OS OLHOS DE VEGA



A mulher olhou diretamente para Harry e achou que aquele homem era confiável. Ela começou a falar com voz baixa e firme, sem tremer ou titubear:
- Este é um dos poucos lugares no seu mundo onde se pode abrir um portal para a minha dimensão diretamente, sem precisar passar pelo mundo de Nowhere, por isso que estou aqui. Eu não pretendo ferir ou machucar ninguém, mas não podia me apresentar de forma pacífica, pois sou uma fugitiva injustiçada. Mas não quero passar mais um dia nesse mundo... quero ir para casa, por isso preciso da ajuda de uma criança bruxa...
- Uma criança bruxa?
- Sim... eu não conseguiria abrir o portal sem a presença de uma criança especial, capaz de provocar um determinado fenômeno, uma criança como  aquele menino - ela disse apontando para Neil Lupin, que se espantou. - eu prometo não fazer nada a ele, quando tudo isso acabar, ele estará de volta são e salvo.
- E que garantias você dá? - Perguntou Harry - eu não posso permitir que você leve o garoto sem garantir a sua volta.
- Há um aliado meu aqui - disse Vega - ele ficará a disposição de vocês até que eu volte... seu nome é Rufus... - O homem, que ninguém mais era que Lúcio Malfoy disfarçado, saiu de um canto começou a caminhar na direção onde estavam Vega,  seu prisioneiro e Harry. Subitamente parou, e para surpresa de todos, apontou a varinha rapidamente para a mulher sombra e gritou:
- Lumos Solaris - pega de surpresa, ela foi nocauteada e caiu ao chão quando o jorro de luz atingiu seus olhos dourados. Era algo tão inesperado, que todos no salão olharam para o homem, que tremia, espantado. Ele sussurrou - imobilizem-na, rápido.
O que ninguém poderia imaginar, é que aquilo era uma traição. Desde que fora liberto por Vega, Lúcio mudara muito sua forma de pensar. A sua ambição fora totalmente deixada de lado: ele tinha dinheiro, um lugar para se esconder, uma vida razoável... para que se complicar? Para entender como ele pensava, basta lembrar dos carrascos nazistas que depois de diversas atrocidades na juventude, fugiram de seus crimes e disfarçaram-se como simpáticos velhinhos: parecendo pelo menos dez anos mais velho graças aos sofrimentos de Oz, assim era Lúcio Malfoy: ele tentara ser um bruxo das trevas e tentara ter poder, mas agora só queria sossego.
E Vega sem dúvida alguma atrapalhava seu plano. Porque a partir do momento que se revelasse, se ele aparecesse como seu aliado, eles fariam perguntas: ele já fora interrogado por aurores antes e sabia que não era fácil... seria impossível mentir depois que Vega partisse, eles haviam combinado que quando ela fosse para a fronteira, cada um seguiria seu destino... mas lentamente Lúcio conseguiu imaginar uma forma de se livrar dela e ainda parecer acima de qualquer suspeita: no acervo que ele possuía de livros, descobriu tudo que era possível saber sobre a raça escondida: o povo da sombra.
Era na verdade muito pouco o que havia disponível sobre os obscuros, mas uma informação preciosa ele obteve: luz forte nos olhos poderia nocautear um elemento do povo da sombra. Foi fácil fingir-se aliado dela, foi fácil ser dócil a ponto de fazê-la acreditar que ele colaboraria. E agora ela jazia caída no chão, e ele, trêmulho, confessava, encenando um pavor que não sentia, que havia colaborado com ela porque ela o forçara a isso. E essa era a parte mais fácil, ele fizera encenação idêntica quando ainda era jovem e Voldemort havia sido derrotado e da mesma forma, fizera-se de arrependido para o Meste das Trevas quando este viera do exílio.
- Ela me forçou... eu não podia evitar, ela me encontrou uma noite na minha terra natal e me forçou a vir para Hogsmeade e eu...
- Calma - disse Harry, aproximando-se do homem e pegando-o pelos ombros - está tudo bem agora... depois você pode contar-nos sua história...
- Imobilizem-na - gritou Lúcio, encenando histeria. Hope, Stoneheart e outros aurores presentes na festa estavam em volta da mulher sombra desfalecida e tentavam sem sucesso conjurar cordas que a prendessem, mas nem bem surgiam, as cordas pareciam atravessar a matéria do qual Vega era feita.
- Professor Potter - disse Stoneheart - Nós nunca havíaos lidado com criaturas como esta antes... ela está desacordada por enquanto... o melhor é levá-la para uma sala isolada e deixar um auror vigiando-a.
- Não seria arriscado? - perguntou Hope. Harry encarou a moça. Ao contrário deles, ele já sabia algo sobre os povos da sombra: Luccas Lux, o guerreiro da luz, contara algumas coisas sobre o povo inimigo de seu povo: os homens e mulheres das sombras. Harry sabia que eles podiam interceptar a vontade de uma pessoa e fazê-la curvar-se à sua. Por isso fora tão compreensivo com o livreiro. Em nenhum momento nem ele nem nenhum outro auror ali presente pensou em pressionar o homem. E agora Harry imaginava uma forma de prender a mulher em algum lugar onde ela não pudesse sair nem mudar a vontade de ninguém. Ele então chamou seu padrinho, que era a pessoa ali que melhor conhecia a escola, para achar um cárcere ideal para Vega:
- Sirius, existe alguma sala em Hogwarts com paredes de ferro? Essa é a única matéria que o povo da sombra não consegue mover.
- Não. Mas podemos prendê-la na sala de armaduras. Há lá uma câmara de ferro que era usada para isolar feiticeiros das trevas... acho que seria o melhor lugar.
- Ótimo - disse Harry, assumindo o controle da situação - vamos conjurar grilhões nela e levá-la para esta sala.
Em pouco tempo Vega já estava acorrentada a dois aurores ainda desacordada, e estes a ergueram sobre os ombros, deixando seus pés agrilhoados arrastando no chão, carregando-a sem dificuldade alguma, porquanto fosse muito alta, ela era leve porque feita de uma matéria sutil demais. O peso que carregavam, era apenas o peso dos grilhões.
A festa estava arruinada, e muitos convidados deixavam seus lugares para sair. Mas Severo Snape prosseguia impassível onde estava. Algo lhe dizia que aquela história estava longe de acabar: ele estava sendo roído por um câncer, ele se achava velho... mas ainda tinha faro para coisas suspeitas, porque por dentro ele ainda era o Mr Sandman. E quando os aurores se dirigiram ao corredor que levava à escadaria e dali para a sala das armaduras, ele foi atrás.
Ninguém percebeu quando Vega abriu os olhos. Ela demorou apenas um segundo para perceber que fora traída, mas não se preocupou imediatamente com Lúcio. Antes de tudo, ela queria fugir. Quase riu dos grilhões em suas mãos. Ferro a prendia, era verdade, mas ela ainda tinha um recurso de fuga muito útil, que por desconhecimento eles não haviam levado em consideração: ela podia escapar pelas sombras, e quando entrava numa sombra, podia fugir perfeitamente de qualquer grilhão.
Ao longo dos corredores mal iluminados, ela aplicou seus olhos ao chão para procurar o ponto de fuga ideal, um ponto onde a sombra fosse total. Viu a luz de um archote mais adiante, e uma coluna na parede que iluminada pelo facho de luz, lançava no chão uma longa sombra negra. Assim que passou pelo archote, Vega olhou para o chão e quando seus pés encostaram na sombra, ela deslizou para dentro dela, desaparecendo aos olhos humanos. Harry, que ia atrás do grupo, só viu o que acontecera quando os grilhões caíram ao chão com um som metálico.
- Essa não! - gritou - Mas que droga... iluminem o corredor, agora! Ela não pode escapar
Os aurores ao longo do corredor lançaram fachos de luz sobre as colunas e sobre o teto, mas era tarde demais, a mulher sombra já não estava ali, e ninguém podia agora imaginar em qual sombra do castelo ela pudesse estar escondida. Harry reuniu rapidamente os aurores presentes para uma reunião de emergência. Ele achava que com a turma de onze aurores que haviam ido para a festa talvez pudesse lançar algum tipo de feitiço antigo que ajudasse a localizar a mulher sombra. O desconhecimento sobre a raça dela era um grande impecilho. Há pelo menos mil anos não se tinha notícia de nenhum elemento do povo das sombras que fosse hostil.
Mas Harry não pôde contar com os onze aurores, porque a reunião foi subitamente interrompida pela entrada intempestiva do ministro da magia e seu vice, Ludo Bagman.
- Desde quando - começou Percy - os aurores tem autonomia para insubordinar-se e fazer reuniões secretas quando o ministro está no castelo, e em perigo?
- Você não estava em perigo, Percy - disse Harry bastante contrariado. Estavam perdendo tempo discutindo enquanto a mulher sombra estava solta pelo castelo. - Eu deixei um Auror de guarda com você e Ludo Bagman... a essa altura imaginei que você já estivesse em Londres! Já é quase uma da manhã e estamos perdendo nosso tempo discutindo bobagem.
- Harry... você não me respeita como ministro, eu sei disso... mas a sua arrogância já nos custou caro. A mulher Sombra já escapou!
- E vai continuar solta enquanto você nos atravancar aqui!
- Não voltarei a Londres enquanto ela não estiver presa! E quero quatro aurores para guardar a hospedaria em Hogsmeade onde minha família e os Bagman vão repousar
- Você está louco, Percy? QUATRO aurores? A mulher sombra não está interessada em você. E sim no menino Lupin!
- É uma ordem minha, Harry! Eu ainda sou uma autoridade!
- Autoridade ou não, não posso deslocar quatro aurores para passar a noite em Hogsmeade quando a ameaça está aqui, não lá. E o filho dos Lupin já seguiu para a casa de Sheeba com ela e a família, e só sai de lá quando a mulher sombra estiver presa... eu não arriscaria deixá-lo aqui para ser pego. Instruí minha mulher e o pai do menino e eles já colocaram um feitiço de iluminação permanente em volta da casa, a mulher sombra será incapaz de atravessá-lo.  
- Muito bem... se você não quer admitir a falta de segurança para mim e minha família, eu posso denunciá-lo ao conselho e pedir seu afastamento por insubordinação!
- O senhor teria então que afastar todos nós - disse Gilles Stoneheart, dando dois passos à frente.- Nenhum dos que está aqui nesta sala ficará contra o professor Potter.
- Mas...
- Senhor Ministro - falou Angus Stoneheart, o pai de Gilles, que estivera na festa e agora fazia parte da reunião. - eu sou um auror bem grande e praticamente valho por dois... me ofereço para ir para Hogsmeade fazer a sua segurança. Não afaste nosso melhor auror por causa de uma desavença pessoal.
- Com licença - uma voz soou na porta e Gilles fez uma careta de desagrado. Bernardo Fall estava parado à porta da sala. - eu me ofereço para acompanhar o Auror Stoneheart.
- Você? - perguntou Percy - Você não é mais oficialmente bruxo. Não pode nos ajudar.
- Isso não é verdade. Pode se tirar o nome de um bruxo, senhor ministro... mas jamais lhe apagarão o poder mágico - habilmente, Bernardo pôs a mão sobre uma mesa e falou baixo uma conjuração e esta transformou-se num porco. Só Gilles notou que ele usava as mesmas luvas que sempre o vira calçando em Londres, mas que ele não usara durante a festa.  - eu ainda tenho todos os meus poderes, senhor... e posso fazer isso mais rápido porque não precisaria apanhar uma varinha no bolso.
Hope deu um imenso sorriso, e Bernardo sorriu-lhe de volta. Incomodado, Gilles afrouxou a gravata, e sem sentir, arrancou o cravo que usava da lapela, largando-o sobre a mesa.  Hope então disse:
- Senhor Ministro... confie em Bernardo, ele pode realmente ser útil, eu o conheço muito bem e...
- Está bem... mas exijo a presença de mais um auror para fazer ronda em Hogsmeade.
- Se é assim... - Troy Adams saiu o meio dos outros. Desagradava-lhe muito a idéia de ser um cão de guarda, mas ainda era melhor que ser chefiado por Harry - Podemos ir imediatamente, senhor Ministro.
Harry respirou aliviado. Ficava ainda uma boa turma para a busca, e quando amanhecesse, seria mais fácil iluminar os cantos sombrios que restassem.
O que nem ele, nem mais ninguém poderia  imaginar é que naquele mesmo momento havia outra reunião de interessados em capturar a mulher sombra, e que o seu filho a liderava: Sirius determinara que todos os alunos dormissem no salão principal, e para previnir o deslocamento da mulher sombra pelo recinto, iluminara todo o salão. Era óbvio que não havia sequer um aluno dormindo. E num canto, enfiados em sacos de dormir, Abel, Henry e Kayla conversavam baixo para não chamar a atenção dos monitores:
- Eu aposto - disse Henry - que a coisa já está em Hogsmeade, deve ter ido atrás do Neil
- Pois eu acho que ela ainda está por aqui - disse Abel - que bom que amanhã é domingo e a gente vai poder ver os aurores caçando... eu vou pedir para o meu pai deixar eu ir atrás dela também.
- Até parece que o tio Harry vai deixar... meu pai foi oferecer ajuda e ele não quis, e olha que meu pai é adulto... - disse Henry. - Eu vi ele falar: vá para Hogsmeade com Hermione e fique de olho em Percy.
- Pois é. Eu acho que ele só deixou meu pai ajudar porque ele é professor de Defesa Contra as Artes das Trevas - disse Kayla. - acho que no fundo, caçar uma mulher sombra é que nem caçar vampiros.
- Não - disse Henry - é pior. Vampiros não podem se esconder nas sombras
- Mas viram fumaça
- Bah, eles não podem virar fumaça de dia...
- Mas podem se enterrar...
- Vocês dois querem calar a boca? - falou Abel - a gente está falando da mulher sombra, e não de vampiros...
- Uma coisa eu não entedi - disse Kayla - o que ela ia querer com o coitado do Neil? Fora aquelas brincadeiras que ele e o Claudius fazem, ele não me parece ter nenhum "poder especial"
- Deve ter a ver com ele ser lobisomem - disse Abel.
- Ele é lobisomem? - perguntou Kayla - Que horror!
- Pelo amor de Deus, Kayla - disse Henry - em que mundo você vive? Hoje em dia não é drama nenhum ser Lobisomem. Tem a tal poção que se toma e não acontece nada... quer dizer, a pessoa só vira lobo, mas um lobo bobo...
- Adoro as suas definições - riu Abel. - Amanhã vamos caçar a mulher sombra?
- Ah, sim, estamos lá... - disse Henry - o que você vai fazer? Cutucar todas as sombras do castelo e dizer "ei, mulher-sombra, saia daí"? Deixa isso para os profissionais...
- Henry seu bundão, onde está seu espírito de aventura?
- Guardado no meu malão, num dormitório da Grifiória. Onde aliás, eu queria estar, de preferência dormindo... com essa luz acesa não dá nem pra fechar os olhos!
- Bom - disse Kayla puxando as cobertas sobre a cabeça - eu vou dar meu jeito. Com ou sem mulher sombra, amanhã não quero passar o dia todo com sono. Boa noite, gente.
- Você não vai dormir, vai? - perguntou Abel
- Pode crer que sim - disse Henry puxando as cobertas da mesma forma que Kayla.
- Saco - disse Abel deitando de barriga para cima e olhando para o teto iluminado. Mesmo com toda a luz no salão, pouco tempo depois o menino dormiu. Sem sentir, escorregou para o mundo dos sonhos suavemente. E se viu num lugar estranho, seguindo alguém de quem só via as costas.
- Ei - chamou - a pessoa, que andava curvada, virou-se para ele e sorriu. Era um homem velho, e Abel viu seu rosto. Mas quando acordasse, ele não se lembraria por mais que se esforçasse, daquele rosto. O homem continuou seguindo, e Abel disse:
- Quem é você? O que eu estou fazendo aqui?
- Quem é você... essa é uma pergunta que você deve fazer a si mesmo, Griffndor-Slytherin.  Quem você vai ser?
- O quê? - o velho voltou-se repentinamente e o segurou pelos ombros, encarando-lhe a face assustada:
- É chegada a hora em que a conspiração do destino vai se completar, e você vai fazer a escolha. Pense bem no que vai escolher, e lembre-se das conseqüências das suas escolhas impensadas.
- Quem é você? - o velho sorriu.
- Eu sou a ajuda...  vou lhe dizer uma coisa, e quero que você se lembre dela: às vezes a verdade se esconde de todos, e o julgamento de um só se faz necessário. Escute o que a mulher sombra tem a lhe dizer, apenas escute...
- A partir daí, Abel mergulhou numa penumbra indecifrável e sentiu-se cair, até que abriu os olhos, e percebeu que tudo fora um sonho. Ele tentou se lembrar das circunstâncias do sonho, mas sobrou muito pouco em sua mente... apenas duas frases soltas: "a conspiração do destino vai se completar, e você vai fazer a escolha. Pense bem no que vai escolher, e lembre-se das conseqüências das suas escolhas impensadas" e o "julgamento de um só se faz necessário. Escute o que a mulher sombra tem a lhe dizer, apenas escute..."
- Escutar o que a mulher sombra tem a dizer? Como?
- Abel, você dormiu direito? - ele olhou para o lado e viu Kayla já de pé e enrolando o saco de dormir e as cobertas.
- Hã? Eu tive um sonho estranho...
- Todos devem ter tido, dormindo mal desse jeito... eu tive um pesadelo: sonhei que meu pai morria caindo de um abismo.
- Nossa, que trágico - disse Henry, que já acordara mas passara os últimos vinte minutos deitado coçando os olhos ardidos - eu sonhei com uma montanha de macarrão...
- Montanha de macarrão? - perguntaram os dois quase ao mesmo tempo.
- Vocês estão falando dos sonhos - disse o monitor chefe se aproximando - não se preocupem... não esqueçam que aqui é um salão encantado... dormir aqui pode induzir a ter sonhos estranhos - disse Celsus Black aproveitando para enxotá-los dali, já que o café da manhã precisava ser servido. Minutos depois, Abel nem pensava mais no sonho que tivera.
Os alunos foram "encorajados", ou melhor dizendo, obrigados a passar o dia fora do castelo para não atrapalhar o trabalho dos aurores. Para os mais velhos improvisou-se uma visita a Hogsmeade, e os mais novos tinham todo o jardim do castelo e a beira do lago para ficar. Kayla, Henry e Abel observavam de longe Snape, que parecia vigiar os alunos.
- Olha lá o morcego velho...- disse Henry - meu pai disse que quando esse cara era professor era osso duro de roer.
- Queria saber porque ele não foi embora com os outros - disse Abel - e parece que ele está o dia todo de olho na gente. Ele e aquela dona que ele trouxe junto, olha ela lá chegando.
- Aquela dona é minha parenta - disse Kayla - é médica dele. Parece que ele está doente... minha mãe também é médica dele.
- Então o que ele tem é grave, hein?
- É sim - desconversou Kayla. Ela sabia que não devia comentar sobre a doença do homem com os colegas, sua mãe pedira segredo.
Abel observou entediado Snape conjurar um banco para que ele e a sua médica sentassem. Henry comentou que aquilo parecia exibicionismo, porque a médica bateu palminhas, o que fez os três garotos rirem. Henry e Kayla começaram a discutir um trabalho de grupo de uma matéria que Abel não fazia com eles e o menino ficou entediado, mas repentinamente teve uma idéia:
- Vocês topam um xadrez de bruxo? Vou pegar meu tabuleiro no dormitório...
- Ei, Abel, não disseram que a gente não deveria entrar no castelo?
- Ah, são três minutos... já volto.
Abel correu pelo gramado, e pôde ver um casal de aurores iluminando as plantas no jardim, discutindo o tempo todo. Correu pela escada e depois de atravessar o saguão de entrada, ganhou o corredor das masmorras, onde havia mais uma dupla de aurores e finalmente o salão comunal da Sonserina. Os pés do menino batiam com força no chão, de certa forma ele não queria admitir, mas estava com medo das sombras do castelo. Quando abriu o malão, um barulho o assustou. Ele virou-se e perguntou, ofengante:
- Quem está aí?
O silêncio respondeu. Pegou muito rápido o tabuleiro e as peças de xadrez, correndo até as escadas da entrada de Hogwarts, onde chegou respirando ruidosamente. O casal desaparecera do jardim, e ele podia ouvir ao longe a gritaria no campo de quadribol. Atrás dele, o castelo estava num silêncio medonho. Respirou fundo antes de começar a descer as escadas, mas um olhar sobre ele o fez gelar.
Abel virou a cabeça lentamente na direção da floresta proibida. Ela estava lá. Ele não a via, mas ela não estava no castelo, nem no jardim, nem em lugar algum onde os aurores a procuravam. Ela estava na floresta, ele podia sentí-la olhando para ele. Hesitou um segundo entre correr de volta para dentro do castelo e gritar pelo pai, e correr pelo jardim até os aurores que já deviam estar do outro lado do castelo, que àquela hora ficava na sombra. Mas não foi nada disso que ele fez. Uma voz ecoou na sua cabeça:
"julgamento de um só se faz necessário. Escute o que a mulher sombra tem a lhe dizer, apenas escute..."
"O julgamento se faz necessário..." ele pensava enquanto andava devagar pela grama até a orla da floresta. A cabana de Hagrid parecia vazia, a floresta àquela hora era semi sombria, ninguém imaginaria que ela tivesse se escondido ali, porque o castelo tinha muito mais sombras e nichos... e haviam iluminado o entorno do castelo... se ela chegara ali, fora sem dúvida de forma engenhosa. Ele parou hesitante sem saber o que fazer, nem porque estava ali. Agora parecia que tinha feito uma grande estupidez. Repentinamente,  disse:
- Eu vim para te escutar...
Sua nuca arrepiou-se quando um barulho de farfalhar de folhas secas ecoou à sua frente e à esquerda. Ele avançou cautelosamente, e olhou atrás de uma árvore enorme, cuja sombra da copa obscurecia o chão ao seu redor. Ela estava lá, e seus olhos dourados encontraram os do menino.
O choque para ele foi inevitável. A mulher sombra não parecia ameaçadora e cruel agora, que ele a via de perto, encolhida e amedrontada atrás daquela árvore. E ela estava ferida, muito ferida. Sua estranha pele de sombra estava rompida em vários lugares, de onde parecia lentamente evolar uma fumaça estranha e suave. Dos olhos dourados escorria uma substância negra estranha, que lembrava desagradavelmente sangue, um sangue negro. Ela ergueu os olhos para ele e disse apenas uma frase:
- Estou morrendo...
- Eu...
- Preciso voltar ao meu mundo... ou vou desaparecer... vou evaporar como uma gota de orvalho no sol... eu rastejei pela grama iluminada, quando o sol estava nascendo, e a luz me machucou muito... se mais um facho de luz me pegar...
- O que eu posso fazer por você... Vega? - Ela o olhou de outra forma, então. Estava fraca, ele sabia disso, e não pensava em entregá-la para os aurores. Ela sabia que aquele menino, como o que o diabrete havia observado, tinha dentro de si bem plantadas uma semente boa e uma ruim. Assim como a menina que sempre andava com ele, assim como quase todas as pessoas. Mas poucas tinham duas sementes do mesmo tamanho, forma e potencial como aquele menino tinha. Ela não o escolhera porque julgara que o outro, sendo mais velho, proporcionaria um vórtice maior. Agora ela via que estava enganada, e que ele fora levado até ali... a conspiração do destino, que a ferira e deixara à morte... não era mais ela, Vega, que precisava do vórtice, era algo muito maior... ela sorriu e disse:
- Você pode me ajudar... há dentro de você um poder que pode fazer renascer um mundo, o meu mundo, e libertar dois povos... se você quiser me ajudar, saiba que eu vou usar minhas últimas forças para provocar um fenômeno que vai arrastar a nós dois para a fronteira entre mundos... o nome deste fenômeno é vórtice, e quando ele atingir a fronteira, as portas de todos os mundos invioláveis serão abertas, inclusive a que há três mil anos cerra  meu mundo. Se você aceitar, e apenas se aceitar, eu libertarei meu povo, depois morrerei.
- E eu?
- Você tem as sementes, e vai sobreviver... provavelmente seis dos guardiões vão te ajudar a voltar, menos minha irmã, Maya, a dos olhos prateados...
- E se eles não me mandarem de volta?
Ela olhou o rosto do menino, impassível, que a olhava com estranhamento. Então perguntou:
- Qual é o seu nome?
- Abel, Abel Potter...
- Abel... - ela fechou os olhos e sorriu - Claro... não poderia ser outro o nome... procure o guardião do mundo da luz, ele pode ajudá-lo na fronteira...
- Abel - uma voz chamou ao longe e Abel se voltou. Era a voz de Kayla. Logo depois, ele ouviu o chamado de Henry.
- Meus amigos... eles estão me chamando...
- Você tem que decidir, Abel... - Vega o encarou - a mim, não resta muito tempo... e dependo da tua escolha...
- O que eu devo fazer para... como vamos provocar o vórtice?
A mulher sombra sorriu e estendeu-lhe a mão. Era fria e estranha ao toque, parecia que iria se desfazer a qualquer instante. Então ela disse:
- Olhe nos meus olhos... o que você vê? - Abel olhou e viu seu reflexo, e de repente, não era mais seu reflexo, mas o reflexo de uma serpente lutando contra um leão. Ele arregalou os olhos incapaz de dizer qualquer coisa. - está vendo? Isso é o seu coração, Abel Potter, isso é o que lhe vai na alma... a luta eterna. Você tem as duas sementes, e um dia uma delas vai prevalecer, mas enquanto isso, elas lutam dentro de você... pode sentir o poder, Abel?
- Posso... eu posso ver...
- Empreste-me seu poder, Abel, por um instante... permita que eu entre em sua mente, e domine a sua vontade...
- Abel! - a voz de Kayla soou na beira da Floresta. Abel olhou na direção dela e a viu junto com Henry. Por um segundo pensou em parar e largar a mão de Vega. Repentinamente ele viu que mais três pessoas corriam na direção da floresta: o casal de aurores e Snape. Então decidiu-se. Olhando para Vega falou:
- Eu permito!
Um vento estranho sacudiu a floresta, e Abel não pôde dizer ao certo de onde ele veio. Repentinamente, viu que o vento vinha dele mesmo, e o mundo parecia girar em volta dele, com uma velocidade cada vez maior. Na verdade, para quem via de fora, eram Abel e Vega que giravam freneticamente de forma apavorante, até tornarem-se uma estranha mancha escura. A terra tremeu em volta deles, e com um barulho ensurdecedor, surgiu uma fenda espiral onde estavam, que parecia arrastar o que havia em volta. Kayla e Henry, na beira da floresta, foram subitamente arrastados para a fenda, e Snape, que vinha mais atrás gritou:
- Segurem-se na árvore!
Tarde demais, as crianças já desapareciam na mesma mancha que tragava Abel e Vega, na mancha que era o portal para a fronteira. Snape olhou para os aurores, que eram Hope e Giles e sem uma palavra, deu um passo à frente, e foi arrastado também. Ele não podia permitir que aquelas crianças partissem para o desconhecido sem a presença de um adulto. Hope entendeu, e pensou em fazer a mesma coisa. Giles a olhou, e sem saber porque, a abraçou antes de pular com ela no centro do vórtice, e foi essa cena que Harry viu quando apareceu na porta do castelo, ele que ouvira o início do Vórtice de uma sala de aula, e descera correndo ao sentir que era seu filho que o provocava.
- Abeeeeeeeel! - ele gritou, no instante em que Giles e Hope pularam no centro do vórtice. Então, com um ruido seco, o portal se fechou, e depois disso, só sobrou o silêncio assustado da floresta proibida.

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