A bordo do Expresso do Oriente

A bordo do Expresso do Oriente



Capítulo Três – A bordo do Expresso do Oriente


“In seasons of great peril

'Tis good that one bear sway;

Then choose we a Dictator,

Whom all men shall obey.”




***

Não muito tempo depois de Rony ter partido, Lupin despediu-se dos Weasley e de Neville para acompanhar Harry e Hermione a Londres. Eles ainda fizeram uma rápida passagem pelo apartamento em Edimburgo – que no futuro planejavam vender ou alugar – para pegar as malas.

Chegaram à estação Victoria cerca de meia hora antes do embarque. Harry e Hermione entregaram as bagagens ao steward Piero, que usava um impecável uniforme azul e falava um inglês perfeito. Despediram-se de Lupin, já fazendo um convite para que esse os visitasse na Itália, e entraram na cabine que ocupariam pelas próximas duas horas.

As paredes eram feitas de madeira envernizada e havia um sofá muito confortável. Hermione foi a primeira a entrar. Ela caminhou até a janela – abaixo desta havia uma mesa com um vaso com rosas e uma garrafa de champagne – olhou a estação através do vidro e virou-se para Harry, sorrindo. O funcionário despediu-se e saiu. Harry encostou a porta e encarou o rosto radiante da esposa.

– Gostou? – perguntou ele, também sorrindo.

– Eu ainda nem acredito que aceitei fazer parte dessa loucura. Poderíamos muito bem ter aparatado…

– Hum… e que graça teria? – perguntou Harry, caminhando em direção à esposa.

– Mas, por causa disso, ficaremos dentro de um trem por três dias.

– Na verdade, não ficaremos o tempo todo dentro do trem. Teremos que cruzar o Canal… sem contar que passaremos uma noite no hotel em Veneza... mas, você tem razão; ficaremos um bom tempo dentro do Expresso, sem nada para fazer… – Harry a abraçou pela cintura, ainda sorrindo e aproximando o rosto do dela –… Sra. Potter.

– Sem nada para fazer é um exagero, Sr. Potter. Podemos… olhar a paisagem, jogar cartas, conhecer outros passageiros... – no momento em que ela disse isso, Harry a soltou e sentou-se na poltrona – ...ler alguns livros…

– Ou então… – Harry a puxou para seu colo – ...podemos ficar sentadinhos enquanto o trem parte.

– Essa idéia é boa, mas… – Hermione encarou-o interrogativamente –...e depois que o trem partir? O que faremos?

– Bem, isso depende das suas idéias, Sra. Potter.

– As minhas idéias acabaram à noite passada, Sr. Potter – disse ela, fingindo estar profundamente entristecida.

– Hum… – Harry pensou um pouco, enquanto afastava de seu pescoço algumas mechas de cabelo dela. – Então teremos que improvisar alguma coisa, amor.

Harry puxou a esposa para mais perto de si e beijou seus lábios, com a mão entrando por baixo da blusa e percorrendo a barriga dela. Hermione o beijou também, a cada segundo com mais intensidade. As mãos quentes dela alcançaram o pescoço de Harry e puxaram o marido mais para si. Ela, sem interromper o beijo em momento algum, mudou de posição e passou a ficar de frente para ele, quase de joelhos sobre a poltrona.

Ele começou a erguer a saia de Hermione aos poucos, passando as mãos pela pele macia dela e ignorando completamente a janela aberta. Ela também pareceu esquecer-se disso e tirou o casaco de Harry, ainda em meio aos beijos, que concentrou no pescoço do marido. O toque de Harry arrastou-se delicadamente por suas coxas e a saia dela foi totalmente levantada à altura da cintura.

Não ouviram os passos que vieram pelo corredor e nem a discreta batida à porta; só distraíram-se quando a voz de um funcionário os trouxe de volta à realidade.

– A partida será dentro de cinco minu… ah, desculpem-me – o Pullman steward retirou-se imediatamente, fechando a porta atrás de si.

Harry respirou fundo e deixou a cabeça inclinar-se para trás até encostá-la no banco. Hermione ajeitou a blusa, passou a mão pelos cabelos, levantou-se e encarou o marido em uma expressão indefinida entre o riso e a raiva. Ele devolveu o olhar e então ela aproximou-se do balcão onde estava o champagne, abriu a garrafa e serviu a bebida em duas taças que estavam ao lado. Harry permaneceu sentado até que o trem começasse a andar, e só se levantou ao ver Hermione cambalear com o movimento brusco do vagão.

– Machucou-se? – perguntou ele, abraçando-a pelas costas e repousando seu queixo no ombro dela.

Hermione balançou a cabeça como resposta. Envolveu as mãos de Harry com as suas, inclinou o pescoço para trás e beijou os lábios do marido durante alguns segundos. Então, soltou-se dele e virou-se, entregando-o uma das taças que enchera há pouco tempo.

“Obrigado”, ele agradeceu e ambos voltaram a sentar-se, um ao lado do outro.

Hermione, em uma das mãos, segurava a taça; a outra estava enlaçada pelas de Harry. Ela mirava a paisagem rural de Kentish ao longe, e só virou-se para Harry quando esse disse, suavemente:

“Eu também odeio quando isso acontece, meu amor.”

– Tudo bem – ela respondeu, bebendo um pouco do champagne. – Temos mesmo que arrumar nossas coisas…

– Em breve, teremos que pegar o barco para cruzar o Canal da Mancha…

– De barco?

– Oras, você queria ir nadando? – Harry sorriu.





***

Após a viagem de cinqüenta e cinco minutos pelo Canal da Mancha e pelo Rio Sena em um catamarã, eles chegaram à gare de Paris e embarcaram no trem continental em que viajariam pelos próximos dois dias e meio. Já era quase sete horas da noite quando se acomodaram na cabine de número 3425, a anterior ao primeiro restaurante e que era muito semelhante à que viajaram na Inglaterra. Hermione largou as malas dela e de Harry e ouviu o marido convidar, logo após o trem partir:

– Você quer ir jantar, amor?

– Tinha esquecido completamente desse detalhe – falou ela, francamente. – Está mesmo com fome?

– Para falar a verdade, não. Mas se você estiver…

– Também não estou – respondeu ela, mirando-o diretamente nos olhos.

– Hum… mas você não pode ficar até amanhã cedo sem se alimentar, amor.

– ‘tá bem… só me deixe trocar de roupa – Hermione disse, abrindo a mala que trouxera para a cabine, tirando rapidamente de dentro uma peça que Harry não pôde ver, e entrando, logo depois, na cabine ao lado, também reservada a eles.

Harry espelhou-se no vidro da janela para acertar o nó da gravata preta, enquanto esperava a esposa terminar de se arrumar. Quando ela abriu a porta do banheiro, Harry virou-se imediatamente.

O vestido – que ficava na altura do joelho, era de musselina vermelha, com finas alças prateadas, e transpassado na frente – prendeu-lhe toda a atenção. Ainda sem palavras, olhou-a literalmente dos pés à cabeça. O rosto de Hermione totalmente exposto, assim como sua nuca; os cabelos dela presos em um sublime penteado no alto da cabeça; o sorriso radiante que adornava sua face e os olhos castanhos que não esconderam o brilho ao encontrarem os seus.

– Você já está pronto? – ela perguntou.

– Estou… – ele respondeu, ainda ligeiramente confuso.

– Vamos então, querido? – continuou ela, passando por ele, em direção à porta da cabine.

Obedecendo ao seu primeiro impulso, Harry segurou o braço dela, fazendo-a virar-se e ficar com o rosto a centímetros do seu.

– Nem pense nisso, amor – disse Hermione, repelindo o beijo que ele lhe daria. – Vai bagunçar minha maquiagem.

Harry desceu a mão pelo braço da esposa até encontrar delicadamente os dedos dela. Controlando-se, ele curvou-se respeitosamente e beijou as costas da mão de Hermione.

– Eu não faria nada sem o seu consentimento, Sra. Potter – disse Harry, com a postura novamente ereta –, mas devo pedir-lhe um favor.

Hermione o olhou com curiosidade.

“Eu possuo algo que combinaria muito com o seu vestido, e seria muito egoístico de minha parte não compartilhá-lo com a senhora, vendo que seus lóbulos estão desnudos e que o algo que possuo não pareceria bem em mim se o usasse enquanto a senhora estiver ao meu lado.”

– Mas o que significa isso, Sr. Potter? – ela perguntou, rindo.

– Esse é o algo que possuo – ele pegou uma pequena caixa de veludo creme de seu bolso e abriu-a na frente de Hermione, revelando um par de brincos prateados com uma pérola branca na ponta –, e que devo implorar que a senhora use, pois significaria muito para mim se o fizesse.

– É, não ficaria bem neles, Sr. Potter – ela sorriu, permitindo que Harry colocasse os brincos em suas orelhas.

– Vamos? – Harry tomou-lhe o braço e a conduziu para o vagão-restaurante.

O Étoile du Nord já estava bastante movimentado. Havia outros casais no trem – aliás, a maioria das mesas estavam ocupadas por eles – mesmo assim, não foi difícil encontrar um bom lugar. Sentaram-se próximos à porta por onde entraram, um de frente para o outro.

Harry permitiu que Hermione pedisse, enquanto começava a observar discretamente um casal que, sentado próximo a eles, cochichava algo entre si e, de quando em quando, lançava-lhe olhares suspeitosos.

Demorou a concluir que provavelmente eram bruxos e que, por isso, o teriam reconhecido, mas nem assim sentiu-se menos incomodado. Odiava saber que estava sendo observado e receava que, como todos os outros admiradores, estes insistissem em aproximar-se para pedirem um autógrafo ou algo parecido justamente durante seu jantar com Hermione. Instintivamente, passou a mão pela franja que lhe caía sobre a testa, repetindo o gesto que aprendera na adolescência; uma fútil tentativa de dispersar a atenção que lhe era dedicada.

– Querido? – ela lhe chamou.

Harry ergueu seus olhos verdes até que estes encontrassem os da esposa, que o observava com uma delicada curiosidade. Pretendia, durante aquela noite, não se preocupar com nada além da esposa, mas não se culpava por não o ter feito nos últimos segundos. Desde o momento em que sentira aqueles olhos observando-o, sua mente tornara-se vigilante. Detestava aquela perda de privacidade a que era obrigado a se submeter.

– Eu não devia… – começou, arrependido por ter sugerido a viagem, mas, depois de uma pausa momentânea, Harry falou com uma voz mais gentil: – Desculpe, eu me perdi em pensamentos.

– Ah, então acho melhor você voltar à realidade. O que foi, não gostou da comida? – ela perguntou, calmamente.

– Estava ótima – disse Harry, sem ao menos se lembrar da lagosta ao molho de manteiga que comera, mas ainda assim conseguindo dar um pouco de veracidade à afirmação. – Você comeu pouco…

– Eu não estou muito bem, deve ter sido o barco…

– Quer voltar para a cabine? – ofereceu ele.

– Hum… se você já terminou o seu jantar, eu gostaria sim.

– Já terminei – Harry levantou-se, tirou o guardanapo de tecido do colo, colocou-o na borda da mesa, lançou um último olhar ao casal que o vigiara durante o jantar e ofereceu o braço à Hermione.

Não teve certeza se eles continuaram à espreita; estava mais preocupado com sua esposa. Não demoraram muito para chegar à cabine e, assim que o fizeram, Harry procurou deixá-la o mais confortável possível. Sua intenção era esquecer que era um bruxo e não usar magia durante a viagem, mas não resistiu à tentação de aumentar uma das camas de solteiro com a varinha. Se Hermione não estivesse precisando de repouso, adoraria dividir um espaço mínimo com ela, mas esse não era o caso.

Após trocar de roupa, deitou-se ao lado da esposa e fez com que ela descansasse a cabeça sobre seu ombro. Ficou acariciando seus cabelos, esperando-a cair em um sono tranqüilo, para, só então, adormecer.

Há muito, muito tempo, esse sentimento não o perturbava. Estava encurralado, sem conseguir interferir no próprio sonho e, no entanto, sendo culpado pela morte que nele ocorrera. Æthelind... como o vira no dia em que Alana Dumbledore morrera... Æthelind, que, mesmo depois de tanto tempo, ainda estava vivo... que voltava – em sua própria mente – para ameaçar a paz que demorara a conquistar.

Æthelind estava vivo. Alguém precisava se preocupar com isso; alguém precisava agir, pensou Harry em desespero. O maior apoiador de Tom Riddle representava sim uma ameaça, e Harry estava sem poder para fazer algo quanto a isso. Queria gritar, mas, no mesmo momento, viu-se cercado por dezenas de pessoas que nem sequer o viam. Uma delas – apenas uma delas – prestava atenção em Harry. Alguém escondido nas sombras lhe dava a impressão de estar sob constante vigilância; Harry tinha absoluta certeza de que era o assassino de Alana Dumbledore.

Poderia ser Londres, Paris, Roma ou qualquer outra cidade do mundo. As pessoas o espremiam, o sufocavam, arrastavam-no e levavam Harry para um lugar estranho. Os olhos de Æthelind continuavam atentos, jamais perdendo Harry Potter de vista.

As nuvens encobriam o sol, a multidão pareceu dispersar-se e, subitamente, Harry viu-se sozinho entre quatro construções de pedra tão altas que ele teve de curvar o pescoço em um ângulo reto para enxergar o céu.

Não havia qualquer sinal de vida naquele lugar; nem de vento, nem de frio, nem de chuva… mas havia uma presença tranqüila, serena, apaziguadora…

Seu coração estava mais calmo. Foi quando sentiu de novo aquele olhar fulminante, aquela sensação de sufocamento, impotência, medo, pavor… queria tanto gritar, mas fazê-lo seria completamente inútil. Queria voltar, precisava voltar. Não estava vivendo ali realmente, estava apenas dormindo com Hermione, deveria acordar… mas não tinha controle sobre aqueles olhos que o mantinham preso no pesadelo. De repente, sentiu alguém tocar seu braço. Olhou para o lado, mas nada viu. Notou que não era apenas um toque, era… havia alguém ao seu lado e ele estava… estava deitado em uma cama…

Finalmente acordou. Hermione mexera-se na cama, sem despertar. Harry sentou-se e colocou os pés no chão, sem movimentar-se muito; não queria incomodar a esposa. Curvou-se sobre os joelhos, apoiou os cotovelos e, baixando a cabeça, afundou os dedos nos próprios cabelos. Respirou fundo algumas vezes, tentando esvaziar sua mente e esquecer o sonho, algo que realizara repetidas vezes no passado e que não esperara ser necessário no presente.

Quando conseguiu se acalmar um pouco, levantou a cabeça e observou, pela janela, o novo dia que surgia sobre os Alpes Suíços. Hermione mexeu-se na cama mais uma vez. Ele curvou-se para beijar-lhe a testa, descansou a cabeça sobre o travesseiro e adormeceu mais uma vez; agora, profundamente.





***

Hermione esquecera-se completamente de quem era e onde estava. Concentrara-se tão profundamente no sonho que presenciava que nem mesmo acordara com a voz de Harry avisando que o café da manhã já terminara. Somente próximo ao meio-dia, quando seu esposo reentrou na cabine e sentou-se na cama, que ela finalmente se permitiu abandonar o estado de repouso em que se encontrava e abrira os olhos.

– Você saiu? – ela murmurou, com a voz cheia de sono.

– Fui ver se poderíamos comer aqui... – começou a responder Harry, mexendo nos cabelos castanhos da esposa, espalhados sobre o travesseiro –...já que você não quis levantar nem pro café da manhã...

– Hmmm – resmungou Hermione, fechando os olhos por mais alguns segundos e quase não resistindo novamente ao sono. – Você trouxe algo para que eu coma?

– Ah, é… – Harry não estava realmente concentrando. Parecia preocupado com alguma coisa desde que entrara, mas logo voltou a atenção para a esposa e continuou: – Desculpa, amor, é que precisei de três horas para descobrir que há um botão interessante em cada cabine.

Ele quase se deitou totalmente sobre Hermione, esticando o braço por cima dela até que sua mão alcançasse a parede. Apertou uma campainha acima do braço do sofá, perto do interruptor de luz.

“Sabe, o steward é uma espécie de mordomo... essa campainha é para chamá-lo se precisarmos de alguma coisa, como comida, por exemplo. Eu estava conversando com um casal trouxa e, aparentemente, isso foi explicado a todos os passageiros, exceto nós, antes do trem partir de Londres.”

Os dois trocaram um sorriso cúmplice antes de Harry continuar.

“Portanto, seria mais cômodo se chamássemos alguém. Assim, eu não fico vagando perdido pelos corredores.”

– Vagando perdido pelos corredores? – repetiu Hermione, observando atentamente o rosto do esposo e o tom de voz com que ele a acordara. – Hmm, você me parece estar bem acordado para alguém que acabou de perder três horas em vão.

– Considerando que eu não acordei há apenas dez minutos, ao contrário de certas pessoas… – ele riu.

– Bem animado… eu disse que você parece estar bem animado para alguém que acabou de perder três horas em vão.

– Animado? Hum, sei… bem, considere que não foi tão enfadonho assim. Lembra-se do casal de trouxas que eu mencionei?

– Que tem eles? – Hermione perguntou desinteressada, voltando os olhos para o teto.

– Pareceram-me boas companhias, então não vi motivo para não aceitar o convite que fizeram.

– Que convite?

– Eles vão jantar no Côte d’Azur. Nos convidaram para acompanhá-los. Noël disse que o vagão-bar é ótimo durante a noite, talvez pudéssemos esticar hoje… duvido que tenhamos sono muito cedo – disse Harry, sorrindo –...e algo me diz que você vai se dar bem com a esposa dele, Maggie.

– Hum, tudo bem. Como devo me vestir?

– Você trouxe roupa de gala? – Harry perguntou, ainda sorrindo, mesmo que ela não olhasse para ele.

– Só o vestido preto com strass que usei na festa do Ministério…

– Perfeito! Então, esteja pronta às oito, ok?

– E aonde o senhor vai?

– Eu? Avisar que a senhora aceitou o convite.

Hermione sentou-se, repentinamente prestando atenção total em Harry e derrubando no chão as cobertas. Gentilmente, ela colocou a mão direita na bochecha do marido, aproximando-os um pouco. Os lábios dele, com os seus ela tocou de leve. Então, com um sorriso em seu rosto, ela murmurou:

– Não demore, querido.

– Se eu tivesse qualquer intenção de demorar, teria mudado de idéia agora mesmo – disse Harry, sorrindo e devolvendo o beijo.

– Que bom. Então, até daqui a pouco – ela continuava sorrindo quando deixou de tocar o rosto de Harry e rendeu-se novamente ao travesseiro.





***


Os Schattenberg eram um casal bem tradicional. Noël controlava a indústria da família, especializada na fabricação de aeródinos, e sua esposa, Lady Maggie, dirigia uma entidade filantrópica. Ambos moravam no principado de San Marino e resolveram descansar antes das festas, cruzando parte da Europa no Expresso do Oriente.

Hermione descobrira todas essas informações prestando atenção a apenas parte da monótona conversa que acontecia durante o jantar. Após ser servido o prato principal, Poulet avec dans Truffes Noires, Noël passou a discorrer sobre um projeto inovador que a empresa estava desenvolvendo, onde a forma em planta das asas diferenciava-se das outras quatro plantas usualmente empregadas, permitindo que o avião alcançasse maiores altitudes durante o vôo e tornando mais rápido o resfriamento do núcleo da turbina, proporcionando, assim, um menor consumo de combustível nos motores Turbofan, os mais utilizados em aviões de alta velocidade.

– É realmente fantástico! – exclamou Harry, animado.

– E o melhor de tudo é que já temos dois compradores em vista. Obviamente, a atual posição do governo canadense a favor da Bombardier impede-nos de lançar o produto imediatamente, já que eles, com certeza, contestariam o desenvolvimento desse tipo de tecnologia, sem contar os incentivos governamentais que a empresa passaria a receber em quantia maior do que a atual... o que, no futuro, poderia tornar inviável a produção em larga escala desses jatos – continuou Noël.

– Mas a OMC ainda não tomou posição sobre isso? Afinal, essa discussão sobre o fomento recebido pela Bombardier não é nova. A Organização foi informada sobre o projeto? – Harry perguntou.

– Bem, o fizemos na medida do possível. É claro que nem todos os países foram informados sobre as modificações específicas que estamos desenvolvendo… potenciais concorrentes, como Estados Unidos, Canadá, Rússia e China... Não há condições de garantir mercado se estes países também trabalharem segundo a nossa linha de pesquisa. Precisamos manter em sigilo certos aspectos, possibilitando assim que exploremos os royalties da nossa tecnologia de empresas – e até mesmo governos – que tenham interesse em explorá-la. A China, porém, acredito que seria mais aberta a esse tipo de idéia, mas preferimos não nos arriscar, pelo menos por enquanto.

– Esse seria um bom lugar para instalar a indústria, não? Perdoe-me, Sr. Schattenberg, mas desconheço os lugares em que a Noan possui unidades.

– É claro que nossa sede administrativa e de desenvolvimento tecnológico é em Mônaco, onde recebemos muitos incentivos do príncipe Rainer, mas nossas unidades estão espalhadas por várias partes do mundo. A China, por exemplo, possui uma mão-de-obra muito barata, porém não tão qualificada ainda, sem contar que teríamos que ter somente sócios chineses na diretoria, já que este é considerado um setor vital ao país, o que não seria tão vantajoso.

– Entendo perfeitamente o seu ponto de vista, Sr. Schattenberg.

Harry demonstrava muito interesse nos negócios do casal, bebendo um gole do Chardonnay a cada afirmação entusiasmada de Noël. Hermione cutucou-o – na ânsia de fazê-lo notar que estava completamente aborrecida – e viu que ele mantinha a varinha apontada por baixo da mesa. De qualquer modo, Harry não percebeu que ela tentava chamá-lo através de gestos e olhares sutis.

– Porém, Malásia, Singapura e Tailândia não possuem tantas restrições quanto à nossa produção, por isso que boa parte de nossos aviões é desenvolvida em San Marino, mas produzida nestes países.

– Eu certamente nunca fui à Malásia, Singapura ou Tailândia, mas não é um pouco complicado transportar as peças de um país para outro?

– Não realmente. Aproveitamos a APEC, que, se não fosse por nós, nunca teria saído do papel, e a usamos para facilitar as exportações/importações.

Sem contar, é claro, que a matéria-prima vinda de lá é muito mais econômica, assim como a mão-de-obra, se comparadas a uma indústria instalada na Europa, por exemplo, o que gera preços muito mais competitivos aos nossos produtos.

– Mas é claro que não pensamos somente na influência sobre a economia desses países, como a APEC poderia demonstrar – Lady Maggie pronunciou-se. – Há muita coisa que a Noan pode fazer por eles...

– Ficaria feliz em ouvi-la falar de tais projetos, Lady Maggie. – Esse pedido de Harry foi seguido por um longo suspiro de Hermione, embora nenhum dos presentes tivesse notado que ela estava realmente entediada.

À altura que o Crème Brûlée foi posto à mesa, Hermione estava mais do que perdida naquela monótona conversa e, a cada dois minutos, lançava a Harry um olhar que suplicava para que ele a tirasse dali. Contudo, as pessoas à sua volta continuavam sem perceber seu desespero.

Após a sobremesa, Harry levantou-se sob o olhar aliviado de Hermione; ela finalmente poderia livrar-se daquele extravagante casal e ficar sozinha com ele. Porém, no segundo seguinte, os Schattenberg imitaram Harry e, antes que pudesse controlar suas ações, Hermione viu-se sendo conduzida pelo esposo ao vagão-bar. Lembrou-se da conversa que tivera antes com Harry, sobre o plano de virem para esse bar no final da noite, mas agora tudo que queria era voltar à cabine e ficar em silêncio.

Não havia muitos clientes no bar, apesar da suave música de fundo que era tocada por um jovem francês, de cabelos louros, em um piano de cauda negro e perfeitamente polido. Já virara a meia-noite e os Schattenberg continuavam absortos na história que eles mesmos contavam. Harry parecia interessado no que o casal dizia, e nenhum deles notou Hermione afastar-se da mesa onde estavam.

Com passos seguros, ela aproximou-se do pianista que terminava uma música. Muitas pessoas não prestavam atenção, mas, ainda assim, alguns esporádicos aplausos foram ouvidos no vagão. Fazendo uma pausa, o músico levantou o rosto para encarar a bela mulher que parara ao lado do piano, aplaudindo.

Hermione usava o longo vestido negro de veludo, com strass na única alça e com uma fenda lateral na perna direita. O cabelo estava bem liso; o arrumara com algumas poções.

– Vous avez joué très bien le piano – Hermione elogiou ao cessar as palmas.

– É muita gentileza sua.

– Pena que nem todos apreciem a boa música… – comentou ela, olhando ao redor.

– Você toca?

– Só um pouco. Aprendi há muito tempo.

– Eu gostaria de ouvi-la tocar.

– Ah, é melhor não…

– Por favor… – Ele sorriu e levantou-se para dar lugar a ela.

Hermione sentou-se ao piano e pôs-se a tocar Beethoven. Lentamente, seus dedos percorreram as conhecidas teclas, tirando do piano as notas que expressavam a monotonia do momento. No começo, fora apenas isso, apenas algumas teclas, apenas alguns sons. Quando passara os dez primeiros compassos, permitiu-se uma inovação nas notas, conforme a música o exigia. Permitiu-se então que a emoção da música passasse a envolvê-la, resultando em calorosas batidas no teclado, que esvaíam de seu corpo a frustração pela noite patética que tivera até então.

Quando terminou a música, Hermione tirou as mãos do piano, levantou os olhos e viu que não estava mais acompanhada pelo jovem louro.

– Você tocou muito bem o piano – uma voz masculina repetiu em seu ouvido as palavras que ela pronunciara ao pianista.

Ela virou-se, mas não sorriu ao constatar que estava sozinha com o marido. Harry a fizera ter uma noite nada agradável, ao contrário do que prometera. Estava com raiva dele e, ainda assim, Harry parecia não perceber.

– Qualquer criança sabe tocar uma música simples como Pour Elise – ironizou Hermione.

– Bem, eu acho que não sei… mas, mesmo que eu tentasse, não seria tão bom quanto o que você tocou agora. – Ele pareceu ignorar o tom da esposa. – Está se divertindo?

– É claro que sim, Potter! – ela exclamou de forma venenosa, levantando-se.

Harry parou por um momento, tentando ocultar a satisfação; ela reagira exatamente como ele previra.

– Ah, você não está gostando da noite que planejei para nós… – Harry mirou-a magoado. – Então, vou ter que mudar isso.

Antes que ela pudesse protestar, Harry a tomou pela mão. Apontou a varinha para o piano e este começou a tocar The way you look tonight.

Hermione ainda estava zangada quando percebeu a intenção de Harry. Exatamente por isso, não se deixou levar pelos braços do marido, que a envolviam e tentavam fazê-la dançar.

– Vamos embora, Harry – suplicou ela, ainda o encarando.

– Me conceda a última dança, então – pediu Harry, forçando-a delicadamente a começar a se mover.

– Onde foram todos, Harry? – perguntou Hermione, começando a deixar-se conduzir por ele.

– Ah, eles tinham mais o que fazer… não se preocupe com eles.

– Como assim, “não se preocupe com eles”? Harry, todo mundo vai embora de repente, você faz magia em um lugar trouxa, tudo isso depois de me fazer agüentar aqueles Chatoberg…

– É Schattenberg… além do mais, ninguém me viu fazendo magia – ele defendeu-se, um pouco sério. – O que a incomoda, Sra. Potter?

– Francamente, Harry, não estou com humor para essa conversinha de Sr. Potter pra cá, Sra. Potter pra lá… – disse ela, ríspida.

– Por que não, Mione?

– AFF, Harry! – bufou ela. – Se você tinha planos para tornar essa noite agradável… sinto muito… vamos voltar pra cabine, por favor…

– Amor…

– Agora, Harry!

– Amor, eu a convidei pra viajar para que pudéssemos ficar juntos… eu senti sua falta durante esses três meses… Se você quer voltar para a cabine e dormir, como fez ontem, eu entendo… só achei que você gostaria de passar algum tempo aqui, sozinha, comigo…

Ela não esperava ouvir um comentário daquela natureza; chegou a parar de dançar por alguns segundos, mas Harry logo a fez recomeçar. Encarou-a, sorriu e continuou falando.

“Por isso eu arrumei tudo pra você. Fui eu que pedi para que os Schattenberg fossem embora… eu pedi para que o pianista a fizesse tocar… eu convenci, depois de um dia inteiro tentando, os stewards a nos deixarem sozinhos aqui para comemorarmos nosso aniversário de casamento…”

– Harry, eu… – Hermione sentiu a boca secar. – V… Você lembrou? Eu achei que não ligasse, que-

– Você esqueceu, Mione, não tente me enganar. – Harry continuou sério, mas sem parecer chateado.

– Tem razão… – ela baixou o rosto, um pouco arrependida por ter acreditado que ele se esquecera dela a noite toda.

Harry não permitiu que ela se culpasse mais. Também baixou o rosto, obrigando-a a olhá-lo nos olhos. Tirou a mão que tocava a cintura de Hermione e pousou-a em sua face, gentilmente, fazendo com que a esposa sorrisse.

– Ainda quer voltar para a cabine?

O sorriso de Hermione alargou-se. A música parara de tocar, mas as mãos de Harry ainda estavam sobre ela, enquanto o marido esperava uma resposta, disposto, ainda, a desistir de tudo que planejara para tornar aquela noite especial.

Ela não respondeu. Parecia hipnotizada pelos olhos claros dele. Sentiu que uma das mãos de Harry descia lentamente por seu ombro direito, enquanto a outra continua imóvel sobre sua cintura; ele não se atreveria a ir mais longe enquanto Hermione não respondesse a sua não-retórica pergunta.

– Harry? – perguntou Hermione, sem tirar os olhos do marido. – Você estava falando sério sobre tê-los convencido a nos deixarem sozinhos?

– Muito sério – respondeu ele, aproximando o próprio rosto do outro que estava à sua frente.

– Então a história do “simpático casal de trouxas” era brincadeira, certo?

– Hum… você não gostou deles, meu amor? – perguntou Harry, sorrindo.

– Aqueles do-

Hermione não terminou a frase que planejara. Harry selara seus lábios com um beijo profundo e intenso que a deixou sem reação nos primeiros instantes.

– Você nem imagina o quanto eu tive que ser forte para não rir da sua cara de tédio durante o jantar.

– Mas você-

Mais uma vez, Harry impediu que ela falasse. Porém, agora Hermione conseguiu reagir e retribuir o beijo. Entretanto, Harry não permitiu que o fizesse por muito tempo. Afastou-se, sorriu e continuou:

– Quando eu a arrastei para esse bar, foi quando – ele riu baixinho – cheguei a ficar com pena de você, sabia?

– Pois dev-

De novo. Ele a interrompera de novo. Hermione já estava ficando saturada desse comportamento presunçoso do marido. Ela o repeliu com um pouco mais de força do que planejara. Harry ainda lhe devia desculpas.

“Pois deveria mesmo ter pena de mim, Potter! Porque você, por mais que tenha se lembrado do nosso aniversário, fez todo o possível para estragar a noite.”

Harry chocou-se diante da força das palavras proferidas pela esposa. Não pôde evitar perder um pouco do brilho que carregava no olhar. Respirou profundamente, retirou a mão que ainda mantinha no rosto de Hermione, passou-a nos próprios cabelos, esfregou os olhou por baixo dos óculos e disse:

– Desculpa, Hermione… – Harry não ousou encará-la. – Achei que poderia compensá-la pela noite, mas esse claramente não é o caso… sinto muito por ter me enganado. Eu levo você de volta à cabine…

– Harry… – Mione arrependera-se de ter sido rude. – Não precisa… eu…

– Está tudo bem, Hermione, eu exagerei, reconheço.

– Você queria me irritar, não queria?

– É, mas… não queria magoá-la – disse Harry, com a voz por um fio.

– Não me magoou, amor.

– Hum. – Ele não demonstrou muita credulidade.

– Eu não fiquei triste, ‘tá bem? – ela insistiu, mas Harry ainda não conseguia olhar para a esposa.

Hermione aproximou-se, segurou a mão do marido, procurou os olhos dele e não deixou que Harry continuasse a evitando.

“Amor… tudo bem, eu aceito as desculpas.”.

Ele esboçou um meio sorriso e olhou de relance para o piano. Em silêncio, encarou a esposa e, abrandando a expressão, demonstrou que o assunto estava encerrado. Ficaram se olhando por um longo tempo, até que Harry quebrou o silêncio.

– Eu tinha planejado a noite para nós, mas você disse que eu estraguei tudo… então, talvez queira escolher o que faremos agora…

– Hum… está me dando carta branca? – perguntou ela.

– Aham – Harry fez menção de pegá-la pela cintura, mas Hermione o impediu.

Agarrando os pulsos do marido, ela o obrigou a colocar as mãos para trás. Sorriu maleficamente e colocou o rosto bem próximo ao do marido, tentando-o com o olhar. Harry mirou-a, curioso para entender o que a amante pretendia.

Eu mando aqui, Sr. Potter – Hermione o desafiou, as palavras sendo pronunciadas com sua boca movendo-se a milímetros do rosto de Harry. – Eu não lhe dei autorização para fazer isso.

“Entretanto,” ela continuou, “serei condescendente com o senhor e permitirei que toque meu corpo…” Hermione olhou diretamente para a boca do marido “… somente com os lábios”.

Sem pensar duas vezes, Harry fechou os olhos e inclinou-se ligeiramente para frente, alcançando a boca entreaberta da esposa. Sentiu uma vontade quase incontrolável de abraçá-la, mas quando seus braços tentaram o menor movimento, Hermione encerrou o beijo, lançou-lhe um olhar assassino e ameaçou:

“Não me obrigue a usar magia para prendê-lo, Harry”.

– Você não usaria magia aqui, Mione.

– Por que não? Você usou no piano… é claro que sempre podemos usar a sua gravata…

– Mione… – Ele sorriu.

Harry voltou a tocar-lhe os lábios. Por um bom tempo, conseguiu resistir e manter os braços exatamente onde a esposa queria, mas, à medida que intensificavam os beijos, ele foi perdendo o equilíbrio e empurrando-a involuntariamente de costas, em direção ao piano.

– Ei, devagar – disse Hermione. – Assim você vai acabar derrubando nós dois.

– Se você soltasse meus braços, eu poderia segurá-la, meu amor – disse Harry, assumindo uma expressão de súplica.

– Nem pensar!

Hermione deu dois longos passos e chegou ao piano, erguendo a mão no mesmo instante, prevenindo a óbvia aproximação que Harry faria.

“Agora, Harry…” ela começou.

Ainda de frente para o marido, subiu no piano, sentando-se logo em seguida. Novamente virando-se para Harry, ela continuou: “… não há mais perigo de eu cair no chão, e também não há desculpa que me faça revogar a ordem. Pode continuar…” Hermione fez um gesto no ar, permitindo que ele se aproximasse “…somente com os lábios”.

Obedecendo-a, ele chegou mais perto devagar, beijou-lhe o rosto, foi descendo pelo colo, roçou os lábios pela única alça transversal do vestido e sorriu. Alcançou o ombro direito de Hermione e pôs-se a beijá-lo delicadamente. Voltou ao esquerdo e, com os dentes, fez a alça alcançar o meio do braço.

A roupa escorregou alguns centímetros, mas teimou em ceder. Hermione somente riu, mas não fez menção alguma de querer ajudá-lo. Harry a examinou, tentando decidir a melhor forma de despi-la.

– Alguma sugestão, amorzinho? – pediu ele, arqueando as sobrancelhas.

– Hum… você pode começar pelo mais difícil: a fenda do meu vestido… ou pelo mais fácil, – ela sorriu – o zíper…

Harry continuou beijando-a. Foi pelo pescoço – enquanto Hermione virava-se no piano – alcançou a nuca, desceu um pouco pelas costas e encontrou o zíper. Com um pouco de esforço, Harry foi abrindo-o devagar. Mesmo se não houvesse resistência alguma, ele não teria se apressado; gostava de parar de vez em quando para tocar com os lábios a pele já exposta da esposa; gostava de vê-la reagir a cada gesto.

Quando Harry abrira por completo o vestido, Hermione virou-se novamente e tocou o rosto dele com as duas mãos, acariciando-o ternamente, trazendo-o mais para perto de sua boca e beijando-o de uma forma bem menos gentil.

Com isso, ele imaginou ter sido libertado das exigências, mas tão logo suas mãos tocaram o vestido e puxaram-no até quase a cintura da esposa, esta fez o possível para afastar-se e prendeu novamente as mãos dele com as suas. Meneou a cabeça negativamente, apertou os olhos e murmurou:

“Hum-hum… nada de usar as mãos, lembra?”

– Amor… – ele suplicou.

Hermione continuou negando e, quando Harry admitiu que ela não desistiria, relaxou os braços que sua esposa ainda prendia.

“Quer que eu coloque o vestido de volta, então?”

– Consegue fazer isso sem as mãos? – Ela sorriu.

Harry respirou fundo; Hermione sabia que ele não o faria. Nem se deu ao trabalho de responder. Em vez disso, recuou alguns passos e obrigou a esposa a soltá-lo.

Sem desviar dela o olhar, Harry retirou o próprio paletó, afrouxou a gravata e começou a abrir os primeiros botões da camisa. Tirou-a de dentro das calças e desabotoou os punhos sob o olhar interessado de Hermione. Encarava-a o tempo todo, provocando-a, tentando-a e pedindo para que ela se aproximasse.

Esperava que Hermione reagisse, que mudasse de idéia e permitisse que ele a tocasse, ou então, que ela o tocasse, mas tudo que via no rosto da esposa era uma expressão intensa que dizia justamente o contrário; que ela passaria o tempo que quisesse apenas admirando a aflição do marido – e se aproveitando isso.

Ele caminhou em direção ao piano, já sem gravata e sem camisa. Hermione sorriu e, quando ele estava perto o suficiente, o pegou pela cintura. Puxou-o mais para si e ficou feliz por ver que o marido continuava a cumprir o que ela ordenara. Beijou-o. Não por muito tempo, pois Harry estava mais interessado em terminar de tirar o vestido da esposa.

Assim sendo, através dos beijos, começou a empurrá-la mais uma vez, devagar, até obrigá-la a deitar-se sobre o piano. Com os braços apoiados pelos cotovelos, um de cada lado dos ombros da esposa, manteve-se sobre seu corpo, tão próximo que a obrigava a tocá-lo cada vez que inspirava.

“Somente com os lábios, Harry”, alertou Hermione, em tom repreensivo.

– Não estou fazendo nada, querida – ele defendeu-se.

Ele então se afastou um pouco, mas somente para decidir o que faria a seguir. Os beijos dados na amante foram transferidos para o colo, enquanto Hermione praticamente arrancava suas calças, impaciente. Harry continuou descendo pelo peito dela até alcançar mais uma vez o vestido.

Exatamente como fizera com a alça, puxou-o com os dentes, obtendo algum sucesso no princípio, mas vendo que, daquela forma, seria praticamente impossível despir a esposa por completo.

Voltou pelo caminho por onde descera, beijando a parte já despida do corpo de Hermione. Concentrou os beijos no pescoço da esposa e depois em seus seios. Ela respondeu. Com a perna esquerda, exposta pela fenda do vestido, envolveu o marido como pôde. Harry sentiu um enorme impulso para agarrá-la pela cintura, mas lembrava-se muito bem da ordem da esposa. Usou muita força de vontade para manter as mãos sobre o piano e, tentando ignorar um pouco as ações de Hermione, voltou a beijar demoradamente a barriga dela.

As cócegas fizeram-na elevar o tronco. Harry só parou os beijos quando sua amante usou os braços para obrigá-lo a fazê-lo, puxando-o pelos ombros. Isso o fez perder o equilíbrio, e não pôde evitar que seu corpo caísse completamente sobre o dela.

Hermione teve poucos instantes para decidir se o afastaria e manteria a proibição. Harry a pegou com força pelos quadris e, antes que a esposa pudesse se pronunciar, a calou com um intenso beijo. Ela empurrou-o com força pelo peito, tentando afastá-lo, mas Harry segurou-a firmemente com um dos braços, enquanto tirava o outro de baixo do corpo dela para puxar de vez o vestido negro.

Mal a roupa caíra no chão, Hermione já o puxava novamente contra seu corpo, com tanta força que fez Harry perder o ar. Ele afastou-se um pouco, retirou a calcinha dela com as duas mãos e continuou a beijá-la.

Ela prendeu a respiração por alguns instantes, expirando demoradamente em seguida. Notando a reação da esposa, Harry continuou, suas mãos percorrendo as pernas de Hermione e seus lábios fazendo-a cerrar os punhos para controlar-se.

– Amor… – Harry agarrou os pulsos dela, cessando os beijos por apenas um momento –… controle seus impulsos.

Hermione deu uma curta risada, mas logo parou. Harry recomeçara, deixando-a descontrolada. Ele correu as mãos pelos braços da esposa, arranhando-os de leve e fazendo um gemido escapar pelos lábios dela. Hermione precisava que ele parasse; não agüentaria por muito tempo, mas não ousou pedir a Harry para que o fizesse nenhuma vez.





***

No final da madrugada – um pouco depois de Harry e Hermione terem finalmente dormido –, a porta da cabine foi violentamente aberta. Harry pareceu acordar, teve a impressão de ter ouvido um barulho, mas não conseguiu voltar completamente à realidade. Hermione, porém, abrira os olhos e apertara com força o braço direito do marido, murmurando:

– Harry… Harry… tem alguém aqui dentro…

– Ahn? – ele resmungou, relutante em acordar.

– Harry, por favor, acorda! – ela pediu, com urgência na voz. – Alguém entrou na cabine.

Harry sentou-se na cama com os olhos quase fechados e empunhou a varinha, que antes estava embaixo do travesseiro, embora a apontasse para a escuridão. Seus olhos procuravam algum sinal de movimento ou qualquer outra coisa que comprovasse o que a esposa acabara de lhe dizer.

Lumus – murmurou Hermione rapidamente, fazendo a varinha de Harry iluminar a cabine.

– Onde, amor?

– Eu não sei… mas… a porta está aberta.

– Deve ter sido o vento – desacreditou ele, embora estivesse levantando-se para fechá-la.

Colocou os dois pés para fora da cama e, no momento em que erguer-se-ia, alguém agarrou com força seu pulso esquerdo, pegando-o de surpresa. A pessoa o apertou com força, mas Harry não encontrou a voz para protestar.

– Harry? Harry? – Hermione chamou, assustada, em forma de murmúrio.

Ele queria responder, mandá-la fugir, mas, por mais que abrisse a boca e mexesse os lábios, nenhum som era pronunciado, como se estivesse vivendo um pesadelo.

“Amor…? Harry? Harry, por favor, você sabe que eu não gosto dessas brincadeiras.”

A força sobre o pulso dele foi aumentada. Em segundos, sentiu que, além da voz, perdera também os movimentos. Sentiu seu tronco ser suavemente largado sobre o colchão e pôde ver a expressão de surpresa e medo formada no rosto da esposa no momento em que a cabeça de Harry alcançou o colo dela.

“O quê…? Harry!”

– M… M… Mione…

– Amor, o que está acontecendo?

– Cuidado! – ele fazia muito esforço para falar e, ainda que conseguisse produzir algum som, este não passava de um sussurro.

Seu pulso não estava mais preso, mas quase todo seu corpo estava paralisado. Não conseguia nem ao menos movimentar a varinha para executar algum feitiço, por mais que tentasse. Hermione pareceu paralisar-se também, embora o feitiço que a mantinha imóvel fosse outro: o medo.

“Varinha… Varinha, Mione…”

– O que você quer que eu faça, amor? Me diga, o que quer que eu faça? – Hermione curvou-se para se aproximar mais de Harry e conseguir ouvi-lo melhor.

– F… fuja – Harry respondeu, tentando respirar profundamente.

Hermione foi interrompida por outro feitiço silenciador lançado. Entendeu finalmente o que acontecera ao marido, mas não poderia dizê-lo. Quem quer que fosse, invadira a cabine e agora os ameaçava. Inclinando-se um pouco, pôde ver uma bruxa de cabelos ruivos escuros, ajoelhada no chão, com a varinha firmemente apontada para Harry, embora os olhos encarassem Hermione energeticamente.

– Se eu fosse você, não faria isso, Sra. Potter – disse a bruxa, fazendo Hermione recuar.

– Har… – Hermione disse e sentiu o marido pegar sua mão fracamente.

Não posso me mexer… – ele explicou, com dificuldade.

– O que você quer? – Hermione perguntou à bruxa.

– Comece a pensar, Sra. Potter – respondeu Marjorie, correndo os olhos pela cama, à procura da varinha de Hermione.

– Eu não sei… nós não fizemos nada… – ela respondeu, segurando a mão do marido com mais força.

– Continue pensando, Sra. Potter… mas, enquanto isso… – Marjorie ajoelhou-se na cama e enterrou a mão nos cabelos de Harry, puxando-os para trás.

– Solte-o! Tire as mãos de cima dele, sua-

– Muito cuidado com as palavras, Sra. Potter… – ameaçou Marjorie. – Ou seu marido pode… sofrer as conseqüências.

– Como… nos achou aqui? – perguntou Harry.

– Eu tenho meus informantes, Sr. Potter.

– Æthelind?

– Har? – perguntou Hermione, tentando entender do que o esposo falava.

– Mione, ela… eles estavam nos observando no primeiro jantar e…

– Ah, você nos reconheceu, Sr. Potter? Æthelind ficará satisfeito em saber que se lembrou dele depois de tanto tempo…

– Eu…

– É uma pena que você não possa vê-lo… ele queria estar aqui para ver seus últimos segundos, mas teve um compromisso inadiável…

Harry respirou fundo, tentando assegurar a esposa de que tudo ficaria bem. Ele já passara por tantas coisas ruins e tantas situações absurdas que certa parte de sua mente até acreditava nisso. Hermione tentava encontrar os olhos do marido sem sucesso. Marjorie virou-se subitamente para ela, fazendo seu sangue correr ainda mais rápido, ainda mais quente por todo o corpo, e fazendo um suor frio escorrer por sua testa. Mal teve tempo de pensar, agindo por reflexo e levantando o braço direito de Harry para usar a varinha do marido.

Experlliamus!

Marjorie foi jogada de costas contra a parede oposta da cabine. Hermione rapidamente tomou a varinha da mão de Harry e apontou para a bruxa, caída no chão. Ouviu o marido sussurrando alguma coisa e tentando se mexer. Olhou para ele por menos de dois segundos e, quando tornou a apontar a varinha para Marjorie, esta já não estava mais na cabine.

– Você está bem? – Hermione perguntou ao marido, após desfazer os feitiços que o imobilizavam e o calavam.

– Sim… – disse ele, sentando-se e olhando para a porta da cabine, que ainda estava entreaberta.

Depois do incidente, nem Harry, nem Hermione conseguiram dormir novamente. O sol nasceu no horizonte, distante, somente depois de algumas longas horas de conversa entre os dois. Por mais que Harry estivesse tentando tratar de assuntos desimportantes, Hermione percebia que ele continuava tenso, desconfiado de que aquela bruxa – que para ela era uma estranha – pudesse voltar e pegá-los mais uma vez desprevenidos.

– Onde vamos ficar quando chegarmos a Veneza? – Hermione perguntou.

– No Hotel Cipriani… as reservas já foram confirmadas – ele sorriu.

– Hum, falta muito para chegarmos?

– Ansiosa?

– Um pouco… – confessou Hermione, mordendo o lábio inferior.

– Nós podemos almoçar à beira da piscina quando chegarmos… – Harry, que abraçava a esposa por trás, acariciou o pescoço dela enquanto continuava falar – … ou podemos ir para a suíte…

– Ah, você deve estar com fome, Harry, mal tocou no café… – desconversou Hermione, segurando o riso.

– É, tem razão – respondeu ele, retirando bruscamente o braço que envolvia a esposa.





***
Próximo capítulo: um tour por Veneza, um baile de máscaras e um visitante indesejável recebe Harry e Hermione na nova casa.

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