A foto de primeira página



Quando Penny chegou em casa, reparou que o seu pai tinha voltado mais cedo do trabalho. Estava impaciente, andado de um lado para o outro da sala e ficou aliviado em ver a filha.


- Ainda bem – ele disse. – Vamos, temos que nos apressar. Eu tinha cancelado as nossas entradas para a final da Copa, mas o ministro da magia fez questão da minha presença e eu tive que recomprá-las de última hora; agora teremos que aparatar imediatamente se quisermos chegar ao estádio a tempo.


- Sobre isso – esboçou Penny –, bom, eu acho que não vou.... É que começo a trabalhar amanhã, e como o último jogo levou cinco dias para terminar, então prefiro não me arriscar desta vez...


- Trabalhar? – Indagou o Sr. Clearwater, perdendo repentinamente a pressa. – Onde?


- No Profeta Diário – informou Penny. – Eles estão precisando de uma recepcionista...


- De nada – disse Ben.


- Bom, nesse caso, irei somente com o seu irmão – disse o Sr. Clearwater. – E vamos torcer para que a Irlanda capture o pomo logo, porque não quero perder mais cinco dias de trabalho.


- Ou seja, vai dar Bulgária – disse Ben, ao que o Sr. Clearwater lhe lançou um olhar repreensivo – A Bulgária tem o Vítor Krum – justificou-se o garoto.


- Ele é apenas um jogador decente, a Irlanda tem sete – rebateu o Sr. Clearwater. – Eles acabaram com o Peru nas semifinais, vão capturar o pomo com toda certeza.


- Eu tenho sérias dúvidas – cantarolou Ben.


- Então vamos – disse o Sr. Clearwater. – Depois falamos mais sobre o seu novo emprego.


Eles se despediram de Penny de um jeito esquisito, como se o Sr. Clearwater não tivesse acreditado no que ela dissera. Mas ela se sentiu aliviada; afinal, precisava ficar um pouco sozinha, para poder refletir melhor sobre tudo o que acontecera.


 


Penny foi despertada no meio da madrugada pelo estampido de alguém desaparatando no meio da sala. O coração acelerado, ela desceu as escadas e foi verificar o que tinha acontecido. Deu de cara com o seu pai e irmão esbaforidos, como quem tinham acabado de fugir de uma perseguição.


- Gente, o que houve? – Questionou ela. – E a final da Copa?


- Aconteceu uma coisa muito louca – informou Ben.


- Comensais da morte – interrompeu-o o Sr. Clearwater. – Soltos, muitos deles. Conjuraram a Marca Negra; algo muito ruim está para acontecer. Voldemort deve estar tramando alguma coisa para voltar ao poder; o que aconteceu hoje foi só um aviso.


- Mas, com tantos bruxos do ministério por perto, ninguém conseguiu capturar esses comensais?


- Não sei; saímos do lugar antes que algo pior acontecesse. Mas o que importa é que de hoje em diante não quero que ninguém mais saia desacompanhado desta casa, entenderam? É uma ordem, não quero ouvir desculpas!


- Mas, e quanto ao meu emprego? – Questionou Penny. – Devo começar pela manhã...


- Penélope, eu penso que no momento você deve fazer companhia ao seu irmão – decretou o Sr. Clearwater. – Pode ser perigoso deixá-lo aqui sozinho.


- Qual é pai? – Protestou Ben. – Eu não vou tocar fogo na casa!


- E foi o senhor que disse para eu arrumar um emprego – insistiu Penny. – Não pode me fazer desistir!


- Está bem – bufou o Sr. Clearwater. – Está bem, mas você vai e volta comigo. Benjamin ficará em casa, está proibido de sair; vou redobrar a proteção. Agora quero que cada um vá para o seu quarto.


Sem entender direito o que aconteceu, Penny voltou para o quarto, mas não conseguiu dormir. Levantou-se às seis horas, vestiu uma saia justa na altura dos joelhos com uma blusa branca de cetim e foi para a cozinha para tomar o café da manhã. O correio coruja chegou trazendo o exemplar do Profeta Diário, cuja manchete trazia a foto da Marca Negra cintilando sobre a copa das árvores, que ilustrava a matéria intitulada “CENAS DE TERROR NA COPA MUNDIAL DE QUADRIBOL”. A garota correu os olhos por ela: Ministério erra... responsáveis livres... segurança ineficaz... Bruxos das trevas correm desenfreados... desgraça nacional... Não era de se admirar que na primeira página do jornal houvesse apenas uma pequena nota falando do desfecho dos jogos da Copa, por mais inesperado que tivesse sido: “Bulgária captura o pomo, mas Irlanda vence”.


O Sr. Clearwater fez questão de acompanhar a filha em seu primeiro dia de trabalho. Entregou-a nas mãos de seu novo chefe e pediu para que ela o esperasse na hora de ir embora. Estava preocupado com a segurança, claro, depois de tudo o que tinha acontecido; Penny realmente não achava que ele estivesse exagerando, e além de tudo precisava dar ao pai motivos para que ele voltasse a confiar nela, portanto não o contestou em momento algum.


- O serviço é bem simples – explicou o novo chefe, Barnabas Cuffe, a Penny, após se despedir do Sr. Clearwater. – Você separa as correspondências por discriminação e me passa as que forem importantes ao final do dia. Recepciona os repórteres e fotógrafos que chegarem e me avisa; só atendo um de cada vez. Pague os que aparecerem com o recibo assinado; o dinheiro estará na gaveta abaixo do balcão, tenha cuidado com as chaves. Qualquer dúvida, pode me perguntar; estarei em minha sala.


- Entendi Sr. Cuffe – disse Penny. – Não se preocupe comigo.


- Ótimo; se precisar de mim, já sabe onde me encontrar.


As primeiras correspondências do dia logo começaram a chegar. A maioria delas era de repórteres correspondentes de lugares distantes e até de outros países, que enviavam matérias que Penny julgara importantes demais para aguardarem até o fim do dia. Resolveu repassá-las a Cuffe imediatamente. Outras eram de pessoas que escreviam para o jornal por qualquer motivo: desde dúvidas e reclamações até informações e denúncias; e havia quem escrevesse apenas querendo se aparecer.


Não era de se estranhar que estivessem precisando de uma recepcionista com tanta urgência; ao longo do dia, não pararam de chegar correspondências ao jornal. Fora os fotógrafos que vinham a todo o momento, na esperança de ainda conseguir publicar as fotos da final da Copa do Mundo. Alguns bem insistentes; Penny chegou a ouvir gritos estressados vindos da sala do chefe. Poucos tinham sucesso ou conseguiam trazer algo realmente interessante; Penny chegou a realizar um pagamento antes da hora do almoço.


O dia inteiro foi um vai e vem de corujas, repórteres e fotógrafos no Salão Principal. Quando Penny tinha algum tempo livre, separava as correspondências por tipo para entregar ao chefe ao fim do dia, de modo que, meia hora antes do final do expediente, ela já estava com seis pilhas de pergaminhos devidamente separados. Amarrou distintamente as pilhas e colocou-as nos braços para levá-las à sala de Cuffe.


No momento em que ela se virou, deparou-se com um rapaz que acabara de chegar. Era alto, moreno, simpático e meio tímido, tomou fôlego e dirigiu-se discretamente a ela.


- Pois não? – Ela disse.


- Quero falar com Barnabas Cuffe – respondeu ele. – Sou fotógrafo.


- Claro, vou avisar.


Ela colocou os pergaminhos de volta, mas eles se soltaram e saíram todos rolando, caindo aos pés do rapaz.


- Ah, desculpe – ela disse sem jeito e deu a volta no balcão, abaixando-se para juntá-los. – Quero dizer, não foi sua culpa, é que eu...


- Não se incomode, deixe que eu faço isso – disse o rapaz depressa, abaixando-se também para ajudá-la.


Ele terminou de juntar tudo, levantou-se e ajudou Penny a se levantar também, ficando cara a cara com ela.


- Bom, eu... – disse Penny, soltando educadamente a mão dele – vou avisar que você chegou...


Ela se dirigiu à sala de Cuffe levando consigo os pergaminhos – e imaginando qual a necessidade de um fotógrafo ser tão bonito. Obviamente não estava nem um pouco interessada; acabara de romper um relacionamento e sabia muito bem que o seu pai não apoiaria nada que surgisse no momento. A propósito, ela estava ali apenas para trabalhar. A porta da sala do chefe estava entreaberta, então ela pediu licença e entrou, empurrando a porta com o cotovelo.


- Sr. Cuffe – disse ela –, eu trouxe as correspondências de hoje, separadas por discriminação como o senhor pediu.


- Excelente – respondeu Cuffe. – A propósito Srta. Clearwater, eu achei que foi muito boa a sua iniciativa de me entregar as matérias dos correspondentes ao longo do dia. Adiantou muito o meu trabalho.


- Imagine – respondeu Penny. – Sim, e acabou de chegar um fotógrafo, devo mandá-lo entrar?


- Por favor – respondeu ele.


Ela saiu da sala fechando a porta e rumou para a recepção, lembrando que nem ao menos tinha perguntado o nome do rapaz para poder apresentar ao chefe. Envergonhada por ter se deixado levar por um instante pelos encantos de alguém que ela nem conhecia, voltou à recepção e anunciou:


- O Sr. Cuffe disse que você pode entrar.


O rapaz apanhou a sua mochila. Na mesma hora, uma voz familiar ecoou na sala; Rita Skeeter acabara de chegar, como sempre, loira e usando roupas extravagantes, e foi ao encontro de Penny, toda sorridente.


- Penélope, querida! – A jornalista abriu os braços bloqueando o caminho. – Que bom encontrá-la aqui! Onde está o Barnabas? Já tenho a manchete do Profeta para amanhã; andei descobrindo notícias quentíssimas sobre o Ministério em primeira mão; vou até fazer a cobertura de um evento ultrassecreto que vai acontecer em Hogwarts. Aliás, vou precisar de um fotógrafo, conhece algum para me indicar?


- Sim – respondeu Penny meio insegura, e apontou para o rapaz. – Ele é fotógrafo.


- Sou Gustavo Branstone – adiantou-se ele, mostrando o crédito da foto na primeira página do jornal.


- Você é o rapaz da primeira página, excelente, perfeito! Sou Rita Skeeter, jornalista, já deve saber. Já tem a credencial? Se não tiver vamos providenciar agora; você vai precisar de uma.


Rita Skeeter arrastou o rapaz para a sala de Cuffe, ignorando a tentativa de Penny de avisar que o editor só atendia uma pessoa de cada vez. Ela torceu para que ele não se importasse com o fato de Rita entrar sem ser anunciada, uma vez que era uma das repórteres mais influentes do jornal. Passados uns dez minutos, o fotógrafo voltou sozinho para a recepção.


- O Sr. Cuffe me mandou lhe entregar isso – disse ele, passando-lhe um recibo assinado pelo chefe.


- Oh, sim – respondeu ela e, depois de analisar o recibo de trinta galeões, começou a se atrapalhar com as chaves da gaveta. – Muito bem, vejamos, não é essa...


Uma vistosa coruja bege entrou sobrevoando a sala e soltou um pergaminho nas mãos de Penny. Ela reconheceu a coruja de sua família, mas não podia ser... O que poderia ter acontecido para receber uma carta de casa?


- Para mim? – Ela estranhou, preocupada. Abriu o pergaminho, e reconheceu a caligrafia de Ben.


Penny,


      Você sabe que música é aquela assim: Ta nana tana tanana... Tananana, tan-tantan?  


       Ben.


Com um bufo de desdém, Penny sacudiu a cabeça e soltou o pergaminho sobre a mesa.


- O que foi? – Interessou-se o rapaz.


- Nada, só um bilhetinho do retardado do meu irmão. Veja você mesmo.


Ela entregou o pergaminho ao rapaz que, ao ler, não conseguiu conter o riso, revelando o sorriso mais lindo que Penny já vira na vida.


- Ele é sempre assim? – Perguntou ele.


- Quase sempre – respondeu Penny, sorrindo meio desajeitada.


Seus olhares se encontraram; o rapaz abaixou a cabeça, colocou a mochila nas costas e se despediu. Penny bem que tentou desviar os olhos, mas não pode deixar de observá-lo descer os degraus da escada de pedra.


- Srta. Clearwater – a voz de Cuffe a despertou. – Está dispensada por hoje, já pode ir.


- Sim, claro, e, até amanhã, Sr. Cuffe.


Ela recolheu a bolsa e olhou para o balcão, reparando no recibo assinado de trinta galeões que ainda estava ali. Não teve dúvida; abriu a gaveta, colocou as moedas depressa num saquinho e a trancou de volta.


Correu para a porta; o rapaz acabara de descer o último degrau.


- Eh, Gustavo! – Ela chamou.


Instantaneamente o rapaz se virou intrigado. Penny desceu as escadas rapidamente e o alcançou.


- Você esqueceu isto – ela disse, mostrando-lhe o saquinho com as moedas.


- Puxa vida, é verdade! – Exclamou o rapaz, recolhendo o pagamento. – Muito obrigado mesmo, viu?


- Imagina, só fiz a minha obrigação...


Ele guardou as moedas no bolso interno das vestes. Reparou que Penny estava com a bolsa a tiracolo e perguntou:


- Vai fazer alguma coisa agora? Eu podia pagar uma bebida...


- Não precisa se incomodar comigo – respondeu ela educadamente.


- Eu faço questão – insistiu Gustavo. – É o mínimo que posso fazer depois de tudo o que você fez por mim hoje... Sabe o quanto é difícil conseguir uma credencial, e você ajudou bastante quando me indicou para a Rita.


- Nesse caso – analisou Penny –, quais são as opções?


- Sim e não – respondeu ele.


A garota abriu um sorriso, sacudindo a cabeça.


- Acho que vou escolher a opção sim.


Os dois então seguiram andando pelo Beco Diagonal, desvencilhando-se do movimento dos bruxos naquela imensa rua de pedras.


- Mas eu imaginei você que já tivesse a credencial – disse Penny. – Quero dizer, você deve ser muito bom, com uma foto logo na primeira página...


- Quem me dera; essa foi a primeira foto que consegui publicar – ele revelou. – No começo, pensei que fosse só chegar ao Profeta Diário apresentando fotos da Copa Mundial de Quadribol que tudo se resolveria, mas não é tão simples assim; não quando todo o mundo resolve ter a mesma ideia que você. Eu já estava até pensando em voltar...


- Voltar para onde? – Indagou Penny. – Você não é daqui?


- Sou de Ballycastle, na Irlanda do Norte – respondeu Gustavo. – É meio longe, mas atualmente eu moro num quarto alugado no Caldeirão Furado, quando tem vaga para mim.


Eles pararam; tinham chegado à frente da Sorveteria Florean Fortescue. Entraram, sentaram-se a uma mesa e pediram dois sundaes.


- E você? – Perguntou Gustavo. – Mora por aqui mesmo?


- Moro com a minha família em Godric’s Hollow, um vilarejo semibruxo que fica do outro lado do país. Como eu e o meu pai podemos aparatar até aqui, então não temos problemas. Mas quando andamos com o meu irmão, que tem quinze anos, temos que nos virar de outras maneiras... 


- E você só tem um irmão?


- Sim, só o Ben mesmo. Ele está numa fase meio chatinha, gosta de me encher a paciência. Sabe como é, irmão pentelho, três anos mais novo...


- Espera aí, são só três anos de diferença entre vocês? Então, se ele tem quinze, você tem...


- Dezoito; completei há dois dias.


- Dois dias? – Surpreendeu-se Gustavo. – Puxa, meus parabéns!


- Obrigada. Às vezes nem eu acredito que terminei o sétimo ano em Hogwarts só fazem dois meses.


- Eu estudei em Hogwarts, também – informou Gustavo. – Me formei há três anos.


- Você? Mas eu não me lembro de você em Hogwarts...


- Eu não saía muito da torre da Lufa-lufa...


- Isso explica um bocado – analisou Penny. – Eu era da Corvinal. Mas a minha mãe foi da Lufa-lufa, então acho que posso dizer que sou “metade lufa-lufana”. Já o meu pai se orgulha de dizer que seus filhos seguiram os seus passos sendo escolhidos para a mesma Casa que ele.


- Lá em casa todos ficamos na Lufa-lufa – disse Gustavo. – Quero dizer, menos a minha irmã, que está indo para o primeiro ano e ainda não passou pela seleção das Casas...


- Então quer dizer que você tem uma irmãzinha! – Animou-se Penny.


- É, a Léa. Eu ia fazer dez anos quando ela nasceu – explicou ele. – Mas você conseguiu emprego rápido, não? Acabou de se formar e já trabalha no Profeta Diário!


Penny suspirou, olhando ao redor.


- Na verdade... quem conseguiu esse emprego para mim foi a Rita – ela falou o nome da Rita como se não quisesse que ela ouvisse. – Puro interesse pelo meu pai.


- Seu pai? – Estranhou Gustavo.


- É, ela é doida pelo meu pai.


- Mas... e a sua mãe? – Gustavo não teve como não perguntar.


- Oh, ela morreu. É mesmo, eu não tinha falado. Faz tempo, foi quando nasceu o meu irmão.


- Puxa.... É Penélope, não? Eu lamento...


- Pode me chamar de Penny – ela disse com um sorriso. – É assim que os meus amigos me chamam.


- Penny – Gustavo corrigiu. – E... o seu pai não quis se casar de novo?


- Ele não tem tempo para isso – explicou Penny. – Viciado em trabalho, sabe como é; o Gringotes significa tudo para ele. E, por falar nisso – ela consultou o relógio e se levantou –, já está quase na hora de eu me encontrar com ele para nós voltarmos para casa...


Gustavo também se levantou.


- Se incomoda se eu lhe... acompanhar?


- Até o Gringotes? – Indagou Penny. – Por mim, tudo bem; mas o meu pai não vai gostar nada de ver você conversando comigo. Ele morre de ciúme sabe, coisa de pai solteiro superprotetor.


- É bom saber disso – disse Gustavo. – Então acho que nos despedimos aqui...


- É – suspirou Penny. – Nos vemos de novo qualquer dia desses no trabalho, então...


Eles se despediram; Gustavo passou no caixa e acertou a conta. Ele seguiu em direção ao Caldeirão Furado, enquanto Penny rumou em direção ao Gringotes, bem a tempo de se encontrar com o seu pai na frente do Banco dos bruxos.


 

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