Quem é você?



11. Quem é você?


As palavras de Luna pareciam incapazes de encontrar a saída dos pensamentos de Draco - ou, pelo menos, não faziam um esforço muito grande para isso.

Fazia bastante tempo que ele estava ali, na biblioteca, sozinho na mesa aonde outrora havia uma menina lendo "Fênix Negra". Seus pensamentos fixos nas últimas palavras que havia trocado com ela.

Draco não queria estar pensando naquilo, mas todas as suas tentativas em desviar-se daquele incômodo assunto haviam se revelado infrutíferas. Ele não queria admitir, mas a verdade se impunha para ele, forte e gritante: alguma coisa estava errada. Terrivelmente errada.

Lovegood havia feito exatamente o que ele desejava, não havia? Por que então... ele estava daquele jeito? Por que ele não conseguia sentir-se feliz?

Nenhuma ameaça. Nenhuma chantagem. Nenhuma insinuação de que aquilo seria utilizado para provocar mais comentários ainda a seu respeito. Nenhum surto histérico como o de Pansy Parkinson. Nada, absolutamente nada de errado. E, no entanto... havia alguma coisa errada. Alguma coisa o incomodava, não o deixava em paz, e ele não conseguia saber o que era, por mais que se esforçasse.

Era como estar construindo um castelo de cartas: tudo desmoronava quando ele estava prestes a montar o último andar, de modo que Draco se sentia completamente incapaz de perceber a coisa como um todo. O que, o que o estava incomodando tanto, afinal?

A cena repassava em sua mente muitas e muitas vezes, e nada parecia ser revelado. Draco se sentia frustrado por não entender, se sentia furioso por não entender, e duplamente furioso por sua incapacidade de simplesmente abandonar o assunto como estava. Nada daquilo fazia sentido.

Draco estava tão cansado que acabou dormindo em cima da mesa, e foi especialmente desagradável acordar com os guinchos da bibliotecária, que se dividiam em expulsá-lo e em repreendê-lo por não ter trabalhado direito- mas o garoto estava cansado demais para responder qualquer coisa. Concordou mecanicamente com tudo que foi dito, embora mal escutasse, e foi cambaleando para o dormitório da Sonserina. Pediram-lhe a senha, mas ele não se lembrava. "Que DROGA de dia!" xingou ele para si mesmo.

Era ÓBVIO que ele era da Sonserina, de onde mais ele poderia ser? Da Grifinória??? Entretanto, a entrada lhe estava sendo barrada. Por uma senha idiota. Draco estava xingando interiormente, tentando se lembrar da senha. Era alguma daquelas criaturas idiotas que o estúpido professor de Trato das Criaturas Mágicas gostava... aquelas criaturas em que só ele mesmo via graça. Explosivins? Hipogrifo? Demônio D'água? Elfo-da-lua? Ele esforçava-se por lembrar.

E, de repente, Draco sentiu como se tivesse levado um choque. Sua sonolência imediatamente desapareceu. Ele estava desperto, completamente desperto. E horrorizado.

Ele havia, afinal, entendido o que o havia incomodado a tarde toda. O que havia na conversa com Luna que o deixara estranho. Era a última coisa que ela havia dito.

"Eu queria poder acreditar em você". Aquele era todo o problema. Lovegood era capaz de acreditar nas mais questionáveis magias e histórias. Era capaz de acreditar em criaturas das mais controversas possíveis. Era capaz de acreditar que as criaturas de Hagrid podiam, realmente, ter um bom coração e não serem muito perigosas se tratadas do jeito certo. Ela acreditava sinceramente em tudo; mas não era capaz de acreditar nele.

E aquilo, aquilo o estava machucando. De alguma forma...

Não, não, ninguém podia saber. Existem segredos que jamais devem ser revelados. Draco sabia muito bem - mas, naquele momento, percebia que os segredos sempre acabavam escapando, por mais fundo que se tentasse escondê-los.

Ele era um Malfoy. O que queria dizer que muita, muita coisa era esperada dele. Sempre. Ele era admirado. Ele era invejado. Tudo o que ele fazia era carregado pelo opressor peso de que deveria ser excelente. Ele era um Malfoy, o que queria dizer que era melhor do que os outros. Tudo o que ele fazia era melhor do que os outros, também. Era isso o que ele era. Sem chance de escolha.

A maluca da Lovegood havia solenemente ignorado aquele fato - só ela poderia! - ao entrar em contato com ele. Sim, aquilo ele já sabia. O que ele nunca havia percebido antes era que tinha gostado de abaixar a guarda para alguém. O que ele nunca havia percebido até então era que sua imagem, de vez em quando, se tornava um fardo um tanto pesado. Era que havia um Draco Malfoy, mas também havia somente um Draco.

Um Draco sem sobrenome, que queria agir sem que esperassem nada em troca. Um que queria existir independente do que quer que fosse. Um que vivia preso, no fundo de sua mente, agrilhoado por seu nome, por todos aqueles anos escutando os feitos de sua família e toda a tradição que ele tinha que honrar. Um Draco que jamais fora realmente livre, que jamais realmente existira, mas que nem por isso se resignara a morrer. Ele estava ali, dentro dele. Ele existia, de alguma forma.

E apenas Lovegood havia conseguido ver aquilo. Nem mesmo ele tinha consciência de que tudo o que ele pensava ser era pouco mais que um imenso jogo de aparências, um gigantesco disfarce que ele usava simplesmente por ser o que esperavam dele. Apenas aquela menina meio avoada havia conseguido enxergar aquilo, havia conseguido ver que existia em Draco algo além de um Malfoy.

E havia dado a ele liberdade para sê-lo. Di-lua Lovegood havia gostado dele mesmo quando ele não fazia o que ela esperava. Mesmo com a cena do hospital, ela ainda assim havia falado com ele. Lovegood parecia perdoá-lo por todas as suas falhas. Luna estava com ele sem jamais esperar coisa alguma. Ela, e somente ela.

Mas não agora.

Agora, Luna estava magoada com ele. E ele estava assustado com isso. Draco estava apavorado com idéia de que havia conseguido desapontar alguém que não esperava dele nada. Absolutamente nada.

O que seria dele, daquela maneira?

Doía um bocado pensar que tudo o que ele era exigia um esforço imenso, e que não realizar este esforço o deixaria completamente só e desnorteado. Ela não acreditava nele. As outras pessoas acreditavam, e isso era um consolo. Sempre era um consolo imaginar que ainda seria respeitado e invejado.

Mas uma parte dele sempre saberia que aquilo que eles respeitavam e invejavam não era realmente ele. Ao menos não em sua totalidade. Sim, ele nunca deixaria de ser aquilo (e nem queria!!!), mas havia uma parte dele que existia à parte de seu berço, de seu sangue. A parte que, de vez em quando, o fazia hesitar. Não crer em si mesmo. E o fato de Lovegood não acreditar nele exibia o quanto esta parte era tremendamente frágil. E que ela apareceria eventualmente, não importava o quanto Draco tentasse escondê-la sob sua grossa carapaça de segurança. Somente ele saberia, mas isso não deixaria a dor menor. Nem um pouco.

Draco Malfoy estava horrorizado com estes pensamentos.

"Merlim, quem é você? Quem é você, dentro da minha mente?" perguntava a si mesmo, aterrorizado.

Aquele não podia ser ele. Não podia mesmo.

Ou talvez, pela primeira vez, ele estivesse realmente se enxergando. Sem disfarces. De olhos bem abertos.






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Tá, tá, um capítulo inteiro e não aconteceu praticamente nada.

Parece até uma releitura do capítulo 8, eu seeeeeeei!

Mas a verdade é que... ele precisava existir. Por mais maçante que tenha pareciiiiiiiiiiiiiiiido T_____T ...

Sem ele, eu acho que não ia conseguir dar andamento pra história. Quer dizer, não sem parecer uma coisa completmente forçada e esquisita.

70% das fics com o Draco eu não gosto; e o motivo disso é quase sempre o mesmo: o Malfoy vira, do nada, um príncipe encantado. Ele miraculosamente se apaixona e esquece que a Granger era sangue-ruim, que a Weasley era traidora do sangue, que ele nunca, jamais, em hipótese alguma, foi gentil ou romântico.

Eu sei que o amor muda as pessoas, mas... ele pega uma detenção e de repente já virou o gentleman de Hogwarts?.

Eu sou contra! Eu não gosto!

Ele não é assim!

Desculpem se o capítulo foi muito, muito chato... mas eu trabalho desse jeito! ;___;'

Provavelmente ele nunca vai deixar de ser meio sarcástico e mau, nem mais pra frente XD~ ... mas quem sabe... um pouco diferente? =D

E sim, é dessa maneira que eu enxergo o Draco. Ele não é do jeito que é simplesmente por ser. Há um certo... motivo. E é isso que eu precisava explorar pra conseguir seguir com a coisa. Meu Draco Malfoy é humano. Isso é o que ele tem de mais divertido! ^^ (além de, claro, ser ele. Eu simplesmente não consigo escrever fics estreladas pelo Harry, não sei por quê! Não vai! De jeito nenhum!!!)

Talvez nem todo mundo veja o Draco dessa maneira, mas eu precisei encontrar (ou criar, que seja!) essa nuance. Porque, senão... a coisa não ia andar. Eu devo ser tremendamente lerda... desculpem.




E OBRIGADA PELO APOIO, FÊNIX, MARI (pode?^^), LORENA!!!

E os eventuais leitores voyeurs também. É por vocês que eu atualizo o mais depressa que posso! (espero que seja o bastante...)

Evelin, tomara que você esteja gostando até aqui!!

Beijos, beeeeijos!!!





... e o 12 já vem. Mais ação Luna e Draco, se tudo der certo...

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