Medos e incertezas



Naquele dia, depois da festa, Ron não falou muito após chegaram em casa.


 


Hermione não parava de pensar no mesmo assunto: ter um filho. Mas como seria?


 


Mais tarde, naquela noite, já deitada em sua cama, imaginou-se grávida com uma barriga tão grande quanto a de Angelina. Depois, segurando nos braços um pequeno ser, ruivo como os Weasley e com os mesmos olhos azuis de Ron. Conseguia ver com muita facilidade as primeiras palavras de bebê, os primeiros passos, o primeiro aniversário, as primeiras manifestações de magia e a carta de Hogwarts. Ela via-se acompanhando aquela criança imaginável ao Beco Diagonal, para comprar os materiais escolares; a compra da primeira varinha; ela podia até se ver lendo a carta que seu filho mandara, contando em que casa de Hogwarts ficara.


 


Hermione achou melhor não tocar no assunto naquele dia e tampouco na manhã seguinte. Ela estava fazendo o café da manhã, quando Ron apareceu na cozinha. O ruivo estava quase completamente arrumado para o trabalho. Parecia ter se esquecido do acontecimento da festa, na noite anterior. Ele a beijou.


 


- Bom dia minha flor. - Disse ele e depois sorriu.


 


- Bom dia. - Falou ela enquanto ele já se sentava à mesa e ela lhe servia o café. Ela mesma preferia fazer o trabalho da casa, algumas vezes com magia, do que aceitar a ideia de Ron de terem um Elfo. Se ele não aceitasse o salário, com certeza, ela preferiria fazer as coisas sozinha. Às vezes Ron a ajudava, ou melhor, tentava. O marido não tinha o menor jeito com as atividades domésticas, seja com a ajuda de feitiços ou não.


 


- Algo de importante no trabalho hoje? - Perguntou ela, sentando-se, ocupando a cadeira do lado oposto da mesa, em frente à Ron.


 


- A mesma coisa de sempre. - Responde ele, em seguida abocanhou mais um pedaço da torrada.


 


A mesma coisa de sempre. Isso era bom, pois significava que estava tudo bem. Harry, como chefe dos Aurores, era muito meticuloso quando o assunto era a segurança do mundo bruxo, então ela sabia que estava tudo bem.


 


Alguns minutos depois, após o café, ela subiu para o quarto para terminar de se arrumar. Ao descer, Ron a esperava à porta. Aparataram numa rua deserta, menos de uma quadra da casa onde moravam.


 


Já no Ministério, encontraram Harry no átrio, que acabara de chegar também.


 


- Oi Harry! - Cumprimentaram os dois.


 


- Oi, bom dia. - Falou o amigo, que parecia cansado.


 


- Bom dia. - Disse Ron.


 


- Como foi à noite lá na Toca? - Perguntou Hermione puxando conversa.


 


- Horrível! James acordou pouco tempo depois que vocês saíram. - Disse o amigo, os três andando em direção ao elevador. - Ele não queria dormir, chorou, ficamos horas acordados.


 


- E o que vocês fizeram? - Questionou Hermione quando eles já estavam no elevador.


 


- A senhora Weasley conseguiu fazer ele dormir. - Respondeu Harry. - Ainda bem, senão, nenhum de nós conseguiria trabalhar hoje.


 


James era uma criança com horários de sono opostos os das outras pessoas. Gina não queria acostumar o filho a dormir sob o efeito a poção do sono, o que Hermione concordara inteiramente; então o garoto dava muito trabalho aos pais, quando chegava esse momento crítico do dia. A senhora Weasley vivia dizendo que isso era normal, e com o tempo, ele se acostumaria a dormir a noite toda.


 


Durante o dia, Hermione não conseguiu pensar em outra coisa, senão no mesmo assunto que a rondava desde o dia anterior: Ter uma criança.


 


Nunca antes essa vontade pareceu tão real. Claro que ela já havia pensado nisso antes, mas agora era diferente, era como se a hora tivesse chegado. Pensou como seria quando fosse falar com Ron. Qual seria sua reação? Ficaria como na noite anterior, ao vê-la segurando a sobrinha?


 


Ele nunca reagira daquela forma antes. Quase todo o final de semana ela carregava um dos sobrinhos no colo, quando estavam almoçando na Toca, seja com toda a família reunida ou só parte dela. Ele sempre agira com naturalidade, pois ele próprio carregara os sobrinhos diversas vezes, meio desajeitado, mas carregava. Estar em companhia de uma criança não era novidade. Ficaram com James duas vezes em casa, desde que o menino nasceu. Uma vez foi quando Harry e Gina saíram para comemorar o aniversário de casamento e numa outra, que ela não soube bem o motivo, mas desconfiava que uma noite só do casal estivesse envolvida; Gina pediu que ela ficasse com o menino, num dia de tarde e só o buscou no dia seguinte. A estadia da criança fora meio desastrada, pela parte de Ron, mas tranquila apesar de tudo. Mas porque só daquela vez ele reagira daquela maneira?


 


Ela já se podia imaginar a espera de uma criança, mas Ron gostaria da ideia ou pediria para esperarem mais alguns anos?


 


Hermione não queria esperar. Eles já haviam passado por muitas coisas, isso só contando durante os seis anos que passaram em Hogwarts, fora o ano em buscas das Horcruxes. Voldemort ocupou muito tempo da vida deles e agora que ele estava morto, ela não queria esperar mais nada.


 


Gina e Harry, que se casaram na mesma época que eles, já tinham James. Gina, que antes jogava pelas Harpias de Hollyhead, desistira da promissora carreira de jogadora profissional, para construir uma família com Harry. O rapaz, aliás, fazia questão de deixar claro, que James era só o primeiro filho; sob os protestos de Gina, que dizia querer só dois filhos, pois não queria se ver uma cópia da mãe, com uma casa cheia de crianças. Gina agora trabalhava como correspondente no Profeta Diário e agora queria se dedicar ao único filho. Harry dizia querer pelo menos quatro, pois crescer só, não era bom e queria que James tivesse muitos irmãos para brincar e jogar quadribol. Como ela própria crescera como amigo, sendo filha única, também desejava não ter só um filho.


 


Ela riu. Se Ron parecia estar estranho só com a ideia de ela ter um filho, imaginava a reação dele com duas crianças ou mais para criar.


 


Então, ela decidiu. Falaria com Ron naquela noite, quando chegassem em casa.


 


E é claro, que as horas passaram lentas, uma após a outra. Ela olhava para o relógio a cada quinze minutos, e mesmo assim, parecia que os ponteiros mal haviam se mexido. Quando faltava meia hora para irem embora, um certo medo tomou conta dela e desejou que as horas não tivessem passado tão rápido.


 


E se Ron não quisesse ter filhos? Nem agora e nem daqui a alguns anos? Seria possível? Ele parecia feliz com a ideia na época em que se casaram. Teria desistido ao longo daqueles quatro anos de casamento?


 


O expediente acabou e ela se dirigiu até a sala que os aurores normalmente ocupavam, quando estavam no Ministério.


 


- Ron, vamos? - Perguntou ela quando pôs os olhos sobre o marido.


 


- Ah, não posso, vou ter que ficar. - Respondeu ele indo em direção a ela. - Os aurores vão fazer hora extra hoje. Vai ter uma reunião de última hora.


 


Reunião? De última hora?


 


Ela achou estranho, mas concordou com a cabeça. Harry comandava os aurores como nunca se vira antes no Ministério, o que era muito bom. Ele obviamente queria que eles estivessem preparados para qualquer emergência.


 


- Ok então. - Ela disse. Eles se beijaram. Um beijo demorado. Hermione não sentia vergonha de beijar Ron na frente das pessoas, deixava claro pra quem quisesse ver, que eles se amavam e muito.


 


- Te vejo em casa. - Disse Ron, sorrindo.


 


- Vê se não demora muito. - Ela disse, depois acenou para Harry e saiu, indo para o elevador.


 


Aproveitou que Harry e Ron ficariam até tarde na reunião e resolveu fazer uma visita a Gina. Ela precisava conversar com alguém. Aparatou em casa, trocou de roupa e resolveu ir via pó de Flu, pois não se podia aparatar diretamente na casa ou no quintal dos Potter, assim também como na casa dela. Primeiro ela resolveu avisar, pela lareira, que estava indo. Depois que Gina disse que ela poderia ir, e que estava mesmo precisando de uma companhia, Hermione entrou na lareira.


 


- Casa dos Potter! - Disse ela. Logo ela se viu rodando, até ver chamas verdes e notar que chegara ao seu destino.


A sala estava deserta. Ela ouviu choro de bebê.


 


- Gina? - Ela chamou saindo da lareira e olhando em volta. Limpou a fuligem que cobriam suas roupas.


 


- Aqui na cozinha. - Ela ouviu a cunhada falar.


 


Hermione atravessou a sala e entrou na cozinha. Gina que estava sentada em uma cadeira à mesa, fez um feitiço e a louça começou a se lavar sozinha, na pia. James estava sentado no cadeirão para refeição, na frente da mesa. A jovem mãe tentava dar a comida ao filho, que chorava alto.


 


- Oi Hermione! - Disse a ruiva ao vê-la. - Olha James, quem chegou! Sua madrinha.


 


O pequeno que estava com o rosto vermelho e molhado de lágrimas, virou-se para olhar para Hermione.


 


- Oi querido! - Falou Hermione se inclinando e beijando os cabelos do menino. Ele pareceu se acalmar um pouco, mas ainda chorava. - O que ele tem?


 


- Ele está irritado, não dormiu bem e mamãe disse que ele ficou assim o dia inteiro. - Falou Gina desistindo de alimentar o filho e tirou ele do cadeirão, aconchegando ele nos braços. O menino ficava com a avó, enquanto Harry e Gina trabalhavam. Ele colocou o dedão da mão na boca e agora quase não chorava. Hermione ocupou a cadeira ao lado de Gina. - Ou pode ser só falta do colinho da mamãe...


 


- Tadinho do meu afilhadinho. - Falou Hermione, acariciando o rosto do menino.


 


- Você disse que queria falar comigo. - Gina falou, enquanto ninava levemente James.


 


- Sim, disse.


 


Hermione fez uma pausa, estava um pouco receosa, e depois continuou.


 


- Você percebeu o jeito de Ron ontem na festa?


 


- Qual exatamente? O jeito como ele devorou o jantar ou quando devorou o bolo? - Gina fez piada.


 


Ela riu baixo, pois não queria assustar o bebê.


 


- O que aconteceu depois disso. - Falou.


 


- Se você esta falando da cara que ele fez, quando viu você com a Molly nos braços... quase não notei. - Disse Gina sorrindo. - Na verdade, acho que ninguém deixou de notar.


 


- Ele continuou assim por algum tempo... depois que chegamos em casa.


 


- Sei, conheço bem o jeito dele. - Disse a cunhada, revirando os olhos.


 


- Eu andei pensando e... eu acho... que ele... não quer ter filhos. - Disse Hermione receosa. Ela não tinha segredos com Gina, mas aquela história a estava incomodando. Principalmente pelo fato dela estar pensando em ser mãe.


 


- Você acha mesmo? - Perguntou Gina.


 


- Bom... é o que parece.


 


Ela fez uma pausa novamente.


 


- Ou talvez ele esteja com medo de ser pai...


 


- Você já falou sobre isso com ele? - Indagou Gina a encarando.


 


- Sobre o quê? Em ter medo?


 


- Não, em vocês terem filhos. - Gina disse.


 


- Quando casamos você sabe, ele falava de vez em quando, mas eu disse que tínhamos que esperar algum tempo, pois éramos recém casados e ainda não estávamos totalmente estabilizados no Ministério...


 


- Então... você está pensando em ter um bebê? - Perguntou Gina sorrindo.


 


- Bom, não estou totalmente decidida, mas estou pensando seriamente nisso. - Disse Hermione segurando uma das mãozinhas gorduchas de James. - Mas confesso que a expressão de Ron, me deixou intrigada.


 


- Mesmo sendo irmãos, Ron e eu nunca falamos muito sobre casar e em ter filhos. Acho que ele pensava que eu iria ficar na barra da saia da mamãe pra sempre. - Disse Gina sorrindo. Hermione riu, pois sabia que Gina, mesmo depois de crescida, era tratada como uma menininha, não só pelos pais, mas também pelos irmãos. - Mas, quando mais novo, o ouvi falando sobre isso, uma ou duas vezes.


 


- Isso não me conforta. - Falou triste. Ela já estava tão feliz com a ideia de ter um filho. - Uma coisa é o que ele queria, eu estou me preocupando no que ele quer agora.


 


- Vamos subir? Vou colocar James para dormir. - Disse Gina se levantando com o filho nos braços. O menino estava quase dormindo.


 


As duas subiram as escadas em silêncio até o quarto de James. A porta, que tinha uma pequena bandeira vermelha e amarela, com o nome "James" bordado, estava aberta e Gina já foi logo entrando e colocando o filho no berço. O móvel era de madeira, na cor natural e se encontrava encostado em uma das paredes. O colchão estava coberto por lençóis amarelos, com desenhos de pequenos leões. Um móbile de pequenos pomos de ouro estava preso na grade do berço. As paredes eram de um tom claro de amarelo e as cortinas, vermelhas. Muitos bichinhos de pelúcia, especialmente leões, encontravam-se nas prateleiras, que estavam em uma das paredes. Havia também uma cômoda e um grande armário, da mesma cor que o berço, na parede oposta. Um grande tapete vermelho cobria a maior parte do chão. Hermione já havia estado ali outras vezes. Ela mesma ajudara Harry na decoração, quando descobriram que era um menino, o primeiro filho dele e de Gina. A decoração do quartinho de James, fazia uma alusão clara a casa na qual toda a família Weasley frequentara em Hogwarts.


 


Hermione ficou em silêncio, observando Gina, fazendo o pequeno James dormir. Ela se imaginou fazendo o mesmo, mas no berço, ela via um bebê ruivo. Imaginar que Ron não quisesse ter filhos, a deixou triste e confusa. Eles se amavam, estavam casados, tinham bons empregos no Ministério e uma casa grande. O que os impediria de terem uma criança? Depois de tantos sofrimentos, eles não poderiam ter alguém que trouxesse mais felicidade para suas vidas?


 


Depois que o menino adormeceu, as duas foram conversar no quarto do casal. Sentaram-se na beirada da cama.


 


- Eu vou te dar um conselho, que é bem óbvio, a meu ver. - Disse Gina retomando a conversa. - Fale com ele.


 


- Eu sei. - Disse Hermione triste. - Vou falar.


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(N/A):

Ai está o capítulo 2 como o prometido.

Quero agradecer os comentários! Victoria Black Potter, Gabriele Lima, Sociedade Sul, Kary e Jessi, obrigada pelo apoio! Espero que gostem desse capítulo também.

Capítulo 3 em alguns dias!!! 

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Comentários (2)

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