Sentimentos



- O quê? – Perguntou baixinho, olhando para o chão.
Mas Tiago entendera. Só que não conseguia acreditar. Óbvio que era brincadeira, não passava de mentira.
- É verdade, tenho certeza. Lilian beijou Severo Snape. – Repetiu Louize, um pouco mais caridosa ao menino.
Tiago ainda não acreditava, mas parte de seu corpo lhe dizia: ela disse a verdade. Aconteceu.
E o sentimento foi de mil flechas atravessando o coração. Sentimento de perda, de traição, de vingança. Pois ele iria se vingar, de alguma forma. Sirius se dirigiu a eles, o queixo ainda manchado de tinta.
- Verdade? Verdade verdadeira? Caramba, Tiago, tá perdendo feio hein? – Disse, soltando uma risadinha. – Acho melhor arranjar outra paquera.
- Sirius! Será que não consegue parar de ser tão insensível? – Pediu Louize, irritadiça. Ela levantou e arrumou a camisola, de modo a deixá-la mais longa. Tiago não falou nada, permaneceu sentado no chão, sem olhar nada, apenas a sua raiva e ódio.
   Tanto tempo para conquistá-la, tantos convites... E ela olhou para um ensebado ridículo que nem abre a boca!
A morena ainda estava em pé, observando. Por fim, declarou.
- Vou subir e tentar me acertar com a Lily. Peço, encarecidamente, que vocês, por favor, por favor, por Merlin, não falem para ninguém. – Implorou, juntando as mãos e desaparecendo no corredor após subir as escadas.
- Vejo que seus dias de glória acabaram, Pontas. Se eu fosse você,  desistia da ruiva e partia pra outra.
- Ora, olhe aqui, Sirius! Você nunca sentiu nada por ninguém, acho que não deveria me dar “conselhos”! – Gritou Tiago, se levantando.
- Jura? Eu tive uma namorada, e acho que posso, sim, ter o direito de te dar conselhos! Mas, muito bem, viva desse sofrimento idiota que você quer que a vida lhe proporcione, e morra infeliz! – Cuspiu o outro, enquanto Tiago lhe cortava.
- Mas, o quê? Você namorou a Emily por puro desejo! Só pra ter alguém para ficar as bitocas por aí! Você não sente amor, Sirius! E é verdade o que a Louize disse. Você é insensível!
- Não posso acreditar que está falando assim comigo, cara! Insensível, eu? Olhe aqui... – Mas Sirius desistira. Sentiu a raiva crescer e reprimiu-a. – Esquece.
Ele começou a subir as escadas para o dormitório masculino.
- Ui, ficou com medinho? Desce aqui e me espanca! Mano a mano! – Gritou Tiago, confrontando. Sirius se virou no último degrau, a expressão cansada.
- Você mudou, cara. Muito. Só espero que não aconteça com mais ninguém.
E foi-se embora.
Tiago deixou-se cair na poltrona em que minutos antes estava Louize e fechou os olhos, pensativo. Ouviu o buraco de retrato de abrir e levantou o olhar. Um menino magro, alto e desolado sentou em sua frente.
- Boa noite. – Falou Remo, exaustivo.
- Boa. – Respondeu Tiago, igualmente exaustivo.
Eles ficaram em silêncio um bom tempo, até Lupin continuar.
- O que houve?
- Nada. E com você?
- Nada.
Tiago levantou uma sobrancelha. Dois mentirosos em um só lugar.
- Briguei com Sirius. Por causa da Lilian.
Remo confirmou com a cabeça devagar e pareceu pensar um pouco.
- Sei como se sente.
- Você também brigou com ele? – Perguntou Tiago, um tanto surpreso.
- Não...
O menino não entendeu. Apenas olhou Lupin brincar com a pena antes de olhar para ele de novo.
- Tiago... Estou gostando de uma menina.
Levantou as duas sobrancelhas e olhou confuso para o amigo, que o olhava triste, como se esperasse que risse.
- S-sério?
- Sim...
- Que bom, não é?
- Não! – Respondeu, irritado. – Não, Pontas. Sabe quem eu sou! Não posso ficar por ai me apaixonando!
Tiago ficou impaciente. Tudo que acontecia com Remo era culpa de quem ele era. Uma vez por mês ele era quem era. Um lobisomem. O menino havia sido atacado por outro quando criança, e para isso não se tinha cura. Mas mesmo assim os outros diziam que ele tinha que seguir a vida, e que ela não ia parar para observar ele se transformar toda lua cheia. Mas não adiantava. Remo odiava ser um lobisomem, odiava viver como é, vítima, e ao mesmo tempo, vilão.
- Aluado, me escute... Pense no que te dissemos! Esqueça isso nos outros dias! Você é novo, tem muito que aproveitar! Se ficar se prendendo nisso, vai perder toda a sua vida!
- Mas, Tiago! – Retrucou, ficando nervoso. – Já estou preso nisso! Eu sou um vírus! As pessoas não gostam de mim! O que a garota vai dizer quando eu contar a ela? Não posso esconder! – Ele suspirou e afundou na poltrona, cansado. – Sabe, faltam três dias.
Tiago o imitou e suspirou também, e os dois ficaram depressivos novamente.
- É, eu sei... Eu realmente sinto muito, Aluado. – Ele passou a mão pelos cabelos, atrapalhando-os e levantou-se – Bom, vou me deitar. Boa noite.
   O dormitório estava em completo silêncio, com exceção dos roncos baixos de Pedro e da falsa respiração lenta de Sirius. Sabia que o amigo ainda estava acordado, e completamente zangado com ele. Sem puder fazer nada para mudar, trocou de roupa e deitou-se. Só quando fez isso é que se lembrou de  que se esquecera de perguntar para Remo qual era a menina que ele estava gostando.

   Era incrível como o clima mudara entre as meninas e os meninos nas semanas seguintes. Os marotos andavam juntos, mas Tiago numa ponta e Sirius na outra, ao invés de estarem no meio, como sempre. E sempre que a conversa chegava em um ponto que os dois precisassem se falar, o assunto morria e o silêncio tomava conta por horas. Havia sido chato andar para lá e para cá pelos terrenos, pois Tiago decidira largar de ficar atrás de Lilian. Mas queria deixar claro para Severo todo o ódio que sentia. Por isso, chamava-o de nomes feios sempre que se encontravam no corredor, no qual ele respondia com olhares fulminantes e muitas vezes levantava a varinha, sem usá-la.
Com Lilian não estava muito melhor. Louize chegara no quarto minutos depois e pediu desculpas, no qual a ruiva retrucou “Ah, agora vem me pedir desculpas não é? Pois esqueça, Louize!” por pura raiva, depois de ter chorado tanto pela briga. Assim, elas continuaram contras. Lilian andando sozinha pelos corredores, sendo amparada às vezes por Scarlet ou Meggie, e Louize andando acompanhada por Emily, sua nova melhor amiga.
- Isso é muita falsidade da parte dela – Murmurou Lilian, uma manhã, quando viu as duas passarem conversando alegremente pelo salão principal.
Lilian, porém, sequer percebeu que Tiago não estava mais atrás dela. Ele estava, na verdade, fugindo dela. Para não precisar olhar para a menina que lhe “traíra”. Ainda achava muito egoísmo.



A menina havia parado de falar com Severo também, mas por puro desencontro e vergonha. Depois de ter contado para as meninas, se sentiu suja, e com a culpa pesando mais que nunca em si, mesmo sem ter feito nada demais. Quando sentia que ele vinha virando o corredor, entrava em uma sala vazia ao lado antes que ele a visse. Porém isso a cansava muito, e ela pedia que a coragem fosse mais forte que a timidez.
Contudo, certo dia, não havia dado certo. A sala mais próxima estava longe e quando Lilian retrocedeu pelo corredor e tentou entrar em outro cômodo, Snape percebera entrara também. E lá estavam os dois, sozinhos, dentro de uma sala vazia.
   Lilian abaixou os olhos e contemplou o chão, envergonhada. Severo a olhava fixamente, um pouco triste. Estivera pensando que ela não queria mais nada com ele. Que ele beijava mal ou tinha mau hálito. Ou, ainda assim, que tivera feito alguma coisa errada, sem saber o que.
Talvez eu não devesse ter passado a mão no cabelo dela, pensou.
Nesse instante, ela olhou para ele.
- Oi.
- Lily... – Falou fracamente. Sou um fracasso, pensou, ela ficou com vergonha de mim, não quer mais me ver. Nunca mais vou beijar alguém.
- Olá Severo... Ahn... Como vai?
Aquela conversa estava ficando estranha.
- Ah... Ah, vou b-bem, e v-você?
- Ah, ótima...
Eles ficaram em silêncio, apenas olhando o chão. Até Severo perguntar:
- Por... Por que você não falou comigo esses dias?
Era a pergunta. A pergunta que estivera esperando com medo de responder.
- E-eu... – Começou Lilian, enquanto colocava a cabeça para funcionar a mil. – Eu não vi você!
Era a desculpa mais fajuta que podia existir, ainda mais acompanhada da risadinha rouca que ela deu no fim. Severo  pareceu desconfiado, mas temeroso.
- Lilian... Tivemos quatro aulas de poções juntos, e você preferiu sentar sozinha a se sentar comigo.
- Ora, porque o senhor não veio falar comigo? – Respondeu depressa.
Ele se desconcertou e Lilian sentiu um assomo de alegria. Bem feito.
- Ahn... Ah, é que... Tá bem. Vou dizer a verdade. Eu nunca havia beijado ninguém, Lily. E eu não soube se você tinha gostado. Pensei que você estava com tanta vergonha do meu beijo que decidiu se afastar.

Lilian soltou uma risada um tanto aliviada. Severo sorriu sem saber por quê. Adorava aquela risada. Juntou as mãos nas costas e sentiu o rosto pálido ficar vermelho. Ela mordeu o lábio inferior e falou:
- Severo... Comigo também. Foi meu primeiro beijo. – Ela sorriu, envergonhada, mas ainda assim alegre por saber que o sentimento foi o mesmo, e a experiência foi a mesma. – E fiquei tímida com o que pudesse acontecer com a gente. Desculpe o afastamento.
- Ah... Certo. – Falou, vagamente, um Severo atordoado com as confissões.
Lilian gritou de alívio por dentro. Era bom poder falar cara a cara assim, deixando a vergonha de lado. Ela não era necessária. Sorrindo, os dois saíram de mãos dadas da sala, para a tarde ensolarada nos terrenos de Hogwarts.

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Comentários (2)

  • Júh Lestrange

    Obrigada (: Com certeza, tudo vai dar certo no final... Ou não...

    2012-09-28
  • Neuzimar de Faria

    Atualizando a leitura. O período da adolescência é muito complicado, mesmo. Quantos mal-entendidos entre eles, não? Tomara que os namoros e os marotos se acertem! Gostando muito.

    2012-09-23
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