O Meio



Os olhos de Carl Black tentaram inutilmente vencer a escuridão pesada de seu próprio quarto quando fora buscado violentamente de seus sonhos. Ainda no limiar da consciência quando a gente não sabe o que é sonho e o que é realidade, Carl revirou os olhos pelo quarto tentando se lembrar do que o acordara tão repentinamente. Segundos depois se deu conta do que fora, uma vibração embaixo do seu travesseiro informou que o seu celular estava tocando. Carl levou a mão ao celular e o atendera com a voz pastosa de sono, tentando imaginar quem poderia ser àquela hora da madrugada.


            –Alô...?


            –...


            –Alô?? – perguntou Carl, um pouco mais alerta. Já considerando a idéia de trote.


            –Te acordei, anjo da guarda?


            A voz debochada saiu do telefone. De repente, Carl Black ficou completamente acordado.


            –Quem está falando?


            –Ah... Anjo da Guarda... já falei para deixar de ser besta... você sabe muito bem quem é...


            Carl Black parou um momento para respirar. Se sentou na beirada da cama. Para tentar colocar os pensamentos em ordem.


            –Impossível... eu o matei.


            –Ah...com certeza matou – a voz debochada de Zito, respondeu – mas se engana se pensa que pode me deter... eu vou ainda pegar aquela vagabundinha, e dessa vez, você não vai poder me deter!


            –Tuu... Tuu... Tuu...


            Carl ficou uns minutos ouvindo o som da ligação cortada sem acreditar no que estava acontecendo. Considerando seriamente a hipótese de que continuava dormindo e que aquilo tudo era um sonho, ele começou a apertar febrilmente as teclas do celular para ver o número da chamada discada.


            O número estava bloqueado.


 


***


 


            –Carl... Carl, está me ouvindo?!


            A voz de Amélia veio de muito longe até o encontro dele. Carl finalmente se deu conta de que ela estava tentando falar com ele já fazia alguns minutos.


            –Ah... é óbvio – respondeu o policial, tentando organizar os pensamentos.


            –Ah é?... – falou Amélia, com um olhar furioso – então o que foi que eu disse por último?


            –Uh.... – Carl parou, forçando os neurônios violentamente para tentar se lembrar – é sobre os relatórios de armas ilegais do Walker?


            O olhar de raiva que Amélia lançou a ele logo se tornou suficiente para ele saber que não tinha nada haver com o relatório do Walker...


            Ela tomou o último gole de seu café e com um suspiro de fúria se levantou e se encaminhou até a janela por onde entrava o sol da tarde. Era o dia após a morte de Zito, e os dois estavam na Delegacia no momento de plantão. Esperavam o sol se pôr para mais uma ronda noturna na cidade de Los Angeles, dando prosseguimento a rotina que já levavam a mais de um ano.


            –Escute, Carl... – a voz dela soou mais controlada – eu sei que matar uma pessoa não é fácil, mesmo essa pessoa sendo um criminoso... mas, você tem que superar isso. Se é ainda cedo então vá ao Comissário Johnsson! Peça uma licença! Tenho certeza que ele iria compreender melhor que qualquer outro policial!....


            Levou algum tempo para Carl entender o sentido das palavras que ecoavam pela pequenina sala que pertencia aos dois.


            –O que?! Não... isso não tem nada haver... Não é bem isso, ok!


            –Não? – Amélia soltou um riso de descrença e se virou para encara-lo – é o que então, Black?


            Carl hesitou alguns segundos, considerando a hipótese.


            –Amélia... você confia em mim? Confia realmente em mim?


            A expressão no rosto dela se alterou. Ela percebeu a seriedade e a gravidade incomum na voz do parceiro.


            –É claro, Carl... o que está havendo? Aconteceu alguma coisa?


            Ele respirou fundo. Então num movimento brusco, se levantou rapidamente e fechou a porta de vidro do pequeno gabinete deles. Esperou alguns segundos, e se dirigiu para Amélia.


            –Amélia... você... você acredita em... – ele respirou fundo, considerando a total falta de conexões do que iria falar – você acredita em vida após a morte?


            Ela ficou olhando para ele, confusa... “De que raios ele estava falando?”.


            –Como assim... vida após a... ta falando de... reencarnação?


            –Não exatamente!


            –Então... o que?!


            –Eu também não sei! – falou Black... quase alterado. Ele baixou o tom de voz. – Escute... ontem a noite, logo após você trazer aquela garota para a delegacia...


            –Scarlett...


            –Que seje! Segundos depois de vocês saírem... eu recebi uma ligação – falou, mostrando o celular para ela.


            –E daí? – ela perguntou.


            –Uma ligação... do homem que eu havia acabado de matar!


            Ele esperou alguns segundos, esperando pela reação dela.


            –Por favor, Carl... isso não é momento para piadas...


            –Não é uma piada! Era a voz dele! Eu ouvi! Me chamou de Anjo da Guarda! Do mesmo jeito que ele me chamara antes de eu disparar a arma! E estava ameaçando a moça!


            Amélia respirou fundo. Tentando ser racional.


            –Carl, eu sei que tirar uma vida pode ser chocante nas primeiras horas. Não duvidaria que uma pessoa mais fraca tivesse alguns delírios...


            –Eu não sou fraco!!!!! Você me conhece!!!!! E eu não estava tendo delírios!!!! Eu sei o que ouvi!!!!!


            –Ok! – admitiu ela. Um pouco para tentar faze-lo parar de gritar. – ele podia ter um cúmplice, alguém que estava no beco e fez a ligação meio que para te deixar apavorado.


            –Como que um cúmplice dele teria meu número? – ele perguntou, exasperado. – E você veio pelo lado do beco... havia mais alguém lá?


            –Bom... – ela parou – não, mas... – ela não tinha outros argumentos, e não queria mais mencionar a possibilidade da imaginação dele ter criado tudo.


            –Espera... eu não terminei ainda – falou Carl... – nessa última madrugada... eu recebi outra ligação... me acordou... também dele... a mesma coisa...


            –Pode ter sido um sonho.


            –Não foi um sonho, eu sei a diferença entre sonho e realidade – falou Black – eu nem sequer consegui dormir depois daquilo.


            –Então o que você sugere, Carl? Que ele não estava bem morto? – ela perguntou, não conseguindo dominar o tom de deboche na voz dela.


            –Eu não sei... eu não sei de mais nada... essa é a questão!


            Ele se sentou de volta em sua cadeira, e pôs as duas mãos na cabeça. Por mais cética que Amélia fosse, não pode deixar de sentir compaixão por ele.


            –Escute, Carl... isso tudo tem de ter uma explicação lógica... ele ligou para o seu celular não foi? Qual o número que apareceu?


            Carl deu uma risada histérica.


            –Olhe você mesmo – falou, passando o celular para ela – bloqueadas. As duas chamadas.


            Amélia olhou. De fato, haviam duas chamadas com o número bloqueado e uma era quase na mesma hora do momento em que haviam atendido aquela ocorrência.


            –Certo! Se vamos levar em conta o que você está falando...


            –Eu não sou um mentiroso!


            –...então devemos investigar racionalmente, tem de haver uma explicação! Vamos, levante-se! – ela falou, enquanto pegava a chave da viatura deles.


            –Onde vamos? – perguntou.


            –A Perícia! Vamos ver o corpo de Zito, apenas para nos certificar se ele está bem matado!


            –E como vamos entrar lá sem um mandado?


            Ela hesitou.


            –O legista é meu... primo!


            Os dois estavam saindo da sala quando Carl estacou.


            –Espere um momentinho...


            Ele seguiu por um corredor lateral e seguiu até o setor de Inteligência. O setor de inteligência da delegacia era uma sala menor e contrastava enormemente com o resto do prédio. Era um cômodo apertado e cheio de máquinas e computadores que deixariam o local uma sauna se não fossem pelos tubos de ventilação e os vários ar condicionados. O policial que trabalhava naquele setor era um velho conhecido de Carl...


            –Ei, Gabriel...


            –Salve, Black! – falou o louro Gabriel, erguendo os olhos de uma tela de computador – e aí, quando vai sair aquele joguinho?


            Carl forçou um sorriso despreocupado.


            –Logo, Gabriel, logo... escute... você poderia me fazer um favor?


            –Mas claro – falou Gabriel – é para isso que eu trabalho não é?


            –Na verdade – Carl pigarreou – é um favor um tanto particular.


            –Que tipo de favor? – Gabriel enrugou a testa. Carl Black era bastante íntegro e jamais usaria os confortos que sua profissão possibilitava para algo que fosse apenas pessoal. Já havia recebido pedido de vários outros, e atendera, mas nunca de Carl. Gabriel tinha uma visão um pouco diferente, era um verdadeiro ninja de computação e achava um desperdício toda aquela aparelhagem ser usada para um único fim em vez de ampliar seus objetivos.


            Carl retirou seu telefone celular do bolso, e entregou ao colega.


            –Eu recebi duas chamadas bloqueadas essa noite – ele falou – eu gostaria que você rastreasse e me dissesse o número, e o nome da pessoa a quem o telefone pertence. Isso seria possível?


            –Com a programação certa – falou Gabriel, descontraído – alguma garota em que você deu o fora está te atormentando?


            –Seria bom se fosse apenas isso – falou Carl, num tom sombrio – bom, vejo você depois!


            –Até... – respondeu Gabriel quando ele se virou para ir e saía do Setor de Inteligência.


           


***


 


            –Eu mesmo tirei a bala, hoje de manhã! – o homem sorriu para eles – um belo tiro, por centímetros não atingiu o cérebro.


            Carl olhou para Amélia.


            –Então ele não morreu na hora?


            –Ah... morreu sim, com certeza. – o primo de Amélia respondeu enquanto eles andavam pelo corredor gelado do necrotério, as lâmpadas se acendendo automaticamente enquanto passavam. Carl tentava não olhar para as várias gavetas ao redor dele – a bala não atingiu o cérebro mas teve velocidade suficiente para quebrar o pescoço dele e esmigalhar alguns ossos da coluna. Com certeza a morte dele foi instantânea...


            –Me sinto tão bem quando você conta os detalhes, Bruce! – Amélia falou. Bruce deu uma gargalhada.


            –A maioria das pessoas acha um trabalho estranho – falou, dando uma piscadela para Carl. – mas a gente acaba se acostumando.


            O primo de Amélia, Bruce Warrington, não tinha muito haver com ela. Era gordo e tinha uma barba cerrada e a pele bem mais bronzeada. E, claro, um humor bem melhor que o dela apesar de sua profissão tão fúnebre.


            –Bom, aqui estamos! – falou Bruce quando eles pararam em frente a gaveta de número 23 – e eis o seu amiguinho – ele completou quando puxou a gaveta. O corpo nu de Zito apareceu diante deles ao mesmo tempo que o gelo sublimado se erguia e eles sentiam o cheiro de alguns conservantes.


            –Muito bem – falou Amélia, tentando evitar olhar para as partes mais íntimas do cadáver. – Bruce, poderia nos deixar sozinha com ele um momento?


            –Certo – falou Bruce, um tanto intrigado, mas parecendo se divertir – Vocês querem conversar a sós com ele?


            –Se a gente conseguir – sussurrou Amélia para que o primo não ouvisse. Bruce se virou e estava saindo pela mesma direção pela qual vieram, quando ouviram o som se fechando atrás deles, ela virou-se para Carl. – muito bem, aqui está o seu amigo! Ele parece bem saudável... se não fosse por um pequeno problema... ele está morto, Carl!


            Ele fuzilou ela com os olhos, mas não teve com o que retrucar. O corpo de Zito estava bem diante deles, exatamente como ele se lembrava, mas visivelmente morto. Mas Carl também não podia aceitar a idéia de que tudo fosse apenas invenção de sua cabeça... isso era impossível, sempre fora mentalmente são. Era Zito no telefone, tinha certeza disso!


            –Por que você está me assombrando? O que você quer? – demorou alguns segundos até perceber que pronunciara esses pensamentos em voz alta. Amélia olhava para ele, uma expressão de medo podia ser lida em seus olhos.


            –Carl... ele é um cadáver... ele não vai te responder – ela tentou se firmar nas suas palavras apesar do medo que sentira ao vê-lo falar com Zito como se estivesse louco. Tentou dar convicção as suas palavras tentando forçá-lo a voltar a realidade – ele não pode te responder! Quanto mais ligar para você...


            Carl ia responder que sabia disso quando algo na voz dela a interrompeu. Amélia levou a mão ao bolso e pegou o celular que vibrava em sua mão. Carl sentiu o estômago paralisar quando viu ela atendendo automaticamente o telefone, sem se preocupar em olhar para o identificador de chamadas.


            –Alô?


            Carl estava petrificado... olhava para Amélia com ansiedade... agora ela saberia... agora ela veria que não estava louco.


            –Alô?


            A expressão dela estava confusa, Carl apurou os ouvidos tentando escutar algum ruído do aparelho. Mas não conseguia ouvir nada.


            –Alô??? – ela perguntou um tanto impaciente – está mudo!


            Carl ergueu a mão. Sabia que era para ele.


            –Deixe eu tentar...


            Ela passou o telefone ainda aberto para ele. Ele o colocou junto ao ouvido.


            –Alô? Sou eu...


            Um murmúrio de risadas no fundo.


            –Eu estou aqui. O que você quer? – falou Carl, olhando diretamente para o rosto sem vida. Dono da voz que ele sabia que estava do outro lado do telefone.


            –É... eu sei que você está aqui! – a voz de Zito soou do outro lado da linha, como ele esperava – você perguntou o que eu queria... eu quero me vingar de você e daquela vagabundinha que me mandaram pra cá! Acharam que poderiam fazer isso sem arcar com as conseqüências? – ele riu.


            –Você está morto!


            –Acredito que sim, mas não serei o único não, Anjo da Guarda!


            –Do que você está falando?


            –Aquela vagabundinha ainda ta me devendo... só que agora a dívida é maior! Ainda hoje, eu vou cortar a garganta dela de ponta a ponta. E você não poderá fazer nada para impedir!!! – ele gargalhou do outro lado da linha.


            –Isso é um blefe, não há como você...


            –Tuu... Tuu... Tuu..


            Zito, onde quer que estivesse, havia desligado.


 


***


 


A viatura policial voava pelas avenidas de Los Angeles ao por do sol, enquanto Carl Black pisava fundo no acelerador.


            –Pelo amor de Deus, somos a própria polícia! – falou Amélia, vendo que ele já havia ultrapassado a muito o limite de velocidade.


            –Temos que impedi-lo, Amélia! Ele vai tentar mata-la novamente.


            –Carl, vê se entende uma coisa... ELE JÁ ESTÁ MORTO!


            –Ele falou comigo pelo seu celular Amélia – Carl, continuou falando ignorando a explosão da companheira – ele disse que iria cortar a sua garganta de ponta a ponta ainda essa noite!


            Amélia se recostou no banco, desistindo. Era inútil discutir com ele. Teve que se segurar com toda a força quando ele dobrou na rua Charlie Sheen.


            –Foi você que levou ela até a sua casa, ontem – falou Carl, começando desacelerar agora – qual é o número?


            –É um pouco mais a frente – respondeu Amélia, ainda aborrecida – e o que você vai falar pra ela? “Desculpe moça, mas desconfiamos que um espírito  esteja querendo te matar! Você poderia ligar para os Caça-Fantasmas para eles lhe oferecerem proteção?”


            –Não é uma má idéia – resmungou Carl, retrucando. Amélia bufou.


            –É aqui! – ela falou.


            Carl freou e olhou pela janela. Era uma espécie de pensão para moças. Carl Black podia muito bem imaginar as moças que viviam ali. A rua Charlie Sheen não era realmente uma das mais bem freqüentadas da cidade. Carl abriu a porta, mas antes que pusesse um pé na rua, notou que Amélia nem tinha se mexido no banco.


            –Você não vem?


            –Acho que você está lidando muito bem com a situação sozinho – ela respondeu. Carl percebera que ela havia decidido não se envolver mais com aquela historia.


            –Você que sabe – respondeu Carl.


            Ele saiu da viatura e se encaminhou para a pensão. A velhinha que estava na recepção se assustou ao ver aquele homenzarrão fardado entrando pela pequena salinha.


            –Boa noite... Eu gostaria de uma informação... É aqui que mora uma jovem chamada Scarlett... eu não sei o sobrenome dela...


            –Sim... ela mora aqui sim... algum problema? – perguntou a idosa, depois de ter passado o susto de vê-lo. Aquela farda a intimidava.


            –Não... nenhum... apenas... minha corporação salvou ela de um... de um delinqüente a noite passada... eu só vim me certificar de que está tudo bem com ela.


            –Oh sim... – falou a velhinha mudando completamente o seu jeito – eu fiquei sabendo... foi muita sorte vocês terem chegado lá bem na hora!... Bom... em geral eu telefono para os quartos para avisar sobre as visitas, mas nosso telefone está quebrado... então eu acho que não teria problema se o senhor quisesse ir diretamente até o apartamento dela! – ela falou sorrindo – é só subir as escadas. É o quarto 18!


            Carl agradeceu, e se dirigiu as escadas. Subiu os lances dos degraus com um pouco de pressa e seguiu pelo corredor diretamente até o número 18... não havia campainha. Ele bateu na porta.


            Alguns minutos depois, Scarlett atendeu. Ela ficou tão surpresa ao ver o homem parado à sua porta que congelou um momento. O suficiente para Carl perceber que seus cabelos ruivos estavam molhados e caíam pelo ombro, sinal de quem acabara de sair do chuveiro. Usava um robe da cor rosa... e mais nada.


            –Sargento...eu... – ela pareceu desconcertada – boa noite, aconteceu alguma coisa?


            –Não, exatamente – Carl respondera, também um pouco desconcertado. Não podia deixar de notar o quanto Scarlett era linda... e sexy. – eu poderia... entrar para conversarmos.


            –Ah... claro – respondeu Scarlett, abrindo o resto da porta para que ele pudesse passar – desculpe atende-lo nesses trajes, pensei que fosse Perlla... sabe a dona da pensão...


            –Por favor, sinta-se a vontade – falou Carl, Scarlett sorriu de uma forma insinuante. Era realmente uma mulher muito linda.


            –Então, sargento – perguntou ela sem rodeios – o que o senhor gostaria mesmo?


            Ele respirou fundo. Era mais difícil do que ele imaginava que fosse.


            –É sobre... a noite passada...


            O sorriso dela se anuviou. Obviamente ela estava exausta e queria esquecer daquela noite o mais rápido que pudesse.


            –Eu sei que pode ser tortuoso pra você ainda falar nisso – falou Carl – eu só preciso dizer... achamos que você ainda está correndo perigo!


            Ela parou... olhando para ele.


            –Como assim... perigo?


            –Você sabe se, Zito tinha algum parceiro.. cúmplice?


            Ela se permitiu um sorriso.


            –Zito? Não ele não confiava em ninguém além dele próprio. Ele não tinha parceiros. Por quê?


            –Bom...temos recebido alguns telefonemas – ele cuidou para manter a frase no plural – ameaçando você!


            –Sei... – ela falou – e vocês pensam que seria algum parceiro de Zito querendo retaliação, não é? Mas... se as ameaças são para mim... eu não entendo porque a polícia é que recebe as ligações...


            –Na verdade... – começou Carl, estava prestes a embrenhar na parte mais esquisita. – sou eu que recebo as ligações.


            Scarlett ingeriu essa informação.


            –Porque o senhor então disse “nós”?


            –Eu não queria te assustar... têm muitas coisas estranhas acontecendo!


            –Estranhas tipo, o que?


            Carl respirou fundo.


            –É o próprio Zito que está me ligando.


            O silêncio entre os dois agora havia se tornado sólido. Carl não conseguira olhar fixamente para Scarlett, começou a examinar o seu pequeno apartamento. Era de madeira e um tanto desarrumado, era um misto de quarto/casa/cozinha, um corredor a sua direita levava a um banheiro. Uma grande janela a frente dele mostrava a rua com os carros passando lá embaixo e as nuvens tingidas de rosa pelo crepúsculo no céu. Depois de uns dois minutos, ela quebrou o silêncio.


            –Zito está morto... o senhor o matou. – ela falou aquelas palavras pausadamente, como se duvidasse da sanidade do homem a sua frente.


            –Eu sei que parece loucura, mas você precisa acreditar em mim – falou Carl, as palavras jorrando de sua boca antes que pudesse conte-las. – ele ligou para mim... três vezes já... ele quer matar você... hoje! Na primeira oportunidade!


            –Ele quer me matar...espere ai... ele está morto! Eu vi o corpo! Eu vi o sangue!


            –Eu sei... eu também não entendo... mas você precisa acreditar em mim!


            Scarlett olhava para ele com os olhos arregalados. Uma expressão de dúvida e incredulidade no rosto. Por fim, decidiu-se.


            –Pois bem... o senhor queria me avisar... então... estou avisada!


            –Por favor, compreenda...


            –Se o senhor não se importasse, eu gostaria que o senhor se retirasse agora. Eu tenho uma longa noite pela frente e acredito que o senhor também.


            –Espere...você precisa acreditar em mim... – Carl balbuciou, mas ela já fora até a porta e a abrira para ele.


            –Muito obrigado realmente por ter salvado a minha vida ontem, sargento. Mas eu realmente acho que estou segura agora. Boa Noite.


            Palavras desconexas ainda eram mastigadas na boca de Carl, mas ele percebera que aquele era o ponto final. Ela não era das mais maleáveis. Ele se dirigiu a porta e antes mesmo que se voltasse para dizer um “boa noite”, a porta já se fechava atrás dele.


 


***


            –Alguma idéia nova, Exorcista? – perguntou Amélia cinco minutos depois quando estavam rodando na viatura novamente. Carl ignorou a alfinetada.


            –Não iremos sair das redondezas essa noite. Qualquer problema ou coisa estranha que apareça vamos parar para investigar.


            –Ótimo – falou ela com fingida animação – pelo menos podemos ir até o Screws, é a três quadras daqui. E eu estou bem precisando de umas rosquinhas.


            Carl continuou em silêncio pelo curto trajeto até o Screws. Parou no estacionamento, na vaga de costume e Amélia desceu para pegar seu suprimento diário de rosquinhas. Deixando Carl sozinho com seus pensamentos. Literalmente. Ele fechou os olhos. Uma dor palpitante crescendo em sua cabeça.


            O que poderia estar acontecendo? O que era aquilo? Sabia que era uma loucura, entretanto...


            Nunca acreditara muito em vida após a morte. Nunca fora religioso. Nunca tivera tempo para aquilo. Não acreditava em forças sobrenaturais ou coisas do tipo. Não até aquele momento.


            Seria Zito, um humano? Não seria ele algo mais? Ou será que sua alma apenas ficara presa em algum plano intermediário sem poder ir ou voltar? Ou será que a comunicação entre vivos e mortos fosse bem mais fácil do que até agora foi provado?


E se a alma dele está em outro plano... como ele seria capaz de causar mal a Scarllet?


            Ele abriu os olhos e respirou fundo. Viu que Amélia havia deixado o seu celular encima do porta-luvas. Pegou-o quase sem querer e o abriu. A tela se iluminou por alguns segundos e Carl passou os dedos rápidos pelos botões indo até as chamadas recebidas... mas já sabia o que encontraria.


            Lá estava, como uma maldição constante.


            Número Não Identificado.


            Carl fechou o celular com um pouco de raiva. E deixou-o onde colocara. Cinco segundos depois Amélia sentava-se ao seu lado no banco. O pacote pardo de rosquinhas ençucaradas bem fechado em sua mão.


            –Mais calmo? – ela perguntou.


            –Não – respondeu ele mal-humorado. Enquanto dava a partida e o carro voltava para o trânsito. Quase inconscientemente, ele voltava aos pouquinhos em direção da rua de Scarlett. Amélia fingiu não notar.


            O rádio da viatura estava chiando com seu ruído tradicional, com um pouco de estática. Os dois já estavam acostumados com aquele ruído em suas longas noites pelas ruas de Los Angeles. Por isso, ambos ficaram atentos quando o som foi rapidamente interrompido como alguém que é retirado de dentro da água rápido demais. Uma voz feminina saía do rádio.


            –Atenção viaturas no perímetro North Spring. Corpo de garota aparentando ter entre 20 a 30 anos foi encontrado em sua residência na rua Charlie Sheen 38; Verificar informação, por favor!


            Carl sentiu uma bola no estômago. Até os dedos de Amélia congelaram dentro do pacote de rosquinhas. Carl pegou o rádio e disse num fôlego só.


            –Entendido, Viatura 3215 a caminho.


            E com um giro fenomenal no volante. Dobrou a esquina e desceu a rua quase voando. Amélia teve que se segurar mais uma vez, tal a velocidade com corria pela rua agora. O coração de ambos disparava. O pensamento de Carl estava a mil!


            “Não podia ser! Não podia! Não estivera fora nem quinze minutos!”


            Ele parou a viatura de qualquer jeito na frente da pensão que acabara de deixar e saiu do carro correndo as pressas. Entrou na recepção e subiu correndo a escadas sem parar para notar que a velha Perlla não estava em seu lugar. Passou voando pelo corredor que havia acabado de deixar. A porta do quarto dela estava aberta. Ele entrou no quarto correndo. Havia algumas colegas de pensão ali que choravam profusamente e a velha Perlla que olhava atônita para o chão e voltou os olhos confusos quando viu que o policial voltara. O próprio Carl quase chorou quando viu.


            Scarlett que até vinte minutos atrás estava conversando com ele estava agora estirada no chão de seu pequeno apartamento. Seu cabelo ruivo se confundia com o sangue que empapava o chão. Ainda estava usando aquele robe cor de rosa, a leve curvatura do seio a mostra.


            –Ó Meu Deus!


            Carl não notara que Amélia havia acabado de chegar atrás dele. Olhou para ela, mas ela não olhava para ele, apontava para algo em Scarlett. Logo ele percebeu para o que ela apontava.


            Havia um longo corte na garganta da moça. Um corte que ia de ponta a ponta de seu pescoço.         


           








CONTINUA

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