uma panela voadora?) (Nota de beta: Qual panela voadora???!!! Eu não preciso de utensílios de cozinha para fazer sentir o meu desagrado!!!)

Neville revirou os olhos. Era impressionante como Luna estava a tornar tudo mais difícil. Subitamente a gravata do uniforme de Hogwarts pareceu demasiado apertada, pelo que Neville tentou afrouxar o nó.

- É isso, Neville? Estás apaixonado? – ele apenas acenou afirmativamente – Quem é felizarda? Ela sente o mesmo por ti? – silêncio – Não me digas que ela já tem namorado?

Neville abanou a cabeça em negação.

- Pelo menos isso! Fala logo, Neville, estás a deixar-me ansiosa!

Neville engoliu novamente em seco. Era chegada a hora, definitivamente, e tinha de fazer aquilo, ou aquele sentimento ia sufocá-lo de uma vez por todas.

- Luna… eu…

Luna abriu muito os olhos e fixou-os no amigo, enquanto aguardava a resposta. Mas esta nunca veio. Em vez disso, Neville puxou-a pela cintura e beijou-a apaixonadamente. Quando se separou dela, ofegante, reuniu toda a coragem que lhe restava e declarou-se finalmente:

- Luna, estou apaixonado por ti!

Ela parecia ter corrido milhares de quilómetro e encarava Neville com o seu jeito lunático de sempre.

- Uau! Parece que fui atingida por pó de Úrsulas aladas da Dinamarca.

Neville soltou uma tímida gargalhada, enquanto uma Luna corada se atirava em seus braços, para o beijar, novamente. Aquele seria, definitivamente, o casal mais estranho que poderia existir no mundo mágico.



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- E eu a pensar que nos livraríamos destes imbecis, pelo menos enquanto estivéssemos neste tempo!

- Nah, James! Parece que o tio Voldie afinal não desapareceu de vez, como todos pensavam. – disse Sirius, colocando mais um devorador da morte fora de combate. – Será que as meninas estão bem?

Depois de lançar um feitiço de estuporamento, James voltou a cabeça na direcção de Marlene e Lily que duelavam com um devorador da morte cada uma. Lily acabara de fazer crescer cactos por todo o corpo do inimigo, que começou a correr, desesperadamente, tentando livrar-se dos espinhos que se enterravam pela sua pele.

- Vê com os teus próprios olhos!

Sirius não teve tempo de olhar, pois era atacado mais uma vez pelo devorador da morte que acabara de se erguer do chão. Dando um sorriso maroto, Sirius vez surgir doxies da sua varinha, que seguraram o atacante pelas orelhas e o penduraram numa árvore próxima deles.

- Francamente, Sirius, nem numa situação destas consegues deixar as brincadeiras de lado.

- Qual é, Remus, vais dizer-me que não resultou? – Sirius mostrava-se indignado com o lobisomem, que abanou a cabeça em descrença e ria-se da cara dele.

Lily, por sua vez, parecia estar a ter problemas com os inimigos, já que um grupo de quatro se aproximava perigosamente dela, prontos para a atacarem. Rapidamente olhou em volta, tentando procurar ajuda. Os três marotos (Peter mais uma vez desaparecera misteriosamente) estavam mais longe, todos eles ocupados. Marlene também parecia estar a ter dificuldades com o seu atacante, pelo que Lily estava por sua conta. Um feitiço voou na sua direcção, mas a ruiva estava preparada e atirou-se para o lado, ao mesmo tempo que estuporava o devorador da morte. Um segundo atacante iniciou uma corrida na direcção dela e, na mão, segurava uma adaga que, certamente, a iria ferir. Quando a lâmina a ia atingir, um feitiço lançado por Marlene colocou o Devorador da Morte inconsciente. Restavam apenas dois. Depois de uma breve troca de feitiços, Lily estuporou mais um. O último dos quatro apenas observara o combate até aí. Vendo-se sozinho contra a ruiva, ele pegou na varinha rapidamente.

- Não penses que vais escapar, ruivinha!

Lily colocou as mãos na cintura, em posição de desafio.

- Ora, imbecil, quero ver-te apanhar-me! Aposto contigo que não ficas acordado muito mais tempo.

O devorador da morte soltou uma risada maléfica e apontou a varinha a Lily, murmurando um feitiço desconhecido para ela. Certamente era um feitiço da mais pura magia negra. Porém, neste momento, Lily estava preparada e conjurou um Protego, mas a barreira não deteve completamente o feitiço, fazendo-a dar um passo atrás e colocar os braços na frente da cara. Por causa disto, não reparou no segundo ataque que o devorador da morte fazia e foi desarmada. A sua varinha caiu a alguns metros dela, mas era uma distância demasiado grandes para um momento em que era vital tê-la consigo. O atacante deu dois passos na sua direcção.

Perto dali, James apercebeu-se do perigo que Lily corria e, num abrir e fechar de olhos, livrou-se do seu oponente e correu na direcção da sua namorada. Porém, a distância parecia ser enorme e nunca chegaria a tempo de a salvar.

- Pena que o meu mestre não quer que a gente mate os pirralhos do passado. Nem ele se atreve a alterar o que já aconteceu. – A voz do devorador da morte pareceu bastante familiar a Lily. – Mas acho que ele não se importará que eu mate aquela que me causou tantos problemas e impediu a minha ascensão.

Lily não percebeu as palavras do inimigo e estava prestes a perguntar-lhe o que ele queria dizer, quando um poderoso feitiço o atingiu e o atirou, com toda a força, contra as árvores. A ruiva virou-se para ver quem a salvara e deparou-se com um Sirius adulto, com a varinha ainda apontada ao devorador da morte. Nos olhos do ex-professor, Lily observou um ódio que ela nunca tinha visto em Sirius. James parecia ter também reparado, pois olhou surpreso de Sirius para o devorador da morte, que começava a levantar-se.

- Parece que voltamos a encontrar-nos, Wormtail. – Sirius disse a alcunha do seu antigo amigo com um grande desgosto.

Ao princípio, James não percebeu o que Sirius adulto tinha chamado ao atacante, mas os seus olhos abriram-se de puro choque, quando viu a cara do devorador da morte, agora sem a máscara. Os olhos pequeninos deste olhavam assustados para o auror.

- Pa… pad-foot! – o tom arrogante de alguns minutos atrás tinha desaparecido completamente, dando lugar a uma voz tremida e aterrorizada. – É tão bom… ver-te… com vida!

Sirius soltou uma gargalhada fria.

- Não me faças rir, Peter! Tenho a certeza que desejaste ardentemente ter estado no lugar da minha querida prima Bella, naquela noite, no Departamento de Mistérios, e teres-me morto! – um sorriso malicioso formou-se nos lábios de Sirius – Até aposto que molhaste as cuecas no momento em que soubeste que eu e o James estávamos vivos! Afinal, o James foi o que mais perdeu, com a tua traição! Ele não está muito contente contigo, sabes?

James não conseguia acreditar no que estava a ver e no que estava a ouvir. Segundo o que o Sirius adulto estava a dizer, Peter, um dos seus melhores amigos era um traidor. UM TRAIDOR! Será que Sirius estava enganado? Não… Peter estava a atacar Lily. Pelo que Sirius dissera, ele já os tinha traído antes e a sua versão desse tempo tinha um motivo muito forte para odiar Wormtail.

Lily, por sua vez, pensava agora o porquê de nunca ter gostado de Peter, desde o primeiro dia em que o vira. Sempre rodeado dos mais fortes, demasiado dissimulado. Ela prevenira os marotos, vezes sem conta, para não confiarem a sua vida a Peter, porque ele não era o grande amigo que eles pintavam, para além da grande cobardia dele.

O devorador da morte tremia como varas verdes como quem via na sua frente a própria morte e parecia ter medo até de virar costas para fugir.

- Si-sirius… tu sabes… eu não tive outra opção… ele matava-me se não me aliasse a ele!

- Sim, sim… eu já ouvi essa história. Mas não sei porquê, ela não atenuou nem um bocadinho o ódio que tenho por ti. – a fúria de Sirius parecia crescer de minuto para minuto, fazendo com que Peter perdesse toda a cor do rosto que lhe restava. – Como é que tiveste coragem, Peter? O James confiou a ti a segurança da família dele e tu o que fizeste?!

Sirius começou a libertar tudo o que esteve entalado na sua garganta durante tanto tempo, a deixar explodir como dinamite todo o ódio que sentia de Pettigrew. Parecia ter-se esquecido da presença de James e de Lily, que não deveriam estar a ouvir o que ele estava a dizer. Mas, como Black que era, a sua fúria tomou conta da sua razão e a frustração de tantos anos a viver com aquilo começou a soltar-se.

- Eu… eu… Sirius, Aquele-cujo-nome-não-deve-ser-pronunciado prometeu que não iria fazer-lhes nada.

- Ai não? Não me digas que acreditaste que Lord Voldemort queria fazer uma visita de cortesia! Ou será que ainda acreditas na história da carochinha? Por favor, Peter, não faças de mim burro! Tu entregaste a localização dos Potters, porque com a morte deles ficarias com um lugar de honra ao lado do teu querido mestre. Mas ele subestimou a inteligência da Lily, não foi? Afinal o que é que uma Sangue de Lama poderia contra ele? – Sirius parou um pouco para tomar o fôlego. Foi quando reparou que Peter pegava disfarçadamente na varinha que tinha caído ao seu lado. - Expeliarmus!

Peter viu a sua varinha voar para longe e Sirius a dar vários passos na sua direcção, sempre com a varinha apontada a ele. A tremer como varas verdes e com uma expressão de rato assustado, ele encolheu-se contra a árvore contra a qual tinha sido atirado.

- Por favor, Sirius, não me mates! Lembra-te da nossa velha amizade…

- Da nossa velha amizade?! – Sirius cuspiu esta última frase, como se lhe causasse uma imensa repugnância – Lembraste-te por acaso da nossa velha amizade quando viste Voldemort matar o James e Lily, sem mexeres uma única palha? Lembraste-te dela quando me viste ser atirado para Azkaban, acusado de um crime que TU cometeste! Doze anos, Peter, DOZE ANOS foi o tempo que eu perdi naquela maldita ilha! Achas que eu estou disposto a lembrar-me da “nossa velha amizade?

Sirius despejou a verdade com uma velocidade tal que James não teve tempo de assimilar o que a versão mais velha do melhor amigo tinha dito. Lily, pelo contrário, foi atingida pela verdade como um raio. Como assim, ela e James tinham sido mortos por Voldemort? Como era possível? Ela tinha-os visto, vivos, felizes. Mas por outro lado, tinha aqueles…

- Devias ter calculado que um dia nos voltaríamos a encontrar e que eu terminaria o que comecei há dezasseis anos atrás e não consegui terminar há quatro. Adeus, Peter.

James susteve a sua respiração. Não conseguia ainda acreditar em tudo o que tinha ouvido e no que Sirius iria fazer agora. Lily correu para os braços do namorado e escondeu o rosto no seu peito, para não ver o que ia acontecer. Sirius estava pronto para dizer a maldição da morte, a terceira vez que pensava em conjurá-la. Não tinha a certeza de como se sentiria a seguir, tendo assassinado uma pessoa, mesmo que essa pessoa o merecesse, mas naquele momento sentia ódio suficiente para que a maldição fosse eficaz. Abriu a boca para dizer o feitiço e focou as suas pupilas no seu alvo.

- NÃO, SIRIUS! – um James adulto corria na direcção do melhor amigo, impedindo este de concluir a maldição. – Não faças nada que te possas arrepender depois.

Sirius encarou Peter, que parecia prestes a morrer de medo. Os seus olhos semicerram-se, parecendo que ele iria cumprir o que tinha dito. Mas, no momento seguinte, o seu braço caiu ao longo do corpo.

- Ja-james… P-prongs! – agora Peter parecia ter visto um fantasma – O-obrigado! O-obrigado! Eu sabia que… que não deixarias que ele me matasse…

Lentamente, James voltou-se para Peter e, surpreendentemente sorriu, mas esse sorriso tinha um significado muito diferente do que à partida foi perceptível. Era um sorriso frio, cheio de maldade.

- Ora, Wormtail! Há quanto tempo! Mais de dezasseis anos, se não estou enganado. Como tens passado, Peter?

Peter parecia não saber ao certo o que responder, pelo que continuou encolhido junto à árvore. Sirius, por seu lado, pareceu chocado com a atitude de James, que estava a tratar Peter como costumava fazer na época da escola.

- Bem… acho eu…

- Ainda bem, Peter, fico contente! Afinal passar doze anos na pele de um rato não deve ter sido muito fácil, não é? Ou talvez tenha sido! O Harry contou-me como o Ron te tinha tratado bem, enquanto foste o… – James adquiriu um ar pensativo – … como era mesmo o nome? Ah, sim, Scabbers! Por acaso, ele contou-me também um certo episódio que aconteceu num cemitério, há quase três anos.

O sorriso aparentemente simpático foi desaparecendo do rosto de James, provocando ainda mais medo em Peter.

- Não, Peter, eu não deixei que o Sirius te matasse, porque não quero que ele se torne assassino por tua culpa.

Sirius revirou os olhos e murmurou qualquer coisa como “tal pai, tal filho”. Só agora reparara em mais duas pessoas que assistiam à conversa e, ao constatar quem eram, não pôde deixar de pensar que acabara de fazer asneiras e das grossas.

- Mas isso não quer dizer que vás sair daqui ileso, Peter! – continuou James, puxando as mangas da camisa até meio do antebraço e dando largas passadas até ao ex-maroto. Antes que alguém pudesse impedi-lo, James fechou um punho, elevou a mão atrás da cabeça e, com toda rodou o braço, desferindo um soco na cara de Peter. – Esta é pelos anos que o Sirius passou em Azkaban… – ainda Peter mal se tinha recuperado do primeiro soco e já estava a levar um segundo – … esta por teres ajudado Voldemort a recuperar os poderes, duas vezes! – e finalmente um terceiro soco – … E esta é pela minha família… pela minha esposa e pelo Harry… aqueles que tão facilmente sacrificaste, pelo quê exactamente? Ah sim! Aquilo a que tanto gostam de chamar poder!

James observou o estrago que tinha feito em Peter: o rosto dele estava inchado e vermelho, o nariz sangrava e uma nódoa negra começava a surgir em torno do olho direito. Continuava consciente, mas parecia ter perdido as forças para reagir. James respirou fundo e voltou-se para os outros que ali estava. Sirius estava boquiaberto, com uma expressão surpresa. Fechou os olhos, respirou bem fundo, tentando acalmar e reter a onda de ódio que o avassalava, até que ouviu a voz lacrimejante do seu ex-amigo.

- A-acho que mereci isso… agora estamos quites… não é Prongs? Pronnngs?

Quites o meu hipogriffo! Dando grandes passadas na direcção do devorador da morte caído ao pé da árvore e levantando o braço mais uma vez, socou-o furiosamente.

- E esta… esta é por mim, rato imprestável!

James e Lily do passado continuavam abraçados um ao outro, ambos chocados.

- Se bem te conheço, falaste demais, não Sirius?

- É, talvez tenha falado um pouquinho demais. – confessou o auror, a coçar a cabeça envergonhado. – Bem… tu sabes como eu sou, quando perco a cabeça. No fundo, no fundo, eu ainda devo ter uns genes da família Black, por muito que me custe admitir.

- Podem explicar-me afinal o que aconteceu aqui? – a voz juvenil de um James de 18 anos chegou a eles, um pouco insegura. – Eu não percebi nada!

- Pois… vocês não deveriam ter ouvido isto. – James lançou um olhar fulminante a Sirius, mas logo a sua expressão alterou-se quando os seus olhos avistaram alguém por detrás de Sirius.

Tudo o que aconteceu a seguir pareceu decorrer em câmara lenta. James gritou qualquer coisa a Sirius, que ele só percebeu quando viu o amigo desaparecer na sua frente e ouviu um estalido de aparatação atrás de si. Quando Sirius deu uma volta de 180 graus deparou-se com as costas de James e, além deste, um rosto demasiado conhecido para ele. Da varinha de Bellatrix Lestrange saía um feitiço que voava rapidamente em direcção a James. Este tentou conjurar uma barreira protectora, mas não foi rápido o suficiente.

James foi projectado para trás com a força do feitiço, tendo sido amparado por Sirius, alguns metros atrás dele. Sirius segurou o amigo entre os braços, para ele não cair e olhou para Bellatrix com fúria.

- Como te atreves?

- Ora, ora, priminho! Sabes… não que eu goste muito daquele rato imundo, mas o meu mestre ainda precisa dele. Por isso, vim resgatá-lo, por mais que isso me custe! Além disso, eu tinha umas continhas a ajustar contigo!

Sirius sentiu os músculos de James perderem a força e logo algo viscoso escorreu-lhe pelas suas mãos. Era sangue! Bellatrix colocou a mão sobre a boca e fez uma expressão falsamente entristecida.

- Oh! O pobre Pottinho está magoado! – disse ela na sua voz de criança – Acho que o meu priminho vai ficar furioso. Mas antes disso, aqui a Bella vai embora!

Bellatrix aparatou junto de Peter. Com um sorriso irónico ela agarrou nele e acenou com a mão a Sirius, antes de desaparecer com o outro devorador da morte.

Sirius acordou do torpor, quando James desfaleceu e escorregou por entre os seus braços. Ouviu a voz de Lily gritar e viu, pelo canto de olho, um James do passado a segurá-la com força. Sirius pousou o melhor amigo no chão, enquanto um sentimento de culpa tomava conta dele. Deveria ter protegido James. Falhara, tal como tinha falhado tantos anos atrás!

- James, fala comigo, por favor.

James tinha os olhos fechados, mas remexeu-se ao ouvir a voz de Sirius. O feitiço que Belatrix lançara provocara-lhe um ferimento profundo no peito, de onde saía sangue, sem parar. Provavelmente um Sectumsempra.

- A Lily vai-me matar! – disse James numa voz sussurrada, quando abriu os olhos. – Eu prometi-lhe que voltava são e salvo!

Sirius começou a entrar em desespero, olhando em volta para pedir ajuda. A sua esperança surgiu ao longe, quando Remus, o professor de DCAT, aparecia junto dos outros marotos, ajudando-os a dominar os Devoradores da Morte restantes. Quando os olhos dos dois se encontraram, o lobisomem percebeu na hora o que tinha acontecido. Sirius voltou a olhar para James que fechava os olhos lentamente.

- Não te atrevas a deixar-me, James! – Gritou Sirius, abanando o melhor amigo – Lembra-te do que prometeste à Lily! E ainda tens de ensinar a Helena a jogar Quidditch. Vais deixar essa tarefa para outra pessoa?

Nada disto fez James acordar. Sirius amaldiçoou-se mentalmente por nunca ter prestado atenção às lições de medibruxaria, durante o seu treino para auror.

- Sirius, tens de levar o James rapidamente para o castelo. A madame Pomfrey vai tratar dele. – Remus baixou-se ao lado deles e colocou uma mão sobre o ombro de Sirius. – E não te sintas culpado, Padfoot! O Prongs fez o que tu terias feito no lugar dele!

Remus pegou numa folha de pergaminho que tinha no bolso e apontou a sua varinha.

-Portus! – ao entregar a chave portal a Sirius, acrescentou. – Esta chave de portal vai ter directamente à Ala Hospitalar. A Madame Pomfrey já está lá a receber os feridos.

Sirius segurou James firmemente, com um braço e com a mão livre pegou no pergaminho! Em poucos segundos os dois tinham desaparecido da vista de todos. Remus voltou a levantar-se, enquanto passava as mãos pela face, num gesto de cansaço.

Sirius, Remus e Marlene do passado juntavam-se a James e Lily. A ruiva chorava compulsivamente nos braços de James, que lhe sussurrava baixinho que estava tudo bem, enquanto lhe acariciava os cabelos.

- O que é que se passou aqui?!

- Aqui não é a hora, nem o local para falar disso, Sirius! Não é seguro continuar aqui, porque pode haver mais devoradores da morte por aí. Vamos regressar ao castelo e lá falamos. – disse o professor de DCAT, seguindo a rua que dava para o centro da vila de Hogsmead e daí para Hogwarts.

Os alunos do passado entreolharam-se, mas acabaram por seguir Remus. Lily continuava a soluçar baixinho, recusando-se a acreditar em tudo o que tinha acabado de descobrir. James tinha ficado calado desde que começaram a percorrer o caminho da escola. E assim permaneceria durante várias horas.




*************************



Entretanto, do outro lado da cidade, Harry permanecia numa luta feroz com Snape, que durava desde o início do ataque. Entre feitiços e ataques dos mais variados tipo, eles trocavam comentários verbais para atingir o inimigo quer fisicamente, quer emocionalmente. Em ambos os campos, Harry parecia levar clara vantagem.

Ginny tinha-se ocupado de outro devorador da morte que aparecera logo depois de Snape, mas estava a ter bastantes dificuldades para se desviar dos ataques, embora permanecesse ilesa. Mesmo assim, Harry desviava constantemente a sua atenção do seu duelo para Ginny, para garantir que ela estaria bem. Foi assim que foi atingido duas vezes por um feitiço de Snape, ainda que de raspão.

À volta deles vários eram os alunos que enfrentavam com bravura os atacantes. Alguns estavam feridos, mas, felizmente, nenhum tinha perecido nas mãos de um devorador da morte. Dava a impressão que os servos de Voldemort estavam com um certo receio de atacarem os estudantes. Harry riu para si próprio. Nem Voldemort era tolo ao ponto de se arriscar alterar o passado. Ninguém sabe o que poderia acontecer. Talvez por isso os devoradores da morte não lançassem maldições mortais aos alunos, apenas aos aldeões, provavelmente com medo de atingir algum aluno do passado.

Tanto Snape, como Harry começavam a dar sinais de cansaço, embora Snape parecesse estar com pior aspecto do que Harry. Este tinha o cabelo mais despenteado do que nunca e o seu supercílio estava cortado, resultado de um dos feitiços que o atingira. Snape parou de repente, para retomar o fôlego, mas sempre em alerta para o caso de Harry aproveitar o momento para o colocar fora de combate.

- O que foi, Seboso? Estás a ficar velho? Ou estarás a virar um fraco? – um sorriso de desdém surgiu nos lábios de Harry. – O meu pai tinha razão quando dizia que eras um fracassado, um miúdo nojento com mania que sabia tudo sobre as artes das trevas. Não admira que fosses motivo de chacota de todos na escola!

Snape contorceu a cara numa expressão de ódio. Uma nova onda de fúria surgiu no ex-professor, sob a forma de uma série de feitiços, que Harry teve dificuldade em bloquear. Conseguiu desviar os quatro primeiros, mas foi atingido pelo Cruciatos que Snape enviou. Sentiu uma dor aguda em todo o seu corpo, que o fez contrair todos os músculos. O seu corpo contorceu-se enquanto durou o feitiço e as forças faltaram-lhe por breves segundos.

Ginny olhou assustada para o moreno e começou a correr na direcção dele, mas Harry fez-lhe um sinal para ela parar e levantou-se, encarando friamente Snape.

- Pensas que é um truquezinho que me vai colocar fora de combate? – um frio gélido atravessou a vila – Até agora eu estive a controlar-me para não usar os meus poderes… sim, aqueles que tu usaste para trazer o teu querido mestre de volta!

Snape abriu a boca de espanto.

- Como é que sabes disso, Potter?

Harry sorriu desdenhosamente.

- Pensa, Snape, pensa um bocadinho. Passavas a vida a falar da minha “falta de inteligência” mas esqueceste-te de um pequeno pormenor! Lembraste da ligação mental que eu tenho com Voldemort? Pois é… quando transferiste os meus poderes para ti, criaste uma ligação mental comigo, semelhante à que eu tenho com ele. Foi assim que eu descobri o rapto da professora Boss, assim como vi todo o ritual do renascimento de Voldemort. Felizmente nunca descobriste essa ligação, ou terias usado legimância comigo, porque graças às tuas excelentes aulas, eu nunca fui capaz de usar oclumência.

Harry deixou que as suas palavras provocassem o impacto que esperava em Snape. Não interessava agora que ele soubesse isso, já que a ligação deixara de existir no momento em que ele perdeu o poder novamente. Não pôde deixar de sentir alguma satisfação ao ver o choque nos olhos do ex-professor.

- Pois é, professor, quem é o idiota afinal? – como Snape não respondeu, Harry continuou – Parece que Prongs e Padfoot tinham razão! Afinal Seboso é mesmo um imbecil!

Snape dirigiu um olhar algo receoso ao seu ex-aluno e, nos olhos deste pode prever o que ele pretendia fazer. A brisa gélida convertia-se agora em vento forte e uma nuvem negra cobriu o Sol. Ginny parou subitamente de duelar quando se apercebeu do arrefecimento do ambiente. O seu adversário, atraído pela cena que ali se desenrolava, nem pensou sequer em aproveitar a distracção da ruiva. Estava, também ele, demasiado surpreso com o poder que emanava do menino que sobreviveu.

- Então, professor, está disposto a continuar este combate, ou prefere que eu o termine por si? – cada vez que Harry dizia a palavra professor, o seu tom irónico aumentava. – Vamos lá ver do que é que o “Príncipe Mestiço” é capaz!

Harry não deu tempo a Snape de reagir. Uma luz surgiu no seu peito e, em breves momentos, o Olho de Horus estava à vista. Elevou a mão até à altura do seu peito, com a palma voltada para cima, onde começava a crescer uma minúscula bola de fogo, que crescia de segundo para segundo. Quando a bola tinha o tamanho de uma blugder, Harry olhou maliciosamente para Snape, que estava lívido e estático.

- Antic Focum! – Ao pronunciar o feitiço, a bola de fogo fragmentou-se e os pequenos pedaços iniciaram uma corrida feroz até ao devorador da morte.

Snape viu-se rapidamente atacado por um poderoso feitiço de Harry, impossível de parar naquele momento. Sentiu as suas roupas pegarem fogo, enquanto tentava esquivar-se das pequenas bolinhas que atingiam os seus pés. Aos seus ouvidos chegou uma gargalhada de Harry, que tinha cruzado os braços para apreciar a cena.

- Não sabia que, para além de um grande actor, também eras um grande dançarino! Acho que não seria má ideia ter aqui um pouco de água para apagar esse fogo. Gelatum!

Mais uma vez, Snape tinha sido apanhado desprevenido e foi atingido por uma chuva de bolas de gelo, do tamanho de snitchs. Harry ria-se cada vez mais do desespero do devorador da morte para se livrar dos ataques dele. Dando uma olhada em volta, reparou que os outros devoradores da morte começavam a desaparecer conforme percebiam que o ataque estava a ser controlado pelos aurores e pela Ordem da Fénix e que seriam presos se ficassem.

- Isto não fica por aqui, Potter! Ainda temos contas a ajustar.

Ainda a tentam esquivar-se das bolas de gelo que o atingiam em todo o corpo, sem dó nem piedade, Snape desaparatou, deixando para trás, um Harry que sorria ironicamente. Definitivamente estava a passar demasiado tempo com os marotos.

O adversário de Ginny acabara também de fugir e ela, mal se viu livre, atirou-se nos braços do namorado.

- Estás bem, Gi? – disse Harry, retribuindo o abraço.

- Eu estou bem. – afastando-se, Ginny olhou para o corte por cima da sobrancelha de Harry, assumindo uma pose digna de Molly Weasley. – Mas tu tens de ir à enfermaria tratar disso! – o dedo da ruiva apontou perigosamente para o nariz de Harry. – Depois vamos ter uma conversinha sobre esses teus poderes estranhos.

Harry soltou uma gargalhada perante a expressão da ruiva, mas rapidamente ficou sério quando sentiu uma pontada no peito. A preocupação de Ginny aumentou.

- O que aconteceu, Harry?

- Tenho de regressar ao castelo! – o moreno abraçou-se a Ginny e acrescentou num fio de voz. – O meu pai corre perigo de vida!



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Aquilo estava a tornar-se uma rotina. Era a segunda vez que entrava na sala da directoria e das duas vezes fora ali chamada porque descobrira coisas que era suposto não saber. Desta vez era diferente. Lily ouvira coisas, sem sentido para alguns, mas que, para ela, faziam toda a lógica. Mas o que a preocupava, naquele momento, era a falta de palavras de James. Ele não tinha dito uma palavra desde que tinham saído da vila.

Não só ela e James seguiam o professor de DCAT, mas também Sirius, Marlene e Remus. Na sala de McGonagall mais uma pessoa, além da directora, esperava por eles, Albus Dumbledore. O ex-director parecia ter perdido grande parte da alegria que brilhava nos seus olhos e aparentava um ar cansado. Mesmo assim, esforçou-se por sorrir levemente para os cinco alunos, fazendo um gesto com a varinha para invocar cadeiras, para eles se sentarem. Pelos vistos teriam uma longa conversa.

- Remus, creio que o motivo que vos traga aqui seja de extrema importância, caso contrário não pedirias a minha presença. Estou enganado?

O professor de defesa acenou afirmativamente com a cabeça.

- Acho que, no calor da emoção de encontrar novamente Peter, Sirius falou um pouquinho demais na frente destes nossos amigos aqui.

McGonagall virou-se drasticamente para o Dumbledore que, incrivelmente continuava a sorrir para Remus.

- Penso que o melhor seja modificar-lhes as memórias!

Sirius levantou-se em protesto, mas um olhar de aviso de Marlene fê-lo mudar de ideias. James foi o único que não esboçou nenhuma reacção.

- Remus, não será uma atitude demasiado drástica? – arriscou McGonagall – Afinal, quando eles voltarem para o tempo deles, irão esquecer tudo isto. Além de que todos nós sabemos das implicações de usar um feitiço anti-memória em alguém. Pode haver graves danos na pessoa a quem é aplicado.

- Minerva! Já pensou no que poderá acontecer? A directora sabe, tão bem como eu, como funciona o feitiço do tempo. Eles irão esquecer todas as informações que tenham implicações directas na preservação do futuro, mas irão começar a tratar Peter de um modo diferente e ele, certamente, vai lembrar-se disso, quando regressar ao seu tempo. Acha que o James algum dia o escolheria como guardador secreto se soubesse que ele era o espião? – Remus respirou fundo, tentando manter a sua calma – Eu, mais do que qualquer pessoa, adoraria que aquela noite de Halloween, tantos anos atrás não tivesse existido. Mas, no final, tudo ficou bem! Não quero arriscar que tudo seja diferente.

Dumbledore deu um passo na direcção de Remus e colocou uma mão no ombro dele.

- Remus, eu não creio que a gente deva apagar as memórias aos nossos alunos aqui. Pelo contrário. Acho que está na hora deles saberem toda a verdade. Confio que, deste modo, eles compreenderão a importância de tratar Peter Pettigrew como sempre trataram.

Quer Remus, quer McGonagall, esboçaram expressões de choque. Dumbledore só podia ter perdido o juízo de vez.

- Professor… não podemos!

- Querem parar de falar como se nós não estivéssemos aqui? – Sirius tinha-se levantado, uma vez mais, da cadeira e nem o olhar de Marlene o fez recuar. – Eu quero saber o que se passou! Eu quero saber o que o Peter fez de tão grave e o porquê minha versão deste tempo querer matá-lo com todas as forças. – a sua voz era carregada de uma pura amargura e revolta. – Estou farto que me tentem esconder coisas!

- Queira sentar-se, Sr. Black! – Dumbledore falou com uma calma tal, que Sirius não teve coragem de o contrariar. – Eu talvez não seja a pessoa mais indicada para contar tudo, mas tenho a certeza de que o Remus cumprirá, da melhor forma, esse trabalho.

O professor de DCAT apenas baixou a cabeça, tristemente. Recordar os piores momentos da sua vida apenas lhe trariam dor e tristeza. Mas se Dumbledore insistia que deveria contar, não era ele que iria negar isso ao velho professor.

- Eu contarei. Mas antes… – os seus olhos encontraram-se com os de McGonagall – … já avisaram a Lily?

- Ela foi avisada há alguns minutos, mas só poderá chegar ao castelo dentro de algum tempo, já que não pode aparatar ou usar as lareiras, devido à gravidez. Terá de vir de Autocarro Cavaleiro.

Remus acenou em agradecimento à directora, antes de se voltar para os alunos do passado, passando as mãos pelo rosto, enquanto pensava por onde começar.

- Bem… antes de começar, eu queria falar-vos no poder de Horus. Digamos que o seu possuidor teve a oportunidade de trazer algumas pessoas à vida, no final do Verão passado.

Uma vez iniciado este caminho, Remus sabia que já não poderia voltar atrás e que deveria confiar que aqueles jovens alunos iriam pensar bem antes de fazer alguma asneira, por mais que o que ouvissem, dali para a frente, lhes provocasse sentimentos de ódio, por mais que todas as verdades que iriam ouvir doessem no fundo das suas almas.



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Lily Potter sempre foi considerada uma mulher de fibra e que não recuava perante nenhum obstáculo e que, muito menos, se intimidava pela gravidade das situações em que se encontrava. Mas todas estas capacidades que ela desenvolvera ao longo da vida, principalmente depois que saíra de Hogwarts e se tornara auror, eram esquecidas quando estavam implicados James e Harry.

A enfermaria, à sua volta virara um caos, repleta de alunos que recebiam tratamentos, de pais e mães que exigiam saber se os seus filhos estavam bem, de habitantes de Hogsmead que tinham sido levados para ali, já que St. Mungus ficava muito longe. Tudo isto passava despercebido a Lily. Ela apenas estava concentrada no peito de James, que subia e descia lentamente, conforme a respiração. Controlava religiosamente o único sinal que lhe dava a prova de que o seu marido continuava vivo.

Sentia as lágrimas quentes escorrerem pelo seu rosto, mas não se importava em limpá-las, pois tinhas as suas pequenas e delicadas mãos ocupadas em acariciar a mão grande e forte de James. Helena parecia também comover-se com o sofrimento da mãe e parara de chutar o seu ventre algumas horas atrás. Os ouvidos de Lily pareciam ter deixado de funcionar e nem as palavras de Madame Pomfrey, muito menos as de Sirius, a fizeram mover-se um milímetro que fosse.

Todo o mundo, naquele momento, girava, para ela, em torno de James, inconsciente naquela maca da enfermaria.

- Tu prometeste-me, James! – a voz dela saiu carregada de desespero, seguida de um soluço, que se soltou de seus lábios – Prometeste-me que ficaria tudo bem!

Sentiu uma mão pousar-se no seu ombro. Pela primeira vez, desde que ali chegara, desviou os seus olhos para ver quem lhe tocara e deparou-se com a face entristecida de Marlene. Alguns meses atrás, teria abraçado a amiga sem hesitar e teria chorado no seu ombro até que todas as lágrimas cessassem. Embora esse desejo lhe tivesse passado pela mente, rapidamente o colocou de lado, quando sentiu mais um chute de Helena, que parecia ler os pensamentos da mãe. Definitivamente, com aquela barriga, era tarefa quase impossível conseguir abraçar Marlene.

- Ele vai sobreviver, Lily!

Lily desejava ter a confiança de Marlene e acreditar, com todas as suas forças, que James iria acordar logo e rir-se, na cara dela, das suas preocupações. Mas as notícias não eram muito animadoras. Madame Pomfrey prevenira-a logo para o pior, quando lhe informou da extensão dos ferimentos de James, de que os seus pulmões tinham sido afectados pelo feitiço e que, devido à perda de sangue, vários órgãos tinham sido danificados também. Se ele conseguisse sobreviver, teria uma longa e difícil recuperação, que nem a magia poderia facilitar.

- Devias descansar um pouco, Lily. Estás aqui há várias horas, sem comer nada, nem descansar um pouco. Isso não vai fazer bem ao bebé. Além disso, o Harry precisa de ti, também!

Subitamente, Lily sentiu-se culpada. Esquecera-se por completo de Harry. Ela sabia que ele estava bem, pois o seu coração de mãe não se enganava, mas ele, mais do que ninguém, deveria estar a sofrer, naquele momento. Ele precisava de um abraço que o aquecesse, um abraço que só ela poderia dar.

- Onde é que ele está?

- Creio que ele está nos jardins. A Poppy disse que só o deixava entrar aqui à hora do jantar, quando tudo estivesse mais calmo. Então acho que ele foi lá para fora, esperar que o sol se pusesse.

Lily esboçou um sorriso de agradecimento a Marlene, por entre as lágrimas que lhe escorriam. Olhou mais uma vez para James e inclinou-se para lhe beijar os lábios. Estavam frios como pedra. Ao acariciar-lhe a cara, Lily reparou que todo ele estava gelado e o seu coração palpitou de medo. Não… continuava a respirar!

- Eu volto mais logo, James! – Lily aproximou-se dele, rezando para que ele a ouvisse – Volta para nós, por favor!



********************************



Ninguém ousava pronunciar uma palavra. Não era apenas o respeito pelo sofrimento de Harry, mas também as recentes revelações. Estava a ser difícil assimilar tudo o que tinham visto e ouvido e tudo parecia tão irreal e improvável.

James mantinha o mesmo silêncio há horas. Isso era um mau sinal, dado que o moreno raramente se calava. Parecia estar a chocar por dentro algum sentimento que lhe remoía as entranhas e que não se atrevia a libertar, para não atingir inocentes. Sirius, após vários olhares aterrorizadores de Marlene, tinha desistido de proclamar aos sete ventos que mataria o Peter da próxima vez que o visse. Remus parecia o único que se mantinha calmo, procurando, como sempre, uma explicação lógica para tudo. Ron e Hermione trocavam olharem preocupados, olhando, de tempos a tempos, para Harry, sentado na grama, abraçado a Ginny que repousava entre as suas pernas.

A mente de Lily fervilhava com a quantidade de informações e emoções que tinha experimentado nesse dia. Primeiro fora a conversa com Remus adulto e toda a história que ela viveria, deste a sua morte daí a poucos anos, até ao seu regresso à vida muito tempo depois. Depois veio a notícia de que James, daquele tempo, travava uma árdua luta, entre a vida e a morte. Ele podia não ser propriamente o seu James… pelo menos não ainda. Mas seria, no futuro, e não queria pensar para já que um dia iria viver isso também. Tudo agora fazia sentido para ela. Todas as peças pareciam encaixar-se num puzzle complexo.

O seu olhar dirigiu-se para Harry e o seu coração ficou apertado. Descobrir tudo o que ele tinha passado ao longo da vida, ser criado pela sua irmã Petúnia, que o tratava como um anormal, viver com o peso de uma responsabilidade enorme, desde que tinha um ano de idade, assistir à morte de pessoas que lhe eram queridas. Ninguém merecia todo aquele sofrimento. Um orgulho de mãe inchou o seu peito, por breves segundos. Harry tinha tudo para se tornar um garoto arrogante e prepotente, carregado de sentimentos negativos e destrutivos. Pelo contrário, tornou-se num rapaz humilde, com um grande senso de justiça e com uma pureza de coração como Lily nunca tinha visto em ninguém. Não era justo que, quando a sua vida tinha, finalmente, encontrado a felicidade, as trevas ameaçassem de novo destruir tudo isso.

Lily era a única que estava voltada para o castelo, de costas para o lago. Talvez por isso, foi a única que se apercebeu da aproximação de alguém mais. Os longos cabelos ruivos, os intensos olhos verdes, avermelhados devido ao choro, bem como a barriga de seis meses de gravidez, não deixavam margem para dúvidas. Era Lily Evans Potter. Os olhos desta fixavam-se apenas na figura de Harry e os seus pés pareciam dar passos receosos na direcção do grupo. Lily do passado não se mexeu do lugar e ficou apenas a observar a marcha da sua versão adulta.

Harry só se apercebeu da presença da mãe quando esta se encontrava a alguns metros de distância. Num pulo que assustou Ginny, Harry levantou-se, mas não caminhou logo na direcção de Lily. Parecia estar a sondá-la, de modo a confirmar que não tinha acontecido o pior. As lágrimas voltaram a escorrer pelo rosto de Lily e logo se viu envolvida pelos braços do filho.

- Ele vai ficar bem, tu vais ver! – disse ela numa voz rouca, enquanto acariciava os cabeços revoltos de Harry.

Nenhuma palavra foi dita. Apenas aquele abraço de mãe, emocionado e cheio de amor. Harry parecia muito mais adulto naquele momento e o enorme fardo que carregara um dia parecia recair sobre ele de novo.

Tentando disfarçar um soluço que a sufocava, Lily mais nova escondeu o rosto entre os braços, que estavam cruzados sobre os joelhos. Não queria pensar… queria apenas esquecer tudo o que tinha visto. Havia muito mais nos pensamentos dela do que os outros poderiam imaginar… coisas que apenas ela tinha visto e que agora sabia serem verdade. Queria esquecer que era Lily Evans, uma garotinha de 18 anos que ingressara numa escola de magia e feitiçaria… queria ser apenas Lily, a menina que brigava com a sua irmã mais velha por causa de uma simples boneca… que sorria sempre sem nenhuma preocupação… que desejava ser para sempre criança!



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Mesmo que a preocupação permanecesse, Harry sentia-se muito melhor depois daquele longo abraço. Provavelmente tudo isso seria esquecido a partir do momento em que atravessasse a porta da enfermaria e enfrentasse de uma vez a realidade da situação. Não conseguia, nem queria acreditar que estava, de novo, tão perto de perder o pai. Era como se tivesse estado a ter um sonho maravilhoso durante tantos meses e agora acordasse e descobrisse que Voldemort nunca tinha morrido, as Horcruxes continuavam intactas e ainda tinha uma longa caminhada até finalmente ter paz.

Mentalmente, amaldiçoava Voldemort por todo o sofrimento, não só o dele, mas de todos os que tinham sido atingidos que directa, quer indirectamente por aquele ataque. Malditos fossem todos os seus seguidores, todos os seus apoiantes e mesmo todos os seus simpatizantes. Naquele momento, Harry sentia-se de novo, o rapazinho de onze anos, assustado pela realidade que teria de encarar, mas existia nele algo que não existia quando embarcou no Expresso Hogwarts pela primeira vez. Naquela altura ele apenas tinha ouvido falar de um feiticeiro das trevas que tinha assassinado os seus pais. Agora, esse mesmo feiticeiro começara a tirar-lhe tudo aquilo que lhe custara alcançar, o seu bem mais precioso, a sua família.

Todos os seus pensamentos foram interrompidos quando, ao virar da esquina, alguém chocou contra ele.

- Desculpe… – Harry calou-se subitamente ao deparar-se com uma Trelawney em transe, com os olhos completamente brancos. – Aqui vamos nós outra vez!

Trelawney não se movia. Subitamente agarrou a mão de Harry e começou a falar, com uma voz grossa, a mesma que sempre usava quando fazia profecias.

- Aquela que é portadora do quinto elemento nascerá em breve, quando a flor da cerejeira der os seus frutos, quando a primeira Lua Cheia do quinto mês iluminar a terra. Abençoada pelos poderes de Indra, ela encontrará protecção naquele que domina os outros elementos. Partilhará de um destino tão cruel e de um caminho tão difícil como aquele que a protege. Nascerá ao raiar do Sol do décimo primeiro dia.

Quando acabou de falar, os seus olhos voltaram ao normal, bem como a sua voz. Parecia surpresa em ver ali Harry, ou talvez estivesse a pensar o que estaria a fazer ali. Harry, porém, abria os olhos de puro choque. Se bem tinha percebido a profecia então…

Sem dar tempo a Trelawney para esboçar algum comentário, Harry correu a toda a velocidade para a biblioteca, esquecendo qualquer anterior intenção de visitar o pai na enfermaria. Ignorando os protestos de Madame Pince de que não deveria correr na biblioteca, ele dirigiu-se logo à prateleira e agarrou o primeiro livro que encontrou sobre o assunto.

- Indra… Indra… Indra… – o seu dedo percorria a página, procurando o nome que ele ouviu na profecia – … «Considerado o Reino do quinto elemento, não se conhece qual seja o seu poder, apenas se sabe que estará relacionado com estudos de alquimia» Bolas! O que quer dizer aquela maldita profecia!

A mente de Harry acelerava a cada vez que revia mentalmente o que a professora de adivinhação havia dito. Quem era afinal aquele que detinha o poder dos quatro elementos? Só poderia ser ele próprio. A menina que iria nascer seria sua protegida. Seria a sua irmã? Não… não podia ser… a profecia tinha de estar errada. Helena só nasceria em Junho e a profecia falava no quinto mês.

- Quinto mês… Maio é o mês das cerejas! – as peças começavam a encaixar-se – Primeira Lua Cheia de Maio! – Os seus olhos percorriam desesperadamente o calendário lunar. – Calha no dia onze!

Harry estagnou quando reviu uma vez mais, na sua mente, cada palavra da profecia. Uma única frase ecoou nos seus ouvidos: Nascerá ao raiar do Sol do décimo primeiro dia.

11 de Maio! Helena Potter nasceria a 11 de Maio!




(Nota de beta: UHHHHHHHHHHHHHHH! *Ligthmagid faz dança de vitoria!* Isto é bom demais! Quanta honra. Lá vou eu de novo… Já reparaste que só me fazes chorar? De felicidade… mas continuo a chorar! Mas devo dizer que tens ÓPTIMO GOSTO!!! Nos nomes… nas datas… enfim… que posso eu dizer* lightmagid incha o peito enquanto olha orgulhosa a toda a volta* Yep!! Assim é que é!)


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Nota de Autora:

OLÁAAAA!

E onze de Maio é………. HOJEEEE! E quem faz aniversário hoje, quem faz, quem faz? É A LIGHTMAGID! PARABÉNS PELOS 20 ANINHOS, MANINHA!

E aqui vai o nosso célebre Parabéns Português:

*Guida afina a garganta e acende as vinte velinhas do bolo, que coloca na frente de Light. Um coro de fadinhas começa a tocar sininhos e a lançar os seus pozinhos mágicos de felicidade e amor sobre a aniversariante*

PARABÉNS A VOCÊ
NESTA DATA QUERIDA
MUITAS FELICIDADES
MUITOS ANOS DE VIDA


*Aos primeiros acordes, todos cantam num coro afinadinho e as palmas começam a ser ouvidas, ao ritmo da música*

HOJE É DIA DE FESTA
CANTAM AS NOSSAS ALMAS
PARA A MENINA **** LIGHT

*Guida quase se engana e diz o nome real da sua melhor amiga*
UMA SALVA DE PALMAS!

*Por todos os lados fortes palmas são ouvidas e todos festejam o aniversário da Grã-Magid.

Guida saca da sua capa do traje académico, seguida de todos os outro, e começa a gritar*

E PARA A NOSSA LIGHT NÃO VAI NADA NADA NADA?! *todos respondem* TUDOOOOO

E PARA A MÃE DE TODOS OS MAGIDS NÃO VAI NADA NADA NADA?! *novamente todos respondem* TUDOOOO

E AFERRI A
AAA
E AFERRI E
EEEE
E AFERRI I
IIIIII
E AFERRI O
OOOO
E AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAFERRI U
UUUU

FRA FRE FRI FRO FRU
ARI UARI UARI UAH
ARI UARI UARI UAH
CHIRIBITATATATA
CHIRIBITATATATA
URRA URRA URRA
*faz-se um silêncio mortal*
Shhhhhhhhhhhhhhhh

BUUUUUUUUUUUUUM


*Subitamente todos atiram as suas capas negras ao ar*


Bem, acho que me entusiasmei! Para quem não sabe, este é o grito de guerra dos estudantes universitários em Portugal, que é invocado em ocasiões especiais, como o aniversário de alguém!

Light, não imaginas o trabalhão que deu para o traduzir isto em palavras. Acho que deu tanto trabalho como desgravar uma aula da professora Dulce. Peço desculpa por causa da parte triste do James a meio do teu presente de aniversário. É o que dá ter estudado choque hipovolémico antes de ter escrito o capítulo… depois quem sofre são os personagens. Gostaste de todas as surpresas que todos preparam para ti?!

Bem… e porque hoje é um dia especial e eu tenho ainda muita coisa para fazer, eu vou passar rapidamente às respostas dos comentários:

Lightmagid: PARABÉNS, PARABÉNS, PARABÉNS!!!! Gostaste do teu presente de aniversário? E da profecia? Dessa eu tenho a certeza que gostaste! Afinal, para além de um nome perfeito, a pequena Potter, tem uma data de aniversário perfeita, não é? A esta hora ela está, feliz da vida, a festejar os seus nove aninhos, juntamente com um irmão babado, uns pais orgulhosos e uns tios (Sirius, Marlene, Remus e Tonks) do mais maluco que existe! Achas que fui psicopata o suficiente com o Snape? Eu achei que deveria deixar a melhor parte para um dos marotos. Não te preocupes… o Snape terá a sua hora infernal! Até me deixas corada, Light! Tu sabes como eu fico quando sou elogiada em alguma coisa! Outra coisa… eu disse no outro capítulo que o Behe é o meu vilão preferido, mas isso é no mundo potteriano, porque o meu mauzão n.º1 é, e sempre, será o Uncle D! Viva Darth Vader! Será que é hoje que o prédio vai abaixo?

Felipe: obrigada pelo coment e pelo email. E cá está o capítulo, como eu prometi.

Sakura Li: Eu acabo sempre na melhor parte? *carinha angelical* Talvez seja esse o objectivo, mesmo! *risadinha marota* Pois é… será que o James irá sofrer mesmo na pele de pai? Será que não? *misteriosa* Mas… se ele sobreviver, certamente terá muito trabalho para aturar a Helena, principalmente se ela for uma ruiva fogosa! Quanto à tua fic, eu prometo que passarei lá assim que tiver algum tempo livre, pois eu vou começar as provas da faculdade e fica difícil agora, até para escrever. Não te menosprezes… a tua fic certamente é maravilhosa.

Camilla Victer: Erraste o cruciatos, mas foi por muito pouco mesmo. Mais um pouquinho de treino e já me conseguirás atingir. Mas até lá, eu vou treinando o meu Protego, para me defender. Vou tornar-me uma especialista em defesa! Não tarda nada viro professora de DCAT. É verdade… eu sou de bem longe! Mas eu já tenho tantos amigos aí no Brasil que é como se não existisse nenhum oceano entre nós.

Expert2001: Aí está um cheirinho dos poderes de Harry. Mas haverá muito mais, principalmente quando ele se encontrar com o Tio Voldie. A surra no Snape não foi muito grande, mas deu para o gasto.

Zoey Evans Black: Ei! Eu não disse que tinhas um ego grande. Só disse que o Aldo tinha um ego como o teu… não referi o tamanho. Mas, mudando de assunto, aqui está o capítulo que prometi, para a minha perfeita, maravilhosa, incrível (e convencida também, por mais que negues… pronto, pronto, realista!) leitora.

Gika Black: Se o outro capítulo tinha uns pontos sombrios, acho que agora ficamos na escuridão total! Pois é, nem o Sirius sabe muito bem de onde veio tanta maturidade. Talvez o facto de que, agora, ele vai ser pai e terá sobre a sua responsabilidade três bebezinhos que ainda lhe darão muitas dores de cabeça.

JP Pontas: Harry “overpowered”? Adorei a expressão! Bem… acho que a tua loucura deve vir de algum lado. Afinal tens aqui uma mãe que é a loucura em pessoa! Se bem que deves ter herdado também alguma loucura do teu pai. Que tal, gostaste de o conhecer?

Nina Black: hum hum hum *Guida não consegue abrir a boca para falar* O segredo do espião e da mulher corvo foi protegido por um feitiço fidelius, cuja guardadora secreta é a minha gata. Brincadeira! Vou ver se consigo deixar algumas dicas! Quanto aos poderes de Harry, digamos que é tipo um daqueles pacotes surpresa, que nunca sabes o que está lá dentro até que abras. Ele sabe que tem esses poderes, mas vai descobrindo com o tempo como é que eles funcionam. Não te preocupes, eu não pretendo separar o casal mais perfeito do mundo. Pelo menos para já. Ah… e o Tio D que eu e a Light falamos não é o Voldie, rsrsr. É o Darth Vader da saga Star Wars. Quanto a alterar o futuro, acho que tiveste a tua explicação neste capítulo. Afinal eles não sabem se alterarão para melhor ou para pior. O facto de Peter não ser o guardador secreto, poderia causar uma mudança da história para muito pior. Imagina: o Sirius poderia ter morrido a guardar o segredo, Voldemort nunca perderia os poderes ao atacar Harry. Afinal no fim, todos voltaram à vida, felicíssimos. Para quê mudar isso? Não precisas ficar confusa. Sempre que tiveres alguma pergunta, eu terei todo o prazer em responder (desde que não tenha nada a ver com os mistérios que eu criei em torno na fic… esses estão no segredo dos deuses).

Adriana Roland: Harry super poderoso?! Primeiro é o JP Pontas que fala em Harry “overpowered”, agora Harry super poderoso… estou a adorar estas expressões. Então, gostaste da surra que o Peter levou? Isto ainda é só o começo. O silêncio de James do passado tem um significado. Irás ver no próximo capítulo.

Maria Lucinda Carvalho de Oliveira: E chegou sexta-feira e cá está o capítulo que eu prometi. Espero que te tenha arrepiado como o anterior. Um pouquinho triste, mas eu compenso depois. “Mudando de pato para ganso” como tu dizes, a Line não recuperou a fic dela. Eu já falei com ela e ela prometeu-me que vai postar logo a fic dela, não te preocupes. A tua sobrinha está em Portugal? Em que cidade?

Cristiane Erlacher: De facto é um bom pensamento. Não sei se reparaste no capítulo em que Lily Potter vai parar ao hospital (no capítulo Dejá vu), a Hermione não deixa que Lily Evans leia o jornal. Dumbledore planeou tudo direitinho e baniu do castelo toda e qualquer informação sobre o presente, incluindo livros que falassem do menino que sobreviveu e da primeira guerra. Mas, de qualquer modo, os marotos acabaram por descobrir tudo na mesma, não é verdade?

Madalena: Gostaste do casal Cedric e Danielle? Então vou-te presentear com mais cenas dos dois, nos próximos capítulos. Pois… uma combinação de ruiva com marota, só pode significar … MUITOS PROBLEMAS!

Deby: Minha capacidade para escrever cenas românticas? Meu Merlin! Quem me dera ter essa capacidade! É eu também quero um Cedric para mim (o tio Puff que não me ouça… eu posso ser casada, mas não sou cega!) Não sei se ele está muito fiel à personagem original, porque a JK não falou muito dele, mas ele é como eu achei que ele deveria ser. James e Sirius são tdb… eu adoro-os! MAROTOS AO PODER! Gostaste do nome da bebé Potter? A tua mammis também gostou, = )* Ai, eu coloco e coloco mesmo de castigo! Brincadeira… eu adoro mimar os meus sobrinhos! Mas também gosto de os fazer sofrer um bocadinho *risada maléfica de Darth Sidius*

Beca Black: AH, eu não respondi quanto ao Dumbledore como não respondi aos outros suspeitos! Podes fazer chantagem à vontade, rsrsr, não quer dizer que eu ceda à chantagem. Mas eu costumo cumprir o que prometo, por isso, cá está o novo capítulo! (Não por causa da chantagem, rsrsrs). Ah, mas eu adoro-te mesmo! E quanto a estares meio louca, não há problema… juntam-se duas loucas (eu e tu) e dá muita loucura! (Eu também tenho os meus momentos de insanidade, como tu vês, rsrsrs)

jaini: Olá Jaini e sê bem vinda ao misterioso mundo de Horus! Eu também gosto mais dos nomes originais (tal como aprendi nas aulas de Inglês, nomes não se traduzem) embora continue a usar algumas expressões que eu gosto mais na tradução do Brasil (Marotos, DCAT, etc…). Quanto a actualizar regularmente *Guida fica subitamente atrapalhada* como sabes, está a terminar o ano lectivo e eu vou ter exames da faculdade em Junho e Julho. Por isso, talvez fique um tempinho sem actualizar. Mas, em Agosto, eu volto em força para terminar a fic (pelo menos eu espero terminá-la antes de ela completar 1 anos de existência, ou seja, a 12 de Setembro). Eu estudo no Porto, mas moro no concelho de Felgueiras (provavelmente já deves ter ouvido falar, se não for por mais é por causa da minha conterrânea, a “Fatinha”). E então? Estás a gostar de “Magids”? Pessoalmente é a minha fic preferida (não fosse ela ter sido começada, porque eu andava desesperada por causa dela… uma longa história que um dia eu contarei). E mais uma vez, sê bem-vinda.

Hannah Burnett: é claro que gostei que tu gostasses da “volta de Lord Tommy-boy”. Todos esses mistérios (a mulher-corvo, a Danielle…) são coisas que eu adoraria revelar, mas irá ser com tempo. Eu concordo contigo, uma história sem vilões fica um bocado vazia. Então… não foi preciso esperar muito pelo capítulo, não foi? Cá está ele!

Tati Pontas Potter: Começo a ficar preocupada com essa tua dupla personalidade *Guida a fazer o papel de mãe extremosa* Ainda bem que admites que não és certinha! Eu sei, tu sabes, toda a família sabe… mas dado o teu parentesco e, consequentemente, a tua herança genética, tens uma desculpa e podes sempre dizer que a culpa é dos teus pais! E és dramática sim! Não fui eu que disse: “se nem a minha mama me conta as coisas quem irá contar?!?!?!?!?! Mas eu superarei isso com bravura!” Prontos… eu admito! Não consigo ser má! As mães nunca conseguem ficar muito tempo de má cara para as filhas. Por isso só me resta dar um abraço enorme à minha caçula!


E respondidos aos comentários, vou ficar por aqui, porque a festa de aniversário da Light ainda não terminou e o divertimento ainda vai durar mais umas horas.

Bjocas grandes, Guida Potter.

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