De frente com o passado

De frente com o passado



“Um sorriso vale mais que mil palavras”


Por enquanto ainda está um pouco monótono; mas logo começa a “ação”. Espero que você goste, Nani.


Capítulo Segundo: De frente com o passado


Estava sentado ali, mais uma vez, como estivera durante toda a semana; definhara visivelmente nos últimos anos, e mais ainda nas últimas semanas. E agora, sentado melancolicamente em sua poltrona á frente do fogo, Harry parecia ter o dobro da sua verdadeira idade; seus vinte e seis anos eram esquecidos e davam deixa á cinqüenta... É terrível como a solidão pode atacar as pessoas; principalmente aquelas que se sentem preparadas para ela.
Bebericava seu conhaque, como sempre, e pensava na sua solidão e em Gina; como ela conseguia estar em uma situação melhor do que a dele, tendo chegado ali num estado tão pior? Ele se sentia, além de velho, deprimido e solitário, um perdedor. Afinal, não era certo... Ele tinha dinheiro, um belo apartamento, tinha Trynith... Fechou os olhos, seus lábios se crispando, enquanto ouvia ela no banheiro, cantando no chuveiro; era uma bela moça, e tudo o mais, mas fazia ele sentir-se sujo. Sujo, como alguém que rouba, que mata... Porque ele estava pagando para uma mulher ficar com ele. Não, melhor do que sujo, ele sentia-se patético; não tinha capacidade para fazer ninguém se apaixonar verdadeiramente por ele.
Numa súbita raiva, jogou o copo de conhaque no fogo, e urrou; com um estalar de trincos, Trynith apareceu na sala, toda molhada, nua, o encarando como se ele fosse um doente mental; lágrimas escorriam dos olhos de Harry, seus punhos fechados, o chão sujo de conhaque e os lábios retorcidos, enquanto o fogo subia mais e mais.
“Harry... Está tudo bem...?” antes que ela pudesse dizer sequer mais uma palavra, Harry se jogou na sua direção, soluçando compulsivamente, e a agarrando pela cintura.
“Trynith... Oh, Trynith... Eu sou uma merda… Uma merda…”
“Harry…?” ela levantou as duas sobrancelhas e o encarou assustada “O que houve...?”
”Por quê? Por que, Trynith, por quê? Por que eu mereço tudo isso...?”
”Harry, tudo isso o quê?” ela abaixou-se, mirando nos olhos dele, os lábios rosados roçando nas bochechas dele com suavidade “O que houve?”
”Eu sou uma merda” ele respondeu, fechando os olhos com mais força ainda e se jogando na direção dela, a beijando com força “Não me deixe sozinho, por favor” ele murmurou, enquanto a beijava doentiamente “Não me deixe morrer sozinho...”



Ela batucava com os dedos em cima da pequena mesinha de madeira onde ficava apoiado o telefone, o fone apoiado entre o ouvido e o ombro, a caneta rodando entre os dedos da outra mão, a folha de papel esperando para ser usada em cima da mesinha; o telefone tocava e tocava e tocava, mas não era atendido.
“Droga; ele deve ter saído...” ela murmurou, colocando o fone no gancho; mas então lembrou-se da tristeza imensa que encontrara naqueles olhos, e se viu pensando na saída súbita dele do estabelecimento; franziu as sobrancelhas e buscou novamente pelo fone, desta vez discando um número diferente; do outro lado, uma voz suave e nasalada atendeu.
“Capline, bom dia. Aqui quem fala é Suzette; o que deseja?”
“Eu gostaria de saber o endereço do seguinte número telefônico...”
“Aguarde um momento, sim, que eu passarei sua chamada para a linha de telefonia” a mulher interrompeu-a bruscamente, e ela se viu xingando as malditas companhias telefônicas.
“Claro” murmurou para o bocal, mas a mulher já estava passando a linha.
“Capline, linha de telefonia, bom dia. Aqui quem fala é Shirlene, o que deseja?”
”Eu gostaria de saber o endereço do seguinte número de telefone...”
”Qual a área?”
”Perdão?”
”Qual a área?”
”Que área?”
”A área de atendimento”
”Não faço idéia”
“Qual o número que você disca antes do telefone” a mulher disse do outro lado, em perfeito tom de deboche; ela bufou do outro lado.
“Me desculpe, eu não havia entendido a sua pergunta; acho que a área é Nova Iorque mesmo...”
”Certo. Qual o número?”
”56842147”
“Certo. Aguarde um instante” e ela aguardou; segundo o relógio que tinha em pulso, a mulher do outro lado da linha demorou exatamente três minutos e meio para descobrir o endereço que ela buscava “É na vinte e cinco com a Central Park... Prédio número 2548 apartamento 122”
”Obrigada” Gina deu um sorriso para o bocal e colocou o fone no gancho mais uma vez; sorrindo, jogou a bolsa no ombro, vestiu o casaco e foi atrás da casa de Harry.



O vento rodopiava e as folhas do gigantesco cedro em frente ao prédio murmuravam palavras suaves de conforto; ela ajeitou melhor o surrado casaco ao redor do corpo e esfregou as mãos para se aquecer; entrou no prédio, subiu até o andar certo, parou na frente da porta e tomou um grande fôlego. Suspirando, passou as mãos pelos cabelos vermelhos, tentando os assentar no lugar, e então abriu um sorriso.
Bateu na porta.
Ninguém atendeu.
Bateu na porta.
Ninguém atendeu.
Bateu na porta.
Encostou na parede.
Ninguém atendeu.
“Harry!” chamou com um tom brando e alto, e então, finalmente, houve resposta. Um resmungo, ou o que quer que fosse, provindo de dentro.
Em alguns segundos, um Harry semi-nu, enrolado em uma toalha e com os cabelos mais despenteados que nunca, atendeu.
“Gina...?” ele perguntou com a voz sonolenta enquanto esfregava os olhos. Ela sorriu, baixando o rosto e desviando precariamente o olhar da pele pálida dele.
“Olá, Harry. Fiquei preocupada... Você fugiu assim, sabe, tão rápido...” ela abriu um sorriso constrangido e Harry olhou para si.
“Oh, desculpe... Er... Quer entrar?” coçou a nuca e deu um sorrisinho, abrindo espaço para dar passagem á ela.
“Se não for incomodar...” ela levantou os olhos e o encarou.
“Ah, não, não é incomodo algum... Venha, entre... Apenas... Apenas não repare na bagunça” ele murmurou enquanto entrava rapidamente na casa e pegava algumas roupas em cima do sofá.
Gina entrou, sorrindo, e encontrou um apartamento triste e meio vazio á sua espera; esperava algo mais vivo da parte do Harry, mas conseguia viver com o fato do apartamento dele parecer mais um pequeno flat de hotel do que uma casa.
“Hum... Sinta-se á vontade... Eu... Eu vou colocar uma roupa descente...” ele coçou novamente a nuca e entrou no que parecia ser um quarto; Gina continuou parada no mesmo lugar, dando uma olhada á sua volta; então, caminhou até a janela e abriu as cortinas, deixando a luz entrar; ficou parada ali um segundo, com a luz batendo placidamente por seu rosto, formando um jogo de luz e sombra lindo de se ver, banhado pelo cobre dos cabelos. Suspirou, e então ouviu uma voz.
“Er... Olá...” virou-se e deu de cara com uma jovem bela, muito bela, de longos cabelos castanhos e brilhantes olhos cor de mel, que lhe sorria um dos mais belos sorrisos que ela vira em vida; havia uma mistura de calma e eletricidade nela, de promiscuidade e sutilidade, de mulher e menina; Gina se pegou suspirando mais uma vez e soltando um pequeno sorriso para a recém-chegada.
“Olá”
“Você é...?”
”Gina. Quer dizer, Virgínia. Virgínia Wesley”
”Trynith Summer”
”Muito prazer… Então você é que é a bela namorada misteriosa do Harry?”
”Perdão?” Trynith ficou piscando ali, piscando e encarando Gina com um sorriso abobado no rosto.
“Oh, me desculpe, você não é a namorada do Harry...?”
”Ah, vejo que conheceu Trynith” Harry saiu do quarto puxando uma camiseta pela cabeça, e olhou profundamente para os olhos da morena; chegando perto, abriu um meio-sorriso e abraçou-a, beijando-lhe a bochecha com carinho “Gina, esta é Trynith, de quem eu lhe falei”
”Me desculpe...” Trynith começou, tentando aplicar um ar de normalidade a situação “É que eu realmente não esperava que o Harryquinho fosse me apresentar como sua namorada para ninguém... Sabe como é, ainda não é nada oficial” deu um sorriso maroto e encarou Gina, que lhe sorria.
“Ah, certo, entendo”
“Bem... Alguém quer um...”
”Café? Eu adoraria, querido” Trynith disse com um sorriso “Quer que eu prepare? Ah, mas é claro que quer... Gina, aceita café?”
”Oh, sim, por favor...” abriu um sorriso para ela enquanto esticava os olhos para a garrafa de conhaque no fim, que estava ao seu lado “Aceito sim”
Harry se jogou em uma poltrona em frente á lareira assim que Trynith saiu da sala, e Gina sentou-se numa cadeira que havia ao seu lado.
“Ela é muito boa para mim” ele murmurou com os olhos fechados, e Gina sorriu, ao seu lado.
“Parece ser mesmo...”
“Eu tenho medo” ele disse sobre a respiração, e o sorriso de Gina sumiu.
“Medo de quê?”
”Medo de.. Não sei. Apenas tenho medo. Ela me fez ver isso ontem...” abriu os olhos e a encarou “Ela é boa demais para mim...”
Ficaram em silêncio.




Ela se jogou na cama, terminando de enxugar os cabelos; o robe estava caindo em um dos lados do ombro, dando um charme diferente para ela; os cabelos longos e castanhos estavam mais escuros do que o normal e molhados; e ela continuava insistindo na tarefa de enxugá-los.
“Quer dizer que agora eu sou sua nova namorada? Não sabia que tinha subido de posto; acho melhor abaixar o preço...” sorriu para ele e elegantemente puxou um pente de marfim que ganhara de Harry no último aniversário, de vinte e um anos; passou o pente preguiçosamente por toda a extensão dos cabelos escuros.
“Você sabe que não somos namorados. Somos amigos, Trynith”
”Oh, certo...E por que você disse à Virgínia que éramos namorados?”
”Bem... Eu... Eu apenas queria parecer tão feliz quanto ela”
”Pra quê? Você não é”
”Eu não sei... Acho que ela merecia achar que eu era feliz”
”Por quê?”
”Porque um dia ela me amou “ ele murmurou, baixinho, enquanto abaixava os olhos para o copo que mantinha em mãos; assim que Gina saíra da casa, ele correra para sua garrafa de conhaque e tomara mais uma dose “E porque ela me admirava muito, mesmo. Acho que eu não quero quebrar o conto de fadas dela sobre mim”
”As pessoas tem de rever os conceitos com o tempo, Harry...”
“Nem todas precisam” ele se levantou e foi até a janela; apoiando-se no peitoril, deixou o vento brincar á vontade com seus cabelos negros enquanto fechava os olhos verdes.
“Ela precisa, com certeza; já imaginou? Pensar que você é feliz... Que tolice!” a voz de Trynith estava cheia de um desdém sério, colocado ali com intuito de feri-lo mais ainda.
“Trynith...”
”Bem, Harry” ela deitou-se na cama, uma perna clara escapando por entre os laços do robe, num gesto tremendamente aristocrático e superior “Acho que já vem o tempo de você admitir para você mesmo que é infeliz. Parece que nossa conversa ontem de nada serviu...”
”Serviu sim!” ele bradou, virando-se para ela bruscamente “Serviu!”
”Não, não serviu de nada!” ela se levantou da cama, e o robe pendeu para os lados de modo insinuante e charmoso, mas ela parecia totalmente alheia á brincadeira do tecido com sua pele “Serviu apenas por alguns segundos, porque hoje, quando você viu aquela ruivinha desgraçada, você acabou novamente caindo na tentação de mentir para si mesmo e fingir para o exterior que vivia uma vida perfeitamente normal e feliz! Eu conheço você, Harry, eu conheço mais do que pretendia! E sei muito bem disso sobre você! VOCÊ TEM MEDO DO QUE OS OUTROS VÃO PENSAR!”estava furiosa, ainda deitada na cama, e seus olhos tinham um brilho perigoso; fosse quem fosse, Trynith era uma mulher cheia de opinião e garra, que sabia lutar pelo que queria; e naquele momento, ela queria Harry feliz, por mais que isso talvez significasse tirá-lo da sua renda fixa.
“EU NÃO TENHO MEDO!” tal qual Trynith, Harry também tinha força; apenas faltava disposição “EU QUERO QUE AS PESSOAS ME ACEITEM COMO EU SOU!” e depois de um momento, mais brando “Apenas... Apenas as faço ver faces diferentes do meu eu”
“Faces diferentes do meu eu...” Trynith cinicamente imitou um ar pensativo; depois voltou os olhos faiscantes para Harry novamente e sentou-se ereta na cama “Quem você pensa que eu sou, Harry Potter?”
“A única pessoa que eu tenho na vida, por hora; e espero que você se prove confiável, porque, Trynith, eu estou cansado de esborrachar a cara; agora dá licença que eu vou pegar mais conhaque” e sem mais palavra saiu do quarto.



“Quem é?” Marie-Louise sorria para ela com os olhos brilhando; os cabelos loiros pendiam fartamente sobre os ombros e os olhos azuis e claros como o céu de verão brilhavam furtivamente, como uma criança que tem medo que os pais descubram que ela já sabe que papai Noel não existe.
“Quem é o quê, Marie?”
”Quem é o rapaz em quem você tanto pensa na última semana!”
”Como?”
”Você tem se mantido calada a semana inteira! Deve imaginar o quão estranho isso me parece; quer dizer, você é a maior faladeira que eu conheço! De qualquer modo, você parece pensativa... E anda por aí com um olhar de porco manco, sabe? De peixe morto... Como qualquer ser apaixonado. É o Josh? Eu acho meio difícil ser outra pessoa, já que faz tão pouco tempo com o Josh, e...”
“O Josh não tem nada a ver com isso” Gina murmurou enquanto alegremente colocava uma mecha de cabelos cor de conhaque atrás da orelha “E não estou apaixonada. Apenas reencontrei alguém que eu não via há muito, muito tempo,e que não tinha mais esperanças de encontrar”
”A esperança é a última que morre...” a loirinha disse enquanto abria um sorriso “Vi que não estava aqui hoje á tarde... Onde foi?” Marie era sua vizinha, portanto, conseguia descobrir bastante sobre seus movimentos.
“Fui visita-lo. E à sua agradável namorada. Um tipinho muito bonito, cheio de si, diferente; não acho que fizesse o tipo do Harry, mas era realmente esplendorosa!” Gina deu um sorriso cheio de vida e jogou a cabeça para trás “Você adoraria poder tirar uma meia dúzia de fotos dela. Realmente esplendorosa”
”Não gosto de tirar fotos de mulheres; prefiro fotos de homens nus” deu um sorriso sacana para Gina, que levantou as sobrancelhas.
“Tenho cara de homem nu? Você adora tirar fotos minhas!”
”Você é diferente, Gina... Você é minha melhor amiga” deu um sorrisinho feliz e estendeu uma mão para pegar a da amiga, que repousava em cima do balcão da cozinha “Você mora no meu coração”
“Não, pior; eu moro no apartamento ao lado” sorriram.
“Realmente, Gina, não existe ninguém como você...”

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